O setor agropecuário brasileiro registrou 1.272 pedidos de recuperação judicial em 2024, segundo levantamento da Serasa Experian. O número representa a soma de solicitações feitas por produtores rurais atuando como pessoa física e jurídica, além de empresas do setor. O total quase triplicou em relação a 2023, quando foram registrados 534 pedidos.
De acordo com Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, diversos fatores impactaram a saúde financeira do setor, especialmente entre os produtores mais alavancados. “A alta da taxa de juros, aliada ao aumento dos custos de produção com insumos agrícolas – que ficaram mais caros devido à inflação e à desvalorização cambial –, foram alguns dos desafios principais e, para além disso, tivemos o agravante das adversidades climáticas”, explica.
A análise trimestral também apontou crescimento. No quarto trimestre de 2024, o setor registrou 320 pedidos de recuperação judicial, contra 254 no terceiro trimestre. Segundo Pimenta, a variação confirma um represamento de solicitações no terceiro trimestre. “O aumento registrado nos últimos três meses do ano comprova a estimativa de represamento que aconteceu no terceiro trimestre, quando a quantidade de pedidos caiu. Então, no último recorte de 2024 é possível confirmar uma amostragem com o patamar real de requisições. Ainda assim, apesar da alta, é preciso ponderar o número absoluto de solicitações, que é pequeno se considerarmos um universo com cerca de 1,4 milhão de produtores que tomaram crédito rural durante os últimos dois anos no país.”
Os produtores rurais que atuam como pessoa física somaram 566 pedidos em 2024, um aumento significativo em relação aos 127 registrados em 2023. O número também cresceu entre o terceiro e o quarto trimestre, com alta de 32,1%. Do total de solicitações feitas ao longo do ano, 224 foram realizadas por arrendatários ou grupos econômicos ligados ao setor. Entre os proprietários, os grandes responderam por 132 pedidos, os pequenos por 113 e os médios por 97. O levantamento destacou Mato Grosso e Goiás como os estados com maior número de requerimentos.
Os pedidos feitos por produtores rurais que atuam como pessoa jurídica também apresentaram alta. Em 2024, foram 409 solicitações, contra 162 no ano anterior. A tendência de crescimento foi confirmada pela análise trimestral, com um aumento de 19,6% entre o terceiro e o quarto trimestre. Entre os setores mais impactados, o cultivo de soja liderou com 222 pedidos, seguido pela criação de bovinos (75), cultivo de cereais (49), cultivo de café (16) e cultivo de algodão e outras fibras de lavoura temporária (10). Mato Grosso e Goiás também lideraram a demanda nesse segmento.
As empresas relacionadas ao agronegócio registraram 297 pedidos de recuperação judicial em 2024, frente a 245 em 2023. No comparativo trimestral, o quarto trimestre apresentou um crescimento de 25% em relação ao terceiro. O setor de agroindústrias de transformação primária concentrou o maior número de pedidos (73), seguido pelos serviços de apoio à agropecuária (64), indústrias de processamento de agroderivados (58), comércio atacadista de produtos agropecuários primários (33) e revendedores de insumos agropecuários (32). Os estados com maior número de solicitações foram São Paulo e Paraná, seguidos por Goiás, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
A Serasa Experian destacou que o uso de ferramentas de análise de risco pode reduzir os impactos da inadimplência no setor. O Agro Score, solução da empresa para prever riscos financeiros no agronegócio, apontou que os produtores que pediram recuperação judicial apresentavam sinais de instabilidade financeira anos antes da solicitação. “Usar análises mais criteriosas para conceder linhas de crédito protege o mercado da realização de financiamentos com perfis economicamente instáveis, diminuindo riscos e fomentando a regulamentação da saúde financeira no setor”, conclui Marcelo Pimenta.
O levantamento da Serasa Experian foi baseado em dados de processos de recuperação judicial registrados nos tribunais de justiça de todos os estados brasileiros. A análise considerou produtores rurais de diferentes portes, atuando como pessoa física ou jurídica, além de empresas do setor com Classificação Nacional de Atividade Econômica (CNAE) vinculada ao agronegócio.
Entre um ataque e outro ao IBAMA por causa da questão do licenciamento ambiental para ações de petróleo e gás na foz do Amazonas, o governo Lula sai a público para celebrar a diminuição do desmatamento na Amazônia. O que não está sendo dito é que o processo de degradação florestal via extração seletiva de madeira e incêndios nas bordas das regiões já desmatadas está em crescimento inequívoco.
Quem diz isso são os dados fornecidos pelo Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), uma ferramenta de monitoramento da Amazônia Legal baseada em imagens de satélites, desenvolvida pela organização não governamentalImazonem 2008, para reportar mensalmente o ritmo da degradação florestal e do desmatamento na região.
Segundo dados do chamado SAD Degradação, a degradação florestal afetou 33.807 km² quando se observa o calendário do desmatamento. Este número é quase equivalente ao território de Porto Velho, maior capital brasileira, e seis vezes superior que no período anterior, quando a atividade impactou 5.805 km² de vegetação. O número também é o maior da série histórica compreendida entre 2006 e 2025 (ver figura abaixo).
Valores de degradação florestal entre 2009 e 2025 (SAD Degradação/ IMAZON)
Como já foi demonstrado por um artigo publicado pela revista Scienceem 2020 (ver figura abaixo), da qual sou um dos co-autores, o processo de degradação florestal já alcança uma área maior do que a do desmatamento, e implica em perdas importantes para a biodiversidade amazônica e para os serviços ambientais fornecidos pelas florestas.
O avanço da degradação é um sinal inequívoco de que diversas ações sendo desenvolvidas ou que estão em vias de desenvolvimento estão já causando um processo de aceleração da remoção de madeira e potencializando a penetração de fogo em áreas próximas às áreas já desmatadas. E pior, com o avanço das grandes oscilações de temperatura e chuva, o que está se preparando é o aumento de incêndios em áreas que ainda apesar não terem sido alcançadas pelo desmatamento já se tornaram mais ecologicamente propensas a entrarem em combustão (ou seja, pegar fogo).
Há ainda que se lembrar que projetos como a pavimentação da BR-319 vão não apenas facilitar o acesso a áreas ainda livres de desmatamento, como certamente irão ainda as taxas já elevadas de degradação florestal. É que estrada pavimentada na Amazônia sempre é acompanhada por estradas “extra-oficiais” que são construídas ao arrepio da lei por madeireiros e garimpeiros. Além disso, como a demanda por soja e outras commodities continuará alta, a degradação de hoje tenderá virar desmatamento amanhã.
Enquanto isso, a COP30 vai instalando árvores artificiais em Belém para amenizar os efeitos do desmatamento que está sendo realizado em uma área quilombola para abrir um novo corredor de transporte para facilitar o escoamento de grãos. Aqui pelo menos um momento de coerência, já que o Pará é um líderes na destruição da floresta amazônica, combinando taxas altas de desmatamento e degradação florestal.
O arquipélago de Fernando de Noronha é formado por 21 ilhas de beleza e biodiversidade inegáveis, hoje ameaçadas por espécies invasoras. Crédito da imagem: foto pantai/Wikimedia Commons , licenciada sob Creative Commons CC BY 2.0 Deed
Por: Rodrigo de Oliveira Andrade para a SciDev
[SÃO PAULO] Ratos, gatos domésticos e lagartos se tornaram as principais ameaças à fauna endêmica do arquipélago de Fernando de Noronha, localizado no Oceano Atlântico, a 350 km da costa brasileira, uma área de proteção ambiental com inúmeras plantas e animais que só existem ali.
Todas essas espécies são invasoras e estão afetando a diversidade genética local e até a polinizaçãodas flores , conclui uma equipe de pesquisadores brasileiros que revisou a literatura especializada e entrevistou especialistas para avaliar os principais impactos desses animais nos serviços ecossistêmicos do arquipélago. Suas descobertas foram publicadasna revista científica Ecosystem Services.
“Nosso estudo apoia a gestão ambiental do arquipélago e destaca que estratégias para controle dessas espécies devem ser implementadas de forma integrada, considerando tanto a conservação da biodiversidade quanto as percepções da comunidade local.”
Guilherme Tavares Nunes, Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Espécies exóticas invasoras são plantas e animais introduzidos intencionalmente ou acidentalmente em um local fora de sua área de distribuição natural. Eles se reproduzem facilmente, a ponto de colocar em risco a sobrevivência de espécies locais.
A proliferação dessas espécies é uma das principais causas da perda de biodiversidade no mundo, mas muitas vezes é menos mencionada do que outros fatores, comomudanças climáticas e perda de habitat, disse ao SciDev.Net Ricardo Araújo, analista ambiental e chefe de pesquisa do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em Noronha .
Ele não fez parte da equipe de pesquisa, mas observa que “estudos como o publicado no Ecosystem Services são importantes para lançar luz sobre esse problema”.
O biólogo Guilherme Tavares Nunes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e um dos autores do estudo, explica que o turismo é uma atividade socioeconômica importante em Fernando de Noronha, impulsionada principalmente pelo turismo de sol e praia e observação de vida selvagem, “que corre um risco considerável no cenário atual”.
As autoridades brasileiras estabeleceram um limite máximo de 132.000 visitantes por ano para Noronha, ou 11.000 por mês. Desde 2022, os turistas também estão proibidos de trazer qualquer tipo de animal doméstico ou exótico para o arquipélago.
Os desafios enfrentados em Noronha são os mesmos enfrentados em outros ambientes insulares . Como a distribuição global de espécies exóticas invasoras reflete processos históricos de colonização e desenvolvimento econômico, pequenas ilhas tropicais estão entre os principais receptores de espécies invasoras, observam os autores.
O rato preto chegou a Noronha nos navios dos exploradores europeus e atualmente está presente em quase todas as ilhas do arquipélago. Crédito da imagem: Cortesia de Taysa Rocha para SciDev.Net
Problemas com ratos e gatos são os mais comuns. É o caso da Ilha Pequena Caimão, localizada nas Ilhas Caimão, território ultramarino do Reino Unido no Caribe, onde os cientistas consideram a situação “urgente”. A ilha é invadida por um grande número degatos selvagens , que estão dizimando a fauna nativa, incluindo o atobá-de-patas-vermelhas ( Sula sula ) e o ganso-patola-castanho ( Sula leucogaster ).
Em Noronha, uma espécie invasora que tem causado estragos é o rato preto ( Rattus rattus ). Acredita-se que tenha chegado a bordo dos navios dos primeiros exploradores europeus. Em pouco tempo, espalhou-se pelas ilhas do arquipélago, mesmo as mais isoladas e sem atividade humana. Estima-se que sua população atualmente chegue a dezenas de milhares.
Esses animais se alimentam de vegetais, frutas e grãos, mas também de ovos e filhotes de aves marinhas que usam a ilha para descansar, se alimentar e se reproduzir. “Alguns estão em risco de extinção, como o atobá-de-pés-vermelhos, o pássaro-tropical-etéreo [ Phaethon aethereus ] e o pernalta-de-noronha [ Elaenia ridleyana ]”, diz Nunes ao SciDev.Net .
Para sanar esse problema, o ICMBio Noronha realizou em 2018 umprojeto pilotoem colaboração com a ONG ambientalista WWF-Brasil, em uma ilha desabitada do arquipélago: a Ilha do Médio, utilizando um anticoagulante específico para ratos.
A iniciativa foi bem-sucedida e serviu de modelo para a aplicação da mesma estratégia no arquipélago de Abrolhos, formado por cinco ilhas no sul da Bahia. “Acreditamos que esse modelo pode ser usado em outras ilhas ou arquipélagos ao redor do mundo”, diz Nunes.
Outro predador abundante na ilha é o lagarto teiú ( Salvator merianae ). Alimenta-se de diversas espécies nativas, incluindo ovos e filhotes de tartarugas marinhas. Relatos sobre sua chegada ao arquipélago são contraditórios, mas sabe-se que ele está lá há pelo menos 100 anos. Sua população na ilha principal é estimada entre 7.000 e 12.000 indivíduos.
O lagarto teiú se alimenta de espécies nativas, incluindo ovos e filhotes de tartarugas marinhas. Crédito da imagem: ICMBio Noronha.
Mas foram os gatos ( Felis catus ) que causaram o maior impacto. Trazidos ao arquipélago por moradores locais para controlar a população de ratos, esses animais começaram a se reproduzir descontroladamente. “Estima-se que existam 1.287 gatos na ilha principal, dos quais cerca de 439 são selvagens”, diz Nunes.
Após analisar a dieta desses animais, os pesquisadores descobriram que os felinos se alimentam de aves marinhas e de um pequeno lagarto conhecido como mabuya ( Trachylepis atlantica ), endêmico do arquipélago.
“A mabuya se alimenta de larvas de insetos, formigas e restos de comida humana, além de néctar e flores, por isso atua como importante polinizadora e dispersora de sementes, contribuindo para a reprodução das plantas e o equilíbrio dos ecossistemas locais”, conta Nunes ao SciDev.Net . “Hoje, esse lagarto raramente é visto na ilha.”
A análise de fezes e isótopos estáveis (várias formas de átomos cuja composição não muda com o tempo) dos gatos do arquipélago revelou ainda que muitos são portadores de uma cepa de Toxoplasma quase inexistente no restante do Brasil, “portanto, esses animais também representam um grave problema de saúde pública”, acrescenta a pesquisadora.
Gatos selvagens vivem na floresta e são muito difíceis de capturar e erradicar. Para uso doméstico, uma série de medidas foram adotadas. Crédito da imagem: ICMBio Noronha.
Para controlá-los, a solução tem sido a castração e a introdução de um microchip de identificação em gatos domésticos e sem donos capturados nas ruas. Estes últimos são levados para um abrigo para adoção ou para serem sacrificados caso ninguém os adote.
Gatos domésticos encontrados nas ruas também são levados para abrigos, e seus donos são multados entre 20% e 30% do salário mínimo (R$ 1.509,00, aproximadamente US$ 261). Ao mesmo tempo, são realizadas palestras de conscientização para a população local, incluindo escolas e turistas.
O problema continua sendo os gatos selvagens. “A solução seria a eutanásia, mas a ideia enfrenta resistência dos moradores locais e também é muito difícil capturá-los na floresta”, diz Araújo.
Segundo ele, a solução mais eficaz seria enviar o exército para caçá-los e eliminá-los, o que já foi feito antes. Na Ilha da Trindade, a 1.167 km da costa do Espírito Santo, cerca de 800 cabras foram abatidas por militares da Marinha, que administra a ilha, em uma operação iniciada em 1994.
Esses animais foram introduzidos na região há mais de 300 anos. Sem predadores naturais, eles se reproduziam descontroladamente, consumindo toda a vegetação, afetando cursos d’água e a fauna local, como as tartarugas marinhas, cujos ovos também comiam. A última cabra foi removida em 2005.
Estima-se que 476 espécies exóticas invasoras estejam presentes no Brasil, de acordo com um relatório temático publicado no início de 2024 pela Plataforma Brasileira sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos.
“Nosso estudo respalda a gestão ambiental do arquipélago e destaca que estratégias de controle dessas espécies devem ser implementadas de forma integrada, considerando tanto a conservação da biodiversidade quanto as percepções da comunidade local”, acrescenta Nunes.
Impacto de aumento de 1º C na temperatura média foi observado em 29 espécies que vivem em trecho preservado da floresta
Mãe-de-taoca-de-garganta-vermelha, papa-formiga-de-topete e cabeça-branca: três das 29 espécies de aves estudadas. Philip Stouffer
Por Renata Fontanetto para a Revista Fapesp
Na Amazônia, muitas aves encontram refúgio na rica vegetação de menor porte que cresce abaixo da copa das árvores. Artigo publicado no periódico Science Advances sugere que o aumento de 1 grau Celsius (ºC) na temperatura média durante a estação seca, de maio a outubro, tenha reduzido em quase dois terços a taxa de sobrevivência aparente das aves que habitam sub-bosques da floresta tropical, mesmo que essa área esteja em uma região praticamente sem interferência humana.
A conclusão do estudo se baseia em um trabalho de modelagem estatística que associou dados de temperatura e de pluviosidade com números de captura e de recaptura de 4.264 exemplares de 29 espécies de aves, previamente pegas, identificadas por meio de um anel e soltas na natureza. Os animais foram apanhados entre 1985 e 2012 em 20 pontos dentro dos 3.180 hectares de floresta preservada do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF), situado a 80 quilômetros ao norte de Manaus. Composto de 23 parcelas de floresta, o PDBFF é uma unidade de conservação federal e a pesquisa em sua área é coordenada pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) em parceria com o Instituto Smithsonian, dos Estados Unidos.
Segundo o estudo, o aumento de calor durante a estação seca reduziu em 63% a taxa média de sobrevivência aparente da comunidade das aves que vivem nos sub-bosques do PDBFF. Isso significa que, em razão do aumento da temperatura, a probabilidade de uma ave sobreviver de um ano para o outro caiu para cerca de um terço do que seria o esperado caso a temperatura tivesse se mantido mais amena.
“Aves tropicais são muito sensíveis às mudanças que afetam seu meio de vida”, afirma a Pesquisa FAPESP o autor principal do estudo, o ornitólogo Jared Wolfe, da Universidade Tecnológica de Michigan, nos Estados Unidos, e colaborador do Inpa. “Há uma influência bastante dramática de uma estação seca cada vez mais quente e árida na sobrevivência de praticamente todas as aves que analisamos no sub-bosque da Amazônia.”
No cenário geral, 24 das 29 espécies se mostraram afetadas pelo aquecimento da região, com tendência de impacto maior no grupo de aves que vivem por mais tempo. Espécies como o barranqueiro-pardo (Automolus infuscatus), o arapaçu-de-garganta-pintada (Certhiasomus stictolaemus), o bico-virado-miúdo (Xenops minutus) e o mãe-de-taoca-de-garganta-vermelha (Gymnopithys rufigula) estão entre as mais vulneráveis identificadas pelo estudo.
“No nosso modelo estatístico, os dados relativos à temperatura explicavam cerca de 85% da variação na taxa de sobrevivência aparente das aves”, comenta Wolfe. Quando um ano ficava mais quente, a taxa caía; quando esfriava, ela aumentava. O trabalho também calculou qual teria sido o impacto de uma redução de 10 milímetros (mm) de chuva durante a estação seca na taxa anual de sobrevivência aparente das aves. O efeito foi bem menor do que no caso do aumento da temperatura. Em média, a queda na pluviosidade estaria associada a uma redução de 14% na quantidade de aves da população estudada.
Sobrevivência aparente é um conceito usado para expressar a manutenção da vida em animais previamente identificados dentro de uma área determinada ao longo do tempo. A queda nessa taxa não significa necessariamente que houve morte entre os membros da amostra. Três fatores, que essa definição não distingue, podem jogar para baixo os números relativos à sobrevivência aparente: o óbito propriamente dito de membros da população estudada, a migração para fora da área de estudo e até a simples não recaptura de animais dentro do prazo esperado.
Área de sub-bosque dentro do projeto PDBFF, a 80 quilômetros de ManausVitek Jirinec
Quando uma ave não é recapturada, isso é sinal de que pode ter morrido ou simplesmente não foi pega de novo. Os autores do artigo utilizaram um modelo estatístico para distinguir essas duas probabilidades. Assim, ajustaram as estimativas de sobrevivência aparente, que indicam a probabilidade de uma ave ainda estar viva no ano seguinte.
É possível que o aumento da temperatura e a queda observada na chuva influenciem as aves a procurarem outro território, menos quente e com maior oferta de água. Mas a recorrência na falha de recaptura ano a ano é, na avaliação de Wolfe, um indicativo de que o calor e a secura vêm sendo mais fatais para os bichos.
A chuva, a disponibilidade de água e a diversidade do relevo local parecem ser importantes para criar microclimas que permitam às aves se refrescar diante de temperaturas cada vez mais altas. “Essas espécies têm a capacidade adaptativa para desenvolver respostas evolutivas que acompanham as condições que estão enfrentando agora?”, indaga o biólogo Philip Stouffer, da Universidade Estadual de Louisiana, outro autor do estudo, em entrevista a Pesquisa FAPESP. “Sob as condições atuais, as populações estão diminuindo e sua sobrevivência se reduz. Até agora, os resultados não são encorajadores.”
Segundo o biólogo, a resiliência das aves de sub-bosque depende da manutenção de amplos trechos de floresta intacta. Dessa forma, mesmo com populações em declínio, as espécies poderiam se manter viáveis. “Áreas mais baixas dentro da floresta, como ao longo de riachos, também são particularmente relevantes para proteger as aves, pois parecem fornecer nichos de refúgio”, observa Stouffer.
O ornitólogo Mario Cohn-Haft, curador do setor de aves do Inpa, também enfatiza que os resultados do estudo reforçam a importância de conservar grandes áreas de floresta intacta. “As mudanças climáticas se devem, em parte, ao desmatamento”, diz ele, que não participou do trabalho publicado na Science Advances. “Precisamos restaurar a floresta e parar de desmatar. Isso ajudará a restabelecer o clima e a preservar as condições necessárias para a manutenção da biodiversidade.”
Para a bióloga evolutiva Ana Paula Assis, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), o estudo feito na Amazônia se destaca por ter utilizado dados de longo prazo, de quase 30 anos. “Se eles obtiveram esses resultados trabalhando em áreas de mata virgem, imagine o quão pior deve ser o cenário em trechos de floresta desmatada ou que sofreram fragmentação”, indaga Assis, que também não participou do artigo.
Ela sugere um possível desdobramento para a pesquisa: tentar entender se existe alguma variação na taxa de sobrevivência entre as aves que possa estar relacionada a fatores hereditários. “Se alguns indivíduos das espécies mais ameaçadas conseguem sobreviver bem ao aumento de temperatura, talvez eles possam passar essa capacidade para os filhotes caso essa resiliência esteja baseada numa característica genética”, comenta a bióloga.
Estudos semelhantes ao feito no PDBFF foram realizados no Panamá e no Equador. Os trabalhos indicam que as aves, em especial as de espécies que comem insetos, estão desaparecendo das seções mais baixas e intermediárias das florestas. Trabalhos como o realizado na Amazônia, que vincula as mudanças do clima à sobrevivência das aves, ainda são raros e há poucos dados de longo prazo sobre essa questão.
A reportagem acima foi publicada com o título “Mais calor, menos aves” na edição impressa nº 349 de fevereiro de 2024.
Você poderia se imaginar caminhando em várias instituições, entre delegacias, hospitais, Instituto Médico Legal (IML)? Indo na casa de cada amigo, lugares públicos, bares, lojas, procurando um parente ? Um tio, uma vizinha de anos, um afilhado, um sobrinho, uma irmã, um pai, um marido, um filho? O sentimento de cada hora, as informações desencontradas, as redes sociais, os bandos armados,
No Rio de Janeiro esta é a realidade de centenas de mulheres na Baixada Fluminense, na ilha do Governador,na favela. Em áreas de milícia e de atuação do Estado no policiamento ostensivo.As vezes áreas de uma pobreza árida, as vezes bairros antigos, as vezes prédios de ocupação ou programas sociais. Ou a Avenida Brasil, quando se está voltando de Seropédica. Simplesmente a ideia tranquilizadora de outras épocas não anda mais tranquilizando a população (nem aqui, nem na Baixada Santista)
A possibilidade de perder alguém na mão do Estado me dá arrepios desde muito jovem. Pelo temor da tortura. Mas principalmente pela clareza do funcionamento da justiça desde cedo. Um homem comum, motorista de ônibus , branco ou negro, confundido ou não, pode ser desaparecido pelo Estado em infinitas situações. Erro durante uma ação, erro de identificação ou simples antipatia sádica do dia são apenas algumas delas. Vingança, simples decisão, desacerto de contas (pois o acerto de contas só pode gerar morte se algo dá errado).
Longe de serem apenas os comunistas (como se fossem tantos assim) o que o Estado opera, são pilhas de corpos que enchem um Maracanã. Mas você não pode sentir este peso, porque tornou-se diário e parece que há um hiato entre Ditadura a redemocratização. Não estamos vendo os tanques, os jovens tomando porrada na rua, as chamas da Usina. E se eu te contasse que eles se especializaram na ação? Estamos falando de tecnologias de poder, talvez eles ajam nas duas frentes. Grosseria pura e simples nas execuções e ameaça para dominação como instrumento de poder territorial. Não precisa de uma teoria inalcançável. A realidade tem um didatismo incontornável. Mas você não compreende? É que você nunca foi a Baixada certo?
Mas se você morasse em um local no qual o Caveirão entra semanalmente? Se houvesse um helicóptero sobrevoando sua casa com rajadas? Se seu filho fosse morto com a camiseta do colégio? O filho que até aqui foi criado com um amor de guerra. Pois sabem as mães que é este o fato. Este amor de guerra é intenso, violento na clareza do cotidiano, religioso no pedido de proteção. Este amor de guerra não é sereno. É alto, pisa fundo, enfrenta até o tráfico.
Mas se desaparecido pelo Estado é enfrentar um fuzil, é tomar tapa na cara sendo uma mãe de família. É calar diante da execução sem a possibilidade de revidar o ato imediatamente. Não há justiça nesta relação. O Estado movimenta milhões de papéis sobre mortos e desaparecidos. Papéis timbrados. Certidões, comprovantes, laudos, processos de 500 páginas com endereços e até boletim escolar.
As mães rezam para que seus entes sejam encontrados. Rezam pelo advogado, pelo juiz, até pelos inimigos. Existem aquelas que perdoam. Não são pessoas melhores que as outras ou santas. E que fardo se fossem. Não. Mas a justiça dos homens lhes foi negada e este tipo de ferida não fecha. Não há hiato temporal no Brasil entre estes tempos, não há garantia de direitos. Há um pedacinho de território para quem sabe, não ser desaparecido. Mas este pedacinho diminuiu nos últimos anos. Pois não esqueçam do dia em que um parlamentar evocou Carlos Brilhante Ustra. Não se evoca este nome em uma democracia sem que haja consequências. Os votos demostraram que a esperança equilibrista teve a corda arrebentada. E ele governou sob o comando de seu ídolo.
Observem o aumento das atividades da milícia e a atuação de outras formas de desaparecimento pelo Estado.
Os mortos e desaparecidos enchem um Maracanã.
Luciane Soares da Silva é professora associada do LESCE/CCH/UENF e também é coordenadora do Núcleo de Estudos Cidade Cultura e Conflito (NUC)
Com fundo de R$ 1,3 milhão para atuar nas casas legislativas, Sindicato das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) tem virado o jogo em votações já concluídas; empresas associadas à entidade acumulam pelo menos R$34 milhões em multas ambientais
Por Julia Dolce, de O Joio e o Trigo para o especial Brasil Sem Veneno
O município maranhense de Lago do Junco, localizado na transição entre o Cerrado e a Floresta Amazônica, tem um longo histórico de luta pela terra. Nos anos 1970, movimentos locais conquistaram a criação de assentamentos. Em 1997, a aprovação da Lei Municipal do Babaçu Livre garantiu que as quebradeiras de coco – que tiram sua subsistência do extrativismo da palmeira – tivessem acesso às árvores, mesmo que estivessem dentro de propriedades privadas. A inovação serviu de inspiração para legislações semelhantes no Maranhão e em outros estados.
Algumas décadas depois, os cerca de 10 mil habitantes da cidade se depararam com uma nova ameaça: a contaminação desses mesmos territórios por agrotóxicos pulverizados por aviões e drones.
O município integra o Matopiba, região formada por porções do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia sobre as quais a fronteira agrícola do Brasil espicha desde meados dos anos 1980. Com o avanço de monoculturas, como a soja, cresceu também o uso de venenos. Em 2024, dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) indicaram que o Maranhão foi campeão em registros de contaminação por agrotóxicos.
A soja chegou ao município por volta de 2019. Desde então, a Associação das Mulheres Trabalhadoras Rurais de Lago do Junco e Lago dos Rodrigues se organizou para estabelecer na região uma “zona livre de agrotóxicos”.
Ariana Gomes, da Rama, destaca a participação do Sindag no naufrágio do PL de Lago do Junco. (Foto: Johelton Gomes/CCOM-MPMA)
A luta foi materializada em um projeto de lei (PL) apresentado no início de 2024 pela vereadora de Lago do JuncoElidevan Ferreira de Sousa (PT). O plano era proibir a pulverização aérea de agrotóxicos por drones e aviões no município, além de estabelecer metas de redução da aplicação desses venenos no longo prazo.
O projeto já conquistava a maioria dos votos quando, em setembro de 2024, aconteceu uma audiência pública na Câmara Municipal. Após o debate, parte dos vereadores mudou de ideia. E o PL naufragou.
“Passou-se um ano inteiro fazendo reuniões”, conta Ariana Gomes, secretária-executiva da Rede de Agroecologia do Maranhão (Rama) – uma das organizações que articularam a apresentação do projeto de lei. “No fim, não foi aprovado. Entendemos que teve uma força grande do Sindag e de empresas de drone”.
Sindag é a sigla para Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola. A entidade enviou um representante à audiência de Lago do Junco, seu assessor de relações institucionais Divaldo Custódio Maciel.
“Nós estamos aqui pra fazer com que vocês mudem a mentalidade”, resumiu ele. “A proibição é mais fácil, mas e aqueles que utilizam a ferramenta de maneira correta? Aqueles que são beneficiados pela ferramenta? Eles vão ser prejudicados por uma atitude que é extrema”. A “ferramenta”, leia-se, é a chuva de veneno.
Lobby da pulverização áerea avança no interior do Maranhão
Em sua fala na audiência pública, o representante do Sindag também tentou convencer os agricultores familiares que se mobilizaram contra os agrotóxicos de que poderiam se beneficiar da pulverização aérea.
“Lago do Junco está crescendo e vai crescer ainda mais. É uma terra de progresso – e é isso que a gente quer que seja”, continuou Divaldo. “No Maranhão, cada vez mais pequenos produtores utilizam a aplicação aérea no sentido de duplicar até mesmo a própria produtividade. Aquela dona Maria que tem a produção no fundo do quintal dela, que utiliza, às vezes, a ferramenta para aumentar essa produção e, automaticamente, aumentar a renda”.
Na sua passagem por Lago do Junco, o assessor de relações institucionais distribuiu panfletos, trocou contatos com vereadores e se colocou à disposição para enviar mais “informações”.
A Rama acredita que o Sindag esteja a postos em todo o território maranhense para fazer lobby junto às câmaras municipais. “É um sindicato muito forte, as empresas são muito fortes”, afirma Ariana.
Atualmente, já foram aprovados projetos de lei que visam proibir a pulverização aérea em nove municípios maranhenses. E em outros 12 tramitam projetos do tipo.
Sindicato possui fundo de 1,3 milhões para brecar projetos
Única representação sindical da aviação agrícola no país, o Sindag reúne 260 empresas associadas. Fundado em 1992 em São Paulo, o sindicato fez o seu début na cena política nacional a partir da aprovação de outra legislação histórica no Brasil, que proibiu a pulverização aérea de agrotóxicos no Ceará em 2019.
Página do site do Sindag com informações para a cota de “projetos de proibição”. (Imagem: Reprodução/Sindag)
A Lei Zé Maria do Tomé homenageia o agricultor que lutava contra a ocupação irregular por empresas de um perímetro de irrigação público na Chapada do Apodi. No bojo dessa luta, Zé Maria também denunciou o uso massivo de agrotóxicos na produção de frutas. Ele foi assassinado em 2010 com mais de 20 tiros.
Foi a primeira (e, até agora, única vez) que um estado brasileiro restringiu dessa forma os venenos. Autor da lei, o deputado estadual Renato Roseno (PSOL) conta que, após a aprovação, a “bateria” do agronegócio se voltou contra o Ceará: “A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil [CNA] tinha medo de que outros estados adotassem a medida que nós adotamos”. O Sindag integrou a ofensiva, tentando derrubar a lei nos tribunais.
No Supremo Tribunal Federal (STF), o sindicato entrou como amicus curiae da CNA em uma ação que contestava a constitucionalidade da lei. O Sindag também entrou com dois mandados de segurança na Justiça do Ceará. Um contra a Agência de Defesa Agropecuária do estado, tentando barrar a fiscalização da lei. E outro contra o então governador Camilo Santana (PT), defendendo que a legislação feria a Constituição e pedindo a sua suspensão até que fosse julgado o mérito do pedido.
Todas as investidas fracassaram. Mas o Sindag aprendeu a lição: passou a atuar no nascedouro desse tipo de projeto de lei. “Há uma preocupação muito grande que os projetos que queiram proibir a atividade se espalhem pelo Brasil”, afirmou à reportagem o diretor-executivo da entidade, Gabriel Colle.
Essa atuação, é claro, custa dinheiro. Para montar a sua máquina de lobby, o Sindag criou um “Fundo de Defesa da Aviação Agrícola” que, até julho de 2024, já havia arrecadado mais de R$ 1,3 milhão.
O fundo tem diferentes cotas de doações, entre elas uma de R$10 mil para financiamento de ações contra os projetos de lei que visam proibir a pulverização aérea.
Organização ataca memória de Zé Maria do Tomé
O Fundo de Defesa da Aviação Agrícola também financia uma campanha que recebeu um nome sugestivo: “Chega de Preconceitos”. A iniciativa é focada na defesa do que o sindicato chama de “mitos” sobre o setor.
Um deles seria o “enredo em torno do assassinato” de Zé Maria do Tomé. Em seu site, o Sindag caracteriza o episódio como emblemático na promoção de “equívocos” e “preconceito” contra a aviação agrícola e o agronegócio, “potencializados pelo tempero político e pela polarização da sociedade”. Em notícias também publicadas em seu site, o sindicato atribui aos projetos de lei que tentam proibir a pulverização aérea uma “ideologia” que propaga desinformação contra o setor.
Renato Roseno: “Não há nada mais ideológico do que dizer que o argumento dos outros é ruim por ser ideológico”. (Foto: Junior Pio/Alece)
“Não há nada mais ideológico do que dizer que o argumento dos outros é ruim por ser ideológico”, contrapõe o deputado Renato Roseno. “Quem é muito ideológico é o agronegócio que quer desrespeitar argumentos técnicos com base na falácia de que seriam ideológicos”.
Já segundo Gabriel Colle, o papel do sindicato se resume a preparar materiais para “levar informações” para parlamentares. O Sindag tem marcado presença nos trâmites de projetos de lei em diferentes cantos do país. Um levantamento exclusivo do Joio mostra que a entidade atuou ao menos 14 vezes em audiências de diferentes casas legislativas para barrar propostas que proíbam a pulverização aérea de agrotóxicos nos últimos cinco anos.
Nesse período, além de Lago do Junco, o Sindag esteve presente em audiências públicas que trataram do tema nas câmaras municipais de Nova Esperança (PR), Tabapuã (SP), Piracicaba (SP), São Carlos (SP), bem como nas assembleias legislativas de Bahia, Ceará, Mato Grosso do Sul, Pará, Pernambuco e Rio Grande do Sul.
Além da incidência legislativa, o sindicato tem representação em câmaras, comissões, comitês e conselhos de órgãos federais e regionais, como a Comissão Especial para Assuntos da Aviação Agrícola no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
A reportagem mapeou 24 reuniões de representantes do Sindag com autoridades do poder executivo, principalmente membros do Mapa e da Agência Nacional da Aviação Civil (Anac), entre 2020 e 2025.
O sindicato também promove encontros com veículos da imprensa, já tendo visitado as redações da TV Globo, Band e Canal Rural.
Em 2023, passou a integrar o Instituto Pensar Agropecuária (IPA), organização que reúne dezenas de entidades do agronegócio e organiza a agenda da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) no Congresso. As entidades que compõem o IPA se reúnem semanalmente na sede do instituto em Brasília com os parlamentares da bancada para apresentar suas pautas.
Assessor parlamentar é ameaçado após dossiê contra agrotóxicos
Em setembro de 2023, o geógrafo e mestre em ciências ambientais Vitor Camacho atendeu uma ligação de um DDD desconhecido. Do outro lado da linha, uma voz grave e distorcida o ameaçou: “A gente sabe onde vocês estão, a gente sabe quem vocês são. É melhor vocês pararem com isso”.
Documento de mais de 300 páginas do Sindag circulou entre vereadores de São Carlos. (Foto: Vitor Camacho)
Camacho é assessor do vereador Djalma Nery (PSOL), do município paulista de São Carlos. A ameaça, por sua vez, foi endereçada a um celular que pertencia ao gabinete do parlamentar e ocorreu durante o trâmite de um projeto de leide autoria de Nery que pretendia proibir a pulverização de agrotóxicos por aviões na cidade.
Camacho é assessor do vereador Djalma Nery (PSOL), do município paulista de São Carlos. A ameaça, por sua vez, foi endereçada a um celular que pertencia ao gabinete do parlamentar e ocorreu durante o trâmite de um projeto de lei de autoria de Nery que pretendia proibir a pulverização de agrotóxicos por aviões na cidade.
“Fiquei tão nervoso, porque eu já estava vivendo sob pressão e ansiedade”, lembra Camacho. O projeto de lei foi baseado em um dossiê elaborado por ele com relatos de contaminação por pulverização aérea no loteamento de pequenos agricultores Aporá de São Fernando, que fica no município. “Tem fotos e vídeos que mostram que os aviões passavam em cima das casas, muitas vezes com os aspersores ligados”, relata.
“Como uma das pessoas envolvidas diretamente tanto na elaboração da denúncia, quanto da lei, a todo momento a gente se sente muito observado, principalmente pelos interessados do agro que estão sempre marcando presença”, desabafa o assessor parlamentar.
São Carlos é um município de médio porte, com mais de 260 mil habitantes, localizado na região central de São Paulo, a cerca de três horas da capital. O agronegócio é forte e a produção de usinas sucroalcooleiras domina a paisagem local. Segundo oCenso Agropecuário de 2017(último com dados disponíveis), à época, a área colhida de cana-de-açúcar ocupava quase 28 mil hectares.
Em 23 de agosto de 2023, os vereadores da Câmara Municipal de São Carlos aprovaram o projeto de Djalma Nery com folga: por 13 votos a 1.
Em São Carlos, volta atrás no último minuto
O resultado soou o alerta. A partir daí, representantes do setor sucroalcooleiro, de pilotos agrícolas e da empresa de comercialização de drones Xmobots (que tem sede no município) começaram a se mobilizar.
No mês que se seguiu à aprovação, período em que o então prefeito Airton Garcia Ferreira (Progressistas) decidiria por sua sanção ou veto, esses representantes passaram a visitar a Prefeitura, segundo Camacho. “Nesse meio tempo, a gente presenciou esse lobby sendo feito. Eu vi eles frequentando o Paço Municipal”. A pressão surtiu efeito: o prefeito vetou o projeto.
Funcionários da Xmobots (de uniforme) lotam Câmara Municipal de São Carlos na votação do veto do prefeito. (Foto: Reprodução/Sindag)
Nas semanas seguintes, o lobby se voltou para a Câmara Municipal, que poderia derrubar o veto do prefeito. “Fizeram reuniões, encontros com os vereadores. Entregaram um documento imenso”, lembra o assessor parlamentar. O documento em questão, um calhamaço de cerca de 300 páginas de artigos defendendo o setor aeroagrícola e a pulverização aérea, foi entregue por um representante do Sindag ao presidente da Câmara.
Entre os estudos presentes no documento está um que trata dos “impactos econômicos e sociais” do banimento da aplicação aérea de “defensivos agrícolas”, produzido pelo escritórioMendonça & Nogueira Advogados Associadosa pedido do próprio Sindag, da multinacional Syngenta e de outras associações do agronegócio. Um dos autores do estudo, Elvino de Carvalho Mendonça, é colunista do site do Sindag.
O veto do prefeito foi votado no dia 26 de setembro de 2023. Segundo um dos diretores do Sindag, praticamente90% das empresas paulistas associadas ao sindicato estavam representadas na Câmara Municipal de São Carlos.
Na ocasião também estiveram presentes diversos funcionários da Xmobots, a fabricante de drones. A empresa deu ponto facultativo aos trabalhadores no dia da votação e eles lotaram as galerias. Segundo Camacho, ainda houve uma “manobra” com a mesa diretora da Câmara. “Permitiram que eles entrassem antes do combinado e lotassem a sessão, e nenhuma pessoa afetada pelo tema pudesse estar presente”.
Os funcionários da empresa, junto a representantes das usinas e pilotos, também fecharam a entrada da casa legislativa, dificultando a passagem dos vereadores. “Fizeram um corredor polonês para, literalmente, linchar ele [Djalma Nery]. Quem partiu para cima foi o pessoal dos drones. Teve um que partiu para cima com contato físico mesmo, mas a Guarda Municipal impediu”, relata Camacho.
A Xmobots não é associada ao Sindag, mas participou do Congresso da Aviação Agrícola do Brasil, promovido pelo sindicato em agosto de 2024. Contatada, a empresa confirmou que autorizou ponto facultativo, mas afirmou “repudiar veementemente qualquer conduta que viole o respeito e o diálogo construtivo”.
O resultado da história não é difícil de adivinhar: os vereadores mudaram de ideia e enterraram o projeto por 15 votos a cinco.
“Nossas ovelhas estão abortando, diz agricultora
Segundo Joelson Carvalho, professor de economia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) que tem se dedicado a registrar casos de contaminação pela pulverização aérea, a mobilização do agronegócio contra projetos do tipo é rápida e certeira. “O agronegócio tem uma capacidade muito grande de se unir ao redor de pautas quentes. Isso aconteceu em São Carlos. Setores pouco presentes no cotidiano do município acompanharam o debate da lei”.
Entre os principais impactados pela pulverização aérea no município estão os assentamentos rurais Santa Helena e Nova São Carlos. Os assentados relatam a perda da produção orgânica de hortaliças e mel, além da morte de animais e problemas de saúde.
A agricultora Lindamira Ribeiro, assentada do Santa Helena, participou de uma audiência pública organizada pelo vereador Djalma Nery que antecedeu a proposição do projeto. Na ocasião, ela denunciou os efeitos da contaminação.
“A nossa área, que a gente ainda planta orgânico, ainda tem bastante árvore pra não ter tanto estrago nas nossas verduras, porque é delas que nós vive. Mas nas outras áreas, que a gente não planta mais, a gente deixou para o pasto. E agora nossas ovelhas estão abortando – e eu acho que pode ser disso, porque é a área onde o avião mais passa”, afirmou. A agricultora também relatou que crianças e jovens do assentamento têm sofrido sintomas de intoxicação, como dores de cabeça.
Segundo Carvalho, as empresas alegam que, para manobrar os aviões, é necessário passar em cima dos assentamentos. “Há um desrespeito aos limites mínimos estabelecidos [por legislação para a pulverização aérea] e que já são bastante perigosos. Do ponto de vista político, essa é uma ação extremamente coercitiva que visa obter o silenciamento e expulsão”.
O diretor-executivo do Sindag afirma que o sindicato não ignora as denúncias que embasam as propostas de lei. “Uma política do Sindag é estar sempre disponível e levar pra frente, eventualmente, qualquer denúncia. Sendo feito respeitando os parâmetros, não vai ter problemas”, garante Gabriel Colle.
A entidade tem uma narrativa sustentada na separação entre o joio e o trigo. Há aqueles que “fazem errado” e os que cumprem as normas. O diretor afirmou também que a posição do sindicato é pelo respeito às leis. “Se alguém desrespeitar a legislação conscientemente, com certeza não vai estar no nosso quadro de associados”.
Associadas acumulam R$ 34,6 milhões em autuações ambientais
Apesar da tentativa de distanciamento em relação aos que “fazem errado”, um levantamento exclusivo de O Joio e o Trigo mostra que as empresas associadas ao Sindag e seus sócios acumulam R$ 34,6 milhões em multas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Ambientais Renováveis (Ibama).
Entre 1996 e 2023, foram lavradas 123 autuações ambientais. As infrações envolvem principalmente o descumprimento da regulação da pulverização de agrotóxicos.
Outros casos envolvem a contaminação direta de cursos hídricos, como documenta uma autuação lavrada em 2018 contra Geraldo Loeff, sócio da LL Aviação Agrícola Ltda. Ou mesmo a contaminação de unidades de conservação, como indica uma autuação de 2001 contra a empresa Aerosafra Aviação Agrícola, que dá conta de danos diretos ao Parque Nacional das Emas, localizado em Goiás.
Há também obstrução à fiscalização do poder público, conforme autuação de 2018 contra a Lusa Aviação Agrícola Ltda, bem como casos de declaração de informações falsas ao cadastro técnico do Ibama, segundo autuação de 2017 contra a Rondon Aviação Agrícola Ltda.
Pátio da Rondon Aviação Agrícola, autuada por apresentar declarações falsas ao Ibama. (Foto: Defesa Civil/MT)
Das 123 autuações, 65 foram lavradas contra os sócios ou diretores das empresas associadas ao Sindag. Entre elas, há 28 autuações relativas a desmatamento ilegal, queimada ou impedimento de regeneração da mata nativa, referentes à destruição de mais de 5,5 mil hectares de vegetação – em sua maioria no Mato Grosso.
Questionado sobre as autuações de associados do Sindag, Gabriel Colle disse que o sindicato “não passa a mão na cabeça de ninguém”. “A gente não defende nenhuma empresa, nenhum produtor rural, ninguém que faça nenhum crime ambiental”.
Sobre o valor das autuações, o diretor-executivo do Sindag afirmou que as multas do Ibama costumam ser altas, “e têm que ser mesmo porque são questões ambientais”. Colle destacou também que as multas lavradas não são o fim do processo, uma vez que os autuados têm direito à defesa.
O sindicato defende que a pulverização aérea é segura para o meio ambiente, as pessoas e seus cultivos. Bastaria seguir à risca a norma federal que regula a prática. O sindicato destaca também que a modalidade é mais regulamentada do que a aplicação de agrotóxicos por via terrestre.
Para Sindag, problema da deriva de agrotóxicos é “Mito”
A pulverização terrestre de agrotóxicos pode ser feita por tratores ou equipamentos como mochilas. Sua regulação é assunto dos estados — apenas cinco têm regras do tipo. Já a aplicação aérea de venenos tem regulamentação federal pelo Ministério da Agricultura e pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Nesse sentido, existem algumas obrigações a mais quando o assunto são os aviões e drones. No caso dos primeiros, por exemplo, devem ser enviados ao Maparelatórios mensais de cada operação de aplicação, incluindo o arquivo do DGPS, espécie de GPS detalhado da aeronave que mostra tanto a região sobrevoada, quanto os locais onde o sistema de pulverização esteve aberto ou fechado.
Gabriel Colle, do Sindag, defende que o sindicato apenas leva “informações” para parlamentares. (Foto: Reprodução/Linkedin)
Já no caso dos drones, são exigidos registro da aeronave no ministério, certificado de curso de aplicação aeroagrícola e relatórios mensais de atividades.
O problema mora nas distâncias mínimas estabelecidas para a aplicação dos venenos, consideradas insuficientes para impedir que os agrotóxicos sejam levados pelo vento — um fenômeno conhecido como deriva. No caso dos aviões, essa pulverização pode acontecer a 250 metros de distância de mananciais de água, moradias isoladas e agrupamentos de animais. No caso de povoações, cidades, vilas, bairros e mananciais de captação de água para abastecimento da população, a distância aumenta para 500 metros. Já para os drones, essa distância é de apenas 20 metros em qualquer situação.
Embora represente uma economia de tempo e dinheiro ao agronegócio, por proporcionar uma aplicação mais veloz e que não envolve a perda de plantas pelo amassamento causado por tratores, a pulverização aérea é responsável por maiores distâncias de deriva, o que intensifica a contaminação de vizinhos e áreas de proteção ambiental.
A mitigação da deriva depende tanto de fatores controláveis, como o bico do pulverizador utilizado e a velocidade da aeronave, quanto de fatores instáveis, como a direção do vento, a temperatura e a umidade do ar. Condições inadequadas podem fazer a deriva alcançar quilômetros de distância.
De acordo com o diretor-executivo do Sindag, ligar o problema da deriva à pulverização aérea é mais um “mito” sobre o setor. Ele afirma que toda ferramenta de aplicação mal utilizada pode causar deriva. “Nosso posicionamento sempre é no sentido de orientação e de defender as boas práticas agronômicas”. Segundo Colle, a aviação agrícola no Brasil é altamente regulada. “A gente quer manter assim, cada vez mais regulado, porque isso nos dá segurança”.
Baseada em estudos que comprovaram a maior distância da deriva na pulverização aérea, entretanto, a União Europeia proíbe a modalidade em seu território desde 2009. Por aqui, além do Ceará, pelo menos 19 municípios já seguiram esse exemplo.
“O drone é infiscalizável”
Um dos fatores que têm elevado as ocorrências de contaminação no Brasil é a popularização da pulverização por drones agrícolas. Os equipamentos baratearam o custo operacional da atividade. Enquanto o preço médio de um avião agrícola está na casa dealguns milhões de reais, é possível comprar um drone a partir de R$ 60 mil.
A capacidade dos drones também avança. Em janeiro de 2025, foianunciadoque o maior drone autorizado pelos Estados Unidos para operações comerciais está pronto para atuar no Brasil, tendo obtido licença da Anac. A aeronave pode transportar até 300 litros de veneno – o mesmo que um avião pequeno.
A obtenção da qualificação técnica para o manuseio de drone também é bem mais fácil.Cursos inteiramente virtuais possibilitam a certificação de operador da aeronave.
O Sindag também tem empresas de drones agrícolas no seu quadro de associados, ecomemorou em suas redes sociais a decisão da Assembleia Legislativa do Ceará que flexibilizou a Lei Zé Maria do Tomé. Sancionada no apagar das luzes de 2024 pelo governador Elmano de Freitas (PT), a nova lei permite a pulverização aérea por drones.
“Nós perdemos em dezembro de 2024. Lamento muito que um governador do PT, traindo sua história, se preste a isso”, comenta o deputado Renato Roseno. Ele destaca que as pesquisas sobre os impactos da pulverização por drones, incluindo sua deriva, ainda são incipientes. Vê o boom da aplicação por drones como uma tendência: “Vai ser tudo com as aeronaves não pilotadas”. E se preocupa com a fiscalização da norma que dita que as aplicações de venenos devem ser feitas a 20 metros de casas, animais e mananciais de água. “O drone é infiscalizável. O que fazem com um drone à noite, de madrugada, ninguém vai saber”.
No Maranhão, drones são usados para atacar líderes comunitários
Operações clandestinas, algumas em horários noturnos, têm sido registradas no Maranhão. Em 2024, a Federação dos Trabalhadores Rurais do estado (Fetaema) identificou 14 comunidades vítimas da prática, todas residentes do município de São Mateus, que fica a duas horas e meia de carro de Lago do Junco. Segundo a entidade, numa reunião com lideranças locais, representantes das secretarias de Meio Ambiente e de Agricultura do estado informaram que não há nenhum licenciamento para operação de drones na cidade.
Em Duque Bacelar, mais perto da divisa com o Piauí, as denúncias são ainda mais graves. Os drones estariam sendo utilizados para ameaçar a comunidade de Roça do Meio. Formada por 14 famílias que há gerações ocupam o território, a comunidade denuncia ameaças de expulsão por parte do pecuarista Paulo André Cardoso, que afirma ser dono das terras. Ele estaria pulverizando agrotóxicos sobre a casa de familiares do líder local – Marcelo Barbosa dos Santos – que levou o caso à polícia.
Um boletim de ocorrência foi registrado pela primeira vez no dia 10 de fevereiro de 2025. No dia 19 de fevereiro, data em que Marcelo deu entrevista à reportagem, o fato se repetiu. “Hoje de manhã ele colocou de novo, passou por cima da casa da minha mãe soltando veneno. O cheiro era muito forte, minha mãe passou mal com falta de ar. Meu pai, que tem 87 anos, fica com coceira no corpo e tontura”, contou.
Não é a primeira vez que o pecuarista contamina a comunidade, segundo Marcelo. Em 2021, um avião pulverizou a escola rural, que atende 300 estudantes. “As aulas foram suspensas por cerca de quatro dias”, disse. “A gente vive de plantio de arroz, mandioca, feijão, milho. O veneno afeta tudo, acabou que matou foi tudo. E a gente não conseguiu aproveitar nada, passou um bocado de dificuldades”.
Na ocasião, o Ministério Público do Maranhãoinstaurou um procedimentoque nunca foi concluído, e encontra-se paralisado desde 2022. Também em 2022, em resposta à contaminação da comunidade Roça do Meio, a Câmara de Vereadores de Duque Bacelar aprovou umprojeto de lei que proibia a pulverização aérea em território municipal. O projeto foi sancionado e a lei entrou em vigor.
No último 27 de fevereiro, porém, o prefeito Flávio Furtado (PDT) enviou um projeto à Câmara pedindo a revogação da lei. Conseguiu. A votação aconteceu em 14 de março de 2025 e contou com a presença de representantes da Aprosoja Maranhão.
A reportagem tentou contatar Paulo André Cardoso por meio de duas empresas das quais ele é sócio-administrador, mas não obteve resposta.
Intimidação via notificação extrajudicial
A mesma Federação dos Trabalhadores Rurais do Estado do Maranhão que acompanha esses conflitos entrou para a mira do Sindag. Em 2024, sindicato enviou uma notificação extrajudicial ao advogado popular Diogo Cabral, que representa a Fetaema. Há quatro anos na linha de frente da denúncia de violações de direitos envolvendo a pulverização aérea no estado, Cabral recebeu o documento após dar uma entrevista ao jornal JMTVmencionando contaminações no estado.
Primeira página da notificação extrajudicial do Sindag contra o advogado popular Diogo Cabral. (Imagem: Reprodução/Sindag)
Na entrevista, concedida em 24 de abril de 2023, o advogado afirmou que a Fetaema já havia registrado 60 ocorrências de contaminação no Maranhão só naquele ano. “Pessoas tiveram queimaduras, crianças, idosos e gestantes acabaram adoecendo, com graves problemas gastrointestinais, e parte da produção agrícola destas comunidades foi inteiramente perdida”, afirmou.
Quase um mês depois, em 23 de maio, ele recebeu a notificação do Sindag demandando provas sobre as “graves informações prestadas” ou esclarecimentos “se o suposto dado foi de fato provocado pela pulverização”.
Para Cabral, a ação do Sindag se insere em um contexto de “criminalização, intimidação e limitação do trabalho de defensores de direitos humanos”. Ele afirma não ter ficado surpreso, e sim preocupado. “Não só por mim, mas por todas as organizações e pessoas que estão nessa luta”. O advogado não respondeu à notificação e até hoje não foi citado judicialmente.
Cabral destaca que o avanço da fronteira agrícola, principalmente para cultivo de soja, tem impulsionado o mercado de agrotóxicos no Maranhão. Dados doIbamarevelam um crescimento de 200% no comércio dessas substâncias no estado na última década.
O advogado ressalta que, em 2024, a Fetaema registrou 234 comunidades atingidas por pulverização aérea. Em 2025, já eram 18 comunidades até a publicação desta reportagem. Cabral destaca também que todas as contaminações registradas foram causadas pela pulverização aérea. “Não tem nada de agricultura de precisão, é uma agricultura de imprecisão, na verdade, porque tem muita gente sendo contaminada”.
Lobby da pulverização área está dentro das universidadesO
Além de entrar na Justiça, fazer lobby em casas legislativas e intimidar críticos, mais recentemente o Sindag tem fechado parcerias para o desenvolvimento de pesquisas que sustentam a segurança da pulverização aérea de agrotóxicos.
Além de uma parceria de anos com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o sindicato deu início a um programa de financiamento de bolsas de pesquisa em universidades públicas. Segundo o Gabriel Colle, atualmente, já são cerca de 40 convênios com universidades em trâmite, entre eles a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade de Brasília (UnB).
Em março de 2024, a UnB sediou o 1º Fórum Nacional de Aviação Agrícola no Planalto Central, em parceria com o Sindag, com o Instituto Brasileiro da Aviação Agrícola — braço do sindicato — com a CNA, com a Aprosoja e com a CropLife Brasil, associação que reúne as multinacionais produtoras de agrotóxicos. O evento culminou no lançamento de um Núcleo de Estudos em Atividades Aeroagrícolas.
O núcleo recebeu a primeira bolsa financiada pelo sindicato. O financiamento resultou na publicação, em novembro de 2024, de um estudo sobre controle de deriva que, segundo Colle, chegou a resultados “extremamente importantes”. O estudo consistiu em uma revisão bibliográfica de pesquisas sobre o tema, com o objetivo de descrever uma equação para descrição da deriva.
O estudo argumenta que, nos testes realizados em diferentes pesquisas analisadas, foi identificado um valor máximo de 100 metros de deriva, e argumenta pela abertura de “novas discussões da faixa de segurança”, uma vez que as distâncias mínimas estabelecidas pelo Mapa são maiores.
O financiamento de pesquisas pelo sindicato parece ter um vício de origem: a arrecadação é realizada pelo mesmo Fundo de Defesa da Aviação Agrícola que recruta doações para promover o lobby nas câmaras municipais. Colle destaca que a pesquisa é o objetivo mais importante do fundo.
“A gente pretende utilizar mais recursos na produção de divulgação e promoção do setor, principalmente de esclarecimento de mitos e fatos. A origem disso deverá ser as pesquisas. Temos realmente um desejo, um sonho que possamos ter alunos de diferentes universidades com bolsas pagas pelo fundo incentivando a fazer pesquisa”, afirmou.
O diretor do Sindag foi questionado sobre o comprometimento dos resultados das pesquisas pelo interesse econômico do setor, mas não respondeu a pergunta.
| Julia Dolce é repórter de O Joio e o Trigo. |
Imagem principal (Denise Matsumoto): lobby da pulverização aérea consegue reverter projetos de lei que limitam uso de agrotóxicos.
Representantes das comunidades quilombolas de Bocaina e Mocó, em Piatã, na Chapada Diamantina, acusam a CBPM (Companhia Baiana de Pesquisa Mineral), estatal comandada pelo governo petista da Bahia, de atuar como aliada da mineradora inglesa Brazil Iron em conflito socioambiental causado pela empresa
Por Daniel Camargos/ Edição Igor Ojeda para a Repórter Brasil
Lideranças quilombolas da Chapada Diamantina, na Bahia, acusam a empresa estatal CBPM (Companhia Baiana de Pesquisa Mineral) de atuar em favor dos interesses da mineradora inglesa Brazil Iron em um conflito com comunidades da região.
Em agosto de 2024, a CBPM e a Brazil Iron firmaram um acordo por meio do qual a estatal baiana assumiu a responsabilidade de intermediar o diálogo entre a mineradora e a sociedade civil, o que inclui as comunidades quilombolas. A parceria, cujo objetivo declarado é viabilizar um projeto de quase R$ 30 bilhões da empresa inglesa, prevê também uma consultoria em questões burocráticas.
Os resultados dessa colaboração têm aparecido desde então. Em fevereiro deste ano, o governo estadual enviou um emissário à comunidade da Bocaina: o tenente-coronel da Polícia Militar da Bahia, Paulo Cezar Cabral, que ocupa o cargo de mediador de conflitos na gestão do governador Jerônimo Rodrigues (PT).
Segundo os moradores, durante reunião no pátio da escola da comunidade, o oficial questionou a legalidade do reconhecimento do território como quilombola e se posicionou em defesa dos interesses da mineradora. Vinte dias antes, Cabral havia treinado técnicos da CBPM sobre “interação social e mediação”, a pedido do próprio governador, conforme a estatal.
O próprio presidente da CBPM, Henrique Carballal, é testemunha da Brazil Iron na ação na Justiça do Reino Unido. Em carta ao tribunal inglês, ele buscou dissuadir os juízes do caso a aceitar a jurisdição. “Isso poderia desencorajar o investimento estrangeiro na Bahia”, escreveu, segundo resumo da açãopublicado pela corte inglesa.
Em fevereiro de 2025, o presidente da CBPM, Henrique Carballal, viajou à Alemanha com representantes da Brazil Iron para conhecer tecnologias de mineração sustentável que, segundo ele, serão aplicadas nos novos projetos na Bahia (Imagem: Reprodução/Instagram)
Em dezembro de 2024, a CBPM enviou um ofício ao Itamaraty solicitando apoio diplomático à mineradora inglesa no litígio com os quilombolas, revelou a revista Piauí. No documento, a estatal alegava que a ação internacional era uma afronta à soberania brasileira. O Itamaraty não atendeu ao pedido sob a justificativa de não ser atribuição da pasta intervir em disputas privadas no exterior.
O ofício foi assinado por Carlos Borel Neto, presidente interino da companhia na época, pois Carballal estava afastado para coordenar a campanha mal-sucedida do vice-governador Geraldo Júnior (PMDB) à Prefeitura de Salvador.
Em fevereiro de 2025, de volta ao comando da estatal, Carballal viajou à Alemanha com representantes da Brazil Iron. A comitiva visitou a sede da RWE, empresa alemã de energia renovável, para conhecer tecnologias de mineração sustentável que, segundo os envolvidos, serão aplicadas nos novos projetos na Bahia.A agenda incluiu também uma passagem por Londres, para encontro com a diretoria da mineradora.
Justiça inglesa proibiu contato da Brazil Iron com quilombolas
A atuação da CBPM como intermediadora do diálogo entre a Brazil Iron e as comunidades é vista pelos quilombolas como uma forma de driblar uma determinação da Justiça inglesa. Em outubro de 2023, a Alta Corte de Justiça do país atendeu a um pedido de liminar feito por 103 quilombolas e proibiu representantes da mineradora de manterem contato com os moradores.
A decisão foi tomada após relatos de intimidação e pressão que passaram a acontecer especialmente depois que os quilombolas ingressaram com o processo judicial no Reino Unido contra a empresa inglesa, por danos ambientais. A mineradora nega qualquer irregularidade e questiona a legitimidade da corte estrangeira para julgar o caso.
Catarina mostra a nascente que antes jorrava água cristalina e que, após a instalação da Brazil Iron, foi sendo assoreada (Foto: Fernando Martinho)
“É preocupante que uma questão envolvendo brasileiros, sobre um empreendimento localizado em território nacional, contra uma empresa regularmente instalada e registrada no Brasil, seja julgada por um tribunal inglês“, afirma a Brazil Iron, que vai recorrer da decisão da Justiça inglesa de dar seguimento à ação (leia íntegra da resposta).
Na nota, a mineradora diz também que a afirmação de que esteja usando a estatal baiana para driblar uma decisão judicial é uma “alegação infundada”. “É coerente e corriqueiro que o governo do estado e a CBPM tenham interação com quaisquer comunidades no entorno de empreendimentos desse tipo.”
A Repórter Brasil procurou a CBPM e o governo da Bahia para responder às denúncias de que a estatal estaria atuando em favor da mineradora. Em sua resposta, a estatal não respondeu os questionamentos e os classificou como “tendenciosos” e “pautados por interesses escusos” (leia íntegra da resposta).
A reportagem também solicitou esclarecimentos sobre a atuação de Carballal e o ofício enviado pela CBPM ao Itamaraty, mas nem a estatal nem o governo baiano se manifestaram. O questionamento sobre a fala do tenente-coronel Paulo Cezar Cabral aos quilombolas também ficou sem resposta.
Vista aérea mostra a terra carcomida pela Brazil Iron no alto da chapada e as comunidades instaladas no vale em Piatã, Bahia, na Chapada Diamantina (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil/Março de 2022)
Estado apoia mineradora em empreendimento bilionário
A Brazil Iron mantém projetos de extração de minério de ferro e infraestrutura pesada na Chapada Diamantina. O novo projeto, que inclui a parceria com a CBPM, promete explorar minério de ferro “verde” e investimentos de quase R$ 30 bilhões. O plano inclui a construção de uma mina, um ramal ferroviário e unidades siderúrgicas para produção. A previsão é gerar 55 mil empregos diretos e indiretos.
O presidente da CBPM descreveu a parceria com a Brazil Iron, que busca viabilizar o empreendimento, como “uma mudança de filosofia” da estatal: deixaria de atuar apenas na pesquisa mineral para também apoiar a produção e o desenvolvimento regional.
“As mesmas técnicas e condições que estão sendo aplicadas aqui [na Alemanha] serão implementadas no projeto que a Brazil Iron vai desenvolver na Bahia, entre elas, máquinas que, além de operarem na mineração, são capazes de recompor o solo, promovendo a recuperação ambiental e o reflorestamento das áreas exploradas”, escreveu Carballal em uma postagem feita da Alemanha em fevereiro deste ano.
Antes de assumir a CBPM, em junho de 2023, Carballal foi eleito vereador três vezes em Salvador pelo PT, PV e pelo PDT, quando foi líder do governo de Antônio Carlos Magalhães Neto na Câmara Municipal. Ele foi citado emdelações da Odebrechtcomo destinatário de recursos não declarados na campanha eleitoral de 2010.
Ele foi denunciado pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público da Bahia, em março de 2013, por ter se apropriado, total ou parcialmente, dos vencimentos de seus 19 assessores entre 2009 e 2010, durante o mandato de vereador. Em sua defesa, Carballal alegou que a denúncia carecia de provas e que não recebeu repasses ilícitos.
Brazil Iron foi proibida pela Justiça inglesa de manter contato com as comunidades quilombolas em Piatã (BA), na Chapada Diamantina, até o caso ser julgado (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil/Março de 2022)
Alinhamento entre mineradora e Estado prejudica comunidade
A promessa de explorar minério de ferro “verde” e de gerar empregos, no entanto, contrasta com os sentimentos de desconfiança e medo que dominam as comunidades quilombolas de Bocaina e Mocó, em Piatã.
Para Vanusia Santos, moradora da comunidade da Bocaina, a relação entre o Estado e os grandes empreendimentos, como o realizado pela Brazil Iron, privilegia os interesses das empresas. “O que a gente está vendo aqui é um grande incentivo [estatal] direcionado às demandas da mineração, enquanto as necessidades básicas das comunidades tradicionais continuam sem resposta. As vozes das comunidades locais, que há gerações preservam suas culturas e modos de vida, são muitas vezes ignoradas”, protesta.
A tensão entre a mineradora e os quilombolas não é recente. Desde a instalação da “lavra experimental”,moradores denunciam impactos da exploração mineral: além da poeira que cobre os telhados e invade os pulmões, há relatos de nascentes destruídas, contaminação do solo e assoreamento do rio Bebedouro. Um estudo da UFBA (Universidade Federal da Bahia), realizado em 2020, apontou a presença de metais pesados como chumbo, manganês e fósforo nas amostras de água do rio.
A Repórter Brasil esteve na comunidade em 2022 e relatou a circulação intensa de caminhões e explosões próximas às casas. Durante a fase de pesquisa, a movimentação de terra feita pela Brazil Iron teria assoreado uma nascente, segundo os moradores.
“Eles [Brazil Iron] começaram a degradar em cima do morro e o rejeito de minério foi descendo para a nascente”, detalha a líder quilombola Catarina Silva. Ela acompanhou a reportagem até o local para mostrar os efeitos do assoreamento provocado pela mineração, como retrata o vídeo a segui
Além da nascente, os quilombolas relataram outros impactos ocorridos ao longo dos anos de perfurações e detonações realizadas pela empresa inglesa. As comunidades reclamaram do barulho das explosões com dinamite, das rachaduras nas casas e da poeira excessiva gerada pelo tráfego de caminhões — fator associado a problemas respiratórios.
Na ocasião, o gerente de logística da Brazil Iron chamou a polícia para a equipe da Repórter Brasil e tentou apreender os equipamentos de gravação. Dias depois, o Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia) constatou ao menos 15 irregularidades na operação da mineradora e interditou suas atividades por tempo indeterminado. Entre os problemas identificados, estavam o assoreamento da nascente e a ausência de um plano de recuperação para as moradias danificadas.
Em paralelo ao processo no Reino Unido, a DPU (Defensoria Pública da União) ajuizou uma ação civil pública no Brasil contra a Brazil Iron e a Agência Nacional de Mineração, solicitando R$ 5 milhões em indenizações pelos danos causados às comunidades. A empresa, que se apresenta como líder em “mineração verde”, nega todas as acusações e afirma atuar dentro da legalidade ambiental.
Recentemente, a expansão da mineradora britânica na Bahia teve novo desdobramento, quando a Brazil Iron fez uma oferta de US$ 1 bilhão pela Bahia Mineração (Bamin), empresa controlada pelo grupo cazaque Eurasian Resources Group (ERG), segundo a agência Bloomberg.
A Bamin controla a mina Pedra de Ferro em Caetité, além de ativos estratégicos como o Porto Sul e um trecho da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol). A Brazil Iron assinou um acordo de confidencialidade com a ERG, enquanto Vale e governo federal também demonstraram interesse nos ativos.
Gomas de mascar feitas de polímeros sintéticos ou resinas de árvores liberam quantidades significativas de pequenas partículas de plástico na saliva, de acordo com um estudo atualmente em revisão por pares, apresentado na terça-feira em uma reunião da Sociedade Química Americana.
Pesquisadores descobriram que a goma de mascar, em média, libera mais de 600 partículas de microplásticos por grama, com um chiclete médio pesando entre dois e seis gramas, de acordo com oestudo , no qual os pesquisadores mascaram 10 tipos diferentes de marcas líderes de goma e então coletaram amostras de sua saliva em vários momentos.
“Precisamos estar cientes de que essas gomas estão liberando plásticos em nosso corpo”, disse Sanjay Mohanty , coautor do estudo e professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles.
A goma sintética é feita de polímeros plásticos, um fato que a maioria das pessoas desconhece, disse a autora principal do estudo, Lisa Lowe, uma estudante de pós-graduação no laboratório de Mohanty. Não foi um choque para os pesquisadores, então, que a goma liberasse microplásticos.
Os cientistas ficaram surpresos, no entanto, que as gomas “naturais” que usam resinas vegetais como base tinham níveis semelhantes de microplásticos, que devem estar chegando lá de alguma forma durante o processo de fabricação, disseram eles.
A Food and Drug Administration (FDA) dos EUA não tem padrões para microplásticos em alimentos edeclarouque “as evidências científicas atuais não demonstram que os níveis de microplásticos ou nanoplásticos detectados em alimentos representam um risco à saúde humana”.
No entanto, algumas pesquisas começaram a sugerirligações entre microplásticos no corpo e resultados negativos para a saúde. Por exemplo,um estudo publicado em março de 2024 no The New England Journal of Medicine acompanhou 312 pacientes que tiveram depósitos de gordura, ou placas, removidos de sua artéria carótida. Quase seis em cada 10 tinham microplásticos, e essas pessoas se saíram pior do que aquelas que não tinham: nos 34 meses seguintes, elas tinham 2,1 vezes mais probabilidade de sofrer derrame, ataque cardíaco ou morrer.
Mas os pesquisadores deste estudo não fazem nenhuma afirmação sobre os efeitos na saúde e não querem alarmar ninguém ou destacar a goma de mascar desnecessariamente, já que microplásticos são encontrados em muitos alimentos, disse Mohanty.
“A goma de mascar é segura para ser apreciada, como tem sido por mais de 100 anos”, disse um porta-voz da National Confectioners Association em uma declaração por e-mail. “A segurança alimentar é a prioridade número um para as empresas de confeitaria dos EUA, e nossas empresas associadas usam apenas ingredientes permitidos pela FDA.”
As 10 marcas de goma no estudo liberaram principalmente quatro tipos diferentes de microplásticos, incluindo poliolefinas, tereftalato de polietileno (PET), poliacrilamidas e poliestirenos. O PET é comumente usado para fazer garrafas plásticas e é opolímero mais comum encontrado no cérebro humano, no único estudo de referência sobre o tópico. O poliestireno é usado em amendoins de embalagem e muitos outros produtos.
O estudo mediu apenas microplásticos acima de 20 mícrons de tamanho (uma pequena fração de um milímetro), o que significa que pode haver muito mais fibras que não estão aparecendo, talvez por um fator de 10, disse Mohanty. A equipe espera procurar partículas ainda menores em trabalhos futuros, ele acrescentou.
O artigo descobriu que as gomas liberam a maioria dos microplásticos nos primeiros minutos de mastigação e liberam mais de 90% das partículas de plástico em oito minutos.
A pesquisa sugere que a goma de mascar provavelmente libera ainda mais microplásticos no ambiente ao longo do tempo, tornando importante descartá-la corretamente, disse Lowe.
Acima de tudo, há que se combater a falácia de que o capitalismo é capaz de resolver os problemas que ele gera a partir de fórmulas que não questionam as suas formas de produção e reprodução
O governador do Pará Helder Barbalho (à esquerda) e Lula, em Belém. Foto: Daleth Oliveira/Revista Cenarium
A realização da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (a chamada COP30) na cidade de Belém tem sido apresentada como uma espécie de chance do Brasil se posicionar como um dos líderes da necessária transição para um novo modelo de relação societária com os ecossistemas naturais da Terra.
Pois bem, o problema é que a propaganda em torno da COP30 não resiste a um mínimo de escrutínio em função das opções dominantes do governo Lula para iniciar qualquer coisa que se assemelhe à transição energética necessária para se arrefecer ou, pelo menos, retardar o colapso climático que se desenha em um horizonte cada vez mais carregado e próximo.
A primeira e talvez maior demonstração do descompromisso em nos preparar para o colapso que se avizinha é a insistência em abrir uma nova fronteira de exploração de petróleo e gás na foz do Rio Amazonas, convenientemente rebatizada de Margem Equatorial. A sugestão de que a renda petrolífera que venha a ser eventualmente obtida com as atividades petrolíferas na foz do Amazonas será em parte utilizada para acelerar a transição energética brasileira equivale à conversa de um bêbado que propõe ingerir mais vodca para alcançar a sobriedade. Basta olhar para o que está acontecendo em outra foz, a do Níger, para entender que a exploração do petróleo raramente traz outra coisa que não seja muita poluição e piora das condições socioambientais em que trabalhadores e camponeses precisam buscar seus meios de sobrevivência.
Mas o discurso pró-ambiente do governo Lula não está patinando apenas na foz do Amazonas, mas em outra região crítica para a contenção da crise climática em que se encontra o último grande bloco de floresta amazônica ainda razoavelmente intacto. Naquela parte da Amazônia, o governo Lula insiste em atender as demandas de latifundiários e empresas multinacionais que controlam a produção de soja ao pavimentar a chamada BR-319, que liga Manaus, capital do estado do Amazonas, a Porto Velho, capital de Rondônia. Se esse projeto se consumar, e nada indica que não o será, o que se verá em poucos anos é a perda de uma grande área de florestas que guarnece um grande estoque de biodiversidade e um gigantesco estoque de água. Várias pesquisas feitas na região da BR-319 já mostram que, mesmo antes da sua pavimentação, há um aumento considerável de estradas ilegalmente construídas que abrem caminho para a exploração madeireira e o grande garimpo ilegal de ouro – mantido por latifundiários e grandes burgueses do ramo às custas do aliciamento de camponeses sem terra.
A realidade é que o presidente Lula nunca foi realmente muito comprometido com a preservação ambiental da Amazônia, em que pese a importância estratégica da região para o equilíbrio ambiental não apenas do Brasil, mas do planeta. Desde seu primeiro mandato como presidente, Lula fez a opção por reforçar o papel brasileiro de supridor de commodities agrícolas e minerais, seguindo uma lógica neocolonial. Discurso pró-ambiente, quando muito, só mesmo em dias de festa. A verdade é que os compromissos reais sempre estiveram com os “campeões nacionais” como a JBS e a Vale, apenas para começo de conversa, os quais foram abastecidos com várias centenas de bilhões de reais, enquanto a reforma agrária nunca saiu do papel.
Diante desse quadro, o que fazer em face do avanço dos sinais de que estamos nos aproximando de um período de grandes dificuldades causadas pela transição para um clima mais hostil para os seres humanos, mas especialmente para os mais pobres?
A primeira coisa sensata a se fazer será não depositar um grão sequer de expectativa na capacidade da COP30 de gerar as propostas e projetos necessários para nos prepararmos para o que está se aproximando no horizonte. É que esta será mais uma conferência cujos resultados serão parcos e dominados pelos interesses das grandes corporações multinacionais que são as causadoras primárias das emissões de gases estufa. Ir até Belém para a COP30 não será apenas absurdamente caro, como já se anuncia na elevação exponencial das diárias dos hotéis. Será acima de tudo um desperdício de um tempo que não temos para perder.
Mas negar a efetividade do tipo de arranjo que organiza as negociações das COPs não será suficiente. Há que começar a radicalizar a organização política dos trabalhadores em prol de uma transição não apenas de modelo de consumo, mas essencialmente de organização societária. É preciso que se dissemine o conhecimento sobre a ameaça existencial que se está colocando sobre toda a Humanidade a partir da aceleração do caráter destrutivo que as formas de produção e consumo que caracterizam o sistema capitalista. Acima de tudo, há que se combater a falácia de que o capitalismo é capaz de resolver os problemas que ele gera a partir de fórmulas que não questionam as suas formas de produção e reprodução.
É chegada a hora de se superar as soluções “meia boca” e de aceitar o limiar de praticar política no limite do que é possível.
Árvores de grande porte e madeira densa são as mais afetadas. Pesquisas publicadas recentemente nas revistas Science e Nature alertam para a possibilidade de empobrecimento radical dos biomas
Mata Atlântica: o Núcleo Santa Virgínia, localizado no Parque Estadual da Serra do Mar, município de São Luiz do Paraitinga (SP), é uma das áreas pesquisadas no estudo (foto: Carlos Alfredo Joly)
José Tadeu Arantes | Agência FAPESP
A crise climática está afetando as florestas tropicais de maneira acelerada, enquanto os processos ecológicos que regem sua adaptação ocorrem em ritmo muito mais lento. Duas pesquisas recentes, publicadas nas revistasScience eNature, investigaram como as florestas tropicais estão respondendo às mudanças climáticas e quais são as implicações disso para a biodiversidade e a ciclagem do carbono. Os estudos indicam que as florestas estão mudando, sim, mas não na velocidade necessária para acompanhar o ritmo do aquecimento global.
“O que estamos vendo é que as florestas tropicais das Américas estão tentando se adaptar às mudanças climáticas, mas de forma bem mais lenta do que esperaríamos”, diz Jesús Aguirre-Gutiérrez, professor da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e primeiro autor dos dois artigos.
Gutiérrez informa que a crise climática está levando as florestas tropicais a mudarem sua composição, com um aumento de espécies decíduas, aquelas que perdem as folhas na estação seca. “Essas espécies têm uma vantagem em períodos de menor precipitação e temperaturas elevadas, pois podem reduzir a perda de água nesse contexto. No entanto, mesmo essa adaptação não está ocorrendo com rapidez suficiente para acompanhar a transformação do clima.”
Os dados revelam que espécies de grande porte, que desempenham papel fundamental na estrutura da floresta e na captura de carbono, estão sendo substituídas por espécies menores e de menor densidade. “Observamos que as espécies que se regeneram com maior facilidade não são as de grande porte e de madeira mais densa, mas sim aquelas com maior plasticidade adaptativa. Isso reduz a capacidade de estocagem de carbono da floresta e pode afetar os modelos climáticos, já que a capacidade fotossintética será menor no futuro”, afirma Carlos Alfredo Joly, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e coautor dos dois artigos.
Monitoramento contínuo
Os estudos foram possíveis graças a décadas de monitoramento ecológico, utilizando parcelas permanentes de um hectare cada em diferentes regiões tropicais. As informações foram complementadas por imagens de satélite. “Os dados que utilizamos no artigo da Science vêm de parcelas distribuídas do México ao sul do Brasil”, conta Aguirre-Gutiérrez. “São 415 parcelas e foram necessários muitos anos para coletar essas informações. Agora, com imagens de satélite e modelagem, podemos expandir essa análise para outras regiões tropicais, como a África e a Ásia, onde os dados de campo são mais escassos.”
Essa abordagem permitiu mapear atributos funcionais das florestas tropicais, como a morfologia e a química das folhas, a estrutura da vegetação e a presença de espécies decíduas. “No estudo da Nature, utilizamos modelagem com dados do satélite Sentinel-2 da Agência Espacial Europeia, que nos permitiu criar mapas da distribuição desses atributos nos trópicos”, destaca Aguirre-Gutiérrez. “Isso nos dá uma visão detalhada de como as florestas estão mudando e nos ajuda a projetar cenários futuros.”
As pesquisas apontaram que as mudanças nas florestas tropicais podem levar à perda de biodiversidade e a um empobrecimento estrutural desses biomas. “Espécies de grande porte, como jatobás, ipês, perobas e jequitibás, estão desaparecendo porque não conseguem acompanhar as mudanças climáticas”, alerta Joly. “Na Amazônia, árvores icônicas como a castanheira-do-pará e as copaíbas também estão em risco. Além de seu valor próprio, como fontes de alimentos e medicamentos, essas espécies são fundamentais para a captura de carbono e a manutenção da biodiversidade.”
A transição para florestas dominadas por espécies mais adaptáveis pode ter implicações profundas. “Constatamos que as florestas estão se tornando mais suscetíveis à mortalidade em larga escala”, comenta Simone Aparecida Vieira, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam) da Unicamp e integrante da coordenação doPrograma BIOTA-FAPESP. “Isso compromete funções ecossistêmicas essenciais, como a regulação do ciclo do carbono e da precipitação. O colapso florestal pode aumentar o carbono na atmosfera e reduzir a formação de chuvas, intensificando ainda mais a crise climática.”
Diante desse cenário, a conservação e a restauração das florestas tropicais tornam-se ainda mais urgentes. No entanto, simplesmente proteger áreas degradadas, apostando no processo de sucessão, pode não ser suficiente. “Se uma área degradada for protegida, as espécies nobres reaparecerão espontaneamente no processo natural de regeneração? A resposta curta é não”, afirma Joly. “Experimentos de restauração mostram que essas espécies apresentam uma taxa de mortalidade alta, mesmo quando plantadas. Elas crescem lentamente e são vulneráveis a eventos extremos.”
Além disso, a fragmentação das florestas dificulta a regeneração. “A perda de conectividade entre fragmentos florestais leva ao empobrecimento da biodiversidade”, explica o pesquisador. “Em áreas isoladas, a dispersão de sementes por animais como cutias, pacas e macacos fica comprometida, dificultando a regeneração de espécies vegetais importantes.”
Uma das soluções propostas é a regeneração natural assistida (assisted natural regeneration), que consiste no plantio de espécies adaptadas às novas condições climáticas. “Com os dados que temos, podemos identificar quais espécies nativas estão mais bem adaptadas ao clima atual e priorizar seu plantio”, sugere Aguirre-Gutiérrez. “Isso pode aumentar as chances de sucesso dos programas de reflorestamento.”
Apesar dos avanços tecnológicos no monitoramento das florestas, os pesquisadores enfatizam que o trabalho de campo continua sendo indispensável. “A gente tem de continuar investindo em trabalho de campo, colocando recursos para que pesquisadores no México, no Brasil e em outros países possam coletar dados”, destaca Aguirre-Gutiérrez. “Não podemos fazer tudo apenas com satélites. Precisamos de dados de campo para validar e aprimorar os modelos.”
As descobertas desses estudos reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas para a conservação das florestas tropicais, aliando ciência, tecnologia e principalmente ações concretas para mitigar os impactos das mudanças climáticas. “A ecologia tem mostrado cenários cada vez mais preocupantes”, conclui Vieira. “Se não agirmos agora, as florestas tropicais podem perder sua função ecológica antes que consigam se adaptar ao novo clima.”