Embalagens vazias de agrotóxico e técnico em central de processamento na Capital (Foto: Osmar Veiga)
Por Cássia Modena para o “Campo Grande News”
Eles são perigosos, mas altamente demandados na produção agrícola em larga escala. Leis e fiscalização tentam traçar a linha do meio no uso seguro de agrotóxicos, enquanto as infrações aumentam no Estado.
A Iagro (Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal) e a PMA (Polícia Militar Ambiental) flagraram, juntas, 1.208 irregularidades em propriedades rurais de Mato Grosso do Sul entre 2023 e 2025.
A quantidade é maior que essa, já que a PMA não apresentou dados de 2023.
O crescimento foi de 10% na comparação entre autos de infração lançados apenas pela Iagro em 2023 e 2024. A maioria é sobre descarte e armazenamento errados, que oferecem risco de intoxicação e contaminação não só entre pessoas, mas também a animais, rios e lençol freático.
Arte: Thainara Fontoura
A Iagro e à PMA cabe cuidar o que tem a ver com a defesa da saúde humana e dos recursos naturais. Já a fiscalização da importação e uso de pesticidas proibidos no Brasil, é de responsabilidade de órgãos como PF (Polícia Federal), PRF (Polícia Rodoviária Federal), DOF (Departamento de Operações e Fronteira), Ministério da Agricultura e Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis).
Duas apreensões feitas pelo DOF em janeiro deste ano, por exemplo, desviaram cargas com veneno agrícola ilegal avaliadas em mais de R$ 9 milhões.
Falha na fiscalização
No mês passado, fiscais do Ibama foram até uma fazenda de Sidrolândia, após receberem denúncia de queima de embalagem e uso de agrotóxicos falsificados.
O que mais impressionou foi o descaso com os galões usados em área plantada tão grande, por arrendatário que fazia cultivo há anos no mesmo local, disse a superintendente do órgão em Mato Grosso do Sul, Joanice Lube.
Os fiscais federais não confirmaram a denúncia sobre agrotóxicos que vêm de fora. Foram encontradas somente embalagens de produtos nacionais, inclusive, com conteúdo vencido há mais de um ano. As irregularidades geraram multa de R$ 324 mil ao arrendatário.
Embalagens de agrotóxicos descartadas à céu aberto ou enterradas em fazenda de Sidrolândia (Foto: Divulgação/Ibama)
Joanice admite que a fiscalização do uso de agrotóxicos importados ilegalmente precisa melhorar. É o que o MPF (Ministério Público Federal) já pede ao Ibama em Mato Grosso do Sul.
Para ter certeza que não se depararam com embalagens mascaradas com rótulos falsos, o Ibama no Estado teria que ter um aparelho chamado espectrômetro para analisar o conteúdo líquido. O órgão federal comprou três, mas nenhum chegou aqui.
“O correto seria fazer amostra e usar o aparelho para fazer teste e ter o fazer resultado na hora. Como tem denúncias de uso de agrotóxico ilegal, temos que aprimorar a fiscalização”, falou a superintendente.
Terras indígenas
Enquanto algumas comunidades indígenas se organizam e cultivam suas lavouras, outras são vítimas de pulverizações aéreas de veneno com alto risco de intoxicar pessoas e comprometer a água consumida nas aldeias.
“Isso tem tem sido um grande problema no sul de Mato Grosso do Sul, onde a gente tem comunidades indígenas cercadas por plantações. Os aviões agrícolas passam por cima delas. Sem falar que os produtos ficam à deriva dependendo das condições atmosféricas, e podem ‘andar’ até mais que 500 metros”, descreve Joanice.
Aeronave faz pulverização de agrotóxico em fazenda (Foto: Perícia do MPT/MS)
Nos casos em que os próprios povos originários usam nas plantações, eles também podem ser vítimas. “Isso tem impactado diretamente a saúde deles”, conclui a superintendente.
Logística reserva
Editada em dezembro de 2023, a lei federal nº 14.785 deixou mais rígido o controle de agrotóxicos no Brasil e definiu as responsabilidades quanto à destinação correta das embalagens de agrotóxicos.
Mas ainda é comum fiscais encontrarem as vazias servindo até de garrafa para beber água no campo, o que não é recomendado, pois qualquer pequeno resíduo pode ser tóxico e levar à morte.
Os fabricantes nacionais montaram o InpEV (Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias) para dar conta da logística reversa das embalagens, de forma que elas sejam incineradas, se o resíduo não for lavável, ou reaproveitadas.
Arte: Thainara Fontoura
Cerca de 90% das embalagens usadas em propriedades rurais nos estados voltam para os galpões de processamento do instituto e ganham novas funções, segundo o engenheiro agrônomo que coordena as operações em Mato Grosso do Sul, Hamilton Flandoli.
O Estado é o 7º na lista de maiores devolvedores. Ele contribuiu com 7% do total de 4.894 mil toneladas de embalagens processadas em 2024, de acordo com o InpEV.
Hamilton explica que a conta não fecha porque o que é comprado, nem sempre é devolvido. “Não vai dar 100%, já que não necessariamente o produtor vai usar o produto naquele ano. E depende do produto. Pode não dar as pragas que ele achou que ia ter. Então, acaba ficando guardado”, diz. Outro caso, é a demora no recolhimento de embalagens que ficam em cooperativas.
O produtor rural precisa ter receita emitida por técnico para comprar um agrotóxico. Pela lei, ele deve devolver a embalagem em até um ano após a aquisição.
O coordenador do InpEV frisa que os fabricantes organizam caminhões de recolhimento apenas para atender pequenos produtores. Os grandes, precisam providenciar a destinação correta por si.
O peixe-borboleta Prognathodes dichrous é uma espécie endêmica icônica das ilhas de Ascensão e Santa Helena, localizadas ao longo da Cordilheira Mesoatlântica
As ilhas oceânicas de São Pedro e São Paulo, Ascensão e Santa Helena, localizadas na região conhecida como Dorsal Mesoatlântica, no oceano Atlântico, têm 44 espécies de peixes recifais que não existem em nenhum outro lugar do mundo. A constatação é de um novo estudopublicado na revista Proceedings of the Royal Society B por pesquisadores das universidades federais de Santa Catarina (UFSC), do Rio de Janeiro (UFRJ), da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Técnica da Dinamarca.
A pesquisa teve como ponto de partida uma extensa base de dados sobre distribuição e características de 1.637 espécies de peixes recifais do Atlântico. Em seguida, para uma análise mais detalhada, o estudo reconstruiu rotas evolutivas e padrões de dispersão de 88 espécies que ocorrem na Dorsal Mesoatlântica a partir de dados moleculares e filogenéticos.
Os resultados indicam que, embora 70% das espécies não endêmicas da região tenha origem no Atlântico Oeste – em especial no Brasil e Caribe –, mais de um terço das espécies endêmicas surgiu a partir do Atlântico Leste, e 11% tem raízes ainda mais distantes, no Oceano Índico.
O trabalho mostrou também que as espécies endêmicas Scartella nuchifilis e Thalassoma ascensionis aparentam ser mais antigas do que a própria ilha de Ascensão, onde hoje são encontradas. A explicação para essa discrepância pode estar na existência de montes hoje submersos encontrados entre Ascensão e Santa Helena e nas variações do nível do mar, que possibilitaram a sobrevivência dessas espécies ao longo de milhões de anos naquela região.
Outro destaque do estudo é a análise de características ecológicas que ajudam a explicar a capacidade de dispersão dessas espécies até ilhas tão remotas. Em relação aos demais peixes recifais, os peixes encontrados nas ilhas da Dorsal Mesoatlântica tendem a ser maiores, alcançar maiores profundidades e possuírem características como ovos pelágicos – que ficam semanas flutuando na água – e habilidade de se deslocar aderidos a algas, troncos ou outros materiais flutuantes. Isso aumenta as chances de colonização de ambientes distantes.
“Ilhas remotas como essas são hotspots de endemismo e nos ajudam a entender como a vida marinha se espalha e se adapta ao longo do tempo. Mas também são ecossistemas vulneráveis – e cada espécie única perdida é uma peça insubstituível do quebra-cabeça evolutivo”, explica a pesquisadora da UFSC Isadora Cord, que liderou o artigo. A partir dessas constatações, o professor da UFSC Sergio Floeter, coautor do artigo, explica os desafios de pesquisas futuras. “Os ambientes recifais mesofóticos dessas ilhas – ou seja, situados entre 80 e 120m, fora do alcance do mergulho científico convencional com SCUBA, são agora a nova fronteira de estudos, pois ainda podem revelar novas espécies e padrões ecológicos únicos”.
Pavimentação da BR-319 irá devastar último grande bloco de floresta relativamente preservado na Amazônia
Enquanto muitos se mobilizam contra a aprovação final do Projeto de Lei 2159/2021 , também conhecido como PL da Devastação, o governo Lula avança com seus planos desastrosos de pavimentar a BR-319. Segundo matéria assinada pelo jornalista André Borges e publicada pelo jornal Folha de São Paulo, os Ministérios do Meio Ambiente (Marin Silva) e dos Transportes (Renan Filho) costuraram um acordo inédito para elaborar um plano socioambiental atrelado ao empreendimento, de forma a mitigar seus impactos.
Esse é o tipo de acordo “cheiroso” cujos efeitos práticos incluirão a abertura do último grande bloco de floresta relativamente intacta na Amazônia para a penetração de grileiros, garimpeiros e madeireiros que irão acelerar os processos de degradação florestal e desmatamento.
Acenar com um plano sociambiental em meio às pressões por mais derrubada de floresta por parte do latifúndio agro-exportador e outros predadores da floresta é basicamente uma embromação para ocultar que a chamada Agenda Climática do governo Lula não passa de outra grande embromação.
E convenhamos que com a abertura da exploração do petróleo na região da Foz do Amazonas e a eventual pavimentação da BR-319, qualquer compromisso climático será inútil, na medida em que estarão sendo disparadas duas grandes bombas de emissão de gases de efeito estufa.
Finalmente, o que isso mostra é que, ainda que muito justa, a mobilização contra o PL da Devastação é apenas um momento pontual em uma grande batalha em defesa do meio ambiente, dos povos tradicionais, e da maioria pobre da população, sem que se possa ter qualquer ilusão com as forças que hoje controlam o parlamento e o governo federal comandado pelo presidente Lula.
Ao longo dos anos tenho me costumado a ler matérias jornalísticas com cara de press release cujo destino era promover a commodity conhecida como “Porto do Açu”. Mas uma matéria do site especializado InfoMoney com o CEO do Porto do Açu, Eugenio Figueiredo, merce ser saudada por sua fidedignidade com a característica de “jack-of-all trades” que o empreendimento iniciado por Eike Batista assumiu ao longo dos últimos 16 anos.
A coisa começa bem no título “Porto do Açu nasceu para escoar minério – agora, quer ser lar até de data centers”. Ai está sintetizado toda as nuances e becos estreitos que o empreendimento vem assumindo para tentar algum nível de viabilidade. Mas a matéria mostra mais sobre as múltiplas reinvenções que o “porto” tem assumido para não ficar inviável de vez.
Quem tiver o trabalho de ler o material assinado pela jornalista Mariana Segala vai notar que os gestores do Porto do Açu já tentaram e tentam de tudo um pouco, começando pelo minério, passando pela exportação de bauxita e grãos, produção de hidrogênio, e desembocando até na condição de hosts de data centers (não os das big techs, mas os de meio de cadeia).
A matéria ainda traz o reconhecimento raro de que o Porto do Açu sofre com a falta de conexão ferroviária, e convenhamos, rodoviária. O problema aqui é que como já notei aqui mesmo neste blog, o problema da conexão ferroviária é um verdadeiro calcanhar de Aquiles que deverá continuar sendo um espinho no tornozelo do Porto do Açu. É que sem conexões, qualquer uma das tentativas de saída para a falta de densidade das diferentes “venues” que o empreendimento possa procurar acabarão dando com os burros em algum dos muitos alagados que existem no V Distrito de São João da Barra. E dada as últimas movimentações, a conexão ferroviária tão cedo não virar realidade. Deste fato é que parecem resultar todas as improvisações que se nota no projetamento do Porto do Açu.
Mas a matéria ainda ressalta algo muito mais drástico para o futuro do empreendimento idealizado por Eike Batista. É que um dos problemas de quem é um “jack-of-all-trades é que “Jack of all trades” que essa expressão em inglês norlamentese refere a uma pessoa com habilidades em diversas áreas, mas que não se destaca em nenhuma específica. Em português, pode ser traduzido como “faz-tudo”, “pau para toda obra” ou “mestre em nada”. Se isso pode dar certo para pessoas, para um empreendimento que se propõe a ser o maior empreendimento privado do Brasil (quiça da América Latina), o que pode ser qualidade, também pode ser lido como falta de futuro certo, o que, convenhamos, não cai bem com potenciais investidores, especialmente se eles forem chineses.
Lançando originalmente em inglês pela Stanford University Press em 2022 , o livro “The Tropical Silk Road. The Future of China in South America” agora tem seu lançamento em português via a Editora da UFRJ com o título “A rota da seda tropical: o futuro da China na América do Sul”
Esta obra é uma coletânea de ensaios que analisa a crescente influência da China na América do Sul, especialmente no contexto dos megaprojetos de mineração, infraestrutura, energia e agronegócio nos biomas tropicais da região, como a Amazônia, o Cerrado e os Andes. A obra destaca a interseção entre dois processos transformadores globais: a rápida expansão da esfera de influência chinesa no Sul Global e a degradação ambiental dos principais biomas sul-americanos.
Além disso, “A rota da seda tropical: o futuro da China na América do Sul” oferece um panorama crítico e detalhado da nova ordem mundial pós-hegemônica centrada nos EUA, evidenciando os riscos e oportunidades que a expansão chinesa traz para a América do Sul.
Finalmente, este livro é uma referência essencial para compreender as transformações geopolíticas, ambientais e sociais em curso na região, combinando rigor acadêmico com relatos de campo e perspectivas de atores locais e globais.
Tem desejar aquirir uma cópia deste livro, basta clicar [Aqui!].
Documento liderado pela SBPC conta com o aval de mais de 160 instituições e detalha os retrocessos que a nova lei trará se aprovada pela Câmara
A ciência brasileira se uniu contra o PL (Projeto de Lei) nº 2.159/2021, que trará retrocessos ao licenciamento ambiental do Brasil, caso seja aprovado nesta terça-feira (15) pela Câmara dos Deputados. Um manifesto aprovado pela SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), com aval de mais de 160 instituições, detalha os impactos da medida para o meio ambiente.
“O PL ignora solenemente o estado de emergência climática em que a humanidade se encontra, e o fato de que quatro biomas brasileiros (floresta Amazônica, Cerrado, Pantana e Caatinga) estão muito próximos dos chamados de “pontos de não retorno”. Se ultrapassados estes pontos, estes biomas poderão entrar em colapso ambiental”, diz um trecho do documento.
O manifesto aponta que a nova lei fere acordos internacionais e representa uma afronta à ciência produzida no Brasil e no mundo. Entre os efeitos nocivos do PL são citados: aumento potencial de emissões de carbono, dispensa de licenciamento para o agronegócio, desvinculação do licenciamento da outorga de uso da água, ameaça às Unidades de Conservação, ameaças a direitos dos povos e comunidades tradicionais, condicionantes ambientais fragilizadas, inexistência de uma lista mínima de atividades sujeitas ao licenciamento, além de criação da Licença Ambiental Especial.
“A Constituição Federal de 1988 prevê o licenciamento ambiental como matéria para garantia do meio ambiente ecologicamente equilibrado, direito fundamental, e impõe ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo. O PL ameaça esse direito que é de todos os brasileiros. Um direito fundamental para um futuro minimamente promissor num mundo sob estado de ‘emergência climática’”, reforça o texto.
Leia o manifesto na íntegra:
Manifesto da Ciência Brasileira sobre o Projeto de Lei (PL) nº 2.159/2021
O licenciamento ambiental vigente está sob séria ameaça. Ele é o principal instrumento da Política Nacional de Meio Ambiente (Lei nº 6.938/ 1981) que garante proteção constitucional sobre direitos da coletividade brasileira, sobre o meio ambiente ecologicamente equilibrado, para as presentes e futuras gerações. E esta ameaça vem, infelizmente, do Congresso Nacional.
Está para ser votado na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei (PL) nº 2.159/2021. Este PL representa o mais grave retrocesso ao sistema de proteção ambiental do país. Ele fragiliza as regras e mecanismos de análise, controle e fiscalização de empreendimentos e atividades potencialmente degradadoras. Ainda, ignora solenemente o estado de emergência climática em que a humanidade se encontra, e o fato de que quatro biomas brasileiros (floresta Amazônica, Cerrado, Pantana e Caatinga) estão muito próximos dos chamados de “pontos de não retorno”. Se ultrapassados estes pontos, estes biomas poderão entrar em colapso ambiental deixando de prestar seus múltiplos serviços ecossistêmicos. A ciência já demonstrou, com fartas evidências, que para evitarmos o tal colapso é necessário, urgentemente, zerar a destruição da vegetação nativa, combater os incêndios e a degradação ambiental e iniciar a restauração em grande escala destes biomas incluindo, entre eles, a Mata Atlântica. A propósito, o PL altera também a Lei da Mata Atlântica, bioma que já perdeu 76% de sua cobertura original, deixando os remanescentes de floresta madura vulneráveis ao desmatamento.
Além de ameaçar os biomas e o bem-estar dos brasileiros a aprovação desse PL mostra-se incompatível com os compromissos assumidos pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris e do Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal, entre outros atos internacionais, inclusive aqueles que protegem os direitos humanos fundamentais. Se aprovado, o poder legislativo do país colocará em dúvida o papel de liderança do Brasil no âmbito dos esforços globais de mitigação e adaptação com respeito às mudanças climáticas. E isto em plena recepção, em solo nacional, da COP 30 a ser realizada em Belém do Pará no final deste ano.
Claramente, o PL é uma ameaça à Constituição Federal e aos direitos dos brasileiros. Mas também é uma afronta à ciência produzida pelos cientistas do Brasil e do mundo, incluindo aqueles reunidos no âmbito da Academia Brasileira de Ciências, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, do Painel Científico da Amazônia e do IPCC. Esta afronta é brevemente ilustrada abaixo, caso o PL seja aprovado.
Aumento potencial de emissões de carbono. A proposição de uma Licença por Adesão e Compromisso (LAC) permitirá emissões de licenças automáticas, com base apenas na autodeclaração do empreendedor, para empreendimentos de médio porte e médio potencial poluidor. Esse processo desconsidera análises técnicas prévias e os efeitos futuros da LAC sobre as emissões nacionais de gases de efeito estufa e sobre recursos naturais, incluindo a rica biodiversidade do país. O PL, ainda, coloca em risco papel do Estado em exercer sua capacidade e dever de prevenir danos, já que o empreendedor será dispensado de grande parte de suas obrigações.
Dispensa de licenciamento para o agronegócio. O simples preenchimento de um formulário auto declaratório (LAC) passará a ser suficiente para garantir a dispensa de licenciamento, sem qualquer verificação sobre impactos ambientais ou compromissos firmados no âmbito dos programas de regularização ambiental. Do ponto de vista científico, esta proposta submete os biomas, já ameaçados por uma trajetória de “não retorno”, em situação crítica. Algo que prejudicará o próprio agronegócio. Por exemplo, já há evidências científicas suficientes que o regime de chuvas no país sofreu alterações (redução) significativas com impactos na produção de alimentos e commodities. Estas alterações não estão sendo provocadas somente pela mudança global do clima, mas por alterações na vegetação nativa que cobrem estas áreas. Considerando que no Brasil 90% da agricultura não é irrigada e depende da vegetação nativa para produzir chuva, o enfraquecimento do licenciamento ambiental será, literalmente, um “tiro no pé” da agricultura nacional.
Desvinculação do licenciamento da outorga de uso da água.A proposta do PL em tramitação na Câmara, determina que o licenciamento ambiental fique desvinculado de outorgas, desconsiderando que a outorga de uso da água é um instrumento da Política Nacional de Recursos Hídricos, de gestão da água, fundamental para garantir segurança hídrica e o acesso à água em qualidade e quantidade. Dessa maneira a análise do licenciamento ambiental ficará totalmente prejudicada para empreendimentos que utilizam a água (como por exemplo hidrelétricas, reservatórios de abastecimento público, estações de tratamento de esgotos e de efluentes). Tal desvinculação ignora, por completo, a progressiva redução de disponibilidade de água no solo devido ao avanço da redução de chuvas já sofridas por vastas regiões do país. Em alguns biomas (Cerrado, por exemplo) mais da metade dos municípios já apresentam uma redução de água superficial da ordem de 30%.Ainda, a fragmentação do licenciamento, de forma isolada das outorgas, potencializará conflitos e tende a agravar impactos relacionados a eventos climáticos no que se refere à água.
Ameaça às Unidades de Conservação (UCs). O texto em tramitação na Câmara, prevê a avaliação de impactos e definição de condicionantes somente quando, nas regiões diretamente afetadas pelos empreendimentos, existirem UCs ou suas zonas de amortecimento. Da forma como está, portanto, o texto exclui todas as UCs, federais, estaduais e municipais, da avaliação de impactos ambientais indiretos. Esta é uma visão míope, uma vez que ignora a conectividade espacial e funcional entre diferentes regiões com coberturas de vegetação nativa distintas. Os pareceres dos órgãos de gestão (ICMBio e órgãos estaduais e municipais competentes) envolvidos não terão caráter vinculante, permitindo que os órgãos licenciadores sem competência legal e capacidade técnica para dispor sobre as temáticas referidas o façam.
Ameaças a direitos dos povos e comunidades tradicionais. Se o PL for aprovado, cerca de 80% dos territórios quilombolas (TQs) e 32,6% das Terras Indígenas (TIs), que são áreas aguardando titulação e homologação, serão ignoradas nos processos de licenciamento ambiental. Não estão previstas quaisquer medidas de prevenção, mitigação e compensação de impactos socioambientais ou de controle do desmatamento. Isto coloca em xeque, não somente os direitos, mas também o papel que estes povos e comunidades têm na conservação ambiental e na prestação de serviços ambientais. Uma boa parte do regime de chuva e do armazenamento de carbono em vegetação nativa são mantidos por estas populações. Terras indígenas na Amazônia, por exemplo, funcionam como um grande “ar-condicionado” da paisagem. As temperaturas dentro das Tis chegam a ser 2-5 oC mais baixas do que nos arredores. O PL não atenta a estes serviços, pois a atuação das autoridades envolvidas, assim como a análise técnica e a exigência de condicionantes fica restrita apenas aos casos de impactos nas áreas de influência direta do empreendimento potencialmente degradadores, não considerando impactos indiretos ou na escala da paisagem.
Condicionantes ambientais fragilizadas. O PL limita a responsabilidade do empreendedor diante dos danos causados ou agravados pelo próprio empreendimento, inclusive em casos de grandes obras que pressionam serviços públicos ou estimulam desmatamento e grilagem. Esta falta de responsabilização poderá agravar ainda mais o avanço do desmatamento ilegal e da grilagem, em especial na Amazônia. Atualmente, cerca de 50% do desmate nesse bioma ocorre em terras públicas, em especial nas chamadas “Florestas Públicas não Destinadas”. São aquelas florestas que aguardam destinação, por lei, pelos governos federal e estaduais, para conservação ou uso sustentável de recursos naturais.
Inexistência de uma lista mínima de atividades sujeitas ao licenciamento: A proposta do PL é que estados e municípios decidirão, isoladamente, o que licenciar. Isto levará a distorções profundas entre regiões, com atividades semelhantes sendo tratadas de formas distintas, onde o critério técnico-científico é ignorado dependendo da pressão política local. O resultado será um sistema fragmentado, ignorante do ponto de vista científico e sujeito a lógica meramente do poder público local e regional. A falta de harmonização das regras também aumentará a insegurança jurídica.
Criação da Licença Ambiental Especial (LAE): A emenda transfere ao Conselho de Governo, órgão político vinculado à Presidência da República, o poder de definir diretrizes nacionais e enquadrar projetos como “estratégicos”, sem critérios claros, transparência ou controle social, rompendo com os princípios técnicos e legais do licenciamento ambiental. Aqui, novamente, a ciência será, no máximo, coadjuvante. A LAE será concedida por procedimento monofásico, ou seja, sem a análise prévia, de instalação e de operação em fases distintas.Sem maiores detalhes, tal emenda pode institucionalizar a liberação acelerada de projetos que necessitam de análise mais aprofundada. Inúmeros estudos científicos já demonstraram, por exemplo, o grave efeito socioambiental de investimentos em infraestrutura mau planejados. Isto mesmo sob a vigência do sistema atual de licenciamento que é mais rigoroso do que aquele proposto pelo projeto de lei. Sabe-se, por exemplo, que 70% de todo o desmatamento na Amazônia está concentrado ao redor de obras de infraestrutura. A tal LAE poderá, portanto, agravar esta condição, em especial nas inciativas que buscam a abertura e pavimentação de rodovias (Ex. BR-319) e ferrovias (Ex. Ferrogrão) e a exploração de petróleo e gás em áreas ecologicamente sensíveis (Ex. Margem Equatorial).
Finalmente, além da clara ameaça a preceitos Constitucionais, o PL proposto, fere uma série de legislações fundamentais para proteção dos ecossistemas e sua biodiversidade, como a Política Nacional de Meio Ambiente (Lei 6938/1981), o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Lei 9985/2000), a Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998), dentre outras, além de fragilizar o Sistema Nacional de Meio Ambiente (SISNAMA). Assim, a discussão sobre aprimoramentos no licenciamento ambiental precisa ser feita com responsabilidade e ampla participação da sociedade, em especial da comunidade científica.
Considerações finais. As alterações propostas no sistema de licenciamento ambiental pelo Projeto de Lei (PL) nº 2.159/2021 parecem favorecer a interesses particulares ou setoriais, pois ignoram as inúmeras evidências científicas que demonstram a gravidade da crise climática e ambiental em curso no país. A Constituição Federal de 1988 prevê o licenciamento ambiental como matéria para garantia do meio ambiente ecologicamente equilibrado, direito fundamental, e impõe ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo. O PL ameaça esse direito que é de todos os brasileiros. Um direito fundamental para um futuro minimamente promissor num mundo sob estado de “emergência climática”.
Zombaria generalizada de rato gerado por IA com pênis gigante em um artigo traz problema à atenção pública
O ganhador do Prêmio Nobel, André Geim, disse que “pesquisadores publicam muitos artigos inúteis”. Fotografia: Sigrid Gombert/Getty Images/Image Source
Por Ian Sample, Editor de ciência, para o “The Guardian”
À primeira vista, era apenas mais um artigo científico, um dos milhões publicados todos os anos, e destinado a receber pouca ou nenhuma atenção fora do campo arcano da sinalização biológica em células-tronco destinadas a se tornarem espermatozoides.
Mas logo após a publicação online, no periódico Frontiers in Cell and Developmental Biology, o artigo conquistou um público global. Nem todos os leitores vieram pela ciência.
O motivo de seu apelo mais amplo? Uma imagem chamativa, que retratava um rato sentado ereto, com um pênis inacreditavelmente grande e muitos testículos. Partes do corpo eram rotuladas com palavras sem sentido, como “testtomcels” e “dck”.
Em vez de cair na obscuridade acadêmica, o artigo logo se tornou alvo de chacota na grande mídia. “Revista científica publica rato gerado por Inteligência Artificial (IA) com pênis gigantesco”, noticiou a Vice News. “Pode ser considerado um erro de IA em larga escala”, entoou o Daily Telegraph.
As imagens foram de fato geradas por IA, mas isso erapermitidopelas regras do periódico. O problema era que os autores não haviam verificado a precisão do material gerado pela IA. Nem a equipe do periódico nem seus revisores especialistas notaram os erros gritantes. Três dias após a publicação, o artigo foi retratado.
O que diferencia a anedota de outras histórias de desastres com IA é o vislumbre que ela proporciona de problemas mais amplos no cerne de uma indústria importante. A publicação científica registra e atua como guardiã de informações que moldam o mundo e com base nas quais decisões de vida e morte são tomadas.
O primeiro periódico científico publicado continuamente foi publicado pela Royal Society em 1665. Aedição inauguralda Philosophical Transactions contava aos leitores sobre um ponto em Júpiter, um minério de chumbo peculiar da Alemanha e um bezerro “monstruoso” encontrado por um açougueiro em Lymington.
Desde então, os periódicos têm sido a crônica do pensamento científico sério. Newton, Einstein e Darwin postularam teorias históricas ali; Marie Curie cunhou o termo “radioatividade” em um periódico.
Mas periódicos são mais do que registros históricos. Pesquisas inovadoras em campos críticos, desde genética e IA até ciência do clima e exploração espacial, são publicadas rotineiramente em um número crescente de periódicos, mapeando o progresso da humanidade. Tais estudos orientam o desenvolvimento de medicamentos, moldam a prática médica, fundamentam políticas governamentais e informam estratégias geopolíticas, chegando até mesmo a estimativas de fatalidades em campanhas militares sangrentas, como o ataque israelense a Gaza.
A natureza consequente dos periódicos e as potenciais ameaças à qualidade e à confiabilidade do trabalho que publicam levaram cientistas renomados a soar o alarme. Muitos argumentam que a publicação científica é fragmentada, insustentável e produz muitos artigos que beiram a inutilidade.
O alerta de laureados com o Nobel e outros acadêmicos surge no momento em que a Royal Societyse prepara para lançar uma importante revisão da publicação científica no final do verão. A publicação se concentrará nas “disrupções” que a indústria enfrentará nos próximos 15 anos.
Sir Mark Walport, ex-cientista-chefe do governo e presidente do conselho editorial da Royal Society, disse que quase todos os aspectos da publicação científica estavam sendo transformados pela tecnologia, enquanto incentivos profundamente arraigados para pesquisadores e editores frequentemente favoreciam a quantidade em detrimento da qualidade.
“Volume é um fator ruim”, disse Walport. “O incentivo deve ser a qualidade, não a quantidade. Trata-se de reestruturar o sistema de forma a incentivar a boa pesquisa do início ao fim.”
Hoje, após a drástica expansão da ciência edas práticas de publicação, iniciada pelo magnata da imprensa Robert Maxwell, dezenas de milhares de periódicos científicos publicam milhões de artigos anualmente. Uma análise para o Guardian feita por Gordon Rogers, cientista-chefe de dados da Clarivate, uma empresa de análise, mostra que o número de estudos de pesquisa indexados no banco de dados Web of Science da empresa aumentou 48%, de 1,71 milhão para 2,53 milhões, entre 2015 e 2024. Somando todos os outros tipos de artigos científicos, o total chega a 3,26 milhões.
Em umartigo marcante do ano passado, o Dr. Mark Hanson, da Universidade de Exeter, descreveu como os cientistas estavam “cada vez mais sobrecarregados” com o volume de artigos publicados. Manter o ritmo de trabalho verdadeiramente original é apenas um dos problemas. As demandas da revisão por pares – na qual acadêmicos se voluntariam para avaliar o trabalho uns dos outros – são agora tão intensas que os editores de periódicos podem ter dificuldade para encontrar especialistas dispostos.
De acordo com um estudo recente , somente em 2020, acadêmicos em todo o mundo gastaram mais de 100 milhões de horas revisando artigos para periódicos. Para especialistas nos EUA, o tempo gasto na revisão naquele ano representou mais de US$ 1,5 bilhão em mão de obra gratuita.
“Todos concordam que o sistema está meio quebrado e insustentável”, disse Venki Ramakrishnan, ex-presidente da Royal Society e ganhador do Prêmio Nobel no Laboratório de Biologia Molecular do Conselho de Pesquisa Médica. “Mas ninguém sabe realmente o que fazer a respeito.”
No mundo acadêmico do “publique ou pereça”, onde e com que frequência um pesquisador publica, e quantas citações seus artigos recebem, são fatores que definem sua carreira. A justificativa é razoável: os melhores cientistas frequentemente publicam nos melhores periódicos. Mas o sistema pode levar os pesquisadores a perseguir métricas. Eles podem conduzir estudos mais fáceis, promover resultados chamativos ou publicar suas descobertas em mais artigos do que o necessário. “Eles são incentivados por seus institutos ou agências de financiamento governamentais a publicar artigos com seus nomes, mesmo que não tenham nada de novo ou útil a dizer”, disse Hanson.
A publicação científica possui um modelo de negócios único. Cientistas, normalmente financiados por contribuintes ou instituições de caridade, realizam as pesquisas, as escrevem e revisam o trabalho uns dos outros para manter os padrões de qualidade. Os periódicos gerenciam a revisão por pares e publicam os artigos. Muitos periódicos cobram pelo acesso por meio de assinaturas, mas as editoras estão adotando modelos de acesso aberto, nos quais os autores podem pagar até £ 10.000 para ter um único artigo disponibilizado gratuitamente online.
De acordo com uma análise recente, entre 2015 e 2018, pesquisadores em todo o mundo pagaram mais de US$ 1 bilhão em taxas de acesso aberto às cinco grandes editoras acadêmicas: Elsevier, Sage, Springer Nature, Taylor & Francis e Wiley.
O acesso aberto ajuda a disseminar pesquisas de forma mais ampla. Por não ter acesso pago, o trabalho pode ser lido por qualquer pessoa, em qualquer lugar. Mas o modelo incentiva editoras comerciais a publicar mais artigos. Algumas lançam novos periódicos para atrair mais estudos. Outras solicitam artigos para um grande número de edições especiais.
Para uma editora suíça, a MDPI, edições especiais de periódicos representam uma importante fonte de receita. Um único periódico da MDPI, o International Journal of Molecular Sciences, está aceitando submissões paramais de 3.000 edições especiais . A taxa de publicação, ou taxa de processamento de artigo (APC), para um artigo é de £ 2.600. Desde o ano passado, a Fundação Nacional de Ciências da Suíça se recusa a pagar taxas de publicação para edições especiais devido a preocupações com a qualidade . A MDPI não respondeu a um pedido de entrevista.
Incentivos inúteis em torno da publicação acadêmica são apontados como responsáveis por níveis recordes de retratações, pelo aumento de periódicos predatórios, que publicam qualquer coisa mediante pagamento, e pelo surgimento de estudos escritos por IAe de fábricas de papel, que vendem artigos falsos a pesquisadores inescrupulosos para que os submetam a periódicos. Todos esses fatores contaminam a literatura científica e correm o risco de prejudicar a confiança na ciência. No início deste mês, a Taylor & Francissuspendeu as submissões ao seu periódico Bioengineered enquanto seus editores investigavam 1.000 artigos que apresentavam indícios de manipulação ou de procedência de fábricas de papel.
Embora fraudes e falsificações sejam problemas importantes, Hanson está mais preocupado com a abundância de artigos científicos que pouco contribuem para o progresso do conhecimento científico. “O perigo muito maior, em volume e em números totais, é o material genuíno, mas desinteressante e pouco informativo”, disse ele.
Agora é possível publicar um artigo revisado por pares em um periódico que praticamente não traz nada de novo. Esses artigos representam um grande dreno para o sistema em termos do dinheiro usado para publicá-los e custeá-los, do tempo gasto em sua escrita e da revisão deles.
O professor Andre Geim, ganhador do Prêmio Nobel da Universidade de Manchester, afirmou: “Acredito que os pesquisadores publicam muitos artigos inúteis e, mais importante, não somos flexíveis o suficiente para abandonar temas em declínio, onde pouco se pode aprender de novo. Infelizmente, após atingir uma massa crítica, as comunidades de pesquisa se autoperpetuam devido aos interesses emocionais e financeiros dos envolvidos.”
Hanson acredita que o problema não é o acesso aberto e os APCs em si, mas sim as editoras com fins lucrativos que buscam publicar o maior número possível de artigos. Ele acredita que a pressão sobre a publicação acadêmica poderia ser substancialmente aliviada se as agências de financiamento estipulassem que o trabalho que apoiam deve ser publicado em periódicos sem fins lucrativos.
Hannah Hope, líder de pesquisa aberta do Wellcome Trust, afirmou que, em geral, pesquisas suficientemente boas para serem financiadas devem ser publicadas e que um maior investimento em ciência, especialmente fora da América do Norte e da Europa, contribuiu para o aumento de artigos científicos. No entanto, ela concordou que a revisão por pares poderia ser usada de forma mais seletiva. “Tenho certeza de que a revisão por pares leva à melhoria da pesquisa. Vale sempre a pena o tempo investido nela? Acho que é algo que devemos questionar como área, e se a revisão por pares acontece no formato atual para tudo”, disse ela.
Ritu Dhand, diretora científica da editora Springer Nature, rejeitou a narrativa de que “editoras de periódicos gananciosas” lucram publicando artigos de baixa qualidade e destacou o fato de que o cenário da pesquisa científica passou por uma “transformação radical”, quadruplicando de tamanho nos últimos 25 anos. Há muito dominada por países ocidentais, a pesquisa agora é muito mais globalizada e liderada pela China , e não pelos EUA.
“A solução é não permitir que o resto do mundo publique?”, disse ela. “Vivemos em um mundo digital. Certamente, não importa quantos artigos estejam sendo publicados.” Ela vê soluções em melhores filtros, ferramentas de busca e alertas para que os pesquisadores possam encontrar o trabalho que realmente lhes interessa, além de uma expansão global de revisores por pares para absorver a demanda.
Embora a tecnologia represente novos desafios para as editoras acadêmicas, Ramakrishnan concordou que ela pode ser a resposta para alguns dos problemas. “Eventualmente, todos esses artigos serão escritos por um agente de IA, e então outro agente de IA os lerá, analisará e produzirá um resumo para humanos. Eu realmente acredito que é isso que vai acontecer.”
Na prática, recursos do Projeto de Lei do Semiárido vão financiar monoculturas de árvores e de soja
A mídia corporativa local anuncia que o Senado Federal deverá votar nesta 3a. feira o Projeto de Lei No. 1440/2019, também conhecido pela alcunha de “Projeto do Semiárido”, que deverá conceder aos municípios do Norte e Noroeste benefícios do semiárido. A justificativa encontrada para essa equiparação à região Nordeste em termos de benefícios que compensem o ressecamento associado à escassez das chuvas.
Curiosamente o “Projeto do Semiárido” tem como um dos suas principais apoiadoras a Federação de Indústria do Rio de Janeiro (Firjan) que, por outro lado, é uma das inspiradoras da criação de um deserto verde no Norte Fluminense, a partir da implantação de grandes plantios de eucalipto.
Wladimir Garotinho: entre o “Projeto do Semiárido” e o apoio ao Deserto Verde
É o famoso acendendo “uma vela para Deus e outra para o diabo”. Afinal, se os municipios do Norte e Noroeste Fluminense estão assim tão prejudicados pela escassez de chuvas, como é que se explica o apoio à implantação de monoculturas de árvores, como faz a Firjan?
No plano municipal, há que se lembrar que é a Secretaria Municipal de Agricultura (SEMA) quem apoia de forma muito animada a implantação de outra monocultura voraz no consumo de águas que é a da soja. Assim, somando-se os planos da Firjan e da SEMA teremos que qualquer financiamento que saia para o “Projeto do Semiárido” será, na prática, para apoiar monoculturas que causam alto consumo e ainda a contaminação dos recursos hídricos via o uso intensivo de agrotóxicos.
O Secretário Municipal de Agricultura, Almy Junior, participa de “colheita da soja” : semiárido que é bom, nada
Por outro lado, sobre a recuperação da cobertura vegetal via projetos de reflorestamento usando espécies da Mata Atlântica não há uma palavra sequer. E se levarmos em conta que grande parte do ressecamento que vivemos no Norte e Noroeste Fluminense se devem à derrubada quase total das florestas para o plantio de outras monoculturas e de pastagens, esse esquecimento deixa ainda mais explícito que o “Projeto do Semiárido” oscila entre as mais puras formas de cinismo e de farsa.
E uma coisa é certa: sem correções profundas de rumo, qualquer dinheiro que vier parar por aqui por causa desta lei será para aprofundar os problemas existentes e não o contrário.
Mancha de óleo na Baía da Guanabara atingiu colônia de pescadores em Jurujuba, Niterói Foto: Márcia Foletto
Por Camiela Pierobon para o “Nexo”
No dia 1º de outubro de 2024, um caminhão-tanque carregado com emulsão asfáltica colidiu com um caminhão-bitrem que transportava gasolina e óleo diesel, no quilômetro 130 da BR-116. A colisão ocorreu sobre o Rio Suruí, na comunidade de Suruí, em Magé — uma área de manguezal habitada historicamente por famílias de pescadores artesanais e catadores de caranguejo. O que poderia parecer um caso isolado, no entanto, revela as conexões entre acidentes cotidianos e os impactos de uma engrenagem maior: a da indústria petroquímica, marcada por recorrentes vazamentos de petróleo, óleos e produtos químicos nos corpos hídricos que chegam à Baía de Guanabara, Rio de Janeiro. Ainda não se sabe exatamente quanto material foi lançado no rio, que deságua diretamente na Baía. Estimativas apontam entre 20 e 50 mil litros de substâncias derivadas da indústria petroquímica foram despejadas nas águas e lamas do manguezal. Esse não foi um evento inédito: em 2018, o mesmo Rio Suruí já havia sido contaminado por outro acidente envolvendo um caminhão-tanque que derramou óleo diesel em suas águas.
Uma das primeiras pessoas a se deparar com o acidente foi Rafael Santos Pereira, presidente da ACAMM (Associação de Caranguejeiros e Amigos do Mangue de Magé) — e um dos principais interlocutores da pesquisa Pescando Plásticos, realizada junto ao Centro de Estudos Brasileiros Behner Stiefel da Universidade Estadual de San Diego, sobre os efeitos da indústria petroquímica na vida cotidiana dos pescadores artesanais da Baía de Guanabara. Em nossa conversa, Rafael chamou atenção para um dado importante: a colisão entre os caminhões não aconteceu em um dia qualquer. O 1º de outubro marca o início do defeso do caranguejo-uçá, período em que a captura é proibida por lei devido ao ciclo reprodutivo da espécie. Naquele momento, os corpos dos caranguejos estavam moles e expostos, sem a proteção rígida da carapaça, o que os tornava extremamente vulneráveis à contaminação. As fêmeas estavam carregadas de ovas, o que reforça a gravidade do impacto ecológico no processo reprodutivo da espécie. O episódio nos leva a refletir sobre os efeitos de longa duração que vazamentos de óleo — muitas vezes classificados como de pequeno porte — podem provocar em ecossistemas frágeis e interdependentes como os manguezais.
A colisão entre os caminhões não foi o único evento ocorrido em 2024. Em abril, um vazamento de tolueno — substância altamente tóxica derivada do petróleo — no rio Guapiaçu em Guapimirim interrompeu a captação de água no Sistema Imunana-Laranjal, responsável pelo abastecimento de cerca de dois milhões de pessoas em cidades da região metropolitana do Rio de Janeiro, como Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e parte de Maricá. A contaminação aconteceu nas proximidades do ponto de captação do sistema, obrigando a Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos) a suspender temporariamente o fornecimento, gerando dias de incerteza e desabastecimento para a população urbana. Embora tenha ganhado alguma repercussão pública, um ano e meio depois, os responsáveis ainda não foram identificados nem responsabilizados.
Outros vazamentos, de escala muito menor, também ocorrem com frequência. Embora menos visíveis e espetaculares, são percebidos cotidianamente pelos pescadores artesanais que compartilham as informações por meio do aplicativo WhatsApp. É preciso destacar, também, os vazamentos derivados dos furtos de combustível a partir da perfuração dos dutos da Transpetro por grupos de milicianos. As manchas de óleo no espelho d’água, mudanças na coloração e no cheiro da água, além do gosto alterado do peixe, são sinais reconhecidos por quem conhece intimamente a Baía de Guanabara e as espécies que ali habitam. Ainda assim, esses vazamentos raramente são denunciados. Por conta das limitações legais e econômicas é praticamente impossível denunciar ou mesmo obter compensações financeiras por incidentes de pequena escala, mesmo que esses pequenos vazamentos os impactem diretamente. Diante disso, muitos pescadores optam pelo silêncio. Publicizar tais vazamentos pode desencadear desconfiança sobre a qualidade do pescado, afetando diretamente as vendas e, consequentemente, a renda das famílias que dependem da pesca para a manutenção de suas vidas.
A questão dos vazamentos de óleo na Baía de Guanabara envolve múltiplas escalas e temporalidades, refletindo um problema ambiental complexo e persistente
A questão dos vazamentos de óleo na Baía de Guanabara envolve múltiplas escalas e temporalidades, refletindo um problema ambiental complexo e persistente. O episódio mais emblemático diz respeito aos grandes desastres que deixaram marcas profundas na história da baía. Lembremos aqui do vazamento ocorrido em 18 de janeiro de 2000, quando aproximadamente um milhão e trezentos mil litros de óleo combustível foram despejados nas águas, cobrindo todo o fundo da Baía de Guanabara com uma densa camada de petróleo. O óleo se espalhou por cerca de 40 km², atingindo áreas protegidas, como a Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapi-Mirim, um ecossistema vital para a fauna e flora local.
O desastre dos anos 2000 permanece como uma ferida aberta na memória dos pescadores artesanais, que ainda hoje sentem os impactos psicológicos, sociais e ambientais decorrentes do vazamento. Para essas comunidades, o episódio não é apenas um registro histórico, mas uma realidade vivida que atravessa gerações, afetando a biodiversidade, a produtividade das espécies marinhas e, consequentemente, suas formas de subsistência e de vida compartilhada.
Na perspectiva dos pescadores, o desastre resultou em diversas violações. A primeira delas diz respeito ao próprio vazamento: mais de duas décadas depois, os pescadores afirmam que os impactos socioambientais ainda são sentidos. Os manguezais, segundo eles, nunca se recuperaram totalmente, e diversas espécies de peixes e crustáceos não voltaram a atingir a mesma diversidade e abundância de antes do desastre.
No caso dos caranguejeiros de Magé, a lembrança do vazamento de 2000 não é apenas simbólica — ela se materializa no próprio ato da “cata” do caranguejo. Ao “bracearem” — termo utilizado para descrever o gesto de afundar o braço na lama até alcançar os caranguejos em suas tocas —, é comum que encontrem resíduos de óleo a cerca de um metro de profundidade. Nas reflexões compartilhadas por eles, ainda que o desastre tenha ocorrido há 25 anos, suas consequências seguem presentes. As florestas de manguezal, segundo relatam, não conseguem se regenerar plenamente. As raízes não ultrapassam certa profundidade, o que impede o desenvolvimento saudável das árvores. Embora programas de reflorestamento estejam em curso, os pescadores observam que essas áreas se mantêm como “florestas eternamente jovens”: as árvores crescem até certa altura, os troncos permanecem finos, e, antes de amadurecerem, caem — dando lugar a novas árvores, que repetem o mesmo ciclo.
A segunda violação ocorreu no processo de compensação financeira. A Petrobras, como empresa responsável pelo derramamento de óleo, foi legalmente obrigada a fornecer indenizações aos pescadores pelos danos causados. No entanto, a grande maioria dos pescadores artesanais com quem conversei afirma que nunca recebeu essas indenizações. Eles relataram que apenas as grandes organizações de pesca foram convocadas para negociações, mas essas entidades não representam a maioria dos pescadores artesanais e não têm capilaridade na Baía de Guanabara. Além disso, denunciam que essas organizações cadastraram trabalhadores de outras áreas, como motoristas de ônibus e pedreiros, para receber as indenizações, enquanto os pescadores artesanais foram negligenciados nesse processo. Alguns pescadores acreditam que houve apropriação indevida desses recursos por parte dessas entidades. Esse é um tema que merece investigação aprofundada, tanto para responsabilizar os culpados se de fato houver, quanto para esclarecer as dúvidas sobre o que ocorreu naquele período.
Ampliar a compreensão sobre as responsabilidades da indústria petroquímica nos vazamentos de óleo implica considerar não apenas os grandes desastres ambientais que ganham destaque na mídia, mas também os de menor escala, como os envolvendo caminhões, furtos de combustível e os pequenos vazamentos que muitas vezes passam despercebidos do público mais amplo. Embora isoladamente esses episódios possam parecer pouco significativos, seu efeito acumulado ao longo do tempo representa uma ameaça concreta e contínua às bacias hidrográficas, aos ecossistemas sensíveis dos manguezais e à vida das comunidades pesqueiras que dependem desses ambientes para sua subsistência. Essa acumulação silenciosa contribui para o desgaste ambiental e social que se perpetua e se amplifica, muitas vezes invisível para o grande público. Reconhecer e investigar essas múltiplas escalas de impacto é fundamental para responsabilizar de forma justa os agentes envolvidos, promover a reparação das comunidades afetadas e orientar políticas públicas que protejam os territórios e assegurem a sustentabilidade desses ecossistemas vitais para a região metropolitana do Rio de Janeiro.
Camila Pierobon é pós-doutoranda PIPD/CAPES no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional (UFRJ). Integra os grupos de pesquisa NuCEC (Núcleo de Pesquisas em Cultura e Economia/UFRJ) e ResiduaLab (Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos/Uerj). A pesquisa que deu origem a este texto foi realizada com apoio do Centro de Estudos Brasileiros Behner Stiefel, da Universidade Estadual de San Diego.
Autores de Vozes do Bolsa Família examinam o sofrimento social e a exclusão estrutural no país
Doze anos após a publicação deVozes do Bolsa Família, os pesquisadores Alessandro Pinzani e Walquiria Leão Rego voltam seu olhar para o Brasil esquecido pelas políticas públicas, onde o sofrimento social se naturaliza e a pobreza extrema se perpetua. EmVidas roubadas: sofrimento social e pobreza, lançamento da Editora Unesp, os autores atualizam seu diagnóstico sobre as mazelas enfrentadas pelos mais vulneráveis do país, reunindo análises e entrevistas com moradores de regiões historicamente marginalizadas.
“Assim como procedemos em nosso livro Vozes do Bolsa Família, quisemos dar voz aos sem-vozes, às pessoas emudecidas ou não ouvidas pelos políticos, pela opinião pública e até mesmo por uma parcela relevante de cientistas sociais”, anotam os autores na introdução. “Ouvimos os marginalizados, ‘os vencidos’, que sempre ficaram às margens da história brasileira, do progresso econômico, civil e jurídico, que, conquanto de forma precária e com graves retrocessos, tentou se instalar no país desde a sua independência.”
A primeira parte da obra traça um panorama das mudanças e retrocessos no cenário político-social da última década, com ênfase na fragilização dos programas de assistência e na negligência estrutural do Estado. Os autores iluminam as macroestruturas que sustentam a exclusão secular de amplas parcelas da população, revelando como a ausência de políticas públicas eficazes e a gestão desastrosa da pandemia agravaram ainda mais as condições de vida nos chamados “rincões do Brasil”.
Na segunda parte do livro, ganham voz os próprios sujeitos dessa realidade – mulheres e homens cuja existência costuma ser reduzida a estatísticas. Suas falas revelam não apenas a luta cotidiana por sobrevivência, mas também o modo como interiorizam a culpa por sua própria condição, em um processo que os autores denominam “sofrimento de segunda ordem”.
Com forte posicionamento ético, Vidas roubadas questiona a hierarquia de credibilidade que silencia os mais pobres e propõe uma escuta atenta às vozes historicamente desautorizadas, configurando-se como um apelo urgente à reflexão e à transformação social. “O fato de uma parcela majoritária da população brasileira ter ficado quase completamente excluída das vantagens de tal progresso ou de tê-las recebido apenas parcial e descontinuamente dá mostras do caráter social do sofrimento que tentaremos descrever neste livro”, registram. “Fomos movidos pela raiva suscitada por uma sociedade que condena as pessoas que entrevistamos a uma vida de sofrimento socialmente evitável.”
Sobre os autores – Alessandro Pinzani (UFSC) é especialista em filosofia política e coautor deVozes do Bolsa Família. Walquiria Leão Rego (Unicamp) pesquisa teoria social e também assina a obra anterior com Pinzani.
Título:Vidas roubadas: sofrimento social e pobreza Autores: Alessandro Pinzani, Walquiria Domingues Leão Rego Número de páginas: 272 Formato: 13,7 x 21 cm Preço: R$ 69 ISBN: 978-65-5711-292-2