JBS, maior empresa de carnes do mundo, não irá cumprir promessa de conter o desmatamento

A pecuária é a principal causa do desmatamento. Múltiplos problemas para atingir as metas de desmatamento zero

“Enquanto a JBS lucra, as florestas queimam”, protesto do Greenpeace contra a empresa de carnes JBS
Por Ulrike Bickel para o Amerika21

Brasília.A empresa de carnes JBS S.A. provavelmente não conseguirá cumprir sua meta de adquirir carne bovina na Amazônia apenas de origem livre de desmatamento até o final de 2025.

Isso é de acordo com um novo estudo do The Guardian, Unearthed e Repórter Brasil. Aqui, mais de 35 insiders revelam dúvidas de que a JBS seja capaz de atingir suas metas de desmatamento zero. Os fazendeiros e líderes sindicais entrevistados representam milhares de fazendas nos estados do Pará e Rondônia, que foram responsáveis por 66% do desmatamento na Amazônia desde 1988.

O desmatamento para a pecuária para produção de carne bovina é a principal causa do desmatamento na Amazônia. Os cientistas há muito alertam que a destruição da floresta está levando a região a um ponto de inflexão, transformando o pulmão verde da Terra de um sumidouro de carbono em um emissor de CO2.

A corporação global JBS tem capacidade para abater 76.000 bovinos, 14 milhões de frangos e 142.000 suínos todos os dias. O grupo fornece empresas como McDonald’s, Tesco e Walmart, alcançou vendas anuais de 77 bilhões de dólares em 2024 e atualmente planeja estar na lista de ações na Bolsa de Valores de Nova York.

De acordo com os sindicatos de agricultores entrevistados, agricultores e seus clientes, a JBS, assim como os pecuaristas, tem a vontade de que o gado seja proveniente apenas de uma produção livre de desmatamento. Mas a meta é inatingível devido a inúmeros conflitos de terra não resolvidos.

O problema da “lavagem ilegal de gado” (ou seja, rotulagem fraudulenta de gado de neuroesterco como “livre de desmatamento”) também não pôde ser resolvido a tempo. Os fornecedores indiretos, por exemplo, admitiram “limpar” a origem ecológica problemática de seus rebanhos por meio de intermediários. Vários produtores previram que um novo sistema de rastreabilidade também abriria brechas, como o abate em outros locais e a venda da carne – em vez de gado vivo – para a JBS a preços mais baixos.

A JBS negou os resultados da pesquisa ao The Guardian. Nenhuma conclusão pode ser tirada de uma amostra limitada, pois a JBS possui mais de 40.000 fornecedores registrados. Embora os desafios sejam imensos e não possam ser resolvidos apenas por empresas individuais, a JBS possui um sólido pacote de políticas integradas que podem reduzir de forma significativa e positiva os riscos de desmatamento. A JBS ainda não finalizou sua cadeia de suprimentos, mas já registrou mais de 80% de suas compras anuais de gado em uma plataforma web de pecuária transparente e habilitada para blockchain.

De acordo com Adelosmar “Ticão” Orio, do Sindicato dos Produtores Rurais de Tucumã-Ourilãndia, desafios logísticos, como a necessidade de equipamentos especiais, como rastreadores auriculares e sistemas via satélite, impossibilitaram o cumprimento da promessa da JBS até o final do ano. Nem mesmo a JBS sabe como a rastreabilidade deve ser implementada.

Os pequenos e médios criadores de gado estão arcando com a maior parte do fardo, enquanto a JBS e o governo não estão fazendo o suficiente para explicar o novo sistema de rastreamento e fornecer suporte tecnológico. O governador do Pará, Helder Barbalho, admitiu que houve resistência e que os pequenos produtores em particular precisavam de mais apoio.

A procuradora-geral de Nova York, Letitia James, entrou com uma ação em 2024 acusando a JBS de enganar os consumidores com “metas climáticas” para aumentar as vendas.

Em 2022, a organização indígena Apib processou uma rede de supermercados francesa que vendia carne da JBS.

Um grupo bipartidário de 15 senadores dos EUA pediu à Comissão de Valores Mobiliários (SEC) que rejeite o pedido de listagem da JBS. De acordo com uma carta aberta de 2024, dezenas de reportagens jornalísticas e de ONGs mostraram que a JBS está associada a mais destruição de florestas e outros ecossistemas do que qualquer outra empresa no Brasil.


Fonte: Amerika21

CNPq acaba de atingir um iceberg: o mundo dos CVs Lattes turbinados por trash science

Uma matéria assinada pela jornalista Ana Botallo e publicada pelo jornal Folha de São Paulo abordou hoje algo do qual este blog já vem sendo ocupando desde a sua criação, qual seja, o desvirtuamento do processo de publicação científica que acaba de atingir o quase sagrado Curriculo Lattes. 

Segundo a matéria apenas em 2024, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) recebeu recebeu 101 denúncias por irregularidade, fraude, plágio ou outros problemas éticos envolvendo pesquisadores que têm seus currículos cadastrados no país. A matéria informa que a metodologia atual de análise de dados foi implementada em 2024, quando houve uma mudança na gestão da área técnica responsável. Em 2023, foram 37 denúncias recebidas, mas segundo o órgão os números não são comparáveis, pois o ano anterior não contabilizou as denúncias recebidas pela plataforma Fala.Br.

Dessas 101 denúncias, o setor responsável pelas apurações constatou que pelo menos 44 currículos tinham inconsistências que puderem ser corrigidas por serem, digamos, erros clericais. No entanto, 10 pesquisadores tiveram o seu Lattes bloqueado, enquanto 3 tiveram a denúncia transformada em procedente, com a suspensão temporária da bolsa até a resolução do objeto da denúncia.

Débora Menezes, diretora de Análise de Resultados e Soluções Digitais do CNPq, fez questão de mencionar que o órgão não teria poder policial para, digamos, investigar mais amplamente a situação, especialmente porque o volume de atualizações torna isso praticamente inviável. Como eu já ouvi esse argumento antes, eu diria que talvez tenha chegado a hora do CNPq e de outras agências de fomento tomarem a situação com a seriedade com que ela merece, ainda que não precisem agir como forças policiais.

Ao contrário do que afirmou, a diretora de Análise de Resultados e Soluções Digitais do CNPq, não creio que estejamos vivenciando poucos casos de ” dois, três pesquisadores que ‘conhecem o caminho das pedras’, sabem como aumentar [o número] de publicações, enganar pareceristas”.  Me parece que a situação é muito mais amplamente disseminada, e o que acontece é que os pesquisadores dispostos a denunciar os malfeitos de seus pares é que são poucos. O fato é que as aludidas 101 denúncias são apenas a ponte de um iceberg gigante que tem flutuado não dentro de águas oceânicas, mas diante de nossos olhos.  Essa situação decorre de apoios explícitos (outros nem tanto) a que se aumente a produção científica como forma de mostrar um nível de produtividade que não tem se transformado em qualidade, muito pelo contrário.

Ao fato de que as agências de fomento, não apenas as brasileiras, optaram por premiar os pesquisadores com mais publicações, a despeito da qualidade duvidosa dela, se somou o surgimento de uma indústria marrom das publicações científicas sob a capa da regra dourada do acesso aberto. Com isso, qualquer um que se disponha a pagar os chamados APCs (author publication charges) poderia, assim por se dizer, investir e colher os frutos desejados, seja na forma de bolsas de pesquisa ou no financiamento de projetos de pesquisa de qualidade altamente duvidosa, muitas vezes falsificada e adulterada pelo uso de Inteligência Artificial (IA). O que começou na forma da chamada “Salami Science” se transformou em uma complexa indústria em que se compram citações e co-autorias, como já abordei em diversas publicações anteriores aqui neste blog.

A questão agora é sobre o que os dirigentes das nossas agências de fomento irão fazer para estabelecer novos mecanismos de premiação que coloquem a qualidade da produção científica acima da quantidade. É que essa mudança não for feita, o pouco investimento que se faz em ciência e tecnologia no Brasil irá pelo ralo, premiando uma quantidade crescente de publicadores hiperprolíficos cujo peso científico no cenário internacional é, no mínimo, irrelevante. Como somos um país que necessita urgentemente de produzir ciência que auxilie o processo de desenvolvimento nacional.  Assim, não fazer nada para reverter o curso da situação não pode ser um opção.

Finalmente, me parece urgente que as universidades e institutos de pesquisa que ainda não possuam comitês de integridade da pesquisa (quantos será que já estabeleceram esse mecanismo?), os criem de forma urgente. É que o dever e a obrigação de garantir que não se está disseminando lixo científico como se fosse ciência tem que começar dentro das unidades em que os pesquisadores estão lotados.   E eu ainda digo mais, se não forem criados espontaneamente, que o Ministério de Ciência e Tecnologia determine a obrigatoriedade da criação como condição “sine qua non” para o recebimento de verbas federais para pesquisa.  O quanto antes, melhor.

UFRJ enfrenta precarização e sucateamento, uma antessala da privatização


Já que Lula parece querer emular XiJiping uma sugestão:  que tal adotar a via chinesa de financiamento público das universidades?

O governo do presidente Lula vive emulando uma via chinesa para o futuro do Brasil,  afinal a China é o exemplo perfeito para países do Sul Global. Afinal, a China passou em menos de cinco décadas de um país econômica e socialmente atrasada para se tornar virtualmente a principal potência mundial.  Mas o que pouco se diz é que a raiz do sucesso óbvio dos chineses residiu em uma fórmula que rejeitou as reformas neoliberais impostas pelo Consenso de Washington, enquanto apostava no desenvolvimento das capacidades produtivas do país, incluindo um forte investimento em seu setor público, as universidades inclusas.

Enquanto isso, o Brasil vem apostando em um processo de aprofundamento de sua condição de país dependente, com a reprimarização da sua base produtiva, e a redução firme e continuada da capacidade de investimento público. No meio desse caminho fica claro o abandono do investimento no desenvolvimento científico e tecnológico, principalmente nas universidades públicas.

Na semana que passou tivemos acesso à situação desesperadora em que se encontra a maior universidade federal brasileiro, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Como sou egresso da UFRJ, tendo ali cursado graduação e mestrado, saber da situação praticamente falimentar da UFRJ gera um misto de raiva e inconformismo. É que com um orçamento que mal dá para manter o básico funcionando, a principal universidade brasileira tem setores inteiros (a Escola de Educação Física é o pior exemplo) completamente sucateados com prédios que simplesmente correm o risco de implodir.

Por outro lado, a resposta da reitoria da UFRJ exemplifica o risco que graça subjacente ao abandono e ao sucateamento, que é a privatização. A fórmula de deixar apodrecer bens públicos para depois entregá-los de bandeja para a iniciativa privada é manjada, mas muito eficiente. Com o próprio reitor, Roberto Medronho, “convocando” a iniciativa privada a (sic!) investir na UFRJ, não fica dífícil prever que o risco de que a universidade seja entregue para alguma empresa (de preferência multinacional) não é desprezível. Afinal de contas, quem paga a banda, escolhe a música. E Medronho está claramente dizendo isso, enquanto deixa de cobrar o devido investimento do governo Lula.

Mas alguém poderá lembrar que o presidente Lula esteve recentemente em Campos dos Goytacazes para inaugurar o novo prédio do campus local da Universidade Federal Fluminense (UFF). O problema é que não apenas a entrega dessa obra não representa nenhuma tendência de mudança nos investimentos estruturais, como não reflete sequer a situação geração da própria UFF que possui outras tantas obras inconclusas, e com um decaimento orçamentário igual ou pior do que o experimentado pela UFRJ.

O fato é que com o “novo teto de gastos” proposto pelo próprio presidente Lula que mantém a alocação preferencial de mais da metade do orçamento federal para o pagamento de juros da dívida pública, não há como esperar que haja o necessário investimento nas universidades públicas que são responsáveis por gerar mais de 90% da pesquisa científica realizada no Brasil.

Com isso, uma garantia: mantido o cenário descrito acima, o Brasil continuará importando tecnologia chinesa e vendendo soja para a China. E não é difícil saber quem vai sair ganhando ou perdendo nessa troca.

A chance de aliança Wladimir e Rodrigo está para cabeça de bacalhau: até existe, mas é difícil de se ver

Por Douglas Barreto da Mata

Há uma diferença crucial entre as duas grandes forças políticas do interior desse Estado, e talvez do estado inteiro, a saber, os Bacelar e os Garotinho, cada qual representada nos filhos que ocupam a presidência da Alerj e a prefeitura de Campos dos Goytacazes, respectivamente. 

Enquanto a família Garotinho sempre foi um grupo dedicado a comandar poderes executivos, tendo ocupado o palácio Guanabara com o patriarca e a matriarca da família, os Bacelar sempre estiveram na condição de oposição, com um breve intervalo no governo Alexandre Mocaiber, quando o patriarca dos Bacelar foi presidente da Câmara Municipal.  Porém, dizem os analistas políticos que mesmo naquela condição, o temperamento explosivo e inquieto revelava um relacionamento conturbado com o chefe do executivo de então, e não raro, o aliado parecia opositor.

Esse traço foi transferido ao DNA político do atual presidente da Alerj, e quem observa sua trajetória junto ao governador, de quem é aliado, pode dizer que, às vezes, parece que o deputado é o mais ferrenho opositor do governador.  Não tenho dúvidas, ou seja, mesmo quando está na situação, a família Bacelar age como se fosse de oposição.

Não vai aqui uma crítica, mas uma constatação, esse é o estilo, a expertise deles, e claro, há momentos que esse modus operandi funciona, outras vezes, não.  As circunstâncias atuais demonstram que o eleitor anda meio cansado de extremos ou de comportamentos muito extravagantes.  Vejam o apoio popular à tese da anistia dos presos e condenados pelo 08 de janeiro.

Os efeitos nefastos da gestão de Donald Trump, que age como um demolidor, uma catástrofe natural, também têm afastado o eleitor conservador desse tipo de conduta espalhafatosa e imprevisível.  Há outros sinais de que a densidade eleitoral dos que apelam para gestos extremados, ou radicais, de ambos os espectros, direita ou esquerda, estão fadados ao fracasso.  Nesse ambiente, o jeito político de Rodrigo tende a sofrer mais. 

Em Campos dos Goytacazes a história recente mostra que o grupo Bacelar não avançou muito, seja na eleição para prefeito, seja na Câmara, é certo dizer que saíram menores que e entraram.  Falando de forma pragmática, a intensa oposição que o grupo Bacelar fez ao prefeito Wladimir não sugere que uma aliança com ele estivesse na agenda de Rodrigo.  Se estava, ele fez de tudo para que acreditássemos no contrário.  Certas feridas demoram mais para cicatrizar.

Olhando para frente, com a federação União Progressista, é certo que Rodrigo Bacelar foi o principal beneficiado, já que não há forças políticas estaduais com força para se oporem a ele.  O líder do PP, Dr Luizinho está recuado por causa da vinculação de seu nome ao escândalo dos transplantes.  Luizinho sabe que qualquer exposição ou movimento mais importante, da parte dele, vai fazer ressurgir a história. Washington Reis está impedido de concorrer por condenação transitada em julgado de órgão colegiado.  Por fora, o PL, de Flávio Bolsonaro, já disse que o interesse principal é o senado.

izem as más línguas que até Eduardo Paes deseja ter Rodrigo Bacelar como adversário, dada sua fragilidade eleitoral e temperamento.  Não podemos esquecer, é verdade, que sem a renúncia de Cláudio Castro, seguida pela renúncia de Thiago Pampolha, nada feito para Rodrigo.   Seus aliados juraram ao pé da cruz do Monte Gólgota (Monte Calvário) que Pampolha topou o acerto, por uma vaga no Tribunal de Contas do Estado.

Eu continuo apostando que Castro e Pampolha podem estar acordados sim, mas para dar uma rasteira em Rodrigo.  Mas isso é só um pressentimento meu, só isso.  O fato é que tanto Rodrigo, quanto Paes necessitam de Wladimir Garotinho. Em uma composição Rodrigo/Wladimir é óbvio que caberia ao prefeito campista um papel diferente do proposto por Eduardo Paes. 

Uma chapa interior puro sangue contra Paes tem poucas chances, pois o consenso atual é, talvez apoiado em estudos de pesquisas e curvas de engajamento, que a chapa é capital/interior.  Caberia a Wladimir, nesse arranjo com Rodrigo, uma candidatura a deputado ou senador, e sobre essa última possibilidade, há mais pretendentes que vagas. Não me parece que eleição para a Câmara dos Deputados seja o alvo principal de um político em ascensão como Wladimir, da mesma forma que eu não acredito no acordo Castro, Pampolha, Rodrigo, justamente porque não enxergo Pampolha aceitando uma vaga no TCE, um cemitério político para um político de menos de 40 anos.

Então, não se trata apenas de boas intenções ou de bairrismo, mas da amplitude dos projetos políticos que estão em andamento.  Para ser pragmático, o histórico de Rodrigo com Wladimir não indica uma boa relação, e isso projeta um futuro de pouca confiança de que acordos serão cumpridos. 

Nesse sentido, o caminho “natural” de Wladimir Garotinho é uma candidatura a vice na chapa de Paes.  Parece certo que o ciclo dele no PP se exauriu.  Se vai migrar para um partido grande, como PSD ou MDB, ou se vai preferir integrar uma estrutura partidária menor, só o tempo dirá.  Alguns preferem ser cabeça de mosquito a rabo de elefante.  No entanto, é uma escolha pessoal estruturada em análises e projeções de cenário.

Enfim, uma coisa é quase certa:  A chance de aliança com Rodrigo Wladimir é como cabeça de bacalhau, até existe, mas é difícil de ver.

JBS: cozinhando o planeta. Relatório mostra os impactos e promessas não cumpridas

Greenpeace protesta contra lucros bilionários da JBS

Relatório produzido pela ONG Greenpeace analisa os impactos socioambientais e as promessas não cumpridas da multinacional brasileira JBS, destacando questões como desmatamento, trabalho escravo e emissões de gases de efeito estufa.

O documento enfatiza como a JBS, maior produtora de carne do mundo, tem um histórico de danos significativos à Amazônia e outros biomas, exacerbando a crise climática. 

Além disso, o relatório analisa como os atuais de planos de expansão da JBS ameaçam intensificar a destruição ambiental e as emissões de gases de efeito estufa.

Quem desejar baixar o relatório do Greenpeace, basta clicar [Aqui!].

Má conduta em série. Pesquisadores do Japão têm cinco artigos despublicados por fabricação e falsificação de dados

Por Revista da Fapesp

Uma investigação da Universidade de Osaka, no Japão, apontou fabricação e falsificação de dados em sete artigos publicados desde 2020 por microbiologistas da instituição. Cinco artigos científicos já foram retratados até agora, conforme apontou o site Retraction Watch. Os estudos foram publicados nas revistas Science Advances, mBio e mSphere, Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) e Microbiology and Immunology.

O relatório dos investigadores omitiu o título dos artigos e o nome de seus autores e apenas apresentou as figuras que foram adulteradas. Uma análise das imagens feita pelo site Retraction Watch identificou os artigos científicos em que elas foram publicadas e mostrou que, em todos os trabalhos, o autor principal é Yasuhiko Horiguchi, líder de um laboratório do Instituto de Pesquisa para Doenças Microbianas da Universidade de Osaka, enquanto Yukihiro Hiramatsu, professor assistente e pesquisador do laboratório, aparece como primeiro ou segundo autor.

Faked results lead to retraction of high-profile cancer neuroscience study  | The Transmitter: Neuroscience News and Perspectives

Hiramatsu, identificado como “Dr. B” no relatório, admitiu ser o responsável pelas fraudes e foi afastado da universidade em janeiro. Ele alegou aos investigadores que queria produzir dados que o ajudassem a publicar artigos em periódicos de prestígio. Já seu chefe, Horiguchi, chamado de “Dr. A”, reconheceu que não pediu para ver os cadernos de anotações ou os dados brutos do assistente. O relatório concluiu que, se o laboratório tivesse um sistema para verificar anotações e dados, as práticas de má conduta poderiam ter sido identificadas antes.


Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a  licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

A filantropia como negócio ou, melhor, a pilantropia como a arte de tirar de quem já nada tem

Por Douglas Barreto da Mata

Desde que o mundo é mundo existem pessoas dedicadas à execução de golpes, usando como “isca” para atrair suas vítimas o falso exercício de algum tipo de caridade ou filantropia.  Com o advento das redes sociais esse fenômeno explodiu, e não raro vemos imagens de crianças e adultos enfermos, algumas até falecidos, sendo utilizadas para atrair doações de pessoas boas de coração.

A administração pública também não escapa a esse pessoal. O exemplo clássico e histórico desse tipo de ação criminosa tem nas entidades beneficentes, filantrópicas, ONGs, e outras do gênero, um terreno fértil para a consumação dessas fraudes com dinheiro público. Claro que há boas entidades, na verdade, elas são a maioria. Mas há aquelas dedicadas à subtração de verbas, geralmente, para enriquecimento ilícito de seus provedores, patronos e diretores.

Esse pessoal se aproveita das carências no setor público, e das dificuldades burocráticas para a gestão complexa da saúde pública, principalmente das redes secundárias e terciárias de atendimento de média e alta complexidade, e atacam os orçamentos, se colocando como uma saída eficiente (e mais barata) para o problema, sendo que a eficiência e a rapidez ficam restritas mesmo a dilapidação do erário.

São as chamadas redes complementares de saúde, mas que de tão poderosas, acabaram por substituir a rede pública, absorvendo quase todo dinheiro repassado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Diga-se, a contratualização de serviços de saúde é uma escolha política discricionário do prefeito ou governador, contra a qual só cabe um juízo político, apenas.

Porém, o problema é que alguns gestores destas entidades enxergam aí uma oportunidade para enriquecimento ilícito. Campos dos Goytacazes não é diferente, e por muito tempo a rede contratualizada assumiu quase todos os atendimentos de média e alta complexidade, por uma escolha dos administradores da coisa pública. Os valores repassados para o ano chegam a mais de 200  milhões de reais.Tais montantes, são maiores aos disponíveis para o município tocar sua rede primária de atendimento, incluídos aí as emergências e urgências, Unidades Básicas de Saúde (UBS), etc. Mesmo assim, de forma perene, os hospitais ligados a tais entidades vivem reclamando de falta de recursos e/ou atrasos nos repasses, ameaçando suspender atendimentos, e retendo salários de seus funcionários.

Se não fossem entidades filantrópicas, que têm por missão primeira a ajuda ao próximo, ficaríamos desconfiados de que o atraso em pagar os médicos, diante de tais valores, é alguma forma de chantagear o município, como naqueles casos das empresas de ônibus, que usam motoristas e cobradores como massa de manobra, para subir o preço das tarifas do serviço.  Não deve ser o caso. Ora, mas por certo tem alguma coisa errada, e parece que a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes  (PMCG) precisa repensar essa relação, já que o modelo, mesmo com tantos recursos, não deu certo.

Além de repensar, não seria demais fazer algumas perguntas, já que o setor hospitalar filantrópico da cidade tem um histórico conturbado de suspeitas de dupla cobrança (consulta “social” que é cobrada do SUS), de desvios de recursos, superfaturamento de compras, etc, que já ensejaram ações policiais e ministeriais, inclusive com intervenção.

 Por exemplo, será que as entidades aceitariam, já que alegam dívidas pela prefeitura, se submeter a uma criteriosa auditoria independente, feita pelo Ministério Público Federal (MPF), para confrontar os dados da regulação do município e aqueles cobrados pelas entidades? Aceitariam também uma olhada nas aquisições de equipamentos e serviços feitos com dinheiro público, sejam as emendas parlamentares ou repasses? É claro que precisamos ressaltar que há filantropia e pilantropia.

Mas a discussão sobre esse valor de 100 milhões, alegadamente, devidos pela municipalidade, pode servir para alimentar esse necessário debate. Servirá para subsidiar, por exemplo, essa ótima discussão  sobre a migração dos serviços de saúde para a rede própria da cidade, deixando apenas o complemento para as entidades privadas. Enfim, pode servir ainda para o MPF descobrir, junto com a polícia, se há lobo em pele de cordeiro, fiéis daquele estranho culto:  a desgraça alheia é a minha riqueza.

Opção pelo mercúrio em restaurações dentárias expõe descaso com a saúde pública e o ambiente

Altamente tóxico, o mercúrio está em 70% das obturações feitas no SUS. No estado de SP, que concentra metade dos procedimentos no Brasil, lideranças e movimentos sociais buscam reverter veto de Tarcísio de Freitas à lei que protege a população

Por Cida de Oliveira 

O mercúrio é um metal pesado considerado a substância mais tóxica já conhecida pela ciência moderna. Isso porque causa intoxicações, que dependendo do grau, provocam síndromes, como as neurológicas, muitas das quais graves, irreversíveis e letais. Altamente volátil, evapora mesmo à temperatura ambiente, permanecendo suspenso no ar, até ser inalado ou absorvido pela pele. Ao cair na circulação sanguínea, se deposita em órgãos onde fará estragos, como o sistema nervoso central, seu alvo principal.

Em gestantes, tem a capacidade de atravessar a barreira placentária, afetando diretamente tecidos fetais em desenvolvimento. Mas os bebês também podem ser intoxicados por meio do leite materno, como mostram estudos. A lista longa de problemas vai muito além, conforme pode ser conferida no final da reportagem. E há ainda os danos ao meio ambiente, com a contaminação de rios, do mar e de peixes, que traz mais doenças para quem deles se alimenta.

Por incrível que possa parecer, a substância responde por metade da composição do amálgama dentário, juntamente com uma liga de prata, estanho e cobre. A mistura, tóxica, está em 70% das obturações realizadas nos consultórios do serviço público de saúde do país. Dentro da boca de tanta gente, encurta o caminho dos vapores de mercúrio, que atravessam rapidamente as mucosas e o palato. 

Já entre a clientela da rede privada, que pode pagar e fazer escolhas, a massinha cinza caiu em desuso. Entraram em seu lugar materiais biocompatíveis, resistentes, seguros, estéticos e com custo equivalente, segundo profissionais. Ou seja, é possível restaurar os dentes com a mesma funcionalidade, melhor resultado estético e ainda proteger a saúde de pacientes, equipe odontológica e o meio ambiente como um todo sem gastar mais por isso.

Segundo dados do Datasus, foram realizadas 708,3 mil restaurações com mercúrio em consultórios públicos de todo o Brasil entre 2020 e 2023. A ampla maioria está no estado de São Paulo, com 351 mil (49% do total). O número é quase 3,5 vezes maior que a soma desses procedimentos nos estados vizinhos da região Sudeste. Nesses mesmos quatro anos, as restaurações com resinas nos consultórios privados paulistas chegam perto de 5 milhões, algo perto de 93% do total.

Negacionismo

Essa triste liderança paulista poderia ter sido revertida. E o estado de SP poderia tomar a dianteira no combate ao mercúrio na odontologia, tornando-se um exemplo. No entanto, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) desprezou essa chance ao vetar, em outubro passado, o  Projeto de Lei 1.475/2023, que disciplina a utilização do amálgama. De autoria do deputado Maurici (PT), a lei aprovada em julho de 2023, com votos até de integrantes da base governista, tem efeito imediato na proteção de gestantes, mulheres que estejam amamentando ou em idade reprodutiva. E também de crianças, adolescentes menores de 14 anos, pessoas com doenças neurológicas ou renais, além daquelas com histórico de intoxicação ou mesmo exposição prolongada à substância. O projeto, porém, é mais amplo. Determina um prazo de três anos para a abolição total dessas restaurações de massinha cinza.

Tarcísio desprezou apelos e argumentos de especialistas, pesquisadores, professores universitários, profissionais e ativistas brasileiros e estrangeiros que compõem a Campanha Mundial para uma Odontologia Livre de Mercúrio. E preferiu ouvir a voz apenas das entidades de classe do setor. Aliás, classe profissional que deve ser orientada pelos governos.

Em seu veto, o governador parece raso e confuso em seus argumentos. Cita erroneamente a resolução da Anvisa 171, de 2017, sobre revisão de alterações pós-registro e prazos para produtos já registrados, como se fosse a resolução 173, de 2017. E depois ele também menciona a resolução Anvisa 879 de 2024, que não contempla integralmente a Emenda das Crianças da Convenção de Minamata, como o PL/1475/2023 faz. E o veto também foi determinante para não disciplinar efetivamente o uso de amálgama dentário de mercúrio em São Paulo. Permanece, assim, a exposição continuada de profissionais e pacientes ao metal tóxico.

Tarcísio alega ainda que a “Secretaria da Saúde manifestou-se desfavoravelmente à propositura, assinalando que até o momento não há material no mercado com o custo, acesso, resistência e durabilidade comparáveis”. E que “o material (mercúrio) está caindo em desuso seja por suas características estéticas, ou por exigir maiores habilidades profissionais”. E mais: “que o Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), em evidente afronta ao princípio da precaução, observa que não há evidências científicas significativas que associem danos à saúde do paciente ou do profissional, se utilizado de acordo com as normas técnicas existentes, e que ainda fundamentam a possibilidade de continuidade da utilização do amálgama de prata”.

Entidades defendem metal tóxico

Após a decisão do governador, o conselho divulgou nota na qual afirma que, junto com a Associação Paulista dos Cirurgiões Dentistas (APCD) e a Associação Brasileira de Cirurgiões-Dentistas (ABCD), “elaborou um dossiê técnico com a participação de professores universitários, representantes do Poder Público e das Câmaras Técnicas e Comissões Temáticas do CROSP, o que foi determinante para fundamentar a justificativa do governo estadual”.

A redação procurou o conselho em busca de uma justificativa para o lobby negativo das entidades junto ao governo, que em vez disso deveria apoiar e proteger os profissionais e os pacientes, principalmente do SUS. Para isso pediu uma cópia do referido dossiê técnico, bem como uma explicação para a suposta segurança do mercúrio dentro da boca das pessoas, já que é reconhecido como altamente tóxico no meio ambiente. Entretanto não houve retorno até a conclusão da reportagem.

Segundo Jeffer Castelo Branco, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e integrante da Campanha Mundial para a Odontologia Livre de Mercúrio, o veto contraria a Convenção de Minamata. Isso porque o tratado internacional, do qual o Brasil é signatário, estabelece que os governos devem informar aos conselhos profissionais a importância da eliminação do amálgama dentário. “E o que temos visto no Brasil é o contrário. Em vez de os governos notificarem os conselhos, são eles que estão fazendo um lobby contrário junto aos governos para não eliminar o amálgama, colocando em risco os seus profissionais e aqueles que buscam serviços odontológicos. A gente gostaria de ter como parceiro o conselho profissional dos dentistas. É preciso que ele venha ao encontro da Convenção e faça o Brasil aprovar leis como a proposta por Maurici”, disse.

Diferentemente do negacionismo do governador Tarcísio, prevaleceu em Peruíbe, litoral sul do Estado, a preocupação com a saúde e o meio ambiente. Em 20 de novembro passado a Câmara dos Vereadores aprovou por unanimidade a Lei Ordinária nº 4587/2024, que restringe a utilização de amálgamas de mercúrio em procedimentos odontológicos. O projeto apresentado pelo então prefeito Luiz Maurício (PSDB), com indicação da vereadora Maria do Socorro Antunes Mendonça (PSD), é muito semelhante ao vetado por Tarcísio.

Além do prazo de três anos para a abolição total dos amálgamas de mercúrio, proíbe as empresas responsáveis pela sua destinação final ambientalmente adequada de comercializar o metal eventualmente recuperado. E as obriga de informar a quantidade, procedência e destinação de cada lote aos órgãos de vigilância sanitária. A lei pioneira no Brasil ainda determina que o poder público municipal estabeleça políticas e programas que favoreçam o uso de alternativas aos amálgamas em procedimentos odontológicos. E que promova juntamente com órgãos e entidades públicas e privadas o esclarecimento e conscientização dos profissionais e estudantes da área de odontologia sobre riscos e perigos do mercúrio, além da promoção de melhores práticas alternativas.

Mercúrio liberado na escovação

A cirurgiã-dentista Magda Siqueira, especialista com certificação internacional e especialista em ozonioterapia, integrou o grupo da Campanha Mundial para a Odontologia Livre de Mercúrio que esteve na Secretaria de Saúde após a aprovação da lei estadual. O objetivo era esclarecer os pontos da lei no sentido de obter apoio para a sanção junto ao governador Tarcísio. Mas segundo ela, durante a visita falou bastante sobre a toxicidade do mercúrio. Para seu espanto, as pessoas ali diziam desconhecer os riscos. “Mas sabiam que havia um parecer técnico de duas entidades dos dentistas em defesa do amálgama”, disse. “O desconhecimento está dentro dessas entidades técnicas também?”, questionou.

A especialista explicou que o perigo dessas obturações é grande. “Estudos apontam que há liberação constante de vapores de mercúrio durante a mastigação, a escovação dos dentes e a ingestão de bebidas quentes. Com isso há uma absorção sistêmica crônica”.

Na avaliação de Magda Siqueira, o uso contínuo no Brasil, especialmente em populações vulneráveis atendidas nos consultórios do SUS, com aval de gestores, contraria princípios constitucionais, a equidade e segurança em saúde pública. E fere diretamente a responsabilidade do Estado na proteção da integridade física, psíquica e ambiental do cidadão.

“O SUS tem a missão e o dever de garantir o cuidado integral, com a inclusão de materiais seguros e biocompatíveis, como resinas compostas, ionômero de vidro e cerâmicas, entre outros. O Brasil é signatário da Convenção de Minamata. É inaceitável que mesmo após 10 anos da assinatura não tenhamos políticas públicas e diretrizes efetivas para a transição segura e protetiva. E nem pessoas e gestores que olhem para esse detalhe”, criticou.

Para a especialista, o fim das obturações de mercúrio é uma questão crucial, tanto que em 2020 foi tema de alerta da agência dos Estados Unidos para medicamentos e alimentos (FDA). Sendo assim, é urgente incluir o mercúrio no currículo dos cursos de odontologia. “A formação acadêmica precisa refletir os avanços da ciência e os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. Professores têm responsabilidade ética de preparar seus alunos sobre os riscos do mercúrio dental e preparar essa nova geração para práticas éticas e seguras”, disse.

Mulheres e crianças: principais alvos

A assistente social Gleisy Xavier, conselheira tutela em Mauá, no ABC paulista, vê nas restaurações dentárias à base de mercúrio mais um componente da desigualdade social. “É cansativo vivenciar esse racismo institucional. Nós sabemos que o amálgama praticamente só é colocado na boca das mulheres, crianças, adolescentes e homens periféricos. Somos nós que estamos lá na ponta (do atendimento) e que vamos vivenciar isso que está sendo dito aqui. Essa é a verdade”, disse, durante participação na audiência pública na Alesp.

Ela reforçou as críticas a Tarcísio de Freitas. “E esse governo ainda persiste em marginalizar e discriminar a população pobre e preta. Não bastam as polícias nas favelas matando pretos, a gente ainda tem de ter isso em nossas bocas”, disse a conselheira, que defendeu a derrubada do veto e prometeu levar a grave questão para ser discutida em seu município. “São as nossas crianças e nossos adolescentes. Não dá mais para tolerar esse uso. Enquanto tiver mercúrio nas bocas pretas, a gente não vai poder discutir políticas de saúde bucal.”

A cirurgiã-dentista Martha Faissol, integrante da Academia Internacional de Medicina Oral e Toxicologia, aponta o risco elevado do uso de amálgamas de mercúrio para mulheres e crianças em geral. “Ao serem expostas no ambiente de trabalho, seja universidades ou nos serviços de saúde, milhares delas são alvos dos efeitos nocivos que comprometem a função ovariana, desregulam ciclos menstruais, favorecem a menopausa precoce e aumentam o risco de abortos espontâneos”, disse. Segundo ela, 58% dos profissionais da odontologia no Brasil são mulheres.

A especialista destacou que estudos recentes dão uma ideia da gravidade da situação. Mostram altos níveis de mercúrio no leite materno e uma correlação entre esses índices e o número de obturações; o pico de intoxicação em bebês logo após o nascimento, quando passam a receber leite da mãe contaminado; a presença de metal no organismo de mulheres acima do limite recomendado pela Organização da Saúde, mesmo entre aquelas com baixo consumo de peixes, uma outra fonte de exposição e intoxicação. “A bioacumulação de mercúrio favorece níveis letalmente elevados em gestantes, comprometendo diretamente o desenvolvimento neurológico de seus fetos e, posteriormente, prejudicando habilidades motoras, cognitivas e comportamentais. Dizer que esses riscos podem ser tolerados é, no mínimo, um desserviço que ameaça a saúde das futuras gerações”, disse.

Fragilidades no veto

Decorridos seis meses do veto de Tarcísio, a presidência da Assembleia Legislativa de São Paulo, que integra a base governista, ainda não pautou sessão para análise e possível derrubada. Por isso a Campanha Mundial para a Odontologia Livre de Mercúrio se articula nesse sentido. No último dia 23, especialistas, dentistas, estudiosos, lideranças de movimentos sociais e trabalhadores se reuniram em audiência pública no legislativo paulista. Juntos com o autor do projeto, deputado Maurici, discutiram o tema e propostas em defesa da promulgação. Entre elas, uma reunião com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e com a direção da Anvisa.

Os ativistas e especialistas também têm críticas quanto às resoluções da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, especialmente a 879, citada pelo governador. Em seu artigo 1º, o texto diz que “ficam proibidas em todo o território nacional a fabricação, a importação e a comercialização, assim como o uso em serviços de saúde, de mercúrio e do pó para liga de amálgama na forma não encapsulada indicados para uso em odontologia”.

No entanto a mudança não traz proteção, segundo a cirurgiã-dentista Raquel Cembranelli, que pesquisa o tema.  “Em 2019 a Anvisa seguiu a FDA e proibiu amálgamas abertas. Mas as cápsulas permitidas contêm o mesmo pozinho, o líquido, e o dentista também tem de agitar, usando um aparelho, de alta velocidade, que gera calor e mais vapor de mercúrio”, contou. Segundo ela, estudos mostram que a abertura de cada cápsula permite o vazamento de 400 microgramas de vapor de mercúrio. “Esse valor é quatro vezes maior que o pico máximo permitido de exposição ocupacional. Ou seja, a adoção das cápsulas não resolve nada; não é melhor que antes”, reclamou, referindo ao antigo preparo manual do amálgama.

“O mercúrio é um líquido volátil, que evapora em temperatura ambiente. E a cada 10º C que aquece, dobra sua volatização. Durante a remoção da massinha, a broca gira em alta velocidade, provocando calor que aumenta a vaporização. E há liberação da poeira de amálgama com partículas menores que um mícron, que é absorvida pela pele, pulmões. O consultório fica infestado de mícrons de mercúrio. Uma lambança sem fim”, afirmou.

Segundo ela, um estudo feito em Porto Rico mostra que essas partículas de mercúrio permanecem suspensas por 36 horas, em níveis acima do limite. “Ou seja, uma cápsula aberta na segunda-feira segue contaminando todos até na quarta. Como são usadas várias ao longo do dia, a pessoa que vai ao consultório fazer um orçamento sai de lá contaminada com o mercúrio que inalou”. E concluiu: “Não pode mercúrio na lâmpada, no termômetro, mas pode na boca do cidadão?”, questionou. Segundo ela, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos estima em uma tonelada a quantidade de mercúrio na boca dos americanos. “Não faz sentido. Há substitutos que não são mais caros e funcionam. Os dentistas são os profissionais mais expostos ao mercúrio”.

Outro pronto criticado na resolução 879 é o artigo 2º, que determina que “as notificações de produtos constituídos por liga de amálgama na forma encapsulada para uso odontológico deverão indicar, como advertência, que não são recomendados para uso em gestantes, lactantes e na dentição decídua (em indivíduos de até 15 anos de idade).  “Notificações? Isso é um produto tóxico. Tem de ter registro. Notificação é para produtos que não são perigosos. É o primeiro detalhe nessa resolução que eles falham e a gente precisa corrigir isso”, destaca Jeffer Castelo Branco.

Ele aponta outra incorreção no mesmo documento, quanto à interpretação inadequada da Convenção de Minamata. “A resolução falha também ao dizer que em crianças até os 15 anos, os únicos dentes que não podem receber amálgama são os de leite. A convenção diz que não pode em nenhum dos dentes até os 15 anos”. Segundo o pesquisador, “a resolução é caótica, está em desacordo com a convenção internacional e por isso precisa ser consertada.”

A reportagem procurou a assessoria da Agência Nacional de Vigilância, que não respondeu até o fechamento.

Expectativas

Na avaliação do deputado Maurici, o governador Tarcísio não discute o mérito do projeto em seu veto. “Ao contrário, destaca que a matéria tem alta relevância para a área de saúde. E alega que se contrapõem às normas da União, no caso específico, da Anvisa. No entanto, a Constituição Federal faculta aos Estados a criação de leis que complementem ou aprofundem as normas gerais da União, especialmente quando são mais restritivas”, disse o parlamentar.

Segundo lembrou, este foi o entendimento da Comissão de Constituição e Justiça da Alesp que aprovou parecer, ressaltando que, “no que atine à constitucionalidade da proposta, não há qualquer ofensa de cunho material ou formal que venha a impedir a regular tramitação da proposta”.

Maurici acredita na possibilidade de reverter a decisão. Isso porque há um precedente em tema semelhante. Em 2013, um Projeto de Lei similar, do ex-deputado Marcos Martins (PT), proibindo instrumentos contendo mercúrio, como aparelhos de pressão e termômetros, foi vetado pelo Poder Executivo. “Porém, ao reexaminar o projeto, as comissões de Constituição e Justiça e de Meio Ambiente recomendaram a sua aprovação, o que foi seguido pelo Plenário, convertendo em lei o Projeto na Lei nº 15.313/2014, que está vigente e não sofreu contestação de constitucionalidade por parte do Executivo”, lembrou. “Então, a perspectiva é que, ao examinar vetos do governador com base nos precedentes e no posicionamento favorável já fixado, o veto será derrubado em favor da saúde da população e da preservação ambiental.”

Amálgama: alvo da vez

A luta pelo fim do amálgama já dura décadas. Mas se acirrou com a assinatura da Convenção de Minamata. Ratificada por mais de 140 países, busca eliminar o metal tóxico dos produtos, serviços e processos em todo o mundo. Neste ano chega ao fim o prazo para eliminação de todas as indústrias de cloro e soda que utilizam células eletrolíticas de mercúrio. De acordo com Castelo Branco, o processo de descomissionamento dessas indústrias já começou. “Tivemos rios e populações ribeirinhas contaminadas. Agora é hora do amálgama dentário, setor que mais usa mercúrio no mundo”, destacou. Segundo ele, o amálgama responde por 341 toneladas do metal colocadas anualmente no planeta por causa do uso na odontologia.

As discussões para a Convenção de Minamata começaram em 2010, após a constatação que a quantidade de mercúrio na atmosfera havia sextuplicado em algumas partes do planeta. O acordo foi assinado em 2013, entrou em vigor em 2017 e o Brasil promulgou em 2018. Um acordo anterior, a Convenção de Estocolmo sobre poluentes persistentes, que já poderia ter incluído o mercúrio, foi assinado em 2001.

Segundo Castelo Branco, que preside a Associação de Combate aos Poluentes (ACPO), dentistas de várias regiões relatam dificuldades de dar destinação ao amálgama tóxico. Isso porque as cidades sequer contam com serviço adequado para essa finalidade. E há outro detalhe: o mercúrio cuspido pelos pacientes durante o tratamento ou remoção vai para o esgoto. “Alcança a rede pública e contamina córregos e rios, afetando toda a vida aquática, marinha, como a gente tem visto em vários estudos”, disse. “Há inúmeras pesquisas de qualidade que associam o mercúrio ao Alzheimer, Parkinson, Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), Transtorno do Espectro Autista, doenças do pulmão, fígado, rins, da pele. E o SUS, possivelmente, arcando com toda essa despesa, que vem da exposição ao mercúrio contido no amálgama.”

Saiba mais sobre as intoxicações causadas pelo mercúrio usado nas restaurações

A intoxicação pelo mercúrio, o mesmo que é usado nos amálgamas dentários pode ser aguda – desencadeada por grande quantidade de vapores de mercúrio em um curto período – ou crônica, devido ao acúmulo de partículas no organismo pela exposição prolongada e contínua.

Na intoxicação aguda as vias aéreas são afetadas, causando irritação brônquica, bronquite erosiva, pneumonia intersticial difusa com dor torácica, falta de ar, tosse, hemoptise (expectoração de sangue), cianose (coloração azulada em várias partes do corpo), taquipneia (alteração na respiração) e edema pulmonar, que podem levar à morte. Há também intoxicação nos rins, irritação de mucosa da boca, náuseas, diarreia, fadiga, fraqueza, letargia e câimbras abdominais. Por isso esses sintomas exigem atendimento imediato.

Já na intoxicação crônica pode haver sintomas isolados ou simultâneos. Eles são agrupados em:

Síndromes no sistema neurológico Geralmente aparece em toda pessoa intoxicada porque ao penetrar no Sistema Nervoso Central, o mercúrio se liga a proteínas e dificilmente se desprende delas. Por isso se propagam localmente e também no sistema periférico. Os problemas causados geralmente deixam sequelas. Os tremores são os sinais mais comuns e característicos da intoxicação. Mas há ainda cefaleia, insônia, nervosismo, vertigem, debilidade, mal estar, dores nas articulações e musculares, contrações musculares involuntárias, descoordenação motora, movimentos involuntários dos olhos, dismetria, dificuldade de realizar movimentos rápidos e alternados, de equilíbrio e de caminhar, nevralgia, parestesia, ardência nos pés, polineuropatia, visão borrada, hipertonia muscular com reflexos de postura exagerados, câimbras, paralisia flácida, voz monótona, arrastada e hesitante, com mudança de linguagem, gagueira e dificuldade de pronúncia, timidez. Há ainda encefalopatia difusa crônica, com redução das funções manifestada por mudança de personalidade, rigidez, movimentos involuntários, redução na função motora, incapacidade de se manifestar por gestos e sinais, marcha incerta e vacilante, ausência de reflexos, de recuperação do equilíbrio e fraqueza muscular. “Essas alterações neurológicas podem ser progressivas e piorarem após cessada a exposição. É o que a gente tem percebido no atendimento a trabalhadores expostos”.

Síndrome neuropsíquica ou eretismo psíquico (conjunto de alterações comportamentais) – “Pode começar com sintomas suaves, que vão se somando a outros até o embotamento intelectual, até a demência”, disse a médica Cecília Zavariz, que há décadas estuda o assunto. “Como o caso de pessoas que não podiam sair de casa sozinhas porque não sabiam voltar, se perdiam, não sabiam onde estavam e nem mesmo o seu endereço”, disse Cecília.

O quadro é caracterizado por sintomas como irritabilidade, ansiedade, mudanças de comportamento, apatia, perda da auto-estima e de memória, depressão, insônia, delírio, cefaléia, dores musculares e tremores. Pode haver também hipertensão arterial, problemas renais, imunológicos e alérgicos. Isso porque a síndrome pode acometer outros órgãos e sistemas, como o imunológico, enzimático, endócrino, visual e cardiovascular. Assim pode afetar a pele, fígado, pulmões e o ciclo reprodutivo, além de provocar abortos espontâneos, baixo peso ao nascer e anomalias congênitas.

Síndrome no sistema digestório (sabor metálico, sensibilidade, inflamação, edema e sangramento gengival, linha gengival azulada/acinzentada, necrose alveolar, halitose, afrouxamento e queda de dentes, irritação e ulceração de mucosa oral, palato, gengiva e língua, salivação excessiva, dor à mastigação e dificuldade para engolir, faringite, inflamação da língua, hipertrofia de glândulas salivares, saburra das vias digestivas, náuseas, vômitos, dor epigástrica, gastrite, duodenite, indigestão, diarreia, anorexia, emagrecimento, fadiga excessiva, fraqueza muscular, debilidade.

De acordo com Cecília, o diagnóstico é complicado porque não há exame específico e os sintomas variam de indivíduo para indivíduo e podem ser atribuídos a outras patologias. “O médico vai pensar em mil e uma doenças, e não na intoxicação crônica por mercúrio. Por isso é preciso uma anamnese muito profunda, esmiuçando o histórico laboral da exposição, além de avaliações oftalmológicas, psiquiátricas, neurológicas e neuropsicológicas para verificação de funções cognitivas (memória, atenção, concentração, raciocínio, abstração e linguagem), motoras (coordenação motora, rapidez de movimentos e precisão na execução de tarefas, capacidade/habilidades construtivas e visuoespaciais – usamos para controlar a possível distância entre dois objetos), além de estados afetivos. São feitas entrevistas psicológicas e aplicação de testes. A depressão é um dos sintomas mais comuns no exposto ao mercúrio.

Segundo ela, o prognostico é desfavorável quando a intoxicação atinge certa gravidade. Nos casos leves, pouco a pouco, ao longo de vários anos, o quadro pode reverter se a exposição ao mercúrio for interrompida. Pode também ocorrer um quadro intermitente, com período em que os sinais e sintomas se exacerbam, alternando-se com períodos de intoxicação latente. Alguns chegam a desaparecer temporariamente. Mas nos casos moderados e graves o quadro é irreversível e tende a piorar com o tempo.

“Em resumo, a intoxicação crônica pode ser ou se tornar grave, irreversível, incurável, incapacitante, penosa e ‘infelicitante’. O único caminho é a extinção do uso do mercúrio em quaisquer de suas formas químicas, pelo bem da saúde e do planeta. Cada grama lançada no ambiente causa o acúmulo de toneladas de problemas deste metal tóxico, que não se degrada e pode mudar para outra forma química ainda mais agressiva, o mercúrio orgânico”, disse a médica.

Outro pesquisador do tema, o dentista Rodrigo Venticinque alertou sobre outras situações problemáticas: como exemplo, alterações genéticas que podem afetar a capacidade do organismo em eliminar o mercúrio, além de outros metais pesados. É o caso da APOE4, uma variante da enzima CPOX4, que desempenha um papel importante na síntese da hemoglobina e na produção de energia das células. E ainda a glutationa GSTS, uma família de enzimas com papel crucial na desintoxicação celular, entre outras variantes.

Crédito da imagem: Reprodução/Youtube

Corporações da soja receberam R$ 4,7 bilhões em isenções fiscais no Mato Grosso entre 2019 e 2024, mostra relatório do TCE/MT

Uma das grandes fontes de sangria fiscal nos estados brasileiros são as políticas de isenção criadas supostamente para alavancar o processo de desenvolvimento econômico, sempre às custas da qualidade do serviço público que é usado como espantalho quando a coisa se trata de encontrar culpados pela falência financeira dos estados brasileiros.

Eis que agora me chegou uma matéria indicando que um relatório preliminar do Tribunal de Contas do Estado do Mato Grosso (TCE/MT) indicou que apenas entre  2019 e 2024, cinco grandes empresas que controlam o mercado da soja (i.e., Bunge, ADM, Cofco, Cargill e Fiagril) receberam 28% das isenções fiscais concedidas naquele período pelo governo matogrossense, com um custo astronômico aos cofres públicos de R$ 4,7 bilhões.

As principais beneficárias dessa farra fiscal teriam sido as corporações estadunidenses Bunge e ADM, que teriam sido seguida pela também estadunidense Cargill e pela chinesa Cofco, deixando em quinto lugar a brasileira Fiagril.

Segundo a lógica utilizada pelo conselheiro encarregado do relatório que utilizou o custo médio da construção de um hospital para dar parâmetros aos prejuízos econômicos causados pela farra fiscal em prol das corporações da soja, com esse valor seria possível construir em torno 15 hospitais públicos em Mato Grosso.

O interessante é que se levarmos em conta todas as evidências científicas levantadas pelo grupo de pesquisas do professor Wanderlei Antonio Pignati  da Universidade Federal do Mato Grosso sobre as consequências deletérias do uso intenso de agrotóxicos na monocultura da soja na saúde da população matogrossense, esses hospitais seriam mais do que benvindos. Só que não, visto que toda essa fortuna não foi aplicada em hospitais, mas no aumento da faixa de lucros bilionários das corporações que controlam a produção e o comércio da soja.

Há ainda que se lembrar que para beneficiar ainda mais as corporações da soja, a Assembleia Legislativa do Mato Grosso aprovou uma lei, chamado popularmente de “PL do Veneno Sem Limites“, que diminui a distância em que agrotóxicos podem ser utilizados em áreas urbanas, o que deverá aumentar exponencialmente o processo de contaminação.

Enquanto, as corporações da soja agradecem as benesses oferecidas na forma de isenções fiscais.

O enfraquecimento das promessas climáticas corporativas é um sintoma de perda de ímpeto

O recente recuo de empresas de alto nível em relação aos compromissos climáticos demonstra a fragilidade dos compromissos quando a atenção e a responsabilização se desviam

Manifestantes participam de uma apresentação convocada pelo grupo de teatro ativista "BP or not BP", em protesto contra o patrocínio da BP ao Museu Britânico. Fotografia: Justin Tallis/AFP via Getty Images

Manifestantes participam de uma apresentação convocada pelo grupo de teatro ativista “BP or not BP”, em protesto contra o patrocínio da BP ao Museu Britânico. Fotografia: Justin Tallis/AFP via Getty Images

Por Hannah Daly para o “The Irish Times”

Há alguns anos, o movimento climático global explodiu de otimismo. Milhões de jovens marcharam, empresas fizeram promessas climáticas ousadas e líderes políticos falaram com urgência sobre uma crise iminente que exigia ação imediata. Hoje, o vento deixou as velas desse movimento e a atenção se voltou para a turbulência geopolítica e econômica global.

Não é de se admirar que a fadiga e a sensação de desânimo tenham se instalado. O recente recuo de empresas de alto nível em relação aos compromissos climáticos mostra a fragilidade das promessas quando a atenção e a responsabilidade se desviam.

Em 2020, a BP , a gigante da energia, prometeu cortar a produção de petróleo e gás em 40 por cento até 2030. Sob a liderança do então presidente-executivo Bernard Looney, a empresa também prometeu ser uma produtora de energia líquida zero até 2050. No início de 2023, no entanto, esse compromisso havia encolhido para apenas 25 por cento e, em outubro de 2024, a meta foi abandonada completamente. Em vez de cortar a produção de combustíveis fósseis, a BP agora planeja expandir significativamente a produção de petróleo e gás, visando cerca de 2,4 milhões de barris de óleo equivalente por dia até 2030, e cortar os investimentos em energia renovável. Justificando essa “reinicialização” , o atual presidente-executivo Murray Auchincloss disse que sua fé na transição para a energia verde havia sido “equivocada” e que o petróleo e o gás seriam necessários por décadas.

A reversão da BP mostra como as empresas podem facilmente se afastar das promessas climáticas quando as pressões financeiras aumentam e a atenção pública diminui.

Outro exemplo vem do setor alimentício. A criação de gado para produção de carne exige vastas extensões de terra e é a principal causa do desmatamento global, além de ser uma grande emissora de metano proveniente da arrotação do gado. A conversão de terras para a produção de carne e exploração madeireira está causando tamanha pressão sobre a Amazônia que a grande floresta tropical corre o risco de cruzar um ponto crítico e irreversível, que a levaria a emitir, em vez de sequestrar, carbono e se tornar uma pastagem.

O valor para o acionista – o lucro – é a força dominante, não a responsabilidade ambiental. A solução é que os governos regulem e taxem fortemente para forçar as empresas poluidoras a se despoluir, mas a vontade política é escassa.

A JBS, maior produtora de carne do mundo, há muito tempo é associada à destruição da Amazônia. Em 2021, a gigante brasileira se comprometeu a eliminar o desmatamento de sua cadeia de fornecimento de carne bovina na Amazônia até o final de 2025. O compromisso ambicioso foi amplamente aplaudido na época. No entanto, uma investigação recente da Unearthed, do Guardian e da Repórter Brasil pinta um quadro diferente. Apesar dos investimentos em tecnologia e das alegações de avanços em sustentabilidade, os fornecedores da JBS rejeitam abertamente a meta como impossível, e a empresa tem discretamente moderado as expectativas. A lavagem ilegal de gado persiste; brechas continuam generalizadas. Em outras palavras, o que parecia um compromisso firme se tornou algo totalmente menos certo. Notavelmente, a JBS se comprometeu anteriormente em 2009 a combater o desmatamento até 2011, mas não cumpriu.

Tais declarações representam um recuo silencioso da responsabilização, uma transferência de responsabilidade que contradiz diretamente as promessas ousadas que inicialmente renderam à JBS elogios globais. Em 2024, a JBS enfrentou um processo por greenwashing, acusada pelo procurador-geral do Estado de Nova York de enganar os consumidores sobre seu compromisso com o clima, ao mesmo tempo em que continuava a impulsionar o desmatamento.

Esses exemplos da JBS e da BP representam uma tendência alarmante de retrocesso corporativo que prejudica a ação climática global. À medida que a atenção global se desvia do clima para outras questões urgentes, as promessas dos últimos anos correm o risco de se transformar em gestos vazios.

Essa erosão da responsabilidade corporativa é profundamente relevante porque cada promessa quebrada envia uma mensagem ao público e aos formuladores de políticas de que os compromissos climáticos são negociáveis, enfraquecendo ainda mais a ação e a ambição coletivas. Por exemplo, aqui na Irlanda, cumprir nosso próprio compromisso de reduzir as emissões de gases de efeito estufa exige mudanças nas práticas agrícolas e uma redução drástica no consumo de combustíveis fósseis – ambos prejudicados pelo enfraquecimento dos compromissos corporativos.

Brett Christophers, professor especializado em economia política, observou que promessas ambientais vazias são uma característica previsível do capitalismo, que é o princípio organizador predominante da nossa sociedade. O valor para o acionista – o lucro – é a força dominante, não a responsabilidade ambiental. A solução é que os governos regulem e taxem fortemente para forçar as empresas poluidoras a se despoluir, mas a vontade política é escassa.

Todo esse retrocesso corporativo ocorre em um cenário alarmante. A concentração atmosférica de dióxido de carbono é de 430 partes por milhão, 50% maior do que os níveis pré-industriais e o nível mais alto em milhões de anos. No ano passado, houve um aumento historicamente alto na concentração de dióxido de carbono, superando o recorde anterior em 27%. Isso é um presságio sombrio de que as mudanças climáticas podem estar se acelerando, à medida que as emissões das atividades humanas continuam aumentando e a capacidade dos ecossistemas de absorver o excesso de emissões pode estar diminuindo. Mesmo agora, com 1,5 grau de aquecimento, as mudanças climáticas estão causando impactos severos nos padrões de vida e criando choques econômicos em todo o mundo.

O tempo não está do nosso lado – simplesmente não há espaço para retrocessos. O verdadeiro progresso exige a redução das emissões, não promessas.