Soja lidera uso de agrotóxicos no Brasil, mas apesar disso a produtividade está caindo drasticamente, mostra relatório

De acordo com um estudo realizado pelo Instituto Escolhas, o latifúndio agro-exportafor brasileiro tem intensificado o uso de agrotóxicos e fertilizantes para aumentar a produção de soja, na qual o Brasil é líder mundial.  Além disso, esse aumento se dá em um ritmo mais acelerado do que a expansão da área plantada, o que pode acarretar riscos ambientais e reduzir a rentabilidade dos produtores. Por outro lado, ao se comparar com países líderes no uso de agrotóxicos, como Estados Unidos, Argentina, China e Índia, o Brasil se destaca, conforme mostram dados oficiais.

Por outro lado, o levantamento feito pelo Instituto Escolhas aponta que mesmo com um aumento da produtividade de 2% ao ano, esse crescimento é inferior à expansão da área plantada e ao aumento do uso de insumos, que foram de 5% e 11% respectivamente.  O estudo também mostra que, em 30 anos, a área de soja saltou de 11 para 44 milhões de hectares, mas a eficiência do uso dos agrotóxicos caiu drasticamente: em 1993, eram 23 sacas de soja produzidas para cada quilo de agrotóxico aplicado; hoje, são apenas 7.

Além disso, o estudo mostra que o custo dos agrotóxicos e fertilizantes saltou de 30% para 44% sobre o valor bruto da produção. 

Livre da soja, Pantanal sofre com veneno que chega pelos rios

Segundo Jaqueline Ferreira, do Instituto Escolhas, o aumento do uso de agrotóxicos e fertilizantes é frequentemente minimizado pelos alta na produção de soja, que é essencial para o abastecimento mundial e fonte de exportação de dólares para o país. Para a safra 2024/2025, o Brasil projeta uma produção recorde de 168 milhões de toneladas de soja, 13% a mais que o ano anterior. Mas esse resultado não pode esconder que isso está acontecendo graças ao aumento do desmatamento e do uso de agrotóxicos, muitos deles banidos na Europa e até na China.

Mais de 60 caciques do Oiapoque repudiam exploração de petróleo na Foz do Amazonas e exigem suspensão imediata do licenciamento

Oiapoque, 2 de junho de 2025 – Em uma manifestação histórica, mais de 60 caciques dos povos indígenas Karipuna, Galibi Marworno, Galibi Kali’na e Palikur Arukwayene, do Oiapoque (AP), divulgaram uma carta de exigindo a imediata suspensão do processo de licenciamento do bloco FZA-M-59, na bacia da Foz do Amazonas, e de todos os blocos incluídos no próximo leilão da Agência Nacional do Petróleo (ANP), previsto para 17 de junho.

Reunidos no Conselho de Caciques dos Povos Indígenas do Oiapoque (CCPIO), as lideranças denunciam que nunca foram consultadas sobre a exploração de petróleo na região — como determina a Convenção 169 da OIT e a Constituição Brasileira. Mesmo com os impactos socioambientais já sentidos nas aldeias, os territórios indígenas ficaram fora do Estudo de Impacto Ambiental apresentado pela Petrobras.

A carta denuncia os graves riscos socioambientais da atividade petrolífera, como poluição, destruição da biodiversidade e ameaça à subsistência dos povos indígenas, além de condenar a disseminação de desinformação e a perseguição a lideranças indígenas. O CCPIO exige a suspensão imediata de qualquer projeto de exploração na região e convoca o apoio de organizações indígenas, entidades de direitos humanos e da sociedade brasileira em defesa da vida dos povos originários e da proteção da Amazônia.
 

LEIA A CARTA NA ÍNTEGRA:

(Link com o PDF)

Oiapoque/AP, 28 de maio de 2025.

De Conselho de Caciques dos Povos Indígenas de Oiapoque – CCPIO

CARTA DE REPÚDIO AOS REPRESENTANTES POLÍTICOS DO ESTADO DO AMAPÁ

Pelo desrespeito aos direitos dos Povos Indígenas do Oiapoque e a pressão pela exploração de petróleo na Foz do Amazonas.

Nós, Conselho de Caciques dos Povos Indígenas do Oiapoque (CCPIO), representantes legítimos dos povos originários desta terra, manifestamos nosso veemente REPÚDIO às declarações e ações de toda classe política do Estado do Amapá, que insiste em defender a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, ignorando os graves impactos socioambientais e violando os direitos fundamentais dos povos indígenas.

1. Violação do Direito à Autodeterminação e Consulta Prévia:

O desrespeito a Convenção 169 da OIT e a Constituição Federal de 1988, que garantem aos povos indígenas o direito à consulta prévia, livre, informada e de boa-fé sobre projetos que afetam nossos territórios e modos de vida. A exploração de petróleo na Foz do Amazonas ameaça diretamente nossa sobrevivência cultural e física, além de colocar em risco um dos biomas mais sensíveis do planeta.

2. Ameaça Socioambiental Irreversível:

A perfuração de petróleo na região trará poluição, destruição de ecossistemas e impactos irreparáveis à biodiversidade, afetando nossa pesca, agricultura e fontes de água. Não aceitamos que interesses econômicos se sobreponham à vida de nossos parentes e ao futuro das próximas gerações. A perfuração de petróleo na região trará poluição, destruição de ecossistemas e impactos irreparáveis à biodiversidade, afetando nossa pesca, agricultura e fontes de água. Não aceitamos que interesses econômicos se sobreponham à vida de nossos parentes e ao futuro das próximas gerações.

3. PL da Devastação (No2159/2021) e Senador Davi Alcolumbre

Repúdiamos à postura do Senador Davi Alcolumbre, que vem atuando de forma irresponsável e desrespeitosa ao garantir que Leis que facilitem a devastação do meio ambiente seja aprovada. A atuação do senador demonstra uma trajetória política marcada pelo desprezo às garantias ambientais e aos direitos dos povos originários. Sua militância contra o licenciamento ambiental e sua tentativa de acelerar, a qualquer custo, a liberação para a exploração petrolífera na região costeira amazônica mostram que ele opta por defender interesses econômicos imediatistas, mesmo que isso signifique colocar em risco a vida de comunidades inteiras.

Para nós, essa postura é inadmissível. O petróleo não pode valer mais do que nossas vidas, nossas águas, nossos modos de existência. O senador Davi Alcolumbre, que deveria proteger sua gente e sua terra, atua como instrumento de destruição, empurrando a Amazônia para um caminho de contaminação, conflitos e perda irreparável.

4. Disseminação de ódio e desinformação:

Repudiamos a classe política, incluso Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Davi Alcolumbre, Randolfe Rodrigues, Lucas Barreto, Deputado Inácio, Governador Clécio Luis, Vice-governador Teles Junior, Prefeito Breno Almeida, Câmara de Vereadores do Oiapoque e todos os demais que disseminam, sem pudor, desinformações a população do Estado do Amapá sobre a exploração de petróleo, a criação da Reserva Extrativista Marinha e perseguição e ameaça a vidas das lideranças que se colocam contra esses projetos que violam nossos direitos.

5. NÃO AO PETRÓLEO NA FOZ DO AMAZONAS!

Repudiamos qualquer tentativa de silenciar nossa voz. Exigimos que o Governo Brasileiro suspenda imediatamente qualquer projeto de exploração na região e que o Congresso Nacional respeite nossa autonomia e nossos direitos constitucionais. Não seremos sacrificados em nome do lucro de poucos!

Convocamos todas as organizações indígenas, entidades de direitos humanos e a sociedade brasileira a se somarem a esta luta.

PELA VIDA DOS POVOS INDÍGENAS E PELA PROTEÇÃO DA AMAZÔNIA!

Assinam,
CCPIO

Consequências inescapáveis da chegada do Deserto Verde em Campos dos Goytacazes

Em 2004 fui um dos autores de um capítulo no livro “Conflito social e meio ambiente no estado do Rio de Janeiro” cujo título era “Transgredindo escalas e estabelecendo parcerias inusitadas na luta pela justiça ambiental: o caso da mobilização contra a monocultura de eucalipto no Rio de Janeiro”. O capítulo era essencialmente uma análise das alianças inusitadas ocorridas naquele período para impedir a chegada dos grandes plantios de eucalipto no território campista, tendo unido representantes dos ceramistas, pesquisadores das universidades locais, ambientalistas e dirigentes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).  Na conclusão daquele capítulo, colocamos uma espécie de alerta no sentido de que aquele era um conflito inconcluso e que cedo ou tarde, o espectro do deserto verde iria novamente pairar sobre nossas cabeças.

Eis que agora pouco mais de duas décadas daquela tentativa frustrada de implantar a monocultura de árvores no território de Campos dos Goytacazes, estamos assistindo a uma nova tentativa, agora com o apoio explícito do prefeito Wladimir Garotinho e do seu secretário de Agricultura, Almy Junior.  As informações que me chegam de fontes que conhecem as transações que estão ocorrendo no mercado de terras (a maioria improdutivas) é que milhares de hectares já foram adquiridos por empresários capixabas, e que efetivamente a ideia é transformar o Norte Fluminense em um imenso deserto verde. Assim, ainda que os anúncios bilionários de investimentos sejam irreais, o espectro do deserto verde está realmente mais próximo do que esteve no início do século 21.

Agora, o que não está se mostrando ( e eu irei fazê-lo com a lupa científica nos próximos anos) é que essa tentativa não for tiro com pólvora molhada, o que está se preparando trará amplas consequências sobre o meio ambiente, a saúde humana e até a capacidade de circulação em um BR-101 já sobrecarregada com a falta de duplicação no trecho entre Campos dos Goytacazes (RJ) e Anchieta (ES).

A primeira coisa é que grandes plantios de eucalipto não geram empregos, mas acabam destruindo mais do que criam.  Assim, em uma região que já possui déficit de empregos, a chegada da monocultura de árvores gerará mais desemprego e mais êxodo rural, o que contribuirá para a ampliação das favelas. 

Em segundo lugar, plantios de eucalipto demandam um grande uso de agrotóxicos, principalmente no combate às formigas que encontram nas mudas um amplo pasto. Com isso, viveremos a ampliação do uso de substâncias químicas altamente tóxicas, o que deverá causar mais adoecimento nos trabalhadores e espalhar a contaminação via os corpos hídricos. Como vivemos em um município que já possui um sistema de saúde sobrecarregado por doenças oriundas da monocultura de cana, a perspectiva é que nos próximos anos e décadas assistamos a uma piora do quadro de saúde, sem que haja a devida cobertura  de serviços de saúde.

O que são desertos verdes? | Super

Em terceiro lugar,  monoculturas de árvore em escala industrial, principalmente em ciclos de plantio/colheita altamente velozes, há um aumento na demanda hídrica.  Em especial, o eucalipto demanda muita água para cumprir um processo de crescimento rápido que possa gerar a matéria prima para a produção de celulose que certamente é o alvo da expansão do deserto verde em terras campistas.  Com isso, como já vivemos em uma região em que o fornecimento de água é altamente pressionado, o futuro se desenha como bastante desafiador.

Em quarto lugar, há que se mencionar que certamente o principal comprador das árvores plantadas em Campos dos Goytacazes e municípios vizinhos será a Suzano Papel cuja planta estabelecida em Aracruz (ES) precisa de mais de matéria prima para operar nos níveis de competição que seus acionistas demandam. Com isso, a via de transporte preferencial terá de ser a BR-101, visto que inexiste outra forma de acesso viável, tanto para Aracruz como para as unidades portuárias existentes ou em construção na região.  Com isso, imaginemos o que vai acontecer quando a produção dos eucaliptais começar a ser transportada pela via realmente existente, a BR-101.

'Agora tudo é eucalipto': trabalhadoras rurais denunciam danos ambientais  causados pela Suzano – Brasil de Fato

Um quinto e importante aspecto se refere às pressões sociais em prol da reforma agrária.  A transformação de Campos dos Goytacazes em um deserto verde é também uma forma de impedir que a reforma agrária prospere.  Os últimos anos têm mostrado que uma retomada das ações do MST e de outros movimentos sociais em prol da utilização do grande estoque de terras improdutivas em assentamentos de reforma agrária.  Ao transformar terras improdutivas em mais um deserto verde, as oligarquias agrárias que ainda dominam a política municipal e regional procuram se prevenir contra o “mau exemplo” da agricultura familiar e da produção de alimentos saudáveis.  Por mais contraditório que possa ser, vender as terras por preços aquém do que se poderia obter do governo federal via desapropriações faz sentido, pois a ordem social existente se baseia justamente na desigualdade de acesso à terra, nos campos e nas cidades.

Por isso tudo é que não se pode ignorar os esforços de implantação do deserto verde em Campos dos Goytacazes. É que aqui está se dando mais um capítulo que coloca de frente um para o outro, modelos de sociedade e de desenvolvimento econômico e social.   E uma última nota: como não comemos celulose nem casca de eucalipto,  não deve ser difícil de se estender a urgência da tomada de posição por parte daqueles que não querem ver o deserto verde instalado em Campos dos Goytacazes.

Lei do Juízo Final: cresce resistência à extração de petróleo junto a áreas protegidas     

A duas semanas do leilão que pode trazer efeitos desastrosos à Amazônia, territórios indígenas, Fernando de Noronha e Atol das Rocas, organização vai à Justiça em cinco estados; Ministério Público Federal recomenda a suspensão

Arquipélago de Fernando de Noronha, referência mundial em biodiversidade, está entre as áreas que deverão ser prejudicadas em caso de atividade petrolífera nas proximidades. Foto: CCintra/Wikimedia Commons 

Por Cida de Oliveira

A poucos meses do início da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, o governo leva adiante seu projeto para ampliar no país a exploração de petróleo, causador do aquecimento global e das nefastas alterações do clima em todo o mundo. E vai além em sua sanha, incluindo unidades de conservação e povos indígenas na mira dos impactos diretos e indiretos. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), autarquia ligada ao Ministério das Minas e Energia, marcou para o próximo dia 17 de junho leilão que deve ofertar 172 blocos em todas as regiões do país.

Entre eles, 47 da Foz do Rio Amazonas, com impactos sobre a Amazônia; 17 blocos da Bacia Potiguar, que deverá trazer sérios danos inclusive para o arquipélago de Fernando de Noronha, no litoral de Pernambuco, além do Atol das Rocas, no do Rio Grande do Norte. Mas nesse pacote tem ainda outros seis blocos na Bacia do Parecis, que se estende de Rondônia ao Mato Grosso. Ali o potencial é de agravamento dos ataques aos direitos dos povos indígenas. Aliás, pelo cronograma oficial, essas últimas áreas serão as primeiras na ordem do leilão.

Embates jurídicos

Os prejuízos à biodiversidade e aos povos originários dessas regiões todas, cujos direitos são assegurados em convenção internacional, bem como a ilegalidade do aval governamental ao leilão, constam do conjunto de Ação Civil Pública protocolado na Justiça Federal de quatro estados nesta quarta (28), pelo Instituto Internacional Arayara. Em todas elas a entidade pede a suspensão do certame no dia 17 e a declaração de ilegalidade do aval do governo para o leilão em grande parte dos blocos. Ou seja, sustenta que 68% dos blocos estão sendo oferecidos sem base jurídica legal, já que são autorizadas em documento interministerial que expira no dia seguinte, 18 de junho.

E em cada ação foca na defesa da garantia dos direitos das áreas específicas. No caso da ação referente à Bacia Potiguar, pede a anulação definitiva da licitação desses blocos e o respeito aos pareceres técnicos e normas socioambientais. E aponta estudos que alertam para os altos riscos socioambientais a Fernando de Noronha e Atol das Rocas, áreas reconhecidas internacionalmente por sua biodiversidade.

Os advogados apelam também ao fato de que a exploração petrolífera compromete a resiliência climática do país em plena crise ambiental global. E que os riscos de vazamentos e proliferação de espécies invasoras, como o coral-sol, no Nordeste, representam impactos irreversíveis à biodiversidade e ao turismo da região. São esses ecossistemas de recifes que sustentam atividades econômicas, como a pesca e o turismo sustentável.

Falta de estudos ambientais

“Estamos diante de um possível desastre climático em um paraíso como Fernando de Noronha. A gravidade da situação nos impele a entrar na justiça e solicitar a suspensão imediata da oferta dos 16 blocos da Bacia de Potiguar. A população já está consciente, mobilizada e irá resistir a mais uma tentativa de exploração de petróleo na região”, disse a diretora executiva do Instituto Arayara, Nicole Figueiredo. 

Os esforços do governo, que incluem a pressão sem medidas sobre a direção do Ibama no caso da Foz do Amazonas, ganhou a oposição também do Ministério Público Federal (MPF) no Pará. Nesta terça (27), divulgou recomendação à ANP pela suspensão imediata do leilão. Entre os motivos, a falta de estudos ambientais necessários e de consulta prévia a comunidades locais, conforme convenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a fragilidade da base legal referente ao aval governamental.

No documento, os procuradores oferecem ainda a alternativa de exclusão dos 47 blocos na bacia da foz do Rio Amazonas do certame que está sendo chamado de “leilão do Juízo Final”. Isso porque, segundo eles, 14 blocos na mesma região foram leiloados entre 2013 e 2014, sem jamais ter entrado em atividade. O motivo é que a empresa concessionária não conseguiu demonstrar ser capaz de enfrentar um eventual vazamento de óleo e por isso não obteve o licenciamento para a operação. Caso a recomendação não seja acatada, o MPF tem a prerrogativa de adotar outras medidas mais efetivas que julgar necessárias.

Déjà-vu da gestão bolsonarista

O certame de junho próximo seria uma espécie de remake do leilão realizado em 7 de outubro de 2021. Na época, a ANP amargou o desinteresse das petroleiras pelos blocos, para o alívio de ambientalistas, pescadores e especialistas de organizações que já alertavam para a gravidade dos riscos da exploração nessas mesmas áreas hoje na mira do governo. O resultado foi também uma derrota de Ricardo Salles, então ministro do Meio Ambiente no governo de extrema direita de Jair Bolsonaro. A diferença é que o apoio de Salles à perfuração de poços próximos a Fernando de Noronha e do Atol das Rocas havia sido duramente criticado pelo campo progressista. Mas atualmente muitos desses setores são bem silenciosos em relação à proposta.

A insistência da Agência Nacional do Petróleo em leiloar esses blocos, aliás, é vista por ambientalistas como “erro e equívoco”, já que nenhum deles cumpre os requisitos legais estipulados tanto pelo Brasil como por outros países. A ANP, por sua vez, afirmou que 12 empresas apresentaram declarações de interesse e garantias de oferta para participar do certame.

Ciência e comunidade contra ‘leilão do Juízo Final’

Paralelamente às ações em âmbito da Justiça, o instituto Arayara promove o diálogo com as comunidades locais afetadas. Na noite desta quinta (29), se reuniu com representantes do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em Noronha, ambientalistas, lideranças, empresários e empreendedores. Na pauta, os perigos oferecidos pelo “leilão do Juízo Final” ao arquipélago e ao Atol das Rocas, situado no litoral do Rio Grande do Norte. 

Vinicius Nora, especialista em oceanografia e gerente de operações do Arayara, explicou que as áreas que o governo federal quer entregar para exploração petrolífera estão próximos de zonas de altíssima sensibilidade socioambiental. Ou seja, sobrepostos a ecossistemas de recifes únicos, que abrigam espécies marinhas endêmicas e vulneráveis, fundamentais para o equilíbrio ecológico.

“A exploração de petróleo em uma região reconhecida internacionalmente por sua biodiversidade, destino turístico de brasileiros e estrangeiros, pode resultar em um grande desastre ambiental, com prejuízos tanto para os ecossistemas marinhos quanto para as populações vulneráveis”, destacou Nora.

Por isso, o especialista defende que a comunidade local esteja sempre em diálogo com cientistas. “A ciência está aqui, investindo horas em pesquisas e dialogando com a população para educar, sensibilizar, mobilizar e evitar mais uma tragédia por falta de responsabilidade do poder público”.

Campos dos Goytacazes aparece como nono pior município médio em ranking nacional de progresso social. Quem se surpreende?

Na ultima quarta-feira (28/05), o Imazon publicou a segunda edição do Índice de Progresso Social (IPS) analisa 5.570 municípios com base em indicadores sociais e ambientais, oferecendo um retrato multidimensional do desenvolvimento no Brasil, mas acabei não divulgando porque queria mais tempo para analisar o material.

Em seu site, o Imazon informa que neste caso, Progresso Social foi definido por um grupo de especialistas acadêmicos e sintetizado pelo SPI como “a capacidade da sociedade em satisfazer as necessidades humanas básicas, estabelecer as estruturas que garantam qualidade de vida aos cidadãos e dar oportunidades para que todos os indivíduos possam atingir seu potencial máximo”. Ainda segundo o Imazon, a “partir desse conceito, o IPS Brasil 2025 é formulado com base em 57 indicadores divididos em três dimensões: Necessidades Humanas Básicas; Fundamentos do Bem-Estar e Oportunidades”.

Pois bem, é aí que a porca torce o rabo para o município de Campos dos Goytacazes que, no grupamento relativo a cidades com mais de 500 mil, aparece no nada honroso posto de nono pior entre todos seus congêneres brasileiros (ver imagem abaixo).

Alguém poderá desdenhar do valor atribuído a Campos dos Goytacazes no IPS Brasil 2025, mas a leitura do relatório completo ajuda a entender como é que fomos colocados nesta posição pouco lustrosa.  Basta ver como se calcula os valores de diferentes componentes que compõe o IPS para notar quem a despeito de inevitáveis distorções que qualquer cálculo desta natureza, os números não estão mentindo.

Além disso, por mais distorção que possa haver, conheço algumas das cidades colocadas entre as melhores e já vivenciei diferenças notáveis na condição de vida dos mais pobres que são aqueles que mais sofrem quando necessidade básicas não são resolvidas ou, quando o são, as soluções oferecidas são precárias, como é o caso de Campos dos Goytacazes.

Aliás, é preciso dizer que o mundo dourado (que no caso é feito de muita pirita) que o prefeito Wladimir Garotinho nos presenteia em suas entrevistas não é problema de uma ou duas administrações municipais, mas sim de um longo processo histórico de criação de desigualdades. Mas é lamentável notar que em qualquer índice minimamente sério que se organize, a posição de Campos dos Goytacazes é sempre entre os piores. 

E essa posição se mantém apesar dos bilhões de reais que foram aportados nos cofres municipais desde a promulgação da Lei do Petróleo em 1998 na forma de royalties ou participação especial.  O fato inegável é que boa parte desse dinheiro foi utilizado para reforçar e até aprofundar as desigualdades históricas que colocam de um lado uma minoria de privilegiados e de outro uma maioria que é deixada na pobreza absoluta.

Pelo menos com esse relatório, aqueles que quiserem fazer um debate minimamente sério sobre os desafios em que estamos atolados vão poder ter um instrumento para se orientar, deixando de lado as fanfarronices que cercam as manifestações dos diferentes grupos que se engalfinham para controlar os cofres municipais.

Novo relatório mostra que plantio direto aumenta uso de agrotóxicos e prejudica os solos

História do Plantio Direto no Brasil - Sensix Blog

Por Sustainable Pulse

Um novo relatório da Friends of the Earth refuta que a agricultura industrial de plantio direto seja “regenerativa”. Com base em uma análise inédita de dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), o relatório conclui que a maioria dos sistemas de plantio direto depende tanto de herbicidas para controlar ervas daninhas que um terço do uso anual total de agrotóxicos nos EUA (um termo que inclui herbicidas, inseticidas e fungicidas) pode ser atribuído apenas à produção de milho e soja transgênicos de plantio direto e mínimo.

A agricultura intensiva no uso de produtos químicos predomina nos EUA não por culpa dos agricultores, mas porque é isso que as políticas públicas e os mercados apoiam. Os agricultores adotaram amplamente o plantio direto para minimizar a erosão do solo e agora precisam de apoio para também reduzir o uso de agrotóxicos.

O relatório constata que a grande maioria (93%) da área cultivada com as duas principais culturas de plantio direto e mínimo, milho e soja, utiliza altos níveis de herbicidas, com consequências devastadoras para a vida do solo e a saúde humana. Esses produtos químicos, disseminados por quase 40 milhões de hectares em todo o país, predominantemente nas regiões do Coração da Terra e das Grandes Planícies, têm sido associados a câncer, defeitos congênitos, infertilidade, neurotoxicidade, perturbação do microbioma intestinal, desregulação endócrina e muito mais. A maioria (61%) do uso é de produtos químicos classificados como altamente perigosos. O glifosato, o principal ingrediente do herbicida Roundup, amplamente criticado e associado ao câncer, é o herbicida mais utilizado no plantio direto de milho e soja.

O custo do plantio direto com uso intensivo de agrotóxicos vai além dos impactos à nossa saúde: ele também destrói o solo onde nossos alimentos são cultivados. Os pesticidas amplamente utilizados no plantio direto industrial devastam a saúde do solo, prejudicando o microbioma e invertebrados  como minhocas e besouros, bem como polinizadores essenciais e outros animais selvagens. Solos saudáveis ​​e vivos aumentam a resiliência dos agricultores a secas e inundações, conservam água e extraem mais carbono da atmosfera. O solo devastado por agrotóxicos, por outro lado, ameaça os recursos necessários para um sistema alimentar saudável.

O relatório desmascara a falsa suposição de que o plantio direto industrial é uma solução climática, resumindo extensas pesquisas científicas que demonstram não haver uma relação clara entre o plantio direto industrial e o sequestro de carbono no solo. E as emissões de gases de efeito estufa associadas aos pesticidas e fertilizantes sintéticos à base de combustíveis fósseis usados ​​no plantio direto e mínimo de milho e soja são equivalentes às de 11,4 milhões de carros nas ruas ao longo de um ano inteiro — aproximadamente o número de carros nos 9 estados com maior índice de plantio direto combinados.

“À medida que a agricultura regenerativa ganha destaque nas discussões nacionais sobre como tornar os Estados Unidos mais saudáveis, é crucial que promovamos uma agricultura verdadeiramente regenerativa”, disse a Dra. Kendra Klein, Diretora Adjunta de Ciência da Friends of the Earth. “O plantio direto, impregnado de agrotóxicos que ameaçam a saúde de nossas crianças, destroem o solo e agravam as mudanças climáticas, está nos levando na direção errada.”

A ascensão do plantio direto industrial está ligada à tentativa da indústria química de aprofundar a dependência dos agricultores em relação aos seus produtos tóxicos. Empresas químicas como a Imperial Chemical Industries e a Chevron realizaram experimentos com plantio direto e ajudaram a disseminar o conceito de plantio direto industrial na década de 1970, reconhecendo-o como uma oportunidade para expandir o mercado para seus herbicidas.

“As grandes empresas alimentícias que investem em agricultura regenerativa precisam evitar o plantio direto industrial esverdeado e, em vez disso, apoiar a transição para uma agricultura legítima e regenerativa que protegerá e melhorará a saúde do solo, a saúde humana — e seus lucros futuros”, disse Sarah Starman, ativista sênior de alimentos e agricultura da Friends of the Earth.

A agricultura verdadeiramente regenerativa não pode ser reduzida a práticas isoladas; ela atua em todo o sistema agrícola. Um princípio fundamental da agricultura verdadeiramente regenerativa é a redução drástica de agroquímicos nocivos. Pesquisas mostram que a redução do uso de pesticidas e fertilizantes sintéticos na agricultura convencional não só é possível, como também pode aumentar a produtividade, promovendo insetos benéficos e solos saudáveis, e aumentar a lucratividade, reduzindo os custos dos insumos agrícolas.

Principais descobertas

  • Pelo menos 93% das áreas de milho e soja com plantio direto e plantio mínimo nos EUA usam herbicidas sintéticos, representando uma área do tamanho da Califórnia (99,5 milhões de acres).
  • O uso de herbicidas no plantio direto industrial de milho e soja pode estar associado a 33% do uso anual total de agrotóxicos nos EUA — 129 milhões de um total de 386 milhões de kilos de agrotóxicos.
  • A maior parte do uso (61%) é de herbicidas classificados como altamente perigosos para a saúde humana e/ou o meio ambiente — 78,5 milhões de kilos.
  • Estima-se que o glifosato seja responsável por cerca de 40% do uso total de herbicidas em milho e soja de plantio direto.
  • Pelo menos 11,8 milhões de kilos de herbicidas adicionais são usados ​​anualmente devido ao manejo de plantio direto ou mínimo em milho e soja.
  • Pelo menos 89% dos hectares industriais de milho e soja com plantio direto ou mínimo dependem de sementes geneticamente modificadas para serem tolerantes a herbicidas.
  • Revestimentos de sementes neonicotinoides são usados ​​em até 100% da área de milho convencional sem plantio direto.
  • Insumos baseados em combustíveis fósseis para cultivo industrial de milho e soja com plantio direto ou mínimo, na forma de pesticidas e fertilizantes sintéticos, podem ser associados a ~49,3 milhões de toneladas métricas de emissões equivalentes de CO2.
  • A produção industrial sem plantio direto não aumenta o carbono do solo e, em alguns casos, pode reduzi-lo.

Fonte: Sustainable Pulse

O que aconteceria se a floresta amazônica secasse? Um experimento de décadas tem algumas respostas

What would happen if the Amazon rainforest dried out? This decades-long  experiment has some answers

Por Fabiano Maisonnave para a Associated Press

Floresta Nacional de Caxiuanã— A uma curta caminhada sob a densa cobertura vegetal da Amazônia, a floresta se abre abruptamente. Troncos caídos apodrecem, as árvores ficam mais esparsas e a temperatura sobe nos pontos onde a luz solar atinge o solo. É assim que se apresentam 24 anos de seca severa na maior floresta tropical do mundo.

Mas este pedaço de floresta degradada, do tamanho de um campo de futebol, é um experimento científico. Lançado em 2000 por cientistas brasileiros e britânicos, o Esecaflor — abreviação de “Projeto de Estudo da Seca Florestal” em português — propôs-se a simular um futuro em que as mudanças climáticas poderiam esgotar as chuvas na Amazônia. É o projeto do gênero mais antigo do mundo e se tornou fonte de dezenas de artigos acadêmicos em áreas que vão da meteorologia à ecologia e fisiologia.

Entender como a seca pode afetar a Amazônia, uma área duas vezes maior que a Índia e que abrange vários países da América do Sul, tem implicações que vão muito além da região. A floresta tropical armazena uma quantidade enorme de dióxido de carbono, um gás de efeito estufa que é o principal responsável pelas mudanças climáticas. De acordo com um estudo , a Amazônia armazena o equivalente a dois anos de emissões globais de carbono, provenientes principalmente da queima de carvão, petróleo e gasolina. Quando as árvores são cortadas ou murcham e morrem devido à seca, elas liberam na atmosfera o carbono que estavam armazenando, o que acelera o aquecimento global.

Criando condições de seca e observando os resultados

O pesquisador da Universidade de Exeter, Mateus Cardoso Silva, trabalha na floresta do projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

O pesquisador da Universidade de Exeter, Mateus Cardoso Silva, trabalha na floresta do projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

Para simular o estresse causado pela seca, o projeto, localizado na Floresta Nacional de Caxiuanã , instalou cerca de 6.000 painéis retangulares de plástico transparente em um hectare (2,5 acres), desviando cerca de 50% da chuva do solo da floresta. Eles foram instalados a 1 metro acima do solo (3,3 pés) nas laterais e a 4 metros (13,1 pés) acima do solo no centro. A água foi canalizada para calhas e canalizada através de valas cavadas ao redor do perímetro do terreno.

Ao lado, uma parcela idêntica foi deixada intocada para servir de controle. Em ambas as áreas, instrumentos foram fixados em árvores, colocados no solo e enterrados para medir a umidade do solo, a temperatura do ar, o crescimento das árvores, o fluxo de seiva e o desenvolvimento das raízes, entre outros dados. Duas torres metálicas ficam acima de cada parcela.

A cobertura esparsa de árvores é visível na área do projeto Esecaflor, criado para simular uma seca na Floresta Nacional de Caxiuana, no estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

A cobertura esparsa de árvores é visível na área do projeto Esecaflor, criado para simular uma seca na Floresta Nacional de Caxiuana, no estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

A densidade florestal natural é visível na área de controle do projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

A densidade florestal natural é visível na área de controle do projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

Em cada torre, radares da NASA medem a quantidade de água presente nas plantas, o que ajuda os pesquisadores a entender o estresse geral da floresta. Os dados são enviados ao Laboratório de Propulsão a Jato da agência espacial, na Califórnia, onde são processados.

“A floresta inicialmente parecia resistente à seca”, disse Lucy Rowland, professora de ecologia na Universidade de Exeter.

No entanto, isso começou a mudar cerca de 8 anos depois. “Observamos um declínio realmente grande na biomassa, grandes perdas e mortalidade das árvores maiores”, disse Rowland.

Isso resultou na perda de aproximadamente 40% do peso total da vegetação e do carbono armazenado nela. As principais descobertas foram detalhadas em um estudo publicado em maio na revista Nature Ecology & Evolution. O estudo mostra que, durante os anos de perda de vegetação, a floresta tropical passou de um sumidouro de carbono, ou seja, um armazenador de dióxido de carbono, a um emissor de carbono, antes de finalmente se estabilizar.

Houve uma boa notícia: a seca que durou décadas não transformou a floresta tropical em uma savana, ou grande planície gramada, como estudos anteriores baseados em modelos haviam previsto.

Os próximos passos incluem a medição da recuperação florestal

João de Athaydes, meteorologista, mostra parte dos painéis plásticos instalados para simular o estresse causado pela seca, no projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (AP Photo/Jorge Saenz)

João de Athaydes, meteorologista, mostra parte dos painéis plásticos instalados para simular o estresse causado pela seca, no projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (AP Photo/Jorge Saenz)

Em novembro, a maioria das 6.000 coberturas plásticas transparentes foi removida, e agora os cientistas estão observando como a floresta muda. Atualmente, não há uma data para o término do projeto.

“A floresta já se adaptou. Agora queremos entender o que acontece a seguir”, disse o meteorologista João de Athaydes, vice-coordenador do Esecaflor, professor da Universidade Federal do Pará e coautor do estudo da Nature. “A ideia é ver se a floresta consegue se regenerar e retornar ao estado inicial de quando iniciamos o projeto.”

Durante uma visita em abril, Athaydes guiou jornalistas da Associated Press pelo local, que abrigava muitos pesquisadores. A área era tão remota que a maioria dos pesquisadores havia enfrentado uma viagem de barco de um dia inteiro partindo da cidade de Belém, que sediará as próximas negociações climáticas anuais da ONU ainda este ano. Durante os dias em campo, os cientistas se hospedaram na Base Científica Ferreira Penna do Museu Emílio Goeldi, a algumas centenas de metros dos lotes.

O pesquisador João Paulo analisa a umidade das folhas de uma árvore como parte do projeto Esecaflor na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

O pesquisador João Paulo analisa a umidade das folhas de uma árvore como parte do projeto Esecaflor na Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

O pesquisador João Paulo analisa a umidade das folhas de uma árvore como parte do projeto Esecaflor na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

O pesquisador João Paulo analisa a umidade das folhas de uma árvore como parte do projeto Esecaflor na Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

Quatro equipes estavam trabalhando. Uma coletou amostras de solo para medir o crescimento das raízes na camada superior. Outra coletou dados meteorológicos e monitorou a temperatura e a umidade do solo. Uma terceira mediu a umidade da vegetação e o fluxo de seiva. A quarta se concentrou na fisiologia vegetal.

“Sabemos muito pouco sobre como a seca influencia os processos do solo”, disse a ecologista Rachel Selman, pesquisadora da Universidade de Edimburgo e uma das coautoras do estudo da Nature, durante um intervalo.

A simulação de seca da Esecaflor traça alguns paralelos com os últimos dois anos, quando grande parte da floresta amazônica, sob a influência do El Niño e o impacto das mudanças climáticas, sofreu seus períodos de seca mais severos já registrados. As consequências devastadoras variaram da morte de dezenas de botos devido ao aquecimento e ao recuo das águas a vastos incêndios florestais em áreas de vegetação nativa.

O pesquisador Ari Miranda Gomes coleta seiva de uma árvore no projeto Esecaflor, onde cientistas simulam a seca para entender como a floresta tropical pode responder a um futuro mais seco, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

O pesquisador Ari Miranda Gomes coleta seiva de uma árvore no projeto Esecaflor, onde cientistas simulam a seca para entender como a floresta tropical pode responder a um futuro mais seco, na Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

Rowland explicou que o recente El Niño trouxe impactos intensos e de curto prazo para a Amazônia, não apenas pela redução das chuvas, mas também por picos de temperatura e déficit de pressão de vapor, uma medida do quão seco o ar está. Em contraste, o experimento Esecaflor se concentrou apenas na manipulação da umidade do solo para estudar os efeitos de mudanças de longo prazo na precipitação.

“Mas, em ambos os casos, estamos vendo uma perda da capacidade da floresta de absorver carbono”, disse ela. “Em vez disso, o carbono está sendo liberado de volta para a atmosfera, juntamente com a perda da cobertura florestal.”

Ambientalistas caminham pela Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, perto do projeto Esecaflor, onde cientistas simulam a seca para entender como a floresta tropical pode responder a um futuro mais seco no sábado, 22 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

Ambientalistas caminham pela Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, perto do projeto Esecaflor, onde cientistas simulam a seca para entender como a floresta tropical pode responder a um futuro mais seco no sábado, 22 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)


Fonte: Associated Press

Alerta a Wladimir Garotinho: eucalipto adora água e gera desertos verdes

Mudanças na esfera familiar: notas sobre eucalipto e mulheres em Mato  Grosso do Sul | Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Das duas uma: ou o prefeito Wladimir Garotinho está mal informado sobre as consequências nefastas da monocultura de eucalipto ou ele não se importa.  Mas independente da resposta, eu precisa levar em conta que não para combinar o discurso de que é preciso reclassificar o clima regional para “sem-árido” e ficar apoiando em público a transformação de parte do território campista em um deserto verde.  A conta simplesmente não fecha. 

Por outro lado, já me chegaram notícias do aumento de casos de intoxicação por contato com agrotóxicos na região próxima do Distrito de Travessão onde estão sendo implantados alguns desses empreendimentos de monoculturas de árvores.  

Esse aumento de casos, principalmente de trabalhadores rurais que manejam equipamentos que aplicam agrotóxicos nos plantios de eucalipto, será seguido pelo aumento de casos por ingestão crônica de agrotóxicos, visto que parte dos venenos utilizados nos plantios em grande escala de árvores migra rapidamente para os corpos aquáticos.

Por outro lado, conflitos sociais têm aparecido nas novas fronteiras do deserto verde que estão aparecendo no Brasil, visto que há um deslocamento inevitável de comunidades que ocorre na medida em que os plantios de eucalipto avançam no território.

Assim, se o prefeito Wladimir Garotinho considera uma boa transformar parte de município em um deserto verde e com grande potencial de contaminação, há que se dizer que essa é uma péssima ideia.  Assim, nem tudo o que “acontece” é desejável ou necessário.

Finalmente, acho interessante que se prepare melhor as unidades hospitalares existentes no município para que identifique e trate os contaminados pelo trabalho nos eucaliptais. 

El País mostra resistência de agricultores familiares aos impactos socioambientais do Porto do Açu

O Sr. Walter e sua neta Kevem no Acampamento de Resistência contra o megaprojeto do porto do Açu, no Brasil.

A infraestrutura, em operação desde 2014, afeta agricultores e pescadores artesanais da região, que foram deslocados para sua construção. Também levou à redução das áreas de pesca, ao aumento da erosão e à destruição dos ecossistemas costeiros.

Por Pablo Vergara de São João da Barra (Brasil) para o El País

Os chamados “Povos da Areia”, que por 150 anos habitaram a Restinga, um ecossistema costeiro com características arenosas e salinas no litoral leste do Brasil, praticam uma agricultura enraizada em conhecimentos ancestrais com técnicas agrícolas adaptadas aos solos arenosos. É um modo de vida ameaçado pela expansão do Porto do Açu, maior complexo portuário e industrial privado da América Latina, localizado ao norte do Rio de Janeiro, no município de São João da Barra. Na fotografia, tirada em dezembro de 2024, uma casa no Bairro V de Água Preta, em São João da Barra. Pablo Vergara

Os impactos sociais e ambientais da construção do porto do Açu afetaram severamente os agricultores e pescadores artesanais da região. Mais de 400 agricultores foram expropriados diretamente sem indenização justa, conforme documentado por vários veículos de comunicação brasileiros nos últimos anos, levando à violência e agitação social. A Defensoria Pública informa que apenas 10% dos afetados receberam indenização. O processo está em litígio desde 2010, quando as desapropriações começaram. Este jornal entrou em contato com a assessoria de imprensa da PRUMO Logística, empresa que coordena as operações no porto do Açu, mas não obteve resposta. Nesta imagem, tirada em dezembro de 2024, Sadir Toledo Almeida, 102, e sua filha Leia, 63, de Água Preta, São João da Barra, que sofreram os impactos do megaporto. Pablo Vergara 

Retrato de família da família Toledo-Almeida, moradores do bairro Água Preta V, em São João da Barra, em imagem de setembro de 2023. Esta família foi expropriada de suas terras depois que o porto foi construído e colocado em operação. O deslocamento forçado teve consequências graves, arrancando-os de suas terras, plantações e herança cultural.

Retrato de família da família Toledo-Almeida, moradores do bairro Água Preta V, em São João da Barra, em imagem de setembro de 2023. Esta família foi expropriada de suas terras depois que o porto foi construído e colocado em operação. O deslocamento forçado teve consequências graves, arrancando-os de suas terras, plantações e herança cultural. Pablo Vergara


Fonte: El País

Vozes Silenciadas – Energias Renováveis: como a mídia encobre as injustiças sociais na transição energética

Por Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social

2023 foi o ano mais quente da história do planeta, segundo dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM). No Brasil, a média das temperaturas do ano ficou em 24,92°C, ou seja, 0,69°C acima da média histórica de 1991-2020, que é de 24,23°C.[1] A chamada crise climática é estruturada e acelerada por um modelo socioeconômico capitalista, baseado no racismo ambiental, na apropriação privada, na mercantilização e na exploração desmedida da água, do solo e dos demais bens comuns. Suas raízes históricas remontam ao colonialismo e às relações de poder e opressão do Norte sobre o Sul Global.

Baixe aqui a publicação.

Fato é que, nos últimos anos, o tema tomou conta da agenda da população brasileira, sendo assunto constante nas redes sociais, na mídia tradicional e na vida cotidiana. Seja em decorrência de eventos ambientais adversos e trágicos, como secas, enchentes e queimadas, seja por força de declarações de figuras públicas, expressões e categorias como “crise climática”, “energias verdes”, “energias renováveis” e “transição energética” circulam cada vez mais no debate público.

Nesse contexto, o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, a partir do diálogo com movimentos sociais, pesquisadoras/es, ativistas e grupos diretamente impactados pelos conflitos decorrentes dessa conjuntura – dentre eles pescadoras/es, agricultoras/es e Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs) – se lançou ao desafio de analisar a cobertura de veículos jornalísticos da mídia com alcance nacional e local acerca dos empreendimentos em solo brasileiro vinculados às ditas “energias limpas”.

A pesquisa faz parte da série Vozes Silenciadas, em que o Intervozes analisa a cobertura da mídia sobre temas que impactam os direitos da população brasileira. Este é o sétimo volume da série, que já tematizou: a criminalização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em 2011; as jornadas de manifestações de junho de 2013; a reforma da previdência do governo Bolsonaro (2019); a tragédia provocada pelo crime de derramamento de petróleo na costa brasileira (2020); os direitos sexuais e reprodutivos, com foco no aborto (2023); e as leis de cotas para acesso ao ensino superior no país (2024). Todos os volumes da série estão disponíveis gratuitamente no site do Intervozes.[2]

Próximo de sediar a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 30), em 2025, e assumindo compromissos internacionais e um papel estratégico na economia global como sede do G20, o Brasil vem se colocando como protagonista na chamada transição energética, imprimindo ritmo acelerado à implantação de megaprojetos de energia renovável e lançando as bases de políticas de compromisso que alegam enfrentar a chamada crise climática.

Tais políticas, entretanto, têm se mostrado insuficientes no enfrentamento das raízes profundas de um cenário de injustiça socioambiental marcante, atuando mais como esforços retóricos e sinalização ao mercado (numa estratégia de greenwashing) do que, propriamente, apresentando soluções justas, eficazes e que respeitem os biomas e a autonomia dos povos sobre seus territórios.

Nós, do Intervozes, esperamos que este olhar sobre como as mídias corporativa e pública têm se colocado no debate como ator estratégico que é, ajude no fortalecimento da luta de quem, a partir dos territórios, nos presta valiosas lições de como habitar muitos mundos em coerência e em defesa da biodiversidade e do bem viver.

Que esta pesquisa alimente discussões e buscas de soluções a partir de perspectivas diversas e críticas, fortalecendo as lutas no Brasil, na América Latina e mundo afora, ajudando a transformar as angústias necessárias em férteis esperançares.

Boa leitura!

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Fonte: Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social