‘Minhas forças estão acabando’: a dura rotina na colheita do café colombiano

Com informalidade que chega a 80%, segundo a OIT, setor cafeeiro da Colômbia não garante aposentadoria aos trabalhadores ou assistência em caso de acidentes 

Por Poliana Dallabrida/ Fotos Fernando Martinho/ Edição Bruna Borges para a Repórter Brasil

DE ANTIOQUIA E HUÍLA (COLÔMBIA) –O colhedor de café Ricardo Solano Carillo, de 40 anos, revela nunca ter tido um contrato formal de trabalho ou contribuído com o sistema previdenciário de seu país. Ele trabalhava na colheita em janeiro deste ano, quando a Repórter Brasil esteve na região, e admitiu: “Minhas forças estão acabando”. Ao refletir sobre os colegas idosos ainda em atividade – uma cena comum nos cafezais colombianos –, desabafou: “Peço muito a Deus para me levar antes disso”.

“É uma informalidade absoluta”, destaca Robinzon Piñeros Lizarazo, professor de ciências sociais da Universidade SurColombiana, no estado de Huíla, e pesquisador das relações de trabalho no campo na Colômbia, país frequentemente citado entre os produtores dos melhores cafés do mundo. “Essa informalidade é determinada pela relação de contrato que fazem. É um contrato verbal”. 

Especialistas afirmam que são raros os contratos formais de trabalho para os recolectores, como são chamados os trabalhadores da colheita do café colombiano. Sem registro, também não há garantia de acesso a direitos como aposentadoria, proteção em caso de doenças e acidentes, licença maternidade e paternidade. Segundo um estudo de 2022 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), a informalidade na colheita de café da Colômbia pode superar os 80%.

Repórter Brasil ouviu pesquisadores e entrevistou dezenas de trabalhadores e cafeicultores durante a colheita do famoso grão de café colombiano. Os detalhes desta investigação podem ser lidos no relatório: Melhor do mundo? Alojamentos precários, longas jornadas e informalidade na colheita de café da Colômbia (disponível em português, inglês e espanhol). 

Além dos trabalhadores informais, não raro também atuam na colheita os proprietários de pequenos cafezais. É o caso de Lucas Quintero Vargas, de 62 anos, dono dos seis hectares da Finca La Siberia, localizada em Palermo, no estado de Huíla. Na safra, ele colhe o grão e contrata informalmente 15 trabalhadores temporários para a colheita. 

Pela sua idade, Vargas já poderia pensar na aposentadoria. Questionado sobre o quanto ganharia, ele ri, envergonhado. “Eu nunca contribuí com nada disso. Nunca paguei aposentadoria, seguro”, afirma. “É tudo muito caro”. Se Vargas, que é um pequeno produtor, não conseguiu contribuir para a própria aposentadoria, trabalhadores informais que não possuem terra para cultivar possuem dificuldades ainda maiores.

Grão selecionado em terreno íngreme

Na colheita manual brasileira convencional, todos os grãos de café que crescem nos galhos são arrancados de uma vez. Eles caem sob uma lona no chão e depois são recolhidos e ensacados. Na Colômbia, para colher apenas os grãos maduros, os trabalhadores precisam colher grão por grão. Isso garante a qualidade do sabor da bebida.

O trabalho para colher o famoso grão colombiano é árduo. As plantações ficam em morros empinados, onde a mecanização é impossível. Os trabalhadores precisam se agarrar nas árvores para não cair montanha abaixo. Alguns locais são tão íngremes que a queda pode ser fatal. 

Os trabalhadores também são responsáveis por carregar os sacos cheios de café que pesam, em média, 60 kg até o ponto de conferência e pesagem. 

“O trabalhador que vai colher nessas áreas sabe que vai trabalhar em um terreno inclinado, em sulcos onde se pode deslizar”, explica Lizarazo. “Então, pode haver acidentes como quedas, se machucam os pés, os braços. Além disso, ao estar em zonas mais altas, a chuva é maior. E então vem problemas pulmonares, gripes e demais [doenças]”.

Longas jornadas

Além da informalidade e da falta de acesso ao sistema de proteção social da Colômbia, os trabalhadores que atuam na colheita trabalham em longas jornadas. 

“São jornadas longas. Os trabalhadores me dizem: ‘eu me mato nesses dois meses, e com isso economizo e volto [para o lugar de origem]”, complementa Lizarazo. “Isso tudo é consequência do salário por produção”.

Assim como em outras fazendas de café no país, certificadas ou não, as jornadas de trabalho podem ultrapassar as 8 horas diárias e 48 horas semanais – limite máximo permitido na Colômbia quando este relatório é publicado. A partir de julho de 2025, a jornada semanal máxima no país será de 42 horas semanais

Em geral, os trabalhadores começam a colher o grão às 6h30 e param às 16h, quando o sol começa a baixar, mas eles ficam nos cafezais até que seus sacos de café sejam pesados e seus ganhos contabilizados, relataram os trabalhadores. “Em teoria, deveria ser aplicado [o limite máximo de jornada], mas na realidade isso não acontece”, explica Fabio González, diretor do Ministério do Trabalho no estado de Antioquia. 

Essa dinâmica de longas jornadas também pode ocorrer com cafeicultores que atuam na colheita. Vargas, dono da Finca La Sibéria, afirma chegar a trabalhar até 19 horas por dia no período mais intenso de colheita, com pausas apenas para rápidas refeições. “Há dias em que eu me levanto às 4h, 4h30 da manhã e trabalho até às 22h, 23h da noite”, explica. 

Os trabalhadores ouvidos pela reportagem afirmaram que recebem seus pagamentos de acordo com a quantidade de grão colhido. As longas jornadas ocorrem para tentar aumentar os rendimentos durante a safra. Na Colômbia, o salário mínimo nacional é de 1,4 milhões de pesos (R$ 1,8 mil), mas ganhos acima desse valor não são garantidos aos recolectores de café. Pode ser grande a variação dos rendimentos dos trabalhadores do campo, pois eles podem colher menos café se há, por exemplo, dias seguidos de chuva ou se adoecem.

*A investigação da Repórter Brasil foi acompanhada por integrantes da Voces por El Trabajo, organização que realiza pesquisas sobre condições de trabalho em diversos setores da economia colombiana, e apoiada pela Coffee Watch.


Fonte: Repórter Brasil

A dupla alienação do professor universitário

O desafio, hoje, é reconstruir sentidos para o trabalho docente e para a linguagem universitária. É preciso recusar a naturalização do cansaço e da perda do tempo partilhado. É necessário desobedecer ao mandato da eficiência que apaga a escuta, a dúvida e a sensibilidade

Imagem: Gül Işık

Por João dos Reis Silva Junior* para o “A Terra Redonda”

1.

A crise vivida pela universidade pública brasileira transcende os números do orçamento, a precarização das estruturas ou a mera falta de reconhecimento social. O núcleo desse processo reside em uma experiência dilacerante e pouco nomeada: o professor universitário, tornado figura central de uma engrenagem contraditória, é capturado por uma dupla alienação que esvazia tanto o sentido de seu trabalho quanto a potência de sua palavra.

No plano mais visível, a alienação material do docente revela-se na sobrecarga, nos múltiplos vínculos, nas tarefas que jamais se encerram. A sala de aula invade o lar, as plataformas digitais sequestram o tempo de descanso, os relatórios substituem o exercício pleno da reflexão.

O professor se multiplica em funções: orientador, pesquisador, executor de projetos, gestor de si e dos outros – quase sempre sem tempo para ser, de fato, mestre. A cada ciclo de avaliações, novas metas são impostas. A cada edital, renova-se a promessa de reconhecimento que nunca se realiza. O resultado é o acúmulo silencioso do cansaço, da frustração, da sensação de ausência nos espaços de afeto.

O trabalho docente, antes experiência de partilha, vira travessia solitária e marcada pela culpa: quantos jantares, quantos momentos com os filhos, quantas conversas fiadas são sacrificadas para atender a demandas institucionais que se renovam ao infinito.

Ao lado desse esgotamento objetivo, há uma alienação menos visível e ainda mais corrosiva: a expropriação da linguagem do próprio professor. O docente vê-se obrigado a comunicar-se com um léxico estranho, marcado pelo idioma dos editais, das métricas e das autoavaliações compulsórias. A palavra, que deveria ser espaço de invenção e de pensamento, é domesticada pela lógica do desempenho.

Relatórios, artigos e projetos são formatados para caber nas exigências institucionais e para pontuar em rankings que pouco dialogam com a experiência real da sala de aula e da pesquisa crítica. O docente aprende, não sem sofrimento, a apagar sua voz – e a falar segundo as regras do jogo. Perde-se, aí, o sabor do inesperado, da dúvida, do tropeço criativo, da escuta autêntica.

A universidade atual demanda professores que entreguem resultados, que ajustem sua prática à gramática da eficiência e do empreendedorismo. A experiência docente, assim, é recodificada: o gesto de ensinar converte-se em performance, o tempo de leitura é substituído pela ansiedade do próximo prazo, a orientação transforma-se em gerenciamento de trajetórias.

O professor é pressionado a transformar vocação em produtividade, criatividade em produto, dúvida em plano de metas. Quando o reconhecimento chega, ele já é moeda simbólica para outra competição. Quando falha, o fracasso é vivido como defeito pessoal, nunca como sintoma de um ambiente hostil.

2.

Essa dupla alienação – do trabalho e da palavra – não é vivida de modo uniforme. Ela se intensifica nos segmentos mais vulneráveis: docentes temporários, mulheres, negros, jovens, professores das regiões periféricas ou do interior. Esses grupos sofrem ainda mais o impacto das políticas de precarização e são frequentemente responsabilizados por sua própria exclusão.

O sofrimento, em vez de mobilizar solidariedade, é internalizado como culpa. O adoecimento físico e mental é tratado como infortúnio individual, nunca como parte de um projeto institucional que sacrifica pessoas para manter a engrenagem em funcionamento.

Apesar desse quadro adverso, há resistências. Mesmo nos interstícios de um sistema que impõe a obediência e sufoca a imaginação, alguns gestos escapam à captura: a aula que desacelera, a pesquisa que se recusa a caber nos formulários, a orientação que acolhe o silêncio, a escrita que ousa errar. Pequenas insubordinações persistem – e nelas, ainda pulsa a possibilidade de uma universidade mais aberta ao humano, menos entregue ao algoritmo.

O desafio, hoje, é reconstruir sentidos para o trabalho docente e para a linguagem universitária. É preciso recusar a naturalização do cansaço e da perda do tempo partilhado. É necessário desobedecer ao mandato da eficiência que apaga a escuta, a dúvida e a sensibilidade.

Isso só será possível se o professor recuperar, no exercício de sua palavra, a coragem do inacabado, da pausa, da hesitação – elementos que não cabem nos relatórios, mas sustentam toda experiência de pensamento autêntico.

A dupla alienação, portanto, não pode ser superada apenas por reformas administrativas ou pela ampliação de recursos. Trata-se de resgatar o sentido do comum, de revalorizar a linguagem como território de invenção, de fortalecer laços de solidariedade e crítica no cotidiano universitário.

Enquanto o ofício de ensinar for visto apenas como um número a ser preenchido, um índice a ser perseguido, a universidade continuará sendo campo de sofrimento e não de formação. Somente quando a fala do professor recuperar seu poder de nomear o mundo – mesmo que tropeçando, mesmo que hesitando – será possível inaugurar outros modos de existir e pensar na universidade capturada.

*João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de Educação, sociedade de classes e reformas universitárias (Autores Associados[https://amzn.to/4fLXTKP]

Referências


BAMBIRRA, Vânia. O capitalismo dependente latino-americano. Rio de Janeiro: Graal, 1978.

DOS SANTOS, Theotonio. A teoria da dependência: balanço e perspectivas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1973.

OLIVEIRA, Francisco de. Crítica à razão dualista: o ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003.

SILVA JÚNIOR, João dos Reis. |Universidade Inacabada: Razão e Precariedade. Campinas. Editora Mercado de Letras, 2026.


Fonte: A Terra é Redonda

Matéria de página no “O GLOBO” mostra que as engrenagens se movimentam contra Rodrigo Bacellar

Uma matéria de página inteira e na edição dominical do Caderno de Política do “O Globo” pode ser sinal claro de que uma carreira politica está sendo turbinada ou abatida, dependendo do conteúdo. Se esse raciocínio estiver correto, o dia de hoje não está sendo nada bom para o deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa do estado do Rio de Janeiro, o campista Rodrigo Bacellar (União) (ver imagem abaixo). 

É que pelas penas do jornalista Caio Sartori, os leitores do “O Globo” vão ter detalhes do complicado caso envolvendo Rodrigo Bacellar e seu pai, Marcos Bacellar, no complicado caso de um suposto aluguel da Prefeitura Municipal de Cambuci, município localizado a 80 km da base política de Bacellar, o município de Campos dos Goytacazes.

A coisa não é nova e se arrasta do já longínquo ano de 2010 quando Rodrigo presidia a agora defunta Fundação Estadual do Norte Fluminense (Fenorte) e o pai, Marcos, presidia a Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes.

Os apoiadores de Rodrigo Bacellar certamente irão desmerecer o conteúdo bombástico da reportagem dizendo que é notícia velha, mas uma coisa é inescapável da mera publicação desse tijolaço com teor potencialmente explosivo: as engrenagens políticas estão se movendo contra Rodrigo Bacellar e, provavelmente, de forma precoce, sua ambição de ser o candidato situacionista para suceder o governador Cláudio Castro em 2026.

Exposição à misturas de agrotóxicos aumenta risco de complicações na gravidez, sugere estudo

Um inspetor de controle de mosquitos pulveriza pesticida

Um inspetor de controle de mosquitos pulveriza agrotóxico em Miami Beach, Flórida, em 2016. Fotografia: Joe Raedle/Getty Images 

Por Tom Perkins para o “The Guardian”

A exposição a múltiplos agrotóxicos aumenta as chances de complicações na gravidez em comparação com a exposição a apenas um zgrotóxico sugere uma nova pesquisa revisada por pares . As descobertas levantam novas questões sobre a segurança da exposição a pesticidas e herbicidas amplamente utilizados em comunidades agrícolas e alimentares.

O estudo, que biomonitorou mulheres grávidas em um estado fortemente agrícola na Argentina, soma-se às evidências recentes, porém limitadas, que apontam para perigos maiores em misturas de pesticidas.

Os autores dizem que a pesquisa sobre como as misturas de agrotóxicos afetam a saúde humana é importante porque a grande maioria dos estudos analisa a exposição a um único agrotóxico, e as regulamentações sobre o uso das substâncias são desenvolvidas com base na toxicidade de apenas um.

No entanto, as pessoas são frequentemente expostas a múltiplos agrotóxicos em refeições não orgânicas ou quando vivem em regiões agrícolas ao redor do mundo. Estudar a exposição a essas misturas e outros fatores ambientais é “essencial” para proteger a saúde das pessoas, disseram os autores, da Universidade Nacional do Litoral, na Argentina.

“O conceito de exposoma, que abrange todas as exposições ambientais ao longo da vida, ressalta a importância de estudar pesticidas como misturas e não isoladamente”, escreveram os autores.

O estudo surge na esteira de uma pesquisa da Universidade de Nebraska que descobriu que registros estaduais de câncer e dados de biomonitoramento mostraram que a exposição a vários agrotóxicos  pode aumentar as chances de crianças desenvolverem câncer no cérebro em cerca de 36%.

O novo estudo verificou a presença de agrotóxicos na urina de quase 90 gestantes em Santa Fé, Argentina, uma região fortemente agrícola, e monitorou o desenvolvimento da gravidez. Cerca de 40 agrotóxicos diferentes foram detectados.

Pelo menos um agrotóxico foi encontrado na urina de 81% das mulheres, e 64% apresentaram múltiplos agrotóxicos. Dessas, 34% apresentaram complicações na gravidez.

O número de mulheres que vivem em áreas urbanas com pelo menos um agrotóxico no corpo foi apenas ligeiramente menor do que o das mulheres em distritos rurais, sugerindo que a alimentação também é uma via de exposição significativa. No entanto, cerca de 70% das mulheres em áreas rurais apresentaram múltiplos agrotóxicos, em comparação com 55% das mulheres em áreas urbanas, evidenciando um risco maior entre as primeiras.

Os participantes rurais tinham duas vezes mais probabilidade de ter complicações relacionadas à gravidez em comparação aos participantes urbanos, em parte porque eram expostos com mais frequência a misturas.

A região de Santa Fé cultiva dezenas de culturas, incluindo alface, repolho, chicória, tomate, salsa, espinafre, cenoura, pimentão, batata e morango, e a grande variedade de culturas leva ao uso de mais agrotóxicos, escreveram os autores.

“O aumento da prevalência de complicações relacionadas à gravidez entre participantes rurais destaca a necessidade de uma revisão abrangente dos protocolos de uso de agrotóxicos, limites de exposição e avaliações de risco à saúde em programas de agricultura e horticultura”, disseram os autores.

A hipertensão gestacional estava entre as complicações mais comuns relacionadas à gravidez, e o resultado mais comum foi a restrição de crescimento intrauterino, uma condição na qual o feto não atinge o peso normal durante a gravidez.

Os resultados também podem apontar para perigos no tipo de pesticida ao qual as mulheres são expostas, escreveram os autores. Aquelas que apresentaram complicações apresentaram níveis mais elevados de fungicidas triazólicos, uma classe de agrotóxicos amplamente utilizada em culturas como milho, soja e trigo. Algumas evidências anteriores sugerem que se trata de um tóxico reprodutivo, e os autores afirmam que suas descobertas demonstram a necessidade de mais pesquisas sobre os potenciais efeitos dessa classe.

Embora nem todos os pesticidas sejam usados nos EUA ou em outros países como na Argentina, o uso de fungicidas triazólicos quadruplicou nos EUA entre 2006 e 2016, especialmente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Ainda assim, o uso tem sido pouco investigado por órgãos reguladores.

A exposição a misturas de pesticidas em geral “é a regra, não a exceção”, disse Nathan Donley, pesquisador de agrotóxicos do Centro de Diversidade Biológica, que não esteve envolvido no estudo.

“Na maioria dos casos, não temos a mínima ideia de como as diferentes misturas interagem no útero, em uma criança ou em um adulto”, disse Donley. “Algumas misturas provavelmente não estão fazendo muita coisa, outras provavelmente estão causando danos significativos que ainda não identificamos.”

Há pouca supervisão regulatória de misturas de agrotóxicos nos EUA, em parte porque determinar os impactos das misturas na saúde é complicado, acrescentou Donley.

“Os EUA tendem a simplesmente presumir que tudo é seguro até que se prove o contrário e, como há muito pouca pesquisa sobre misturas de agrotóxicos, raramente se prova o contrário”, disse Donley, acrescentando que os riscos desconhecidos exigem maior precaução.

Os autores observam que o tamanho da amostra do artigo é pequeno, e as descobertas apontam para a necessidade de um estudo maior de biomonitoramento.

“São necessários maiores esforços para aprofundar e expandir a avaliação da exposição humana a agrotóxicos em populações vulneráveis”, escreveram os autores.


Fonte: The Guardian

A BR-319 ameaça a Amazônia em nome do ‘progresso’ e da política

Incêndios e desmatamento na floresta amazônica. Crédito da foto: ID 306384983 © Yuliia Kaveshnikova | Dreamstime.com

Por Monica Piccinini para “Medium” 

Em 15 de julho, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e o ministro dos Transportes, Renan Filho, anunciaram e assinaram formalmente um acordo delineando planos para reconstruir a polêmica rodovia BR-319.

À primeira vista, parece uma estratégia calculada com promessas de avaliações ambientais e estruturas de governança, mas por trás da retórica política existe uma verdade sombria e irreversível: a BR-319 pode ser o golpe final que levará a Amazônia à beira do colapso.

O caminho da destruição

A BR-319 é um trecho rodoviário de 885 km que corta uma das últimas áreas intocadas da floresta amazônica. Ligando Manaus a Porto Velho, ela atravessa floresta tropical intocada, terras indígenas e biodiversidade vital.

Originalmente construída durante a ditadura militar brasileira na década de 1970, foi abandonada em 1988 por ser econômica e ambientalmente inviável. Mas, como um fantasma do passado, a BR-319 continua retornando, desta vez com implicações muito mais perigosas.

Os governos tentam revitalizar a rodovia há décadas. No entanto, todos os estudos ambientais confiáveis confirmam que a pavimentação da BR-319 abriria uma caixa de Pandora de estradas ilegais, desmatamento, degradação, grilagem de terras e ocupação violenta.

Lucas Ferrante, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), destacou as consequências alarmantes das atuais políticas ambientais brasileiras e a falta de salvaguardas eficazes. Ele enfatizou as implicações globais dessas decisões e seu impacto na região amazônica:

O país ignora sistematicamente os alertas da comunidade científica, apesar das evidências claras publicadas em periódicos importantes como Science, Nature e The Lancet. Esta é uma decisão deliberada que ameaça todas as nações do mundo.

Nesse contexto, o Brasil fica sem nenhuma salvaguarda ambiental eficaz, e a rodovia BR-319 se tornou uma rota para expansão do desmatamento, grilagem de terras, pecuária ilegal, crime organizado e extração de petróleo na Amazônia.

Governança: Uma ilusão perigosa

O governo afirma que estabelecerá um modelo de governança para monitorar a região. No entanto, até mesmo a Polícia Militar do Brasil declarou que qualquer cenário de governança é inalcançável e irrealista. Dado o terreno vasto e desafiador, nenhum órgão de fiscalização tem os recursos, o alcance ou a capacidade de conter o caos que a BR-319 desencadearia.

Hoje, mais de 6.000 km de estradas vicinais ilegais já cruzam a região, formando um padrão devastador em espinha de peixe que garante acesso sem precedentes a garimpeiros, madeireiros, grileiros e ao crime organizado. A BR-319 não seria apenas uma estrada, mas se tornaria uma artéria de destruição, alimentando uma vasta e descontrolada máquina de desmatamento.

Uma sentença de morte para a floresta tropical

A BR-319 conectaria a Amazônia Central à região da AMACRO, um foco de desmatamento que leva o nome dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia. Sua reconstrução teria consequências catastróficas, destruindo a biodiversidade e abrindo caminho para a exploração de um dos ecossistemas mais ricos do planeta.

Intensificaria as mudanças climáticas ao liberar enormes quantidades de carbono armazenado. Alimentaria a mineração e a exploração madeireira ilegais, minando o Estado de Direito. Invadiria territórios indígenas, violaria seus direitos e colocaria suas vidas em risco. E criaria um terreno fértil para o florescimento do crime organizado.

Os danos não se limitariam à floresta. Os “rios voadores”, enormes correntes de ar que transportam umidade da Amazônia para o sul do Brasil, seriam interrompidos. Esses rios voadores são essenciais para os padrões de chuva. Sem eles, grandes cidades e regiões agrícolas sofrerão secas devastadoras.

Mais de 70% das chuvas que abastecem o sistema hídrico da Cantareira , em São Paulo , provêm da Amazônia. Se a BR-319 avançar, a segurança hídrica da maior cidade do Brasil poderá estar em risco, com consequências diretas para a agricultura e o potencial colapso de todos os setores econômicos do país.

O custo humano: Doença e deslocamento

As consequências da BR-319 também seriam medidas em vidas humanas. Ao destruir ecossistemas florestais e avançar ainda mais em habitats de vida selvagem, este projeto cria condições perfeitas para o surgimento de novas doenças zoonóticas , aumentando o risco de outra pandemia global . Os casos de malária na região já aumentaram 400%.

A disseminação da febre de Oropouche , transmitida pelo pequeno mosquito Culicoides paraense , conhecido localmente como maruim, tem sido outro sinal alarmante. Entre 2022 e 2024, foram registrados mais de 6.000 casos de febre de Oropouche . Esses surtos, originados na região da AMACRO, já se espalharam pelo Brasil, para o estado do Espírito Santo, outros países da América do Sul e Caribe.

De acordo com o governo do Reino Unido , vários casos de Oropouche associados a viagens foram relatados nos EUA, Europa e Reino Unido.

Ferrante alerta sobre os graves riscos de biossegurança associados à destruição ambiental contínua na Amazônia:

O desmatamento e a degradação ambiental já estão invadindo áreas sensíveis que protegem reservatórios zoonóticos únicos. A linhagem do vírus Oropouche, que agora chega à Europa, é originária dessa região. No entanto, o governo brasileiro está abrindo uma verdadeira caixa de Pandora com novos vírus, bactérias e outros patógenos. As consequências para a biossegurança global serão catastróficas.

Se a BR-319 for adiante, a crise sanitária se agravará. A Amazônia se tornará um ambiente propício para futuras pandemias, e o Brasil arcará com o custo de uma catástrofe evitável.

Quem realmente se beneficia?

Os benefícios da BR-319 não serão repassados aos povos indígenas , cujas terras e vidas ela ameaça. Há 69 terras indígenas e 18.000 povos indígenas ao longo do traçado da rodovia. Nenhum deles foi devidamente consultado, apesar das proteções da Convenção 169 da OIT e da legislação brasileira.

Em vez disso, os principais beneficiários serão gigantes do petróleo e gás como Petrobras e Rosneft (russa), empresas de mineração como a Potássio do Brasil (canadense) e conglomerados do agronegócio como a JBS.

As operações de mineração legal e ilegal se expandirão. A pecuária, que já é responsável por pelo menos 88% do desmatamento na Amazônia, será turbinada. O resultado será mais florestas desmatadas, mais carbono na atmosfera e mais violência no local.

A rodovia também fortalecerá o controle do crime organizado. A grilagem de terras e o desmatamento ilegal já estão intimamente ligados às redes criminosas da região. A BR-319 criaria um corredor de exploração e conflito.

A miragem da bioeconomia

Alguns argumentam que a BR-319 é essencial para o desenvolvimento da chamada “bioeconomia” brasileira. Segundo o Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável ( WBCSD ), a bioeconomia deverá gerar mais de US$ 7,7 trilhões globalmente até 2030. Esse conceito, no entanto, permanece mal definido e profundamente controverso.

Com a COP 30 se aproximando, o Brasil está impulsionando essa narrativa com força. Mas o que está sendo vendido como uma alternativa sustentável pode ser apenas uma nova forma de extração.

Sob a égide da bioeconomia, os projetos incluem créditos de carbono, biocombustíveis, produtos florestais madeireiros e não madeireiros, pesca, biotecnologia, turismo e até plataformas virtuais.

Foi proposto um projeto de lei para criar uma zona de livre comércio (ZLC) de bioeconomia em Belém, cidade-sede da COP30. O projeto oferece incentivos fiscais, desregulamentação e privilégios comerciais. Os beneficiários, mais uma vez, serão as corporações e as elites.

Longe de ser uma solução, a bioeconomia corre o risco de se tornar mais um veículo para a destruição da Amazônia por meio do greenwashing.

Devastação por lei

Por trás de toda essa devastação está a legislação criada para desmantelar as proteções ambientais do Brasil. O Projeto de Lei 2159/21, conhecido como “Projeto de Lei da Devastação”, permite que empresas autolicenciem seus projetos sem qualquer avaliação de impacto ambiental. Basta um simples formulário online.

Apoiado pelo poderoso bloco ruralista, grandes proprietários de terras e interesses do agronegócio, este projeto de lei abre caminho para a expansão desregulamentada em petróleo e gás, mineração, agronegócio e infraestrutura, incluindo a BR-319.

Em 17 de julho, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei da Devastação , que agora aguarda a sanção do presidente Lula. Isso representa um golpe significativo nos esforços do Brasil em prol da justiça ambiental e dos compromissos climáticos.

Outra lei, a 14.701/2023 (anteriormente PL490), conhecida como “marco temporal”, redefine os direitos territoriais indígenas. Ela estabelece que as comunidades indígenas só podem reivindicar terras se já as possuíssem em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Brasileira.

Ferrante disse:

O Brasil vive a maior vulnerabilidade ambiental de sua história. Essa decisão se alinha à aprovação do Projeto de Lei 2159/2021, que elimina o licenciamento ambiental para esse tipo de empreendimento, e ao avanço da chamada “tese do marco temporal”, que invalida o reconhecimento de terras indígenas demarcadas após 1988.

Essa lógica cruel ignora séculos de deslocamento e abre caminho para despejos violentos, concedendo à polícia militar a autoridade para remover povos indígenas de suas próprias terras ancestrais.

Que futuro escolhemos?

A BR-319 é mais do que uma rodovia; é o símbolo de uma escolha perigosa. Ela nos obriga a decidir entre dois futuros: um em que protegemos a Amazônia, respeitamos os direitos indígenas e traçamos um caminho sustentável; e outro em que sacrificamos tudo em prol de lucros de curto prazo, ganhos políticos e ganância corporativa.

O governo brasileiro precisa tomar uma decisão técnica de fato, baseada na ciência, não na política, porque, uma vez pavimentada a BR-319, não haverá mais volta. Se perdermos a Amazônia, perderemos o clima, perderemos a biodiversidade e perderemos nosso futuro coletivo.

Devemos nos perguntar: a destruição do planeta vale mais alguns quilômetros de estrada? É esse o legado que queremos deixar para as próximas gerações?


Fonte: Medium

Congresso brasileiro assassina a proteção climática

Parlamento brasileiro aprova projeto de lei que acelera destruição de biomas elementares. Presidente Lula é instado a vetar medida

A nova lei abre caminho para mais desmatamento no Brasil (Porto Velho, 6 de fevereiro de 2025)

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt” 

Poucas semanas antes da primeira Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas na Amazônia (a COP 30), o Congresso brasileiro ignora a proteção do clima e das florestas tropicais. Após o Senado Federal, em Brasília, aprovar o projeto de lei conhecido como “PL 2159/2021” em junho, 267 parlamentares federais votaram a favor da “Lei da Devastação”, que foi fortemente contestada por cientistas e ambientalistas, na noite de quarta para quinta-feira. Apenas 116 parlamentares votaram contra, o que efetivamente enfraquece as normas nacionais de proteção ambiental.

Agora, não é só a Amazônia que está ameaçada de colapso. As leis que protegem a Mata Atlântica, de extrema biodiversidade, e todos os outros biomas brasileiros também estão sendo enfraquecidas. Toda a esperança agora está no presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Só ele pode impedir a lei com seu veto.

O projeto de lei prevê um processo de autoaprovação para projetos de estradas e mineração que possam causar desastres ambientais graves, alertou Philip Martin Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, antes da votação. Sob o argumento da desburocratização, todos os procedimentos de aprovação ambiental para projetos com impactos “baixos ou médios” seriam abolidos. A exploração de depósitos de petróleo no estuário amazônico, planejada pela Petrobras e apoiada pelo presidente Lula da Silva, por exemplo, se enquadra nessa categoria. “Este projeto apresenta o risco de poluição incontrolável por óleo devido à profundidade da água e às complexas correntes oceânicas na área”, disse Fearnside. Além disso, investimentos em projetos petrolíferos são geralmente incompatíveis com a proteção climática pretendida.

O PL 2159/2021 também abre caminho para a restauração e pavimentação da rodovia BR-319, de Manaus a Porto Velho, também defendida pelo governo Lula da Silva. Pesquisadores de clima e ecossistemas como Fearnside temem que este projeto de construção de estrada, juntamente com outras estradas secundárias planejadas, exponha vastas áreas de floresta tropical ainda intacta no coração da Amazônia ao desmatamento, podendo levar ao colapso da maior região de floresta tropical do planeta.

O mesmo sentimento é compartilhado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), sediada em Recife. “O projeto de lei ignora descaradamente a emergência climática que a humanidade enfrenta e o fato de que quatro biomas brasileiros — a Floresta Amazônica, o Cerrado, o Pantanal e a Caatinga — estão muito próximos do chamado ponto sem retorno”, afirmou a SBPC. Esses biomas estão agora ameaçados de colapso ecológico.

Diante dessas potenciais consequências, a Academia de Ciências do Rio de Janeiro também solicitou, sem sucesso, ao Senado Federal em Brasília a suspensão da votação. “A aprovação precipitada de um projeto de lei com implicações tão significativas, sem debate adequado com a sociedade e a comunidade científica, coloca em risco o futuro do país”, disse sua presidente, Helena Bonciani Nader. Isso enfraquece “instrumentos essenciais de proteção ambiental sob a falsa promessa de eficiência, ignorando evidências dos riscos da degradação ambiental para os biomas, a segurança pública e o desenvolvimento sustentável”. É “inaceitável que sejam apresentadas propostas que desvalorizem compromissos ambientais internacionalmente reconhecidos e enfraqueçam marcos legais fundamentais”, criticou Nader, visando a COP 30.

Já em 1º de junho, grupos ambientalistas e movimentos sociais em todo o Brasil convocaram manifestações contra o projeto de lei, mas essas manifestações receberam pouca atenção da mídia e do público em geral. “É profundamente lamentável que o Congresso tenha ignorado os alertas da ciência e as demandas da sociedade civil. Agora cabe ao Presidente Lula assumir sua responsabilidade, demonstrar seu compromisso com o clima, as pessoas e o meio ambiente e bloquear todo o texto”, comentou a organização internacional de conservação WWF sobre a votação. “Ainda é possível evitar uma tragédia de proporções sem precedentes.”


Fonte: JungeWelt

Jair Bolsonaro de tornozeleira é prenúncio de possível ajuste de contas inédito na história brasileira

Ao colocar tornozeleira eletrônica no ex-presidente Jair Bolsonaro, o STF pode estar prestes a promover um inédito ajuste com golpistas na história do Brasil

A notícia sendo disseminada pela mídia corporativa brasileira em relação às medidas adotadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF)  para impedir a eventual fuga do ex-presidente Jair Bolsonaro para os EUA e para coibir supostas ações para coagir testemunhas é um fato inédito na história do Brasil em relação a tentativas de derrubada do Estado democrático.

O fato é que ao longo da duração do período republicano ocorreram diversos golpes de Estado nos quais os executores não sofreram punições pela interrupção da democracia. Os executores do golpe cívico- militar de 1964, por exemplo, continuam sendo celebrados com seus nomes colocados em todo tipo de próprio público, incluindo edífícios e rodovias; além dos títulos honoríficos em universidades federais.

É preciso que se diga que as medidas sendo tomadas contra Jair Bolsonaro se tornaram necessárias a partir das ações explícitas de seu filho transfuga, o ainda deputado federal Eduardo Bolsonaro, que usa de sua presença em território estadunidense para articular prejudiciais aos interesses nacionais com o clar intuito não de apenas impedir o andamento dos trâmites da judicia brasileira, mas de interditar a própria justiça, visando facilitar a fuga do seu pai para os EUA, país onde já se encontram diversos dos mentores e apoiadores do golpe frustrado de 8 de janeiro de 2023.

Como alguém que testemunhou a agonia do regime de 1964 e suas medidas para impedir o devido ajuste de contas com a história, penso que o destino sendo dado a Jair Bolsonaro é um pouco tardio. Tivesse o alto comando do Exército punido Bolsonaro com a prisão e não com a aposentadoria com promoção quando tramou para explodir repartições militares, é bem provável que não tivéssemos tido a sua presença no alto mais alto da república. 

Mas agora é possível que estejamos fechando o capítulo Bolsonaro e próximos de finalmente começara fechar o relativo ao golpe cívico-militar de 1964. Afinal de contas, um é descendente do outro, juntos e misturados.

Nova pesquisa encontra níveis altíssimos de inseticidas na água do Colorado

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Por Shanon Kelleher para o “The New Lede” 

Somando-se às evidências sobre a difusão de agrotóxicos que colocam em risco a saúde humana e ambiental, uma nova pesquisa encontrou inseticidas amplamente utilizados em cursos d’água do estado do Colorado em níveis 100 vezes maiores do que os pesquisadores dizem ser necessário para proteger a vida aquática.

Neonicotinoides (neônicos), os tipos de inseticidas mais utilizados no país, estavam presentes em níveis altíssimos em amostras de águas superficiais e subterrâneas, de acordo com um relatório publicado esta semana pela organização sem fins lucrativos Conselho de Defesa dos Recursos Naturais (NRDC). A análise, que se baseou em dados de testes de água federais e estaduais, concluiu que sementes agrícolas revestidas com neinicotinóides, também conhecidos como neônicos, são provavelmente as responsáveis pela alta contaminação da água.

Essa contaminação “provavelmente está causando danos significativos e generalizados aos ecossistemas aquáticos e um aumento na exposição humana por meio das águas subterrâneas”, afirma o relatório.

O autor usou o parâmetro federal para um neônico, o imidacloprido, para derivar parâmetros de como a exposição crônica a outros neônicos afeta a vida aquática, de acordo com o relatório.

Alguns níveis detectados nas amostras de água superaram as estimativas do pior cenário dos reguladores federais sobre a quantidade de dois neônicos, clotianidina e tiametoxame, que podem estar presentes nas águas subterrâneas do Colorado.

“Os níveis de contaminação no Colorado são alarmantes, mas não surpreendentes”, disse Pierre Mineau , autor do relatório e professor da Universidade Carleton, no Canadá, que estuda o risco ambiental dos pesticidas há mais de 40 anos.

“A EPA (Agência de Proteção Ambiental) dos EUA não está fazendo o suficiente para proteger a água e os ecossistemas desses produtos químicos nocivos”, disse ele.

Assassinos indiscriminados

Os neônicos são considerados alguns dos inseticidas mais mortais já produzidos, atuando no sistema nervoso dos insetos, paralisando-os e matando-os. Embora sejam destinados a pragas que danificam as plantações, como pulgões e besouros, os neônicos também matam borboletas, abelhas e minhocas, essenciais para a saúde dos ecossistemas. Os inseticidas, aplicados em mais de 60 milhões de hectares de terras agrícolas a cada ano, são usados principalmente como revestimento de sementes e são absorvidos pelas folhas, caules e pólen das plantas à medida que crescem , envenenando os insetos que entram em contato com eles.

A União Europeia proibiu o uso externo de alguns neônicos devido a evidências de que eles podem prejudicar abelhas e polinizadores selvagens. Defensores do meio ambiente há anos pedem proibições semelhantes nos EUA. Em 2018, mais de 200.000 comentários públicos sobre avaliações ecológicas e de saúde humana da EPA instaram a agência a proibir os inseticidas , citando o declínio dos polinizadores.

A poluição por neonicotinoides do Colorado reflete um problema nacional, disse Allison Johnson, advogada sênior do NRDC.

“Estamos plantando pesticidas tóxicos no solo em todo o país, e esses produtos químicos persistem por muito tempo”, disse Johnson. “Eles estão se acumulando em nossa água, em nosso solo, em nosso ar – e em nossos corpos. Felizmente, há um primeiro passo fácil para resolver esse problema: parar de usar neônicos onde eles não são necessários.”

Um estudo de 2015 do Serviço Geológico dos EUA identificou pelo menos um neônico em quase dois terços dos 48 riachos amostrados em todo o país.

Em 2023, a EPA dos EUA descobriu que três neônicos — clotianidina, imidacloprida e tiametoxame — podem colocar em risco de 9 a 11% das espécies listadas como ameaçadas ou em perigo de extinção.

Estudos relacionaram os neonicotinoides ao declínio de pássaros , borboletas , invertebrados aquáticos veados.

Os neonicotinóides têm sido infamemente associados à mortandade em massa de abelhas , um problema que continua a se intensificar. De abril de 2023 a abril de 2024, os apicultores dos EUA perderam cerca de 55% de suas colônias de abelhas – bem acima da perda média anual de cerca de 40% desde o início da contagem em 2010, de acordo com uma pesquisa sobre apicultura nos EUA . Até agora, as perdas para 2025 são ainda mais devastadoras, com cerca de 60% das colônias de abelhas perdidas – um prejuízo financeiro de pelo menos US$ 139 milhões, de acordo com uma pesquisa com 234 apicultores dos EUA.

Outros fatores também representam ameaças generalizadas às colônias de abelhas, incluindo ácaros parasitas que se alimentam das abelhas e de suas larvas e espalham vírus que as matam. Os fabricantes de pesticidas negam que os neônicos estejam por trás da mortandade de polinizadores.

“Estudos abrangentes conduzidos em condições de campo realistas mostraram que os resíduos de neonicotinoides nas flores de culturas tratadas com sementes estão claramente abaixo dos níveis que podem causar efeitos adversos nas colônias de abelhas”, escreveu a Bayer, que fabrica neonicotinoides e outros pesticidas, em um relatório de abril de 2025 .

Os neonicotinóides são altamente regulamentados, escreveu a Bayer, e os inseticidas da empresa são exaustivamente testados “para garantir que não tenham efeitos adversos inaceitáveis em insetos não-alvo e no meio ambiente”.

Perigos para a saúde

Uma pesquisa dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças usando dados de 2015-2016 descobriu que cerca de metade da população dos EUA com três anos de idade ou mais foi recentemente exposta a neônicos , com crianças pequenas correndo risco de níveis mais altos de exposição.

Os resultados sugerem que uma grande parcela da população é exposta a esses produtos químicos regularmente. Um estudo de 2022 encontrou neônicos nos corpos de mais de 95% das gestantes testadas nos EUA. Os pesticidas foram encontrados em diversos alimentos populares e saudáveis .

O relatório mais recente sobre resíduos de pesticidas emitido pelo Departamento de Agricultura dos EUA relatou a descoberta de neônicos em diversos alimentos para bebês, incluindo aqueles feitos com peras, pêssegos, maçãs e ervilhas, bem como em amoras e batatas. Pesquisas relacionaram a exposição a neônicos a defeitos congênitos no cérebro e no coração de recém-nascidos, bem como a sintomas associados ao autismo.

Apesar das pesquisas sobre os perigos dos neônicos para a saúde e o meio ambiente, a EPA continua permitindo seu uso. A agência deve decidir em 2025 se reaprovará cinco neônicos – acetamiprida, clotianidina, dinotefurano, imidacloprida e tiametoxam. Enquanto isso, uma dúzia de estados já implementou suas próprias restrições ao uso de neônicos em ambientes externos, embora apenas Nova York e Vermont tenham restringido o uso agrícola de sementes tratadas com neônicos.

Em dezembro passado, os reguladores de Minnesota rejeitaram uma petição legal alegando que o departamento de agricultura do estado estava violando os direitos dos habitantes de Minnesota ao não regulamentar o uso de sementes tratadas com neonicotinóides.

(Imagem em destaque por jabberwocky28 no Unsplash .)


Fonte: The New Lede

PL da Devastação: entrevista no SBT News sobre a aprovação do fim do licenciamento ambiental no Brasil

Na tarde desta 5a. feira (17/7) concedi uma entrevista no programa Poder Expresso do SBT News de Brasília sobre os impactos mais graves que decorrerão da aprovação do PL da Devastação na madrugada de hoje pela Câmara de Deputados (ver vídeo abaixo).

Além de reforçar os problemas mais óbvios que decorrerão da implementação da nova legislação sobre a proteção do ambiente no Brasil, reforcei a necessidade de que o presidente Lula vete integralmente o PL da Devastação.  Também abordei a importância da mobilização popular para fazer com que o presidente Lula faça o que tem de ser feito que vetar integralmente essa legislação esdrúxula.

Nota de repúdio à aprovação do PL do Licenciamento Ambiental

 Aprovação do PL do Licenciamento Ambiental abre caminho para mais desmatamento

O que o PL da Devastação está pondo em jogo (Dica: seu futuro) - ClimaInfo

O IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) repudia a aprovação do PL (Projeto de Lei) 2.159/2021 pela Câmara dos Deputados. O texto desmonta os pilares do licenciamento ambiental e enfraquece a capacidade do Estado de prevenir danos ao meio ambiente.

Na prática, a nova lei reduz exigências para uma série de atividades potencialmente impactantes, como obras de infraestrutura, manutenção de estradas e instalações agropecuárias. Também permite que Estados flexibilizem ainda mais as regras, criando um cenário de fragmentação e insegurança jurídica.

“No momento em que o Brasil se prepara para um dos eventos mais importantes para o futuro da humanidade, a COP30 em Belém, nosso Congresso nos brinda com uma agenda que vai na contramão de nossa liderança global: um PL que usa o correto pretexto de simplificar, para tornar o processo de licenciamento ambiental no Brasil menos transparente e mais arriscado para o meio ambiente”, avalia André Guimarães, diretor executivo do IPAM.

Mais do que um retrocesso, trata-se de uma decisão que pode gerar efeitos duradouros: aumento do desmatamento, ataque aos direitos de comunidades indígenas e tradicionais, maior exposição a tragédias ambientais e o enfraquecimento da credibilidade internacional do Brasil em temas climáticos.

Ao dispensar a consulta prévia a povos originários, desconsiderar critérios técnicos robustos e priorizar a velocidade em detrimento da análise de riscos, o texto rompe com princípios básicos da boa governança ambiental.

Além disso, a aprovação do texto se dá justamente em um momento em que o país trabalha para se reposicionar como liderança na agenda do clima e da biodiversidade.

A comunidade científica também se posicionou alertando para os riscos da nova legislação, que ignora a emergência climática, descumpre compromissos internacionais, compromete todos os biomas brasileiros e afronta a ciência produzida no Brasil e no mundo.