Dia da água: Venda de áreas de pesquisa no Estado de São Paulo ameaça bioma Cerrado e põe em risco maior manancial de água doce do mundo

Diante da emergência climática, Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) defende que áreas recebam investimentos em pesquisa

São Paulo, março de 2025 – A venda de áreas de pesquisa no Estado de São Paulo pode colocar em risco o que resta do bioma do Cerrado, considerado o ‘berço das águas’, em território paulista, estimado hoje em apenas 3% da vegetação original. A afirmação é da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), que monitora 39 áreas de experimentação ligadas à Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA), todas com vocação para pesquisa e conservação do bioma.  

“O atual governo já confirmou, em resposta a um ofício da Assembleia Legislativa, que realiza um estudo para vender essas áreas. São fazendas fundamentais para a pesquisa científica, a produção de conhecimento, e, mais do que isso, essenciais para conservar o pouco que nos resta do bioma do Cerrado no Estado”, afirma Helena Dutra Lutgens, presidente da APqC. 

O Cerrado é reconhecido pela capacidade de absorver água da chuva e liberar lentamente ao longo de todo ano. No Estado de São Paulo, segundo cientistas, ele cumpre um papel ainda mais relevante, o de proteger o aquífero Guarani, maior manancial de água doce subterrânea do mundo. 

Apesar de sua importância, o Cerrado enfrenta desmatamento há décadas. Dados da plataforma Terrabrasilis, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), indicam que a área desmatada em São Paulo avançou 831,91 km² desde 2001.  

Apenas no ano passado, segundo dados do Painel Verde, do Governo de São Paulo, 281 áreas do bioma Cerrado sofreram intervenções irregulares.  

“Diante do atual cenário de mudanças climáticas, o Estado mais rico da nação deveria estar preocupado em buscar investimentos para desenvolver pesquisas sobre como enfrentar a escassez hídrica, que já afeta muitos municípios do interior paulista, ou estudos para evitar que os mananciais sejam contaminados pela exploração agrícola, algo que também já ocorre em diferentes regiões do Estado”, sinaliza Lutgens. 

Um estudo divulgado no ano passado e conduzido por pesquisadores do Instituto Geológico e da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) indica risco de algumas regiões paulistas enfrentarem aumento de até 6ºC na temperatura até 2050. Ondas de calor podem dominar o clima por até 150 dias por ano.  

Segundo a APqC, os 16 institutos públicos de pesquisa de São Paulo têm realizado estudos para identificar variedades mais resistentes às mudanças climáticas, em diferentes culturas. Mas, segundo a APqC, os esforços dos pesquisadores dependem de maior investimento, além da contratação de mais cientistas. 

“A segurança alimentar das próximas gerações depende do investimento em pesquisa que fazemos hoje. O uso sustentável da água e a descoberta de novas variedades de alimentos adaptadas ao novo clima dependem da ciência e não há como produzir conhecimento sem áreas de pesquisa, sem ter onde experimentar essas descobertas. Vender áreas de pesquisa diante do quadro que vivemos é um crime contra as futuras gerações”, finaliza Lutgens. 

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Apertando o acelerador: Assembleia Legislativa diminui distâncias e potencializa exposição humana a agrotóxicos no Mato Grosso

Deputados aprovaram em regime de urgência o Projeto de Lei 1833/2023, uma proposta que elimina barreiras cruciais para a aplicação de agrotóxicos em pequenas propriedades rurais

Foto: Adriano Gambarini/ OPAN

Por Opan 

Em uma sessão marcada pela pressa, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) deu um passo que promete redefinir o cenário da produção agrícola e causar sérios danos à saúde pública no estado. Nesta quarta-feira (19), deputados aprovaram em regime de urgência o Projeto de Lei 1833/2023, uma proposta que elimina barreiras cruciais para a aplicação de agrotóxicos em pequenas propriedades rurais. A decisão levanta questões urgentes sobre os limites entre o desenvolvimento econômico e a proteção do meio ambiente.

A flexibilização representa uma mudança drástica em relação à legislação anterior, que estabelecia distâncias mínimas para a aplicação de agrotóxicos, e que eram consideradas insuficientes para um nível adequado de proteção à saúde da população e do meio ambiente. A proposta também estabelece novas distâncias mínimas para médias e grandes propriedades rurais. No caso de médias propriedades, a aplicação de agrotóxicos poderá ocorrer a uma distância mínima de 25 metros das áreas habitadas e fontes de água. Já para grandes propriedades a distância mínima estabelecida é de 90 metros.

Essas mudanças contrastam com o Decreto nº 2.283/2009, que estava em vigor em Mato Grosso e determinava que o uso de agrotóxicos na agricultura só poderia ocorrer a uma distância mínima de 300 metros de povoações, cidades, vilas, bairros e mananciais de captação de água para abastecimento da população.

Além disso, o decreto estabelecia distâncias mínimas de 150 metros de mananciais de água, moradias isoladas e agrupamentos de animais, e de 200 metros de nascentes, mesmo que intermitentes.

O deputado Gilberto Cattani (PL), autor do projeto de lei, justifica a proposta argumentando que a distância mínima de 300 metros estabelecida pelo decreto anterior traz prejuízos à produção agrícola, à população e à economia, devido ao alastramento descontrolado de pragas agrícolas.

No entanto, especialistas alertam para os graves riscos que a medida representa para a saúde da população, o meio ambiente, aos produtores e até para a própria produção.

“Um dos resultados que nós vimos é que existe uma necessidade de manter uma zona segura, sem a aplicação de agrotóxicos em volta das áreas de preservação permanente, as APPs. Porque os agrotóxicos por si só, eles não controlam todas as pragas da paisagem. Nós sabemos que paisagens que tiveram uma aplicação de altos índices suscetíveis, ano a ano, de agrotóxicos eles selecionaram pragas mais resistentes. Então, é fundamental que se alinhe o controle biológico natural e resguardar uma faixa segura de APPs porque nós vimos que tem animais que são fundamentais para ajudar a controlar essas pragas junto com os agrotóxicos. Então, manter essas zonas seguras é fundamental para preservar a agricultura”, explicou o pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Lucas Ferrante, durante audiência realizada nesta terça-feira (18), que debateu o tema.

Foto: Adriano Gambarini/ OPAN

O médico, pesquisador e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Wanderlei Pignati, também ressaltou que a proposta é absurda, pois vai aumentar a exposição a venenos e ampliar a probabilidade da população ter doenças.

“Quanto mais perto, maior é a probabilidade de você ter intoxicação aguda, malformações, câncer. A população que mora do lado, crianças e adultos, os rios, tudo vai ser muito afetado e contaminado”, afirma.

Wanderlei Pignati é responsável por um estudo que analisou as condições de saúde de pessoas que moravam em distâncias inferiores a um quilômetro das áreas de lavouras em Mato Grosso. Por meio da pesquisa, realizada pelo Núcleo de Estudos em Ambiente, Saúde, Trabalho e Educação (Neast), do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da universidade, foi demonstrado que a proximidade de áreas agrícolas é um fator de risco significativo.

Pesquisas da UFMT e do Neast/ISC/UFMT, em parceria com a Operação Amazônia Nativa (OPAN), também demonstraram a relação entre o uso intensivo de agrotóxicos em lavouras próximas a territórios indígenas e a causa de graves problemas de saúde.

Além disso, foram encontrados agrotóxicos proibidos, como carbofurano, atrazina e carbendazim, nas lavouras. A exposição a esses produtos está associada a intoxicações agudas, doenças crônicas, como câncer e problemas neurológicos, e impactos ambientais severos.

O estudo ainda mostrou que as pessoas com residência próxima a lavouras agrícolas de milho e algodão tiveram quase duas vezes mais intoxicações agudas comparadas com as que residiam em outros locais.

Na sessão ordinária apenas três deputados, Wilson Santos (PSD), Lúdio Cabral (PT) e Valdir Barranco (PT), votaram contrários ao projeto de lei, que segue para sanção do governador Mauro Mendes (União Brasil).


Fonte: OPAN

Derretimento de geleira coloca em risco abastecimento de água e alimentos para 2 bilhões de pessoas, diz ONU

Relatório da Unesco destaca perda de geleiras “sem precedentes” causada pela crise climática, ameaçando ecossistemas, agricultura e fontes de água

Um pedaço de gelo flutua sobre a geleira Portage, perto de Girdwood, Alasca. Dois terços de toda a agricultura irrigada do mundo provavelmente serão afetados de alguma forma pelo recuo das geleiras. Fotografia: Mark Thiessen/AP

Por Fiona Harvey para o “The Guardian” 

O recuo das geleiras ameaça o suprimento de alimentos e água de 2 bilhões de pessoas ao redor do mundo, alertou a ONU, já que as atuais taxas “sem precedentes” de derretimento terão consequências imprevisíveis.

Dois terços de toda a agricultura irrigada no mundo provavelmente serão afetados de alguma forma pelo recuo das geleiras e pela diminuição da queda de neve nas regiões montanhosas, causados ​​pela crise climática, de acordo com um relatório da Unesco .

Mais de 1 bilhão de pessoas vivem em regiões montanhosas e, daquelas em países em desenvolvimento, até metade já está passando por insegurança alimentar. É provável que isso piore, pois a produção de alimentos nessas regiões depende das águas das montanhas, do derretimento da neve e das geleiras, de acordo com o World Water Development Report 2025 .

Os países desenvolvidos também correm risco: nos EUA, por exemplo, a bacia do Rio Colorado está em seca desde 2000, e temperaturas mais altas significam que mais precipitação cai na forma de chuva, que escorre mais rapidamente do que a neve das montanhas, agravando as condições de seca.

Audrey Azoulay, diretora geral da Unesco , disse: “Independentemente de onde vivemos, todos nós dependemos de alguma forma de montanhas e geleiras. Mas essas torres de água naturais estão enfrentando perigo iminente. Este relatório demonstra a necessidade urgente de ação.”

A taxa de mudança de geleiras é a pior já registrada, de acordo com uma pesquisa separada da Organização Meteorológica Mundial, que publicou seu relatório anual State of the Climate esta semana . A maior perda de massa de geleira em três anos já registrada ocorreu nos últimos três anos, descobriu o estudo, com Noruega, Suécia, Svalbard e os Andes tropicais entre as áreas mais afetadas.

A África Oriental perdeu 80% de suas geleiras em alguns lugares e, nos Andes, entre um terço e metade das geleiras derreteram desde 1998. As geleiras nos Alpes e nos Pireneus, as mais afetadas na Europa, encolheram cerca de 40% no mesmo período.

O declínio das geleiras teve um impacto adicional, acrescentou Abou Amani, diretor de ciências da água na Unesco, no sentido de que a perda de gelo substitui uma superfície reflexiva por solo escuro que absorve calor. “O derretimento das geleiras tem um impacto na refletividade da radiação [solar] e isso impactará todo o sistema climático”, ele alertou.

Mais avalanches também resultarão, pois a chuva caindo sobre a neve é ​​um fator importante por trás da formação de avalanches . A água acumulada de geleiras derretidas também pode ser liberada, causando inundações repentinas em vales ou para pessoas que vivem mais abaixo nas encostas . O permafrost também está derretendo, liberando metano dos solos das montanhas que as geleiras derretidas estão descobrindo .

Um estudo anterior, publicado no mês passado no periódico revisado por pares Nature, descobriu que metade da massa global de geleiras seria perdida até o final do século , se o aquecimento global não fosse interrompido. Alex Brisbourne, um geofísico de geleiras do British Antarctic Survey, disse: “As geleiras de montanha contêm alguns dos maiores reservatórios de água doce da Terra. A água derretida liberada no verão fornece o suprimento de água para um bilhão de pessoas e sustenta uma enorme quantidade de indústria e agricultura. O impacto [de tal derretimento] será sentido muito além daqueles imediatamente a jusante das geleiras.”

Esses impactos estão chegando em um momento em que muitas fontes de alimentos já estão sob pressão . Alvaro Lario, presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Ifad) e presidente da ONU-Água, pediu mais apoio às pessoas que vivem em regiões montanhosas afetadas. “A água flui para baixo, mas a insegurança alimentar sobe. As montanhas fornecem 60% da nossa água doce, mas as comunidades que protegem esses recursos vitais estão entre as mais inseguras em termos de alimentos”, disse ele.

“Devemos investir na resiliência deles para proteger geleiras, rios e um futuro compartilhado para todos nós.”


Fonte: The Guardian

COP 30: as duras críticas às políticas ambientais do Brasil publicadas na Science

Pesquisadores defendem que parar o desmatamento na Amazônia é apenas uma das ações necessárias para lidar com as mudanças climáticas na região
Por André Biernath,  para a BBC News Brasil em Londres 

“Como anfitrião, o Brasil não está liderando pelo exemplo.”

Oito meses antes da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, a COP 30, que será realizada em novembro na cidade Belém do Pará, a atuação do governo brasileiro virou alvo de críticas num editorial da prestigiada revista científica Science.

Assinado pelos cientistas Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e Walter Leal Filho, da Universidade de Ciências Aplicadas de Hamburgo, na Alemanha, o texto aponta que, “com exceção do Ministério de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, virtualmente todos os setores do governo promovem atividades que aumentam as emissões de gases do efeito estufa“.

Como exemplo, eles citam o projeto do Ministério dos Transportes de recuperar a BR-319, que vai de Manaus, no estado do Amazonas, a Porto Velho, em Rondônia.

“Essa vasta região que será exposta pelas estradas contém carbono suficiente para empurrar o aquecimento global a um ponto irreversível”, alertam eles.

Fearnside e Leal Filho também citam o subsídio oferecido pelo Ministério da Agricultura para “transformar pastagens em plantações de soja“. Segundo eles, esse é outro elemento incentivador do desmatamento.

“Quando a terra se torna mais valiosa para o plantio de soja, pecuaristas (incluindo aqueles que vêm de fora da Amazônia) vendem a terra para agricultores e usam os lucros para comprar áreas maiores e mais baratas em regiões remotas da Amazônia”, argumentam eles.

“Cada hectare de pasto convertido em plantação de soja pode gerar muitos hectares de desmatamento.”

Os autores do editorial ainda citam a ação do Ministério de Minas e Energia para a abertura de novos campos de exploração de petróleo e gás na Floresta Amazônica e em regiões costeiras — incluindo os planos para avaliar o potencial energético na foz do rio Amazonas.

Os especialistas avaliam que o plano brasileiro de continuar a buscar novos poços de petróleo até o país alcançar o nível econômico de países desenvolvidos é “a fórmula para um desastre climático”.

Eles lembram que, em 2021, a Agência Internacional de Energia se mostrou favorável a não abrir qualquer novo ponto de exploração de gás ou petróleo, além de restringir a extração nos campos já abertos. A proposta da instituição é acabar com esse tipo de atividade até 2050.

Para Fearnside e Leal Filho, os estudos sobre petróleo na foz do Amazonas implicam efeitos de longo prazo. Eles calculam que um campo de exploração aberto ali demoraria cinco anos para começar a operar e outros cinco anos para dar retorno financeiro.

“E porque ninguém quer apenas recuperar o investimento, uma iniciativa dessas levaria a décadas de extração — muito além de quando o mundo precisaria abandonar os combustíveis fósseis”, escrevem eles.

Lula e Marina Silva

Em editorial, cientistas dizem que Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, comandado por Marina Silva (à direita), é exceção nas políticas ambientais do atual governo Lula (à esquerda). Crédito,Getty Images

‘Impactos catastróficos’

Para os especialistas que assinaram o editorial na revista Science, o fato de o Brasil assumir a liderança na luta contra as mudanças climáticas faz todo o sentido — e não apenas porque o país vai sediar a COP 30.

Eles lembram que o aumento da temperatura fora de controle terá “impactos catastróficos” no país.

“[Nesse cenário de impactos catastróficos,] O Brasil perderia a Floresta Amazônica, incluindo o papel vital que ela tem ao reciclar a água que supre a Grande São Paulo, a quarta maior região metropolitana do mundo.”

A bacia hidrográfica que chega a São Paulo recebe entre 16% e 70% de sua água das chuvas, cujo vapor é transportado a partir da Amazônia a partir dos chamados “rios voadores”.

Estimativas apontam que a destruição desse bioma aumentaria a frequência de secas extremas no Sudeste do país.

“A região semi-árida no Nordeste, que é densamente populada, se transformaria num deserto, e as populações que habitam a costa litorânea seriam expostas a um aumento das tempestades e do nível do mar.”

“O agronegócio e a agricultura familiar brasileiras também sofreriam impactos pesados. Secas de uma severidade ‘sem precedentes’ são esperadas no Brasil, e a frequência desses eventos poderia aumentar em pelo menos dez vezes.”

Com isso, “surpresas climáticas” — como as enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024 — se tornarão mais comuns, apontam os pesquisadores.

Rua afetada pelas enchentes no Rio Grande do Sul

Legenda da foto,Eventos climáticos extremos, como as inundações que arrasaram o Rio Grande do Sul no ano passado, ficarão mais frequentes se medidas não forem tomadas agora, apontam estudos. Crédito,Getty Images

‘Mudança radical’

Por fim, os responsáveis pelo editorial opinam que, para a COP 30 ser um evento capaz de reverter o “curso desastroso em direção ao ponto de não-retorno climático”, será necessário não apenas conter o desmatamento

“É preciso facilitar uma transição rápida para o fim do uso de combustíveis fósseis, dizem eles.

Fearnside e Leal Filho defendem que o Brasil, como anfitrião da conferência, precisa ser “encorajado a modificar as práticas atuais”.

“A COP 30 enfrenta grandes desafios para atingir os seus objetivos. E uma parte importante disso envolve conter as emissões de gases a partir da Amazônia“, escrevem eles.

Os cientistas defendem uma “mudança radical nas políticas do governo brasileiro, tanto nos fatores que causam desmatamento quanto na extração de combustível fóssil”.

O que diz o governo

A BBC News Brasil entrou em contato com os ministérios citados no editorial para que eles pudessem se posicionar sobre o debate.

O Ministério do Transporte informou que “as políticas ambientais do Governo Federal são definidas pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima” e ficou à disposição para mais esclarecimentos sobre as políticas da pasta.

Já o Ministério de Minas e Energia pontuou que “os projetos exploratórios na Bacia da Foz do Amazonas não estão próximos à Floresta Amazônica”.

“Os blocos atualmente sob contrato nessa região estão situados em águas ultraprofundas, a cerca de 500 km da foz do Rio Amazonas e a 180 km do litoral do Amapá.”

“A pesquisa dessas áreas segue rigorosos padrões ambientais, com avaliações técnicas detalhadas conduzidas pelos órgãos reguladores competentes. O objetivo é conhecer o potencial geológico da Margem Equatorial, uma nova fronteira exploratória offshore que pode contribuir para a segurança energética do Brasil.”

O ministério ainda defendeu que “a transição para uma economia de baixo carbono é um processo gradual”.

“O petróleo seguirá desempenhando um papel estratégico na matriz energética global até 2050, e reduzir sua exploração de forma abrupta, sem planejamento, pode gerar impactos econômicos e sociais significativos. Além disso, a exploração brasileira tem uma das menores pegadas de carbono do mundo, o que a torna uma alternativa mais sustentável frente à produção global.”

“Se o Brasil deixar de explorar suas reservas, poderá se tornar dependente da importação de petróleo nas próximas décadas, resultando em perda de arrecadação e vulnerabilidade energética. De acordo com projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e do próprio MME, a não exploração da Margem Equatorial pode levar a perdas de até R$ 3 trilhões até 2050.”

Por fim, o ministério reafirmou “o compromisso com uma transição energética justa, sustentável e alinhada às metas climáticas globais, garantindo ao mesmo tempo o desenvolvimento econômico e a segurança energética do país”.

O Ministério da Agricultura e Pecuária não enviou respostas até a publicação desta reportagem.


Fonte: BBC News

Emissões passadas dos gases causadores do efeito de estufa podem elevar o nível do mar em quase 60 cm, conclui estudo

Por Dana Drugmand para o “The New Lede”

As emissões que retêm o calor, liberadas ao longo de mais de um século e meio pelos maiores produtores de combustíveis fósseis e cimento do mundo, devem fazer com que o nível global do mar suba cerca de 30 a 60 centímetros até o ano 2300, mesmo que as emissões futuras sejam drasticamente reduzidas, de acordo com uma nova pesquisa revisada por pares.

estudo , publicado em 18 de março na revista Environmental Research Letters, é o primeiro a medir como as emissões passadas de gases de efeito estufa de empresas de combustíveis fósseis podem contribuir para o aumento futuro do nível do mar a longo prazo, uma das consequências das mudanças climáticas causadas pelo homem, de acordo com os autores.

“Esta pesquisa contribui para o  crescente corpo de trabalho  que quantifica como as emissões passadas dos produtores de combustíveis fósseis prejudicarão as gerações futuras”, disse Delta Merner, coautor do estudo e diretor associado do Science Hub for Climate Litigation na Union of Concerned Scientists, em uma declaração . “Comunidades insulares e costeiras suportarão o peso desproporcional dos impactos da elevação do nível do mar ao longo do tempo, incluindo danos à infraestrutura, perda de habitat, intrusão de água salgada, aumento de inundações, encargos econômicos e deslocamentos forçados.”

Os pesquisadores também descobriram que quase metade (37% a 58%) do aumento atual da temperatura do ar na superfície e cerca de um terço (24% a 37%) do aumento global do nível médio do mar até o momento podem ser atribuídos às emissões históricas dos 122 maiores produtores de petróleo, gás, carvão e cimento, conhecidos como “Carbon Majors”. O estudo se baseia em análises anteriores que examinam como as emissões decorrentes dos produtos dessas empresas contribuem para os impactos das mudanças climáticas, incluindo o aquecimento da superfície, o aumento do nível do mar as condições de seca que ajudam a alimentar incêndios florestais .

O estudo examinou ainda quais seriam os impactos no aquecimento da superfície e nos níveis do mar se as grandes empresas de carbono tivessem reduzido as emissões eliminando a produção em períodos anteriores, como depois de 1950, quando pelo menos algumas empresas começaram a perceber que seus produtos impactariam o sistema climático, e depois de 1990, quando a comunidade internacional começou a abordar as mudanças climáticas.

“Em todos os cenários, descobrimos que o mundo teria sido mais frio e os níveis do mar mais baixos se as emissões de combustíveis fósseis tivessem sido eliminadas mais cedo”, explicou Shaina Sadai, a principal autora do estudo, em uma postagem de blog .

Se as emissões de combustíveis fósseis tivessem parado depois de 1990, por exemplo, o estudo estimou que o aumento futuro do nível do mar a longo prazo, atribuível às emissões passadas das grandes empresas de carbono, teria sido de cerca de 15 a 35 centímetros — menor do que os 25 a 53 centímetros esperados atualmente.

Pesquisas que analisam os impactos da falha em controlar as emissões são importantes para avançar nos esforços para responsabilizar os poluidores, disse Jennifer Jacquet, professora da Escola Rosenstiel de Ciências Marinhas, Atmosféricas e da Terra da Universidade de Miami, que não estava envolvida no estudo.

“À medida que nosso mundo muda significativamente para pior como resultado das mudanças climáticas, espero que tentemos responsabilizar os principais responsáveis ​​por essas mudanças — tanto em termos de poluição de carbono quanto de poluição de informação — nos tribunais e no mercado global, onde esse tipo de estudo será confiável”, disse Jacquet.

O nível médio global do mar está atualmente em seu nível mais alto desde que os registros de satélite começaram em 1993, e a taxa de elevação do nível do mar dobrou ao longo desse tempo, de acordo com um novo relatório da Associação Meteorológica Mundial. Esse relatório observa que as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono e outros gases que retêm calor são as mais altas dos últimos 800.000 anos. O ano passado foi o mais quente no registro observacional de 175 anos, de acordo com o relatório.

Apesar desses indicadores de uma crise climática piorando, os EUA estão aumentando a produção de combustíveis fósseis sob a nova administração Trump enquanto atacam a ciência climática e a energia limpa e revertem as políticas climáticas federais. Trump, que anteriormente chamou a mudança climática de farsa , está tirando os EUA do Acordo Climático de Paris, e sua administração tem como alvo agências que fazem ciência climática crítica e trabalho de previsão do tempo com cortes profundos, incluindo a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA). Um escritório da NOAA no Havaí que serve como o principal suporte para o Observatório Mauna Loa, que monitora as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono, pode ter seu arrendamento cancelado como parte desses cortes.

Com os compromissos globais já aquém do que é necessário para atingir emissões líquidas zero até 2050, de acordo com as Nações Unidas, mudanças na posição do governo dos EUA sobre as mudanças climáticas podem afastar ainda mais o mundo do caminho, disse Sadai.

“Cada atraso [na ação para mitigar as mudanças climáticas], mesmo que seja de apenas algumas décadas, terá consequências a longo prazo”, disse ela.

(Imagem em destaque por Point Normal no Unsplash .)


Fonte: The New Lede

Porto do Açu: governo Lula vai leiloar construção de ferrovia sobre terras de camponeses despejados

Ferrovia vai do Espírito Santo até Itaguaí, no Rio de Janeiro, passando pelo Porto do Açu – uma região no Norte Fluminense (NF) administrada por uma empresa não-estatal (“privada”) com um longo histórico de violência contra camponeses

Instalação no Porto do Açu, por onde ferrovia vai passar. Foto: Reprodução

Por Redação AND 

O Ministério dos Transportes de Luiz Inácio (PT), administrado por Renan Filho (MDB), está planejando a construção de uma ferrovia de 495 quilômetros (km) que vai do Espírito Santo até Itaguaí, no Rio de Janeiro, passando pelo Porto do Açu – uma região no Norte Fluminense (NF) administrada por uma empresa não-estatal (“privada”) com um longo histórico de violência contra camponeses.

O plano é contratar uma empresa também privada para construir a ferrovia, batizada de Estrada de Ferro 118, ou Anel Ferroviário do Sudeste. A primeira fase da construção vai concentrar-se na construção de 170 km de trilhos entre o Porto de Ubu, em Anchieta (ES), e o do Açu, em São João da Barra (RJ), atravessando 13 municípios ao todo. 

Depois, a construção vai revitalizar a Ferrovia Centro Atlântica, de Campos dos Goytacazes a Nova Iguaçu, e permitir uma conexão com os portos do Rio e de Itaguaí. Pelo menos na teoria. 

A ferrovia vai beneficiar os imperialistas britânicos, franceses, belgas e principalmente chineses que administram o Porto do Açu e os campos de exploração, porque atualmente o porto está no que é chamado de “cerco logístico”: a região é rica em recursos naturais, muito explorada, mas não tem uma via efetiva de escoamento. Normalmente, o transporte é todo feito por caminhões, o que gera um caos generalizado nas cidades das redondezas. 

“Na prática, esse trecho de 170 km que vão construir vai beneficiar a Vale, porque os portos são dessa empresa, não são portos para transportar mercadorias em geral ou para servir de transporte”, diz o geógrafo Marcos Pedlowski, da Universidade do Norte Fluminense (UENF), ao AND. “Fora que é uma forma de financiar as operações com dinheiro público, porque o investimento vai custar R$ 4,5 bilhões”, continua ele. 

Com a ferrovia, os magnatas pretendem escoar 8 milhões de toneladas de carga por ano, dentre minérios, grãos e fertilizantes, principalmente do Porto do Açu para o Centro-Oeste, segundo estimativas da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). Uma espoliação das riquezas nacionais por empresas como a AngloAmerican diretamente para a exportação. 

Para Pedlowski, a ferrovia vai cumprir um plano antigo para o Porto: facilitar que os investimentos chineses entrem no empreendimento. “O Eike Batista, que ajudou a criar o Porto, sempre quis que a China entrasse no negócio. Mas os chineses nunca compraram porque aquilo é um enclave”, conta ele. “Acontece, mesmo com a ferrovia, não é o modelo chinês que está sendo implementado aqui, com trens que cortam regiões distantes em quatro horas. É um modelo colonial, uma ferrovia que vai servir para escoar os minérios para fora”. 

ferrovia

Protesto no NF contra o Porto do Açu. Foto: Reprodução

‘Desenvolvimento regional’

Os grupos poderosos por trás do Porto do Açu e da ferrovia dizem que a obra vai servir ao desenvolvimento regional, mas esse não é o histórico dos megaempreendimentos na região. “Esse porto foi inaugurado durante a gestão dos Garotinho, primeiro com Anthony Garotinho e depois com a Rosinha Garotinho. Depois, o Sérgio Cabral continua com o projeto e o Eike Batista se junta à ideia, com a proposta de um porto industrial”, conta o geógrafo.

Segundo ele, é nessa proposta de Porto Industrial que começam as desapropriações de camponeses na região. “Entre 2009 e 2011, a gestão da Carla Machado (PT) fez uma lei para transformar 7,5 mil hectares de área agrícola em área industrial. Depois, veio um decreto de 2009 falando da desapropriação dessa área. O decreto atingiu cerca de 1,5 mil famílias camponesas de 500 propriedades rurais. E essas famílias não receberam até hoje, muitas pessoas chegaram a morrer sem receber”, conta Pedlowski. “É um esculacho completo à revelia do governo federal e estadual”.  

Um artigo científico publicado na revista Sociedade e Natureza em fevereiro de 2021 mostra que 51% dos camponeses do município de Água Preta e 30% de Mato Escuro afirmam ter sofrido despejo pela Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de Janeiro (Codin), a serviço do Grupo EBX, administrado por Eike Batista.

Até hoje, esses camponeses são vítimas da violência policial a serviço das empresas, como mostrou uma reportagem de AND de 2023, quando policiais militares (PMs) espancaram camponeses e destruíram roças no município de São João da Barra para que o terreno pudesse ser usado na construção de linhas de transmissão de energia da empresa Gás Natural Açú (GNA). 

Vídeo registra ataque dos policiais contra camponeses. Vídeo: Reprodução

Catástrofe socioambiental

Além da questão camponesa, há uma catástrofe ambiental que prejudica as massas populares locais. “Há toda uma área sendo erodida e que está destruindo uma comunidade”, diz Pedlowski. Essa destruição é muito bem registrada em um outro artigo científico, publicado em 2019 no Boletim do Observatório Ambiental Alberto Ribeiro Lamego. 

O Porto do Açu também é conhecido pela exploração de água na região. “O porto explora 142,4 bilhões de litros de água por ano. É o oitavo empreendimento do País que mais usa água nas suas operações”, conta Pedlowski, citando uma reportagem da Agência Pública. “Eles também exploram o aquífero Emborê, e tudo a preço de banana”. 

Ao mesmo tempo, os magnatas do empreendimento causaram destruição aos camponeses de São João da Barra quando dragaram areia das áreas oceânicas para construir um aterro hidráulico no município onde fica o porto. O resultado final foi a salinização de corpos de água doce usados pelos camponeses, algo que já era previsto por um Estudo de Impacto Ambiental realizado pela empresa de consultoria Ecologus. 

O impacto na área foi estudado por um terceiro artigo científico sobre os danos causados pelo porto, dessa vez publicado na revista Ambiente e Sociedade em 2021. De acordo com artigo, “desde o início da salinização eclodiu um forte movimento de resistência dos agricultores em razão da ruptura causada aos seus meios de reprodução social”. 

Falsa governança

Para completar o quebra-cabeça maligno, há registros de que os imperialistas que administram o porto possuem falsos empreendimentos de “governança”, destinados a maquiar uma imagem positiva para o Porto do Açu, conforme investigado na dissertação de mestrado “Sob a égide das corporações: uma análise dos projetos de governança sócio-corporativa desenvolvidos no entorno do Porto do Açu”. 

A pesquisa mostrou como a Fazenda Palacete, localizada no V distrito de São João da Barra como um projeto de reassentamento social para as famílias expulsas de suas terras, carece de elementos básicos. “De acordo com a Porto do Açu, as residências são equipadas com eletrodomésticos e móveis, as propriedades são entregues preparadas para cultivo. Contudo, os lotes entregues aos moradores da Vila da Terra possuem um problema básico que é a ausência da regularização fundiária, na medida em que a área pertence a massa falida da Usina Baixa Grande. Com isso, os moradores não possuem títulos de propriedade”, diz a pesquisa. 

Outro caso investigado é o da Reserva de Proteção do Patrimônio Natural Fazenda Caruara. Adquirida em 2012 pelo grupo EBX, a RPPN  “Aquilo nunca foi reflorestado, já foi comprado com a vegetação que tinha. Além disso, eles fecharam a entrada da Lagoa de Iquipari, que era usada pelos pescadores locais. Então essas pessoas passaram a ser proibidas de acessar o que era seu meio de sustento”, diz Padlowski, que orientou a autora da dissertação.

Omissão 

“Agora, essa ferrovia não vai beneficiar ninguém de fora do enclave. Todas as promessas de desenvolvimento e bonança do Porto para o povo nunca saíram do PowerPoint do Eike Batista. É uma ferrovia do Porto, para o Porto, pelo Porto”, defende Pedlowski. “Só que tudo, como sempre foi nesse empreendimento, com dinheiro público. Ainda dizem que é o maior porto privado do Brasil”, ironiza ele. “O que nós nos perguntamos vendo isso é quantas pessoas serão despejadas pela obra da ferrovia”. 

O conjunto de questões levantadas há anos pelos camponeses pobres, pescadores e pesquisadores é ignorado pelo governo de Luiz Inácio. Além de planejar a ferrovia, Luiz Inácio inseriu uma obra de expansão da usina de gás UTE GNA II no Novo Programa de Aceleração ao Crescimento (PAC). 

O projeto também é defendido pelos governos estadual e municipal do estado e cidade do Rio de Janeiro. O governador Claudio Castro (PL) fez da ferrovia um tema prioritário em uma reunião com Luiz Inácio em Brasília logo no início do mandato do petista. Já o prefeito Eduardo Paes (PSD) publicou um vídeo no dia 31 de janeiro de 2025 no qual defendia a ampliação da ferrovia. 


Fonte: A Nova Democracia

Áreas marinhas de proteção integral do Brasil estão contaminadas por microplásticos

Pesquisadores da Unifesp usaram ostras e mexilhões como organismos-sentinelas para avaliar a ocorrência desses poluentes. Resultados indicam que mesmo os locais mais restritivos à presença humana apresentam contaminação relevante

Abrolhos, uma das áreas de proteção integral enfocadas no estudo (foto: Beatriz Zachello Nunes)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP 

Apesar de serem consideradas santuários da biodiversidade, as áreas marinhas protegidas (AMPs) do Brasil não estão imunes à contaminação por microplásticos. Um estudo recente revelou que mesmo as AMPs classificadas como áreas de proteção integral (APIs), que são as mais restritivas para a intervenção humana, apresentam contaminação por esse material. A pesquisa, que contou com a participação de cientistas brasileiros e australianos, utilizou moluscos bivalves (ostras e mexilhões) como organismos-sentinelas para avaliar a contaminação. Os resultados foram publicados na revista Environmental Research.

“Nosso estudo mostrou que a contaminação por microplásticos ocorre até mesmo nas áreas de proteção ambiental mais restritivas. Por exemplo, no Atol das Rocas, onde não há qualquer atividade econômica nem é permitida a visitação de turistas. Os microplásticos podem chegar a locais assim transportados pelo vento ou pelas correntes oceânicas”, conta à Agência FAPESP Ítalo Braga, professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (IMar-Unifesp) e coordenador da pesquisa, financiada pela FAPESP.

Os microplásticos são partículas com tamanho variando de 1 mícron (1 μm) a 5 milímetros (5 mm) que resultam da fragmentação de plásticos maiores ou são fabricados diretamente nesse formato para uso industrial ou cosmético. Aqueles detectados no estudo apresentaram padrões consistentes ao longo da costa brasileira: predominantemente pretos, brancos ou transparentes, com tamanho inferior a 1 milímetro.

A análise química conseguiu identificar 59,4% deles, sendo os principais componentes: polímeros alquídicos (28,1%), utilizados em tintas e vernizes, possivelmente provenientes de barcos e embarcações turísticas; celulose (21%), que tanto pode ter sido de origem natural (plâncton, algas, plantas marinhas e vegetação terrestre) quanto de origem antropogênica (papéis, papelões, resíduos de alimentos etc.); polietileno tereftalato (PET) (14%), comumente encontrado em embalagens plásticas e fibras sintéticas, liberadas na lavagem de roupas e transportadas ao mar por efluentes urbanos; e politetrafluoretileno (PTFE ou teflon) (12,3%), presente em revestimentos antiaderentes e industriais. Os outros 40,6% não puderam ser descritos.

“Ao longo do litoral brasileiro, existem várias áreas protegidas com diferentes níveis de gestão. Parques nacionais, como Abrolhos e Fernando de Noronha, são altamente protegidos, enquanto outras, como algumas APAs [áreas de proteção ambiental], permitem certo grau de intervenção humana. Nosso estudo focou nas áreas de proteção integral, chamadas de ‘no-takes’ na literatura internacional especializada, que são áreas marinhas protegidas mais restritivas. Selecionamos dez delas: Parque Nacional de Jericoacoara, Atol das Rocas, Fernando de Noronha, Rio dos Frades, Abrolhos, Tamoios, Alcatrazes, Guaraqueçaba, Carijós e Arvoredo”, conta Braga.

Medidas globais

Conduzida pela doutoranda Beatriz Zachello Nunes, a pesquisa revelou que os microplásticos estão presentes em todas essas APIs, com uma concentração média de 0,42 ± 0,34 partícula por grama de tecido úmido. Entre as áreas estudadas, a maior contaminação foi registrada no Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes, com 0,90 ± 0,59 partícula por grama, enquanto a menor concentração foi encontrada na Reserva Biológica do Atol das Rocas, com 0,23 partícula por grama.

“O dado positivo é que a contaminação em todas essas áreas está abaixo da média internacional para áreas marinhas protegidas [veja a figura abaixo]. E muito abaixo da média brasileira para áreas não protegidas. Locais muito contaminados, como Santos e algumas praias do Rio de Janeiro, chegam a apresentar contaminações de 50 a 60 vezes maior. Santos, aliás, registrou uma das maiores concentrações de microplásticos do mundo”, comenta o pesquisador.


As dez áreas de proteção integral estudadas (imagem: Ítalo Braga)

Os moluscos bivalves (ostras, mariscos, mexilhões e outros), que recebem esse nome por possuírem uma concha dividida em duas partes, ou seja, duas valvas articuladas, foram escolhidos no estudo por serem considerados sentinelas do mar. “Eles se alimentam filtrando a água marinha. Os alimentos presentes na água ficam retidos em suas brânquias, que funcionam como peneiras. E pequenos cílios os transportam para o estômago. Se essa água contém contaminantes, como microplásticos, os bivalves também os retêm. Então, em vez de coletarmos amostras de água, que variam o tempo todo, analisamos os bivalves, pois eles acumulam poluentes ao longo do tempo, fornecendo um histórico mais confiável da contaminação”, explica Braga.

Os resultados do estudo demonstram que a contaminação por plástico está presente até mesmo nas áreas mais restritivas de proteção ambiental, com potenciais riscos para os ecossistemas marinhos e as cadeias alimentares. “A criação de AMPs, por si só, não é suficiente para barrar a poluição. É fundamental que essas áreas contem com gestão ambiental eficiente e fiscalização rigorosa. Mas até isso não é suficiente, se considerarmos que os microplásticos podem não estar sendo gerados no local, mas trazidos de longe pela atmosfera e pelas correntes marítimas. Para mitigar isso, apenas medidas globais, como o Tratado Global dos Plásticos, atualmente em fase de negociação e desenvolvimento sob a coordenação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente [PNUMA], podem fazer diferença”, conclui o pesquisador.

O artigo Microplastic contamination in no-take Marine Protected Areas of Brazil: Bivalves as sentinels pode ser acessado [Aqui!].
As manchas de cor lilás são áreas marinhas ao redor do mundo. A contaminação por microplásticos nas áreas de proteção integral enfocadas no estudo fica abaixo da média mundial para áreas marinhas protegidas (linha roxa pontilhada)
e muito abaixo da média brasileira para áreas não protegidas (linha vermelha pontilhada). A média de contaminação por microplásticos nas áreas estudadas é dada pela linha preta pontilhada (imagem: Beatriz Zachello Nunes)


Fonte: Agência Fapesp

A fuga de Eduardo Bolsonaro para os EUA e a pergunta que clama resposta: quem banca essa festa cara?

Tchau, querido!': a reação dos políticos de esquerda após Eduardo Bolsonaro  anunciar permanência nos EUA

O dia de ontem (18/03) foi marcado por um ato de embuste explícito, qual seja, a fuga do agora licenciado (licenciado?) deputado federal por São Paulo (São Paulo?), Eduardo Bolsonaro. A explicação dada é similar à que foi apresentada por Jean Wyllis (ex-PSOL e atual PT):  escafedeu-se do Brasil para supostamente se proteger de forças ameaçadoras para continuar o bom combate na terra de Uncle Sam. Com isso, Bolsonaro filho deu uma verdadeira banana para os mais de 700 mil eleitores que o elegeram em 2022, mas quem se importa?

Pois bem, como vivi nos EUA por alguns anos, eu sei que a vida é cara já que ninguém dá cafézinho de graça, especialmente se você é “Hispanic” como somos todos enquadrados por lá, apesar de nossos conquistadores coloniais serem os portugueses.

Assim, se ninguém lá está bancada a permanência desse fujão, quem está bancando está festa cara? Como deputado licenciado, Eduardo Bolsonaro não deverá ter as benesses fáceis que o cargo lhe emprestava, e não consta que tampouco receberá o seu salário da Polícia Federal. Aliás, ele também pediu licença do cargo que ocupa na corporação, ou isto é coisa do passado?

A coisa agora é ver o que a Câmara de Deputados fará com o pedido de “licença” de Eduardo Bolsonaro, pois o que promete fazer enquanto estiver batendo pernas nas terras do Uncle Sam estão mais para mandado de busca e apreensão do que para licença.

Esperemos e vejamos!

Estudo identifica 41 registros de espécie invasora de mexilhão verde no litoral paulista

Espécie é originária da região Indo-Pacífica; sua presença no Brasil pode pode estar associada ao transporte marítimo e à poluição plástica

Um estudo publicado na quarta (19) na revista científica “Marine Biology”, identificou 41 registros da espécie Perna viridis, conhecido como mexilhão verde, ao longo da costa norte do estado de São Paulo. Doze deles estavam localizados dentro de unidades de conservação, incluindo parques nacionais e reservas ecológicas, o que indica que a espécie está se estabelecendo em áreas ecologicamente sensíveis.

Com autoria de pesquisadores do Instituto de Pesca de São Paulo, da Universidade de São Paulo (USP) e outras instituições parceiras, o estudo mapeia a distribuição da espécie com base em dados que incluem amostragens em campo, revisão da literatura científica e registros da plataforma iNaturalist, em que usuários não cientistas podem relatar a ocorrência da espécie.

O mexilhão verde foi registrado ao longo da costa paulista, nas seguintes áreas: Praia da Cocanha (Caraguatatuba), Praia das Cigarras (São Sebastião), Ponta das Furnas (Ilhabela), Saco da Ribeira (Ubatuba), Enseada da Baleia (Parque estadual da Ilha do Cardoso, Cananeia), Iguape, Ilha Comprida, Peruíbe, São Vicente e Santos. A maioria desses locais foram associados a colônias do mexilhão P. perna, exceto Ubatuba, Iguape, Ilha Comprida, Peruíbe (RDS da Barra do Uma), São Vicente e Santos, onde os espécimes foram coletados de uma corda de amarração de barco.

A espécie é originária da região indo-pacífica, onde ocorre naturalmente em águas tropicais e subtropicais. No entanto, desde 1995, a disseminação na costa sul-americana tem levantado preocupações devido a impactos ambientais, econômicos e sanitários. “Ecologicamente, a espécie pode competir com moluscos nativos por espaço e recursos, alterando a estrutura da comunidade bentônica [organismos que vivem no fundo de oceano] e comprometendo cadeias tróficas”, alerta o pesquisador Edison Barbieri, do Instituto de Pesca, um dos autores do estudo. “Além disso, a bioincrustação causada pelo mexilhão pode afetar a navegabilidade de embarcações, encarecendo custos operacionais. No contexto sanitário, a espécie pode atuar como vetor de microrganismos patogênicos, comprometendo a segurança alimentar e a aquicultura local”, completa o autor.

Para o especialista, a introdução do mexilhão verde no Brasil pode estar associada ao transporte marítimo internacional, especialmente pela liberação de larvas presentes na água de lastro de navios. Além disso, substratos artificiais, como plataformas petrolíferas e embarcações, podem atuar como vetores para a fixação e dispersão da espécie ao longo da costa.  “Outra hipótese relevante é a poluição plástica, uma vez que fragmentos de plástico podem servir de substrato para a fixação de larvas e facilitar a sua disseminação para novas áreas”, frisa Barbieri.

Na visão dos autores, as autoridades ambientais devem estabelecer programas de monitoramento e implementar regulamentações mais rigorosas para o controle da água de lastro e da incrustação biológica em embarcações e plataformas marítimas. Já a população pode contribuir com a ciência cidadã, registrando novas ocorrências da espécie em plataformas digitais como o iNaturalist. Além disso, campanhas de conscientização são essenciais para evitar a dispersão acidental da espécie para novas áreas.

O grupo de pesquisadores continuará monitorando a expansão geográfica do Perna viridis e avaliando os seus impactos ecológicos e econômicos ao longo prazo. Os próximos estudos deverão se concentrar nas interações da espécie com moluscos nativos e na identificação de estratégias eficazes de controle e mitigação. Os exemplares dos mexilhões verdes coletados foram depositados no acervo do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP) para futuras análises.


Fonte: Agência Bori

Uma corrente ocêanica em perigo: a corrente Circumpolar da Antártica pode desacelerar, com consequências drásticas

O derretimento do gelo enfraquece as correntes oceânicas ao redor da Antártica. Foto: iStock/ad_foto
Por Bárbara Barkhausen para o Neues Deutschland 

Para muitos, a Antártica é um continente quase mítico: distante de tudo e – pelo menos para a maioria de nós – não muito acessível ou tangível. Mas o continente, que é composto de 98% de gelo, é de grande importância para a ciência devido ao seu profundo impacto no clima e nos oceanos da Terra. “Enclausurado na camada de gelo de  4 km de espessura está um arquivo único do clima do nosso planeta nos últimos milhões de anos”, diz o British Antarctic Survey , não sem razão .

A poderosa  Corrente Circumpolar Antártica  (CCA) se move pelas águas que cercam esta região inóspita. A CCA é cinco vezes mais forte que a Corrente do Golfo e faz parte da correia transportadora oceânica global que conecta os oceanos Pacífico, Atlântico e Índico. O sistema regula o clima da Terra e bombeia água, calor e nutrientes ao redor do globo.

Durante anos, pesquisadores alertaram repetidamente que a água doce e fria do derretimento do gelo da Antártica está diluindo a água salgada do oceano e potencialmente interrompendo correntes oceânicas vitais. Agora, uma equipe da Universidade de Melbourne e do centro de pesquisa norueguês Norce mostra que, em um cenário com altas emissões de dióxido de carbono, o fluxo provavelmente diminuirá em cerca de 20% até 2050.

“O oceano é extremamente complexo e finamente equilibrado”, disse Bishakhdatta Gayen, da Universidade de Melbourne, um dos autores do estudo publicado na revista Environmental Research Letters . Se seu motor atual entrasse em colapso, isso poderia ter consequências de longo alcance para a vida na Terra: o clima poderia flutuar mais no futuro, com eventos climáticos mais extremos em certas regiões. Além disso, o aquecimento global poderia progredir ainda mais rápido porque os oceanos seriam menos capazes de absorver CO2 e, portanto, agiriam menos como sumidouros de carbono.

Em um artigo científico sobre o assunto, os pesquisadores também comparam a Corrente Circumpolar Antártica “a uma trincheira ao redor do continente gelado”. “A corrente ajuda a manter a água quente do lado de fora, protegendo assim as frágeis superfícies de gelo”, escrevem Gayen e seu colega Taimoor Sohail. Ele também atua como uma barreira contra espécies invasoras e desempenha um papel importante na regulação do clima da Terra. Avanços na modelagem oceânica e o acesso ao maior supercomputador da Austrália, o “ Gadi “, agora permitiram uma investigação completa de possíveis mudanças. Quando a água fria e doce do degelo da Antártica migra para o norte, prevê-se que isso levará a mudanças significativas na estrutura de densidade do oceano. Se as correntes enfraquecerem, como mostra a modelagem, isso poderá afetar a biodiversidade e a pesca, das quais muitas comunidades costeiras dependem. Além disso, espécies invasoras, como a alga marinha gigante do sul, podem invadir a Antártida e perturbar os ecossistemas e as cadeias alimentares locais.

No entanto, de acordo com a equipe de pesquisa, uma corrente mais fraca também poderia levar mais água quente a se mover para o sul, o que agravaria ainda mais o derretimento das plataformas de gelo da Antártica e, assim, contribuiria para o aumento global do nível do mar. “Um derretimento mais rápido do gelo poderia levar a um enfraquecimento ainda maior da corrente”, explicam os cientistas. Um verdadeiro círculo vicioso.

A nova e sombria previsão para a Corrente Circumpolar Antártica é consistente com cenários traçados anteriormente. No entanto, os cientistas não querem pintar um quadro apocalíptico. O futuro não é predeterminado, enfatizam Sohail e Gayen. Esforços conjuntos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa podem limitar ainda mais o degelo ao redor da Antártida.


Fonte: Neues Deutschland