Na última segunda-feira o Presidente Lula esteve na cidade de Campos dos Goytacazes, para inauguração do prédio do campus da UFF local. Vejam bem, a obra é importante, houve um longo tempo de espera, um esforço parlamentar supra partidário para consecução das emendas, enfim, era algo importante.
Mas uma visita presidencial de Lula não é algo comum, mesmo com todo o peso da Educação universitária no governo Lula, ainda mais em Campos dos Goytacazes, reduto ultra conservador, e local onde as hostilidades seriam de se esperar, e isso se comprovou no aparato de segurança bem mais restritivo que os de outrora. O PT local é de uma fraqueza de dar dó, e não motivaria nem a visita de um secretário adjunto federal de uma pasta menor, de baixo orçamento, como direitos humanos ou outra coisa do tipo.
Então, o que trouxe Lula aqui? Olha, muita gente ficou surpresa, ou fingiu estar surpresa, com os salamaleques presidenciais ao Prefeito Wladimir Garotinho, e tentou até dar uma carona ao deputado Caio Vianna, como se fosse o sussurro dele no cangote presidencial que aumentasse as chances de Lula propor o nome do prefeito local para compor a chapa de Paes, na corrida de 2026, ao palácio Guanabara.
Isso é tolice, ou um desrespeito ao Presidente. Um político como Lula, o único brasileiro a se eleger por três mandatos a presidente, rumo a um quarto, não se emprenha pelos ouvidos, pelo menos, não tão rápido. Com todo respeito ao deputado Caio e seus eleitores, Lula já veio com “a missa pronta”. O Presidente sabia que a audiência poderia hostilizar o Prefeito, e reagiu como de costume, chamando os imbecis da militância às falas, assim como sabe da relação de profundo apreço do prefeito com seus pais, apesar dos ruídos. Assim, o gesto do pedido do número do telefone não foi um improviso, é coisa pensada, calculada e combinada com Paes, que sugeriu ao Presidente a tarefa de seduzir Wladimir.
Lula pode até nem fazer um bom governo, na minha opinião, faz um péssimo governo, mas uma coisa que Lula sabe fazer é montar palanque nacional e regionais. Todos os especialistas e pitaqueiros sabem que sem essa “ciência”, nada feito. Ganhar um estado ali, embolar uma disputa acolá, morder um naco de votos do adversário aqui, e assim se monta uma campanha vitoriosa. Ainda mais quando a vitória se decide em pouquíssimos pontos percentuais de diferença.
Lula sabe da dificuldade que Paes pode enfrentar por estar ligado a ele em um estado que faz o Alabama, ou o Mississipi dos EUA parecerem Nova York. Melhor dizendo, o Rio de Janeiro parece muito com a Louisiana, um estado que esconde seu racismo violento, seu conservadorismo bélico sulista na festa do Mardi Gras, em New Orleans. O antídoto de Lula para colocar una estaca no peito do bolsonarismo fluminense? Um vice para Paes do interior, com família tradicional na política, e mais, saído do ninho bolsonarista, mas que se consolidou na política como um homem de diálogo, de centro.
Agora resta saber se não vão fazer uma proposta melhor para Wladimir do outro lado. Uma coisa é certa, imaginar que ele seria vice de Rodrigo Bacelar não é só burrice estratégica, porque os dois disputam a mesma faixa eleitoral, o interior, mas uma loucura, pois Wladimir sabe que caminhar com Rodrigo é abraçar-se com ele no afogamento. O único risco que Lula e Paes correm com Wladimir, e eles sabem disso, daí o cortejo recente tão explícito, é Wladimir resolver testar seu nome para governador.
As pesquisas internas apontam duas coisas: Uma boa base de intenções para lançamento, algo entre 8 e 10%, para quem nunca se manifestou como pretendente, e o recall do nome da família, que ele soube isolar da rejeição ao seu pai, com seu temperamento e modo de agir diferentes. Em resumo, reuniu o bônus e descartou o ônus. Preocupados com isso, é bem possível que o telefonema do Presidente já tenha acontecido.
Desastre em Petrópolis no ano de 2022 visto em sobrevoo de helicóptero
Entre 2010 e 2022, o estado do Rio de Janeiro registrou 752 desastres naturais — como chuvas intensas, deslizamentos, enchentes e alagamentos — que resultaram em 1.523 mortes e mais de 49 mil anos de vida perdidos. Os dados são de um estudo da Universidade Federal Fluminense, publicado nesta sexta (18) na revistaEpidemiologia e Serviços de Saúde, vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS). Os autores destacam que os impactos foram especialmente severos para mulheres e moradores de cinco municípios: Nova Friburgo, Petrópolis, Teresópolis, Niterói e Rio de Janeiro.
O cálculo de “anos de vida perdidos” — uma métrica de saúde pública que estima o tempo de vida interrompido por mortes precoces — chegou a 49.031,76 anos. Mais da metade desse total (54,2%) corresponde a vítimas do sexo feminino, que também foram maioria entre os óbitos (50,1%). As mulheres, segundo os autores, estão entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos dos desastres, por fatores como menor renda, alto número de dependentes e menor acesso a infraestrutura básica.
A pesquisa combinou dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres da Defesa Civil com os registros do Sistema de Informações Hospitalares do SUS. Foram considerados eventos naturais extremos classificados como movimentos de massa, inundações, alagamentos e chuvas intensas. Os autores identificaram que apenas cinco dos 92 municípios fluminenses concentraram 79,3% das mortes, revelando áreas prioritárias para ações de prevenção e resposta.
Além das perdas humanas, os desastres causaram prejuízos materiais estimados em R$ 12 bilhões. A maior parte ocorreu em unidades habitacionais (R$ 7,7 bilhões) e em obras de infraestrutura urbana (R$ 4 bilhões), afetando diretamente o cotidiano da população e a prestação de serviços essenciais como saúde e educação.
A faixa etária mais atingida foi a de 15 a 59 anos — economicamente ativa —, o que amplia o impacto socioeconômico das perdas. Os autores alertam que a perda de anos de vida representa também perda de produtividade e renda para o país. “Mesmo utilizando dados do SUS, que podem não conter a totalidade dos óbitos atribuíveis aos eventos, os resultados foram elevados”, afirma a pesquisadora Roberta Fernanda da Paz de Souza Paiva, uma das autoras do estudo.
Segundo Paiva, a identificação de áreas e grupos mais vulneráveis é fundamental para a formulação de políticas públicas mais eficazes. “A população vem sentindo impactos de diversas dimensões, reduzindo seu bem-estar, e principalmente desses grupos”, conclui.
Cercada por milhares de ações judiciais alegando que seu herbicida paraquate causa a doença de Parkinson, a Syngenta firmou um acordo com o objetivo de resolver grande parte dessas reivindicações.
A empresa e os advogados principais de milhares de demandantes “celebraram um Acordo por Carta assinado com a intenção de resolver” os litígios,afirma um documento judicial de 14 de abril.
Os advogados dos demandantes confirmaram o acordo, mas se recusaram a responder perguntas sobre os detalhes.
“ Os detalhes públicos do acordo estarão disponíveis para os advogados e seus clientes assim que o processo for finalizado”, disse uma equipe de advogados dos demandantes em um comunicado.
Em uma audiência judicial na terça-feira, um dos advogados principais da autora, Khaldoun Baghdadi, afirmou que os termos do acordo deveriam ser concluídos em 30 dias. Ele afirmou que os procedimentos de planejamento do julgamento deveriam ser adiados.
A Syngenta confirmou que “ resolveu certas reivindicações” relacionadas ao paraquate, mas disse em um comunicado que continua acreditando que não há “nenhum mérito” nas reivindicações.
Litígios “podem ser distrativos e custosos”, afirmou a empresa. “A celebração do acordo não implica de forma alguma que o paraquate cause a doença de Parkinson ou que a Syngenta tenha feito algo errado. Defendemos a segurança do paraquate. Apesar de décadas de investigação e mais de 1.200 estudos epidemiológicos e laboratoriais sobre o paraquate, nenhum cientista ou médico jamais concluiu, em uma análise científica revisada por pares, que o paraquate causa a doença de Parkinson. Essa visão é endossada em revisões com base científica por autoridades regulatórias, como nos EUA, Austrália e Japão.”
A decisão de fechar um acordo ocorre em meio a crescentes apelos para proibir o paraquate por parte de legisladores estaduais e federais, e com um número crescente de pacientes com Parkinson culpando a empresa por não alertá-los sobre os riscos do paraquate. Inúmeros estudos científicos relacionaram o Parkinson à exposição ao paraquate, um herbicida comumente usado na agricultura.
O acordo não resolveria todos os casos movidos nos Estados Unidos contra a Syngenta, mas poderia resolver a maioria deles se um número suficiente de demandantes concordasse com os termos.
Em meados de abril, havia mais de 5.800 processos judiciais ativos pendentes no que é conhecido como litígio multidistrital (MDL), sob supervisão de um tribunal federal em Illinois . Havia mais de 450 outros casos registrados na Califórnia e muitos outros espalhados em tribunais estaduais por todo o país.
O aviso de acordo se aplica a pessoas cujos processos fazem parte da MDL e pode fornecer acordos para demandantes em casos fora da MDL também, disse Baghdadi.
No entanto, advogados de autores em casos fora do âmbito da MDL expressaram frustração com a situação, afirmando que não foram incluídos nas discussões sobre o acordo e duvidavam que os termos agregassem valor à maioria dos autores. Eles temem que os autores que não concordarem com o acordo possam ver seus casos atrasados ou de alguma forma impactados negativamente pelo acordo.
“Esses autores estão morrendo todos os dias”, disse Majed Nachawati, advogado cujos clientes estão fora da MDL, a um juiz em uma audiência judicial na Califórnia na terça-feira sobre o assunto. Ele disse que a notícia do acordo foi um “choque” porque ele não foi informado das negociações pelos advogados dos outros autores, como deveria ter sido.
Vários julgamentos foram marcados para começar nos últimos dois anos, mas em todos os casos a Syngenta conseguiu adiá-los. Um caso na Filadélfia, Pensilvânia, agora está marcado para começar no final de maio, após ter sido adiado anteriormente. A Syngenta também conseguiu adiar um julgamento que estava marcado para começar no início de maio no estado de Washington.
“Nós simplesmente não queremos que a questão seja adiada ainda mais”, disse o advogado Curtis Hoke, cujo escritório representa 200 demandantes que processam a Syngenta, ao juiz da Califórnia na audiência de terça-feira.
O paraquate foi introduzido na década de 1960 por um antecessor da gigante global de agroquímicos Syngenta, que agora é uma empresa de propriedade chinesa. O herbicida tornou-se um dos herbicidas químicos mais utilizados no mundo, sendo utilizado por agricultores para controlar ervas daninhas antes do plantio e para secar as plantações antes da colheita. Nos Estados Unidos, o produto químico é usado em pomares, campos de trigo, pastagens de gado, plantações de algodão e em outros locais.
Documentos internos da Syngenta revelados pelo The New Lede mostram que a empresa estava ciente há muitos anos das evidências científicas de que o paraquat poderia impactar o cérebro de maneiras que causam Parkinson, e que secretamente procurou influenciara pesquisa científica para refutar as evidências de danos.
A Syngenta teria sido auxiliada na supressão dos riscos do paraquat por uma empresade “gestão de reputação”chamada v-Fluence. Documentos internos também mostram que a empresa ocultou pesquisas internas prejudiciais da EPA e trabalhou para tentar desacreditar um cientista proeminente cujo trabalho conectou o paraquat ao Parkinson.
A iniciativa da Syngenta para resolver o litígio antes de quaisquer julgamentos de grande repercussão ocorre depois que a Bayer, proprietária da Monsanto, foi abalada por um litígio semelhante, alegando que seu herbicida Roundup causa câncer. Após a empresa perder o primeiro julgamento do Roundup, o preço de suas ações despencou, os investidores ficaram furiosos e a Bayer passou anos e bilhões de dólares lutando para encerrar o litígio em andamento.
Em um trecho exclusivo do novo livro de Friederike Otto, ela diz que os desastres climáticos resultam da desigualdade, bem como dos combustíveis fósseis
Friederike Otto, diretora associada do Instituto de Mudanças Ambientais da Universidade de Oxford e professora associada do Programa Global de Ciência do Clima. Fotografia: Alamy
Minha pesquisa como cientista do clima é em ciência da atribuição. Juntamente com minha equipe, analiso eventos climáticos extremos e respondo às perguntas sobre se, e em que medida, as mudanças climáticas induzidas pelo homem alteraram sua frequência, intensidade e duração.
Quando comecei minha pesquisa, a maioria dos cientistas afirmava que essas perguntas não tinham resposta. Havia razões técnicas para isso: por muito tempo, os pesquisadores não dispunham de modelos meteorológicos capazes de mapear todos os processos relacionados ao clima com detalhes suficientes. Mas havia outras razões que tinham menos a ver com a pesquisa em si.
Imaginemos inundações extremas em Munique, Roma ou Londres e chuvas torrenciais nas favelas de Durban, na costa sul-africana. A forma como as pessoas nesses diferentes lugares vivenciam esse clima extremo depende das condições econômicas e sociais locais e, fundamentalmente, de sua situação política.
Pesquisar o clima – e, portanto, o papel das mudanças climáticas – da maneira como o faço é sempre político, o que o torna um tema desconfortável para muitos cientistas. Acredito ser importante mostrar que ambos os obstáculos – o técnico e o político – podem ser superados; nossos modelos climáticos têm se tornado cada vez melhores, e estamos começando a perceber que a pesquisa não pode ser realizada à distância do mundo real.
Uma área em chamas na floresta amazônica em 2020. Fotografia: Carl de Souza/AFP/Getty Images
Por exemplo, para saber exatamente qual é a magnitude do risco de uma seca – onde e para quem – precisamos de muita informação. Três fatores principais entram em jogo: o perigo natural, nossa exposição ao perigo e a vulnerabilidade com que o abordamos.
Na África Ocidental, em 2022, regiões inteiras sofreram com inundações drásticas durante a estação chuvosa. Essas inundações foram causadas, em parte, por chuvas acima da média que, como minha equipe e eu descobrimos, foram significativamente mais intensas do que teriam sido sem as mudanças climáticas. As chuvas eram consideradas um “risco natural”, mas foram tão exacerbadas pelas mudanças climáticas causadas pelo homem que não eram nada naturais.
Em grande medida, essas inundações – particularmente na Nigéria – foram causadas pelo rompimento de uma barragem no vizinho Camarões, que inundou grandes áreas do densamente povoado delta do Níger, lar de mais de 30 milhões de pessoas. O risco causado pelas chuvas é particularmente alto, tanto para as pessoas quanto para os ecossistemas e infraestruturas locais, como prédios, pontes, estradas e redes de abastecimento de água.
Esta região é particularmente exposta a desastres climáticos e naturais. Uma barragem deveria ter sido construída na parte nigeriana do delta para conter as águas, mas nunca foi construída. Dada a infraestrutura precária e os altos índices de pobreza, a população desta área é particularmente vulnerável, sendo afetada de forma muito mais adversa do que a de outras regiões.
A comunidade de Imburu, no nordeste da Nigéria, ficou quase completamente submersa em setembro de 2022. Fotografia: Radeno Haniel/AFP/Getty Images
Então como o clima se torna um desastre?
Não podemos dizer exatamente como os efeitos das mudanças climáticas variam de acordo com o local e o tipo de clima, mas o que está absolutamente claro é que quanto mais pessoas estiverem em perigo e mais vulneráveis elas forem, maior será o risco.
Aprendemos muito mais nos últimos anos sobre todos os aspectos do risco. Por exemplo, agora está claro que as mudanças climáticas alteram as ondas de calor muito mais do que outros fenômenos climáticos. Em cada estudo que minha equipe e eu realizamos, buscamos responder à pergunta sobre o que essas alterações realmente significam para uma pequena parcela da população global. Nesses estudos – conhecidos como “estudos de atribuição” entre os especialistas – analisamos não apenas dados meteorológicos históricos e atuais, mas também informações sobre densidade populacional, estruturas socioeconômicas e basicamente tudo o que podemos encontrar sobre o evento em si para obter a imagem mais precisa do que aconteceu e a quem.
Somente após todas essas etapas é que questionamos se as mudanças climáticas tiveram algum papel. Para isso, trabalhamos com diversos conjuntos de dados que levam em consideração uma ampla gama de fatores – uso do solo, atividade vulcânica, variabilidade climática natural, níveis de gases de efeito estufa, outros poluentes e muito mais.
Em termos gerais, usamos modelos climáticos para simular dois mundos diferentes: um mundo com mudanças climáticas causadas pelo homem e outro sem. Em seguida, usamos vários métodos estatísticos para calcular a probabilidade ou a intensidade de ondas de calor em locais específicos, com e sem aquecimento global causado pelo homem.
Mas são a vulnerabilidade e a exposição que determinam se o clima se tornará um desastre. Os efeitos de eventos extremos sempre dependem do contexto – quem pode se proteger do clima (e como) é sempre um fator importante. É por isso que o termo “desastre natural” é totalmente equivocado.
Por exemplo, um dos nossos estudos de 2021 mostrou que a insegurança alimentar associada à seca no sul de Madagascar foi causada principalmente pela pobreza, pela falta de estruturas sociais e pela forte dependência da chuva, mas não pelas mudanças climáticas induzidas pelo homem. No entanto, assim como nas enchentes na Nigéria, os relatórios internacionais falaram apenas do tempo e do clima. A mídia internacional mal mencionou que, de fato, a infraestrutura local, que permaneceu inacabada por décadas, desempenhou um papel decisivo na seca desastrosa.
Pessoas indo a uma clínica móvel da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Befeno, Madagascar, preparada para tratar os casos mais graves de desnutrição moderada e grave após a seca de 2021. Fotografia: RIJASOLO/AFP/Getty Images
A forma como eventos extremos são noticiados – onde a mídia concentra sua atenção – não influencia apenas as medidas de resposta que consideramos possíveis. Influencia também quem consideramos responsável pela implementação das próximas etapas necessárias. Descrever o clima extremo como um momento singular que nos diz algo sobre as mudanças climáticas, e nada mais, oculta os fatores que têm tanto (se não mais) impacto nos efeitos do clima e fornece aos políticos uma estrutura de discussão útil enquanto tentam desviar a atenção da tomada de decisões e do planejamento locais deficientes.
Há duas razões principais para a infraestrutura tão deficiente e, muitas vezes, inexistente em Madagascar e na Nigéria: a destruição constante das estruturas sociais locais sob o domínio colonial europeu e a extrema desigualdade populacional – desigualdade entre gêneros, entre ricos e pobres, entre diferentes grupos étnicos. É por causa de fatores como esses que as mudanças climáticas se tornam um problema tão ameaçador à vida.
A principal lição que aprendi com eventos climáticos extremos é que a crise climática é moldada em grande parte pela desigualdade e pelo domínio ainda incontestável de estruturas patriarcais e coloniais, que também impedem a busca séria pela proteção do clima. Em contraste, mudanças físicas, como chuvas mais intensas e solo mais seco, têm apenas um efeito indireto. Em suma, a mudança climática é um sintoma desta crise global de desigualdade e injustiça, não sua causa.
Desastres climáticos são, em grande parte, uma questão de desigualdade e injustiça, não de infortúnio ou destino. Isso se aplica a nível local, por exemplo, quando estruturas patriarcais insistem que mulheres grávidas que vivem em sociedades tradicionais trabalhem ao ar livre, sob calor extremo, porque trabalhar nos campos para consumo próprio é “trabalho de mulher”. Ou quando a ajuda financeira é paga ao chefe de família e nunca chega aos responsáveis por colocar comida na mesa.
Mas a injustiça também se manifesta em escala global. A ciência climática é uma área dominada por homens brancos, a maioria com formação em ciências naturais, que conduzem e lideram principalmente estudos focados nos aspectos físicos do clima, ignorando inúmeras outras questões. É por isso que poucos estudos abordam as interações globais entre mudanças sociais e físicas em um clima em evolução.
Não é de se admirar que não tenhamos resultados de pesquisas confiáveis que possam nos informar sobre as questões de perdas e danos na política climática global com base científica. Isso torna ainda mais difícil demonstrar como séculos de práticas coloniais do Norte global contra os países do Sul global continuam a influenciar a maneira como vivemos, pensamos e agimos.
Não é novidade que as mudanças climáticas são um problema principalmente porque ferem a dignidade das pessoas e os direitos humanos fundamentais. Aliás, é por isso que falamos sobre elas em nível internacional.
As conferências das Nações Unidas sobre mudanças climáticas nunca foram sobre ursos polares ou a ruína da raça humana. Sempre foram sobre vidas humanas e inúmeros meios de subsistência – e, claro, sobre questões econômicas. Isso é demonstrado pelo debate sobre a meta de limitar o aquecimento global a 2°C acima dos níveis pré-industriais.
Embora isso inclua considerações de custo-benefício econômico, trata-se, acima de tudo, de um objetivo político que não leva em conta a ciência: nenhuma avaliação científica jamais defendeu ou recomendou uma meta específica – e com razão, porque estabelecer tais metas é, em última análise, uma questão ética. Pode ser expressa como uma simples questão política: quantas vidas humanas a mais, quantos recifes de corais a mais, quantos insetos a mais permitiremos perder para o uso contínuo de curto prazo de combustíveis fósseis comparativamente baratos no hemisfério norte?
Ondas de calor na América do Norte e na África Ocidental, secas na África do Sul e em Madagascar, incêndios florestais na Austrália e no Brasil, inundações na Alemanha e no Paquistão: esses eventos fundamentalmente diferentes atingem sociedades que lutam contra problemas muito diferentes, e todos eles demonstram o papel das mudanças climáticas de maneiras diferentes.
Uma piscina cercada pelas águas da enchente em Essen, oeste da Alemanha, em 26 de dezembro de 2023. Fotografia: Ina Fassbender/AFP/Getty Images
Mas sempre se prova verdade que as pessoas que morrem são aquelas com pouco dinheiro e que não conseguem obter prontamente toda a ajuda e informação de que precisam. E isso não precisa ser assim, não importa onde estejam.
Na minha opinião, o fato de isso continuar acontecendo se deve a uma narrativa social específica e persistente. A premissa básica é que a queima de combustíveis fósseis é essencial para manter o que chamamos de prosperidade, e que a “liberdade” não é possível se impusermos um limite de velocidade.
Se comparássemos a sociedade moderna com a de 300 anos atrás, atribuiríamos, sem questionamentos, muitas das conquistas dos últimos séculos – como o acesso à água potável – à queima de energias fósseis. Historicamente, associamos carvão, petróleo e gás à democracia e aos valores ocidentais, identificando um nexo causal entre briquetes de carvão e o Estado de bem-estar social: um afeta o outro. Mas mesmo quando isso é de fato verdade, sempre nos esquecemos de apontar que a conclusão inversa – um perece e o outro se vai junto – é tão fatal quanto falsa.
Tanto o Norte quanto o Sul globais continuam a argumentar que, por razões de justiça, os países do Sul global também devem, inicialmente, ter emissões muito altas de gases de efeito estufa, para garantir o crescimento de suas economias. Isso ignora completamente o fato de que, no Norte global (assim como em outros lugares), os pobres pagam pelo estilo de vida de um pequeno número de pessoas ricas, sejam os trabalhadores que trabalham nas minas de metais ou os moradores das cidades, sujeitos a uma maior poluição do ar devido ao uso de veículos particulares. Quem disse que o que acontece no Norte global é naturalmente melhor e deve ser imposto ao mundo?
A mudança climática ainda existiria se a Europa não tivesse conquistado colônias, mas os humanos ainda tivessem queimado fontes de energia fósseis – mas as coisas teriam sido muito diferentes sem a mentalidade colonial vigente no Ocidente. Em essência, a mudança climática colonial-fóssil não é, portanto, uma crise climática, mas uma crise de justiça.
A mudança climática é um problema que tem menos a ver com o colapso climático ou outras condições físicas do que imaginamos, e suas consequências são mais abrangentes do que estávamos dispostos a admitir. Isso nos mostra claramente que a principal forma pela qual atualmente pesquisamos e combatemos a mudança climática – como um problema de física – é insuficiente. Obviamente, precisamos transformar a forma como obtemos energia. Acima de tudo, porém, precisamos transformar a participação na vida social e a aplicação do poder político e econômico – quem toma as decisões e como.
Este é um extrato editado de Climate Injustice, de Friederike Otto, que será publicado pela Greystone Books em 24 de abril (£ 22)
Pecuaristas brasileiros no Pará e em Rondônia dizem que JBS não consegue atingir meta de gado livre de desmatamento
Jonathan Watts , Naira Hofmeister, Daniel Camargos, Lucy Jordan e Ana Aranha. Gráficos de Paul Scruton e Lucy Swan para o “The Guardian”
A maior empresa de carnes do mundo, a JBS, parece prestes a quebrar suas promessas de proteção da floresta amazônica novamente, de acordo com trabalhadores da linha de frente.
A produção de carne bovina é a principal causa do desmatamento, com o corte de árvores para a criação de gado. Cientistas alertam que isso está levando a Amazônia para perto de um ponto crítico que aceleraria sua transformação de sumidouro de carbono em emissor. A JBS, multinacional com sede no Brasil que domina o mercado de gado brasileiro, prometeu enfrentar essa situação com o compromisso de limpar sua cadeia de suprimentos de carne bovina na região até o final de 2025.
Em um projeto para entender as barreiras ao progresso do desmatamento na Amazônia, uma equipe de jornalistas do Guardian, Unearthed e Repórter Brasil entrevistou mais de 35 pessoas, incluindo pecuaristas e líderes sindicais que representam milhares de fazendas nos estados do Pará e Rondônia. A investigação constatou a descrença generalizada de que a JBS conseguiria concluir o trabalho de base e atingir suas metas de desmatamento.
“Eles certamente têm a vontade de fazer isso, assim como nós temos a vontade de fazer isso”, disse um fazendeiro. Mas a meta de que todo o gado que eles comprassem fosse livre de desmatamento era inalcançável, disse ele. “Eles dizem que isso vai ser implementado. Eu diria de cara: é impossível.” O problema da lavagem ilegal de gado também não seria resolvido a tempo, disseram muitos, enquanto outro entrevistado disse que questões de propriedade da terra significavam simplesmente que o prazo era “impossível”.
A JBS declarou ao Guardian que contestou as conclusões. “Tirar inferências e conclusões de uma amostra limitada de 30 agricultores, ignorando que a JBS possui mais de 40.000 fornecedores registrados, é totalmente irresponsável”, afirmou a empresa em um comunicado. Afirmou que “embora os desafios setoriais sejam significativos e maiores do que qualquer empresa pode resolver sozinha, acreditamos que a JBS possui um conjunto sólido e aprofundado de políticas, sistemas e investimentos integrados que estão gerando um impacto material e positivo na redução dos riscos de desmatamento”.
Áreas cobertas por pastagens na Amazônia até 2023 mostradas em amarelo
O governador do Pará, Helder Barbalho, que apoiou o plano de rastreabilidade, espera que a JBS cumpra o prazo, mas reconheceu que houve resistência e que os pequenos produtores, em particular, precisariam de mais apoio. Ele afirmou que o Fundo Bezos para a Terra havia comprometido R$ 143 milhões para essa tarefa: “Ainda estamos mobilizando recursos para financiar essa política que é muito importante para nós apresentarmos aos pecuaristas.”
Mas fazendeiros e sindicatos de fazendeiros entrevistados pelo Guardian e seus parceiros disseram que os obstáculos técnicos e as incertezas sobre a propriedade da terra — muitas fazendas foram criadas pela invasão de terras públicas — não tinham chance de serem resolvidos dentro do prazo autoimposto pela empresa.
Adelosmar Antonio Orio, conhecido como Ticão, que trabalha no Sindicato dos Produtores Rurais de Tucumã-Ourilaãndia, disse que os desafios logísticos, como a necessidade de equipamentos especiais pelos pecuaristas, incluindo rastreadores auriculares e sistemas de internet via satélite, tornariam o projeto impossível de ser concluído antes do prazo final do ano. “Nem eles [JBS] sabem como essa rastreabilidade será implementada”, disse ele. Outros argumentaram que os novos pequenos e médios produtores estavam sendo solicitados a arcar com a maior parte do ônus do novo sistema e que a JBS e o governo não haviam feito o suficiente para explicar o novo sistema de rastreamento e fornecer o suporte tecnológico necessário para que ele funcionasse.
A espinhosa questão da propriedade da terra também seria impossível de resolver, argumentaram muitos, incluindo Cristina Malcher, presidente da Comissão de Mulheres no Agronegócio, uma organização nacional de defesa das mulheres na agricultura. “O prazo de 2025 é impossível de cumprir, porque se você não sabe quem é o dono da terra, então não há regularidade ambiental”, disse Malcher ao Guardian.
Ticão concordou. “Até o final do ano, precisamos resolver todos os problemas de terra, todos os problemas ambientais.” Seria possível fazer isso a tempo? “Definitivamente não”, disse ele. Seus colegas sindicais expressaram descrença semelhante de que o prazo seria cumprido.
A investigação também ouviu fornecedores indiretos que admitiram abertamente o uso de intermediários para limpar o histórico ambiental de seus rebanhos, prática conhecida como lavagem de gado. Vários produtores previram que um novo sistema de rastreamento levaria a novas brechas, como o abate do gado em outro local e a venda da carne – em vez de gado vivo – a um preço baixo para a JBS.
Os estados do Pará e Mato Grosso respondem por 66% do desmatamento da Amazônia desde 1988 Desmatamento anual na Amazônia legal, mil km²
Gráfico do Guardian Fonte: TerraBrasilis, Prodes. Nota: os presidentes interinos entre o primeiro mandato de Lula e o de Bolsonaro não estão identificados
A JBS ainda não mapeou toda a sua cadeia de suprimentos, prevista para o final deste ano, devido aos seus compromissos de desmatamento. Mas a empresa afirmou: “A JBS já registrou o equivalente a mais de 80% de suas compras anuais de gado em uma plataforma de pecuária transparente, baseada na web e habilitada para blockchain.”
A JBS já foi associada ao desmatamento em diversas ocasiões, e a procuradora-geral de Nova York, Letitia James, entrou com uma ação judicialno ano passado acusando a empresa de enganar os consumidores com suas metas climáticas, na tentativa de aumentar as vendas. Um grupo bipartidário de 15 senadores americanos instou a Securities and Exchange Commission (SEC) a rejeitar o pedido de listagem de ações da JBS. “Dezenas de reportagens jornalísticas e de ONGs mostraram que a JBS está associada a mais destruição de florestas e outros ecossistemas do que qualquer outra empresa no Brasil”, escreveramem carta aberta .
A JBS declarou ao Guardian: “Os desafios de lidar com o desmatamento ilegal em operações pecuárias que abrangem milhões de fazendas em centenas de milhares de quilômetros quadrados são significativos”. A empresa detalhou sua resposta, que inclui tolerância zero para a política de origem do desmatamento, monitoramento de ponta da cadeia de suprimentos, assistência técnica gratuita para produtores para ajudar a regularizar suas fazendas e o Fundo JBS para a Amazônia, quefinancia projetos focadosno desenvolvimento sustentável do bioma Amazônia.
A empresa também afirmou: “A JBS trabalha com agricultores, pecuaristas e parceiros em todo o sistema alimentar para desenvolver soluções que apoiem uma população global crescente, otimizando recursos e reduzindo o impacto ambiental da agricultura. A pecuáriana Amazônia está passando por uma transformação setorial, e uma única empresa não pode resolver todos os desafios do setor.”
O cultivo do cacau muitas vezes ocorre em detrimento dos padrões sociais e ecológicos
Foto: dpa/Christophe Gateau
Por Jan Urhahn para o “Neues Deutschland”
O ar é fresco e fresco, repleto do doce aroma de biscoitos recém-assados, galhos de pinheiro e do aroma tentador de chocolate quente. Nas ruas festivamente decoradas, os mercados de Natal estão cheios de deliciosas guloseimas de chocolate que convidam você a um banquete. A época do Natal é época de chocolate. Mas cultivar grãos de cacau também tem suas desvantagens.
O cacau, base de todo chocolate, tem origem na Amazônia. Seja puro, como medicamento ou como meio de pagamento, a história da planta do cacau e seus diversos usos remontam a mais de 5.000 anos. Foi somente em meados do século XVI que o cacau chegou ao continente europeu e de lá conquistou o mundo inteiro. No entanto, esse caminho foi marcado pelo colonialismo e pela exploração de pessoas e recursos.
Cultivar, cuidar e colher cacau é um trabalho manual árduo – mesmo hoje. As plantas de cacau precisam de um clima tropical para prosperar. Eles precisam de muito calor e umidade. Portanto, o cacau só pode ser cultivado em algumas regiões ao redor do Equador.
Cerca de três quartos do cacau do mundo são cultivados na África Ocidental. Lá, Costa do Marfim e Gana são os principais países produtores, respondendo por cerca de 60% da produção global. Outros 18% vêm da América Central e do Sul, região de origem do cacau, e cinco por cento de países asiáticos, como Indonésia e Papua Nova Guiné. Cerca de 90% do cultivo de cacau ocorre em pequenas parcelas de dois a cinco hectares; Ela fornece meios de subsistência para cerca de 5,5 milhões de famílias de pequenos agricultores no mundo todo. O cacau restante é cultivado em grandes plantações, muitas das quais datam da época colonial.
Na Costa do Marfim, por exemplo, os colonizadores franceses cultivavam cacau desde o final do século XIX. Dezenas de milhares de pessoas foram deslocadas e realocadas à força para trabalhar nas plantações de cacau. Durante esse período, foram lançadas as bases para a dependência da economia marfinense de matérias-primas, que continua até hoje.A Fundação Rosa Luxemburgo mantém mais de duas dúzias de escritórios estrangeiros em todos os continentes. Como parte de um projeto de cooperação com a »nd«, os funcionários relatam regularmente sobre os desenvolvimentos em diversas regiões.
Os consumidores na Alemanha consomem cerca de nove quilos de chocolate per capita anualmente . A República Federal da Alemanha importa a maior quantidade de cacau bruto, ou seja, a base de chocolate, da Costa do Marfim. Em 2022, foi responsável por mais de dois terços do cacau importado, com mais de 300.000 toneladas. O restante é distribuído entre Gana (14%), Nigéria (8%), Equador (5%) e alguns outros países.
As florestas tropicais dando dar lugar às plantações de cacau
O cultivo do cacau está associado a uma infinidade de problemas. Um deles é o desmatamento. Na África Ocidental, até 90% das florestas primárias desapareceram nos últimos 30 anos, principalmente devido ao cultivo de cacau. Somente entre 2000 e 2019, 2,4 milhões de hectares de floresta foram substituídos por plantações de cacau na Costa do Marfim. Um quarto de todas as plantações de cacau estão agora localizadas em áreas protegidas.
Ao mesmo tempo, o desmatamento no cultivo do cacau causa emissões significativas de gases de efeito estufa e, portanto, impulsiona as mudanças climáticas. Os efeitos da crise climática, como aumento das temperaturas, aumento da seca e chuvas imprevisíveis, já estão sendo sentidos nas regiões produtoras de cacau.
No cultivo do cacau, o foco está em aumentar ainda mais a produtividade e usar a terra agrícola de forma mais intensiva. Uma maneira simples de fazer isso é usar fertilizantes e pesticidas artificiais. Somente na Costa do Marfim, o uso de pesticidas sintéticos no setor do cacau aumentou doze vezes nos últimos vinte anos. Muitos produtores de cacau pulverizam pesticidas sem equipamento de proteção porque não têm condições financeiras para isso. Outro grande problema é que os resíduos de pesticidas muitas vezes não são descartados adequadamente. Latas contendo resíduos de pesticidas são simplesmente descartadas em algum lugar ou armazenadas em residências. As pessoas entram em contato com resíduos de pesticidas tóxicos e ficam doentes, enquanto em outros lugares esses resíduos infiltram-se no solo ou fluem para os cursos d’água.
Especulação em bolsas de futuros de commodities
O cacau é negociado em mercados futuros de commodities desde a década de 1970. Os mercados mais importantes são as bolsas de valores de Nova York (ICE Futures US) e Londres (LIFFE). Os comerciantes compram e vendem cacau na forma de contratos futuros que estipulam a entrega de uma quantidade específica de cacau em um horário e preço especificados. Os preços nos mercados futuros influenciam os preços reais do cacau em todo o mundo. Além dos comerciantes de cacau, também há muitos especuladores nos mercados futuros de commodities que apostam na queda ou na alta dos preços do cacau para obter lucros.
A liberalização dos mercados de cacau na década de 1990 teve um impacto significativo no comércio de cacau. Muitos países começaram a desmantelar os monopólios estatais e as regulamentações de preços. Esta política visava promover a concorrência e abrir mercados às empresas. Desde então, os preços altamente flutuantes dificultam que os produtores de cacau alcancem rendas estáveis.
A maior parte da criação de valor na cadeia de produção do chocolate, assim como em muitos outros produtos, ocorre no hemisfério norte.
Grandes corporações internacionais dominam os mercados de cacau e exercem considerável poder de mercado. As maiores delas incluem Barry Callebaut (Suíça), Cargill e Olam International. Os líderes do mercado de chocolate da Europa incluem Mars Incorporated, Ferrero, Mondelez International, Nestlé e Lindt & Sprüngli. No mercado alemão, a Lindt & Sprüngli sozinha tem uma participação de mercado de mais de 25%.
A maior parte da criação de valor na cadeia de produção do chocolate, assim como em muitos outros produtos, ocorre no hemisfério norte. Mais de um quarto do preço que os consumidores pagam por uma barra de chocolate vai para os fabricantes de chocolate; Mais de 40% acabam nos bolsos dos supermercados. Os produtores de cacau, que na década de 1970 recebiam cerca de metade do valor de uma barra de chocolate, agora recebem apenas seis por cento. Muitos deles, especialmente na África Ocidental, vivem abaixo da linha de pobreza absoluta, atualmente de 2,15 dólares por dia.Costa do Marfim
Trabalho infantil em plantações
Portanto, as baixas rendas mal são suficientes para a sobrevivência dos produtores de cacau. Para evitar mão de obra cara, os agricultores muitas vezes empregam seus próprios filhos nas plantações. A Universidade Tulane, nos Estados Unidos, estima que mais de 530.000 crianças em Gana e na Costa do Marfim precisam trabalhar em plantações de cacau.
Renda insuficiente e preços flutuantes podem contribuir para conflitos; Por outro lado, as receitas do comércio de cacau também são usadas para financiar conflitos – como aconteceu na Costa do Marfim. Um dos motivos da guerra civil em 2002 foi a deterioração da situação econômica devido à queda dos preços do café e do cacau. O desemprego e a insatisfação da população aumentaram rapidamente. Como resultado, forças xenófobas e nacionalistas ganharam influência, rebaixando muitas pessoas do norte, cujos ancestrais vieram do Mali ou de Burkina Faso, a cidadãos de segunda classe. As receitas do comércio de cacau desempenharam um papel importante no financiamento do conflito.
Os preços do cacau vêm subindo vertiginosamente há vários meses. No passado, o preço de mercado mundial para uma tonelada de cacau era geralmente entre 1.500 e 2.200 dólares americanos. O preço aumentou cinco vezes para mais de US$ 11.000 somente entre março de 2023 e abril de 2024. Desde então, o preço do cacau vem caindo novamente e estava em pouco mais de US$ 7.000 por tonelada em julho de 2024.
Os preços estão disparando
As razões para os aumentos de preços são complexas: em quase nenhuma outra parte do mundo a mudança climática é tão perceptível quanto na África Ocidental, onde estão localizadas as principais áreas de cultivo de cacau. Embora a estação chuvosa geralmente termine quando a colheita do cacau começa, no ano passado ela durou toda a colheita do cacau, criando um ambiente ideal para a proliferação de pragas e doenças. Somado a isso, há a Doença da Panela Preta, uma doença fúngica da árvore do cacau na qual as vagens do cacau ficam pretas diretamente na árvore e caem antes de amadurecerem. Ambas levaram a perdas significativas na colheita e, ao mesmo tempo, aumentaram a demanda. Somou-se a isso a especulação nos mercados futuros de commodities. Investidores institucionais, como fundos ou grandes empresas de chocolate, foram os principais beneficiados com isso. Particularmente em Gana e na Costa do Marfim, onde o preço do cacau é definido antecipadamente pelo governo no início da temporada, os produtores de cacau até agora se beneficiaram pouco dos altos preços.
A chave para cadeias de suprimentos de cacau sustentáveis e preparadas para o futuro são preços mínimos estáveis e parcerias fortes com contratos de longo prazo que permitam segurança no planejamento. Para isso, é preciso pôr fim à especulação com o cacau; Igualmente importante é o pagamento de um salário digno aos agricultores. Os preços mínimos governamentais em Gana e na Costa do Marfim são insuficientes e devem ser aumentados. Isso requer limitar o poder de mercado das grandes empresas de chocolate. Além disso, as empresas devem ser forçadas, por meio de controles governamentais, a cumprir com suas obrigações legais de diligência.
Promover a criação de valor nos países produtores também pode ajudar as famílias locais a gerar rendas mais altas. Para atingir isso, é preciso desenvolver capacidades para processamento posterior do cacau e fornecer às famílias de agricultores os recursos necessários para mudar para um cultivo de cacau sustentável e resiliente ao clima.
Uma abordagem possível é o cultivo em sistemas agroflorestais. Isso se refere a sistemas de uso da terra nos quais árvores ou arbustos são combinados com culturas aráveis em uma área. Benefícios ecológicos e econômicos surgem então entre os vários componentes. Para os produtores de cacau, isso significaria cultivar frutas ou vegetais além dos grãos de cacau. Isso aumenta a fertilidade do solo e reduz o uso de fertilizantes artificiais. Além disso, isso proporcionaria às famílias de agricultores fontes adicionais de renda caso houvesse quebra de safra ou o preço do cacau no mercado mundial caísse.
Lembre-se: é possível desfrutar de chocolate de verdade no Natal.
Jan Urhahn lidera o Programa de Soberania Alimentar da Fundação Rosa Luxemburgo, sediada em Joanesburgo, África do Sul.
Mark Zuckerberg e sua empresa estão enfrentando um dos maiores casos de anti-monopólio em décadas
Por Harri Weber para o “Quartz”
Em um julgamento antitruste de grande sucesso que está apenas começando, a Comissão Federal de Comércio está argumentando que a Meta (META ) abusou de seu domínio nas redes sociais como parte de uma estratégia de “comprar ou enterrar” para reprimir ameaças emergentes.
Há várias questões-chave no caso da FTCcontra a empresa controladora do Facebook, incluindo se o Meta é tão dominante quanto os reguladores afirmam na era do TikTok e se as mídias sociais estão, na verdade, em pior situação hoje devido à suposta estratégia do Facebook para neutralizar seus concorrentes. O Facebook adquiriu o Instagram em 2012 e o WhatsApp em 2014, e a gigante das redes sociais também tentou, sem sucesso, comprar o Snapchat (SNAP) em 2013, antes de copiar seu principal recurso — os stories. Anteriormente, o Facebook tentou comprar o Twitter, e o ex-CEO Jack Dorsey teria considerado o acordo por temer que o Facebook pudesse retaliar copiando-o.
Enquanto os tribunais reviravam essas e outras questões, o que estaria em jogo para o império de mídia social de Mark Zuckerberg se a FTC conseguisse vencer? Muita coisa, considerando que o valor de mercado da Meta agora é de aproximadamente US$ 1,3 trilhão.
Se a FTC conseguir vencer o caso, “acredito que a solução mais provável será algum tipo de desinvestimento ou uma dissolução”, disse Rebecca Allensworth, especialista em direito antitruste e reitora associada de pesquisa da Universidade Vanderbilt, à Quartz. “E, portanto, a Meta pode perder o Instagram, o WhatsApp ou ambos.” Mas Allensworth alertou que isso é um grande “se”.
“Não acho que seja óbvio que eles vão ter sucesso, mas é bem possível que tenham”, disse ela.
Então, a Meta pode ser forçada a desfazer suas aquisições do Instagram e do WhatsApp — mas o que isso realmente significaria para seus negócios de publicidade hoje?
“Há muito em jogo para a Meta; ela pode perder até metade de seus negócios com anúncios”, disse Jasmine Enberg, vice-presidente e analista principal da eMarketer. A empresa de pesquisa prevê que o Instagram sozinho represente 50,5% da receita publicitária da Meta nos EUA este ano, e uma venda forçada ou cisão pode prejudicar a capacidade da Meta de crescer no futuro.
“O Instagram vem há muito tempo compensando a falta de usuários do Facebook, especialmente entre os jovens”, disse Enberg. “E embora o Meta seja enorme e o Facebook ainda seja a maior plataforma social do mundo”, o Meta precisa do Instagram para continuar crescendo, acrescentou Enberg, já que a Geração Z e os usuários mais jovens “recorrem às mídias sociais pela primeira vez”.
Enberg explicou que o panorama geral das mídias sociais mudou drasticamente desde que o Facebook adquiriu o Instagram em 2012, quando o Snapchat tinha acabado de ser lançado e o TikTok ainda nem existia. Hoje, disse ela, o comportamento do usuário é mais fragmentado, com as pessoas recorrendo a muitos aplicativos diferentes ao longo do dia. “E”, acrescentou, “as plataformas sociais também competem com players não sociais, como provedores de entretenimento”.
Embora muitos aplicativos com recursos sociais estejam disputando a atenção dos usuários, Enberg disse: “No lado comercial, ainda está incrivelmente consolidado em direção ao Meta, principalmente se você considerar apenas os gastos com anúncios sociais”. A EMarketer projeta que 72,5% de todos os gastos com anúncios sociais nos EUA irão para o Meta em 2025.
Grande parte disso tem a ver com o Instagram, mas o WhatsApp também é um grande trunfo para a Meta. Embora o aplicativo de bate-papo não hospede anúncios, a Meta tem recorrido amensagens corporativaspara diversificar sua receita, disse Enberg. Além disso, a base de vários bilhões de usuários do WhatsApp dá à Meta “um alcance enorme, bem como alguns dados para ajudar a sustentar seu negócio de anúncios”, acrescentou.
Os altos riscos neste caso vão muito além da Meta, disse Prasad Krishnamurthy, professor da Universidade da Califórnia, Berkeley, que estuda regulamentação financeira e direito antitruste. “A solução que o governo busca, que é desmembrar a empresa, é uma solução bastante substancial que mudaria não apenas a experiência dos consumidores, mas também todo o ecossistema de comunicação da nossa cultura”, disse ele. “Acho que é justo dizer que este é um caso enorme.”
Mas será que a dissolução da Meta realmente se concretizará? Em uma declaração por e-mail, Stephanie Link, estrategista-chefe de investimentos da Hightower Advisors, afirmou que seu “argumento base é um acordo”. Link acrescentou que a Meta já cedeu ao presidente Trump de várias maneiras, incluindo o encerramento de seus esforços profissionais de verificação de fatos e diversidade, e o pagamento de US$ 25 milhões ao presidente após expulsá-lo do Instagram e do Facebook.
Citando a concorrência que a Meta enfrenta com o TikTok eos desdobramentos anteriores do caso , Link afirmou, por fim, que não vê “nenhuma mudança no crescimento de 20% da receita e de 40% da margem operacional [da Meta]. Ela é negociada agora a um preço/lucro futuro de 19x e caiu 30% em relação às máximas recentes – que foi quando comecei a comprar. E continuará.”
Produção de carne bovina emite mais do que o dobro do limite das metas de gases de efeito estufa
Em 2023, o Brasil bateu recorde na exportação de carne bovina, com 2,29 milhões de toneladas vendidas para 157 países
Luciana Constantino | Agência FAPESP
Um dos pilares da economia brasileira e um dos setores responsáveis pelas maiores emissões de gases de efeito estufa, a produção de carne bovina no Brasil, da forma como é feita atualmente, emite mais do que o dobro do limite necessário para cumprir metas ambientais internacionais. Essa é uma das conclusões de uma pesquisa publicada na revista Environmental Science and Pollution Research.
O trabalho traz uma avaliação de cenários preditivos de emissões, juntamente com uma valoração econômica. As pesquisadoras calcularam que as emissões do setor podem variar de 0,42 a 0,63 gigatonelada de CO2 equivalente (GtCO2e) até 2030, enquanto o limite para atender à meta da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) seria de 0,26 GtCO2e. Por outro lado, estratégias de mitigação ao longo da cadeia produtiva poderiam evitar perdas de até US$ 42,6 bilhões e garantir maior competitividade.
A NDC (sigla em inglês para Nationally Determined Contributions) é o compromisso que os países assumiram no Acordo de Paris, assinado em 2015 e que passará por revisão neste ano até a COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), a ser realizada em Belém (PA).
No compromisso estão as metas de redução de emissões dos países, com diretrizes para a transformação do modelo de desenvolvimento, abrangendo todos os setores da economia. O objetivo global é limitar o aumento da temperatura média do planeta a 1,5°C em relação ao período pré-industrial (entre 1850 e 1900). Esse limite, no entanto, vem sendo colocado em risco – 2024 foi o ano mais quente da história, com aumento médio da temperatura global de 1,55°C, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM).
O estudo usou como base a NDC em vigor até 2024 – redução das emissões em 43% até 2030 em comparação a 2005. Em novembro, o Brasil entregou à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) a nova contribuição, com o compromisso de reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa entre 850 milhões e 1,05 bilhão de toneladas de CO2 equivalente até 2035 – uma queda de 59% a 67% em comparação aos níveis de 2005.
“Sabemos da importância do setor de carne bovina não só para a economia como para o cardápio dos brasileiros. Nosso objetivo não é dizer: produzam ou comam menos carne, mas sim trazer uma discussão sobre a forma atual de produção, que vem atrelada ao desmatamento, a altas emissões e sem adotar técnicas sustentáveis. Assim, não conseguiremos cumprir as metas climáticas estabelecidas. Nossas descobertas mostram que é preciso adotar na cadeia produtiva práticas que mitiguem as emissões. Isso contribui também com a redução dos custos associados às mudanças climáticas”, diz a primeira autora do artigo, a bióloga Mariana Vieira da Costa, do Laboratório de Economia, Saúde e Poluição Ambiental (Lespa) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
No trabalho, as autoras usaram o chamado custo social do carbono (CSC), uma forma de quantificar o impacto financeiro das emissões na sociedade, sendo uma referência para a construção de políticas climáticas e tomada de decisões.
O CSC representa os custos econômicos causados pela emissão de uma tonelada de CO2, incluindo impactos não comerciais sobre o meio ambiente e a saúde humana e incorporando consequências, como perdas na agricultura e danos provocados por eventos climáticos extremos. Esses custos podem ser reduzidos ou redirecionados para investimentos em práticas de produção pecuária mais sustentável por meio de políticas públicas e linhas de crédito acessíveis.
Segundo a pesquisa, o potencial de redução de custos varia entre US$ 18,8 bilhões e US$ 42,6 bilhões até 2030 dependendo do cumprimento das metas.
Em 2023, o Brasil bateu recorde na exportação de carne bovina, com 2,29 milhões de toneladas vendidas para 157 países, atingindo um faturamento de US$ 10,55 bilhões. As cientistas consideraram a relevância da exportação de carne bovina para o Brasil ao calcular quanto estaria disponível para consumo interno em 2030, caso a produção fosse reduzida para se manter dentro do limite de emissão de 0,26 GtCO2e, necessário para o cumprimento da NDC. O resultado obtido foi de 2 a 10 kg de carne bovina per capita (no ano).
“Sempre quis estudar a relação da pecuária bovina com as mudanças climáticas. No início, tivemos dificuldades de encontrar dados mais refinados. Por isso, criamos nosso indicador”, complementa Costa, que contou com a orientação da professora Simone Miraglia, líder do Lespa-Unifesp e coautora do artigo juntamente com a bióloga Daniela Debone.
Para Miraglia, os resultados são importantes, pois, se não houver reduções expressivas nas emissões de gases de efeito estufa, o aumento da temperatura média global acarretará impactos econômicos adicionais, como a redução da produção agrícola, o aumento dos incêndios florestais e a intensificação dos efeitos sobre a saúde, incluindo a mortalidade, por exemplo.
Cenário
Em um período de quase quatro décadas (1985 a 2022), a área ocupada pela agropecuária no Brasil cresceu 50%, ficando em 282,5 milhões de hectares – um terço do território nacional. Do total, 58% são de pastagens (atualmente em 164,3 milhões de hectares), de acordo com levantamento do MapBiomas.
Cerca de 64% da expansão da agropecuária foi resultado do desmatamento para pastagem (64,5 milhões de hectares). Esse crescimento se deu, principalmente, na Amazônia, levando o bioma a superar o Cerrado em área de pastagem.
As cientistas apontam a necessidade de sinergia entre pesquisa e produtores rurais com o objetivo de promover práticas de produção mais eficientes e de baixa emissão, buscando técnicas e tecnologias ambientalmente sustentáveis. Além disso, destacam o papel que o governo federal pode desempenhar na mediação e integração da pesquisa e da adoção de tecnologias pelos produtores.
Citam que, embora o Plano ABC+ atualmente facilite investimentos dos pecuaristas em práticas intensivas, sua adoção ainda é baixa. O Plano de Adaptação e Baixa Emissão de Carbono na Agricultura (ABC+) é uma agenda do governo brasileiro, a ser executada entre 2020 e 2030, que dá continuidade à política setorial para enfrentamento à mudança do clima no setor agropecuário. Além de criar e fortalecer mecanismos para adoção de sistemas e práticas de produção sustentáveis, busca diversificar fontes e instrumentos financeiros e fiscais.
Costa destaca que a diversificação de incentivos, como isenções fiscais e a implementação de créditos de carbono, é essencial para estimular e promover mudanças significativas em larga escala no setor.
O trabalho teve o apoio da FAPESP por meio de bolsa de estudo a Costa e de outroprojeto com abordagem para analisar emissão de gases de efeito estufa, mudanças climáticas e indicadores de saúde.
Por meio de defesa de políticas e campanhas populares, o Center for Food Safety (CFS), o Moms Across America e muitas outras organizações dos EUA estão lutando contra uma campanha coordenada e apoiada pela indústria química que ameaça décadas de proteções duramente conquistadas contra a exposição a agrotóxicos por meio de esforços simultâneos nos níveis estadual e federal.
No final de março, a CFS envioucomentários de especialistas sobre políticas, juntamente com mais de 10.000 comentários de seus membros, solicitando à Agência de Proteção Ambiental (EPA) que negasse uma petição de regulamentação com implicações desastrosas para as regulamentações de agrotóxicos nos EUA.
O CFS e outras organizações estão se opondo a esses esforços para restringir severamente a autoridade de longa data dos estados para implementar advertências de agrotóxicos s mais fortes do que o permitido pelos padrões federais, protegendo assim os seus fabricantes de responsabilidade quando as pessoas são prejudicadas por seus produtos.
“Este ataque multifacetado representa uma das ameaças mais sérias à proteção da saúde pública contra agrotóxicos que vimos em décadas”, disse Amy van Saun, Advogada Sênior da CFS. “Se bem-sucedidos, esses esforços não só impediriam os estados de alertar os moradores sobre os perigos dos venenos agrícolas, como também impediriam as vítimas de exposição a essas substâncias químicas de buscar justiça.”
Dezenas de milhares de mães e apoiadores têm telefonado e enviado e-mails para impedir esses projetos de lei de imunidade a agrotóxicos do tipo “Make America $ick Again“ . É inconcebível que nossos representantes eleitos se deixem enganar, acreditando que estão protegendo agricultores. A única coisa que estão protegendo são os fundos da Bayer e do executivo da ChemChina para uma terceira casa de praia. Se a Bayer realmente quisesse evitar mais processos judiciais por toxicidade de seus produtos, seria de se esperar que, em vez de gastar milhões com advogados e lobistas, eles gastassem esse dinheiro reformulando seus produtos para garantir a segurança”, acrescentou Zen Honeycutt, Diretora Executiva da Moms Across America.
A campanha da indústria de agrotóxicos está operando em duas frentes:
Em nível estadual, a legislação introduzida em pelo menos dez estados — incluindo Iowa, Missouri, Oklahoma e Geórgia — tornaria os rótulos federais de agrotóxicos da EPA a única autoridade em relação aos riscos à saúde. Isso significa que, se um dano não estiver especificamente listado no rótulo da EPA, os indivíduos afetados não poderão buscar indenização, protegendo efetivamente os fabricantes de ações judiciais movidas por indivíduos e comunidades prejudicadas por seus produtos. Tais ações judiciais estão disponíveis para todas as outras indústrias que fabricam produtos que prejudicam as pessoas.
Simultaneamente, procuradores-gerais de onze estados solicitaram à EPA que alterasse a Lei Federal de Inseticidas, Fungicidas e Raticidas (FIFRA) com uma redação que impediria os estados de impor advertências mais rigorosas sobre agrotóxicos e protegeria os fabricantes de responsabilidade sob as leis estaduais de proteção ao consumidor em todo o país. A supressão das advertências sobre a saúde humana não apenas bloquearia a indenização para vítimas anteriores de doenças induzidas por pesticidas, alega a CFS, mas também resultaria em sofrimento e morte contínuos.
Usuários de venenos agrícolas são muito mais propensos a usar equipamentos de proteção que reduzem a exposição e salvam vidas, como luvas de borracha, se forem avisados de que um dado produto pode causar câncer, mas a divisão de agrotóxicos da EPA raramente, ou nunca, exige tais avisos, mesmo para aquelas substâncias que classifica como provavelmente ou possivelmente carcinógenos para seres humanos. Em outros casos descritos nos comentários do CFS, os reguladores de agrotóxicos da EPA se recusam a reconhecer os danos causados pelo contato com estas substâncias, tais como impactos reprodutivos, que órgãos competentes como os Institutos Nacionais de Saúde ou mesmo outras divisões da EPA reconhecem. Em outros casos, agrotóxicos aprovados pela EPA, que podem ser seguros em condições ideais de uso, são prejudiciais quando ocorrem acidentes como mau funcionamento do pulverizador e os usuários são expostos a quantidades excessivas.
“A EPA demonstrou repetidamente que sempre encontrará uma maneira de aprovar um agrotóxico, não importa quão prejudicial à saúde humana ou ao meio ambiente”, disse Bill Freese, Diretor Científico da CFS. “Os estados devem manter o direito de proteger seus cidadãos alertando sobre os danos causados por agrotóxicos , como o câncer, mesmo que a EPA tenha receio de fazê-lo”, acrescentou.
A parcialidade da EPA é demonstrada por uma decisão judicial federal de 2022 que tomou a medida extraordinária de anular a avaliação de saúde humana da EPA sobre o glifosato, o herbicida implicado em causar linfoma não-Hodgkin, em ações judiciais bem-sucedidas movidas por usuários de produtos à base de glifosato. O tribunal concluiu que a EPA, ao negar a ameaça cancerígena do glifosato, rejeitou ilegitimamente uma montanha de evidências que demonstravam que o glifosato causa câncer, violando suas diretrizes de avaliação de carcinógenos.
“Todos merecem o direito de se proteger de agrotóxicos perigosos”, disse van Saun. “Não podemos permitir que interesses corporativos multinacionais bilionários revertam décadas de proteções vitais e deixem os americanos sem recurso quando prejudicados por esses produtos.”
Pesquisadores analisaram sedimentos de lagos e áreas alagadas localizadas em dois parques nacionais brasileiros
Parque Nacional da Serra dos Órgãos, uma das áreas incluídas no estudo da UFRJ
Por Leonardo Fernandes para o “Brasil de Fato”
Nem os lugares mais protegidos estão livres dos impactos do uso extensivo de agrotóxicosno Brasil, que é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Um estudo que contou com a participação de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) identificou a presença de agrotóxicos em amostras de sedimentos de seis lagos e áreas alagadas de montanhas intocadas em dois parques nacionais brasileiros: o Parque Nacional do Itatiaia e o Parque Nacional da Serra dos Órgãos, ambos localizados no Rio de Janeiro.
Essas áreas estão sob responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).
Nas amostras, foram encontrados 17 tipos de venenos, incluindo herbicidas, inseticidas, fungicidas e acaricidas. Os produtos mais frequentemente detectados foram carbendazim e carbaryl, seguidos por acetochlor, clorpirifós, diuron, metolachlor e tebuconazole. O clorpirifósfoi o que apresentou as maiores concentrações e risco ecológico potencial. Esse inseticida, amplamente utilizado em lavouras, é apontado como altamente tóxico e relacionado a abortos espontâneos e problemas neurológicos em fetos e crianças.
Mas se esses lagos estão localizados em terrenos de altitude elevada, dentro de áreas protegidas e intocadas, onde não há aplicação direta de agrotóxicos, como esses produtos químicos foram parar lá? Cláudio Parente, um dos pesquisadores envolvidos explica.
“O que é mais interessante, e por isso é importante a gente levar para uma ampla discussão, é a capacidade dessas substâncias de percorrerem longas distâncias através de três formas: sendo volatilizadas, então em forma de gás, ou associadas a partículas, que podem ser sólidas ou aerossóis, que são pequenas gotículas. Então a gente tem essas três formas. E o que chama a atenção é isso: de que a gente está numa área de conservação e que está bastante distante de onde se espera que sejam aplicados esses produtos”, afirma o pesquisador.
“O que a gente mostra nesse trabalho é que os agrotóxicos não respeitam fronteiras. Então a gente tem uma fronteira de dois parques nacionais, que são áreas de controle do ICMBio, ou seja, de interesse público, mas os agrotóxicos não respeitam essas fronteiras”, completa.
“Esse estudo chama a atenção para o aspecto da poluição ambiental e que, como mostra a pesquisa, não está restrita às áreas diretamente afetadas pelos agrotóxicos, o que também nos leva a crer que a saúde humana e as pessoas estão expostas a esses agrotóxicos em áreas muito distantes de onde o veneno é utilizado”, afirma Tygel. “Às vezes, quem está na cidade, quem está em lugares protegidos, pensa que o problema não está diretamente relacionado consigo, e esse estudo traz essa dimensão universal do uso desses elementos químicos”, completa.
Além do fator distância, Tygel explica que uma das preocupações sobre o uso dessas substâncias é justamente a persistência da contaminação no tempo. “Os agrotóxicos englobam uma gama muito ampla de produtos químicos e cada um, cada grupo químico, vai ter suas próprias dinâmicas. Então, de fato, a gente tem alguns agrotóxicos que não são persistentes, que eventualmente não vão causar dano a longo prazo, mas a gente tem várias substâncias que são persistentes e que, inclusive, se diluem facilmente na água e permanecem na água”, alerta.
“Esse tema da contaminação da água é um tema fundamental porque é por onde chega em todo mundo. Ainda que você consiga, por exemplo, ter acesso a alimentos agroecológicos, não estando tão exposto aos agrotóxicos pela via da alimentação, pela via do consumo da água, realmente todo mundo vai estar exposto a essa contaminação”, disse o ativista, que completa afirmando que segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 25% dos municípios brasileiros têm detecção de agrotóxicos, em muitos casos acima dos níveis encontrados nos alimentos.
A pesquisa destaca a grande preocupação em relação ao comportamento dos agrotóxicos, sobretudo por sua “persistência ambiental e tendência de se espalhar além das áreas de aplicação ao longo do tempo”; e afirma objetivar “lançar luz sobre os desafios para a conservação da biodiversidade devido ao transporte de pesticidas ar longa distância para campos de altitude protegidos”.
Parque Nacional do Itatiaia, no Rio de Janeiro. Adriana Mattoso/ICMBio
De acordo com o relatório divulgado, “estudos em regiões montanhosas sugerem que temperaturas mais frias aumentam a precipitação, promovendo a deposição de agrotóxicos em altas altitudes”, ou seja, as substâncias são levadas às áreas mais altas por via aérea e depositados no solo e nas águas a partir das chuvas. “Áreas montanhosas podem servir como zonas de convergência para a dinâmica de agrotóxicos voláteis e semivoláteis”, destaca o estudo, apontando ainda que as montanhas representam mais de 30% da superfície da Terra e abrigam aproximadamente 23% das florestas do mundo.
Sobre o agrotóxico clorpirifós, principal substância identificada no estudo, os pesquisadores afirmam que ele “tem potencial para ser transportado por distâncias de 200 a 400 km através da atmosfera antes que ocorra deposição ou transformação”. Já sobre o acetochlor, o estudo indica que ele apresentou alto risco para a biota aquática e que estudos anteriores indicam que esse agrotóxico é altamente tóxico para peixes, “sendo associado a deformidades, disrupções hormonais, malformações neurológicas e mortalidade”. “Além disso, o acetochlor tem potencial para perturbar interações ecológicas e redes tróficas em ecossistemas de água doce”, diz o texto.
O relatório destaca ainda que que a toxicidade dos pesticidas “pode ser subestimada ao analisar compostos individuais”, sem considerar os efeitos da mistura dessas substâncias.
“Os valores de alto risco quociente observados para clorpirifós, acetochlor e outros compostos demonstram as potenciais ameaças ecológicas que essas substâncias representam aos ecossistemas sensíveis de água doce. As descobertas ressaltam a necessidade de ação urgente para mitigar o impacto da contaminação por pesticidas, particularmente em regiões de alta biodiversidade. Medidas regulatórias aprimoradas, juntamente com práticas agrícolas sustentáveis, são cruciais para proteger esses ecossistemas inestimáveis de maior degradação”, afirmam os pesquisadores na conclusão do estudo.
E o que fazer?
Segundo os pesquisadores envolvidos, esse monitoramento vem sendo realizado há mais de 15 anos, evidenciando a persistência do problema e até o seu agravamento. Para Parente, não há outra alternativa, senão a transição de para um modelo de produção agroalimentar sustentável.
“Não há como evitar que moléculas, ou seja, substâncias químicas, viagem pela massa de ar e cheguem até uma área de conservação. A única coisa que a gente pode fazer, de fato, é uma transição no nosso modo de produção”, diz o pesquisador.
Alan Tygel vai na mesma direção. “Não existe uma convivência possível, não existe um uso seguro possível, não existe usar um pouquinho, usar só quando precisa. Nada disso resolve o problema central que é o modelo de produção, que é essa forma em que o capitalismo se apropria da produção agrícola, dos espaços rurais e ao mesmo tempo, vai expulsando as comunidades, envenenando os locais e tornando o campo um lugar inóspito de se viver e contaminado por tudo que é lado”, avalia o ativista.
No entanto, Tygel destaca que pouco se tem avançado nessa pauta no último período. “Estamos numa situação muito difícil, porque por um lado, a gente vem tentando trazer todas as evidências, mostrar estudos, mostrar possibilidades, criar alternativas. Mas por outro lado, o que a gente vê a partir do governo federal é uma dificuldade muito grande de se encaminhar questões mínimas dentro dessa pauta”, disse Tygel, lembrando que ainda não foi publicado o decreto para a atualização do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), prometido pelo governo.
“Nós tivemos no ano passado, se não perdi a conta, seis adiamentos do lançamento do Pronara. E aí tivemos no final do ano, no dia 3 de dezembro, um lançamento que não lançou. Foi feito um seminário, foi feito tudo, mas o decreto mesmo não foi assinado. Nesse momento, o decreto está pronto. Havia uma expectativa de um lançamento agora em março, e também já não foi cumprido”, critica o ativista.
ICMBio critica Lei dos Agrotóxicos e defende restrições
Em resposta aos questionamentos do Brasil de Fato, o ICMBio afirmou que “os estudos da UFRJ sobre poluição foram autorizados e vêm sendo apoiados pelo Parque Nacional da Serra dos Órgãos há mais de 15 anos”. “Além de garantir a proteção física destes espaços e sua biodiversidade é fundamental entender os efeitos que as atividades usos industriais na região têm sobre o parque”, disse o instituto.
“O estudo reforça que a conservação ambiental precisa ir além da fronteira das áreas protegidas. Incentivamos práticas agrícolas sustentáveis no entorno do parque, mas se não houver controle de agrotóxicos e outros poluentes mesmo as paisagens mais intocadas serão contaminadas e ficarão comprometidas”, afirmou, em nota.
Segundo o Instituto Chico Mendes, as medidas necessárias para a garantia da proteção desses parques contra os efeitos do uso de agrotóxicos “não estão relacionados diretamente à gestão dos parques e envolvem a restrição ao uso de agrotóxicos e regulação das atividades industriais de forma a reduzir a liberação destes poluentes para a atmosfera”. “Infelizmente temos visto retrocessos legais, como aNova Lei dos Agrotóxicos, que facilitou a liberação de produtos tóxicos como os encontrados no estudo”, disse o órgão.
A Lei nº 14785, mencionada pelo ICMBio, foi aprovada pelo Congresso Nacional em novembro de 2023 e sancionada um mês depois pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O novo texto flexibilizou normas para o registro de novos agrotóxicos no Brasil, e retirou das autoridades ambientais e sanitárias o poder de veto sobre essas autorizações, que ficam concentradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Dessa forma, as classificações realizadas pela Anvisa e pelo Ibama passaram a servir apenas para o estabelecimento de protocolos de uso desses produtos.
Em 2024, o Brasil bateu o recorde de liberação de agrotóxicos, segundo informações do próprio Mapa. Foram 663 produtos aprovados, um aumento de 19% em relação a 2023. Desses, apenas 106 produtos de origem biológica, os chamados “bioinsumos”.
O instituto disse que ainda que compete às unidades federativas, nos termos dos artigos 23 e 24 da Constituição Federal, “legislar supletivamente sobre o uso, a produção, o consumo, o comércio e o armazenamento dos agrotóxicos e dos produtos de controle ambiental, de seus componentes e afins, bem como fiscalizar o uso, o consumo, o comércio, o armazenamento e o transporte interno desses”.
Em suma, disse o órgão, “em um primeiro plano, cabe aos estados e ao Distrito Federal normatizar supletivamente e fiscalizar quanto ao uso desses produtos em suas respectivas jurisdições, podendo, com maior propriedade, averiguar in loco se a utilização desses agentes está sendo realizada em fiel cumprimento às condições aprovadas pelas autoridades estatais competentes, devendo a União prestar o apoio necessário”, finaliza.
O MMA não respondeu os questionamentos enviados pela reportagem.