Lula em lançamento de investimentos da Vale no Pará / Ricardo Stuckert
Por Maurício Ângelo*
É comum que aquilo se fala em cima de um palanque tenha um tom exaltado acima do normal. O que não dá para ignorar é quando esse discurso se descola da realidade. O presidente Lula incorreu neste erro ao elencar, aos gritos, os recursos brasileiros que são alvo do interesse internacional, especialmente dos Estados Unidos e de Donald Trump no atual contexto geopolítico, dizendo que “ninguém põe a mão”nos nossos minérios estratégicos e que “esse país é do povo brasileiro”.
Esses arroubos de soberania podem inflamar a militância, mas não tem amparo na história passada e atual. Pelo contrário: Lula sabe bem que todo mundo já “meteu a mão” nos minerais nacionais, inclusive com apoio recorrente do seu governo – e de todos os governos anteriores – em atrair empresas estrangeiras, investidores, abrir novas áreas de exploração, expandir áreas em operação e criar políticas e programas de incentivo ao setor mineral, além do empréstimo direto, sobretudo via BNDES.
A política de conceder suas riquezas minerais para outros países no mercado internacional é, aliás, a base da própria política mineral brasileira desde sempre.
A indústria nacional ganhou impulso com a criação das então estatais Vale e CSN durante o governo de Getúlio Vargas no período da Segunda Guerra Mundial justamente para fornecer minérios para o complexo industrial-militar da época em acordo com os Estados Unidos, com dinheiro americano.
Multinacionais canadenses, americanas, chinesas, inglesas, francesas, suíças, japonesas e de várias outras nacionalidades dominam o mercado brasileiro. Investidores e acionistas estrangeiros estão por trás de todas essas empresas. A produção mineral brasileira segue sendo majoritariamente para exportação, com baixíssimo processamento interno. Somos mais exportadores de commodities hoje do que éramos há 20 anos atrás, no primeiro governo Lula.
Os recursos minerais, constitucionalmente, são da União. Portanto, do povo brasileiro. O Executivo concede para as mineradoras o direito de explorar determinado mineral. Na prática, o que existe é uma sociedade entre governo federal e capital privado global. O governo atua diuturnamente para facilitar a vida das mineradoras, criar e ampliar empréstimos, subsídios, benefícios, programas e simplificar o licenciamento ambiental, com apoio do Congresso dominado pelo lobby minerador, como o caso do PL da Devastação ilustra perfeitamente.
Mas também nas mudanças infralegais praticadas pela Agência Nacional de Mineração e Ministério de Minas e Energia nos últimos anos, seguindo orientações da OCDE ou por conta própria, o que não precisa passar pelo Congresso. E os governos estaduais, todos eles cooptados pelo dinheiro da mineração e a dependência forjada e alimentada do modelo mineral, seguem na mesma página.
Repito, não é exclusividade de Lula III, mas de todos os presidentes que passaram pelo cargo e todos os governadores em todos os estados, não importa o espectro político.
Fonte: Anuário Mineral Brasileiro
Brasil-EUA firmaram acordo para explorar minerais nos últimos anos
É compreensível que as ameaças de Donald Trump, um neofascista convicto, que tem usado o poder geopolítico americano para se apropriar (ou tentar) de reservas minerais na Ucrânia, Groenlândia e em outros países, assim como tentar anistiar Jair Bolsonaro e ameaçar o mercado brasileiro e de vários países com tarifas absurdas, inflame os ânimos.
No dia a dia da política, porém, a relação BR-EUA é bem mais amistosa.
Não faz muito tempo, no fim de 2024, Brasil e Estados Unidos, ainda sob Biden em fim de governo e Trump já eleito, assinaram um acordo durante o G20 para exploração de minerais críticos que, detalhamos aqui, foi cercado de sigilo e com pontos nebulosos como a ausência de salvaguardas ambientais, as contrapartidas sociais e medidas que ajudem na reindustrialização do país.
Foi uma tratativa direta entre Planalto e Casa Branca, afirmou o próprio MME ao Observatório da Mineração. Desde 2020, na realidade, durante o governo Bolsonaro, foi criado um GT entre Brasil e Estados Unidos para discutir justamente a exploração de minerais críticos. Nestes 5 anos, porém, o tal GT pouco avançou.
Sob Donald Trump, alertamos, tais acordos seguiriam repletos de incerteza. Os movimentos recentes ilustram esses desdobramentos.
Embora haja ruídos significativos nas chantagens feitas por Trump ao Brasil, é bem provável que o pragmatismo, a pressão e a interlocução da indústria minero-siderúrgica imperem para que um meio termo seja alcançado.
É curioso como a mídia não especializada está tratando as reuniões do IBRAM, que representa 90% da produção privada mineral no Brasil e tem entre as suas associadas as mesmas multinacionais que dominam o mercado global, com representantes dos Estados Unidos. O IBRAM está fazendo o que sempre faz. Negociando os seus interesses com quem precisa. E de modo geral bem alinhado com o MME, ANM e os parlamentares que apoia no Congresso.
Foto: Ricardo Stuckert
Grandes bancos e fundos de investimento americanos, como JP Morgan, BlackRock, Vanguard e outros, são acionistas e investidores de empresas como a própria Vale, maior mineradora brasileira e entre as maiores do mundo. A BlackRock, maior fundo do planeta, detém 5,9% da Vale, que, de capital brasileiro, ainda tem a Previ (8,6%), além de outros investidores e das “golden shares” que o governo brasileiro tem direito. Lula foi o primeiro presidente, em muito tempo,a visitar as instalações da Vale no Paráno anúncio de grandes investimentos para os próximos anos.
Dinheiro norte-americano segue inundando o setor mineral brasileiro, como a Mosaic Fertilizantes, empresa dos Estados Unidos, entre as maiores do planeta, que detém grandes minas de fertilizantes (fosfato) no Brasil, inclusive com problemas crônicos em barragens e conflitos com agricultores em Goiás e MG. Fertilizantes que, da lista de minerais considerados estratégicos pelo Brasil – quase tudo, diga-se – são uma das únicas substâncias que o Brasil realmente depende de importação.
Além dos EUA, o governo Lula anda fazendo uma série de acordos envolvendo minerais críticos com a China editaduras árabes, por exemplo. Todos bastante nebulosos, sem transparência clara, regras na mesa, comunicados detalhados, mas que colocam a tal soberania nacional no colo e nas mãos de outras potências mundiais. Essa foi a tônica desde o início do atual governo.
Lula sabe bem, reforço, que todo mundo já meteu a mão nos minerais brasileiros e seguirão abocanhando a riqueza nacional, com baixíssimo retorno para a sociedade. E que essa é uma política de Estado que atravessa décadas, com gigantesco empenho de políticos das mais variadas origens, que jamais foi questionada ou interrompida.
Pelo contrário: é a própria base da política mineral brasileira, estender o tapete vermelho para o dinheiro americano e para quem mais quiser.
*Maurício Angelo é fundador e Diretor Executivo do Observatório da Mineração. Doutorando em Ciência Ambiental na Universidade de São Paulo (PROCAM-USP). Mestre em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília (CDS-UnB). Professor e palestrante. Repórter com centenas de matérias publicadas na mídia brasileira e internacional. Eleito um dos três jornalistas mais relevantes do Brasil no setor de Mineração, Metalurgia e Siderurgia pelo Prêmio Especialistas de 2022 e 2021. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística da Sociedade Interamericana de Imprensa (2019).
Os réus também teriam como alvo o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, tido como arqui-inimigo de Jair Bolsonaro. Foto: Luis Nova/AP/dpa
Por Pedro Steiniger para o “Neues Deutschland”
Isso não teria acontecido com óculos de leitura: Mário Fernandes afirma ter impresso duas cópias do plano que ele mesmo redigiu e apreendido pela polícia para uma operação chamada “Punhal Verde e Amarelo”, em homenagem às cores nacionais, em seu escritório no Palácio do Planalto, em 9 de novembro de 2022, apenas para conseguir ler melhor o texto. O general de brigada da reserva explicou isso durante seu interrogatório no tribunal na quinta-feira (24/7).
Ele então rasgou imediatamente os papéis, cujo conteúdo ninguém mais tinha conhecimento. Poucos minutos após imprimi-los, o então secretário-executivo do presidente Jair Bolsonaro entrou em sua residência no Palácio da Alvorada, onde, ao lado do recém-deposto chefe de Estado, estava presente seu assessor, o tenente-coronel Mauro Cid – a principal testemunha no julgamento em andamento contra o político de extrema direita.
Jair Bolsonaro enfrenta julgamento na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília,juntamente com sete réus . A acusação alega que eles tentaram um golpe contra seu sucessor de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, após sua derrota nas eleições de 2022. Bolsonaro enfrenta uma longa pena de prisão.
O plano do General Fernandes, que está sendo julgado juntamente com outros oficiais que supostamente elaboraram propostas concretas para o estado de emergência e o uso das Forças Armadas no golpe, previa o assassinato de Lula da Silva, seu vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Os ataques, incluindo um envolvendo o envenenamento de Lula, estavam planejados para 5 de dezembro de 2022. Uma unidade especial chamada “Kids Pretos”, que Fernandes comandou até 2020, seria mobilizada.
Segundo a acusação, um gabinete de emergência chefiado por Bolsonaro seria instalado após os assassinatos. Segundo investigações da Polícia Federal, os alvos e suas medidas de segurança já haviam sido espionados. Segundo a testemunha-chave Mauro Cid, o General Fernandes era uma das forças motrizes em torno de Jair Bolsonaroque defendiam um golpe de estado.
No tribunal, Mário Fernandes rebaixou seu plano operacional para um “experimento mental” escrito digitalmente “por hábito”, um “estudo da situação” e uma “análise de risco”. Um mês depois, o réu explicou outra cópia impressa do plano da adaga, obtida pela polícia, como tendo tido uma “nova ideia”. Este incidente também não teve consequências. A acusação está convencida de que Jair Bolsonaro tinha pleno conhecimento dos planos e que o golpe só foi cancelado porque ele não tinha apoio suficiente entre os chefes das Forças Armadas.
Pesquisa da UFF mapeou e hierarquizou regiões de maior risco para deslizamentos de terra, orientando ações preventivas
Áreas com alto risco de deslizamentos de terra agora podem ser identificadas e hierarquizadas, permitindo o planejamento de intervenções para mitigar riscos no território urbano, especialmente em periferias. Desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), a metodologia foi construída com dados de Niterói (RJ) epublicadaontem (25/7) na Revista Brasileira de Recursos Hídricos.
Foi desenvolvido um índice de risco, que leva em conta o histórico de ocorrências, a susceptibilidade do terreno e informações sobre a vulnerabilidade socioeconômica de seus residentes, permitindo ações de prevenção e mitigação de riscos baseadas em evidências. O município tem cerca de 117 comunidades, a maior parte situada em declives — fator que, somado às chuvas intensas e mudanças antropomórficas no relevo, agrava o risco de desastres.
O histórico foi obtido por meio de dados da Defesa Civil de Niterói, a susceptibilidade foi calculada segundo o modelo SHALSTAB (Shallow Landsliding Stability Model), que prevê a estabilidade do terreno segundo fatores físicos e topográficos, e a vulnerabilidade socioeconômica averiguada por meio da renda familiar média e o número de residentes registrados no CadÚnico.
Franciele Zanandrea, autora do estudo, relata que a validação em campo apresentou bons resultados, com correspondência dos cálculos às áreas consideradas de alto risco, o que auxilia de forma técnica e estruturada a priorização de intervenções para redução de risco em periferias. “O método fornece uma ferramenta técnica e replicável para orientar o uso de recursos públicos em ações de prevenção e mitigação de riscos, fortalecendo a gestão baseada em evidências. Os resultados permitem a priorização de ações estruturais, como obras de contenção, e não estruturais, como alertas e capacitações, contribuindo para a redução do risco de desastres”, afirma.
A pesquisadora também afirma que o método pode ser reproduzido por outras prefeituras, inclusive com recursos limitados, desde que disponham de dados como mapas topográficos, cadastros socioeconômicos e registros de ocorrências. “A utilização do índice demonstra viabilidade de aplicação em larga escala com suporte técnico limitado, o que é fundamental para contextos urbanos periféricos em países em desenvolvimento. Isso o torna uma ferramenta estratégica para democratizar o acesso ao planejamento urbano integrado à gestão de desastres, especialmente em contextos de alta vulnerabilidade social e restrições orçamentárias”, conclui.
Na mais recente reversão das proteções ambientais dos EUA, os reguladores disseram esta semana que planejam aprovar um trio de novos produtos herbicidas feitos com dicamba, um produto químico controverso que causou estragos em áreas rurais, desencadeou anos de litígios e duas vezes proibições judiciais.
A Agência de Proteção Ambiental (EPA) divulgou uma proposta de decisãodatada de 22 de julho afirmando que vê mais benefícios do que riscos em permitir que três produtos de dicamba feitos pelas gigantes da indústria agroquímica Bayer, Syngenta e BASF sejam usados por agricultores que cultivam algodão e soja geneticamente modificados para tolerar o dicamba.
Grupos de defesa da saúde pública e ambiental atacaram a decisão, dizendo que ela ignora evidências estabelecidas de que o dicamba tem tendência a se afastar do local onde é pulverizado, principalmente em temperaturas quentes, e que o potente herbicida danificou milhões de acres de plantações, pomares e paisagens onde nunca foi planejado que fosse aplicado.
Eles também dizem que a decisão cheira a favoritismo político, ocorrendo logo após um ex-lobista da indústria da sojater sido nomeado administrador assistente adjunto para pesticidas no Escritório de Segurança Química e Prevenção da Poluição da EPA.
Mas a EPA afirmou que os produtores de algodão e soja estão tendo dificuldades para eliminar ervas daninhas que ameaçam a saúde de suas plantações, pois elas se tornaram resistentes a outros tipos de herbicidas. Os produtos Dicamba são necessários para proteger essas importantes indústrias, afirmou a EPA.
Em sua avaliação, a EPA observa que a indústria de algodão dos EUA “é responsável por mais de US$ 21 bilhões em produtos e serviços anualmente” e diz que a colheita anual de soja é avaliada em aproximadamente US$ 57,6 bilhões.
A EPA disse que estava trabalhando com a BASF, Syngenta e Bayer para incluir diversas restrições nos rótulos dos produtos visando reduzir os riscos, tanto para pessoas que pulverizam os produtos químicos e certas espécies ameaçadas e em perigo de extinção, quanto para “cultivos sensíveis e certas plantas a favor do vento”.
Ainda assim, os críticos protestaram contra a decisão.
“A EPA de Trump está atingindo novos patamares de absurdo ao planejar dar sinal verde para um agrotóxico que causou os maiores danos por deriva na história agrícola dos EUA e foi rejeitado duas vezes por tribunais federais”, disse Nathan Donley, diretor de ciências da saúde ambiental do Centro para a Diversidade Biológica, em um comunicado. “Isso é o que acontece quando a supervisão de pesticidas é controlada por lobistas da indústria. Os ricos corporativos recebem seu pagamento e todos os outros sofrem as consequências.”
Bill Freese, diretor científico do Centro de Segurança Alimentar, pediu aos funcionários da EPA que retirassem o plano.
“Se permitirmos que essas decisões propostas sejam aprovadas, fazendeiros e moradores de toda a área rural dos Estados Unidos verão novamente suas plantações, árvores e hortas dizimadas pela deriva do dicamba, e áreas naturais como refúgios de vida selvagem também sofrerão”, disse Freese em um comunicado.
O dicamba foi introduzido na agricultura americana em 1967, mas não era amplamente utilizado durante os meses quentes, pois se sabia que o produto químico podia se volatilizar e se mover por longas distâncias com o aumento das temperaturas. Isso mudou quando a Monsanto e a BASF desenvolveram culturas transgênicas tolerantes ao dicamba para uso com novos herbicidas de dicamba, após o uso generalizado do herbicida glifosato da Monsanto em culturas geneticamente modificadas tolerantes ao glifosato ter causado o desenvolvimento de resistência ao glifosato em milhões de acres de plantas daninhas.
No ano passado, umtribunal federal concluiuque a EPA violou a lei ao aprovar os três novos herbicidas de dicamba. Em 2020, umtribunal federal independente concluiuque a EPA havia apresentado análises falhas e “subestimado substancialmente” os riscos associados aos herbicidas de dicamba.
Documentos corporativos internos mostram que a Monsanto, comprada pela Bayer em 2018, e a BASFestavam cientes de que a combinação de suas culturas geneticamente modificadas tolerantes ao dicamba e herbicidas de dicamba provavelmente causaria danos a muitas fazendas dos EUA que não comprassem as culturas e produtos químicos especiais.
Os documentos também descrevem como a Monsanto se opôs aos testes de produtos de terceiros como forma de limitar dados que poderiam preocupar os reguladores.
A decisão sobre o dicamba é uma das muitas medidas tomadas desde que o presidente Donald Trump assumiu o cargo para anular ou desfazer dezenas de restrições ambientais. Até o momento, o governo Trump realizou mais de 140 ações para reverter as regras de proteção ambiental, de acordo com uma análise do The Guardian.
Estudo identificou 110 partículas de microplástico nas placentas e 119 nos cordões umbilicais.
Um estudo inédito conduzido em Maceió revelou a presença de microplásticos em placentas e cordões umbilicais de gestantes atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na capital alagoana. Trata-se da primeira pesquisa a identificar esse tipo de contaminação em humanos no Brasil e em toda a América Latina. Os resultados foram publicados na sexta (25) na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências por pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), em parceria com a instituição havaiana University of Hawai’i at Mānoa.
A equipe analisou amostras de dez gestantes do Hospital Universitário Professor Alberto Antunes e do Hospital da Mulher Dra. Nise da Silveira, em Maceió. Após a coleta, os tecidos foram digeridos com solução de hidróxido de potássio por sete dias, filtrados e analisados por espectroscopia Micro-Raman, uma técnica de alta precisão para identificação da composição química das micropartículas.
Foram identificadas 229 partículas de microplásticos, sendo 110 nas placentas e 119 nos cordões umbilicais. Entre os materiais mais encontrados estavam o polietileno (presente em embalagens plásticas descartáveis) e a poliamida (comum em tecidos sintéticos). “Como a análise foi realizada em apenas cerca de 40 gramas de tecido — enquanto uma placenta inteira pode pesar até 500 gramas —, estimamos que a quantidade real de partículas por órgão seja ainda maior”, afirma o biomédico Dr. Alexandre Urban Borbely, professor da UFAL e um dos autores do estudo.
Um dos achados mais preocupantes foi a detecção de maior quantidade de microplásticos nos cordões umbilicais do que nas placentas em oito das dez amostras. Isso indica que essas partículas atravessam a barreira placentária e chegam até o feto, o que levanta dúvidas sobre os possíveis impactos no desenvolvimento gestacional e na saúde futura da criança.
Outro dado surpreendente foi a menor quantidade encontrada de aditivos químicos utilizados para a fabricação do plástico em comparação com estudo anterior feito pelo mesmo grupo, com placentas dos Estados Unidos. Ainda assim, os resultados alinham-se aos de pesquisas internacionais, pois o perfil químico ligeiramente diferente pode refletir fatores ambientais e hábitos de consumo regionais.
A poluição marinha é apontada pelo estudo como uma possível origem da contaminação, pois a população da região costuma consumir frutos do mar, uma potencial fonte de ingestão de partículas plásticas. Estudos anteriores também apontam outros agravantes: 75% do lixo na orla de Maceió é composto por plásticos — sobretudo sacolas e embalagens de produtos ultraprocessados —, e a falta de acesso à água tratada leva a população a recorrer ao consumo de água envasada, cujo transporte sob intensa radiação solar pode acelerar a liberação de partículas dos recipientes plásticos.
O levantamento reforça a necessidade de compreender melhor os efeitos dos microplásticos sobre a gestação e a infância, e destaca a urgência de ações como a melhoria na gestão de resíduos, a regulação de plásticos descartáveis, o monitoramento da contaminação por microplásticos em água e alimentos, o incentivo ao uso de tecnologias de filtragem e o estímulo ao desenvolvimento de alternativas ao plástico tradicional.
Além do ineditismo da pesquisa no Brasil e na América Latina, o estudo se destaca por focar em uma população socioeconomicamente vulnerável — um grupo frequentemente ausente nos estudos internacionais, destaca Borbely. Focada no estudo do impacto dos microplásticos desde 2023, a equipe está continuando esse trabalho em um estudo epidemiológico mais amplo, com previsão de publicação para 2027.
Barragem B1-A tem 37 metros de altura e está localizada em Brumadinho, na Grande BHFoto: Flavio Tavares / O TEMPO
Por Gabriel Rezende para o “O Tempo”
Um prédio de 12 andares. Essa é a altura dabarragem B1-A, da empresa Emicon Mineração e Terraplanagem, localizada na comunidade do Quéias, em Brumadinho, Região Metropolitana de Belo Horizonte. A estrutura chegou ao nível 2 de alerta, o penúltimo da escala que vai até 3 da Agência Nacional de Mineração (ANM). Tal classificação exige a necessidade de medidas preventivas, como a evacuação de áreas de risco. Segundo as autoridades, não há, até o momento, indícios de ruptura iminente.
Apesar disso, a existência de uma barragem em risco revive o luto da cidade que foi palco do desastre de 2019, quando uma estrutura da mineradora Vale rompeu, causando a morte de 270 pessoas, incluindo duas grávidas. A barragem que se rompeu há seis anos era maior: tinha 86 metros de altura, o que equivale a um prédio de 28 andares, e 720 metros comprimento da crista. Além disso, concentrava 12 vezes mais rejeitos.
Conheça a barragem que está em nível 2 de alerta
A B1-A é uma barragem de rejeito de minério com 37 metros de altura — o equivalente a um prédio de 12 andares — e 273 metros de comprimento de crista, quase três campos de futebol enfileirados. Ela está localizada perto da BR-381, a Fernão Dias, e ao lado de outro complexo minerário.
Método de construção
A barragem foi construída com o método de alteamento por linha de centro, utilizando terra e enrocamento como materiais principais. Esse método é considerado mais seguro que o de alteamento a montante, técnica usada nas estruturas que romperam em Mariana, em 2015, e em Brumadinho, tragédias que mataram, respectivamente, 19 e 270 pessoas.
Diferentemente do alteamento a montante — proibido no Brasil desde 2022 por representar maior risco de instabilidade —, o método por linha de centro consiste em levantar a barragem verticalmente sobre a base inicial, sem deslocá-la em direção ao reservatório.
Apesar de não ser proibido, o método de alteamento por linha de centro está sujeito a exigências técnicas de estabilidade e segurança. Foi justamente a ausência de documentos que fizeram com que as autoridades elevassem o nível de alerta.
Operação e desativação
A barragem começou a operar em dezembro de 1996 e foi desativada em 2 de janeiro de 2014. Ao todo, armazena 914 mil metros cúbicos de rejeitos — um volume cerca de 12 vezes menor do que o da barragem B1 da mina Córrego do Feijão, que colapsou há cinco anos. Segundo a ANM, há pessoas vivendo permanentemente na área a jusante da estrutura, o que aumenta o nível de atenção das autoridades.
Os dados estão disponíveis no Sistema Integrado de Gestão de Barragens de Mineração, da ANM.
Criação de comitê
Diante do cenário, a administração municipal criou uma Comissão Estratégica Municipal (CEM) para acompanhar a situação. O grupo será composto pelo prefeito, pela Defesa Civil e por representantes das secretarias de Segurança Pública, Planejamento, Desenvolvimento Social, Meio Ambiente, Obras, Saúde, Procuradoria-Geral, Governo e Reparação. Segundo a prefeitura, todas as pastas estão de plantão para atuação imediata, caso necessário.
A evacuação preventiva das famílias que vivem na ZAS segue em andamento, de forma humanizada e com o suporte da Defesa Civil, do Corpo de Bombeiros e de outros órgãos estaduais e federais. Ainda segundo a administração, não há, até o momento, indícios de ruptura iminente, e todas as ações adotadas têm caráter preventivo, conforme prevê o Artigo 42 da Resolução ANM nº 95/2022.
Para movimento, governo Lula ‘tem se mostrado ineficiente’ na resolução de problemas fundiários e distribuição de terra
Por Brasil de Fato
Ocorre nesta semana uma série de articulações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em todo o país. A Semana Camponesa teve início no estado da Bahia e é um momento de esforço por diálogo e negociação entre o MST e setores públicos pela defesa da reforma agrária e da agricultura familiar.
A direção do MST denuncia que, apesar do esforço,terceiro mandato de Lula ignora agricultura familiar, responsável por cerca de 70% dos produtos consumidos no Brasil: “Temos pautas desde o segundo governo Lula, que acreditávamos que seriam resolvidas agora, no terceiro mandato. Mas a equipe atual tem se mostrado ineficiente”, diz Evanildo Costa, diretor nacional do MST.
Ele diz ainda que acordos firmados desde 2008 entre o movimento e o governo seguem sendo descumpridos, com famílias aguardando assentamento, sendo ameaçadas de despejo e envolvidas em conflitos fundiários.
As ações da Semana Camponesa se iniciaram em Salvador, com reuniões entre o governo do estado e o movimento. No norte do estado, segundo o movimento,mil famílias aguardam desde o segundo mandato de Lula o cumprimento de um acordo de assentamento na região do Perímetro Irrigado Nilo Coelho, firmado com a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e o Incra.
Membros do MST pressionam governos e autoridades públicas por avanços em distribuição de terra para famílias e cumprimento de acordos de assentamento | Imagem: MST/Reprodução
No sul da Bahia, o movimento denuncia a ameaça de despejos de famílias e conflitos fundiários em áreas vinculadas à Superintendência do Patrimônio da União (SPU). As negociações com multinacionais papeleiras da região se iniciaram em 2011, mas estão paralisadas.
O MSTcobra do governo medidas de avanço na garantia de terra a produtores, como a atualização dos índices de produtividade, o assentamento das famílias acampadas, a recomposição orçamentária dos programas de apoio à agricultura familiar e a revogação de medidas que facilitam a mineração e a grilagem de terras em áreas de reforma agrária. A Semana Camponesa coincide com o Dia Internacional da Agricultura Familiar, celebrado em 25 de julho.
Petroestados e lobistas bem financiados em negociações promovidas pela ONU estão a sabotar um acordo para reduzir a produção de plástico e proteger as pessoas e o planeta
Pessoas em barcos coletam plásticos recicláveis do poluído Rio Citarum, em Bandung, Java Ocidental, Indonésia. Fotografia: Timur Matahari/AFP/Getty Images
Por Damian Carrington, Editor de Meio Ambiente, para o “The Guardian”
Ser cercada e gritada por “deturpar a realidade” não é a seriedade que as negociações promovidas pelas Nações Unidas devem ter. Mas foi o que aconteceu com a professora Bethanie Carney Almroth durante as negociações sobre um tratado global para reduzir a poluição plástica em Ottawa, Canadá. Os funcionários de uma grande empresa química dos EUA “formaram um círculo” ao seu redor, diz ela.
Em outro evento em Ottawa, Carney Almroth foi ” assediada e intimidada” por uma representante de embalagens plásticas, que invadiu a sala e gritou que estava disseminando medo e divulgando informações falsas. Aquela reunião foi um evento oficial organizado pela ONU. “Então, registrei os relatórios de assédio na ONU”, disse Carney Almroth. “O sujeito teve que se desculpar e depois saiu da reunião. Ele estava na reunião seguinte.”
Bethanie Carney Almroth diz ter sido assediada e intimidada diversas vezes nas negociações para a formação de um tratado sobre plásticos. Fotografia: Angeles Estrada/IISD/ENB
“Esse foi um exemplo quando apresentei um relatório oficial”, disse Carney Almroth, ecotoxicologista da Universidade de Gotemburgo, na Suécia. “Mas já fui assediado e intimidado muitas outras vezes, em muitos outros contextos, em reuniões externas, em eventos paralelos, também em conferências científicas, por e-mail e assim por diante.”
Ela também teve que tomar medidas para evitar a vigilância nas reuniões. “Tenho um protetor de tela no meu celular, porque eles andam atrás de nós e tentam filmar o que está em nossas telas, ver quais anotações estamos fazendo ou com quem estamos conversando. Eu nunca abriria meu computador no meio de uma sala sem saber quem está atrás de mim. É um ambiente de alta vigilância e alto estresse.”
Estes são exemplos do que inúmeras fontes afirmam ser uma “infiltração total” nas negociações do tratado sobre plásticos por interesses industriais e lobistas corporativos. A principal preocupação de seis fontes internas que falaram com o Guardian era que os poluidores estivessem exercendo poder demais, não apenas dentro das negociações, mas também dentro do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), que as supervisiona. Uma fonte disse estar “horrorizada” com a influência da indústria nas políticas e com a marginalização de soluções reais para a poluição causada pelo plástico, chamando isso de “captura corporativa”.
‘Conhecimento distorcido’
As negociações do tratado sobre plásticos serão retomadas em agosto, em Genebra, Suíça, após a quinta rodada de negociações, em dezembro, não ter alcançado um acordo. O que está em jogo é se a torrente de poluição plástica tóxica que se espalha pelo meio ambiente pode ser contida. Fazer isso é vital não apenas para proteger as pessoas e o planeta, mas também para conter a crise climática e as enormes perdas globais de vida selvagem.
Mas uma enxurrada de lobistas e organizações da indústria se uniu às negociações, superando em muito o número de delegações nacionais e cientistas. Eles auxiliam um grupo de petroestados, liderados pela Arábia Saudita, a bloquear o progresso que muitas nações desejam e fazem parte de um “bloco petroquímico” mais amplo que, segundo um estudo recente, “está aumentando a produção de plásticos, externalizando os custos da poluição, distorcendo o conhecimento científico e fazendo lobby para inviabilizar as negociações”.
Uma refinaria de petróleo na Arábia Saudita. O país lidera um grupo de petroestados no bloqueio do progresso do tratado sobre plásticos. Fotografia: Alamy
A escala do problema do plástico é impressionante. Cerca de 450 milhões de toneladas de plástico novo são produzidas todos os anos e a produção deverá triplicar até 2060, considerando as taxas de crescimento atuais, prejudicando todos os aspectos de um ambiente seguro .
Quase todo o plástico é feito de petróleo e gás fósseis, e as emissões de sua produção impulsionam a crise climática. O plástico e os produtos químicos tóxicos que ele contém também prejudicam solos, ecossistemas e a saúde humana, tendo se espalhado por todo o mundo, do topo do Monte Everestàs partes mais profundas do oceano , do cérebro humano aoleite materno.
O tratado sobre plásticos está sendo negociado entre as nações do mundo, sob os auspícios do PNUMA. As negociações começaram em 2022 , e as negociações em Genebra, no próximo mês, serão a sexta grande reunião. Mas, desde o início, as negociações têm sido marcadas por um desacordo fundamental.
Mais de 100 nações ,apoiadas por mais de 1.100 cientistas, afirmam que umlimite à crescente produção de plástico é essencialpara reduzir todos os danos que ele causa. Petroestados e fabricantes de plástico rejeitam essa ideia e afirmam que o foco deveria ser uma melhor gestão e reciclagem de resíduos. A ação climática global para reduzir as emissões de carbono também está pressionando os países produtores de combustíveis fósseis a ampliar outros usos para seu petróleo e gás.
“A quantidade de plástico que já produzimos hoje é totalmente incontrolável”, disse David Azoulay, advogado sênior do Centro de Direito Ambiental Internacional (Ciel), que participou das negociações. “Não há como, técnica ou politicamente, conseguirmos administrá-la. Mas o objetivo das empresas é produzir mais e, milagrosamente, reduzir o impacto geral.” As caras tecnologias de reciclagem propostas pelos produtores são “uma ideia mágica”, disse ele. Apenas9% do plástico é reciclado, de acordo com um relatório da OCDE de 2022.
Azoulay afirmou que os estados e a indústria de combustíveis fósseis precisam participar das negociações, mas que o processo não leva em conta seus interesses pessoais. “O fato de haver um grande grupo de empresas e indústrias não é problemático, visto que são partes interessadas. Mas o fato de terem, no mínimo, o mesmo status e acesso aos processos que as vítimas do problema que estão criando, isso é um problema.”
David Azoulay, advogado sênior do Centro de Direito Ambiental Internacional, afirmou ser problemático que empresas e indústrias recebam o mesmo status nas negociações que as vítimas do problema que estão criando. Fotografia: Mike Muzurakis/IISD/ENB
Ele acrescentou: “Há uma abordagem subjacente problemática na forma como o PNUMA opera, que é considerar que as pessoas que criaram os problemas, se beneficiaram do problema, mentiram sobre o problema e sua responsabilidade sobre ele por anos e décadas, são parceiros confiáveis para resolver esses problemas.”
“Não é uma conversa inteligente”
Embora os países negociadores decidam o resultado das negociações do tratado, o Pnuma é o anfitrião e sua diretora executiva, Inger Andersen, tem um papel fundamental e influente de orientação. Ela não foi poupada de críticas.
Andersen foi acusada de “ausência inapropriada de ambição” por mais de 100 organizações ambientaisem abril de 2023. Elas também expressaram preocupação com a “falta de transparência em relação a quem está assessorando [seu] trabalho e ao secretariado [do tratado]”, que é o grupo de autoridades do PNUMA que gerencia as negociações.
Ela foi criticada, em particular, por uma declaração que , em setembro de 2024, foi percebida como uma forma de minar a importância de um limite para a produção de plástico: “Precisamos ter uma conversa mais refinada do que apenas limite [ou] nenhum limite, porque não é uma conversa inteligente”. Uma redução na produção deveria se concentrar em polímeros brutos para uso único e produtos de curta duração, e não em “peças de automóveis e asas de avião”, disse ela. Os críticos disseram que sua declaração contradizia evidências científicas de que oimpacto ambiental dos plásticos começa com a extração e a produção , não apenas com o seu uso.
Inger Andersen, diretora executiva do PNUMA, foi acusada de “falta de ambição” por organizações ambientais. Fotografia: Kiara Worth/IISD/ENB
As organizações ambientais apresentaram queixa ao chefe de Andersen , o secretário-geral da ONU, António Guterres, em outubro de 2024, afirmando ter “profundas preocupações” de que suas declarações públicas “restringiriam o escopo” do tratado e que ela havia excedido seu papel como organizadora das negociações. Não receberam resposta.
Também foi alegado na rodada de negociações mais recente, em Busan, Coreia do Sul, em dezembro, que Andersen havia pressionado países com grandes ambições a cederem em suas demandas por um tratado forte com um teto para a produção de plástico. Andersen respondeu na época, dizendo: “Me reunirei com todos em todas as etapas do processo e, obviamente, me reunirei com os Estados-membros e os ouvirei, de todo o espectro dos 193 países.”
Plásticos ‘líderes’
Em seu papel de convocadora, Andersen tem um limite para incentivar as nações a chegarem a um acordo. Todos os países precisam chegar a um consenso, mas uma nação em particular se destaca como um obstáculo para um tratado eficaz sobre plásticos: a Arábia Saudita, asegunda maior produtora de petróleo do mundo . Por meio de sua petrolífera Saudi Aramco, ela é proprietária da Sabic, uma das maiores produtoras de plástico do mundo.
O país tem desempenhado um papel cada vez maior nas negociações do tratado sobre plásticos e foi descrito pelo Politico como o“líder” de um pequeno grupo de países ricos em petróleo , incluindo Rússia e Irã, que bloquearam propostas de limites de produção em dezembro.
Também desenvolveu um relacionamento próximo com o PNUMA nos últimos anos. Andersen fez uma visita oficial à Arábia Saudita em janeiro de 2024, encontrou-se com ministros sauditas na cúpula da ONU sobre desertificação, realizada em Riad em dezembro de 2024, e buscou uma nova reunião ministerial em Davos em 2025 para discutir o “fortalecimento da cooperação”. Ela esteve novamente em Riadem 29 de junho, assinando um acordo de cooperação para redução de emissões.
O país pagou ao PNUMA US$ 1 milhão para sediaro Dia Mundial do Meio Ambiente em 2024 , uma quantia semelhante paga por países anfitriões anteriores, e fez doações à agência da ONU de mais de US$ 20 milhões entre 2020 e 2024. Parte disso foram contribuições ao fundo ambiental do PNUMA e cobriram dívidas que datam de 2021. Muitos países doam dinheiroao PNUMA, que depende dessas contribuições voluntárias para 95% de sua renda.
A maior parte do restante era proveniente de parcelas de umacordo de US$ 25 milhões firmado em 2019 para que o PNUMA fornecesse expertise no fortalecimento das proteções ambientais da Arábia Saudita. Após o acordo, o chefe do escritório do PNUMA na Arábia Saudita escreveu um relatório que, segundo informações do Guardian, expressava preocupações sobre a governança do dinheiro. O PNUMA se recusou a compartilhar o relatório com o Guardian, alegando que se tratava de um relatório padrão de transferência de responsabilidade de um funcionário que estava deixando o cargo e que era confidencial.
Em resposta às críticas a Andersen e às negociações do tratado sobre plástico, um porta-voz do PNUMA disse ao Guardian: “O único foco do PNUMA é apoiar todos os países na entrega de um tratado impactante que finalmente ponha fim à poluição por plástico. O PNUMA continua a facilitar a participação de todas as partes interessadas relevantes no processo para que possamos acabar com a poluição por plástico para todos, em todos os lugares.”
Nas negociações do tratado sobre plásticos, um funcionário do Ministério da Energia da Arábia Saudita foi eleito em novembro de 2024 para ogabinete de 10 representantes nacionais que conduzem as negociações do tratado.
Azoulay disse quea Arábia Saudita e seus aliados estavam minando as negociações do tratado sobre plásticos. “Estamos presenciando uma negociação de total má-fé.
A obstrução [da Arábia Saudita] assume muitas formas, usando seus 35 anos de experiência em sabotar negociações climáticas, usando todas as ferramentas processuais para impedir o progresso e usando seus vastos recursos financeiros para pressionar e tentar influenciar outros países”, disse ele. O governo saudita não respondeu a um pedido de comentário.
Lobby ‘esmagador’
Embora as delegações dos petroestados sejam figuras influentes nas salas de reunião e corredores das negociações do tratado, um grupo supera em número todas as nações: os lobistas da indústria do plástico. Nas negociações de dezembro em Busan, houve um recorde de 220 lobistas corporativos presentes .
Isso foi muito mais do que a delegação de 140 pessoas do país anfitrião e três vezes o número de cientistas independentes. A Dow e a ExxonMobil enviaram nove lobistas, de acordo com uma análise do grupo de direito ambiental Ciel. Alguns lobistas foram incluídos em delegações nacionais, em vez de organizações observadoras, o que lhes deu acesso a sessões sensíveis exclusivas dos Estados-membros, disse o Ciel.
“A presença avassaladora de lobistas da indústria distorce a direção do tratado”, afirma um documento que está circulando entre observadores preocupados do tratado e enviado ao Guardian. “Esse desequilíbrio marginaliza as evidências científicas em favor das agendas corporativas, minando a potencial eficácia do tratado.”
Este alerta não é novo. Outracarta de organizações ambientaisà Andersen, em abril de 2024, afirmava que a ausência de uma política de conflito de interesses permitia o acesso da indústria aos tomadores de decisão. “A participação de empresas dos setores de petróleo, gás e petroquímico representa uma grave ameaça aos objetivos do tratado”, afirmava a carta.
Um porta-voz do PNUMA afirmou que caberia aos próprios países negociadores estabelecer uma política de conflito de interesses, mas que eles optaram por não fazê-lo. Em referência ao assédio ao Professor Carney Almroth em Ottawa, o porta-voz afirmou que um código de conduta da ONUpara prevenir tal comportamento se aplicava estritamente a todas as reuniões sobre tratados sobre plásticos.
Outra alavanca de influência utilizada pelos interesses corporativos é o sistema pelo qual o PNUMA dá acesso total às negociações asetores da sociedade civil, incluindo mulheres, agricultores, povos indígenas, crianças e cientistas.
O número de membros de um grupo aumentou recentemente: empresas e indústria. Mais de 30 organizações de lobby da indústria química e do plástico aderiram às negociações desde o início de 2023, quase dobrando o número total.
Entre elas estão a Associação da Indústria de Plásticos dos EUA, a Plastics Europe e grupos nacionais da indústria de plásticos do Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia, Índia, Brasil, Colômbia, Malásia e Coreia. O grupo é copresidido por um representante saudita.
O problema, dizem os críticos, é que os participantes do setor têm recursos financeiros e interesses financeiros claros. “Lobby deveria ser chamado de lobby. Não deveria ser chamado de ‘observadores da sociedade'”, disse uma fonte próxima às negociações.
Uma refinaria de petróleo da ExxonMobil em Baton Rouge, Louisiana, nos EUA, a segunda maior do país. Fotografia: Barry Lewis/In Pictures/Getty Images
Um relatório da InfluenceMapde novembro de 2024 descobriu que grupos da indústria de plásticos e combustíveis fósseis, incluindo ExxonMobil, Sabic, PlasticsEurope e American Fuel and Petrochemical Manufacturers, “defenderam fortemente o enfraquecimento da ambição do tratado sobre plásticos”.
Em contraste, o relatório disse: “Os setores de bens de consumo e varejo apoiaram fortemente um tratado ambicioso e alinhado à ciência, mas [o setor de plástico e combustíveis fósseis] parece estar em vantagem no momento”.
Os custos de hotel e voo tornam as negociações do tratado caras para participar, e é por isso que ricos interesses industriais podem inundar as negociações com lobistas enquanto países menores, cientistas e ONGs lutam para encontrar fundos, disse Carney Almroth.
“Os lobistas têm muito mais poder e muito mais acesso”, disse ela. “Eles têm o poder econômico de entrar em salas onde eu não consigo. Eles podem falar diretamente com os ministros de maneiras que eu não consigo.”
Carney Almroth afirma ter a sorte de poder se manifestar, com um cargo permanente em uma universidade de apoio na Suécia, um país seguro ondeprocessos intimidatóriosque têm como alvo alguns cientistas são difíceis de serem movidos por empresas. Muitos outros pesquisadores de plásticos têm medo de se fazer ouvir, disse ela, temendo desafios legais, perda de financiamento ou prejuízos para suas carreiras. “É o manual do tabaco: desafiar a ciência, desafiar o mensageiro, tentar silenciar as pessoas, tentar minar a credibilidade das pessoas.”
Um grupo empresarial é particularmente influente: o Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, cujos membros incluem importantes empresas de plástico, produtos químicos e combustíveis fósseis, como Sabic, BASF, BP, Chevron, DuPont, Dow, LyondellBasell e Shell. O WBCSD forneceu sucessivos copresidentes para o grupo empresarial e industrial.
Em uma declaração, o WBCSD disse que seguiu as regras de procedimento da ONU, dizendo: “Apoiamos a ambição global de reduzir a produção e o uso de plástico [e] acreditamos que a participação das partes interessadas — incluindo empresas, sociedade civil, academia e outros — é fundamental para alcançar um acordo duradouro e eficaz.
“Representando empresas de todos os setores e em toda a cadeia de valor do plástico — desde produtores de matéria-prima até marcas de consumo e gestão de resíduos — nos engajamos como uma organização bem posicionada para compartilhar uma riqueza de conhecimento e experiência do setor privado e apoiar o processo em ações práticas.”
Mal-entendidos e desinformação
Especialistas científicos, também interessados em compartilhar sua riqueza de conhecimento, dizem que têm tido dificuldades para corrigir declarações erradas ou enganosas feitas por grupos da indústria durante as negociações.
Não existe um painel consultivo científico oficial para o tratado. Em vez disso, aCoalizão de Cientistas para um Tratado Eficaz sobre Plásticos (Scept), uma organização auto-organizada, tentou preencher a lacuna. Ela conta com 450 membros, nenhum financiado pela indústria, e assessora as nações menores afetadas pelo plástico, que não têm condições financeiras para enviar dezenas de delegados às negociações.
No entanto, em fevereiro de 2025, Scept escreveu ao departamentoque conduzia as negociações e à Andersen do PNUMA para reclamar da falta de acesso às reuniões durante a rodada de negociações de dezembro.
“Consequentemente, nossa capacidade de acompanhar as negociações foi severamente limitada”, disseram os cientistas. “Não conseguimos identificar lacunas de conhecimento, mal-entendidos ou informações incorretas que precisam ser esclarecidas, frequentemente disseminadas por atores com conflitos de interesse.”
Cientistas também disseram que suascríticas a um importante relatório do PNUMA de 2023sobre “como o mundo pode acabar com a poluição plástica” foram ignoradas. Os cientistas afirmaram que o relatório não refletiu toda a gama de impactos da poluição plástica na saúde e no meio ambiente e foi excessivamente otimista quanto a soluções técnicas para lidar com os resíduos plásticos.
Especialistas do Scept foram convidados a participar antes da publicação do relatório e forneceram mais de 300 comentários. O Pnuma afirmou que um “problema técnico” fez com que um e-mail contendo os comentários do Scept não fosse recebido a tempo para publicação. Afirmou ter recebido feedback de outros especialistas e negou que o relatóriotenha minimizado os impactos do plástico.
‘Ameaçando o futuro dos nossos filhos’
Alguns países se preparam para a próxima rodada de negociações em Genebra, em agosto. Noventa e cinco nações emitiram um “chamado de atenção para um tratado ambicioso sobre plásticos” em 10 de junho, na Conferência dos Oceanos da ONU.
“Montanhas de plástico [estão] sufocando nosso ecossistema, envenenando as cadeias alimentares e ameaçando o futuro dos nossos filhos”, disse o ministro do Meio Ambiente da França. “Este é um momento crucial. Não vamos desistir.”
Um depósito de lixo cheio de plástico em Rodriguez, província de Rizal, nas Filipinas. Fotografia: Eloisa Lopez/Reuters
Mas Carney Almroth está incerto quanto ao sucesso. “Quem sabe? Estamos planejando e elaborando estratégias para nossos cientistas agora e como vamos comunicar nossas mensagens. Mas acho que podemos esperar caos e fogos de artifício.”
Ela se lembrou de outro incidente de assédio em uma das negociações de plásticos. Um homem da indústria de plásticos, que não estava na lista de convidados, começou a assediar e gritar com os alunos que estavam fazendo o check-in. “Ele estava debruçado sobre eles, irritado — era um comportamento muito, muito ruim.”
“Todo mundo com quem já gritei foi um homem branco do norte global – todas as vezes. É uma dinâmica de poder”, disse ela. “Mas eu não me encolho. Eu não me encolho. E eu não levanto a voz. Eu respondo com referências, fatos e números. Também sou bem alta e, quando vou às reuniões, uso salto e sou mais alta do que a maioria deles. É mesquinho, mas é um jogo.”
“Gosto de pensar que estamos impactando de forma positiva, trazendo mais tomada de decisões baseadas em evidências de maneiras que podem nos ajudar a encontrar soluções que sejam realmente mais protetoras das pessoas e do meio ambiente.”
Sudip S. Parikh, diretor executivo da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), passou mais de duas décadas construindo uma ponte entre ciência, política e negócios. Crédito da imagem: Luisa Massarani.
Por Luisa Massarani para a SciDev
[RECIFE, SciDev.Net] “Este não é o momento de ficar em silêncio; é o momento de falar”, disse Sudip S. Parikh, diretor executivo da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) e editor executivo da família de periódicos Science , durante sua apresentação na Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Avanço da Ciência, realizada de 13 a 19 de julho em Recife, Brasil.
Filho de imigrantes indianos que trabalhavam em fábricas têxteis e de móveis da Carolina do Norte, Parikh concluiu sua graduação na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, primeiro como jornalista e depois se especializou em ciência dos materiais. Parikh passou mais de duas décadas na intersecção entre ciência, política e negócios.
Em uma entrevista ao SciDev.Net , ele discutiu suas opiniões sobre ciência, o estado atual da ciência nos Estados Unidos e sua visita ao Brasil.
Como o estado atual da ciência nos Estados Unidos pode impactar o Sul Global?
Infelizmente, isso impacta de muitas maneiras. A mais simples é a colaboração. Cientistas americanos individuais colaboram com seus pares no Sul Global. As interrupções que estamos vendo no financiamento para ciência climática, doenças infecciosas e diversidade são parte das colaborações que temos entre cientistas individuais nos EUA e em outros países. Essa é uma maneira. A segunda é que existem algumas áreas de ênfase onde as coisas foram desafiadas. Por exemplo, fizemos muito trabalho em ensaios clínicos na África do Sul com colegas de lá, e devido à mudança na forma como recrutamos, houve uma pausa no financiamento. Agora foi retomado, o que é uma boa notícia, mas todas essas pausas e transições desafiadoras se acumulam e criam incerteza. Finalmente, osdesafios para o financiamentonos EUA também estão se estendendo a parceiros científicos em todo o mundo que recebem financiamento diretamente do governo federal dos EUA. Por exemplo, o financiamento para atividades de vigilância de doenças infecciosas enfrentou cortes e cancelamentos. Isso também é um desafio para nossos parceiros. Algumas dessas coisas retornaram, mas a incerteza em torno da transição é prejudicial à liderança americana. Grandes cortes no orçamento científico ainda não foram feitos; O Congresso teria que fazer isso. Eles ainda não agiram, então vamos tentar neutralizar isso. Mas, neste momento, é um verdadeiro desafio.
Que papel a AAAS pode desempenhar no enfrentamento do estado da ciência nos Estados Unidos?
A AAAS tem um papel importante a desempenhar nos Estados Unidos. Prestei depoimento perante o Congresso algumas vezes nos últimos meses, na esperança de ajudar a explicar aos membros do Congresso o valor da ciência e da liderança americanas, e acho que estamos tendo algum sucesso. Se prestarmos atenção, mesmo em ambos os lados da política, há apoio à ciência. Também estamos analisando pesquisas básicas e aplicadas financiadas pelo governo federal dos EUA. Esses papéis são importantes porque fornecem os dados para o debate. Além disso, como organização, na AAAS, queremos garantir que, à medida que viajamos pelo mundo, falemos sobre as medidas que estamos tomando para mudar essa incerteza nos Estados Unidos — um processo que ainda está em andamento.
Por que participar da Conferência Anual da Associação Brasileira para o Progresso da Ciência?
Há relacionamentos que precisamos construir. É bom ter relacionamentos ao redor do mundo. E é ainda melhor tê-los pessoalmente para desenvolvê-los mais tarde. Parte do que eu queria fazer era simplesmente conhecer as pessoas. A segunda parte era aprender lições sobre como fortalecer iniciativas nos próximos anos. Por exemplo, no Brasil, aprendi que os estados financiam muita ciência em nível estadual. Em São Paulo, em particular, 1% de sua receita vai para pesquisa e desenvolvimento. Isso é notavelmente vanguardista e é um modelo que pode ser valioso nos Estados Unidos. Também me inspirei na resiliência da ciência brasileira nos últimos quatro anos [durante o mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro]. Acho mais importante do que nunca para a AAAS conversar com a comunidade internacional sobre o que os cientistas nos Estados Unidos estão realmente passando.
Em 2024-2025, você presidiu a Força-Tarefa Visão para a Ciência e Tecnologia Americana (VAST), uma iniciativa do Comitê de Ação em Ciência e Tecnologia. Poderia compartilhar sua experiência, as principais lições aprendidas e como isso se encaixa na situação atual?
Damos muito crédito a Vannevar Bush, que serviu como conselheiro científico do presidente Roosevelt na década de 1940 e ajudou a projetar a organização científica americana. Ele tinha duas ideias profundas. Uma era que deveríamos investir em ciência tanto em tempos de paz quanto em tempos de guerra.
A segunda era que a ciência deveria ser financiada pelo governo federal, mas deveria ser implementada em instituições de ensino superior onde o aprendizado e a pesquisa pudessem ser realizados simultaneamente. E é daí que vem a nossa maneira atual de pensar sobre estudantes de pós-graduação e pós-doutorado trabalhando em ciência. Eles são verdadeiramente valiosos. Mas, nos últimos 80 anos, construímos muito a partir disso, e o mundo mudou.
Em 1945, não existiam nações semelhantes. Agora, vários países estão investindo pesadamente em ciência. Brasil, China e Europa estão investindo em ciência. O que isso significa para a nossa estratégia? O que significa que hoje a indústria americana investe muito mais dinheiro em ciência e tecnologia do que o governo federal? O que significa que tantos dos nossos cientistas sejam imigrantes? Então, queríamos nos reunir e analisar isso como uma nova maneira de descrever a organização que temos hoje e apresentar uma visão de como ela deveria ser no futuro. Reuni cerca de 70 pessoas de todo o país, incluindo reitores de universidades, CEOs de empresas, estudantes de pós-graduação, cientistas industriais…
Se não apresentarmos uma visão do que é possível, todos vão querer fazer a coisa mais fácil: cortar impostos, não gastar dinheiro com ciência e investir em outras áreas. Acho que todos os países deveriam pensar no que queremos alcançar nos próximos 20 anos.
Sudip S. Parikh, Diretor Executivo da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS)
Crédito da imagem: Jardel Rodrigues/SBPC.
Ao longo de dois meses, tentamos identificar três recomendações-chave para a organização. Observamos que isso deveria se aplicar a todas as áreas dos EUA, não apenas às universidades. Com isso, quero dizer que temos mais cientistas e engenheiros na indústria do que no meio acadêmico. Como podemos aumentar o financiamento federal para a ciência, garantindo, ao mesmo tempo, a política tributária adequada para transformar uma descoberta em um produto ou tratamento? Fizemos três recomendações para atingir esse objetivo. A primeira se concentrou na carga tributária e no peso das responsabilidades administrativas.
Em termos tributários, o foco principal era a indústria e garantir que seus investimentos fossem reconhecidos para economizar impostos. Do lado dos cientistas, queríamos garantir que eles não tivessem tanto ônus administrativo. Quase metade do tempo dos cientistas é gasto preenchendo formulários e realizando tarefas administrativas. As recomendações eram para aprimorar a política tributária e eliminar parte do ônus administrativo. O segundo conjunto de recomendações se concentrou na força de trabalho, nas pessoas. Como vamos garantir que dependeremos tanto de talentos locais, nascidos nos Estados Unidos, quanto de talentos de todo o país? Nos Estados Unidos, muitos de nossos cientistas vêm das Costas Leste e Oeste.
Mas temos talentos enormes no coração do país, tanto no sul quanto no norte: como podemos atrair todos eles? Estávamos elaborando uma estratégia para isso. A segunda parte era como garantir que continuemos sendo um ponto focal para grandes cientistas de todo o mundo. A polinização cruzada é crucial. Mesmo que venham apenas por um curto período e depois retornem ao seu país de origem, eles contribuem para a cultura e o ambiente do esforço científico americano. A terceira recomendação era sobre dinheiro. Precisamos de investimento federal em ciência, porque é aí que reside a descoberta fundamental. Tudo isso foi concluído em janeiro deste ano, antes da posse do novo presidente.
Houve desafios. E isso levou a um debate sobre como será a visão futura da ciência, e o governo concorda com muitas das propostas. A ideia que mencionei sobre impostos — de reduzir a carga tributária se você estiver disposto a investir em ciência — foi incorporada ao primeiro grande projeto de lei do presidente Trump. Na verdade, já foi implementada. Em relação à carga administrativa, o governo criou um grupo de trabalho para entender como reduzi-la para os cientistas. O presidente até gosta de algumas dessas recomendações.
Este presidente não gosta de recomendações relacionadas aimigração e dinheiro, então continuaremos a insistir em sua importância e a defendê-las. Precisamos de uma estrutura que mostre que não estamos apenas fazendo o que um partido político gosta. Essa estrutura me permite falar positivamente sobre o futuro; precisamos ser capazes de fazê-lo. Na minha opinião, se queremos que um país avance, precisamos primeiro apresentar uma visão do que é possível. É possível erradicar o HIVagora mesmo. Temos as ferramentas para isso, assim como erradicamos a varíola.
Temos o poder de erradicar a hepatite C. Temos os tratamentos para isso. Temos a capacidade de ir a Marte, se quisermos. Se não apresentarmos uma visão do que é possível, todos vão querer fazer a coisa mais fácil: cortar impostos, não gastar dinheiro em ciência e investir em outras áreas. Acho que todos os países deveriam pensar no que queremos alcançar nos próximos 20 anos.
A remoção de centenas de cabeças de gado criadas ilegalmente em terras públicas destinadas ao uso sustentável da floresta na Amazônia brasileira gerou protestos e dividiu moradores, com alguns buscando preservar a extração da borracha e a colheita da castanha-do-pará e outros querendo consolidar a pecuária. (Vídeo AP: Mario Lobão, Produção: Tatiana Pollastri)
Por Fabiano Maisonnave para a Associated Press
BRASÍLIA, Brasil (AP) — A remoção de centenas de cabeças de gado criadas ilegalmente em terras públicas destinadas ao uso florestal sustentável na Amazônia brasileira gerou protestos e dividiu moradores, com alguns buscando preservara extração de borrachae a colheita de castanha-do-pará e outros querendo consolidar a pecuária.
A operação de remoção começou na semana passada em uma das unidades de conservação mais renomadas da Amazônia, a Reserva Extrativista Chico Mendes , nomeada em homenagem ao famoso seringueiro e ambientalista morto em 1988. Agentes federais, em colaboração com policiais e militares, apreenderam cerca de 400 cabeças de gado de dois fazendeiros que descumpriram ordens judiciais de despejo. As operações devem continuar nas próximas semanas.
Mas dezenas de moradores da reserva protestaram contra a ação, buscando criar um bloqueio na cidade de Xapuri para impedir a retirada do gado. O primeiro caminhão, com 20 cabeças de gado, teve que tomar uma rota alternativa para evitar o confronto.
O protesto, que contou com o apoio de políticos locais, teve um simbolismo poderoso, já que Xapuri é a cidade onde Mendes foi morto a tiros. Também representou um contraste com a década de 1980, quando seringueiros lutaram contra pecuaristas.
Uma seringueira é preparada para a retirada da borracha na Reserva Extrativista Chico Mendes, estado do Acre, Brasil, em 6 de dezembro de 2022. (Foto AP/Eraldo Peres, Arquivo)
A remoção do gado ocorreu em resposta a um aumento de 56% no desmatamento durante os primeiros cinco meses de 2025, em comparação com o mesmo período do ano passado. A área desmatada é quase cinco vezes maior que o Central Park, em Nova York. A reserva abriga cerca de 140.000 cabeças de gado.
“O monitoramento identificou que o crime ambiental decorre principalmente da pecuária de grande porte, o que é ilegal por violar as regras da unidade de conservação”, afirmou em nota o órgão federal Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio.
A Reserva Chico Mendes é uma das diversas reservas extrativistas da Amazônia onde comunidades florestais podem praticar atividades extrativas de baixo impacto, com proteção contra incorporadores. As regras limitam o desmatamento à pecuária e agricultura de pequena escala, e a venda de terras é proibida. Ainda assim, a Reserva Chico Mendes é a unidade de conservação federal mais desmatada do Brasil.
‘Trabalhando para encontrar uma solução’
Os problemas atuais se agravaram durante o mandato de quatro anos do presidente de extrema direita Jair Bolsonaro, que durou até 2022,quando o desmatamento na reserva explodiu. Bolsonaro desvalorizou a proteção ambiental e disse que a Amazônia tinha áreas protegidas demais. Alguns moradores de Chico Mendes começaram a vender suas terras ilegalmente para fazendeiros, que esperavam que elas fossem eventualmente legalizadas.
A forte reação à operação levou à criação de um grupo de WhatsApp com cerca de 1.000 membros, no qual alguns fizeram ameaças a Raimundo Mendes de Barros, primo e herdeiro político de Chico Mendes, que se opõe à expansão da pecuária. Mas organizações históricas aplaudiram as remoções de gado, incluindo o Conselho Nacional das Populações Extrativistas, que emitiu uma nota de apoio à operação.
Cleisson Monteiro, presidente da Associação de Moradores e Produtores da Reserva Extrativista Chico Mendes, em Xapuri, apoiou os protestos contra a retirada do gado. Ele afirmou que, embora o desmatamento deva ser combatido, os agentes federais provocaram revolta e medo entre as famílias que não cumprem todas as normas da reserva.
A área onde as invasões começaram, conhecida como Seringal Nova Esperança, “não tem mais um perfil seringueiro”, disse Monteiro. “Os moradores têm um modo de vida diferente. São agricultores que se dedicam à agricultura familiar em pequena escala, com alguma criação de gado para corte e leite.”
Monteiro afirmou que cerca de 140 famílias vivem em Nova Esperança, incluindo a sua, todas com diferentes graus de descumprimento das regras da reserva. Ele afirmou que, embora apenas dois indivíduos tenham sido alvos, há a preocupação de que a operação possa afetar outras famílias.
“O ICMBio não deveria ter agido neste momento, porque estamos trabalhando para encontrar uma solução”, disse ele.
‘A floresta não pode competir’
A reserva abriga cerca de 4.000 famílias. Cerca de 900 produzem borracha para aVeja, empresa francesa de calçados. O projeto tem se mostrado bem-sucedido, mas a demanda não é alta o suficiente para absorver todo o potencial de produção da reserva.
Jeffrey Hoelle, professor de antropologia na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, queestuda a áreahá duas décadas, disse que a criação de gado tem sido mais lucrativa para os moradores do que os meios tradicionais de extração de borracha e nozes da floresta.
“Vinte anos atrás, os seringueiros estavam apenas começando a adotar o gado. E, nas últimas duas décadas, ele se tornou cada vez mais popular”, disse Hoelle. “Com o tempo, tornou-se mais aceitável. Mas, essencialmente, a floresta não consegue competir em termos de valor econômico com o gado. O alcance que a borracha e a castanha-do-pará podem prover para as pessoas é realmente limitado em comparação com o gado, para o qual, infelizmente, é preciso derrubar a floresta e plantar pasto.”