Pesquisadores espanhóis analisaram 280 amostras de água mineral. Apenas uma das marcas estava livre de microplásticos

Em média, um litro de água engarrafada contém 240.000 fragmentos de plástico detectáveis. Um estudo do CSIC/Espanha analisou 20 marcas e apenas uma estava livre de microplásticos.

Por José Garcia para o Xataka 

Melhor sabor e cheiro, além de motivos de saúde. Essas são as duas principais razões pelas quais as pessoas bebem água engarrafada, de acordo com um estudo da Universidade Autônoma de Barcelona. A Espanha é, de fato, o terceiro país europeu que mais consome água engarrafada (até 107 litros por habitante). Isso colide com uma coisa: a água engarrafada não só é muito mais cara do que a água da torneira , mas agora sabemos que ela também contém micro e nanoplásticos em quantidades muito maiores do que as estimadas.

O estudo original

Pesquisadores da Universidade de Columbia analisaram três marcas populares de água engarrafada nos Estados Unidos (cujos nomes não foram divulgados) em busca de micro e nanoplásticos. Para fazer isso, eles usaram uma nova técnica chamada microscopia de espalhamento Raman estimulada, que envolve sondar amostras com dois lasers simultâneos ajustados para fazer moléculas específicas ressoarem.

Analisando sete plásticos comuns, os pesquisadores desenvolveram um algoritmo para interpretar os resultados. Segundo Wei Min, coinventor da técnica e coautor do estudo em questão, “uma coisa é detectar e outra é saber o que você está detectando”.

As descobertas

Em média, este estudo descobriu que um litro de água engarrafada contém 240.000 fragmentos de plástico detectáveis ​​– entre dez e 100 vezes mais do que estimativas anteriores. Especificamente, os pesquisadores dizem que encontraram entre 110.000 e 370.000 fragmentos de plástico em cada litro, 90% dos quais eram nanoplásticos. Nesse sentido, é importante lembrar a diferença entre micro e nanoplásticos:

Os plásticos mais comuns

Não é surpresa que um dos plásticos mais comuns tenha sido o tereftalato de polipropileno, mais conhecido como PET. É o material do qual muitas garrafas são feitas. “Ele provavelmente entra na água quando pequenos pedaços se quebram quando a garrafa é espremida ou exposta ao calor”, dizem os pesquisadores, citando outro estudo que sugere que eles também podem ser desalojados ao abrir e fechar a tampa repetidamente.

De costume

E embora o PET seja comum, ele é superado pela poliamida, um tipo de náilon que “provavelmente vem de filtros plásticos usados ​​para purificar água antes do engarrafamento”, diz Beizhan Yan, pesquisador do estudo. Outros plásticos comuns encontrados pelos pesquisadores incluem poliestireno, cloreto de polivinila e polimetilmetacrilato.

E o resto? 

A técnica utilizada contempla os sete plásticos mais comuns, mas existem muitos outros plásticos. De acordo com a Universidade de Columbia , “os sete tipos de plástico que os pesquisadores procuraram representavam apenas cerca de 10% de todas as nanopartículas que encontraram nas amostras; Eles não têm ideia do que é o resto. Se forem todos nanoplásticos, pode ser dezenas de milhões por litro.”

E os vendidos na Espanha?

Foi o que quis descobrir um estudo do CSIC e do Instituto de Saúde Global de Barcelona . Eles desenvolveram uma técnica para quantificar partículas entre 0,7 e 20 micrômetros, bem como os aditivos químicos liberados na água, e para este estudo, analisaram 280 amostras de 20 marcas comerciais de água. Apenas uma das marcas não continha microplásticos, mas todas as 280 amostras continham aditivos plásticos.

Mais especificamente

 O resultado é que, em média, um litro de água contém 359 nanogramas de micro e nanoplásticos, uma quantidade comparável à encontrada na água da torneira em um estudo anterior realizado pelo mesmo grupo. “A principal diferença que encontramos foi o tipo de polímero: na água da torneira encontramos mais polietileno e polipropileno, enquanto na água engarrafada detectamos principalmente polipropileno tereftalato (PET), embora também polietileno”, disse Cristina Villanueva, pesquisadora do ISGlobal e autora do estudo.

Bastante microplástico

Considerando que bebemos dois litros de água por dia, os autores estimam “uma ingestão de 262 microgramas de partículas plásticas por ano”. Em relação aos aditivos, foram detectados 28 aditivos plásticos, principalmente estabilizantes e plastificantes. De acordo com os pesquisadores, “nosso estudo de toxicidade mostrou que três tipos de plastificantes representam um risco maior à saúde humana e, portanto, devem ser considerados nas análises de risco para os consumidores”.


Fonte: Xataka.com

Anffa Sindical manifesta preocupação com flexibilização da fiscalização de alimentos

Entidade reitera importância do rigor das inspeções federais para garantia da qualidade dos produtos de origem animal

O Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (Anffa Sindical) manifesta preocupação com o anúncio do Governo Federal de permitir, pelo período de um ano, a comercialização nacional de produtos inspecionados exclusivamente pelos municípios por meio do Serviço de Inspeção Municipal (SIM). A entidade reitera a importância do rigor da fiscalização de produtos de origem animal, essencial para garantir sanidade, qualidade e a conformidade com os padrões internacionais de segurança dos alimentos.

A medida do governo contempla um rol limitado de produtos, incluindo leite, mel e ovos, sem abranger a carne, que segue sob inspeção mais rígida. A decisão anunciada nesta quinta-feira (6) faz parte de um pacote para conter a alta dos preços dos alimentos.

“Embora seja importante a iniciativa do governo de buscar ampliar a oferta de produtos a um custo menor para a população, a medida pode fragilizar o controle sanitário, uma vez que os produtos não passarão pelo mesmo nível de inspeção aplicado pelo Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sisbi)”, destacou o presidente do Anffa Sindical, Janus Pablo Macedo.

Atualmente, os produtos fiscalizados pelo SIM são destinados ao consumo dentro do próprio município, com exceção das mercadorias que já possuem a habilitação pelo Sisbi (que já podem comercializar em qualquer local dentro do país). Vale destacar que nem todo município possui equipe suficiente para realizar a fiscalização adequada, não por falta de cumprimento da legislação sanitária, mas por falta de equipe. Portanto, transferir essa fiscalização para os municípios sem recursos orçamentários, nem de servidores é irresponsável.

Segundo Macedo, muitos estabelecimentos que operam sob o Serviço de Inspeção Municipal buscam obter a certificação federal e não conseguem, justamente por não atenderem a todos os critérios exigidos pelo Mapa. “A liberação da comercialização de forma nacional não leva a um aumento direto de oferta dos produtos, uma vez que eles já são comercializados de forma local, nos municípios. A estratégia é inócua no sentido econômico, mas aumenta o risco de problemas sanitários de itens que são vendidos nas proximidades. Isto sem contar questões de logística de transporte, armazenamento, temperatura etc”, pontua.

Outro ponto levantado é o fato de que produtos com menor controle tendem a chegar ao consumidor com menor qualidade. “A medida que eventualmente pode reduzir o preço de qualquer alimento não pode ser executada em detrimento da qualidade e sanidade dos produtos e a saúde da população. Não há como precificar a saúde da população”.

O Anffa Sindical permanece atento aos anúncios do governo e às possíveis mudanças no setor. A entidade reforça a necessidade de garantir a qualidade sanitária e a conformidade com os padrões internacionais de segurança dos alimentos, em benefício da saúde da população e da credibilidade do agronegócio brasileiro.

Na urgência climática, uns alertam, outros aceleram

Por Paulo Silva Junior para o blog da Editora Elefante 

Parece um eterno retorno, e talvez seja, apesar da nossa teimosia em vislumbrar outros futuros possíveis enquanto o mundo grita que seguimos escolhendo o caminho do colapso. “Ainda estou aqui”, diz o petróleo, que segue em alta prometendo arrancar na pista a meses da próxima Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP30, programada pra novembro, em Belém.

É exatamente por ali, que ironia, bem na margem equatorial, que estão cinco bacias em alto-mar, como a Bacia da Foz do Amazonas, no litoral do Amapá. Há dois anos, o Ibama negou a licença para prospecção marítima no local. O presidente Lula, em entrevista em Macapá em fevereiro, disse que não dá para ficar nessa “lenga-lenga” ecológica.

De um lado, o governo acredita que investir na região seja a principal aposta para repor as reservas brasileiras após o esgotamento do pré-sal, diante de um volume atual que garante manter o ritmo da produção por mais treze anos. É nesse contexto que a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, tem reforçado a ideia de pisar no acelerador. Ela pediu para que os fornecedores estejam preparados para esse novo momento do investimento petrolífero do país.

Em oposição à tamanha euforia, Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, disse que o Ibama é quem pode definir tecnicamente se há sustentabilidade para um novo empreendimento na Foz do Amazonas. Lula, falando em Belém, entende que a ministra tem seus pontos sobre o método do projeto, mas que é uma pessoa inteligente para entender a necessidade do Brasil. Há quase duas décadas, debate parecido foi travado em tempo de projetos das usinas de Belo Monte, Jirau e Santo Antônio. Na época, Marina acabou ridicularizada como “ministra dos bagres” por estar, segundo os críticos, atrasando o desenvolvimento de obras em proteção aos peixes. Ela pediu demissão do governo em 2008.

Bom, o petróleo passa o carro, que se tivesse um alto-falante poderia circular aos berros de “drill, baby, drill” na voz de Donald Trump, que não para de repetir esse verbo: perfurar. Rita von Hunty, em seu canal Tempero Drag, lembrou de O decênio decisivo, de Luiz Marques, ao refletir sobre o fato do planeta terra estar saturado da exploração de combustíveis fósseis.

“A gente já está caminhando no decênio decisivo. É agora, são nesses dez anos, ou adeus à vida humana no planeta Terra. São dez anos para que a gente reverta a matriz energética do planeta para matrizes sustentáveis. A gente vai aquecer o planeta em três graus. É o ano da COP30 e a presidente da Petrobras está dizendo que a gente vai pisar no acelerador.”

Na reta final do livro, quando trata de propostas para uma política de sobrevivência, Luiz Marques passa por muitas ideias que atravessam essa discussão sobre a energia e a Amazônia atuais. Por exemplo, a da extensão da ideia de sujeito de direito às demais espécies, à biosfera e às paisagens naturais, ou a própria restauração e ampliação das reservas naturais enquanto santuários inacessíveis aos mercados globais, entre outras.

“Realizar essas rupturas civilizacionais, e no prazo de um decênio, parece evidentemente cada vez mais difícil. A enormidade da tarefa, a resistência material e ideológica dos interesses econômicos, a dificuldade de compreender a gravidade e a aceleração das crises ambientais, a fragmentação dos movimentos sociais, tudo agora joga contra a humanidade. Pouco importa: não se enfrenta um desafio existencial a partir de cálculos de probabilidade”, aponta o autor.

E, por falar em combustíveis, matrizes energéticas e fontes mais ou menos limpas e sustentáveis, é interessante pensar como essas escolhas ao longo da história vão ditando o que se convém a entender como inevitável. Não, não deveria ser impossível imaginar uma vida sem tanto petróleo – alguém definiu em algum momento a importância daquilo para o funcionamento deste tipo de mundo. Em Capital fóssil, Andreas Malm revela como é que tudo mudou quando as indústrias do século XIX na Inglaterra resolveram trocar as rodas d’água por motores a vapor, queimando carvão.

“Ao menos por ora, os cientistas naturais vêm interpretando o aquecimento global como um fenômeno que ocorre na natureza; a questão, no entanto, consiste em rastrear suas origens humanas. Somente assim preservaremos ao menos uma possibilidade hipotética de mudança de curso”, escreve Malm. Lembra alguma coisa sobre a discussão de início, envolvendo governo, a Foz do Amazonas e as vontades aceleradoras do Brasil?


Fonte: Editora Elefante

A política climática do Brasil está numa encruzilhada

O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, durante cerimônia de assinatura do contrato de navios da Transpetro para o Programa de Renovação da Frota Naval do Sistema Petrobras. Estaleiro Ecovix, Rio Grande. Imagem: Palácio do Planalto

Por Monica Piccinini para o The Ecologist 

O Brasil vive um momento crucial na história como anfitrião da 30ª Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) das Partes (COP30). 

Em novembro, os holofotes estarão voltados para Belém, capital do Pará, que sediará a COP30, reunindo líderes mundiais, ativistas, corporações e formuladores de políticas para enfrentar os desafios ambientais mais urgentes do mundo, onde os riscos nunca foram tão altos.

Isto é mais do que apenas uma cúpula global: é uma oportunidade para a nação se estabelecer como líder na agenda climática e dar um exemplo para o mundo. 

Urgente

Com os desastres climáticos se intensificando e o desmatamento ameaçando os ecossistemas mais críticos do planeta, o Brasil tem a responsabilidade e o poder de promover mudanças reais.

Para o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, a COP30 representa um momento decisivo. É uma chance de tomar medidas ousadas e decisivas, protegendo a rica biodiversidade do Brasil, interrompendo o desmatamento e a degradação da floresta amazônica e fechando a porta para uma maior expansão dos combustíveis fósseis. 

O mundo está observando para ver se o Brasil vai intensificar políticas concretas e execução que protejam seus recursos naturais. Se Lula aproveitar este momento, o Brasil não estará apenas sediando a COP30, mas estará liderando a carga em direção a um futuro mais sustentável e resiliente.

Cássio Cardoso Pereira, ecologista , biólogo conservacionista e editor dos periódicos BioScience , Biotropica e Nature Conservation , compartilhou sua perspectiva sobre a COP30.

Ele disse: “O Brasil está em uma encruzilhada. Eventos como COPs podem gerar ideias, mas sem um compromisso real, eles não conseguirão impulsionar a mudança urgente de que precisamos. 

Troca

“Declarações vazias sobre ter a maior floresta tropical do mundo e abundantes recursos renováveis ​​não significam nada se ignorarmos os incêndios, as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e a destruição implacável que os ameaçam.”

Em 2024, o mundo testemunhou novos recordes alarmantes nos níveis de gases de efeito estufa e no aumento das temperaturas da superfície do ar e do mar, conforme monitorado pelo Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus. 

Essas mudanças desencadearam eventos climáticos extremos em todo o mundo, inclusive no Brasil, destacando a necessidade urgente de as nações eliminarem gradualmente os combustíveis fósseis. 

No entanto, em vez de tomar medidas decisivas, os países, incluindo o Brasil, estão aumentando a produção de combustíveis fósseis, levando o planeta ainda mais para a crise.

O caminho do Brasil é profundamente preocupante. De acordo com o Ministério do Comércio do país, as exportações de petróleo subiram para US$ 44,8 bilhões neste ano, superando a soja como a principal exportação do país. 

Esta é uma oportunidade para o Brasil se manter firme e priorizar proteções ambientais, ações climáticas e direitos indígenas. 

Degradação

Projeções da Rystad Energy indicam que até 2030, a produção de petróleo do Brasil ultrapassará sete milhões de barris de óleo equivalente por dia (boepd), elevando o país do sétimo para o quinto maior produtor de petróleo do mundo.

Em 2024, a gigante petrolífera estatal Petrobrás atingiu um nível de produção impressionante de 2,4 milhões de barris de petróleo por dia. Com o apoio total de Lula , a empresa está avançando com planos controversos para expandir a exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas, uma região ecologicamente frágil. 

Este projeto ameaça recifes de corais vitais, extensos manguezais e os meios de subsistência de comunidades indígenas e locais. Além desses perigos imediatos, os riscos de vazamentos de óleo e o aumento das emissões de gases de efeito estufa podem ter consequências globais catastróficas.

Pereira enfatizou que as escolhas do Brasil hoje determinarão se ele conterá o colapso ambiental ou acelerará uma catástrofe climática.

Ele disse: “O Brasil deve promover um diálogo inclusivo e transparente, que ouça todas as vozes, especialmente as comunidades indígenas, em vez de ser abafado por desinformação e intolerância. Enquanto o desmatamento ganha as manchetes, a crise mais profunda da degradação florestal continua sem controle. 

Acelerando

“E agora, projetos imprudentes, incluindo a rodovia BR-319, a ferrovia Ferrogrão e a proposta desastrosa de perfuração de petróleo na foz do Amazonas, levam a floresta tropical mais perto do colapso.”

Ele acrescentou: “Se essas ameaças forem ignoradas e enterradas sob gentilezas diplomáticas, o Brasil não apenas falhará em suas metas de emissões, mas trairá sua responsabilidade com o planeta. A hora para uma ação real é agora,” 

rodovia BR-319 , um trecho de 885 km que liga a capital do Amazonas, Manaus, a Porto Velho, atravessa uma das regiões mais intocadas da floresta amazônica. 

Agora, com uma proposta de reconstrução de 406 km, esse projeto ameaça desencadear uma cadeia de destruição , transformando um ecossistema intacto em uma porta de entrada aberta para o desmatamento, o crime e a ganância corporativa. 

As consequências não seriam apenas locais, elas se espalhariam pelo Brasil e pelo mundo, acelerando o colapso climático e colocando as comunidades indígenas em risco extremo.

Reconstruída

No centro desse desastre iminente está a região da AMACRO , um hotspot de desmatamento que abrange os estados do Amazonas, Acre e Rondônia. Se a BR-319 for reconstruída, ela abriria um caminho direto entre essas terras fortemente desmatadas e o coração intocado da Amazônia. 

Com a floresta tropical já se aproximando de um ponto de ruptura irreversível, esta rodovia pode ser o gatilho que a levará ao limite. 

A floresta tropical, há muito considerada o “pulmão da Terra”, desempenha um papel crucial na estabilização das temperaturas globais. Destruí-la aceleraria a mudança climática, tornando eventos climáticos extremos ainda mais frequentes e devastadores.

Além da catástrofe ambiental, o custo humano é impressionante. A rodovia exporia 69 comunidades indígenas , mais de 18.000 indígenas, a invasões de terra, violência e deslocamento. 

A grilagem de terras , a mineração e a extração de madeira já causaram danos à Amazônia, mas com a BR-319 recém-reconstruída, essas atividades se expandiriam descontroladamente. 

Crescimento

Mais de 6.000 km de estradas ilegais já foram construídas na BR-319 e, com mais expansão, o crime organizado só fortalecerá seu domínio na região, colocando em perigo tanto a vida dos indígenas quanto a dos defensores da floresta tropical.

A ameaça se estende além da terra. A destruição da floresta tropical pode interromper os “rios voadores”, correntes de ar carregadas de água que trazem chuva para vastas áreas do Brasil. 

Sem elas, as secas poderiam devastar a agricultura e o abastecimento de água, afetando milhões de pessoas. Pior ainda, o desmatamento poderia criar condições para que novas doenças zoonóticas passassem da vida selvagem para os humanos, aumentando o risco de outra pandemia global . Em um mundo que ainda luta contra os efeitos da COVID-19, esse é um risco grande demais para ser ignorado.

Apesar dos alertas urgentes dos renomados cientistas Lucas Ferrante e Phillip Fearnside, o governo brasileiro permanece impassível. 

Com o total apoio do presidente e apoio de políticos, líderes empresariais e até mesmo de algumas ONGs , a pavimentação da BR-319 está sendo impulsionada em nome do crescimento econômico. 

Ecossistemas

Mas os verdadeiros beneficiários são as poderosas indústrias por trás do petróleo e gás, do agronegócio e da mineração, tanto legais quanto ilegais, enquanto a Amazônia e seu povo sofrem o preço final.

Lucas Ferrante, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), disse: “Isso é mais do que uma estrada; é um ponto de inflexão. 

“Desmatamento e degradação já são vistos ao redor da BR-319. Se a rodovia for reconstruída, isso pode desencadear uma reação em cadeia irreversível que devastará a Amazônia, prejudicará comunidades indígenas e acelerará as mudanças climáticas além do controle. 

“A escolha é clara: ou ouça a ciência e proteja a floresta tropical, ou deixe que os lucros de curto prazo destruam um dos últimos grandes ecossistemas do mundo. O mundo está assistindo e o que acontecer a seguir definirá o futuro da Amazônia, do Brasil e do planeta.”

Bioeconomia

Na COP30, o Brasil demonstrará seu comprometimento em construir uma bioeconomia forte, uma oportunidade para liberar sua vasta riqueza natural e impulsionar o crescimento econômico.

No centro dessa ambição está a expansão agressiva dos biocombustíveis, um pilar fundamental da estratégia de descarbonização do Brasil, reforçada pela Lei do Combustível do Futuro do presidente Lula, aumentando a obrigatoriedade dos biocombustíveis no país.

No entanto, esse caminho não é sem consequências . A crescente demanda por culturas de biocombustíveis, cana-de-açúcar, soja, milho e óleo de palma ameaça a segurança alimentar, impulsiona o desmatamento e coloca imensa pressão sobre ecossistemas vitais. 

A conversão de terras acelera as emissões de gases de efeito estufa, enquanto o esgotamento da água, a erosão do solo e a poluição pelo uso de agrotóxicos levantam sérias preocupações sobre a sustentabilidade desse modelo.

No Pará, a expansão do óleo de palma tem gerado conflitos , marcados por denúncias de crimes ambientais e violência contra comunidades indígenas e tradicionais.

Jorge Ernesto Rodriguez Morales , professor e pesquisador em política ambiental e governança de mudanças climáticas no Departamento de História Econômica e Relações Internacionais da Universidade de Estocolmo, disse: “A diplomacia do etanol do Brasil visa retratar a nação como consciente do clima, usando o biocombustível como alavanca nas negociações climáticas.

Carne bovina

“Muitos países seguiram o exemplo ‘bem-sucedido’ do Brasil ao integrar a bioenergia em suas políticas climáticas, embora seus custos sociais e ambientais sejam amplamente reconhecidos.”

O Brasil está em um momento decisivo. Sua bioeconomia estabelecerá um exemplo global de verdadeira sustentabilidade ou o progresso terá um custo irreversível?

Em 2024, o Brasil testemunhou uma crise ambiental catastrófica. De acordo com o monitor de incêndios do MapBiomas , impressionantes 30,8 milhões de hectares (119.000 milhas quadradas) de terra foram consumidos por incêndios, uma área maior que a Itália, marcando um aumento chocante de 79 por cento em relação a 2023. 

A Amazônia, já sob imensa pressão, enfrentou seu pior ano de incêndios em 17 anos. No centro dessa devastação estão os pecuaristas, limpando vastas extensões de terra para agricultura e pastagem.

Enquanto isso, o Brasil estabeleceu um recorde sombrio, exportando a maior quantidade de carne bovina de sua história: 2,89 milhões de toneladas avaliadas em US$ 12,8 bilhões, conforme relatado pela Associação Brasileira dos Exportadores de Carne Bovina (ABIEC). A maior parte dessa carne bovina foi para a China, seguida pelos EUA, Emirados Árabes Unidos e UE.

Violando

A pecuária é uma das principais responsáveis ​​pela destruição da Amazônia , sendo responsável por 88 % do desmatamento .

A ONG global Global Witness responsabiliza três grandes gigantes brasileiras de frigoríficos, JBS, Marfrig e Minerva, por grande parte dessa devastação. Essas empresas estão ligadas à destruição de vastas extensões de floresta no Mato Grosso, uma área maior que Chicago.

A JBS, maior exportadora de carne bovina do mundo e segunda maior produtora de carne bovina , emprega mais de 250.000 pessoas globalmente e gerou uma receita estimada de US$ 77 bilhões em 2024, contribuindo com cerca de 2,1% do produto interno bruto (PIB) do Brasil. 

No entanto, os lucros da empresa são construídos sobre uma base de degradação ambiental, desmatamento e exploração. 

A JBS foi acusada de greenwashing , promoção de práticas insustentáveis ​​e violação de direitos humanos, incluindo trabalho infantil em seus frigoríficos nos EUA.

Destruindo o clima

Um relatório da ONG Mighty Earth revelou a extensão chocante desses crimes. JBS, Marfrig e Minerva obtiveram gado de um fazendeiro acusado de desmatar ilegalmente 81.200 hectares de terra, uma área quase quatro vezes maior que Amsterdã. 

Este fazendeiro também foi relacionado ao uso de um produto químico tóxico, 2,4-D (um componente do Agente Laranja), para desmatar suas terras, marcando o maior caso de desmatamento já registrado no Mato Grosso.

João Gonçalves, diretor sênior da Mighty Earth para o Brasil, disse: “Nossa análise recente mostra que a JBS ainda está ligada ao desmatamento desenfreado em suas cadeias de fornecimento de carne bovina no Brasil e está na parte inferior do Scorecard da Mighty Earth quando se trata de lidar com o problema. 

“A admissão feita há algumas semanas de que tem ‘controle zero’ de sua cadeia de suprimentos significa que a JBS não se importa de onde obtém sua carne, incluindo de fazendas que estão destruindo a Amazônia. 

“A JBS está mexendo nos limites da exigência de rastreabilidade até os fornecedores de gado, ao mesmo tempo em que expande maciçamente suas operações de carne que destroem o clima. 

Estratégias

Ele acrescentou: “Isso inclui um grande acordo com a China, que tem o apoio do presidente Lula, que prometeu acabar com o desmatamento na Amazônia até 2030, mas seu apoio à expansão da JBS pode levar a Amazônia para mais perto de um ponto de inflexão irreversível. 

Os olhos do mundo estarão voltados para o Brasil na COP30 e a ótica já não é boa com as mensagens confusas e ações contraditórias do governo.”

Em 2023, Lula estabeleceu o “Conselhão“, um conselho voltado para a promoção do desenvolvimento socioeconômico sustentável (CDESS). Este grupo, composto por cerca de 250 representantes de vários setores e da sociedade civil, foi formado para fornecer orientação sobre o desenvolvimento de políticas e estratégias econômicas, sociais e “sustentáveis”.

Entre os membros do grupo consultivo do CDESS estão grandes corporações como JBS, Copersucar, Cargill, Cosan, Raízen, Comgás, Novonor (antiga Odebrecht), Unilever, Braskem, Meta, Google, Microsoft.

Sustentável

Também integram o grupo figuras de destaque como Eraí Maggi Scheffer, um dos maiores produtores de algodão e soja do Brasil; Erasmo Carlos Battistella, empresário ligado ao agronegócio e à produção de biodiesel; e Rosana Amadeu da Silva, presidente da Central Nacional das Indústrias de Cana-de-Açúcar e Biocombustíveis.

Quanta influência essas corporações realmente detêm sobre as políticas econômicas, sociais e ambientais do Brasil? Seu poder se estenderá para moldar o curso da COP30?

Enquanto o mundo se reúne neste momento crítico, a questão permanece: a COP30 se tornará mais um palco para as indústrias poluentes continuarem seus negócios normalmente, ou o Brasil aproveitará a oportunidade para demonstrar seu comprometimento com o futuro do planeta?

Esta é uma chance para o Brasil se manter firme e priorizar proteções ambientais, ações climáticas e direitos indígenas sobre as forças do desenvolvimento irresponsável, lucro e ganância. Os riscos estão mais altos do que nunca, e o mundo está observando de perto. 

As promessas do presidente Lula serão mais do que apenas palavras, e elas evoluirão para as ações ousadas e transformadoras de que nosso planeta precisa tão urgentemente? O momento para uma ação decisiva é agora. O mundo está esperando que o Brasil lidere com integridade, coragem e uma visão para um futuro sustentável.

Esta autora

Monica Piccinini é colaboradora regular do The Ecologist e escritora freelancer focada em questões ambientais, de saúde e direitos humanos.


Fonte: The Ecologist

Organizações internacionais voltam a pedir proibição do plantio e comercialização do trigo transgênico

Entidades ligadas à agricultura sustentável e o direito à alimentação alertam para os riscos à saúde. Pães, massas e todos os derivados do trigo HB4 terão resíduos de glufosinato de amônio, agrotóxico altamente tóxico

Crédito da Foto: Pixabay

Por Cida de Oliveira 

São Paulo — Organizações da sociedade civil que reúnem países da América Latina, África e Ásia voltaram a reivindicar a suspensão das autorizações do plantio e comercialização do trigo HB4 na Argentina, Brasil e Paraguai. E de importação na África do Sul, Colômbia, Nigéria, Nova Zelândia, Indonésia e China. Desenvolvida e negociada pela companhia argentina Bioceres, a semente promete resistir aos períodos secos do ano e às chamadas plantas invasoras, cada vez mais resistentes a agrotóxicos. Essa segunda característica se deve a uma modificação genética que permite ao trigo resistir a altas doses do herbicida glufosinato de amônio. Segundo as entidades, há estudos que mostram que essa substância chega a ser 15 vezes mais tóxica que o glifosato.

E aí é que está a grande preocupação. As plantas acumulam resíduos dos agrotóxicos nelas aplicados ao longo do cultivo. E em doses tão significativas que vão bem além das permitidas pela legislação, como mostraram diversas pesquisas de órgãos de saúde em amostras de hortaliças, frutas e outros alimentos. No caso do trigo transgênico, além de outros agroquímicos que serão utilizados, haverá concentração do glufosinato de amônio. Classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como potencialmente cancerígeno, o agrotóxico é associado ainda por diversos estudos científicos como causador de alterações genéticas, danos ao fígado e desregulação endócrina.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, um desregulador endócrino pode exercer vários efeitos nocivos, alterando os hormônios e suas funções. Isso é muito grave porque o funcionamento adequado do organismo, portanto, a saúde, depende de ação hormonal. E o mais perverso é que essa desregulação afeta principalmente fetos, crianças com até dois anos e adolescentes, por estarem em fase de desenvolvimento, com grande multiplicação celular. Não é por acaso que em 2009 o glufosinato foi banido na União Europeia.

Para piorar, o trigo transgênico se propõe a dominar a produção de um cereal que compõe a principal fonte de carboidratos, base da alimentação mundial. Ou seja, o pão de cada dia, seja do tipo que for. Além do café da manhã, está em muitas refeições diárias, como suporte para sanduíches e outros pratos. Tem ainda o macarrão, a pizza, bolos, biscoitos, doces e uma infinidade de subprodutos.

Apesar da importância do trigo na alimentação humana, não existe um método público validado para detectar, identificar e quantificar a presença de trigo HB4 em farinhas e outros produtos de trigo”, alertam as entidades em comunicado divulgado nesta quarta-feira (5), na qual reivindicam a suspensão das autorizações já concedidas.

No documento, elas destacam também as circunstâncias nada democráticas em que o cultivo e a venda foram liberados. No caso Brasil, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) encerrou o processo em março de 2023. Foram ignorados alertas de cientistas, órgãos de saúde, meio ambiente e defesa dos direitos humanos e do consumidor. A opinião pública tampouco foi levada em consideração. E como tornou-se praxe no órgão criado justamente para assessorar o governo federal quanto à biossegurança, houve dispensa de pesquisas. Foram considerados suficientes os dados incompletos apresentados pela empresa interessada na aprovação.

Pedimos que todas as licenças para o plantio e comercialização do trigo HB4 sejam suspensas e que um processo de reparo abrangente seja iniciado nos espaços já intervencionados”, destacam as organizações. Em junho de 2022 a Embrapa já havia anunciado a criação de campos de testes em Brasília.

O trigo HB4 já é vendido na Argentina desde maio de 2024, segundo anunciou na época a Bioceres. E os negócios avançam nos Estados Unidos. Nesta quinta-feira (6) a companhia anunciou ter obtido a primeira das quatro patentes solicitadas ao órgão oficial local. Já há também autorização do Departamento de Agricultura (USDA) e do Departamento de Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA). O país é o quarto maior produtor mundial do cereal.

No entanto, nem só de notícia boa vive a Bioceres. No início de fevereiro, a própria companhia divulgou queda de 24% na sua receita, o que levantou fortes suspeitas de que a nova tecnologia tenha tudo a ver com isso. Embora a empresa não tenha explicado as causas do tombo financeiro, há desconfiança de fracasso comercial do novo trigo. Ou seja, não estaria oferecendo a resistência ou tolerância à seca prometida na propaganda.

De acordo com dados oficiais, o trigo HB4 rende muito menos do que os trigos convencionais (não transgênicos), mesmo em anos de seca. Na média anual de dados de 2021, os trigos HB4 renderam 17% menos do que os trigos convencionais. Nos anos seguintes, nem o Estado nem a empresa publicaram dados de produção nas diferentes regiões. Talvez seja porque o fracasso produtivo da tecnologia foi confirmado, e a queda nas vendas e receitas da Bioceres fez com que a empresa saísse da venda de sementes”, acreditam as entidades.

Seja como for, ainda segundo essas organizações (veja lista no final da reportagem), o lançamento e posterior aprovação do trigo HB4 levantou expectativas entre os produtores. Apesar da falta de dados oficiais sobre o cultivo de trigo transgênico no Paraguai, circula por lá a informação sobre a adaptação de variedades em diversas regiões do país por corporações do agronegócio. Além disso, o uso de glufosinato de amônio aumentou substancialmente no país.

Acreditamos que, diante do grande fracasso da tecnologia HB4, para a qual a empresa Bioceres está arrastando agricultores, é hora de enterrá-la definitivamente”, pedem as organizações.

Para o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, integrante do Movimento da Ciência Cidadã, que subscreve o comunicado, o trigo transgênico é “mais uma das promessas de uma tecnologia enganosa, patrocinada por interesses opostos às necessidades da população”. “Diante das promessas de redução no uso de agrotóxicos, de geração de plantas mais nutritivas, de benefícios aos pequenos agricultores e aos consumidores, nada mais coerente do que um trigo tolerante à seca, mas que não é tolerante a seca”, disse à reportagem.

Melgarejo foi além: “Penso que as evidências concretas de inconsistência entre os discursos dos técnicos interessados, as propagandas da mídia corporativa e a realidade observada nas lavouras expliquem os pedidos, e as aprovações, de dispensa de monitoramento pós liberação comercial destas tecnologias pela CTNBio”.

Em fevereiro de 2024, essas mesmas entidades enviaram petição aos Relatores Especiais sobre Direitos Humanos da ONU. O objetivo foi alertar para a gravidade do risco a que estão expostas as populações desses países e pedir providências. Isso porque o plantio e a comercialização violarão vários direitos humanos, como o direito à vida e aos estilos de vida, à saúde, à alimentação adequada e à soberania alimentar. E também a um meio ambiente equilibrado e livre de poluição, entre outros. Entretanto, ainda não houve resposta alguma das Nações Unidas.

Confira as solicitações aos Relatores Especiais da ONU:

  • Inste os governos da Argentina, Brasil e Paraguai a suspender/revogar todas as autorizações para o cultivo comercial do trigo transgênico HB4
  • Recomende ao governo do Paraguai que revogue a Resolução 556/2023 – por meio da qual o trigo transgênico HB4 foi aprovado – e que reforme a estrutura regulatória para organismos geneticamente modificados (OGMs), por meio de um processo aberto, transparente e participativo, com ênfase especial na necessidade de proteger os direitos dos povos indígenas e das comunidades camponesas
  • Recomende que o governo da Argentina revogue a Resolução 27/2022, que se baseia apenas em informações documentais da Bioceres, a empresa que desenvolveu a variedade de trigo transgênico, e institua uma proibição adequada do cultivo de trigo transgênico no país
  • Recomende que o Conselho Nacional de Biossegurança do Brasil proíba o cultivo comercial de trigo transgênico e suspenda a decisão da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que permite a importação de grãos e farinha de trigo transgênico para o país, e promova uma revisão da legislação de biossegurança por meio de um processo participativo aberto, transparente e democrático
  • Recomende que os governos da Colômbia, África do Sul, Nigéria e Indonésia instruam suas autoridades de biossegurança a revisar as aprovações de importação de trigo GM e iniciar uma moratória em todas as aprovações (autorização de produto, importação e liberação ambiental) de culturas Geneticamente Modificadas.

Confira as entidades que assinam o documento:

Accion Ecologica

Associação Nacional para a Promoção da Agricultura Biológica

Base Investigaciones Sociales

Alianza Biodiversidad

Instituto de Salud Socioambiental (InSSA)

Amigos de La Tierra Uruguay

Rap Al Uruguay

Grain

Movimento Ciência Cidadã

Semillas

ETC Group

Aos 86 anos falece Isaac Roitman, um dos fundadores da Uenf

Faleceu no dia de hoje (07/3) aos 86 anos, o professor Isaac Roitman.  Ao longo de sua longa trajetória acadêmica, o professor Roitman ocupou diversas posições de liderança, uma delas a direção do Centro de Biociências e Biotecnologia da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). Como diretor do CBB/Uenf,  o professor Roitman teve um papel fundamental no fortalecimento das áreas de microbiologia e biotecnologia.

Além da sua contribuição para a gestação e consolidação da Uenf, Isaac Roitman foi membro ativo de  instituições científicas,  tais como a Sociedade Brasileira de Protozoologia e a Academia Brasileira de Ciências, da qual foi membro titular desde 1996. Ele também foi membro da diretoria, conselheiro e secretario regional do Distrito Federal da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Mas é importante apontar que a sua contribuição para o fortalecimento da ciência brasileira foi paradigmática, pois como cientista o professor Roitman sempre destacou a relevância do papel social da ciência e da necessidade da divulgação científica. Nesse sentido, o professor Roitman argumentava que “não deve haver um canal com a sociedade. Deve haver um ‘Rio Amazonas’ de colaboração com a sociedade, que é quem nos sustenta”.

Em função dessa trajetória de compromisso com o desenvolvimento da ciência brasileira, Isaac Roitman recebeu várias homenagens, entre elas, a Medalha Nacional do Mérito Científico na categoria Comendador e Grã Cruz, tendo sido outorgado o títul ode Professor Emérito da Universidade de Mogi das Cruzes e da Universidade de Brasília, bem como o de Pesquisador Emérito do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Pessoalmente tive um contato breve com o professor Roitman quando o convidei e ele prontamente aceitou escrever um texto que foi publicado em uma dossiê especial da revista Reoriente que tinha como objetivo celebrar o centenário do nascimento de Darcy Ribeiro. Nesse texto, o professor Roitman narrou suas experiências pessoais com Darcy Ribeiro, principalmente no tocante à implantação da Uenf que nascia sob os desígnios de ser experimental onde as ideias de cientistas comprometidos com um futuro melhor para o Brasil pudessem ser transformadas em realidade.

Com certeza, a ciência brasileira morte com o desaparecimento físico de um personagem que soube mesclar com extrema qualidade a capacidade de fazer ciência com o pensar crítico sobre os desafios que cercam a universidade e da ciência brasileira. Mas fica o legado de um pesquisador que se mostrou sempre inquieto e disposto a pensar um futuro mais próspero e socialmente justo para a população brasileira.

Finalmente, é possível dizer que, como Darcy Ribeiro, Isaac Roitman jamais aceitou se resignar e sempre optou por se indignar em face das injustiças e do arbítrio. Por isso, a Uenf e a ciência brasileira deverão ser sempre gratos a ele.

Cientistas estão se preocupando mais com um número do que com impacto de suas descobertas

Fator de impacto, número originalmente utilizado por bibliotecas para selecionar que revistas adquirir, deturpa produção científica

Por Brenno A. D. Neto 

Imagine se a qualidade de um cientista fosse medida não pelo impacto real de suas descobertas, mas por apenas um número atrelado às revistas nas quais ele publica artigos científicos. Parece absurdo? Pois essa é a realidade que vivemos e que há décadas tem se cristalizado no meio acadêmico.

O fator de impacto dos periódicos (journal impact factor, ou JIF) surgiu nos anos 1960 como um recurso para ajudar bibliotecas a selecionar quais revistas científicas deveriam ser assinadas. Até aí, tudo bem. Mas o que ninguém previu foi que esse índice, criado com um propósito meramente administrativo, se tornaria uma obsessão global, que quase sempre tem distorcido a própria ciência.

Atualmente, o JIF é tratado como sinônimo quase absoluto de qualidade científica. Universidades, órgãos de fomento e até mesmo os próprios pesquisadores utilizam esse número como critério de avaliação. Como consequência, cientistas enfrentam uma pressão, por vezes anormal, para publicar em revistas com um JIF elevado, o que leva a uma série de distorções no processo científico:

  1. Publicação por status: A busca por revistas com alto fator de impacto faz com que muitos pesquisadores priorizem onde publicar em vez de se preocuparem com o real alcance e relevância de seus trabalhos. O foco passa a ser menos a contribuição científica e mais a estratégia de publicação.
  2. Pesquisas “seguras”: Para garantir publicações em revistas de alto impacto, muitos pesquisadores evitam temas inovadores ou controversos, optando por abordagens previsíveis, que se encaixam nos padrões de aceitação das revistas mais prestigiadas. Isso sufoca a criatividade e a diversidade da pesquisa.
  3. Jogo de númerosAlgumas revistas adotam práticas para inflar seus índices, como publicar revisões extensas que acumulam muitas citações rapidamente ou estimular a autocitação em massa de artigos publicados na própria revista. Isso gera uma distorção, privilegiando estratégias quantitativas em vez da qualidade intrínseca da pesquisa.

Esses problemas são apenas alguns e se tornam ainda mais evidentes quando comparamos revistas de longa tradição com outras que surgiram recentemente. Como eu pude discutir recentemente em um editorial do periódico The Journal of the Brazilian Chemical Society (JBCS), por exemplo, os periódicos The Journal of Organic Chemistry e o Tetrahedron Letters são reconhecidos como referências na química orgânica há décadas. No entanto, seus JIFs atuais são inferiores aos de algumas revistas mais novas e menos relevantes. Ainda assim, qualquer químico orgânico sério sabe que JOC e TL são periódicos fundamentais para a área, e que um artigo publicado neles carrega um peso científico muito maior do que os números frios do fator de impacto poderiam indicar.

A cultura do JIF não apenas prejudica a ciência, mas também afeta a trajetória de muitos pesquisadores. Jovens cientistas, especialmente aqueles em início de carreira, sentem-se pressionados a publicar em revistas de alto impacto para garantir bolsas de pesquisa, promoções e reconhecimento acadêmico. Esse cenário leva a uma competição acirrada e, muitas vezes, desleal, em que a produtividade é medida mais pelo fator de impacto das revistas do que pelo real avanço gerado do conhecimento.

Além disso, essa obsessão reforça desigualdades. Pesquisadores de países (ou instituições) pobres, que muitas vezes enfrentam dificuldades para acessar equipamentos, reagentes ou colaborações de ponta, encontram ainda mais barreiras para publicar em periódicos de alto JIF. Isso gera um ciclo vicioso.

Mudanças no horizonte

O problema não está apenas no JIF, mas no peso que damos a ele. Muitas instituições de ensino e pesquisa já perceberam que as métricas devem ser uma consequência do bom trabalho, não um objetivo a ser perseguido a qualquer custo. Grandes editoras e revistas têm adotado políticas mais éticas, como a recomendação da Declaração de São Francisco sobre Avaliação da Pesquisa (DORA), que propõe que cientistas sejam avaliados com base no mérito de seu trabalho, e não na revista onde publicaram.

Na prática, algumas mudanças estão acontecendo. Muitas revistas já removeram o fator de impacto de seus sites e materiais promocionais, focando na transparência do processo editorial e na qualidade da revisão por pares. Algumas universidades e agências de fomento também têm tentado reduzir a importância do JIF em suas avaliações. Mas ainda há um longo caminho a percorrer.

No JBCS, do qual sou o atual editor-chefe,  acreditamos que o verdadeiro impacto de um artigo deve ser medido pela contribuição que ele traz ao conhecimento, e não por um número arbitrário. Nosso compromisso não é inflar métricas artificialmente, mas fortalecer a tradição, a seriedade e a qualidade da pesquisa que publicamos.

Se há algo que aprendemos ao longo dos anos é que cientistas sabem onde querem publicar – e essa escolha vai muito além de um número estampado em um site de métricas. Afinal, a ciência de verdade não se resume com apenas um numerozinho.

Sobre o autor:

Brenno A. D. Neto é químico pela UFRGS, onde também fez mestrado e doutorado. Desde 2009, é professor da UnB.  É ainda editor associado da revista RSC Advances e editor-chefe do Journal of the Brazilian Chemical Society, e faz parte do conselho do periódico Chemical Society Reviews


Fonte: Agência Bori

Por que os preços do café estão sendo negociados perto das máximas de meio século?

Por Maytaal Angel para a Agência Reuters 

LONDRES, 4 de dezembro (Reuters) – Os preços globais do café atingiram o nível mais alto em quase 50 anos devido ao mau tempo no Brasil e no Vietnã, forçando torrefadores como a Nestlé (NESN.S) para aumentar os preços e levar os consumidores a procurar cervejas mais baratas em meio à crise do custo de vida.

Os altos preços beneficiarão os agricultores com a safra deste ano, mas desafiarão os comerciantes que enfrentam custos exorbitantes de hedge nas bolsas e uma corrida para receber os grãos que compraram antecipadamente.

O que impulsiona os preços?

Problemas de produção ligados ao mau tempo no Brasil e no Vietnã fizeram com que os suprimentos globais ficassem aquém da demanda por três anos. Isso deixou os estoques esgotados e levou os preços de referência da bolsa ICE a um pico de US$ 3,36 por libra. 

A última vez que o café foi negociado tão alto foi em 1977, quando a neve destruiu faixas de plantações do Brasil. No entanto, o choque para os consumidores foi muito maior naquela época. Se ajustado pela inflação, US$ 3,36 por libra em 1977 seria equivalente a US$ 17,68 hoje.

Enquanto isso, especialistas preveem mais um ano de produção fraca de café. O Brasil, que produz quase metade do arábica do mundo — grãos de alta qualidade usados ​​principalmente em misturas torradas e moídas — sofreu uma das piores secas já registradas neste ano.

Embora as chuvas finalmente tenham chegado em outubro, a umidade do solo continua baixa e especialistas dizem que as árvores estão produzindo muitas folhas e poucas flores que se transformam em cerejeiras.

No Vietnã, que produz cerca de 40% dos grãos robusta normalmente usados ​​para fazer café instantâneo, uma seca severa no início deste ano foi seguida por chuvas excessivas desde outubro.

A consultoria StoneX prevê que a produção de arábica do Brasil cairá 10,5%, para 40 milhões de sacas no ano que vem, compensada em parte pela maior produção de robusta, reduzindo assim a safra geral do país em 0,5%.

No Vietnã, a safra pode encolher até 10% no ano até o final de setembro de 2025, aumentando a escassez global de robusta.

Por que os comerciantes estão preocupados?

Produtores de café de El Salvador se preparam para a temporada de colheita em JuayuaGrãos de café torrados são vistos em um laboratório na Fazenda de Café Lechuza em Juayua, El Salvador, em 29 de novembro de 2024. REUTERS/Jose Cabezas/Arquivo Foto 

As traders brasileiras Atlantica e Cafebras estão buscando reestruturação de dívida supervisionada pela Justiça devido aos aumentos nos preços do café, custos de hedge exorbitantes e atrasos nas entregas.

A reestruturação da dívida supervisionada pelo tribunal precede a falência se a negociação não for bem-sucedida.

Os comerciantes que compram grãos de fornecedores locais como Atlantica e Cafebras normalmente assumem posições vendidas no mercado futuro para proteger sua exposição ao mercado físico.

Com medo de não conseguir mais obter seu café físico, muitos traders estão fechando posições vendidas em futuros que se tornaram deficitárias.

Fechar posições vendidas envolve comprar ou comprar futuros, o que por sua vez eleva ainda mais os preços.

Preços futuros mais altos então elevam as chamadas de margem ou pagamentos iniciais que os traders são obrigados a pagar para se proteger contra perdas comerciais, criando assim mais estresse no setor.

Impacto nos torradores e consumidores

O aumento nos preços do café é um problema para os torrefadores.

O chefe da Nestlé , a maior empresa de café do mundo, foi demitido no início deste ano depois que o conselho ficou descontente com as vendas fracas e a perda de participação de mercado devido aos aumentos de preços , o que levou os consumidores a mudar para marcas mais baratas.

Os torrefadores tendem a comprar café com muitos meses de antecedência, o que significa que os consumidores provavelmente verão o preço subir em 6 a 12 meses.

Os consumidores que bebem fora sentirão menos o impacto do aumento atual dos preços.

Torrefadores como Starbucks (SBUX.O) que vendem principalmente para cafés devem se sair melhor, já que o preço global do café representa apenas cerca de 1,4% do preço total de uma xícara de café típica de US$ 5 em um café.

(Esta história foi corrigida para esclarecer que os comerciantes fazem hedge, não importa de quem compram, no parágrafo 13, e para remover a referência estranha a empresas comerciais específicas, no parágrafo 14)

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Reportagem de Maytaal Angel; edição de David Evans


Fonte: Agência Reuters

O Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos e vê aumento no risco de doenças graves

O motivo é a maior industrialização da agricultura.  Agrotóxicos são usados principalmente no cultivo de soja. Bayer e BASF estão entre as empresas líderes. Pesquisadores apontam aumento do risco de câncer por causa do uso de agrotóxicos, muito banidos na Europa

Por Ulrike Bickel para o Amerika21 

 Segundo informações da imprensa  , o Brasil se consolidou como o maior mercado global de defensivos agrícolas em 2024, com um faturamento estimado em 14,3 bilhões de dólares. O país ultrapassa assim os EUA (13,3 mil milhões de dólares) e a China (10,8 mil milhões de dólares). O motivo é a maior industrialização da agricultura.

O uso de pesticidas no Brasil cresceu 9,2% em valor e 8,5% em volume em 2024 em comparação ao ano anterior, de acordo com dados da organização guarda-chuva brasileira da indústria de agrotóxicos . O consumo total, portanto, foi de cerca de 1,5 milhão de toneladas.

Essa pegada química e de uso intensivo de energia é baseada principalmente em três produtos agrícolas: soja 56%, milho 16% e algodão 8%, que juntos respondem por 80% dos agrotóxicos usados ​​no Brasil. Soma-se a isso o uso de agroquímicos em grandes plantações de cana-de-açúcar e café. Foram utilizados principalmente herbicidas, inseticidas e fungicidas. O restante foi usado para outros fins, como tratamento de sementes.

Os estados do Mato Grosso e Rondônia lideram o uso de pesticidas com uma participação de mercado de 28% devido às monoculturas de soja em larga escala, seguidos por São Paulo e Minas Gerais, cada um com 18%, e os estados do nordeste da Bahia, Maranhão, Tocantins, Piauí e Pará, com 15%.

O avanço da soja na Amazônia e no Cerrado depende fortemente do uso de agrotóxicos, até porque o avanço das grandes monoculturas favorece a proliferação de pragas, doenças fúngicas e virais.

Os grandes vencedores do crescente consumo de pesticidas no Brasil são as cinco multinacionais que dominam o mercado: Syngenta, Bayer, BASF, Corteva Agriscience e UPL. As empresas também vendem no Brasil a maior parte dos agrotóxicos proibidos na Europa. Apesar das flutuações do mercado global, prevê-se um crescimento anual adicional de 1,8% até 2030.

A crescente poluição dos solos e bacias hidrográficas brasileiras é promovida politicamente por meio de isenções de impostos e taxas. Segundo o professor Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense,  os próprios contribuintes subsidiam um modelo agrícola intensivo em  agrotóxicos e promotor de doenças, ao mesmo tempo em que o acesso aos serviços de saúde pública está diminuindo.

Um novo estudo da Universidade de Caxias do Sul publicado na revista “Saúde em Debate”  mostra que agricultores expostos a agrotóxicos têm risco aumentado de câncer. O estudo analisa 29 estudos publicados entre 2012 e 2021 em todo o mundo. Portanto, o contato prolongado com  agrotóxicos pode causar danos celulares que favorecem o desenvolvimento de todos os tipos de câncer. Os mais comuns são o câncer de pulmão, mama e próstata, bem como o câncer hematológico (leucemia e linfoma).

Segundo uma das autores do artigo, Fernanda Meire Cioato, o tipo e a duração do contato são essenciais. O risco é ainda mais pronunciado entre trabalhadores rurais do sexo masculino, pois eles geralmente não usam equipamentos de proteção termicamente desconfortáveis ​​ao pulverizar. As mulheres também são afetadas quando manuseiam equipamentos contaminados ou armazenam agrotóxicos. A toxicidade dos agrotóxicos geralmente aumenta porque os agricultores costumam combinar diversas substâncias.

Os pesquisadores acreditam que a ação governamental é essencial para garantir melhor controle e segurança no uso de agrotóxicos. Da mesma forma, o treinamento de profissionais médicos para diagnosticar e tratar os trabalhadores agrícolas afetados em um estágio inicial. Além disso, a comunicação de risco deve ser melhorada: como muitos agricultores têm pouca educação, as complicadas instruções de segurança nos rótulos dos pesticidas devem ser simplificadas para reduzir o impacto negativo dos venenos agrícolas na saúde da população rural.


Fonte: Amerika21

Cientistas soam o alarme sobre plásticos em nossos cérebros após estudo chocante

Comentário destaca os potenciais riscos à saúde dos microplásticos em nossos corpos e cérebros

Microplásticos estão sendo encontrados em todos os lugares onde os cientistas os procuram, inclusive em nossos cérebros. © Daily insights via Shutterstock

Por Ed Cara para o “Gizmodo”

Se a ideia de ter uma colherada de plástico na sua cabeça parece ruim para você, você não é o único. Cientistas estão soando o alarme sobre um estudo recente que mostra que microplásticos podem se acumular no cérebro.

Pesquisadores dos EUA e Canadá escreveram o comentário, publicado no periódico Brain Medicine. Além de discutir o estudo cerebral recente, eles detalham a ciência geral sugerindo que os microplásticos estão prejudicando o meio ambiente e nossa saúde. Embora mais pesquisas sejam necessárias para descobrir as melhores maneiras de limpar essas substâncias de nossos corpos, as pessoas já podem tomar medidas para minimizar sua exposição, afirmam os cientistas.

Microplásticos são quaisquer pedaços de plástico menores que 5 milímetros. Nos últimos anos, cientistas os encontraram em praticamente qualquer lugar que eles olharam — de nuvens no topo de montanhas a nossos testículos e fezes de bebês . Mas um estudo publicado no mês passado na Nature Medicine por pesquisadores da Universidade do Novo México desencadeou uma nova onda de preocupação.

Os pesquisadores da UNM não só encontraram microplásticos nos cérebros de pessoas falecidas, como também encontraram concentrações maiores de plástico nos fígados, rins ou outros órgãos das pessoas. Além disso, esse acúmulo pareceu ser muito maior em pessoas falecidas recentemente, sugerindo que a exposição ao plástico só piorou ultimamente. Eles também encontraram uma concentração maior de plástico nos cérebros de pessoas com demência — talvez sinalizando uma conexão com a condição neurológica fatal. Os pesquisadores da UNM estimaram que os cérebros das pessoas hoje podem estar carregando uma colher de plástico inteira desses pequenos fragmentos.

Nicholas Fabiano, autor principal do novo comentário, publicado hoje, adverte que ainda há muito que não sabemos sobre os impactos dos microplásticos na saúde. Mas o que aprendemos até agora não é exatamente encorajador.

“Ouvir que há uma colher de microplásticos no cérebro foi chocante. Como residente em psiquiatria, isso é particularmente relevante, já que atualmente não sabemos a extensão total que isso pode impactar a cognição ou a saúde mental de alguém”, Fabiano, pesquisador do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Ottawa, disse ao Gizmodo. “No estudo da Nature Medicine, os níveis de microplásticos eram 3-5 vezes maiores nos cérebros daqueles com demência, o que levanta alarmes, no entanto, essas descobertas não são causais por natureza.”

Não são apenas os plásticos em si que podem ser perigosos para nossos corpos, mas os produtos químicos que vazam dele. Os pesquisadores identificaram mais de cem produtos químicos no plástico que podem nos prejudicar ou prejudicar outros animais, particularmente produtos químicos que podem imitar e, então, possivelmente interromper a regulação de hormônios importantes. Esses produtos químicos desreguladores endócrinos têm sido associados a maiores taxas de infertilidade, certos tipos de câncer e distúrbios metabólicos como diabetes, para citar alguns. E provavelmente há outras maneiras pelas quais os plásticos ou seus produtos químicos podem estar afetando nossa saúde para pior.

“A base de evidências atual (amplamente baseada em estudos de cultura de células e animais) sugere que a exposição [ao microplástico] pode levar a impactos adversos à saúde por meio de estresse oxidativo, inflamação, disfunção imunológica, metabolismo bioquímico/energético alterado, proliferação celular prejudicada, desenvolvimento anormal de órgãos, vias metabólicas interrompidas e carcinogenicidade”, escreveram os autores do comentário do Brain Medicine.

Muitas perguntas sem resposta sobre microplásticos permanecem, observa Fabiano. Além dos riscos desconhecidos para a saúde a longo prazo, não temos certeza de como esses plásticos estão entrando no cérebro, por exemplo. Também ainda sabemos pouco sobre como nossos corpos podem eliminar microplásticos, embora algumas pesquisas tenham sugerido que podemos literalmente suar certos produtos químicos associados ao plástico.

Apesar dessas incógnitas, Fabiano (e muitos outros pesquisadores ) pediram que governos e formuladores de políticas tomem medidas e comecem a reduzir nossa exposição coletiva a microplásticos. Enquanto isso, as pessoas também podem fazer coisas em suas vidas pessoais para limitar sua ingestão de plásticos. Isso inclui: mudar de beber água engarrafada regularmente para água filtrada da torneira; comer menos alimentos comumente feitos com plástico, como certos saquinhos de chá (dito isso, alguns tipos de saquinhos de chá são melhores do que outros ), ou alimentos que são conhecidos por conter altos níveis de microplásticos, como frutos do mar, álcool e alimentos altamente processados ​​em geral; e armazenar nossas sobras em recipientes de vidro ou aço inoxidável em vez de plásticos.


Fonte: Gizmodo