Imagens de um Primeiro de Maio de luta em diferentes partes do planeta

Apesar de todas as tentativas de mascarar as crescentes desigualdades e o aumento da exploração dos trabalho em todo o mundo, este primeiro de maio está sendo marcado, mais uma vez, em todas as partes do mundo como um dia de luta dos trabalhadores. Como faço anualmente, posto algumas imagens das manifestações em diferentes partes do mundo.

Mais do que nunca, é hora dos trabalhadores do mundo se unirem.

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1. Mai in Berlin

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Divulgando a 11a. edição do Festival Internacional de Cinema de Urânio

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19 a 29 de maio de 2022 Exibição gratuita ao vivo e online. Museu de Arte Moderna (MAM Rio) Cinemateca. Avenida Infante Dom Henrique, 85 Parque do Flamengo
Exibição de filmes online
Programa e Catálogo do Festival (Baixar português), (Baixar inglês)
QUINTA-FEIRA, 19 DE MAIO – PROGRAMA DE ABERTURA / HISTÓRICO DA BOMBA ATÔMICA
3:30 da tarde
DO SENTIDO DO TODO: A Rede do Físico Hans-Peter Dürr
Alemanha, 2020, Diretor Claus Biegert, alemão com legendas em português, 103 min. (Não ON-line)
17:30
DEPOIS DO DIA DEPOIS
EUA, 2011, Diretor Nathan Meltz. Animação, 6 min, Inglês.
EVENTO DE TELEVISÃO
EUA, 2020, Diretor e Produtor: Jeff Daniels, inglês com legendas em português, 91 min. (Não ON-line)
19h30
TOTEM E ORE
Austrália, 2019, Diretor John Mandelberg, Documentário, 97 min, Inglês, Legendas em português.
SEXTA-FEIRA, MAI 20 – RISCOS RADIOATIVOS
3:00 da tarde
VIZINHO TÓXICO
Canadá, 2021, Diretor: Colin Scheyen, Documentário, Inglês, Legendas em Português, 25 min.
SAM E A PLANTA AO LADO 
Dinamarca/Reino Unido, 2019, Diretor Ömer Sami, Documentário, 23 min, Inglês, Legendas em português 
MEDO PROFUNDO DA PELE (PEUR A FLEUR DE PEAU)
França, 2020, Diretor: Franck Sanson, Documentário, Francês/Inglês, Legendas em português, 55 min.
17:00
O JARDIM
EUA, 2021, Diretor Bill McCarthy, Animação, Inglês, Legendas em Português, 7 min.
BRINCAR COM O URÂNIO
Canadá, 2020, Diretor: Daniel Hackborn, Documentário, Inglês, 10 min.
FOTOGRAFIA E RADIAÇÃO
Canadá, 2018, Diretor: Jesse Andrewartha, Documentário, Inglês, Legendas em Português, 15 min 
TRANSMUTAÇÕES: VISUALIZAÇÃO DA MATÉRIA
EUA/Canadá, 2021, Diretor Jesse Andrewartha, Documentário, Inglês, Legenda em Português, 70 min.
19:00
Mustangs e Renegados
EUA, 2020, Diretor James Anaquad Kleinert, Documentário, Inglês, 127 min
SÁBADO, 21 DE MAI – QUESTÃO NUCLEAR
14h30
ENERGIA NUCLEAR LIVRE PARA O POVO (ATOMLOS DURCH DIE MACHT)
Áustria, 2019, Diretor Markus Kaiser-Mühlecker, alemão com legendas em inglês ou português, 74 min
16:00
O PROJETO SOMBRA
Canadá, 2020, Diretora Teresa D’Elia, Documentário Experimental, inglês, legendas em português, 5 min. 
MIYAKO
EUA/Japão, 2020, Diretores: Maria Victoria Sanchez
Lara & Ari Beser, Documentário e Animação, Japonês com legendas em Inglês ou Português, 5 min.
COBERTURA ATÔMICA
EUA, 2021, Diretor: Greg Mitchell, Documentário, 52 min, Inglês com legendas em português. (Não ON-line) 
NAMIBIA, BRASIL
Brasil, 2006, Diretores: Miguel Silveira e Elias Lopez-Trabada, Ficção, Português, 10 min.
Perguntas e respostas com o diretor brasileiro Miguel Silveira
17:30
GUERRA NUCLEAR E DESARMAMENTO
Conversa e perguntas e respostas com o especialista em armas nucleares Sérgio de Queiroz Duarte,
ex-embaixador brasileiro e ex-Alto Representante da ONU para Assuntos de Desarmamento Nuclear.
DOMINGO, 22 DE MAIO – REJEITOS RADIOATIVOS
3:00 da tarde
GUERREIROS VERDES / ÁFRICA DO SUL: CIDADES TÓXICAS –
França/África do Sul, 2018, Diretor Martin Boudot, francês/inglês com legendas em português. 54 min.
VELHAS MINAS DE URÂNIO, RADIAÇÃO SEM FIM (BRETAGNE RADIEUSE)
França, 2019, Diretor: Larbi Benchiha, Documentário, Francês/Inglês com legendas em português. 52 minutos.
17:00
NA SOMBRA DO TUTUPITA
Groenlândia, 2020, Diretor Inuk Jørgensen, Documentário, Inglês e Groenlandês, Legendas Inglês ou Português, 7 min.
GUERREIROS VERDES / CURSED URANIUM (l’Uranium de la colère)
França, 2021, Diretor: Martin Boudot, Documentário, francês/inglês, legendas em português. 50 min.
O RETORNO DO NAVAJO BOY / EPÍLOGO
EUA, 2000/2011, Direção: Jeff Spitz, Documentário, Inglês com legendas em português, 71 min.
SEGUNDA-FEIRA, 23 DE MAIO – MINERAÇÃO DE URÂNIO
16h00 (horário do Rio)
REUNIÃO ONLINE ZOOM! POVOS INDÍGENAS E MINERAÇÃO DE URÂNIO
Uranium Film Festival reunirá, pela primeira vez na história, Navajo que sofreu por mais de 40 anos por causa da mineração de urânio
e seu patrimônio radioativo e povos indígenas no Brasil que estão ameaçados com uma mina de fosfato de urânio planejada no Ceará.
Idioma: Inglês, Navajo, Português.
QUINTA-FEIRA, 26 DE MAIO – GUERRA NUCLEAR E TESTE DE BOMBA ATÔMICA LEGADO
10:00 da manhã
Triagem Escolar
FLECHA QUEBRADA. ACIDENTE NUCLEAR EM PALOMARES (Operação Flecha Rota. Accidente Nuclear en Palomares)
Espanha, 2007, Diretor: Jose Herrera Plaza, Documentário, Espanhol-Inglês com legendas em português, 96 min.
Perguntas e respostas com os cineastas José Herrera e Jaime García.
3:30 da tarde
4ª GUERRA MUNDIAL – O CORTE DO REALISMO
Nova Zelândia, 2022, Diretor: AK Strom, Sci-Fi-Thriller, Inglês com legendas em português, 87 min.
17:30
O PORÃO (지하실)
Coreia do Sul, 2020, Diretor: Choi Yang Hyun, Produtor: Lee Jieun, Ficção, Coreano com legendas em inglês ou português, 94 min.
 19h30
ROBÔ MONSTRO NÓS
Canadá, 2014, Diretor: Lynn Dana Wilton, Animação, sem diálogo, 22 segundos.
O QUE OS VIAJANTES DIZEM SOBRE JORNADA DEL MUERTO
EUA, 2021, Diretor: Hope Tucker, Documentário experimental, inglês, legendado em português, 14 min.
FILHOS DE CONFIANÇA ESTRATÉGICA
Ilhas Marshall/EUA, 2011, Direção: Stacy Libokmeto, Documentário, Inglês, Marshallês com legendas em português, 26 min.
CIGANO DO MAR: A CÚPULA DE PLUTÔNIO
 2021, Ilhas Marshall/EUA, Diretor Nico Edwards, inglês com legendas em português, 35 min.
SEXTA-FEIRA, 27 DE MAIO – CINEASTAS PREMIADAS
3:00 da tarde
PERSEGUINDO CHERNOBYL
Ucrânia/EUA/Bulgária/Eslováquia, 2020, Diretora Iara Lee, Documentário, Inglês, Russo, Legendas em Inglês ou Português, 57 min.
MÃES DE REFUGIADOS ATÔMICOS
Japão, 2018, Diretor Ayumi Nakagawa, Documentário, Japonês com legendas em português, 65 min. (Não ON-line)
17:30
POEIRA INSTITUCIONAL
– Holanda, 2021, Diretores: Tineke van Veen & Barbara Prezelj, curta-metragem, inglês com legendas em português, 9 min.
A ILHA INVISÍVEL (L’Ile Invisible / 見えない島)
França, 2021, Diretor Keiko Courdy, Documentário, legendas em português, 87 min. (Não online)
19h30
BALENTES – OS valentes (I CORAGGIOSI)
Itália/Austrália, 2018, Diretora Lisa Camillo, Documentário, Italiano com legendas em inglês ou português, 84 min.
SÁBADO, 28 DE MAIO – 35 ANOS CÉSIO 137 ACIDENTE E PERDA DE BOMBAS ATÔMICAS
3:00 da tarde
SEGURANÇA NUCLEAR
Brasil, 2019, Diretor Norbert G. Suchanek, colagem de filme documentário, português, 12 min.
AMARELINHA
Brasil, 2003, Diretor Ângelo Lima, Ficção, Português, 4 min. (Não ON-line)
PARA NÃO ESQUECER
Brasil, 2022, Diretor Gabriel Leal, Documentário, Português, 40 min.
Perguntas e Respostas com Odesson Alves Ferreira, vítima direta do acidente
17:00
JANEIRO 66 (ENERO DEL 66)  
Espanha, 2022, Diretor: Jaime García Parra, Ficção/Comédia, Espanhol com legendas em inglês ou português,14 min. 
FLECHA QUEBRADA. ACIDENTE NUCLEAR EM PALOMARES
 Espanha, 2007, Diretor: Jose Herrera Plaza, Documentário, Espanhol/Inglês com legendas em português, 96 min.
Perguntas e respostas com os cineastas Jaime García Parra e Jose Herrera Plaza 
DOMINGO, 29 DE MAIO – FINAL DO FESTIVAL E CERIMÔNIA DE PREMIAÇÃO
3:00 da tarde
NOSSO AMIGO O ÁTOMO: A ERA DA RADIOATIVIDADE (Notre ami l’atome : Un siècle de radioactivité)
França, 2020, Direção de Kenichi Watanabe, inglês ou francês com legendas em português, 56 min.
 16h10
VALE DOS DEUSES (Dolina Bogów)
Polônia/Itália/Luxemburgo/EUA, 2019, Diretor Lech Majewski, Ficção, Inglês com legendas em português, 126 min. (Não online)
Perguntas e respostas com o diretor Lech Majewski
CERIMÔNIA DE ENTREGA DE PRÊMIOS
com cineastas internacionais, convidados especiais e “Cachaça Magnífica!”

Wladimir versus Rafael: não tem nem como comparar

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Quem lê o que escrevo sobre a gestão do prefeito Wladimir Garotinho (Ex-PSD, atualmente sem partido) já deve ter notado que sou um crítico de parte significativa de suas práticas e projetos, pois as considero aquém do que a cidade de Campos dos Goytacazes precisa e, mais ainda, merece.  Um dos problemas que vejo em particular é o uso exagerado das redes sociais pelo jovem prefeito campista, pois existem momentos em que um grau de recolhimento lhe cairia melhor do que a super exposição que as mesmas proporcionam.

Por outro lado, a ação desastrada de realizar uma eleição para a mesa diretora da Câmara de Vereadores vem proporcionando uma alavancagem a seus opositores (alguns deles com menos qualidades do que as já demonstradas por Wladimir).  Não sei quem teve a infeliz ideia de realizar essa eleição intempestiva, mas o tiro claramente saiu pela culatra, e rende uma dor-de-cabeça claramente desnecessária ao prefeito de Campos já que ele precisa perder tempo precioso com ações que não são aquelas pedidas pela maioria da população.

Mas se olharmos a dita oposição na Câmara de Vereadores, a maioria dos vereadores e partidos que oposição ao governo municipal passaram quatro anos sentados confortavelmente na condição de bancada governista do governo de Rafael Diniz, certamente o pior (e olha que tivemos governos bem ruins desde que cheguei na cidade em 1997) de que tenho memória.  O cinismo é tão grande que até figuras de proa do governo de Rafael Diniz tem colocado a cabeça de fora dos buracos de onde se esconderam para criticar as ações de um governo que faz a maioria da população ter uma amnésia gostosa em relação ao desastre que o governo de Rafael Diniz representou para a cidade.

Eu também chamaria a atenção para aqueles opositores dentro da chamada “sociedade civil organizada” que, como os vereadores, passaram os anos de Rafael Diniz firmemente presos nas tetas dos cofres municipais, sem que houvesse qualquer retorno palpável para qualquer setor que fosse (a não ser aquele em que eles estão inseridos). Agora que as torneiras aparentemente foram parcialmente fechadas, vê-se o retorno da crítica aos feitos do prefeito dos mesmos que em um passado recente ficaram calados.

Em outras palavras, em minha opinião Wladimir Garotinho realmente comete erros facilmente evitáveis e também exagera na autopromoção que resvala em uma arrogância contraproducente, mas está longe de representar o desastre e o estelionato eleitoral que Rafael Diniz foi. Aliás, se olharmos a distância entre promessas e ações de forma minimamente justa, chegaremos à conclusão de que a distância entre os dois prefeitos é estelar, já que Rafael Diniz foi o próprio estelionato eleitoral, tendo punido os mais pobres com medidas draconianas, a começar pelo fechamento do Restaurante Popular, que contradisseram totalmente a sua propaganda eleitoral.

Alguém poderá se perguntar o porquê de eu estar escrevendo uma postagem que aparentemente defende Wladimir Garotinho. Esclareço que não tenho porque defender o atual prefeito já que não estou nem próximo de pertencer ao grupo político dele, nem me alinho com sua linha ideológica de governar. A questão aqui é só lembrar que o governo anterior era infinitamente pior e que alguns dos detratores do atual governo eram parte orgânica dele. É preciso lembrar isso, pois “Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado.”

Finalmente, e falando em Rafael Diniz, por onde anda mesmo o jovem ex-prefeito (agora não tão jovem) depois que a população o retirou da cadeira na qual nunca deveria ter estar? Provavelmente pensando que nas próximas eleições municipais seus malfeitos já terão sido esquecidos, permitindo então a ele poder voltar a tentar a sorte em algum cargo eletivo. Quem viver, verá.

Rodovia que ligará Brasil ao Peru ameaça a área de maior biodiversidade da Amazônia

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Sérgio Vale / Agência de Notícias do Acre

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O projeto de construção de uma rodovia no Parque Nacional da Serra do Divisor, no Sudoeste do Acre, representa ameaça para a biodiversidade e a qualidade de vida da população indígena. É o que indica estudo de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), da Universidade Federal do Acre (UFAC) e da University of Richmond publicado na revista “Environmental Conservation” .

Considerado o local com maior biodiversidade da Amazônia, o Parque Nacional da Serra do Divisor atravessa cinco cidades brasileiras, entre elas Cruzeiro do Sul, que faz fronteira internacional com o Peru. Para entender como a região vem sendo explorada, os pesquisadores analisaram por imagens de satélite a dinâmica da mudança do uso do solo por 30 anos, entre 1988 e 2018. Os resultados revelam que o controle do Parque como Unidade de Conservação (UC) tem sido eficaz, pois nesse período o local perdeu apenas 1% da sua cobertura florestal, em comparação aos 10% do entorno.

Porém, o projeto viário do Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento (COSIPLAN), da União das Nações Sul-Americanas (UNASUL), que pretende conectar comercialmente o Acre à cidade peruana de Ucayali e aos portos do país vizinho, deverá cortar os Parques Nacionais nos dois países. Além de atravessar terras indígenas e zonas de narcotraficantes no Peru, a rodovia Pucallpa-Cruzeiro do Sul pode aumentar o desmatamento em áreas mais internas da Serra e propiciar a construção de outras vias secundárias. De acordo com a pesquisadora Sonaira Silva, essa via também trará outros prejuízos ambientais.

“O benefício econômico que o Governo justifica para a construção dessa rodovia é questionável, já que existe a Rota Interoceânica Sul (IOS) no leste do Acre, que liga Rio Branco aos portos do Pacífico no Peru desde o final de 2000. A construção dessa nova via pode trazer uma especulação imobiliária a região, criar polos de caças ilegal aos animais, aumentar a vulnerabilidade social da população locais e facilitar o tráfico de drogas na Amazônia”, comenta a professora da UFAC.

Outro ponto levantado no estudo é a reclassificação da Serra do Divisor de Unidade de Conservação (UC) para Área de Proteção Ambiental (APA), o que permitiria a extração de recursos naturais. O projeto de Lei 6024/2019 pretende colaborar com o avanço do trecho da BR-364 para se chegar até o Peru, bem como explorar comercialmente a região.

“Esse projeto precisa levar em conta também a opinião das 400 famílias que vivem na região do Parque e dependem dele para sobreviver. Abrir caminho da mata fechada vai trazer sérios impactos como aumento do desmatamento, a biodiversidade endêmica e todas as demais espécies e no próprio regime climático regional e continental”, alerta Sonaira.

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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

As mudanças climáticas forçarão novos encontros com animais – e aumentarão os surtos virais

O estudo de modelagem é o primeiro a projetar como o aquecimento global aumentará a troca de vírus entre as espécies

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Os morcegos terão uma grande contribuição para a transmissão de vírus entre espécies no futuro, segundo um estudo de modelagem. Crédito: Pratik Chorge/Hindustan Times via Getty

Por Natasha Gilbert para a Nature

Nos próximos 50 anos, as mudanças climáticas podem gerar mais de 15.000 novos casos de mamíferos transmitindo vírus para outros mamíferos, de acordo com um estudo publicado na Nature 1 . É um dos primeiros a prever como o aquecimento global mudará os habitats da vida selvagem e aumentará os encontros entre espécies capazes de trocar patógenos e quantificar quantas vezes os vírus devem saltar entre as espécies.

Muitos pesquisadores dizem que a pandemia de COVID-19 provavelmente começou quando um coronavírus anteriormente desconhecido passou de um animal selvagem para um humano: um processo chamado transmissão zoonótica. Um aumento previsto de vírus saltando entre espécies pode desencadear mais surtos, representando uma séria ameaça à saúde humana e animal, alerta o estudo – fornecendo ainda mais motivos para governos e organizações de saúde investirem na vigilância de patógenos e melhorarem a infraestrutura de saúde .

O estudo é “um primeiro passo crítico para entender o risco futuro das mudanças climáticas e do uso da terra na próxima pandemia”, diz Kate Jones, que modela as interações entre ecossistemas e saúde humana na University College London.

A pesquisa prevê que grande parte da transmissão do novo vírus acontecerá quando as espécies se encontrarem pela primeira vez à medida que se deslocam para locais mais frios devido ao aumento das temperaturas. E projeta que isso ocorrerá com mais frequência em ecossistemas ricos em espécies em altas altitudes, particularmente áreas da África e Ásia, e em áreas densamente povoadas por humanos, incluindo a região africana do Sahel, Índia e Indonésia. Supondo que o planeta não aqueça mais de 2°C acima das temperaturas pré-industriais neste século – um futuro previsto por algumas análises climáticas – o número de encontros pela primeira vez entre as espécies dobrará até 2070, criando pontos de transmissão de vírus, o estudo diz.

“Este trabalho nos fornece evidências mais incontestáveis ​​de que as próximas décadas não serão apenas mais quentes, mas mais doentes”, diz Gregory Albery, ecologista de doenças da Universidade de Georgetown em Washington DC e coautor do estudo.

Os desafios da modelagem

Para fazer suas previsões, Albery e seus colegas desenvolveram e testaram modelos e realizaram simulações durante um período de cinco anos. Eles combinaram modelos de transmissão de vírus e distribuição de espécies em vários cenários de mudanças climáticas, com foco em mamíferos devido à sua relevância para a saúde humana.

A modelagem parece “tecnicamente impecável”, diz Ignacio Morales-Castilla, ecologista de mudanças globais da Universidade de Alcalá, na Espanha, embora ele aponte que exercícios de previsão como esse às vezes precisam incluir suposições irreais. Mas ele acrescenta que a amplitude e o escopo da pesquisa e sua capacidade de identificar quais partes do mundo podem estar em maior risco “se destacam claramente”.

Uma suposição que os pesquisadores tiveram que fazer foi sobre até onde as espécies se espalhariam à medida que o clima mudasse. Mas fatores como se os mamíferos podem se adaptar às condições locais ou atravessar fisicamente as barreiras nas paisagens são difíceis de prever.

Projeta-se que os morcegos estejam envolvidos na transmissão viral, independentemente desses fatores, segundo o estudo. Acredita-se que seja parte das origens do COVID-19, os morcegos são reservatórios conhecidos de vírus e representam cerca de 20% dos mamíferos. A equipe diz que – em parte porque os morcegos podem voar – eles são menos propensos a enfrentar barreiras para mudar seus habitats.

Repercussões para os humanos?

Embora Jones aplauda o estudo, ela pede cautela ao discutir suas implicações para a saúde humana. “Prever o risco de saltos virais de mamíferos para humanos é mais complicado, pois esses transbordamentos ocorrem em um ambiente socioeconômico complexo ecológico e humano”, diz ela.

Muitos fatores podem reduzir o risco para a saúde humana, incluindo o aumento do investimento em saúde ou um vírus incapaz de infectar humanos por algum motivo, acrescenta ela.

Mas os pesquisadores insistem que não há tempo a perder. A Terra já aqueceu mais de 1°C acima das temperaturas pré-industriais, e isso está impulsionando a migração de espécies e a troca de doenças. “Está acontecendo e não é evitável, mesmo nos melhores cenários de mudança climática”, diz Albery.

Albery e um de seus coautores, Colin Carlson, biólogo de mudanças globais também na Universidade de Georgetown, dizem que, embora seja inevitável algum aumento na transmissão de doenças, isso não é desculpa para inação. Os pesquisadores pedem aos governos e à comunidade internacional que melhorem o monitoramento e a vigilância de animais selvagens e doenças zoonóticas, particularmente em futuros pontos críticos como o sudeste da Ásia. Melhorar a infraestrutura de saúde também é essencial, dizem eles.

À medida que as pessoas começam a se preparar e se adaptar ao aquecimento global, a maioria dos esforços se concentra em atividades como deter o desmatamento ou reforçar os muros marítimos. Mas Carlson diz que a preparação para pandemias e a vigilância de doenças também são adaptação às mudanças climáticas.

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-022-01198-w

Referências

  1. Carlson, CJ et ai. Natureza https://doi.org/10.1038/s41586-022-04788-w (2022).


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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pela revista Nature [Aqui! ].

A Terra está ficando sem solos, conclui estudo da ONU

De acordo com um relatório recente da ONU, 40% da área de terra foi danificada

solos secosCampo seco na Somália: Consequência da terceira seca severa em uma década. Foto: dpa/XinHua

Por Christoph Müller para o Neues Deutschland

A menor das três convenções do Rio apresentou seu relatório de status nesta quarta-feira. Estamos falando da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), que, como a Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas e a Convenção das Nações Unidas para a Proteção das Espécies, foi estabelecida em 1992 na Cúpula da Terra no Rio de Janeiro. A UNCCD foi assinada em Paris em 1994. O principal objetivo é combater a desertificação e mitigar os efeitos da seca nos países severamente afetados pela seca e/ou desertificação , particularmente em África , através de medidas eficazes a todos os níveis, de forma a contribuir para alcançar o desenvolvimento sustentável nas áreas afetadas. .

À semelhança das outras duas convenções, a UNCCD está em má situação na sua área temática. O novo relatório, intitulado “Global Land Outlook”, mostra que 70% da área terrestre da Terra já foi modificada por humanos e 40% da área terrestre foi degradada e, portanto, não é tão fértil quanto era originalmente. Metade da humanidade é agora afetada por este problema.

O principal culpado pelo mau estado do solo é a agricultura, diz o chefe da UNCCD, Ibrahim Thiaw. “Precisamos urgentemente repensar nossos sistemas alimentares globais, que são responsáveis ​​por 80% do desmatamento e 70% do consumo de água doce e são a maior causa de perda de biodiversidade em terra”. Se isso acontecesse, disse Thiaw, outros 12% do solo do mundo seriam degradados até 2050, uma área do tamanho da América do Sul. Além disso, até então outros 253 bilhões de toneladas de CO2 seriam emitidos pela perda de carbono do solo, desmatamento e drenagem de áreas úmidas. Isso corresponde às emissões atuais do mundo em cinco anos e meio.

O relatório descreve duas alternativas para esse cenário: Na primeira, a qualidade do solo é especificamente melhorada em uma área de 50 milhões de quilômetros quadrados. Isso corresponde a um bom terço da área terrestre do nosso planeta e é cinco vezes a área que os países querem reparar de acordo com seus planos anteriores. Isso é possível sem arar, árvores nos campos e pastagens, melhor gestão das pastagens e medidas para prevenir a erosão do solo. Isso melhoraria a fertilidade do solo em cinco a dez por cento na maioria dos países em desenvolvimento. Além disso, o solo e seu uso se tornariam um sumidouro líquido de CO2. Apesar de uma nova diminuição na cobertura florestal, mais 62 bilhões de toneladas de carbono são armazenadas no solo e na vegetação. No entanto, devido à expansão das terras agrícolas e das cidades, a biodiversidade ainda diminuiria.

Na segunda alternativa, mais quatro milhões de quilômetros quadrados são colocados sob proteção – áreas com biodiversidade particularmente alta e áreas de especial importância para a regulação da água ou outros “serviços ecossistêmicos”. No entanto, essa expansão das áreas protegidas na área da Índia e do Paquistão seria à custa da produção de alimentos. Nas terras agrícolas restantes, os rendimentos teriam, portanto, de ser aumentados em nove por cento, e os alimentos provavelmente se tornariam mais caros. Para o clima, por outro lado, seria uma grande vantagem, pois permitiria ligar o equivalente a 304 bilhões de toneladas de carbono adicional. Isso corresponde às emissões globais atuais de quase sete anos. No entanto, a biodiversidade ainda diminuiria, embora em um terço a menos do que com “mantenha-o”.

No entanto, as duas alternativas não são baratas. A restauração de apenas dez milhões de quilômetros quadrados custa cerca de 160 bilhões de dólares por ano. Uma estimativa para os custos de um aumento de cinco vezes nesta área não está disponível. Ainda assim, seria um dinheiro bem gasto: os autores estimam que, para cada dólar investido, haverá um benefício entre US$ 7 e US$ 30. Thiaw disse: “Investir na restauração de terras em grande escala é uma solução vantajosa para todos. É uma vitória para o meio ambiente, para o clima, para a economia e para a subsistência das comunidades locais.”


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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Intoxicação por agrotóxicos mata um brasileiro a cada 2 dias

Relatório afirma que empresas agroquímicas europeias já gastaram cerca de 2 milhões de euros em apoio ao lobby do agronegócio no Brasil. Aliança deu frutos: uso de agrotóxicos no país se multiplicou por seis em 20 anos

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A cada dois dias, uma pessoa morre por intoxicação de agrotóxicos no Brasil – cerca de 20% dessas vítimas são crianças e adolescentes de até 19 anos. O dado consta num relatório publicado nesta quinta-feira (28/04) pela rede ambientalista Friends of the Earth Europe.

A pesquisa da entidade europeia, que reúne uma série de organizações, mapeia a aliança entre empresas agroquímicas europeias – como Bayer e Basf – e o lobby do agronegócio brasileiro.

Segundo o texto, os esforços conjuntos desses dois atores para promover o livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE) “causaram danos significativos à saúde das pessoas e ao meio ambiente no Brasil”.

“Corporações europeias como Bayer e Basf, que são os principais fabricantes europeus de agrotóxicos, têm promovido o acordo comercial UE-Mercosul por meio de grupos de lobby. Seu lobby tem procurado aumentar o acesso ao mercado de alguns de seus agrotóxicos mais nocivos ao unir forças com associações do agronegócio brasileiro. Ao fazer isso, eles apoiam uma agenda legislativa que visa minar os direitos dos indígenas, remover salvaguardas ambientais e legitimar o desmatamento”, diz a Friends of the Earth Europe no documento.

Segundo o relatório, grupos que representam a Bayer, a Basf e a Syngenta já gastaram cerca de 2 milhões de euros para apoiar o lobby do agronegócio no Brasil.

E esse lobby financiado por empresas europeias deu frutos: o uso de agrotóxicos em território brasileiro se multiplicou por seis nos últimos 20 anos, afirma o relatório.

Somente em 2021, foram aprovados 499 novos  agrotóxicos no país, um número recorde. Além disso, a Bayer e a Basf tiveram, juntas, 45 novos agrotóxicos aprovados no Brasil durante o governo de Jair Bolsonaro, sendo que 19 deles contêm substâncias proibidas na UE.

“Como se bastasse manchar os pratos europeus com glifosato, a Bayer vem operando uma ofensiva agressiva de lobby no Brasil para promover agrotóxicos que são mortais demais para a União Europeia”, afirma Audrey Changoe, especialista em comércio da Friends of the Earth Europe e uma das autoras do estudo, ao lado da brasileira Larissa Bombardi, professora da USP e especialista em agrotóxicos no Brasil.

“Licença para envenenar”

O relatório assinado pelas duas especialistas afirma que grandes corporações europeias fabricantes de agrotóxicos se beneficiam das “regulações ambientais fracas do Brasil” e, além disso, também trabalham com o agronegócio brasileiro para moldar como essas leis são escritas.

Segundo o texto, a agenda do agronegócio se reflete no Congresso brasileiro por meio da bancada ruralista, “notória por pressionar para enfraquecer a legislação ambiental e de pesticidas e desmantelar órgãos governamentais responsáveis pela proteção do meio ambiente”. “As empresas da UE estão apoiando esse bloco e, por sua vez, facilitando sua agenda”, diz o relatório.

“Nossas descobertas são alarmantes: uma legislação ainda mais fraca no Brasil dará à Bayer uma licença para envenenar a natureza e as comunidades rurais que já sofrem com a agricultura intensiva de pesticidas”, completa Changoe.

O documento lembra que a bancada ruralista é aliada próxima do governo Bolsonaro e endossou sua candidatura em 2018. A organização também acusa o atual governo de criminalizar a sociedade civil e os movimentos sociais que lutam contra o uso de agrotóxicos – o que faz aumentar ainda mais o poder político de grandes corporações europeias.

Acordo UE-Mercosul

O relatório se posiciona de forma contrária à ratificação do acordo comercial UE-Mercosul – fechado após duas décadas de negociações –, que aumentaria as exportações de produtos agrícolas para a Europa e as importações de agroquímicos para os países do Mercosul – especialmente para o Brasil, que é o maior exportador mundial de soja.

“Embora o acordo traga oportunidades para as empresas agroquímicas que operam na UE, incluindo a Bayer e a Basf, também corre o risco de exacerbar os danos devastadores causados à natureza e às comunidades locais, incluindo os povos indígenas, cujo modo de vida e os direitos à terra são atacados pelo agronegócio brasileiro”, diz o texto.

Segundo o relatório, o acordo vem num momento em que “os sinais da perda dramática da biodiversidade global relacionada ao uso de pesticidas se tornam cada vez mais evidentes”.

A organização ressalta que, se o pacto comercial for ratificado, as tarifas sobre agroquímicas serão reduzidas em até 90%, levando a um provável aumento da exportação de pesticidas perigosos da UE aos países do Mercosul, incluindo alguns proibidos na Europa devido ao risco que representam à saúde humana e ao meio ambiente.

Segundo o texto, o acordo também deve impulsionar as exportações de produtos como soja, cana-de-açúcar e etanol derivado da cana, que dependem fortemente de agrotóxicos, bem como de carne bovina e aviária, que dependem da soja como ração animal, aumentando ainda mais o uso de pesticidas. “Esses produtos agrícolas também estão ligados ao desmatamento e à destruição da biodiversidade, bem como à violação dos direitos indígenas”, reitera o relatório.

A Friends of the Earth Europe afirma, assim, que o comércio promovido pelo pacto está “fundamentalmente em desacordo” com outras metas ambientais do bloco europeu, e pede que os Estados-membros da UE rejeitem o acordo com o Mercosul, “se afastem de promover o modelo de monocultura com uso intensivo de agrotóxcios” e “apoiem abordagens de agricultura mais sustentáveis, amigas da natureza e centradas em pessoas”.

O relatório pede ainda que a União Europeia introduza uma proibição imediata das importações de itens com resíduos de produtos químicos que já são proibidos na própria UE.

“A União Europeia tem a responsabilidade de parar o comércio tóxico UE-Mercosul agora”, conclui Audrey Changoe, uma das autoras do relatório.

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Este texto foi originalmente publicado pela Deutsche Welle Brasil [Aqui!].

IMTT reduz ciclovia e afunda Campos dos Goytacazes no passado

A cidade de Campos dos Goytacazes, especialmente a parcela que precisa sair de casa para trabalhar sem dispor de veículo próprio, está sob os efeitos dramáticos do colapso no serviços públicos de transporte. Nesse contexto de caos consentido pelo governo municipal, o que fazem os técnicos do IMTT? Optam pelo impensável ao reduzir o espaço disponível para as bicicletas para dar mais espaço para os automóveis (ver imagem abaixo mostrando a redução de um parte da “Ciclovia Patesko”).

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Aí é que eu digo: para que tentar modernizar e democratizar os acessos à cidade, se você pode afundá-la ainda mais na desigualdade e no atraso? Para que pensar em aproveitar as potencialidades que o terreno nos oferece e apoiar o transporte por bicicletas, se é possível caminhar no passo do siri para fincar a cidade de Campos dos Goytacazes no passado?

Florestas tropicais cruciais foram destruídas a uma taxa de 10 campos de futebol por minuto em 2021

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Um barco em alta velocidade no rio Jurura, no coração da Floresta Amazônica brasileira, em 15 de março de 2020. A maior porção floresta tropical perdida em 2021 passado foi no Brasil

Por Angela Dewan para a CNN

(CNN)A área de floresta tropical destruída em 2021 foi suficiente para cobrir toda a ilha de Cuba e enviou mais dióxido de carbono para a atmosfera do que a Índia faz em um ano inteiro com a queima de combustíveis fósseis, segundo uma análise publicada quinta-feira.

Cerca de 11,1 milhões de hectares (cerca de 43.000 milhas quadradas) de floresta foram destruídos, predominantemente por extração de madeira e incêndios, segundo a análise do Global Forest Watch do World Resources Institute e da Universidade de Maryland. Parte desses incêndios foram deliberadamente iniciados para limpar a terra e muitos foram exacerbados pelas mudanças climáticas.

Perda de floresta primária tropical

Perda de floresta primária tropical

A perda foi menos severa do que em 2020, mas o desmatamento ainda está ocorrendo em um ritmo alarmante nos trópicos. Da área perdida, 3,75 milhões de hectares eram de floresta tropical primária – às vezes chamada de floresta virgem – o equivalente a 10 campos de futebol por minuto, informou o WRI.

As florestas tropicais primárias, em particular, são cruciais para o equilíbrio ecológico do planeta, fornecendo oxigênio que sustenta a vida e como hotspots de biodiversidade.

Eles também são ricos em carbono armazenado e, quando essas florestas são derrubadas ou queimadas, liberam dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, contribuindo para o aquecimento global. A destruição da perda de floresta tropical primária por si só emitiu 2,5 gigatoneladas de CO2 no ano passado, comparável às emissões da queima de combustível fóssil na Índia, que é o terceiro maior emissor de gases de efeito estufa do mundo.

“O que é importante entender é que as florestas, especialmente as tropicais, fazem parte do sistema climático global”, disse Frances Seymour, membro sênior do WRI, à CNN. “Então, eles não são dispositivos mecânicos de armazenamento de carbono, eles realmente influenciam a transferência de energia e o teor de umidade da atmosfera de maneiras que afetam as chuvas, que afetam os padrões de circulação global”.

Os incêndios também estão desempenhando um papel cada vez maior na perda de florestas tropicais. Seymour disse que há um efeito composto entre o desmatamento e as mudanças climáticas.

“Quando o desmatamento acontece, quando as florestas são perdidas, ele não apenas contribui com carbono para a atmosfera, mas também interrompe os padrões de chuva e aumenta as temperaturas locais de maneira que, por exemplo, tornam as florestas remanescentes mais vulneráveis ​​ao fogo e às condições mais quentes e secas que vêm com a mudança climática”, disse Seymour.

A análise olhou principalmente para as florestas tropicais – que podem ser encontradas em países do Brasil à Indonésia e República Democrática do Congo (RDC) – porque mais de 96% do desmatamento, ou remoção de cobertura florestal causada pelo homem, ocorre lá.

As descobertas foram baseadas em imagens de satélite que avaliaram como a cobertura de árvores mudou ao longo do tempo. A perda de cobertura de árvores, ou dossel, nos trópicos, muitas vezes significa que a floresta foi destruída. Em outros países, onde a extração de madeira é menos comum, pode significar que as copas das árvores são destruídas, como no caso de um incêndio, mas a floresta permanece intacta.

No entanto, as florestas boreais – que são encontradas em climas particularmente frios, inclusive na Rússia, Canadá e Alasca – sofreram sua maior perda de cobertura de árvores registrada no ano passado. Mais de 8 milhões de hectares foram perdidos, um aumento de quase um terço em relação a 2020.

Isso se deve em grande parte porque a Rússia experimentou incêndios particularmente graves, perdendo 6,5 milhões de hectares de cobertura de árvores.

Esses incêndios podem causar o que os cientistas chamam de ciclos de feedback, “nos quais incêndios crescentes levam a mais emissões de carbono, o que leva a um clima mais quente e seco, o que leva a mais incêndios e assim por diante”, diz a análise.

Nos trópicos, mais de 40% da perda florestal no ano passado ocorreu no Brasil. Cerca de 1,5 milhão de hectares de floresta no país foram varridos do mapa, principalmente da Amazônia. Isso é mais de três vezes a RDC, que perdeu a segunda maior quantidade de floresta.

Se a Amazônia atingir o ponto de inflexão, as metas climáticas ‘explodirão da água’

No Brasil, um dos principais impulsionadores do desmatamento é a expansão agrícola, que aumentou 9% entre 2020 e 2021.

A análise do WRI alerta que a perda de floresta está empurrando a Amazônia para um ponto de inflexão, onde não poderá mais servir como um dos sumidouros de carbono mais importantes do mundo e pode até se tornar um emissor líquido de CO2. A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo e desempenha um papel crucial na biodiversidade, regulando o clima e fornecendo serviços ecossistêmicos para milhões de pessoas que vivem lá.

Se esse ponto de inflexão for ultrapassado, as tentativas do mundo de conter o aquecimento global a 1,5-2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais – conforme estabelecido no Acordo de Paris de 2015 – seriam “explodidas pela água”, disse Seymour.

Pontos críticos de perda de floresta primária no Brasil

Pontos críticos de perda de floresta primária no Brasil

Em meio a suas descobertas preocupantes, a análise deu alguns motivos para otimismo. Indonésia e Malásia, que por décadas lutaram contra o desmatamento desenfreado, viram uma redução na quantidade de cobertura florestal que perde anualmente por cinco anos consecutivos. Na Indonésia, a quantidade de floresta perdida caiu 25% no ano passado.

Este é um sinal de que os compromissos corporativos e as ações governamentais estão funcionando, de acordo com Hidayah Hamzah, Gerente Sênior de Monitoramento de Florestas e Turfas do WRI na Indonésia.

“Isso indica que os compromissos corporativos e as ações do governo estão claramente funcionando”, disse ela a jornalistas em um briefing. “A Indonésia está indo na direção certa para cumprir alguns de seus compromissos climáticos.”

A Malásia, no entanto, já perdeu um quinto de sua floresta tropical primária desde 2001 e até um terço desde a década de 1970.

Hamzah acrescentou que o sucesso da Indonésia se deve em parte à moratória do governo nas licenças de extração de madeira para florestas primárias e turfeiras, bem como ao melhor monitoramento de incêndios. Uma política chamada NDPE — No Deforestation, No Peatland, No Exploitation — cobre agora mais de 80% da capacidade de refino de óleo de palma na Indonésia e Malásia, que são os maiores exportadores mundiais de óleo, e mais de 80% da celulose e indústria de papel na Indonésia.

Mas o WRI também adverte que, à medida que os preços do óleo de palma atingirem a máxima de 40 anos, as florestas desses países poderão ficar sob pressão crescente. A Indonésia também suspendeu o congelamento temporário de novas licenças para plantações de óleo de palma.

Embora tenha havido uma redução geral na perda de cobertura de árvores no ano passado, a melhoria anual não é consistente o suficiente para cumprir os compromissos globais, incluindo uma declaração assinada por mais de 140 países nas negociações climáticas em Glasgow no ano passado para “deter e reverter a perda de florestas até 2030 .”

Seymour também alertou contra confiar demais nas florestas para compensar as emissões de gases de efeito estufa, dizendo que empresas e países deveriam usá-las para ir além dos esforços de descarbonização – reduzindo drasticamente o uso de combustíveis fósseis – ou para compensar emissões impossíveis de cortar com tecnologia atual.

O setor aéreo é um exemplo, pois a tecnologia para voar sem carbono ainda não existe em escala.

“Então, sim, queremos que eles reduzam essas emissões o mais rápido possível e invistam em novas tecnologias que permitirão voos sem carbono, mas, enquanto isso, são emissões ‘ininterruptas’”, disse ela. “E compensar aqueles com a compra de créditos de carbono pode fornecer uma fonte de financiamento que precisamos desesperadamente para incentivar a proteção das florestas do mundo”.


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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pela “CNN” [Aqui!].

A Natureza é política: a crítica social é insuficiente se não contém uma crítica das relações sociais com a Natureza

A crítica social é insuficiente se não contém uma crítica das relações sociais com a natureza. Isso é mostrado por escritos marxistas como a Teoria Crítica, que tentaram superar a suposta oposição entre o ecológico e o social

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Por Ralf Hutter para o Neues Deutschland

Uma suposta contradição entre ecológico e social surge repetidamente nos discursos políticos. Uma variante disso é que os partidos que constantemente buscam políticas pró-corporativas em detrimento dos pobres supostamente apoiam esses pobres em algumas questões para evitar mais ecologia. O candidato a chanceler dos partidos da União, Armin Laschet, se manifestou a favor dos voos baratos de férias na última campanha eleitoral federal na Alemanha. Mas esse contraste tem uma certa justificativa histórica. Por um lado, as formas dominantes de marxismo não se caracterizavam pela motivação ecológica. Os estados socialistas, como os capitalistas, dependem de fontes de energia fóssil, usinas nucleares e outras tecnologias de grande escala. É por isso que também houve desastres ambientais na República Democrática da Alemanha, cujas consequências ainda podem ser sentidas e são caras hoje. Os ecos, por outro lado, reclamam muito dos problemas ambientais e outros, mas para remediar a situação, a cena tradicionalmente se limita a apelos e soluções de mercado. Na Alemanha, a consciência ecológica também está ligada ao significado histórico do Romantismo, o que significa que alguns ambientalistas são francamente anti-socialistas ou, pelo menos, apolíticos.

No entanto, os problemas ecológicos e sociais fundamentais não devem ser separados. Qualquer um que veja o capitalismo principalmente como um problema de justiça entre as pessoas as separa da Natureza. No entanto, a loucura capitalista sempre afetou fundamentalmente a Natureza, inclusive a dos humanos. Não só prejudica ambos ao mesmo tempo, mas também molda sua própria natureza, mesmo para aquelas pessoas que tendem a estar entre os beneficiários do capitalismo. Famosos críticos sociais, conhecidos por suas análises anticapitalistas, certamente afirmaram isso – pouco se sabe sobre isso. Seguindo Karl Marx, Herbert Marcuse, Max Horkheimer e Theodor W. Adorno, minha tese principal é, portanto: a crítica social é insuficiente se não contém uma crítica das relações sociais com a Natureza.

Limites materiais do capitalismo

Uma das críticas mais difundidas do mundo à sociedade burguesa vem de Karl Marx. No entanto, ele não é famoso como conservacionista. Muito pelo contrário: ele sempre foi acusado de ser um otimista irrefletido sobre progresso e tecnologia, principalmente por causa de escritos anteriores, como o »Manifesto do Partido Comunista«. Foi assim que muitos partidos marxistas o interpretaram, embora sem reprovação. Em 2016, o cientista Kōhei Saitō publicou um livro baseado em sua tese de doutorado chamado »Natureza versus Capital«, que enfatiza fortemente uma perspectiva diferente.

Saitō afirma nada menos que, no curso da vida de Marx, a crítica ecológica tornou-se uma parte indispensável de sua crítica da economia política. Marx não conseguiu mais publicar os volumes dois e três do próprio Das Kapital; Friedrich Engels os compilou dos manuscritos após sua morte. Saitō aponta que inúmeros excertos que Marx fez durante suas leituras abrangentes vêm dos últimos dez anos de sua vida e ainda não foram devidamente apreciados, alguns dos quais nem sequer foram publicados. Depois de ler esses arquivos, ele chega à conclusão de que em sua obra tardia Marx “muito provavelmente teria enfatizado a crise ecológica como a contradição central do capitalismo”.

Essa frase é explosiva porque muitos marxismos sempre seguiram a tese de que a contradição entre capital e trabalho é a central. Marx tratou extensivamente das ciências naturais e, já na década de 1860, houve críticas ao uso capitalista dos recursos planetários. O químico Justus von Liebig, por exemplo, afirmou na época que o uso crescente de fertilizantes artificiais mais cedo ou mais tarde esgotaria o solo e, portanto, não era sustentável. Especialistas também publicaram análises críticas sobre silvicultura insustentável, queima de carvão e aquecimento global. Marx os seguiu.

De acordo com Saitō, a noção de “metabolismo” tornou-se uma categoria central na obra tardia de Marx. O capitalismo intervém no metabolismo com sua flagrante exploração de tudo e de todos de forma inédita. Isso afeta não apenas plantas e animais, mas também pessoas. Como o solo, ele também se esgota quando a lógica impiedosa da exploração do capital e a lógica da matéria, neste caso a constituição humana, colidem. A competição capitalista força as empresas a deixar jovens e velhos escravos até a última fibra muscular – ou hoje em dia: ao esgotamento psicológico.

Uma condição constitutiva do regime capitalista foi a expulsão de um grande número de humanos de suas terras agrícolas compartilhadas, um grau de separação da natureza não humana. Eles então tiveram que se contratar para firmas capitalistas, onde lhes foi negada a capacidade de atender às necessidades da natureza humana: recreação física e mental, nutrição adequada, relações sociais no trabalho, trabalho significativo. No entanto, mais cedo ou mais tarde o capitalismo, que tudo saqueia e explora, atingirá seus limites materiais. Ele não pode tornar permanentemente a natureza dócil a si mesmo, nem mesmo a natureza humana. Marx, portanto, viu esses limites intransponíveis como a base da resistência. Em resumo: a natureza tornou-se um mero objeto de disposição sem direito próprio, uma matéria-prima supostamente infinitamente explorável. Mas isso também é dirigido contra a grande maioria das pessoas, porque as pessoas também são natureza.

Libertação da natureza interior

O impacto paralelo do capitalismo nos seres humanos e na Natureza é o tema do livreto “A Libertação da Natureza”, que o professor de filosofia aposentado Ulrich Ruschig publicou em 2020. De acordo com seu próprio depoimento, ele é provavelmente o primeiro a realizar uma análise sistemática do texto “Natureza e Revolução” contido no livro “Contrarrevolução e Revolta” de Herbert Marcuse, de 1972. Marcuse dedicou sua vida a conectar a crítica marxista do capitalismo com a psicanálise de Sigmund Freud e foi um dos principais intelectuais das revoltas antiautoritárias dos anos 1960 e 1970, tanto nos EUA quanto na Europa. Em uma de suas palestras para estudantes em 1977, o filósofo revolucionário destacou que os novos movimentos políticos praticavam a “política de primeira pessoa”. Isso significa que eles lidaram com o que o capitalismo moderno fez a si mesmos, seus pensamentos e sentimentos, a fim de se libertarem disso, tornando-se conscientes disso. Essa era uma das principais preocupações de Marcuse: a estimulação e liberação de instintos positivos nas pessoas, a luta contra os mecanismos internalizados de repressão na sociedade moderna de terror de atuação. 

A perspectiva psicanalítica considera os seres humanos não apenas como seres sociais, mas também como seres naturais. a luta contra os mecanismos internalizados de opressão da sociedade moderna de terror de atuação. A perspectiva psicanalítica considera os seres humanos não apenas como seres sociais, mas também como seres naturais. a luta contra os mecanismos internalizados de opressão da sociedade moderna de terror de atuação. A perspectiva psicanalítica considera os seres humanos não apenas como seres sociais, mas também como seres naturais.

O teórico das pulsões suprimidas foi um dos primeiros filósofos e marxistas a se voltar para o emergente movimento ecológico. Marcuse espera que aqueles que querem acabar com a opressão da natureza externa também lutem pela libertação da natureza interna. Na luta contra o capitalismo, via a natureza como aliada do homem, pois ambos estão unidos por um desejo de vida, um potencial de desenvolvimento. Assim como Marx, Marcuse não apenas criticou o fato de que a natureza pode ser propriedade privada, mas também que o capital ataca a natureza em sua essência. Ulrich Ruschig escreve sobre isso em linguagem acadêmica, mas sua raiva pela pecuária industrial fornece um esclarecimento que Marcuse ainda não foi capaz de fornecer. »O processo de exploração se transforma em um ataque à vida específica da espécie.«

De acordo com Ruschig, galinhas poedeiras, galinhas de engorda e vacas nunca veem a luz do dia na pecuária industrial porque isso prejudicaria sua produtividade. É bem conhecido: os porcos não podem correr porque deveriam engordar. As galinhas realmente querem correr, bicar e arranhar, não ficar o dia todo e comer fora das máquinas. As vacas não querem produzir leite o tempo todo. As necessidades básicas específicas da espécie de todos esses animais são massivamente suprimidas ao longo de suas vidas, porque são uma das barreiras materiais à valorização do capital que Marx quis dizer. As vacas leiteiras ficam exaustas depois de alguns anos e morrem muito mais cedo do que seria normal. Além disso, as espécies animais são criadas de forma perversa para que certas partes do corpo, como o peito de frango, fiquem particularmente gordas.

Indo além de Ruschig e Marcuse, dada a luta capitalista contra o comportamento específico da espécie, devemos nos perguntar o quão apropriado esse sistema econômico realmente é para nós. E o que ainda poderá fazer em relação a nós. Um exemplo: a compulsão capitalista de explorar e o amplo distanciamento das atividades econômicas das condições naturais de fronteira levaram a um grande grau de uniformidade na organização do trabalho. É de acordo com o princípio industrial que quase não há diferença entre uma semana de trabalho e outra ao longo do ano. Estresse constante, falta de sono, trabalho noturno e afins não são saudáveis ​​e podem até promover o câncer. Antigamente era assim: o verão e o outono podiam ser agitados e cheios de dificuldades, mas o inverno era uma época de descanso, as pessoas se regeneravam.

Dialética da iluminação irrefletida

Você tem que olhar para o capitalismo e o que ele está fazendo conosco da perspectiva da relação homem-natureza. No entanto, a visão aguçada pode ir ainda mais longe e ser direcionada para outros fenômenos sociais. Isso é demonstrado por uma das obras mais famosas da história da filosofia de língua alemã: »Dialética do Iluminismo« de Max Horkheimer e Theodor W. Adorno. A coleção de textos, que foi publicada em 1947, mas recebeu pouca atenção por muitos anos, oferece uma tentativa de explicar o nacional-socialismo. Os autores, filósofos de formação, fizeram um passeio pela história da filosofia européia para ver o que havia dado errado, de modo que, após a época do chamado Iluminismo, foi possível uma recaída no fascismo e no assassinato em massa. Seu diagnóstico: A alienação da natureza teve consequências fatais.

Um conceito central do livro é o “domínio da natureza”. Critica-se que, embora o esclarecimento se destinasse a libertar as pessoas de restrições, criou novas prisões. Tratava-se da autoafirmação do homem em relação à natureza, pela qual a natureza foi constitutivamente desvalorizada. Pioneiros como René Décartes e Immanuel Kant decretaram que todos os objetos são sem sentido e acidentais, significando que o significado e a racionalidade só surgem no sujeito humano. Em um ato megalomaníaco, as pessoas se opõem à natureza, mesmo fazendo parte dela. Isso se relaciona não apenas à nossa dependência de equilíbrios ecológicos, mas também às necessidades e aos traços humanos que comumente chamamos de irracionais. Se o homem projeta sua relação com a natureza principalmente como uma relação de dominação, ele também suprime uma parte de si mesmo.Esse tipo de iluminação leva à alienação do exterior, bem como da própria natureza interior, ou seja, à abnegação. A hostilidade em relação ao corpo humano foi frequentemente criticada na história intelectual europeia recente, o que, aliás, também levou a uma desvalorização das mulheres, visto que elas eram vistas como mais ligadas ao corpo do que os homens.

Horkheimer e Adorno viam uma dialética de dominar a natureza e ser viciado na natureza, porque “natureza” tinha um segundo significado para eles: também representava a violência brutal e, por assim dizer, sem sentido da luta pela sobrevivência, palavra-chave “comer e comer”. ser comido.” Enquanto o capitalismo prevalecer, entretanto, restrições semelhantes são socialmente institucionalizadas pela competição. Um esclarecimento impensado, que se preocupa principalmente com o controle e a disponibilidade técnica do ambiente não humano, que se distancia, portanto, desesperadamente da chamada natureza, acaba por levar à submissão total aos princípios naturais primitivos ou, como se diria hoje: a restrições práticas. O Iluminismo, na verdade, visava aumentar a razão subjetiva individual.

Aqui os autores da Dialética do Iluminismo chegam ao fascismo. É digno de nota que Horkheimer e Adorno desembarcam no tema do domínio da natureza em suas pesquisas sobre as causas. Isso soa um pouco esotérico, mas esses dois filósofos eram marxistas anti-esotéricos. Eles viam uma conexão entre a dominação da natureza, a dominação social e a dominação internalizada pelas pessoas. Em condições capitalistas, isso leva a um imenso retrocesso: a maquinaria estabelecida pela humanidade para dominar a natureza se volta contra si mesma na guerra mundial e nas câmaras de gás, e é usada como instrumento de assassinato. Em contraste, Horkheimer e Adorno exigiam uma reconciliação com a natureza, o que significa duas coisas: primeiro, o reconhecimento de sua independência, que inclui tanto o dever moral não explorá-los, bem como a consciência de que não podemos controlá-los completamente. E em segundo lugar, nós mesmos, mesmo como pessoas iluminadas e, portanto, necessariamente em certo contraste com a natureza, devemos estar cientes de que não existimos independentemente dela.

Desastres sociais naturais

A “dialética do esclarecimento” de Horkheimer e Adorno levou a debates filosóficos de longo alcance. Os capítulos de livros sobre a indústria cultural e sobre o antissemitismo são considerados textos básicos em certos meios acadêmicos. O que é surpreendente, no entanto, é que este trabalho dificilmente é tratado pelo que é: a base para uma ecologia radical. Uma das exceções é o cientista político Christoph Görg. Em texto publicado em 2003, defendeu que a construção simbólica da natureza na sociedade civil, que se dá por meio de uma linha divisória fundamental entre as duas, leva a uma relação um tanto paranóica com a natureza: ou estamos sujeitos a ela ou nos submetemos a ela . 

Essa afirmação se encaixa muito bem no que estamos vivenciando desde março de 2020. Este pesadelo social tornado realidade é a melhor ilustração e endosso que o livro de Horkheimer e Adorno já recebeu. Em primeiro lugar, trata-se da mediação mútua da sociedade e da natureza. Tal como acontece com a mudança climática, o suposto desastre natural causado pelo coronavírus é gerado socialmente. Especialistas apontam há muitos anos que a pecuária industrial e o avanço da agricultura em áreas naturais intocadas levam repetidamente a novos vírus perigosos.

Os efeitos das epidemias dependem, então, da qualidade dos sistemas de saúde e dos lares de idosos, como já foi demonstrado em uma comparação de países da Europa. Segundo estudos científicos, a poluição atmosférica permanente também aumentou a mortalidade por COVID-19. E cerca de metade dos fatores de risco pessoais pertinentes em muitas pessoas vêm da má nutrição, são as doenças conhecidas pelas quais a indústria alimentícia é a principal culpada: obesidade, doenças cardiovasculares, pressão alta, diabetes. O vírus é, portanto, o veículo de outro assassinato em massa no registro do capitalismo. Não é primariamente um caso da Natureza contra o Homem, mas uma catástrofe socialmente projetada. Corresponde à dialética do esclarecimento quando as causas sociais não são abordadas e uma epidemia é considerada como destino, assim como tudo na história humana foi considerado como destino.  

Lutar contra a Natureza pode piorar as coisas. Assim como os herbicidas podem levar à proliferação de plantas daninhas resistentes, o uso excessivo de antibióticos cria bactérias resistentes, principalmente na engorda dos animais. Especialistas até dizem que vacinar rebanhos inteiros de animais pode levar a cepas particularmente perigosas devido à pressão de seleção resultante sobre o vírus. Também foi demonstrado que a propagação e a letalidade do novo corona vírus dependem mais dos cuidados médicos do que das restrições maciças aos direitos fundamentais. Horkheimer e Adorno provavelmente sorririam amargamente: A tecnologia humana megalomaníaca falha repetidamente em dominar a natureza e leva a riscos cada vez maiores para as próprias pessoas – também no que diz respeito aos seus direitos de liberdade.

Tendência ao Autoritarismo

A crítica de época da “dialética do esclarecimento” é ilustrada pelo desenvolvimento da sociedade. Há quase dois anos vivemos uma auto-opressão coletiva e, em parte, uma auto-subjugação sob lideranças políticas tão autoritárias quanto possível. É exatamente contra isso que Horkheimer e Adorno advertiram com sua crítica filosófica das tendências à autodissolução em uma sociedade. Isso também se baseia na justaposição incorreta do Homem e da Natureza, porque como uma sociedade lida com uma epidemia não é uma questão puramente médica ou científica, mas uma questão social. Tudo isso confirma a tese da dialética da iluminação, porque hoje apenas uma compreensão quase técnica e científica da vida é geralmente aceita: nos é permitido respirar, comer, beber, dormir. A vida é meramente a vitória diária sobre a doença e a morte. A maioria das coisas que compõem uma vida social são agora pelo menos secundárias. Faz parte da natureza humana precisar dessas coisas. Mas é justamente aí que a sociedade erroneamente esclarecida tem seus problemas: com a relação homem-natureza.

A política de combate ao coronavírus reforça a justaposição fundamental do Homem e da Natureza que é subliminar em nossa sociedade. Nessa mentalidade, as pessoas devem se unir em meio às diferenças políticas usuais para conquistar a Natureza. E eles têm que usar os meios da civilização para fazer isso: ciência e tecnologia, atualmente sob o disfarce da indústria farmacêutica de outra forma bastante impopular. As referências ao impressionante sistema imunológico humano, que a Natureza refinou ao longo de milhares de anos, às vezes são ridicularizadas como retrógradas e ingênuas. Outra lacuna óbvia no discurso de combate ao coronavírus são as formas de combater os vírus que ficam entre a alta tecnologia e o sistema imunológico. A Sociedade Alemã de Higiene Hospitalar, por exemplo, aponta em um guia atual de dez páginas (três páginas e meia com referências da literatura científica) que os enxaguatórios bucais à base de óleos essenciais e o desinfetante iodopovidona reduzem drasticamente o número de casos de coronavírus. Uma contagem de vírus mais baixa significa uma chance maior de o sistema imunológico lidar com eles. Tais medidas (há outros ingredientes ativos à base de plantas que matam vírus) aparentemente nunca foram anunciadas pelo governo da Alemanha, que preferiu encenar um inimigo absoluto da Humanidade que não pode ser enfraquecido, mas que deve ser combatido com o grande martelo de inoculação.  

A dialética do Iluminismo significa que muitas pessoas supostamente iluminadas são movidas pelo mesmo medo que as pessoas tinham de espíritos malignos e deuses em tempos pré-iluministas. Assim, eles se comportam de forma agressiva para aqueles que pensam de forma diferente. Devemos considerar as relações sociais com a natureza. Não se trata apenas de mudança climática, não se trata apenas de capitalismo. Não se trata apenas de salvar ecossistemas, mas de nossa própria salvação, de viver em paz e dignidade. Se realmente salvamos a natureza, salvamos a nós mesmos – e vice-versa.

Max Horkeimer/Theodor W. Adorno: A Dialética do Iluminismo. Fischer 2010, 288 páginas, € 13; Herbert Marcuse: Contrarrevolução e Revolta. Suhrkamp 1973, 154 páginas, aproximadamente € 12; Kōhei Saitō: Natureza versus capital. A ecologia de Marx em sua crítica inacabada do capitalismo. Campus 2016, 328 páginas, € 39,95; Ulrich Ruschig: A libertação da natureza. Papirossa 2020, 115 páginas, € 11,90.


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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].