Observatório dos Agrotóxicos: governo Lula libera registro de mais 27 agrotóxicos

Em mais uma rodada de liberação de venenos agrícolas, o governo Lula fez publicar hoje (02/10) o ATO Nº 46, DE 29 DE SETEMBRO DE 2025 em que são concedidos os registros de 27 agrotóxicos do tipo “Produto Técnico” (PT).   Na prática, PTs são a forma concentrada das quais são comercializados os chamados “produtos formulados” que são aqueels que acabam sendo utilizados em suas diversas formas, seja nas áreas rurais ou nas urbanas.

Na prática, ao analisar de forma geral os produtos liberados é possível verificar o que sempre ocorre na publicação desses atos pelo Ministério da Agricultura: predominância de empresas chinesas (23 dos 27 agrotóxicos liberados são oriundos da China) e de agrotóxicos já existentes no mercado brasileira.

Como sempre aponto nas postagens feitas para marcar a liberação de novos/velhos agrotóxicos no mercado brasileiro é que se mantém firme a marcha do veneno, enquanto programas de monitoramento de alimentos e águas consumidos pelos brasileiros estão, para fins práticos, congelados pelo governo Lula.  Com isso, há um descompasso claro entre o aumento da exposição (direta e indireta) a substâncias altamente tóxicas e o controle dos seus efeitos sobre o ambiente e a saúde humana. Contraditoriamente, isso ocorre em um contexto em que a disponibilidade a serviços de saúde públcia está sendo dificultada pelos cortes orçamentários feitos pelo governo Lula.

Não é difícil entender quem é que ganha e quem perde com essa enxurrrada de venenos agrícolas. De um lado as empresas fabricantes e latifundiários e, de outro, os trabalhadores brasileiros.

Treze colhedores de café são resgatados de trabalho escravo em Santo Antônio da Alegria (SP)

Operação conjunta do MPT e MTE garantiu o pagamento de direitos trabalhistas e o retorno das vítimas para seu estado de origem

Local onde os trabalhadores foram resgatados em condições análogas à escravidão em Santo Antônio da Alegria, um deles menor de idade

Ribeirão Preto

Uma operação realizada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) resultou no resgate de 13 trabalhadores de condições análogas à escravidão em Santo Antônio da Alegria (SP), dentre eles, um adolescente de 15 anos; a força-tarefa contou com o apoio da Polícia Militar (PM).

Em depoimentos, os trabalhadores, que foram contratados para a colheita de café, disseram que não recebiam equipamento de proteção individual para o trabalho e que compravam com recursos próprios as botas que vestiam, assim como as luvas. Eles mesmos levavam a refeição e a água para consumo e, segundo os depoentes, muitas vezes, a comida azedava, pois não tinham onde armazená-la até a hora do almoço. Eles eram expostos ao risco de ataques de animais peçonhentos, como cobras.

O veículo que transportava os trabalhadores não possuía tacógrafo e o motorista não era habilitado para dirigir ônibus de passageiros. O empregador foi multado pela Polícia Militar.

Além disso, não havia instalação sanitária na frente de trabalho, sendo que os trabalhadores faziam suas necessidades no meio do cafezal; todos trabalhavam sem registro em carteira de trabalho. O salário era pago por produção e, eventualmente, por diária. De acordo com os colhedores, o turmeiro pagava abaixo do piso oferecido por outros empregadores.

O turmeiro foi autuado por embaraço à fiscalização, uma vez que não queria levar a equipe fiscal até a propriedade rural, alegando que os trabalhadores não queriam trabalhar naquele dia. Os colhedores disseram que o turmeiro os instruiu a mentir para as autoridades, citando também que ele era um homem raivoso e ameaçador.

Segundo as vítimas, que vieram da região Nordeste do país, o turmeiro as humilhava e se negava a negociar a remuneração por produção, pagando o valor que queria aos trabalhadores, sem sequer informar o preço da unidade de medida referência para o cálculo da produção diária.

O alojamento dos trabalhadores não possuía cama ou armários, com buracos no telhado onde entrava água da chuva, com paredes mofadas, tudo diferente do que foi prometido pelo turmeiro. Não havia geladeira ou fogão.

Um casal de colhedores declarou que a precariedade da edificação os levou a buscar outro imóvel na cidade e que, naquele imóvel, passaram a residir outras pessoas que também prestam serviços em fazendas de café por intermédio do mesmo turmeiro. Eles afirmaram que as condições de trabalho e os custos na cidade não lhes permitiram economizar recursos financeiros para o retorno à sua cidade de origem, não tendo conseguido economizar dinheiro nem para a passagem de ônibus.

Os auditores fiscais resgataram os 13 colhedores, que foram beneficiários de seguro-desemprego. O MPT celebrou termo de ajuste de conduta (TAC) com o empregador, que se comprometeu a pagar as verbas rescisórias e uma indenização individual para cada trabalhador. Além disso, o TAC prevê o custeio da viagem de retorno dos trabalhadores ao seu estado de origem, incluindo passagens e alimentação.

Os trabalhadores já embarcaram de volta para suas casas. O empregador está sendo investigado pelo MPT e pode ser processado na Justiça do Trabalho. Os autos serão remetidos para a Polícia Federal e para o Ministério Público Federal, a fim de verificar a conduta criminal do investigado.

A floresta amazônica: desmatamento e degradação florestal criam o ambiente propício para a próxima pandemia

Por Monica Piccinini para “The Canary” 

Em todo o mundo, as doenças zoonóticas e transmitidas por vetores (ZVBDs) , doenças que passam de animais para humanos, seja por contato direto ou por meio de vetores como mosquitos, aumentaram significativamente nas últimas décadas, ceifando milhões de vidas a cada ano. Agora, o foco está na floresta amazônica.

Floresta Amazônica: doenças infecciosas aumentam

Estima-se que 75% de todas as novas doenças infecciosas emergentes, juntamente com mais de 60% de todos os patógenos humanos, são transmitidos por animais.

As doenças transmitidas por mosquitos, por si só, colocam mais de 80% da população mundial em risco . Sua disseminação ameaça não apenas a saúde pública, mas também a economia mundial.

Mesmo antes do coronavírus paralisar as economias e lotar os hospitais, doenças infecciosas emergentes custavam ao mundo mais de US$ 1 trilhão por ano. A pandemia tornou esses custos dolorosamente visíveis, mas não criou o problema, apenas o expôs.

Desde 2003, surtos e pandemias tiraram mais de 15 milhões de vidas e drenaram aproximadamente US$ 4 trilhões da economia global.

Um estudo publicado na One Earth , revista de sustentabilidade da Cell Press , alerta que esta crise não é acidental. O desmatamento, a crise climática e a degradação ambiental estão criando a tempestade perfeita para que patógenos prosperem e se espalhem.

A autora principal do estudo, Raquel L. Carvalho, alerta para os riscos na Europa associados às doenças transmitidas por vetores:

A Europa está se tornando cada vez mais um ambiente favorável para doenças transmitidas por mosquitos, já que verões prolongados, temperaturas elevadas e chuvas mais intensas criam condições nas quais as populações de mosquitos podem se estabelecer e se espalhar em regiões onde antes não conseguiam sobreviver.

Desmatamento impulsiona o surgimento da próxima pandemia

Desde a década de 1940, mudanças na forma como os humanos usam a terra, derrubando florestas, expandindo o agronegócio e avançando para áreas selvagens, foram associadas a mais de um terço de todas as novas doenças infecciosas.

A crise climática está criando condições propícias à proliferação de mosquitos, carrapatos e patógenos. O aumento das temperaturas prolonga a temporada de reprodução dos mosquitos e permite que insetos transmissores de doenças se espalhem para locais onde antes os invernos os mantinham afastados.

Enquanto isso, o desmatamento e as mudanças no uso da terra aproximam os humanos dos animais selvagens, aumentando as chances de um evento de contágio. A pobreza e os sistemas de saúde precários aumentam o perigo, transformando a exposição em tragédia.

De acordo com um estudo publicado no International Journal of Emergency Medicine, as mudanças climáticas também estão interrompendo a produção e o fornecimento de alimentos, criando condições que permitem que micróbios e toxinas nocivos prosperem, enquanto condições climáticas extremas e temperaturas em elevação aumentam o risco de doenças transmitidas por alimentos, como Salmonella e E. coli.

Doenças, vírus, bactérias: fora de controle

Recentemente, temos visto um aumento acentuado na disseminação de doenças causadas por parasitas, vírus e bactérias, incluindo dengue , zika , chikungunya , oropouche , malária , febre maculosa , entre outras.

A disseminação da febre do oropouche, transmitida pelo pequeno mosquito culicoides paraensis , popularmente chamado de maruim, é outro sinal alarmante.

De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em 2025, 12.786 casos confirmados de oropouche foram notificados na região das Américas, incluindo mais de 11.888 casos no Brasil.

No Brasil, os surtos de oropouche se originaram na região da AMACRO (um ponto crítico de desmatamento que recebeu o nome dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia) e já se espalharam pelo país até o estado do Espírito Santo, com 6.322 casos registrados em 2025, e pelo mundo.

A floresta amazônica é considerada um dos maiores reservatórios de doenças zoonóticas do mundo. Muitos cientistas têm alertado repetidamente que as perturbações ambientais estão impulsionando o aumento de doenças infecciosas e destacado o risco iminente de um patógeno letal originário da região.

Joel Henrique Ellwanger, biólogo e pesquisador do departamento de genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), disse:

As mudanças climáticas desencadearão importantes mudanças ecológicas na Amazônia, muitas delas com potencial para reduzir sua biodiversidade, facilitando a disseminação de vetores de doenças conhecidos e aumentando as chances de surgimento de novas doenças.

Colocando comunidades em risco

Um estudo conduzido por Raquel L. Carvalho, professora da Universidade de São Paulo (USP), e sua equipe, analisou 312 artigos que abordaram 39 doenças diferentes em 79 países. Grande parte desse trabalho se concentra nos patógenos em si ou nos insetos e animais que os transmitem. Em contraste, muito menos estudos consideram quem está exposto ou por que alguns grupos são mais vulneráveis ​​após a exposição.

Carvalho destacou lacunas na pesquisa existente:

Apenas 7,4% dos estudos analisaram o panorama completo: risco, exposição e vulnerabilidade. Estudar onde os mosquitos vivem pode indicar o perigo potencial, mas não revela quem corre maior risco ou por que certas comunidades têm maior probabilidade de adoecer.

Doenças como dengue, vírus do Nilo Ocidental e leptospirose prosperam não apenas porque mosquitos e roedores são abundantes, mas também porque as pessoas vivem em moradias precárias, sem saneamento adequado, ou porque as mudanças climáticas levam os mosquitos para novas regiões.

Se esses fatores humanos e ambientais forem ignorados, as previsões de onde e quando os surtos ocorrerão provavelmente sempre falharão.

A maioria dos estudos realizados vem dos Estados Unidos, China e Europa, enquanto as regiões tropicais, onde os riscos de doenças são maiores, permanecem pouco estudadas. Brasil e Quênia se destacam como exceções, mas vastas regiões da África, América do Sul e Ásia recebem pouca atenção.

Os lugares com maior probabilidade de produzir a próxima pandemia também são os menos preparados para preveni-la.

Construindo uma resposta melhor

Os pesquisadores do estudo explicaram que a prevenção requer um quadro mais completo dos riscos, ou seja, a combinação de dados ecológicos com realidades humanas e sociais.

Pobreza , educação, moradia e acesso à saúde são tão importantes quanto as mudanças climáticas e o uso da terra.

Por exemplo, na África Oriental, a malária foi mapeada de forma mais eficaz quando pesquisadores combinaram dados sobre mosquitos com medidas de pobreza e assistência médica. Em Nova York, as previsões da doença de Lyme melhoraram quando os cientistas consideraram tanto a abundância de carrapatos quanto o comportamento humano. Compreender juntos o perigo, a exposição e a vulnerabilidade nos fornece ferramentas para a prevenção.

Carvalho destacou que enfrentar a ameaça não será fácil, mas insiste que um monitoramento mais forte e a cooperação internacional são essenciais:

É claro que não há uma solução óbvia, mas sistemas de vigilância mais fortes, especialmente em focos de doenças, podem atuar como um radar de alerta precoce.

A cooperação científica transfronteiriça pode garantir que nenhuma região fique para trás. Além disso, uma abordagem de Saúde Única, reconhecendo que a saúde humana, animal e ambiental estão interligadas, deve orientar todas as decisões.

As comunidades que vivem na pobreza, as mais próximas da linha de frente das mudanças ambientais, são as primeiras a sofrer. Se continuarmos a ignorar a complexidade do risco de doenças, condenaremos essas populações vulneráveis ​​a pagar um alto preço, deixando o resto do mundo exposto.

A pandemia do coronavírus nos ensinou uma lição, nos mostrou o custo de estarmos despreparados. A próxima pandemia pode ser muito pior, impulsionada por extremos climáticos e perturbações ecológicas.

A linha entre negligência ambiental e sofrimento humano é muito tênue. Não deveria ser difícil entender que nossa saúde depende da saúde do nosso planeta, um protege o outro.


Fonte: The Canary

Casos de intoxicação por metanol acendem alerta para necessidade de investimentos em inteligência e fiscalização

Para o Anffa Sindical, falta de estrutura e de recursos humanos fragiliza o combate a crimes que colocam em risco a saúde da população

Metanol na bebida alcoólica: polícia faz operação em bares - 29/09/2025 -  Equilíbrio e Saúde - Folha

Por Anffa Sindical

Casos recentes de intoxicação por metanol após ingestão de bebidas alcoólicas nos estados de São Paulo e Pernambuco acendem um alerta para a necessidade urgente de investimentos em recursos humanos e estrutura voltados às ações de inteligência no combate a crimes envolvendo produtos de origem animal e vegetal, incluindo bebidas e alimentos, que colocam em risco a saúde da população. Diversas ocorrências foram confirmadas, mais de 15 estão em investigação e cinco pessoas já morreram em decorrência da ingestão da substância altamente tóxica.

Casos de intoxicação acendem um alerta para a necessidade urgente de investimentos voltados às ações de inteligência contra crimes envolvendo alimentos e bebidas (Foto: Reprodução)

As investigações apontam que falsificadores “batizavam” bebidas como gin e vodca de marcas conhecidas com metanol, que posteriormente eram comercializadas e consumidas pelas vítimas. Até o momento, não há informações sobre em qual etapa da produção ou distribuição ocorreu a adulteração, nem quem seriam os responsáveis ou se outros destilados também foram comprometidos.

Até seis horas após a ingestão, a pessoa intoxicada pode apresentar dor abdominal intensa, sonolência, falta de coordenação, tontura, náuseas, vômitos, dor de cabeça, confusão mental, taquicardia e pressão arterial baixa. Até 24 horas após a ingestão, a lista de sintomas inclui visão turva, fotofobia, visão embaçada, pupilas dilatadas, perda da visão das cores, convulsões e coma. Em casos mais graves, o paciente pode evoluir para cegueira irreversível, choque, pancreatite, insuficiência renal, necrose de gânglios, tremor, rigidez, lentidão dos movimentos e chegar ao óbito. Assim, recomenda-se a assistência médica imediata.

O Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (Anffa Sindical) destaca que as bebidas regulares possuem registro e são fiscalizadas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), portanto é imprescindível verificar a procedência dos itens consumidos. Já os casos de intoxicação envolvem produtos irregulares, fruto de práticas criminosas e que, por isso, estão sob investigação policial.

Por conta disso, para o Anffa Sindical, o episódio reforça a importância de ampliar as ferramentas de inteligência no enfrentamento a práticas criminosas que atentam contra a saúde pública e só podem ser combatidas com estrutura e servidores em número adequado. O presidente, Janus Pablo Macedo, destaca a atuação do Programa de Vigilância em Defesa Agropecuária para Fronteiras Internacionais (Vigifronteira), conduzido pelos auditores fiscais federais agropecuários que, em articulação com forças policiais, já apreendeu mais de 500 mil litros de bebidas irregulares desde 2020.

“O trabalho de fiscalização é estratégico para impedir a entrada e a circulação de produtos irregulares no País. Os profissionais que atuam no Vigifronteira têm como foco a repressão de ilícitos. Mas o avanço desse tipo de crime só poderá ser combatido com investimentos adequados em inteligência, tecnologia e, principalmente, na recomposição dos nossos quadros de servidores. Sem isso, a saúde pública continuará exposta”, afirma o presidente do Anffa Sindical.

Ele ressalta ainda que os riscos não se limitam às bebidas adulteradas: diferentes modalidades de fraude envolvendo produtos estão presentes em todo o País, o que exige estratégias articuladas de fiscalização e repressão. Nesta lista, incluem-se também alimentos e medicamentos de uso veterinário.

O Anffa Sindical lamenta profundamente as vítimas do episódio em São Paulo e em Pernambuco, defende a continuidade das investigações e cobra punição rigorosa aos responsáveis. O sindicato ainda reforça que somente com ações firmes, articuladas e estruturadas será possível proteger a saúde da população e evitar novas tragédias.

Novo estudo revela financiadores da expansão massiva de exploração de petróleo e gás na América Latina

The sleeping giant: Latin America is home to more oil than Saudi Arabia,  but its wealth remains untapped! - CPG Click Petroleo e Gas

Por Urgewald
Comunicado de Imprensa: Berlim, Brasília, Buenos Aires, Cidade do México,  01.10.2025

Cinco semanas antes da cúpula do clima da ONU em Belém, Brasil (COP30), um estudo publicado hoje revela quais empresas são responsáveis pela expansão massiva das atividades de combustíveis fósseis na América Latina e no Caribe – e quais bancos e investidores apoiam essas atividades. As editoras são as ONGs urgewald (Alemanha), Arayara International Institute (Brasil), FARN (Argentina), Conexiones Climáticas (México) e Amazon Watch (EUA/Peru/Equador). Paralelamente ao estudo, foram publicados dois painéis interativos online que mostram onde os projetos de expansão atuais estão planejados e quais corporações são responsáveis por cada um, bem como quais bancos e investidores estão por trás deles.

Estudo para download:
https://cloud.urgewald.org/index.php/s/7GJAkNcQeCFtW4A

Painel sobre projetos de expansão fóssil:
http://monitor.whofundsfossilfuels.com/ 

Painel financeiro:
http://monitor.fossilfuelfinance.com/

O estudo revela as 190 empresas de 42 países que estão explorando ou desenvolvendo novos campos de petróleo e gás ou desenvolvendo novas infraestruturas de combustíveis fósseis na região. “A América Latina e o Caribe são um hotspot global de expansão de combustíveis fósseis. Corporações poderosas como Petrobras, ExxonMobil, YPF e Chevron estão determinadas a extrair o máximo possível de petróleo e gás antes que seus negócios sejam interrompidos por metas políticas líquidas zero”, diz Heffa Schücking, diretor administrativo da urgewald e principal autor do relatório.

47% de todas as novas reservas de petróleo e gás atualmente em desenvolvimento na América Latina e no Caribe estão localizadas no Brasil, país anfitrião da COP 30. A ANP, reguladora de petróleo do Brasil, está liberando muitas das regiões ecologicamente mais sensíveis do país para a exploração de petróleo e gás – incluindo o Sistema de Grandes Recifes Amazônicos e antigas áreas protegidas na região amazônica.

“A Amazônia já está ameaçada de extinção e agora seu futuro está sendo vendido para extrair petróleo lá por algumas décadas”, diz Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora-executiva da Arayara. A estatal brasileira Petrobras é a maior desenvolvedora individual de novos campos de petróleo e gás na América Latina e no Caribe, respondendo por 29% do total. “O governo brasileiro afirma estar avançando com a transição energética, mas não tem sequer um plano para a transformação de sua própria petroleira”, critica Oliveira.

Expansão da infraestrutura de petróleo e gás

Empresas responsáveis anunciaram uma verdadeira enxurrada de novas infraestruturas de petróleo e gás na América Latina e no Caribe. Esses projetos exigem um investimento inicial maciço e são projetados para operar por 30 a 50 anos. Uma vez colocados em operação, eles gerarão enormes CO2emissões para a atmosfera.

Mais de 8.800 km de novos oleodutos e gasodutos estão planejados na região. Entre os mais controversos está o projeto Vaca Muerta Oleoducto Sur (VMOS) da Argentina, que conectaria o segundo maior depósito de petróleo e gás de xisto do mundo em Vaca Muerta ao Golfo de San Matías – um ecossistema marinho impressionante com uma próspera indústria do turismo. O projeto transformaria o Golfo em um centro de exportação de combustíveis fósseis, com enormes petroleiros de petróleo bruto constantemente indo e vindo.

Em julho de 2025, um consórcio de 16 bancos e investidores liderado por JPMorgan, Citi, Deutsche Bank, Itaú e Santander aprovou um empréstimo de US$ 2 bilhões para o projeto: o maior empréstimo privado de infraestrutura da história da Argentina. “Este oleoduto destrói a biodiversidade insubstituível do Golfo de San Matías e nos leva ao futuro distópico descrito nos relatórios do IPCC. As empresas petrolíferas e alguns bancos podem se beneficiar disso. Mas continua sendo um crime ambiental que prejudica a economia regional e a maioria da população”, diz Ariel Slipak, coordenador de pesquisa da FARN Argentina.

Na América Latina e no Caribe, 19 novos terminais de exportação de gás natural liquefeito (GNL) estão planejados ou já estão em desenvolvimento. Se concluídos, esses projetos poderiam produzir mais de 97 milhões de toneladas de GNL por ano: um aumento de 470% na capacidade de liquefação de gás na região. Mais de dois terços da nova capacidade de exportação de GNL da região estão planejadas no México, com a maioria dos projetos focados no Golfo da Califórnia. Esta área marinha intocada é frequentemente chamada de “aquário do mundo” porque abriga 900 espécies de peixes e 39% das espécies de mamíferos marinhos do mundo.

Há protestos em todo o México exigindo o fim desses projetos de GNL. Pablo Montaño, Diretor Geral da Conexiones Climáticas, diz: “Esses projetos não servem ao povo do México. Eles importarão gás fraturado dos EUA, liquefarão e depois o enviarão diretamente para a Ásia. A liquefação do gás fóssil é um negócio incrivelmente sujo e ficaríamos sozinhos com a poluição, as consequências para a saúde e a destruição de um de nossos ecossistemas mais importantes. Cerca de metade dos peixes capturados no México vem do Golfo da Califórnia.

Expansão de usinas a gás

Na América Latina e no Caribe, as usinas a gás são frequentemente alimentadas por combustível importado, deixando os países afetados vulneráveis a mercados globais voláteis e mudanças geopolíticas. No entanto, novas capacidades de usinas a gás de mais de 54.000 megawatts (MW) estão planejadas ou já estão em construção na América Latina e no Caribe. O Brasil e o México respondem por 65% e 21% dessa expansão em toda a região, respectivamente.

Os três maiores desenvolvedores de usinas a gás são a CFE, do México, e a Eneva e o Porto Norte Fluminense, do Brasil. “Esses projetos servem ao lobby do gás e prejudicam todos os outros. Já a energia renovável é abundante, mais limpa, mais barata e também pode abastecer comunidades que não têm acesso à rede elétrica”, comenta Oliveira.

Expansão dos combustíveis fósseis financiada por dívida

Projetos de infraestrutura em grande escala geralmente levam a dívidas enormes. Em alguns países da América Latina e do Caribe, a necessidade de atender bancos e detentores de títulos internacionais é um impulsionador de uma maior expansão fóssil. O Peru é um exemplo disso. O bloco 64, perto da fronteira com o Equador, é um dos campos de petróleo mais controversos do Peru. Mais de 7.600 km² de floresta tropical estão na área do campo, bem como as terras de pelo menos 22 comunidades indígenas, incluindo os Achuar, Wampís e Chapra. Nos últimos 30 anos, sua resistência inabalável forçou seis empresas petrolíferas a se retirarem e paralisou a produção.

Para pagar os empréstimos do Deutsche Bank, Santander, Bank of America e HSBC para um projeto de refinaria superdimensionado, a petrolífera nacional Petroperú está agora tentando desesperadamente retomar as operações no Bloco 64. “Os bancos que financiam a infraestrutura de combustíveis fósseis no Peru pouco se importam com a origem do petróleo bruto e também não entrevistaram as pessoas afetadas cuja pátria está sendo sacrificada. Em resposta, os povos indígenas deixaram claro que nenhum petróleo pode ser extraído em seu território. Os bancos não podem mais fingir que não sabem”, diz Mary Mijares, gerente de campanha da Amazon Watch.

Os financiadores por trás da inundação de combustíveis fósseis na região

Entre 2022 e 2024, 297 bancos emprestaram um total de US$ 138,5 bilhões para empresas que desenvolvem novos projetos de combustíveis fósseis na região. O maior financiador entre eles é o banco espanhol Santander (US$ 9,9 bilhões), seguido pelo JPMorgan Chase (US$ 8,1 bilhões), Citigroup (US$ 7,9 bilhões) e Scotiabank (US$ 7,2 bilhões).

92% do financiamento bancário para a expansão fóssil na região vem de países fora da região – especialmente da Europa, EUA, Canadá, China e Japão. No ranking de bancos do relatório, o primeiro banco latino-americano, o Itaú Unibanco, aparece apenas em 15º lugar.

Ao mesmo tempo, de acordo com a pesquisa mais recente, mais de 6.400 investidores institucionais detêm ações e títulos no valor de 425 bilhões de dólares de empresas que estão impulsionando novos projetos de combustíveis fósseis na América Latina e no Caribe. 96% dos investimentos institucionais nessas empresas são realizados fora da região. Os três maiores investidores são Vanguard (US$ 40,9 bilhões), BlackRock (US$ 35,3 bilhões) e Capital Group (US$ 16,8 bilhões), todos dos Estados Unidos.

Papel dos bancos e investidores da Alemanha, Suíça e Áustria

Com um volume financeiro de 3,4 bilhões de dólares entre 2022 e 2024, oDeutsche Bank é o quarto maior financiador europeu de expansão fóssil na América Latina e no Caribe.

Philipp Noack, ativista financeiro da urgewald, comenta: “O Deutsche Bank obteve um lucro de 3,3 bilhões de euros no primeiro semestre do ano. Também gera esse lucro por meio de negócios de combustíveis fósseis e às custas dos habitats na Amazônia. Ele permite negócios relacionados a fracking, perfuração em mar ultraprofundo e desmatamento. Nenhuma estratégia de negócios pode justificar isso. Quem procura um banco sustentável deve dizer adeus ao Deutsche Bank o mais rápido possível.”

UBS suíço ocupa o 8º lugar na Europa, com 1,4 bilhão de dólares. O UBS estava significativamente mais envolvido como investidor do que no negócio bancário: com investimentos em ações e títulos em empresas responsáveis com um volume total de 5,5 bilhões de dólares, ficou em 14º lugar no mundo.

Johanna Frühwald, ativista financeira da urgewald, diz: “Às vésperas da 30ª Conferência Mundial do Clima no Brasil, esta análise não é apenas um alerta para bancos e investidores, mas também para as autoridades de supervisão e regulação. Como financiador, o UBS está contribuindo significativamente para a destruição irreversível de habitats e ecossistemas na América Latina. É hora de o mercado financeiro suíço tratar a expansão fóssil pelo que ela é: um risco ecológico e também um risco sistêmico para o setor financeiro.”

Embora os bancos austríacos não apareçam na área de financiamento bancário, o Erste Group e o Raiffeisen Banking Group atuaram como investidores nas empresas de combustíveis fósseis em expansão na região. Na data do relatório, o Grupo Erste detinha ações e títulos com um valor total de US$ 55,1 milhões, o Raiffeisen com um valor total de US$ 54,7 milhões.

Frühwald diz: “Esses investimentos vêm às custas das comunidades indígenas e habitats dignos de proteção. É hora de o Erste Group e a Raiffeisen limparem seus portfólios e investirem na transição energética em vez de modelos de negócios fósseis.”

Um rastro de dinheiro para as salas de reuniões dos bancos internacionais

O financiamento da expansão dos combustíveis fósseis na América Latina e no Caribe, portanto, ocorre em grande parte no exterior. Mesmo as empresas estatais de petróleo e gás da região dependem fortemente de dinheiro do exterior. Assim, os bancos mais importantes da Petrobras são o MUFG do Japão e o Scotiabank do Canadá. A Pemex do México recebeu as maiores quantias de financiamento do Citi e a Ecopetrol da Colômbia do Scotiabank. O grupo argentino YPF tem o Santander como seu principal doador.

Dez anos após o Acordo Climático de Paris, o mundo ainda não conseguiu reverter a curva de emissões. “Se você procurar as razões para esse fracasso, encontrará um rastro de dinheiro. Isso leva diretamente às salas de reuniões de instituições financeiras que ignoraram o senso comum e a ciência climática na última década para continuar financiando a expansão dos combustíveis fósseis”, critica Schücking.


Fonte: Urgewald

O câncer de cólon está aumentando entre os jovens – e a ciência aponta alimentos ultraprocessados como um dos principais culpados

Se fumar foi o vilão do câncer do século XX, comer alimentos ultraprocessados ​​pode ser sua contrapartida no século XXI

Uma pessoa mordendo uma fatia de pizza.

Uma pessoa mordendo uma fatia de pizza. Fotografia: Steve Parsons/PA

Por Devi Sridhar para “The Guardian” 

O câncer costumava ser visto como parte do envelhecimento: algo que afetava principalmente pessoas com mais de 60 ou 70 anos. Mas, embora ainda seja verdade que a maioria dos novos diagnósticos de câncer afeta pessoas com mais de 70 anos, o padrão está mudando de forma sutil. Alguns tipos de câncer são cada vez mais encontrados em pessoas mais jovens.

Veja o caso do câncer colorretal (intestino): embora as taxas tenham diminuído em pessoas com mais de 60 anos, os dados mostram um aumento acentuado em muitos países desenvolvidos entre pessoas com menos de 50 anos, no que é chamado de doença de início precoce.

Isso não se deve apenas à triagem mais ampla ou ao melhor diagnóstico, e não é encontrado apenas em um país ou comunidade em particular. O aumento é real e global , passando de aproximadamente 94.700 casos em 1990 para 225.736 em 2019. Um estudo em toda a Europa descobriu que, para aqueles com idade entre 20 e 29 anos , a incidência aumentou 7,9% ao ano entre 2004 e 2016, com as taxas aumentando em 4,9% entre aqueles com idade entre 30 e 39 anos e 1,6% no grupo de 40 a 49 anos aproximadamente no mesmo período. O câncer de cólon não só está aumentando em todas as coortes etárias abaixo de 50 anos, como a taxa de crescimento é maior no grupo mais jovem. A modelagem sugere que o câncer colorretal de início precoce pode dobrar a cada 15 anos na Austrália, Canadá, Reino Unido e EUA.

Na Inglaterra, o programa de rastreamento do câncer de intestino do NHS abrange pessoas de 50 a 74 anos, convidando-as para um exame gratuito a cada dois anos. No entanto, essa faixa etária exclui pessoas mais jovens, que geralmente só são diagnosticadas em estágio avançado, quando o câncer já se espalhou e elas apresentam sintomas.

O que está causando o aumento no número de jovens? Podemos descartar a genética: estima-se que 75% dos casos ocorram em pessoas sem histórico familiar ou predisposição genética conhecida. Cientistas começaram a analisar fatores ambientais associados ao aumento do câncer de cólon desde a década de 1960, com cada geração tendo maior probabilidade de desenvolver câncer do que a anterior.

Um fator continua emergindo como o principal culpado: alimentos ultraprocessados , com uma revisão de 2025 na Nature Reviews Endocrinology destacando as ligações. Esses alimentos, definidos aproximadamente como lanches embalados em fábricas, refeições prontas, cereais açucarados, refrigerantes, carnes processadas e muitos fast foods, agora representam mais da metade da dieta média em países como o Reino Unido e os EUA.

As evidências estão crescendo: um importante estudo publicado no British Medical Journal analisou três grandes coortes nos EUA para examinar a associação de alimentos ultraprocessados ​​com o risco de câncer colorretal. Uma dessas coortes envolveu mais de 46.000 homens, acompanhados por 24 a 28 anos. Em comparação com o grupo que menos consumiu alimentos ultraprocessados, o risco daqueles que mais consumiram de desenvolver câncer colorretal – mesmo considerando nutrição e peso – foi 29% maior. Os autores concluem que mais estudos são necessários para compreender os mecanismos fisiológicos de como exatamente os alimentos ultraprocessados ​​contribuem para o desenvolvimento do câncer.

O interessante é que, embora grande parte da pesquisa tenha associado alimentos ultraprocessados ​​ao aumento da obesidade, que é um importante fator de risco para diversos tipos de câncer, o estudo acima aponta para o aumento do câncer colorretal em pessoas com peso normal . Será que alimentos ultraprocessados ​​podem ser cancerígenos independentemente do índice de massa corporal (IMC) de uma pessoa? Em outras palavras, esses alimentos são prejudiciais à saúde mesmo que você tenha um estilo de vida ativo e esteja em uma faixa de peso saudável?

Dietas ricas em alimentos ultraprocessados ​​têm sido associadas a interrupções na sinalização da insulina, inflamação crônica de baixo grau e alterações no microbioma intestinal, todos mecanismos implicados no desenvolvimento do câncer. O que comemos afeta o crescimento de nossas células, o funcionamento do nosso sistema imunológico e o comportamento das bactérias intestinais – que ajudam a regular a inflamação e a imunidade. Emulsificantes , aditivos adoçantes artificiais comumente encontrados em alimentos ultraprocessados ​​demonstraram, em estudos com animais, promover a inflamação intestinal e o crescimento de tumores. Enquanto isso, a falta de fibras e fitoquímicos protetores (compostos promotores da saúde encontrados em plantas) nesses alimentos pode alterar o microbioma intestinal necessário para o funcionamento ideal do corpo.

Demorou décadas, mas agora aceitamos que o tabaco causa câncer de pulmão e que o álcool aumenta o risco de câncer de mama e de fígado. A próxima década poderá testemunhar a inclusão de alimentos ultraprocessados ​​como um fator de risco fundamental para o câncer colorretal, especialmente em adultos jovens. Não estou escrevendo isto para assustá-lo. É sim para refletir sobre pesquisas recentes, realizadas em estudos rigorosos e de longo prazo. O que comemos importa mais do que você imagina.

Se fumar foi o vilão do câncer no século XX, consumir alimentos ultraprocessados ​​pode ser seu equivalente no século XXI. A ciência ainda não está consolidada, mas está se desenvolvendo rapidamente. Costuma-se dizer que comida é remédio. E, como estamos aprendendo cada vez mais, comida é prevenção. Nesse sentido, um estudo de 2025 descobriu que consumir iogurte regularmente pode reduzir o risco de desenvolver câncer de cólon, um subtipo do câncer colorretal. Então, se há uma lição a tirar desta leitura: coma mais iogurte e menos alimentos ultraprocessados.

A professora Devi Sridhar é presidente de saúde pública global na Universidade de Edimburgo


Fonte: The Guardian

Conter vazamento de petróleo na Margem Equatorial seria mais difícil que em desastre no Golfo do México

margem equatorial

Artigo questiona a ideia de que a arrecadação com petróleo financiaria a transição energética 

Agência BORI

Um grupo internacional de pesquisadores alerta que a exploração de petróleo planejada para a costa do Amapá, na chamada Margem Equatorial, pode gerar impactos ambientais e sociais de grandes proporções. Além da vida marinha, um vazamento ameaçaria onças-pintadas e outras espécies emblemáticas em áreas protegidas insulares e costeiras, manguezais e ecossistemas de zonas úmidas costeiras, além da pesca e dos produtos florestais não madeireiros, como o açaí, que sustentam povos tradicionais e indígenas.

É o que mostra estudo publicado na revista Nature Sustainability na quarta (1º) e conduzido por cientistas das universidades Federal e Estadual do Amapá (UNIFAP e UEAP), do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e parceiros. A equipe se baseou em modelos que simulam a dispersão de óleo em ambientes aquáticos, considerando variáveis como a vazão do rio Amazonas, marés, correntes, ventos e características do ambiente costeiro. A partir disso, a pesquisa indica que a mancha de um derramamento poderia se espalhar por até 132 quilômetros em apenas três dias, afetando biodiversidade, áreas protegidas e o abastecimento de água em cidades costeiras.

“Enquanto o licenciamento ambiental se concentra na capacidade da empresa petrolífera estatal de resgatar a vida selvagem marinha em caso de derramamento, a questão muito mais fundamental é a capacidade de tapar um vazamento, caso ocorra”, explica o pesquisador Philip Fearnside, do INPA, um dos autores do estudo. A profundidade do poço proposto, de 2,88 quilômetros, e a presença de correntes oceânicas mais fortes e complexas dificultariam muito a contenção em comparação ao desastre de 2010 no Golfo do México, mostram os pesquisadores. Na ocasião, o vazamento ocorreu de um poço em água de 1,5 quilômetros de profundidade e levou mais de cinco meses para ser contido.

O estudo também ressalta riscos socioeconômicos. O Amapá tem mais de 700 mil habitantes, com grande concentração em comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas que dependem da pesca artesanal e da coleta de produtos florestais, como açaí, castanha-do-brasil e cacau. Só a cadeia do açaí na área da Foz do Amazonas movimentou mais de R$ 6 bilhões (cerca de US$ 1 bilhão) em 2023, valor que estaria ameaçado por eventual contaminação. O derramamento de óleo na costa do Nordeste brasileiro, em 2019, que afetou milhares de pescadores, é lembrado pelos pesquisadores como referência para possíveis impactos.

Para além de acidentes, os autores alertam que experiências anteriores com royalties do petróleo no Brasil mostraram aumento da desigualdade e piora de indicadores sociais, em vez de melhorias sustentáveis. Eles questionam a narrativa de que a arrecadação com petróleo financiaria a transição energética, já que a dependência do combustível fóssil tende a se tornar inviável diante das metas climáticas globais. “A necessidade global de interromper o uso de combustíveis fósseis nos próximos anos significa que os supostos benefícios econômicos e de emprego do projeto seriam muito temporários”, avalia Fearnside.

Como alternativas, o artigo defende o aproveitamento do potencial solar do Amapá: apenas 1% da área do estado poderia gerar cinquenta vezes mais energia do que a população consome hoje. Outras vias propostas incluem a valorização da bioeconomia local, com agregação de valor a produtos como açaí e andiroba, e o fortalecimento do turismo comunitário.


Fonte: Agência Bori

“Sorte de principiante” na ciência?

A cobertura da Nature sobre uma pré-impressão sobre “pesquisadores novatos” é em si uma jogada de novato

Does Beginner's Luck Exist? - John M Jennings

Por Kent Anderson para  “The Geyser”

A Nature News adora manchetes sensacionalistas, e a mais recente — Quer fazer ciência disruptiva? Inclua mais pesquisadores novatos — certamente chama a atenção. Inclui até um subtítulo que deixa claro que a descoberta é sólida como uma rocha:

Estudo mostra que trabalhos de equipes de pesquisa com um número substancial de iniciantes são altamente disruptivos e inovadores

Infelizmente, o artigo que norteia a cobertura é muito menos definitivo do que essas manchetes sugerem, deixa a desejar em muitos aspectos e não sustenta realmente o caso, pois faz muitas suposições superficiais e não testa alguns fatores de confusão óbvios, além de perder algumas oportunidades reais.

O primeiro erro é cobrir um preprint. Por que uma das marcas de periódicos mais prestigiosas do mundo, baseada no poder da seletividade por meio do rigor editorial e de uma revisão rigorosa, permite uma cobertura jornalística não cética de alegações não revisadas? Você me pegou — literalmente, você me pegou para fazer o que eles não farão, que é questionar se isso merecia cobertura.

O grupo responsável pela pré-impressão criou um “data lake” em 2023 e publicou sobre ele em um periódico da Springer Nature, o Scientific Data. Usando esse data lake, eles afirmam ter desambiguado os nomes dos autores em mais de 28 milhões de artigos publicados entre 1971 e 2020.

Vamos parar por aqui. Eles afirmam ter desambiguado nomes de autores com sucesso e confiabilidade ao longo de 50 anos de história de publicações, múltiplas disciplinas (a contribuição de cada uma delas não foi divulgada) e 28 milhões de artigos? Podem me chamar de cético, mas… bem, sim, podem me chamar de cético. De fato, em seu artigo de 2023, eles afirmam ter desambiguado apenas um pouco mais autores (134.197.162) do que havia artigos no conjunto de dados (134.129.188) na época. Acho que a realidade tem uma proporção de autores:artigos diferente de 1:1 ao longo do tempo.

Mas vamos supor, para fins de argumentação, que fosse possível desambiguar os autores. A premissa — de que autores experientes produzem trabalhos menos disruptivos do que autores novatos — apresenta grandes problemas que seu artigo preliminar, de rascunho, nem chega perto de abordar:

  1. Não sabemos quem teve a ideia. A premissa da pré-impressão e da cobertura jornalística é que velhos frustram, enquanto jovens renovam o sistema. Certamente existe um clichê sobre isso na ciência e na inovação em geral, um clichê não totalmente desmerecido. No entanto, o que não sabemos é se o velho frustrado ou o cientista em meio de carreira idealizou algo novo e teve que recrutar novatos para o projeto, dando a eles seu primeiro evento de publicação ao fazê-lo.
    1. Isso parece plausível e não é testado pela pré-publicação — ou seja, os novatos foram apenas adeptos de uma premissa interessante proposta por um cientista sênior financiado, ou estiveram envolvidos na sua concepção? Considerando como funcionam o financiamento e a pesquisa acadêmica, meu dinheiro está na premissa da adesão.
    2. Outra dica de que isso pode ser o caso é que os artigos resultantes foram altamente citados, o que sugere que um cientista em meio de carreira teve uma ideia de pesquisa, recrutou uma nova equipe para estudá-la, composta principalmente por novatos, e a publicou em um bom local com base no conhecimento do espaço editorial, financiamento suficiente para chegar a conclusões sólidas e poder de reputação para fazer com que novos trabalhos fossem considerados por bons periódicos.
  2. Não sabemos se os “autores novatos” fossilizaram ou abandonaram a pesquisa. Dada a confiança que tinham em desambiguar nomes e o período de 50 anos de dados, seria de se esperar que os autores pudessem ter testado trajetórias de carreira — ou seja, os novatos seguiram carreiras científicas de sucesso e fossilizaram seu próprio pensamento em direção ao incrementalismo? Ou seriam eles meros meros gênios com poucas ou nenhuma publicação subsequente, talvez se tornando profissionais e líderes valiosos em outras áreas, com alguns projetos de pesquisa na universidade como uma lembrança distante?
  3. Não sabemos se os “autores novatos” tiveram carreiras. Se os novatos permaneceram na pesquisa, como se saíram? Eram apenas ferramentas que pesquisadores financiados em meio de carreira usaram uma ou duas vezes, mas que se mostraram incapazes de reunir grandes ideias em suas carreiras de pesquisa subsequentes?
  4. Não sabemos se os novatos eram jovens. A suposição é que ser publicado pela primeira vez está diretamente associado à idade do pesquisador — ou seja, eles são sempre jovens. Eu só publiquei em um periódico aos 30 anos e conheço outros pesquisadores que só se envolvem em projetos de pesquisa mais tarde na carreira, especialmente se não forem pesquisadores em tempo integral. Ser um novato pode ser um sinal de acaso, não de idade.
  5. Não sabemos quais áreas impulsionam as alegações. Em seu artigo de 2023 sobre seu data lake, os autores afirmam ter identificado 19 áreas de estudo de alto nível e 292 subáreas. Não sabemos quais delas foram as principais impulsionadoras das alegações.
  6. Não sabemos o período que embasa essas alegações. Ao longo de 50 anos, esses resultados foram uniformes ou as alegações são motivadas por tendências mais recentes? Não temos uma ideia clara da natureza temporal das alegações — por exemplo, a alegação de que novatos citam de forma diferente é um fenômeno recente causado pela pré-impressão e pela explosão de fontes de acesso aberto? Ou sempre foi assim?

A pré-impressão também é um pouco estranha porque começa com Resultados e termina com uma seção superficial de Materiais e Métodos. Parece ter sido criada para ser um chamariz, e a Nature News aderiu imediatamente — porque, em uma economia da atenção, quem se importa se a ciência é rigorosa, desde que suas conclusões chamem a atenção e se baseiem em clichês sobre cientistas antigos estupidificados versus jovens disruptivos?

A pré-impressão é exatamente isso — um relatório preliminar de uma análise especulativa de dados que é superficial, levanta questões que seus autores poderiam ser solicitados a responder em uma boa troca com a redação de um bom periódico antes da publicação e poderia ter gerado uma contribuição sólida para a literatura, com nuances suficientes para merecer citação e contribuir significativamente. Na verdade, poderia ter gerado alguma conclusão diferente e interessante:

  • Cientistas em meio de carreira que recrutam cientistas novatos para um novo projeto geralmente buscam ideias disruptivas.
  • Uma grande proporção de autores estreantes são autores que escrevem apenas uma vez.
  • Ao longo de 50 anos, a exploração de jovens acadêmicos por acadêmicos em meio de carreira com financiamento foi acelerada pela expansão permitida das listas de autores, mas as carreiras dos jovens acadêmicos fracassam porque o financiamento para suas carreiras é inadequado.

No entanto, do jeito que está, a Nature News minou a reputação de sua marca-mãe de revisão editorial cuidadosa e rigorosa ao promover uma pré-impressão preliminar e dar a ela muito mais exposição e autoridade do que suas alegações banais merecem.

As seduções da Economia da Atenção das Notícias atacam novamente.


Fonte: The Geyser

Ativista ambiental sofre “lawfare” por denunciar poluição causada pela CSN em Volta Redonda

Pó preto da CSN': moradores de Volta Redonda percebem piora na poluição  emitida por siderúrgica, aponta pesquisa - Brasil de Fato

Pó preto da CSN’: moradores de Volta Redonda convivem com poluição emitida pela siderúrgica

Por Alexandre Fonseca 

Venho, por intermédio desta, chamar a atenção para os abusos antidemocráticos cometidos à luz do dia pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), contra um ativista socioambiental em Volta Redonda, cidade no interior do estado Rio de Janeiro. A cidade, que já foi o centro das atenções nacionais, sendo o berço da industrialização do país, tem um histórico triste de violações de direitos humanos (tendo tido inclusive status de área de segurança nacionalnos anos da ditadura), conta ainda com trabalhos da comissão da verdade e relatórios de abusos cometidos pela própria CSN nas décadas de 1960, 70 e 80 entregues ao Ministério Público.

Apesar de hoje não ter mais o protagonismo político e econômico de outrora, a cidade segue com sua importância para a indústria, principalmente nacional, sendo ainda uma das maiores produtoras de aço. Na “corrida siderúrgica”, como ainda diz um hino de uma escola da cidade, muitos atropelos foram aceitos e continuam ocorrendo: atropelos ambientais, sociais, políticos e humanos. Escrevo aqui, também, para pedir ajuda para que isso deixe de ocorrer.

Poderia colocar aqui vários dados de como nossa situação ambiental é desesperadora, de como somos a terceira cidade mais contaminada do estado, que no ano passado segundo o ministério do Meio Ambiente em ¾ dos dias nosso ar esteve irrespirável, que a CSN opera sem nunca ter tido um devido licenciamento ambiental, tendo descumprido diversos acordos na justiça etc. Mas o mais urgente agora talvez seja escancarar o que está sendo feito com quem tem tentado resistir a esses abusos.

No ano de 2023, a população de Volta Redonda resolveu organizar mais um ato de resistência aos desmandos da empresa, ir às ruas protestar (direito básico garantido pela Constituição Federal e em acordos internacionais). Foram criados grupos de WhatsApp para sua organização, grupos abertos pois o assunto seria de interesse geral, e achamos bem provável que a empresa tenha colocado pessoas do seu jurídico “infiltradas” no grupo, tática digna de governo autoritários e remanescente de seus anos como estatal, na ditadura. Dias antes do ato, entrou com uma ação na justiça, contra 7 cidadãos da cidade, na petição inicial, “printou” falas descontextualizadas, onde moradores sugeriram devolver a sujeira na portaria da CSN. Seu principal alvo (uma das lideranças do movimento), sequer insinuou em suas falas sobre chegar ao menos perto da usina. Ainda assim, foi concedida uma liminar arbitrária, que proibia as pessoas de chegarem perto e até mesmo com a proibição implícita de lideranças políticas e de trabalhadores irem ao ato, o que obviamente constitui mais uma infração aos direitos básicos. A liminar não teria tempo de cair e o efeito tentado foi concretizado, colocar o medo em uma cidade.

A CSN não parou por aí. A partir de dezembro daquele ano resolveu ir com tudo para cima de uma das lideranças do movimento. Sem qualquer aviso prévio, ou defesa

pública de suas ações, começou a judicializar ação atrás de ação. Não na esfera civil, não a fim de esclarecer fatos, não em busca de justiça, mas sim, com o intuito claro de intimidar. Ao todo hoje já são cinco processos na esfera criminal e dois na esfera civil, com mais uma liminar tendo sido concedida a ela, onde um juiz em primeira instância proibiu o ativista de publicar qualquer matéria que pudesse ser “depreciativa” sobre a CSN. A liminar foi derrubada em segunda instância, mas o processo segue.

Quais os caminhos possíveis para uma resistência na cidade? Qualquer empresa tem direito de judicializar qualquer coisa, assim como qualquer cidadão, mas isso abre portas inclusive para mais dezenas de processos, se assim a CSN o quiser. A defesa via Justiça apenas não é uma saída, pois independente do mérito dos casos, os efeitos de sua estratégia já estão sendo sentidos (sejam financeiros, psicológicos ou sociais), reproduzindo a sensação de impunidade em uma população que cada vez menos acredita na democracia. Veja, quem sofre o processo não é a empresa, que descumpriu mais um TAC, e sim o ativista que a denuncia.

Sigo perguntando: o que fazer? Se nos processos ela contrata um dos maiores escritórios de advogados do país (na liminar assinam 17 advogados) contra um ativista sem apoio institucional?

Peço ajuda, mas também venho através desta, mandar um recado e dizer que segurei de cabeça erguida, denunciando, organizando e mobilizando a população, porque são nossas vidas que estão em jogo aqui na cidade. Nós respiramos um ar envenenado, pisamos em chão tóxico e varremos pó de ferro e metal pesado. Apesar de ser o meu nome na Justiça, é uma cidade que está com seu pescoço à prova.

 Já são 9 processos criminais, sobre os mais diversos temas, como denúncias trabalhistas, ambientais e até mesmo em cima de reprodução de outras matérias (jornalísticas), uma charge feita e mesmo um post onde fala publicamente sobre o que são os processos, numa clara tentativa de silenciar a própria denúncia pública sobre a perseguição. Conto com a ajuda para que a justiça seja feita.

Projetos de portos e ferrovias, exploração de petróleo e sobrepesca atingem comunidade pesqueira do Marajó

jubim, marajóCom praias, igarapés e áreas de mata preservadas, a comunidade pode gerar renda de forma sustentável 

Agência BORI

A comunidade pesqueira de Jubim, localizada no arquipélago de Marajó, no encontro entre o rio Amazonas e o oceano Atlântico, depende diretamente da pesca artesanal para sua subsistência. Mas pressões crescentes reduzem os estoques pesqueiros e ameaçam os modos de vida tradicionais – como a sobrepesca com presença constante de embarcações industriais, além da construção de portos e ferrovias, dos grandes projetos de exploração de petróleo e da especulação imobiliária, que restringem o acesso a áreas antes comuns. A tudo isso se somam as mudanças climáticas, que afetam o período reprodutivo dos caranguejos e causam a erosão das margens de rios.

É o que aponta pesquisa desenvolvida pelo Projeto Maretórios Amazônicos e publicada na segunda (29) na revista científica Marine Policy. Por meio de entrevistas com 20 moradores de Jubim, oficinas e observação participante na comunidade, os cientistas mapearam forças, fraquezas, oportunidades e ameaças à gestão costeira local. “O modelo atual de gestão costeira exclui e marginaliza milhares de comunidades tradicionais. Nosso estudo busca propor alternativas que garantam participação real e protagonismo às populações locais”, explica o ecólogo Vitor Renck, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e um dos autores do artigo.

Com base na experiência em Jubim, o estudo propõe cinco princípios de gestão costeira para tornar as políticas públicas mais justas e sustentáveis: o empoderamento comunitário, voltado a ampliar a autossuficiência e a resiliência através do fortalecimento de laços; a coprodução de conhecimento, com a valorização e integração dos saberes ecológicos tradicionais à pesquisa científica; a negociação com atores externos em defesa de um desenvolvimento que respeite os direitos e os saberes da comunidade; a continuidade cultural, de forma a garantir que as oportunidades econômicas não enfraqueçam as características locais; e a responsabilidade ambiental, que enfatiza o papel da comunidade como guardiã do seu ambiente. “O diferencial do estudo é a construção, a partir do território pesqueiro, de insumos para o desenvolvimento de um processo de gestão costeira decolonial. Propomos que os cinco princípios sejam implementados de forma conjunta, e não isolados”, reforça Renck.

Apesar das ameaças, Jubim apresenta oportunidades econômicas e sociais, como o desenvolvimento do ecoturismo comunitário. Com praias, igarapés e áreas de mata preservadas, a comunidade pode gerar renda de forma sustentável, mantendo seus modos de vida tradicionais e protegendo a biodiversidade local. “Nosso objetivo é que os cinco princípios que propomos possam orientar a revisão da Política Nacional de Gerenciamento Costeiro, garantindo participação real das comunidades e promovendo justiça azul, ou seja, distribuição mais justa dos benefícios e impactos do desenvolvimento costeiro”, afirma a bióloga Leandra Gonçalves, professora do Instituto do Mar da Unifesp e supervisora do estudo.

A pesquisa foi financiada pelas Fundações de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e do Pará (FAPESPA), Fundação Araucária e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e envolveu mais de 40 pesquisadores de diversas universidades e áreas do conhecimento.


Fonte: Agência Bori