Um ocaso triste

Estou em Campos dos Goytacazes desde janeiro de 1998 e desde então assisti ao desaparecimento de vários jornais, incluindo “A Notícia”, “A Cidade”, “Monitor Campista” e “O Diário”.  Cada um deles teve um final mais ou menos melancólico, pois perderam espaço para novas formas de comunicação que emergiram com muita força a partir da construção da internet. Mas cada um desses jornais teve um ocaso mais ou menos honroso, sem que seus últimos suspiros fossem marcados pela disseminação de textos  escritor por personagens que neles depositam seus devaneios e frustrações mais profundas.

Mas como cada um tem o Iago  ou Juliana que faz por merecer, e há quem esteja preferindo ter um ocaso triste e marcado por um capítulo final que só reforça a necessidade de que um veículo que até já teve alguma capacidade de influenciar a opinião pública deixe de existir. 

Felizmente, tenho assistido à proliferação de outras formas de comunicação que trazem o necessário frescor e substituem o cheiro azedo de redações que se esvaziaram em função de sua própria insignificância. E para isso não há Feijoada que dê jeito.

Vida que segue.

Desmatamento dobra em maio: governo aponta mudança do clima e colapso por fogo como causa

Alertas de desmatamento da Amazônia entre agosto e maio sobem 9%, um indício de inversão da queda dos últimos anos

Desmatamento na Amazônia: fogo pode gerar colapso da floresta

Por Giovana Girardi para a Agência Pública

Os alertas de desmatamento da Amazônia monitorados pelo sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), aumentaram 92% no mês de maio, na comparação com o mesmo mês do ano passado — foram de 500 km2 para 960 km2. É o segundo mês consecutivo de alta em 2025.

Na somatória de alertas registrados entre agosto do ano passado a maio deste ano, a alta é de 9,1% em relação ao período anterior, acionando o sinal de alerta de que a curva de desmatamento, que vinha sendo de queda desde 2023, pode estar se invertendo de novo.

O dado divulgado nesta sexta-feira, 6 de junho, pelo Inpe e pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima indicou um outro fator de preocupação sobre a Amazônia. Pela primeira vez desde o início da série histórica do Deter, o colapso de áreas da floresta por ação das queimadas teria sido mais relevante para o dado de perda da vegetação do que o chamado corte raso, quando todas as árvores são retiradas – com o uso de motosserra e correntão, por exemplo, em que o solo fica realmente exposto.

E A COP30 COM ISSO?

O aumento do desmatamento na Amazônia é um sinal que as mudanças climáticas e os incêndios de vários anos podem estar levando áreas da floresta ao colapso;

Tudo isso impacta as estratégias de combate ao fogo e ao desmatamento e dificulta ainda mais que o país alcance as metas de zerar o desmatamento da Amazônia até 2030.

O corte raso sempre foi o fator preponderante para a redução da Amazônia, mas, de acordo com os técnicos do Inpe e dos analistas do MMA, os incêndios dos últimos dois anos, em especial os de 2024, foram tão intensos que passaram a desempenhar um papel mais importante do que jamais teve.

Os 960 km2 de perda observada pelo satélite no mês de maio foram compostos, de acordo com os técnicos, em 48% por desmatamento com solo exposto e em 51% por queimadas que alteraram a composição da floresta. Uma proporção atípica. Em geral, a maior parte se deve ao desmatamento com solo exposto.

Não é fogo atual. Isso seria resultado dos incêndios que ocorreram no ano passado ou até mesmo antes, mas cujo impacto na cobertura da mata, de acordo com os técnicos do Inpe, puderam ser vistos somente agora pelo satélite, neste período em que começa a seca na Amazônia e diminui a ocorrência de nuvens.

Como se trata de uma floresta tropical úmida, quando ocorre incêndio na Amazônia – iniciado na maioria das vezes pelo ser humano –, a floresta é danificada, mas tem chance de se regenerar se não voltar a queimar num curto período de tempo. Mas, nos últimos anos, o fogo foi tão intenso que partes da floresta não foram apenas degradadas.

“Agora vemos que as florestas incendiadas no segundo semestre do ano passado colapsaram” disse João Paulo Capobianco, secretário-executivo do MMA, em entrevista coletiva sobre os dados.

De acordo com Claudio Almeida, coordenador do Programa de Monitoramento do Inpe, por colapso eles querem dizer que as áreas de floresta que foram queimadas sofreram um impacto tão “intenso e dramático” que elas deixaram de “ter papel de floresta”. Quando o dossel da área em questão foi reduzido a 30% do que era originalmente, isso acaba entrando como “desmatamento por degradação progressiva” no monitoramento do Deter.

Ministro substituto do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco concede entrevista coletiva ao lado de Rodrigo Agostinho, presidente do IBAMA, sobre números recentes do DETER que mede o desmatamento na Amazônia

Segundo Almeida, não é a primeira vez que essas perdas de vegetação relacionadas ao fogo aparecem no Deter, mas é a primeira vez que alcançam uma proporção tão grande, de 51%, no dado do mês. Em maio do ano passado, por exemplo, que também se seguiu aos grandes incêndios de 2023, a proporção das queimadas no desmatamento daquele mês foi de 21%. A maior, até então, tinha sido de 32%, em maio de 2023. Mas antes disso não tinha passado de 14%, em maio de 2018.

Após a coletiva, em entrevista à Agência Pública, Almeida disse que o dado só apareceu agora, em maio, porque depois das queimadas do ano passado veio a temporada de chuva na Amazônia, permitindo o crescimento de uma vegetação arbustiva nas florestas queimadas, que acabam confundindo um pouco a visualização do satélite.

Mas com o início da temporada seca, essa vegetação tende a morrer, deixando mais fácil a visualização das áreas em que a estrutura florestal realmente colapsou.

“Minha hipótese é que o incêndio florestal de 2024 foi tão intenso, já que as temperaturas estavam muito altas e as florestas estavam muito mais secas, que o impacto acabou sendo muito maior do que a gente jamais tinha visto”, disse. Em 2024, a Amazônia sofreu com uma seca histórica, apontada como resultado das mudanças climáticas, e foi batido o recorde de área queimada, cerca de 40 mil km2.

Na coletiva, Capobianco frisou que o dado relativo ao mês de maio não é, em sua maioria, do desmatamento no sentido mais estrito, de corte raso, que é normalmente o foco dos mecanismos de fiscalização e controle.

Mas reconheceu que isso acende o sinal de alerta de que vai ser preciso ajustar as ações para evitar ainda mais que o fogo ocorra. E de que as mudanças climáticas trazem um desafio extra. “Nós vamos seguir enfrentando o desmatamento super firmemente, mas isso não é mais suficiente [para conter a perda da Amazônia]”, afirmou à Pública.

Para Capobianco, o agravamento dos incêndios vai exigir um tipo de não que não era a realidade na Amazônia. “Historicamente, os incêndios na Amazônia eram principalmente em áreas já abertas [desmatadas]. Isso mudou.” No segundo semestre do ano passado, 24% dos incêndios ocorreram em área de floresta em pé.

Já é de se esperar que esses dados negativos acabem impactando a taxa oficial de desmatamento deste ano, que costuma ser concluída pelo Inpe em novembro. Depois de dois anos de queda, é possível que haja uma alta na taxa de 2025 – dado que deverá sair às vésperas da realização da Conferência do Clima da ONU no Brasil, a COP30.

Questionado sobre se o dado não poderá ser interpretado como uma perda de controle bem no momento em que o Brasil tenta se apresentar como um líder climático, o secretário defendeu que o combate ao problema das queimadas na Amazônia vai depender também do esforço internacional de conter as mudanças climáticas.

“Se nós não trabalharmos o entendimento da corresponsabilidade internacional com o fato de as florestas tropicais estarem se tornando mais suscetíveis a incêndios, menos resilientes, como é que nós vamos enfrentar essa questão? É um desafio monumental, é um desafio que transcende a capacidade institucional de cada país.”

Edição: Bruno Fonseca


Fonte: Agência Pública

Kafka, é você?

O Processo: crimes sem castigo, castigos sem crime

Por Douglas Barreto da Mata

Interessante a solidariedade corporativa de alguns segmentos da comunidade universitária da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), que há muito tempo reverbera um péssimo ambiente interno, reflexo direto de representações subjugadas ao poder estadual, no que antes chamávamos de “aparelhamento”. A desculpa (esfarrapada) é a de sempre: quem dá o pão, dá o castigo, ou seja, a universidade se agacha e dobra sua coluna institucional, perdendo o rumo e a autoestima.

A relevância acadêmica vem logo em seguida, salvo heróicas exceções, em desabalada carreira e ladeira abaixo.  Não conheço a Professora Luciane Soares, e ideologicamente tenho muitas reservas aos seus textos, e já expus essas oposições aqui mesmo, no Blog do Pedlowski. É importante fazer essa ressalva, para que também não seja acusado de “cumplicidade” com a professora. Não que isso me tire o sono, mas é bom colocar as coisas em seus lugares. 

Ao mesmo tempo, por força de ofício, não comento, nem questiono o trabalho de colegas policiais.  Porém, é preciso colocar os pingos não só nos “is”, mas também nos “jotas”.  Intelectuais e acadêmicos não precisam entender tudo de leis ou processo penal, concordo.  No entanto, para um texto tão bem temperado em ódio e ressentimento, assado em fogo da crueldade, lento e prolongado, cabem alguns reparos:  ação processual penal em curso não é sentença, portanto, o cuidado indica não se falar em crime, sob pena de incorrer na mesma conduta que procura imputar à professora.

Ainda que aceita a denúncia feita pelo Ministério Público, ou foi um erro de afobamento, ou já sabem qual será a sentença, e eu não acredito nessa última hipótese, porque ainda confio, nem sei bem o motivo, na Justiça.  Levando como certa a hipótese do afobamento, que levou junto o veículo que divulgou o artigo, que mais parece um Auto de Fé, o fato é que me chamou a atenção a cronologia perfeita, a narrativa escorreita, o encaixe dos fatos, as motivações presumidas com coerência, enfim, tudo muito certo, muito exato, e como minha experiência policial ensina, talvez, tudo muito causa e efeito demais.  Ninguém pode afirmar, até o fim do processo, se tudo se deu do jeito que foi contado.  É de conhecimento geral a personalidade da  professora envolvida, e talvez até alguns dos predicados ruins atribuídos a ela estejam certos. 

Seria então o “crime perfeito”? Explico.  Na literatura policial, não é incomum que pessoas controversas sejam desacreditadas, não porque é inexistente aquilo que dizem ter acontecido, mas porque são eventos de difícil comprovação (daí porque os juízes, leia-se  Superior  Tribunal de Justiça (STJ) e o Supremo Tribunal Federal (STF) firmaram entendimento de que a palavra da vítima vale muito nesses casos e, geralmente, as noticiantes, por serem consideradas confusas ou instáveis, não são levadas a sério.

Não sei se esse seria o caso, ou O Processo (Kafka, é você?).  Uma coisa é certa, se houve alguns dos episódios cuja denúncia em parede é atribuída à professora Luciane, duvido muito que qualquer das pessoas que ela supostamente teria tentado ajudar tenha coragem de se apresentar agora, dada a reação (inteligente, por sinal) dos envolvidos e seus advogados.  Assim, usando a dica para a piada (trágica), talvez tenhamos crimes sem castigos de um lado, e castigos demais para crime algum, de outro.

PS: Normalmente, as sanções administrativas em processos disciplinares aguardam o resultado dos processos criminais, no que chamamos de sobrestamento. Parabéns à reitoria da Uenf pela rapidez em resolver algo que a Justiça ainda não deu conta (talvez um ensaio de Corregedoria, padrão SNI, Mossad, Stasi, quem sabe?).

Novo estudo reforça evidências de que o Glifosato pode causar câncer

Por Carey Gillam para o “The New Lede”

Um novo estudo de longo prazo com animais sobre o herbicida amplamente utilizado glifosato encontrou novas evidências de que o herbicida, introduzido pela Monsanto na década de 1970, causa vários tipos de câncer e pode fazê-lo em doses consideradas seguras pelos reguladores.

Os resultados do estudo de dois anos, publicado em 10 de junho na revista Environmental Health, contribuem para o debate global em andamento sobre a segurança do agrotóxico, comumente usado por agricultores para matar ervas daninhas em campos e pastagens. O produto químico também é amplamente utilizado no controle de ervas daninhas em campos de golfe, parques e playgrounds, e no manejo florestal.

“Nosso estudo fornece evidências científicas sólidas e independentes da carcinogenicidade do glifosato e de herbicidas à base de glifosato”, afirmou Daniele Mandrioli, diretor do Centro de Pesquisa do Câncer Cesare Maltoni do Instituto Ramazzini, na Itália. Mandrioli é o pesquisador principal do estudo.

Pesando a ciência

A Bayer, sediada na Alemanha, que comprou a Monsanto em 2018 e herdou a marca Roundup à base de glifosato e outros herbicidas à base de glifosato, está atualmente envolvida em um litígio nos Estados Unidos movido por dezenas de milhares de pessoas que alegam que a exposição aos herbicidas à base de glifosato da empresa fez com que desenvolvessem linfoma não Hodgkin, um tipo de câncer no sangue.

Um julgamento está em andamento no Missouri, não muito longe da antiga sede da Monsanto. A empresa já pagou bilhões de dólares em acordos e indenizações, e o novo estudo surge no momento em que a Bayer alerta que, se não conseguir pôr fim ao litígio, poderá encerrar suas operações de glifosato nos EUA e, possivelmente, levar seus negócios da Monsanto à falência.

Assim como a Monsanto sempre fez, a Bayer sustenta que seus herbicidas à base de glifosato não são cancerígenos e diz que o peso da pesquisa científica respalda essa posição.

Mas muitos estudos encontraram conexões com o câncer e, em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer da Organização Mundial da Saúde classificou o glifosato como um provável carcinógeno humano.

Outros estudos encontraram uma série de efeitos nocivos da exposição ao glifosato. Um estudo de 2022, por exemplo, descobriu que o glifosato pode ter efeitos neurotóxicos em doses inferiores aos níveis considerados seguros pelas agências reguladoras. E um estudo de 2023 relacionou a exposição infantil ao glifosato à inflamação hepática e a distúrbios metabólicos.

No mês passado, uma revisão de 15 anos de estudos publicados confirmou que a exposição humana aos herbicidas de glifosato foi associada a vários resultados adversos à saúde, que incluem não apenas câncer, problemas hepáticos e metabólicos, mas também efeitos no sistema reprodutivo e endócrino e perturbação do microbioma, entre outros.

Nem a Bayer nem a organização da indústria agroquímica CropLife America responderam a um pedido de comentário.

Dosagem de água potável

No novo estudo realizado na Itália, os pesquisadores analisaram os impactos do glifosato isoladamente, bem como os impactos de dois tipos de formulações comerciais à base de glifosato, usadas na Europa e nos Estados Unidos. Eles administraram os herbicidas a ratos via água potável, desde a vida pré-natal, nas doses de 0,5, 5 e 50 mg/kg de peso corporal por dia, durante dois anos, e os compararam a grupos de controle que não receberam as doses do agrotóxico. Mais de 1.000 ratos participaram do estudo.

A ingestão diária aceitável de glifosato pela União Europeia é de 0,5 mg/kg de peso corporal/dia, e o “nível de efeito adverso não observado” (NOAEL) da UE é de 50 mg/kg de peso corporal/dia. Nos três grupos tratados, observou-se aumento na incidência de tumores benignos e malignos em múltiplos tecidos, em comparação com ratos de um grupo controle que não recebeu nenhum  agrotóxico. Os pesquisadores afirmaram que os resultados do estudo indicam que os herbicidas à base de glifosato podem causar uma série de cânceres, incluindo leucemia.

“Nossos resultados indicam que, embora o glifosato sozinho seja capaz de causar uma série de tumores benignos e malignos, os coformulantes [de herbicidas à base de glifosato] podem aumentar a carcinogenicidade do glifosato, particularmente no caso de leucemia”, afirma o estudo.

A maioria dos tumores que se desenvolveram é considerada rara em ratos Sprague Dawley, o tipo utilizado no estudo, disseram os cientistas. Eles observaram que cerca de 40% das mortes por leucemia observadas nos grupos tratados ocorreram no início da vida dos animais, embora um aumento nas mortes precoces também tenha sido observado em conexão com outros tipos de tumores. Estudos de longo prazo em ratos são comumente usados ​​para prever se uma substância é cancerígena para humanos. Ligações com amianto, benzeno e muitas outras substâncias ao câncer foram detectadas pela primeira vez em estudos com roedores.

A pesquisa faz parte de um “Estudo Global de Glifosato” liderado pelo Centro de Pesquisa do Câncer Cesare Maltoni do Instituto Ramazzini na Itália e envolve cientistas do Boston College, da George Mason University, do King’s College London, da Icahn School of Medicine no Mount Sinai, do Centro Científico de Mônaco, da Universidade de Bolonha, do Instituto de Biologia Agrícola e Biotecnologia do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, do Instituto Nacional de Saúde da Itália e do Comitê Nacional de Segurança Alimentar do Ministério da Saúde da Itália.

Em 2022, o grupo publicou  descobertas anteriores mostrando efeitos adversos do glifosato em doses atualmente consideradas seguras.

“As descobertas deste estudo cuidadosamente conduzido, e especialmente a observação de que a exposição pré-natal de ratos bebês ao glifosato durante a gravidez aumenta a incidência e a mortalidade por leucemia precoce, são um poderoso lembrete da grande vulnerabilidade de bebês humanos a produtos químicos tóxicos”, disse Philip Landrigan, que participou do estudo e dirige o Programa de Saúde Pública Global e o Bem Comum no Boston College, em um comunicado.


Fonte: The New Lede

Agrotóxicos com potencial cancerígeno poluem o ar em zonas agrícolas no interior de SP

Das amostras coletadas em pesquisa, atrazina e malationa são as substâncias mais associadas ao risco de câncer humano; atrazina teve maior concentração em região agrícola

Malationa e permetrina foram os compostos mais detectados em áreas urbanas e industriais, enquanto a atrazina predominou nas zonas agrícolas – Foto: NRCS Photo Gallery/USDA / Domínio Público 

Por Ivanir Ferreira, Arte: Gustavo Radaelli* para o Jornal da USP 

Um estudo do Instituto de Química (IQ) da USP detectou a presença de agrotóxicos no ar tanto em áreas urbanas e industriais quanto nas rurais, desmistificando a ideia de que o ambiente no campo seja mais limpo do que o da cidade. As análises foram feitas em células epiteliais de pulmão humano expostas a soluções de  agrotóxicos e a material particulado (MP) atmosférico, coletados em três regiões do Estado de São Paulo: Piracicaba – região agrícola; São Paulo – região urbana e Capuava, Santo André – região industrial. Malationa e permetrina foram os compostos mais detectados em áreas urbanas e industriais, enquanto a atrazina predominou nas zonas agrícolas.

Segundo a autora da pesquisa, Aleinnys Marys Barredo Yera, o agrotóxico atrazina — um composto organoclorado — representa o maior risco de câncer para populações em áreas rurais. Já o malationa, da classe dos organofosforados, oferece maior perigo nas regiões urbanas. “Os agrotóxicos organoclorados são altamente persistentes no ambiente, com capacidade de se acumular no solo, na água e na cadeia alimentar. Já os organofosforados, embora se degradem mais rapidamente, são extremamente tóxicos e podem causar efeitos neurológicos agudos em casos de exposição direta”, diz a pesquisadora. No meio rural, o uso desses compostos é comum no controle de pragas agrícolas, e em áreas urbanas, substâncias como o malationa também são empregadas no combate a mosquitos transmissores de doenças por meio de pulverização.

Mulher negra de cabelo crespo e curto, usa vestido preto com risco branco.

Aleinnys Marys Barredo Yera – Foto: Arquivo Pessoal

De acordo com a pesquisa, a exposição contínua por 24 horas a concentrações iguais ou superiores a 352 picogramas por metro cúbico (pg/m³) desses agrotóxicos no ar pode aumentar significativamente o risco de câncer ao longo da vida, especialmente em bebês, considerados mais vulneráveis e baixo peso corporal.  Aleinnys explica que essas substâncias são citotóxicas, têm potencial para causar danos ou morte celular, além de possuírem propriedades oxidativas, o que favorece a formação de radicais livres e pode provocar danos a proteínas, células e até ao DNA humano.

Concentrações médias de agrotóxicos encontradas no ar em São Paulo, Piracicaba e Capuava -2017

Ar em zona rural pode ser mais tóxico que o urbano

A pesquisa também derruba a percepção de que áreas rurais tenham o ar mais limpo do que as regiões urbanas.

“Em Piracicaba, amostras de material particulado atmosférico devido à presença de  agrotóxicos e outros compostos orgânicos apresentaram níveis mais altos de carcinogenicidade, citotoxicidade e potencial para induzir estresse oxidativo do que as amostras coletadas em uma região da capital paulista”, relata a professora Pérola Castro Vasconcellos, orientadora do estudo.

Mulher branca, de cabelos grisalhos, veste blusa verde

Pérola Castro Vasconcellos – Foto: Arquivo Pessoal

Cálculos de exposição diária por inalação de pesticidas também mostraram que as populações que moravam na área agrícola estavam mais expostas do que as que moravam nas regiões urbanas. Compostos como heptacloro e malationa, ambos associados a riscos cancerígenos, foram encontrados em níveis mais elevados na zona agrícola do que na urbana, o que indica maior risco de desenvolvimento de câncer entre a população rural.

O estudo ainda mostrou que a combinação de diferentes  agrotóxicos presentes no ar tem efeito tóxico mais significativo do que a ação isolada de cada composto. “Como as amostras de Piracicaba continham uma maior mistura desses contaminantes, os efeitos à saúde tendem a ser mais severos”, explica Aleinnys.

Coletas por região

Em 2018, amostras de material particulado foram coletadas simultaneamente em três regiões durante 26 dias, com análise das concentrações diárias de agrotóxicos para avaliar a qualidade do ar. Em São Paulo, o equipamento de medição foi colocado no terraço do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, na Cidade Universitária, região arborizada, e próxima (2 km) da Marginal Pinheiros, um dos lugares de possíveis alvos de aplicação de  agrotóxicos. Em Piracicaba, no Campus da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP e em Capuava, região metropolitana de São Paulo, próximo ao Polo Petroquímico.

De acordo com a professora Pérola, os sítios onde foram feitas as coletas apresentaram picos de concentração de agrotóxicos em momentos diferentes, o que revela o uso intensivo dessas substâncias em diversos setores. A atrazina teve sua maior concentração em Piracicaba, região agrícola, com 163 pg/m³, enquanto em São Paulo, a área urbana, atingiu 93 pg/m³. Em Capuava, zona industrial, a substância não foi detectada. Já a substância malationa apresentou os maiores níveis no sítio de Capuava (concentração média de 101 pg/m³), seguida por São Paulo (88 pg/m³) e Piracicaba (79 pg/m³). O composto permetrina, por sua vez, foi mais encontrado no sítio da capital paulista (concentração média de 140 pg/m³), seguida de Capuava (108 pg/m³) e Piracicaba (93 pg/m³).

Agrotóxico São Paulo (urbano) Piracicaba (rural) Capuava (industrial)
Atrazina 93 pg/m³ 163 pg/m³ 0
Malationa 88 pg/m³ 79 pg/m³ 101 pg/m³
Permetrina 140 pg/m³ 93 pg/m³ 108 pg/m³

Em São Paulo, capital, foram coletadas amostras de material particulado durante duas campanhas, nos anos de 2017 e 2018. Em 2017, dos 34 pesticidas estudados, 18 foram detectados e 13 quantificados. Os compostos mais frequentes encontrados nas amostras foram o permetrina 1 e 2 (100%), diazinon (93%), β-endosulfan (87%), bifentrina (60%) e etiona (53%). Na campanha de 2018 foram estudados 11 compostos e sete foram detectados com alta frequência, com destaque para o malationa.

Em Piracicaba, município localizado a 369 km da capital paulista, as análises de amostras de material particulado foram realizadas em 2008 e 2018. Na campanha de 2018, feita simultaneamente com outras cidades, quatro agrotóxicos foram detectados em todas as amostras coletadas: atrazina (163 pg/m³), heptacloro (78 pg/m³), cresoxim metílico (50 pg/m³) e λ-cialotrina (210 pg/m³).

Segundo Aleinnys, apesar de ocupar a segunda posição em concentração (163 pg/m³), “o atrazina merece maior atenção, porque esse agrotóxico permanece por mais tempo no meio ambiente e sua dispersão na atmosfera ocorre tanto na fase particulada quanto na gasosa por até 11 meses após a aplicação, reforçando seu potencial de contaminação atmosférica”.

Entre os agrotóxicos encontrados em 2008, alguns chamam a atenção pela sua presença significativa. O inseticida etiona, amplamente utilizado em diversas lavouras, foi detectado em todas as amostras analisadas, com a maior concentração registrada de 160 pg/m³. Outro agrotóxico amplamente detectado foi o λ-cialotrina, também comum em áreas agrícolas.

Aleinnys explica que embora o etiona e o λ-cialotrina sejam frequentemente usados em regiões rurais na agricultura, alguns estudos  mostraram a presença destas substâncias em áreas urbanas, sugerindo que os pesticidas podem se dispersar para fora de sua área de aplicação direta. “Em 2017, medições feitas nas cidades de São Paulo e em Houston (EUA) encontraram concentrações mais elevadas de λ-cialotrina, 41 pg/m³ e 57 pg/m³, respectivamente, superando os 27 pg/m³ observados em Piracicaba”, diz.

O heptacloro, um agrotóxico que já havia sido banido no Brasil quatro anos antes da coleta, foi detectado em todas as amostras coletadas em Piracicaba, com concentrações máximas de 89 pg/m³. “Esse resultado indica a persistência do composto no ambiente, mesmo após a proibição de seu uso, o que levanta questões sobre os impactos a longo prazo e a eficácia da fiscalização do uso de substâncias proibidas”, relata a pesquisadora.

Em Capuava, situada na região de Santo André, na grande São Paulo, campanhas de amostragem foram realizadas entre 2015 e 2018. Durante os quatro anos de coleta, o agrotóxico malationa foi o mais detectado em todas as amostras. Em 2015, os pesticidas mais frequentemente encontrados (em mais de 50% das amostras) foram o malationa (100%), o β-endosulfan, o permetrina 1 e 2 (93%) e o heptacloro (87%). A maior concentração registrada foi de 827 pg/m³ para o permetrina 2, o que representa o nível mais alto já reportado para um agrotóxico no material particulado atmosférico do Estado de São Paulo.

Em 2016, o malationa continuou a ser o único composto detectado em todas as amostras, com a maior concentração registrada de 161 pg/m³. Em 2017, observou-se o maior número de compostos detectados por amostra, com destaque para o etiona, que alcançou a maior concentração registrada no período, 750 pg/m³. Em 2018, os resultados foram similares.

A pesquisadora diz que os testes de potencial oxidativo, que expuseram células epiteliais de pulmão humano ao material particulado coletado nas áreas estudadas e a soluções de pesticidas, indicaram que amostras de Capuava apresentaram forte correlação entre pesticidas organoclorados e o estresse oxidativo celular — um fator que pode causar danos crônicos ao sistema respiratório. Segundo a pesquisadora, esses compostos são reconhecidos como disruptores endócrinos, e estudos de saúde na região já apontaram aumento nos casos de disfunções na tireoide. Ela destaca a necessidade de um estudo epidemiológico mais aprofundado para investigar essas possíveis relações.

Agricultura brasileira

A pesquisadora Aleinnys reconhece que a agricultura é crucial para a economia brasileira, com o País sendo líder global na produção de diversos alimentos. No entanto, esse crescimento resultou na expansão das áreas cultivadas e no uso intensivo de agrotóxicos, tornando o Brasil o maior consumidor dessas substâncias. A pesquisadora aponta que a solução não é eliminar os agrotóxicos, pois sua ausência poderia reduzir a produção de alimentos em até 78%, dependendo das condições específicas de cada região e das práticas agrícolas implementadas. Contudo, ela enfatiza a necessidade de um controle mais rigoroso sobre a quantidade aplicada e os tipos de agrotóxicos utilizados, tanto no campo quanto nas áreas urbanas.

Parte da pesquisa que trata sobre as concentrações dos agrotóxicos e os riscos da inalação já foi publicado em três artigos científicos:  Pesticides in the atmosphere of urban sites with different characteristics, Particulate matter–bound organic compounds: levels, mutagenicity, and health risks Occurrence of Pesticides Associated to Atmospheric Aerosols: Hazard and Cancer Risk Assessments. Em junho de 2025, será apresentada a tese pelo Instituto de Química da USP,   Agrotóxicos na Atmosfera de Cidades do Estado de São Paulo: Avaliação de Riscos para a Saúde, orientada pela professora Pérola de Castro Vasconcelos e coorientada pela professora Ana Paula de Melo Loureiro, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP. 

Mais informações: professora Pérola de Castro Vasconcellos (orientadora da pesquisa), perola@iq.usp.br e Aleinnys B. Yera (autora da pesquisa), aleinnysb@usp.br; professora Ana Paula de Melo Loureiro, apmlou@usp.br

*Estagiário sob orientação de Moisés Dorado


Nesta publicação, o termo originalmente utilizado foi pesticida, mas optei por utilizar agrotóxico que me parece mais correto conceitual e empiricamente.

Fonte: Jornal da USP

‘Bomba-relógio’: acidez do mar atingiu níveis críticos, ameaçando ecossistemas inteiros – estudo

A acidificação dos oceanos já ultrapassou um limiar crucial para a saúde planetária, dizem cientistas em descoberta inesperada

A luz brilha através da superfície de um oceano sobre o fundo verde do mar abaixo

À medida que os cientistas observavam mais profundamente o oceano, encontraram níveis piores de acidificação. Fotografia: DrPixel/Getty Images 

Os oceanos do mundo estão em pior estado do que se imaginava, disseram cientistas hoje, alertando que uma medição importante mostra que estamos “ficando sem tempo” para proteger os ecossistemas marinhos.

A acidificação dos oceanos, frequentemente chamada de “gêmea maligna” da crise climática, é causada pela rápida absorção de dióxido de carbono pelo oceano, que reage com moléculas de água, levando à queda do pH da água do mar. Ela danifica os recifes de corais e outros habitats oceânicos e, em casos extremos, pode dissolver as conchas de criaturas marinhas.

Até agora, a acidificação dos oceanos não havia sido considerada como tendo ultrapassado sua “fronteira planetária”. As fronteiras planetárias são os limites naturais de sistemas globais essenciais – como clima, água e diversidade da vida selvagem – além dos quais sua capacidade de manter um planeta saudável corre o risco de falhar. Seis dos nove já haviam sido ultrapassados, disseram cientistas no ano passado .

No entanto, um novo estudo do Laboratório Marinho de Plymouth (PML) do Reino Unido, da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, sediada em Washington, e do Instituto Cooperativo de Estudos de Recursos Marinhos da Universidade Estadual do Oregon descobriu que o “limite” da acidificação dos oceanos também foi atingido há cerca de cinco anos.

“A acidificação dos oceanos não é apenas uma crise ambiental – é uma bomba-relógio para os ecossistemas marinhos e as economias costeiras”, disse o professor Steve Widdicombe, da PML, que também é copresidente da Rede Global de Observação da Acidificação dos Oceanos .

O estudo baseou-se em medições físicas e químicas novas e históricas de núcleos de gelo, combinadas com modelos computacionais avançados e estudos da vida marinha, o que deu aos cientistas uma avaliação geral dos últimos 150 anos.

Constatou-se que, em 2020, a condição média dos oceanos em todo o mundo já estava muito próxima – e em algumas regiões além – do limite planetário para a acidificação dos oceanos. Isso é definido como quando a concentração de carbonato de cálcio na água do mar está mais de 20% abaixo dos níveis pré-industriais.

Quanto mais fundo no oceano eles observavam, piores eram os resultados, disseram os cientistas. A 200 metros abaixo da superfície, 60% das águas globais haviam ultrapassado o limite “seguro” de acidificação.

“A maior parte da vida oceânica não vive apenas na superfície”, disse a Professora Helen Findlay, da PML. “As águas subterrâneas abrigam muito mais tipos diferentes de plantas e animais. Como essas águas mais profundas estão mudando tanto, os impactos da acidificação dos oceanos podem ser muito piores do que pensávamos.”

Ela acrescentou que isso teve enormes implicações para importantes ecossistemas subaquáticos, como os recifes de corais tropicais e até mesmo os de águas profundas, que forneciam habitats essenciais e viveiros para os filhotes de muitas espécies.

À medida que os níveis de pH caem, espécies calcificadas como corais, ostras, mexilhões e pequenos moluscos conhecidos como borboletas marinhas lutam para manter suas estruturas de proteção, o que leva a conchas mais fracas, crescimento mais lento, reprodução reduzida e menores taxas de sobrevivência.

Os autores ressaltaram que diminuir as emissões de CO 2 era a única maneira de lidar com a acidificação globalmente, mas que as medidas de conservação poderiam e deveriam se concentrar nas regiões e espécies mais vulneráveis.

Jessie Turner, diretora da Aliança Internacional para Combater a Acidificação dos Oceanos, que não esteve envolvida no estudo, disse: “Este relatório deixa claro: estamos ficando sem tempo e o que fazemos — ou deixamos de fazer — agora já está determinando nosso futuro.

“Estamos lidando com uma ameaça existencial enquanto lidamos com a dura realidade de que grande parte do habitat adequado para espécies-chave já foi perdida. É evidente que os governos não podem mais se dar ao luxo de ignorar a acidificação nas agendas políticas tradicionais”, disse ela.


Fonte: The Guardian

No Dia Mundial do Oceano, mulheres cientistas ainda estão longe da equidade

Arraias e peixes nadando em ambiente marinho azul, representando a biodiversidade do oceano

A vida marinha é tema central da ciência oceânica, mas as mulheres seguem sub-representadas na produção científica 

Por Germana Barata e Washington Segundo para a Agência Bori

Neste Dia Mundial do Oceano (8), ainda não há o que comemorar quando se trata da equidade de mulheres cientistas. A Década do Oceano chega à metade em 2025, e a primeira avaliação sobre a contribuição de mulheres na produção científica sobre o oceano no Brasil não é nada animadora.

Por meio da rede Ressoa Oceano em parceria com o Instituto Brasileiro de Informação de Ciência e Tecnologia (Ibict) avaliamos 1,3 milhão de artigos, de 2018 a 2024, com ao menos uma autoria brasileira, disponíveis no banco de dados OpenAlex, um dos mais representativos bancos de publicações científicas do mundo. Desse total, 4,6% estão relacionados ao oceano.

A partir desse vasto universo de publicações, selecionamos 31 tópicos categorizados no OpenAlex relacionados ao oceano e identificamos a autoria de especialistas homens e mulheres, a partir do primeiro nome, além de sua posição de liderança na autoria e o tipo de acesso do artigo.

O levantamento mostra que as mulheres estão próximas de atingir a equidade na produção científica quando consideramos todas as áreas do conhecimento, com 46% de participação contra 48% de homens. Porém, quando se trata do oceano, elas ainda são minoria: 38% contra 57%. O percentual residual corresponde a artigos em que não foi possível definir o gênero pelo primeiro nome.

E as perspectivas futuras não são animadoras, já que os valores têm se mantido estáveis desde 2018, sem perspectivas de mudanças para as mulheres que investigam o oceano. O mais impressionante é que os dados do Censo do Ensino Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep), realizado entre 2009 e 2022, informam que mais de 56% de estudantes de graduação em oceanografia são mulheres – 60,9% no mestrado e 52,2% no doutorado. Portanto, elas são maioria na área mais diretamente ligada ao oceano, a oceanografia.

Além disso, identifica-se no estudo realizado que há um claro crescimento do número de coautores por publicação.  O que isso quer dizer? Que, apesar da produção científica ter diminuído mundialmente, principalmente com a pandemia da Covid-19, como algumas análises reforçam (vide a realizada em 2023 pela Agência Bori com a editora científica Elsevier), a colaboração de cientistas do Brasil cresceu, saindo da média de 4 autores por artigo em 2018 para chegar ao valor médio de 6 coautores por artigo em 2024.

A colaboração pode ser uma alternativa aos impactos negativos provocados pela diminuição de recursos para a ciência combinada ao aumento nos custos de publicação, que podem variar de US$ 2.000 a US$ 3.400, e chegar a chocantes US$ 12.000! Esses efeitos, se não mitigados, poderão seguir impactando as mulheres cientistas, e suas representações de liderança na pesquisa.

Esse é o primeiro levantamento de uma série anual que visa monitorar a produção científica sobre o oceano ao longo da década do Oceano, uma iniciativa da Unesco para melhorar as condições de degradação da saúde do oceano até 2030.

Até aqui, os dados mostram que será preciso grandes investimentos das agências de fomento e instituições de pesquisa voltadas para o oceano. Apesar de ocupar pouco mais de 70% da superfície do planeta, o oceano recebe apenas 1,7% dos recursos para a ciência. E, neste dia,  lembramos que o oceano é absolutamente essencial para a vida neste planeta azul, como pede a comunidade científica. Acrescenta-se o fato de que hoje se inaugura o Congresso do Oceano das Nações Unidas, na cidade litorânea francesa de Nice, quando negociações serão acordadas pelos países membros, incluindo o Brasil.

Políticas científicas precisam ser desenhadas e executadas para que as mulheres cientistas que se dedicam a desvendar o oceano possam comemorar, em 2030, a equidade de gênero.

Sobre os autores

Germana Barata é pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp e coordena a rede de comunicação sobre o oceano Ressoa Oceano, que produz e compartilha conteúdos sobre oceano, além de analisar dados relacionados à produção científica e a cobertura jornalística sobre o oceano.

Washington Segundo é coordenador-geral de informação científica e técnica do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) e lidera projetos voltados à Ciência Aberta, repositórios digitais, interoperabilidade de sistemas e gestão de dados científicos.


Fonte: Agência Bori

Em Vitória (ES), Conexões Costeiras Sudeste faz ato no mar para marcar Dia Mundial dos Oceanos

Nadadores, caiaqueiros e lideranças comunitárias se mobilizaram em Vitória por um oceano sem petróleo e sem lixo

Por Redação Multimídia ESHOJE 

Neste domingo (8), Dia Mundial dos Oceanos, cerca de 30 nadadores e caiaqueiros participaram de um ato simbólico na Prainha da Ilha do Frade, em Vitória (ES). O grupo protestou contra o 5º Leilão de Petróleo marcado para o fim de junho, a possível perfuração de poços no litoral capixaba e também defendeu a regulamentação da profissão de salva-vidas.

A mobilização fez parte das atividades do projeto Conexões Costeiras Sudeste, que busca fortalecer o diálogo entre comunidades, ciência e políticas públicas em defesa dos ecossistemas marinhos e costeiros.

A coordenadora do projeto, professora Cristiana Losekann, ressaltou a importância da ação nesta data: “Queremos um mar sem petróleo, sem lixo. É importante marcar esse evento hoje porque, nesta segunda-feira, começa a Conferência Mundial dos Oceanos. Muitas decisões importantes sobre a proteção dos oceanos e dos países vão sair desse encontro”, destacou.

Entre os participantes do ato estava também Paulo Barone, presidente da associação de pescadores do Arquipélago de Paquetá (RJ), que fez um apelo: “Peço que respeitem os oceanos e parem de poluir o mar. Não a esse leilão!”, afirmou.

Oficinas debatem desafios costeiros e ambientais no Sudeste

No sábado (7), o projeto Conexões Costeiras Sudeste também promoveu o encerramento de seu ciclo de oficinas virtuais e presenciais. A atividade final aconteceu em Vila Velha e reuniu representantes de movimentos sociais e de órgãos públicos ligados à pauta ambiental.

Os debates abordaram temas como a contaminação de rios e mares, o avanço da exploração de petróleo e a perda de territórios litorâneos para a construção de grandes empreendimentos, como resorts.

Ao final do ciclo, os organizadores anunciaram a produção de um relatório no formato policy brief, com recomendações para jornalistas e tomadores de decisão. O documento será apresentado durante a COP30, que acontecerá em Belém (PA) em 2025.

“Vamos produzir um relatório com recomendações para que os jornalistas tenham uma compreensão mais ampla da COP30 — não apenas focada nas agendas governamentais, mas também nas pautas das comunidades”, explicou Cristiana Losekann.

“A ideia é que quem toma decisões políticas e institucionais possa considerar as perspectivas da sociedade civil sobre os rumos da política oceânica”, completou.


Fonte: ESHoje

Desenvolvimento baseado em exploração de recursos e em grandes obras aprofundou desigualdades na Amazônia

desenvolvimento Amazônia

Transformações como a construção de portos e estradas se intensificaram a partir dos anos 1940

 

 

 

Um artigo publicado na sexta (6) na revista Acta Amazonica mostra que o modelo atual de desenvolvimento da Amazônia, centrado na extração de recursos naturais e implementação de grandes projetos – como barragens, estradas ou mineração – intensifica desigualdades sociais, destruição ambiental e conflitos territoriais. Esses projetos ainda trazem impactos duradouros para os ecossistemas e as comunidades locais, com efeitos agravados por mudanças climáticas e políticas permissivas.

Conduzido por cientistas de instituições como Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Universidade Federal do Pará (UFPA) e Universidade da Califórnia (EUA), o artigo baseia-se em literatura acadêmica, relatórios técnicos e dados institucionais para apresentar os principais marcos históricos e políticos da Amazônia desde os anos 1940, considerando as políticas de desenvolvimento de cada época. Parte do conteúdo também foi derivado de levantamentos do Painel Científico para a Amazônia (SPA, na sigla em inglês), composto por 200 pesquisadores de diversos países.

A partir de políticas estatais voltadas à integração territorial e à modernização urbana-industrial, a Amazônia passou a abrigar grandes empreendimentos, como portos e estradas, que favoreceram interesses externos e desconsideraram a diversidade social e ecológica local. Nos anos 1990, com o avanço do neoliberalismo, observou-se o fortalecimento de mercados ilegais como grilagem, garimpo e tráfico de madeira e drogas.

O estudo revela que, diante dessas pressões, as populações locais têm buscado formas de resistência. Sobretudo na década de 80 e 90, movimentos indígenas se articularam com universidades, ONGs, ambientalistas e movimentos internacionais para garantir maior participação na formulação de constituições que contemplassem seus povos e que tivessem ficado de fora da Constituição de 1988. Dentre os resultados dessa luta, destaca-se o reconhecimento de territórios indígenas, quilombolas e de populações tradicionais e maior participação em fóruns de governança ambiental.

Segundo Philip Fearnside, pesquisador do INPA e um dos autores do artigo, o trabalho ajuda a romper com a visão simplista de que a Amazônia é um “vazio demográfico”. O bioma é descrito como um espaço complexo, feito de redes sociais, econômicas e culturais que foi moldado ativamente por seus habitantes – como ribeirinhos, quilombolas, indígenas e migrantes.

O pesquisador explica que, hoje,a maior parte da população da Amazônia vive em cidades. “Mas apesar desses grandes centros urbanos, existe ao mesmo tempo uma ligação forte com a população que está na área rural, inclusive com migração de população”, explica. “Essa ligação muitas vezes se dá no âmbito familiar, com mulheres e crianças na cidade para terem acesso a escola e saúde e os homens no campo. Há também aumento de ligações comerciais, com transporte de produtos do campo de cada vez mais longe para os mercados urbanos”, completa.

A pesquisa propõe que as experiências locais sejam valorizadas na formulação de políticas públicas. Os autores defendem alternativas que conciliem justiça ambiental e conservação, com base em saberes tradicionais e participação ativa das comunidades. A expectativa é que o trabalho ajude a repensar o modelo vigente de desenvolvimento, evitando que a Amazônia atinja pontos de não retorno ecológico e social.


Fonte: Agência Bori

Divulgação: Encontro anticapitalista pelo clima e pelo fim dos genocídios

O colapso ambiental produzido desde a Revolução Industrial pelo capitalismo já é uma realidade e as populações do planeta já sentem seus efeitos, especialmente os mais vulneráveis.

O capitalismo, por sua natureza necessariamente expansiva, é insustentável, incapaz sequer de reduzir a aceleração da destruição. Com a ascensão de Trump à presidência dos EUA, foram escancaradas políticas imperialistas de aumentar a destruição e saque dos bens naturais comuns em todo o globo e uma ruptura com o discurso de capitalismo verde.

O contraponto empresarial e de governos capitalistas a Trump é a verdadeira lenga-lenga ambiental. Estão mais preocupados em salvar o capitalismo do que as pessoas, a fauna e a flora. As empresas e as instituições burguesas, incluindo a ONU e suas COPs, investem em falsas soluções e na ilusão da possibilidade de um capitalismo verde e sustentável.

No Brasil, Lula e a esquerda da ordem, incapazes de qualquer vislumbre de superação do capitalismo, cumprem o destino de todos os reformistas diante do colapso ambiental e praticam o negacionismo sutil. Não negam que existe uma questão ambiental, mas relutam em falar em colapso e seus discursos não encontram eco na realidade das “políticas de desenvolvimento” apoiadas pelo governo.

Empenhado em favorecer o agronegócio latifundiário e a mineração, Lula viaja pelo mundo buscando acordos que permitam a expansão da exportação de grãos, gado e minério.

Para viabilizar tal expansão, investem em projetos altamente destrutivos – as “Rotas de Integração Sul-Americana”, que incluem a pavimentação da BR-319, a Ferrogrão e a hidrovia transpantaneira; a expansão da produção de petróleo, inclusive na Amazônia; a construção de novas hidrelétricas e de “fazendas” eólicas e solares.

Recentemente assistimos estarrecidos à aprovação pelo Senado da Lei Geral de Licenciamento Ambiental, que tem como objetivo destruir qualquer freio aos projetos do capital. Na contramão de proteger o meio ambiente, o Congresso está às vésperas de liberar a devastação. A destruição da legislação ambiental que agora se discute em âmbito federal já é realidade em muitos estados, inclusive estados governados por petistas há muitos anos, como Bahia e Piauí.

Diante deste cenário, a classe trabalhadora precisa entrar em campo com seu próprio programa pela sobrevivência, em defesa da vida e contra a desigualdade.

Por isso, no mês de novembro, em contraponto à COP 30 e suas falsas soluções, ocorrerá, na cidade do Rio de Janeiro, o Encontro Anticapitalista pelo Clima e pelo Fim dos Genocídios, com os seguintes objetivos:

1-  Denunciar o caráter insustentável do capitalismo, a impossibilidade de um capitalismo verde e sequer da redução do ritmo de destruição sem a superação deste modo de produção.

2- Denunciar as instituições capitalistas, empresas, Estados e organismos internacionais (ONU, COPs, G20 etc.) e suas falsas soluções.

3- Denunciar o negacionismo e o caráter destrutivo da política ambiental do Estado brasileiro, incluindo o governo Lula.

4- Promover o debate sobre o significado da ruptura com o capitalismo, bem como o programa, as táticas e as estratégias necessárias para este objetivo.

5- Colaborar para a articulação das lutas ambientais concretas travadas pelos trabalhadores e o povo.

6- Contribuir no desenvolvimento das lutas contra o imperialismo e na denúncia de todos os genocídios em curso, em particular apoiando a luta do povo palestino contra o estado colonialista e racista de Israel.

O encontro da militância e das organizações que não se iludem com o capitalismo, suas empresas e instituições é fundamental diante da necessidade de atuarmos concretamente pela superação deste modo de produção como condição para que a humanidade possa começar a responder adequadamente ao colapso ambiental.

Nossa iniciativa é ousada e está apenas começando a ser construída. Em busca de ampliar as adesões, a Comissão Organizadora está convocando uma plenária de apresentação para outros coletivos, organizações e militantes no dia 2 de julho às 18 horas na UERJ Maracanã (RAV 122).

Comissão Organizadora – MRT, Emancipação Socialista, PSTU, Coalizão pelo Clima, Marx Comenta, Geem e Cecip