A névoa da guerra: os efeitos persistentes do Agente Laranja no Vietnã

Cinquenta anos após a Guerra do Vietname, os investigadores ainda lutam para documentar os efeitos a longo prazo na saúde da pulverização maciça do Agente Laranja e de outros herbicidas

In Vietnam, the health effects of Agent Orange remain uncertain 50 years  later | Science | AAAS

Por Dennis Normile para a Science

Quase duas décadas atrás, mais de 240 mulheres que tinham dado à luz recentemente em Da Nang, no Vietnã, receberam um pedido incomum de enfermeiras visitantes que estavam verificando seus recém-nascidos: Poderíamos coletar uma pequena amostra do seu leite materno?

As mães se voluntariaram para um estudo que os cientistas esperavam que respondesse a uma pergunta que assombrava o Vietnã desde o fim da chamada Guerra de Resistência Contra a América, em 1975: a pulverização aérea maciça de produtos químicos destruidores de vegetação pelos militares dos EUA durante o conflito colocou a saúde das crianças em risco?

Quando a iniciativa de coleta de leite começou em 2008, os pesquisadores já sabiam que esses herbicidas — chamados coletivamente de Agente Laranja, em homenagem à faixa laranja pintada nos barris que continham uma das fórmulas — estavam contaminados com uma dioxina altamente tóxica, uma substância química de longa duração associada a uma série de problemas de saúde humana. Pesquisas do pós-guerra descobriram que concentrações relativamente altas de dioxina persistiam em alguns solos e sedimentos aquáticos do Vietnã, especialmente perto de antigas bases aéreas americanas — como a de Da Nang — que haviam manipulado grandes volumes desses produtos químicos. E o Agente Laranja havia sido associado, de forma anedótica, a relatos de defeitos congênitos em comunidades expostas à pulverização, que durou de 1961 a 1971. 


Vista aérea de uma área de floresta desfolhada ao longo de um rio, com alguns edifícios próximos.

Vastas áreas de florestas e terras agrícolas no Vietnã do Sul foram devastadas pela pulverização de herbicidas pelos militares dos EUA entre 1961 e 1971. Imagem de arquivo/Alamy

Com o passar dos anos, o Vietnã afirmou que os prejudicados pelo Agente Laranja incluíam parentes de segunda, terceira e até quarta geração daqueles que sofreram a pulverização, devido à permanência de dioxina no ambiente ou a efeitos hereditários na saúde. O país colocou defeitos congênitos no centro de suas descrições dos horrores do Agente Laranja. Mas poucos estudos haviam tentado examinar rigorosamente uma ligação, até o trabalho de Da Nang. Liderado pela cientista de saúde ambiental Muneko Nishijo, da Universidade Médica de Kanazawa, e pelo especialista em saúde pública Tai Pham-The, da Universidade Médica Militar do Vietnã, o objetivo do estudo era documentar os níveis de dioxina no leite de novas mães e, em seguida, acompanhar seus filhos à medida que cresciam.

Agora, o Vietnã se prepara para comemorar o 50º aniversário do evento que pôs fim à guerra — a captura de Saigon, atual Cidade de Ho Chi Minh, pelas forças norte-vietnamitas e vietcongues em 30 de abril de 1975. No entanto, esse estudo continua sendo um dos poucos esforços de pesquisa em andamento sobre os efeitos a longo prazo do amargo conflito na saúde, que custou a vida de cerca de 3,3 milhões de vietnamitas e quase 60.000 militares americanos. Ele não resolveu a questão dos defeitos congênitos. Mas Nishijo e Tai encontraram evidências de que a substância química pode afetar o desenvolvimento cerebral em crianças expostas, e outros estão estudando como o conflito ainda afeta a saúde física e mental daqueles que o vivenciaram ( veja a barra lateral abaixo ).

Atualmente, a maioria dos vietnamitas não se lembra da guerra, já que a maioria dos 101 milhões de habitantes do país nasceu após o seu fim. E encontrar respaldo para estudos que compreendam o impacto contínuo da guerra está se mostrando cada vez mais difícil, já que nem os Estados Unidos nem o Vietnã parecem ansiosos para revisitar aquela época. Mas, “a carga contínua de doenças entre as populações expostas significa que o legado de dioxina do Vietnã continua sendo um desafio significativo para a saúde pública”, afirma o cientista de saúde ambiental Tran Thi Tuyet-Hanh, da Universidade de Saúde Pública de Hanói.

A Guerra do Vietnã marcou o maior uso de herbicidas que o mundo já viu. Entre 1961 e 1971, aeronaves pesadas pulverizaram cerca de 74 milhões de litros desses produtos químicos sobre o Vietnã do Sul, bem como sobre as áreas de fronteira do Laos e do Camboja. O objetivo era arrancar a vegetação dos manguezais e das densas florestas que forneciam cobertura para as tropas norte-vietnamitas e vietcongues, e destruir as plantações das quais dependiam para sua alimentação.

As armas escolhidas eram chamadas de herbicidas arco-íris — meia dúzia de formulações identificadas por nomes como Agente Rosa e Agente Branco, em homenagem às cores usadas para marcar os canos. O Agente Laranja, que se tornou o mais famoso, era uma mistura 50-50 de dois herbicidas disponíveis comercialmente, o ácido 2,4-diclorofenoxiacético e o ácido 2,4,5-triclorofenoxiacético (2,4,5-T). Acreditava-se que os desfolhantes eram inofensivos aos humanos, e as tropas americanas normalmente os manuseavam sem usar equipamentos de proteção.

No final da década de 1960, porém, experimentos de laboratório mostraram que o 2,4,5-T podia causar anormalidades e natimortos em camundongos, e houve relatos de defeitos congênitos humanos em áreas pulverizadas no Vietnã. Mais tarde, ficou claro que o processo de fabricação do herbicida introduzia uma dioxina particularmente tóxica, conhecida como 2,3,7,8-tetraclorodibenzo-p-dioxina (TCDD), no Agente Laranja e em outros herbicidas. Quatro anos antes do fim da guerra, os EUA abandonaram sua campanha de pulverização, que durou uma década, em meio à crescente condenação internacional e preocupações com a segurança.

Hoje, há um amplo consenso de que a dioxina representa sérios riscos à saúde daqueles diretamente expostos, incluindo cidadãos e soldados vietnamitas, bem como membros das forças armadas dos EUA e de outros países que os ajudaram durante a guerra: Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia. Esse consenso se baseia, em parte, nos esforços do governo dos EUA para avaliar como a exposição afetou a saúde dos veteranos dos EUA. Em 1992, o Departamento de Assuntos de Veteranos solicitou ao Instituto de Medicina, agora parte das Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA (NASEM), que revisasse a literatura científica e fornecesse atualizações bienais. O último desses relatórios, Veterans and Agent Orange, apareceu em 2018 e identificou 19 cânceres e outras condições com evidências “suficientes” ou “sugestivas” de uma associação com a exposição aos herbicidas ( veja o quadro acima ). Investigadores vietnamitas produziram separadamente uma lista semelhante.

Mas tais estudos deixaram em aberto uma das questões mais visíveis e controversas em torno do Agente Laranja: se os compostos representam riscos não apenas para aqueles que foram diretamente expostos, mas para seus filhos.

A preocupação com as gerações futuras foi motivada, em grande parte, pela preocupante capacidade de permanência do TCDD, a dioxina que contaminou o Agente Laranja. Ao contrário do próprio herbicida, que se decompõe em horas ou dias, o TCDD pode sobreviver até 3 anos em solo exposto à luz solar. Se lixiviado para sedimentos de rios ou lagoas, pode ter uma meia-vida de mais de 100 anos — tempo mais do que suficiente para ser absorvido por peixes, patos e outros animais que as pessoas comem. (As pessoas também podem inalar poeira contaminada e absorver dioxina através da pele.) Uma vez no corpo humano, a dioxina pode alojar-se na mama e em outros tecidos adiposos e ter uma meia-vida de 7 a 11 anos. Também pode contaminar o leite materno e ser transmitida a bebês amamentados.

Desde a década de 1970, inúmeros estudos com animais constataram que fetos expostos à dioxina podem apresentar uma ampla gama de defeitos congênitos e problemas de desenvolvimento, sugerindo que um impacto em fetos humanos é biologicamente plausível. Mas documentá-lo tem se mostrado difícil.

Devido à pulverização do Agente Laranja, o Vietnã era o lugar óbvio para buscar uma resposta. Em 2003, o Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental dos EUA (NIEHS) aprovou um estudo de cinco anos, no valor de US$ 3,5 milhões, proposto pelo médico sanitarista David Carpenter, da Universidade de Albany. O estudo planejava analisar os níveis de dioxina no sangue de 300 mães vietnamitas de bebês com defeitos congênitos, usando 300 mães de bebês saudáveis ​​como controle. Mas o NIEHS cancelou o estudo em 2005, após não conseguir chegar a um acordo sobre os protocolos de pesquisa com o Ministério da Saúde do Vietnã.

No ano seguinte, uma equipe liderada por Tuan Van Nguyen, então no Instituto Garvan de Pesquisa Médica, publicou uma meta-análise de 22 estudos, incluindo relatórios não publicados em língua vietnamita, que sugeria que mães expostas ao Agente Laranja tinham duas vezes mais probabilidade de ter filhos com defeitos congênitos do que aquelas não expostas. Mas essa conclusão, relatada no International Journal of Epidemiology , provou ser controversa. Em um comentário no mesmo periódico, o toxicologista Arnold Schecter, da Universidade do Texas, e o cirurgião John Constable, da Harvard Medical School, criticaram o artigo por se basear em publicações antigas e não revisadas por pares. ” Não conhecemos nenhum estudo não vietnamita que vincule a exposição a herbicidas ou dioxinas a malformações congênitas além de espinha bífida e anencefalia “, escreveram a dupla. (Em 2014, o comitê da NASEM que produziu a atualização daquele ano para Veterans and Agent Orange revisou evidências adicionais e concluiu que era “inadequado ou insuficiente” vincular o Agente Laranja a quaisquer defeitos congênitos, incluindo espinha bífida.)

Uma mãe dá banho em seu filho.
No Vietnã, o governo afirmou que a contaminação por pulverização de herbicidas pelo exército americano é responsável por defeitos congênitos. PAULA BRONSTEIN/GETTY IMAGES

Nguyen, agora na Universidade de Tecnologia de Sydney, afirma que, embora seu trabalho sugerisse uma associação entre a exposição ao Agente Laranja e defeitos congênitos, muitos dos estudos em que se basearam eram observacionais. Como resultado, “evitamos conclusões causais”. Mas estudos de coorte mais rigorosos, que acompanhassem os indivíduos de forma a descartar fatores de confusão, como idade materna e exposição a outros produtos químicos, poderiam gerar conclusões mais sólidas, afirma ele.

Uma boa oportunidade para lançar esses estudos foi perdida, diz Nguyen. Em meados dos anos 2000, pesquisadores vietnamitas e americanos mediram as cargas de dioxina de um número significativo de indivíduos em todo o Vietnã, o que poderia ter possibilitado um estudo em larga escala sobre a questão dos defeitos congênitos. Mas as autoridades vietnamitas nunca agiram de acordo com a sugestão de Nguyen de usar esses dados. “O estudo era totalmente viável, mas nunca foi realizado, o que foi profundamente decepcionante”, diz Nguyen.

Vários fatores explicam o fraco apoio, afirmam os cientistas. Um deles é que o tema “é extremamente político” tanto no Vietnã quanto nos EUA, diz Carpenter. Por exemplo, se seu estudo de 2003 “tivesse mostrado o que esperávamos” — que a exposição a herbicidas estava ligada a defeitos congênitos — os EUA poderiam ter “obrigado a pagar indenizações às crianças vietnamitas”. Por outro lado, se não tivesse encontrado nenhuma ligação, isso poderia ter “constrangido” o governo vietnamita, que há muito tempo destaca os defeitos congênitos como o dano mais proeminente do Agente Laranja.

Neste ponto, Carpenter diz: “Parece cada vez mais desesperador pensar que um estudo adequado [sobre a questão dos defeitos congênitos] será financiado e realizado”.

No momento , o estudo sobre leite materno de Nishijo e Tai é o único estudo epidemiológico em andamento com foco em dioxina no Vietnã, observa Nishijo. Lançado em Da Nang, o estudo foi expandido para uma segunda coorte perto da antiga Base Aérea de Bien Hoa, outro ponto crítico, e um grupo de controle. Mas é improvável que o estudo forneça uma resposta definitiva à questão dos defeitos congênitos. “Nossa coorte é muito pequena para investigar anomalias congênitas”, porque elas ocorrem raramente, diz Nishijo.

Ainda assim, em dezenas de artigos publicados nos últimos 15 anos, a equipe documentou outras ligações. Em particular, eles descobriram que um alto nível de dioxina no leite materno — um indicador da exposição fetal — está associado a um crescimento físico mais lento e a um atraso no desenvolvimento neurológico dos filhos. Meninos apresentam dificuldades de aprendizagem, por exemplo, enquanto meninas apresentam transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e autismo.

Os artigos “fornecem fortes evidências” de que viver perto de locais contaminados pelo Agente Laranja pode resultar em altas cargas corporais de dioxina, que estão associadas a distúrbios comportamentais em crianças, diz Steven Stellman, um epidemiologista aposentado da Universidade de Columbia que esteve envolvido por muito tempo em estudos sobre o Agente Laranja.

Se o financiamento permitir, Nishijo e Tai pretendem continuar acompanhando as crianças à medida que crescem. Isso poderia revelar ligações entre a exposição à dioxina e cânceres e outras doenças que se manifestam mais tarde na vida.

Enquanto isso, outros pesquisadores afirmam que há outra questão em torno dos impactos a longo prazo do Agente Laranja na saúde que ainda pode ser estudada — caso os financiadores estejam dispostos a intervir. Trata-se da questão de saber se a exposição causou mudanças biológicas fundamentais nas pessoas, passíveis de transmissão de geração para geração.

Cientistas e autoridades vietnamitas afirmam estar observando tais efeitos multigeracionais resultando em defeitos congênitos várias gerações após a exposição. E, embora os autores do relatório da NASEM de 2018 tenham concluído que havia “evidências inadequadas ou insuficientes” de efeitos epigenéticos, eles encorajaram fortemente mais estudos sobre o assunto.

Close de uma mão com defeito congênito. O pulso está tão dobrado que a palma da mão está pressionada contra o pulso, e os dedos estão cerrados.
A mão deformada de Nguyen Van Danh, cujo pai e avós viveram em áreas pulverizadas com herbicidas durante a Guerra do Vietnã. Estabelecer ligações diretas entre exposição a herbicidas e defeitos congênitos tem se mostrado difícil. Kuni Takahashi/Getty Images

Aqui, também, há evidências sugestivas de experimentos com animais. Michael Skinner, biólogo da Universidade Estadual de Washington, relatou que, em roedores, alterações genéticas e doenças de início na fase adulta relacionadas à exposição à dioxina podem ser observadas em descendentes de quarta geração.

Pesquisas humanas recentes também dão suporte à ideia. Cristina Giuliani, antropóloga biológica da Universidade de Bolonha, e colegas da Universidade de Medicina e Farmácia de Hue e da Universidade da Califórnia (UC), Riverside, concentraram-se em um mecanismo epigenético chamado metilação do DNA e como ele afetou a expressão de um gene específico, o CYP1A1 , que tem um papel na quebra de compostos tóxicos, tornando-os mais fáceis de serem eliminados do corpo. “O TCDD é diferente, pois não pode ser totalmente desintoxicado e sua presença estressa ainda mais o sistema de desintoxicação”, diz ela. Em um artigo de 2018 sobre poluição ambiental , eles relataram que os filhos de pais vietnamitas expostos ao Agente Laranja compartilhavam uma assinatura distinta de metilação do DNA do CYP1A1 que não foi vista nos filhos de pais sem exposição.

Giuliani faz questão de observar que o estudo “não demonstra experimentalmente que a exposição à dioxina é transmitida aos descendentes”. E não aborda a questão de saber se alguma alteração é prejudicial, benéfica ou neutra.

Para entender melhor essas questões, dizem os pesquisadores, seriam necessários estudos epigenéticos comparando várias gerações de populações expostas e não expostas. Mas “ainda não existem estudos como esse”, diz Skinner. E encontrar financiamento para conduzir tais estudos no Vietnã, diz ele, “seria difícil… devido às questões políticas da situação”.

O 50º aniversário do fim da guerra provavelmente atrairá uma atenção renovada para a era do Agente Laranja. Mas muitos pesquisadores duvidam que isso leve a um aumento substancial na atividade científica. Um obstáculo é que o Vietnã agora enfrenta “problemas de saúde ambiental mais urgentes”, como a poluição atmosférica cada vez mais grave, causada por fontes que incluem a queima generalizada de resíduos plásticos, afirma David Biggs, historiador ambiental da UC Riverside que estudou a controvérsia do Agente Laranja.

Outro obstáculo é que o impacto do Agente Laranja está diminuindo. No início dos anos 2000, a Cruz Vermelha do Vietnã estimou que 3 milhões de pessoas foram afetadas pela pulverização e pela contaminação persistente. Mas aqueles que foram diretamente expostos à pulverização estão morrendo, e a exposição contínua “se tornará cada vez menor porque essa dioxina não existe mais no ambiente” à medida que se decompõe, diz Le Ke Son, toxicologista que liderou os esforços do governo vietnamita para lidar com os herbicidas. Os EUA também pagaram pela limpeza de alguns locais contaminados, embora um ou dois pontos críticos ainda persistam. (O governo do presidente Donald Trump suspendeu, mas posteriormente restaurou o financiamento para a limpeza do local de Bien Hoa.) E mesmo que as alterações biológicas devido à exposição possam ser herdadas, “aqueles que nascem com deficiências graves têm menos probabilidade de se casar e ter filhos”, diz Charles Bailey, que liderou os esforços da Fundação Ford para abordar os problemas do Agente Laranja no Vietnã no início dos anos 2000.

Ainda assim, mesmo 50 anos depois, o Agente Laranja lança uma sombra sombria sobre o Vietnã. E Carpenter, por exemplo, acredita que “estamos perdendo uma oportunidade muito importante de entender melhor os riscos”.

Com reportagem do Le My na Cidade de Ho Chi Minh, Vietnã.

Fonte: Science

Microplástico na Bacia de Santos pode impactar sustentabilidade ambiental e econômica da região

Microplásticos foram encontrados em todos os pontos amostrados na Bacia de Santos, independentemente da estação do ano

A Bacia de Santos tem 350.000 km² de área e abriga grandes campos de produção de petróleo e gás

As águas superficiais da Bacia de Santos, no litoral Sudeste do Brasil, estão contaminadas por microplásticos — partículas com menos de 5 milímetros consideradas letais para a biodiversidade local e potencialmente nocivas à saúde humana.  

A constatação é de um estudo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), publicado nesta sexta-feira (25) na revista Ocean and Coastal Research. A pesquisa mapeou a presença, forma, cor e tamanho dos resíduos em uma das regiões mais importantes do país para a produção de petróleo e gás.

Com aproximadamente 350 mil quilômetros quadrados, a Bacia de Santos abrange os litorais dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. A região reúne alta biodiversidade marinha e concentra grande parte das operações offshore brasileiras. 

Foram analisadas 30 amostras de água coletadas em sete pontos durante as estações de verão e inverno, nos anos de 2020 e 2021. Todas apresentaram algum grau de contaminação por microplásticos. Ao todo, 1.006 partículas foram identificadas, com predominância de fragmentos rígidos (51,8%), seguidos por filmes (24%) e fibras (16,4%).

Os resíduos encontrados derivam principalmente de embalagens plásticas, sacolas, garrafas, recipientes de uso cotidiano e, possivelmente, de produtos como cosméticos. Segundo o estudo, os níveis de microplásticos na Bacia de Santos são comparáveis aos registrados em outras regiões do Oceano Atlântico — incluindo áreas sem exploração de petróleo e gás, como trechos da costa brasileira, Portugal e China. 

Apesar da proximidade com plataformas fixas e intenso tráfego marítimo, não houve diferença estatística entre os pontos analisados, o que indica que fatores oceanográficos — como ventos, correntes, ondas e chuvas — têm papel determinante na dispersão das partículas.

De acordo com a pesquisadora Gisele Lôbo-Hajdu, uma das autoras do estudo, os impactos da contaminação vão muito além do ambiente marinho. “A alta incidência de fragmentos de microplástico pode afetar a pesca local ao contaminar frutos do mar e pescado, levando a perdas econômicas e problemas de saúde. 

O turismo também pode sofrer devido à poluição persistente, enquanto a degradação do habitat — por exemplo, recifes de corais e manguezais — a longo prazo pode reduzir a resiliência do ecossistema”, alerta.

Os autores destacam que os resultados podem subsidiar políticas públicas voltadas ao controle da poluição marinha, ao fortalecimento de áreas de proteção ambiental e ao desenvolvimento de campanhas de conscientização sobre o descarte de resíduos. A pesquisa também reforça a importância do monitoramento contínuo da região e da regulação de atividades industriais em áreas ecologicamente sensíveis.


Fonte: Agência Bori

Agronegócio e escassez hídrica no Brasil: uma tragédia anunciada

Seca no Rio Madeira em 2024. Foto: Michael Dantas / AFP

Um levantamento feito pela Agência Pública no banco de dados da Agência Nacional de Águas (ANA) identificou que 50 grupos empresariais possuem outorgas de uso de água que alcançam 3,5 trilhões de litros de água, um valor que serviria para abastecer cerca de 98 milhões de pessoas (46% da população brasileira) por um ano. Há que se notar que 86% das outorgas eram para atividades do dito agronegócio.

O Brasil vive hoje um processo de diminuição da água existente em seus principais rios. Isso é o que mostram diferentes estudos científicos realizados nos últimos anos e publicados em importantes revistas científicas internacionais. As causas dessa perda da capacidade hídrica estão ligadas a problemas que vão desde as mudanças climáticas, passam pelo desmatamento na Amazônia e no Cerrado, e desembocam na outorga de trilhões de litros de água anualmente para uso pelo agronegócio e pela mineração.

Um levantamento feito pela Agência Pública no banco de dados da Agência Nacional de Águas (ANA) identificou que 50 grupos empresariais possuem outorgas de uso de água que alcançam 3,5 trilhões de litros de água, um valor que serviria para abastecer cerca de 98 milhões de pessoas (46% da população brasileira) por um ano. Nesse caso, há que se notar que 86% das outorgas eram para atividades do dito agronegócio.

Mas os problemas associados ao uso intenso de água pelo agronegócio estão entrelaçados ao processo de desmatamento, especialmente no bioma do Cerrado. Uma pesquisa da qual participei e que foi publicada em 2023 na revista Sustainability mostrou a perda da capacidade hídrica (ou seja, o ressecamento) em 82 bacias hidrográficas localizadas dentro do Cerrado. Essa perda de capacidade hídrica é especialmente preocupante, na medida em que são os rios do Cerrado que abastecem a maioria das bacias hidrográficas que abastecem o resto do Brasil. É uma espécie de efeito cascata no qual o ressecamento dos rios do Cerrado irá espalhar a seca por outras partes do Brasil.

Uma estratégia dos latifundiários para responder aos impactos oriundos do desmatamento, o uso de água subterrânea para irrigação, também colabora para que o volume dos rios esteja diminuindo. Um estudo publicado pela prestigiosa revista Nature em 2019 apontava para um lento processo que estava atingindo entre 15 e 21% das bacias hidrográficas que têm suas águas subterrâneas removidas, já atingiram um limiar ecológico crítico, dizem os autores — e que esse número pode subir rapidamente para algo entre 40 e 79% até 2050. Essa tendência foi confirmada de forma específica para o Brasil por um estudo publicado pela revista científica “Nature Communications”, que apontou que mais da metade dos rios brasileiros está perdendo água para o subsolo, o que deverá comprometer a vazão, o que afetará fortemente a quantidade de água disponível para consumo humano”.

Apesar das evidências de que caminhamos para um grave problema de abastecimento de água em um futuro não muito distante, e que os principais responsáveis são conhecidos, a privatização das empresas concessionárias na maioria dos estados e municípios torna a crise uma oportunidade para os donos do capital. É que, com demanda em crescimento e oferta em diminuição, a tendência será de aumentos explosivos do preço da água para os trabalhadores do campo e da cidade.

Em face desse cenário ameaçador, é preciso que o debate em torno da democratização do acesso à água, bem como da imposição das restrições sobre o consumo abusivo pelo agronegócio e pela mineração. Mas a receita para isso precisa nascer do reconhecimento de que não há como esperar soluções das estruturas criadas para gerir a privatização da água, a começar pela própria ANA e os chamados comitês de bacia. É que desse aparato não sairá uma gota de água para os pobres, pois foi criado para gerenciar a água não como um direito humano, mas mais uma commodity a ser comercializada para alcançar o lucro máximo. 

O caminho para evitar uma aguda crise social causada pela escassez da água terá de ser o da organização popular e do questionamento frontal do modelo privatista de gerenciamento dos recursos hídricos que foi estipulado em 1997 com a promulgação da Política Nacional de Recursos Hídricos. Um exemplo prático de como o controle privado da água deve ser enfrentado pelos trabalhadores foi a chamada Revolta de Correntina, que ocorreu em 2017 na região oeste do estado da Bahia, quando milhares de pessoas se mobilizaram para denunciar o uso abusivo da água pelas atividades do agronegócio.  A replicação da mobilização de Correntina terá de estar na ordem do dia, pois, do contrário, a falta de água vai se tornar regra e não exceção.

Finalmente, há que se dizer que todo esse contexto de diminuição da quantidade de água facilmente disponível para consumo deverá ser piorado pelas mudanças climáticas com o aumento dos períodos de seca e de ondas de calor. Por isso, não há tempo para contemplar, pois a hora é agir. O quanto antes, melhor. 


Fonte: A Nova Democracia

Brasil anuncia vacina contra chikungunya

Saiba como ocorrem os testes clínicos da vacina contra chikungunya no  Brasil - Revista Galileu | Saúde
Por Luiz Felipe Fernandes para a SciDev 

A vacina é resultado de uma colaboração entre o Instituto Butantan do Brasil e a farmacêutica franco-austríaca Valneva.

“A expectativa é que, uma vez aprovada e com capacidade de produção estabelecida, a vacina seja incorporada ao calendário nacional de vacinação, fortalecendo os esforços de combate à doença no Brasil”, diz a resposta enviada pelo Ministério da Saúde ao SciDev.Net .

Uma versão da vacina produzida inteiramente no Brasil está sendo avaliada pela agência reguladora do país. Gustavo Mendes, diretor de Assuntos Regulatórios, Controle de Qualidade e Estudos Clínicos da Fundação Butantan, explicou ao SciDev.Net que, para aprovação, é preciso fabricar três lotes que atendam aos requisitos de qualidade da agência.

A vacina utiliza a tecnologia do vírus atenuado , uma versão modificada do vírus chikungunya que mantém suas características para ser reconhecida pelo sistema imunológico do corpo, mas sem a capacidade de causar doença.

Os resultados de um estudo realizado nos Estados Unidos com 4.000 voluntários de 18 a 65 anos e publicado na revista científica The Lancet foram apresentados para aprovação .

O ensaio clínico mostrou que 98,9% dos participantes produziram anticorpos neutralizantes — que impedem o vírus de entrar nas células — mantendo bons níveis por seis meses.

A vacina contra chikungunya também foi aprovada pela Food and Drug Administration (FDA) dos EUA e pela Agência Europeia de Medicamentos da União Europeia.

“A expectativa é que, uma vez aprovada e com capacidade de produção estabelecida, a vacina seja incorporada ao calendário nacional de vacinação, fortalecendo o combate à doença no Brasil.”

Resposta enviada pelo Ministério da Saúde ao SciDev.Net

Chikungunya é um arbovírus, nome dado às doenças causadas por vírus transmitidos por artrópodes, como mosquitos e carrapatos. É transmitida pela picada do mosquito Aedes aegypti , o mesmo vetor da dengue e do Zika.

Uma das características da doença é a dor articular intensa, que pode se tornar crônica.

Em 2024, 620.000 casos de chikungunya foram registrados no mundo todo, com 213 mortes. O Brasil é considerado o centro da doença nas Américas . Paraguai, Argentina e Bolívia são outros países da região com altas taxas da doença.

Desempenho no mundo real

Normalmente, a aprovação da vacina exige dados sobre sua eficácia, comparando o número de casos da doença entre um grupo vacinado e um grupo placebo.

No entanto, a vacina contra chikungunya é a primeira no mundo aprovada com base na imunogenicidade, ou seja, na capacidade de produzir anticorpos neutralizantes.

Segundo Mendes, a aprovação da imunogenicidade foi necessária devido à incidência localizada de chikungunya, que ocorre sem um padrão específico.

“O que foi acordado, como um compromisso entre o Butantan, a Valneva e as agências reguladoras tanto dos Estados Unidos quanto do Brasil, é que coletaríamos dados sobre o desempenho dessa vacina no mundo real, ou seja, com a vacinação em pessoas, para observar essa tendência, que já está projetada com anticorpos neutralizantes”, explicou.

William de Souza, professor do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Genética Molecular da Universidade de Kentucky, observa que a chikungunya causa surtos e epidemias explosivas.

O vírus normalmente infecta uma população muito grande em pequenas áreas “como se fossem focos de epidemia”, disse o pesquisador ao SciDev.Net . Por isso, é difícil prevenir o aparecimento da doença e fazer testes de eficácia, explica.

Souza lembra que outra vacina contra chikungunya, desenvolvida pela empresa dinamarquesa Bavarian Nordic, já foi aprovada na Europa e nos Estados Unidos.

A vantagem, segundo o especialista, é que essa vacina é do tipo partícula pseudoviral (VLP, de Virus-Like Particle ), o que significa que não contém material genético do vírus. Por isso é mais seguro, podendo ser aplicado inclusive em adolescentes maiores de 12 anos.

O professor ressalta, porém, que a vacina é apenas uma das estratégias de combate à doença. Ele afirma que o governo brasileiro terá agora o desafio de desenvolver um plano de produção e distribuição da vacina, levando em consideração o caráter episódico da doença.

Propagação global de arbovírus

Por outro lado, um estudo publicado este mês na revista Nature Communications revelou uma sobreposição significativa na distribuição global de doenças transmitidas pelo Aedes aegypti , como dengue, chikungunya, zika e febre amarela.

Pesquisadores analisaram 21.000 pontos críticos e criaram novos mapas globais mostrando áreas com condições consideradas adequadas para a transmissão desses arbovírus.

Segundo o estudo, estima-se que 5,66 bilhões de pessoas vivam em áreas propensas à transmissão de dengue, chikungunya e zika, e 1,54 bilhão em áreas propensas à febre amarela .

O estudo levou em consideração vieses de vigilância que podem distorcer mapas de risco existentes. Segundo os pesquisadores, áreas de maior renda tendem a ter maior capacidade de detectar, diagnosticar e notificar doenças virais, o que pode ter levado a uma superestimação do risco em regiões como Estados Unidos e Europa.

“Nossos mapas mostram que a disseminação recente de chikungunya e zika ocorreu exclusivamente em áreas já propensas à dengue . Isso indica que qualquer área com dengue está em risco ou pode estar sofrendo transmissão de zika e chikungunya”, afirmam os autores do artigo.


Fonte: SciDev.Net

O desmatamento do Cerrado cria uma bomba de tempo que ameaça explodir sobre todos nós

Desmatamento dobrou no Cerrado em setembro, afirma Instituto – Ecoa

Por Ângelo Cavalcanti 

Está disponível o Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado (SAD Cerrado) que é uma plataforma fácil, intuitiva, criteriosa e que disponibiliza dados e informações sobre as altas ondas de devastação da savana brasileira.  Vale a pena conhecer! O SAD mostra com precisão para onde vai, para onde segue o fogo, a carbonização e o desmatamento e que, impiedoso, flagela o Cerrado! Sim! Há método, métrica e intenção na destruição! 

Para esse caso específico, há uma lógica coerente, clara, preconcebida e que impõe ritmo, dinâmica e sutilezas próprias aos intentos dos criminosos ambientais.  Não por menos, reparem bem, o SAD revela que, de longe, os desmatamentos apetecidos no Brasil acontecem fundamentalmente, em áreas de Cerrado; o drama cerradeiro é maior, bem maior do que a correlata tragédia amazonida. Pois sim…

Na expiação do Cerrado, o grosso e essencial da sua aniquilação se concentra, sobretudo, no polígono georeferente e assim denominado de  Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). Tem mais. Algo próximo a 85% desse mesmo desmatamento se realiza nas proximidades físicas e objetivas de cinco bacias hidrográficas de importância central para o Brasil e para todo o Cone Sul.

Como diz Chico Buarque, ” trocando em miúdos”, a falência cerradeira não é só mais um tipo de ruína brasileira; é uma devastação e que, de uma forma ou de outra, se estende, se amplia por todo o quadrilátero sul-americano.  Atinge e envolve toda a Amazônia colombiana, os desfiladeiros e florestas peruanas, as nevascas e geleiras dos Andes e os imediatos rios, córregos e arroios e que trespassam e umedecem as repúblicas da Argentina e do Chile.

O drama do Cerrado é, de fato, das maiores bombas ambientais do planeta! Ora… Os números estão aí para atestar o que esse provinciano provocador tenta contar.  Por bom augúrio, a metástase devastante e que varre o Cerrado brasileiro por cinco anos consecutivos teve, ao fim, uma importante redução de 33% no ano derradeiro de 2024. 

Esse índice, oxalá, se mantenha e que seja mesmo ampliado… só foi possível, no entanto, com muita ação, intervenção estatal na fiscalização, acompanhamento, monitoramento e é claro, punições duras aos “cidadãos de bem” e que “produzem” riquezas para o “Brasil”.

Em que pese a situação do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) restrito a ínfimos 2,6 mil servidores, de sorte que mil destes funcionários, caminham, ainda neste ano, para a aposentadoria, segundo informações de Rodrigo Agostinho, presidente do órgão, a redução do holocausto ambiental das nossas savanas só foi possível porque combinou um padrão de fiscalização obstinado e irrefreável mais um conjunto interminável de advertências, ajustes e multas e que, para 2024, ultrapassou um bilhão de reais.

Não há saída. O Cerrado e sua gestão são questões que envolvem a própria governança nacional e, em si, é estratégia definitiva de compromisso e integração latino-americana.  Lula não pode olvidar, não tem o direito de esquecer dessa questão absolutamente decisiva para o país, seu povo e sua economia, o subcontinente da América Latina e mesmo o mundo. 

*Angelo Cavalcante- Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Unidade Itumbiara.

Pesquisa descobre DDT em trutas silvestres no Canadá, décadas após proibição de uso

Perigo potencial para humanos e vida selvagem devido a pesticidas nocivos descobertos em peixes com concentração 10 vezes maior que o limite de segurança 

Um pescador com mosca no rio Miramichi, New Brunswick, Canadá

Um pescador com mosca no Rio Miramichi, Nova Brunswick, Canadá. O DDT foi usado em áreas florestais da província de 1952 a 1968. Fotografia: Steve Bly/Alamy

Por Sinéad Campbell para o “The Guardian”

Resíduos do inseticida DDT persistem em “taxas alarmantes” em trutas, mesmo depois de quase seis décadas, o que pode representar um perigo significativo para humanos e animais selvagens que comem os peixes, segundo uma pesquisa.

O diclorodifeniltricloroetano, conhecido como DDT, foi usado em terras florestais em New Brunswick, Canadá , de 1952 a 1968. Os pesquisadores descobriram que vestígios dele permaneceram em trutas de riacho em alguns lagos, frequentemente em níveis 10 vezes mais altos do que o limite de segurança recomendado para a vida selvagem.

Josh Kurek, professor associado de mudanças ambientais e biomonitoramento aquático na Universidade Mount Allison, no Canadá, e principal autor da pesquisa, disse que o DDT era um provável agente cancerígeno que não era usado há décadas no Canadá, “mas é abundante em peixes e lama de lagos em grande parte da província, em níveis assustadoramente altos”.

A pesquisa, publicada no periódico Plos One , descobriu que a poluição por DDT cobre cerca de 50% da província de New Brunswick. A truta de riacho é o peixe selvagem mais comum capturado na região, e a pesquisa constatou que o DDT estava presente em seu tecido muscular, em alguns casos 10 vezes acima do recomendado pelas diretrizes canadenses para a vida selvagem.

Os pesquisadores disseram que o DDT, que é classificado pelas autoridades de saúde como um “provável agente cancerígeno”, pode persistir na lama do lago por décadas após o tratamento e que muitos lagos em New Brunswick retêm níveis tão altos de DDT legado que os sedimentos são uma fonte importante de poluição na cadeia alimentar.

“O público, especialmente as populações vulneráveis ​​a contaminantes, como mulheres em idade reprodutiva e crianças, precisa estar ciente do risco de exposição ao DDT legado por meio do consumo de peixes selvagens”, disse Kurek.

Ao longo das décadas de 1950 e 1960, metade das florestas de coníferas da província foram pulverizadas com DDT, um inseticida sintético usado para controlar insetos transmissores de doenças como malária e tifo. O Canadá proibiu o uso da substância na década de 1980.

A convenção de Estocolmo de 2001 sobre poluentes orgânicos persistentes proibiu o DDT em todo o mundo para uso agrícola em massa, embora ele ainda seja permitido em pequenas quantidades para o controle da malária.

“Essa bagunça não tem solução”, disse Kurek. “O DDT pode persistir na lama dos lagos por décadas ou séculos e depois circular na cadeia alimentar. A melhor abordagem é gerenciar a exposição do público ao DDT legado, incentivando todos a seguir as diretrizes de consumo de peixe e a considerar a redução da exposição.”

Nossas descobertas são um claro alerta para abandonarmos nossa dependência excessiva de produtos químicos sintéticos. Lições precisam ser aprendidas para que não repitamos erros do passado. Esperamos que nosso estudo informe sobre outros contaminantes que aplicamos amplamente hoje, como sal de estrada e herbicidas como o glifosato. Precisamos absolutamente fazer as coisas de forma diferente, ou nossos ecossistemas continuarão a enfrentar uma vida inteira de poluição.


Fonte: The Guardian

Ameaça alimentar: aquecimento global poderá comprometer o consumo de arroz

Aumento da temperatura e dos níveis de carbono aumenta o arsênio no arroz, segundo estudo

[NAIROBI] As mudanças climáticas, combinadas com o aumento dos níveis de dióxido de carbono, podem impactar significativamente os níveis de arsênio no arroz em casca, aumentando potencialmente os riscos à saúde dos consumidores ao longo da vida, de acordo com um novo estudo.

A exposição prolongada ao arsênio inorgânico pode levar a câncer de pulmão, bexiga e pele, bem como doenças cardíacas e diabetes, de acordo com o estudo publicado no periódico The Lancet Planetary Health.

O arsênio inorgânico é formado quando se combina com elementos que não contêm carbono, como oxigênio ou enxofre. É muito mais tóxico do que compostos orgânicos de arsênio, como os encontrados em frutos do mar.

O estudo da Escola Mailman de Saúde Pública da Universidade de Columbia, em Nova York, e da Academia Chinesa de Ciências mostra que temperaturas mais altas que dois graus, somadas ao aumento dos níveis de dióxido de carbono, levam a maiores concentrações de arsênio inorgânico no arroz.

Como o arroz é um alimento básico em muitas partes do mundo, essas mudanças podem levar a um aumento substancial na carga global de câncer, doenças cardiovasculares e outros problemas de saúde relacionados ao arsênio, especialmente para populações na Ásia, até 2050, de acordo com os pesquisadores.

“A ingestão de arroz em regiões como o sul da China e o sudeste e sul da Ásia já é uma fonte significativa de arsênio alimentar e risco de câncer”, disse Lewis Ziska, professor associado de ciências da saúde ambiental na Escola de Saúde Pública Mailman e pesquisador principal do estudo.

Ziska explicou que os níveis mais altos de arsênio provavelmente se devem a mudanças climáticas na química do solo, que fazem com que ele seja mais facilmente absorvido pelos grãos de arroz.

Especialistas em clima preveem um aumento de 2,7 graus na temperatura global acima dos níveis pré-industriais até 2100, se as políticas atuais permanecerem inalteradas. Esse valor é significativamente superior ao limite de 1,5 grau estabelecido no Acordo de Paris, o que ajudaria a mitigar os piores impactos das mudanças climáticas.

De acordo com a Organização Meteorológica Mundial, o dióxido de carbono na atmosfera atingiu níveis recordes de 420 partes por milhão em 2023 – 1,5 vezes os níveis pré-industriais e o mais alto em 800.000 anos.

Em seu estudo, os pesquisadores mediram os efeitos do aumento da temperatura e do dióxido de carbono em 28 variedades de arroz ao longo de dez anos em campo. Eles utilizaram um método chamado Enriquecimento de CO2 em Ar Livre, que envolve a elevação dos níveis de CO2 em uma área específica, e técnicas avançadas de modelagem.

Isso os ajudou a estimar as doses de arsênio inorgânico e os riscos à saúde, incluindo câncer, em sete países asiáticos: Bangladesh, China, Índia, Indonésia, Mianmar, Filipinas e Vietnã.

Um fazendeiro caminhando por um campo de arroz.

Um agricultor caminhando por um campo de arroz. Pesquisadores alertam que o aumento de arsênio no arroz pode levar a um aumento na incidência global de câncer. Foto: chiến nguyễn bá , do Pixabay.

As estimativas nacionais de disponibilidade de arroz em 2021, conforme relatadas pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), foram utilizadas como ponto de partida para estimar a ingestão de arroz. O desvio padrão da ingestão de arroz por quilo de peso corporal, a partir dos dados da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), foi utilizado para criar uma distribuição normal para cada país.

“Descobrimos que aumentos simultâneos de temperatura e CO2 podem agir sinergicamente para aumentar o arsênio inorgânico em diversas linhagens de arroz cultivadas no Sudeste Asiático e que esse aumento alterará as consequências para a saúde… das populações consumidoras de arroz”, disse Ziska ao SciDev.Net.

Ele observou que, até agora, os efeitos combinados do aumento do dióxido de carbono e das temperaturas sobre o acúmulo de arsênio no arroz não foram estudados em detalhes.

“Sabíamos que o arroz em casca também pode absorver arsênio inorgânico. As instalações na China foram uma oportunidade única de analisar tanto o CO2 quanto a temperatura em condições de campo”, disse ele ao SciDev.Net.

Limitando os danos

Os pesquisadores sugerem diversas ações que podem ajudar a reduzir a exposição ao arsênio no futuro.

“Isso inclui esforços no melhoramento de plantas para minimizar a absorção de arsênio, melhor manejo do solo em arrozais e melhores práticas de processamento”, disse Ziska.

“Juntamente com iniciativas de saúde pública focadas na educação do consumidor e no monitoramento da exposição, [estas] poderiam desempenhar um papel fundamental na mitigação dos impactos da mudança climática na saúde no consumo de arroz.”

Geoffrey Onaga, cientista associado de pesquisa do Centro de Pesquisa da África na Costa do Marfim, que não esteve envolvido no estudo, diz que a ligação entre o arsênio no arroz e as mudanças climáticas é crível.

Ele observou que diversas abordagens podem ser empregadas para reduzir os níveis de arsênio nos grãos de arroz, incluindo estratégias durante o cozimento do arroz.

“Pesquisas mostram que a proporção de grãos de arroz usados ​​para cozinhar, o volume de água empregado para lavar, os tipos de recipientes de cozimento e a duração do processo de cozimento podem reduzir os níveis de arsênio no arroz cozido”, disse ele.

Onaga diz que adicionar elementos nutricionais minerais como silício, fósforo e ferro ao cultivar arroz pode reduzir significativamente o acúmulo de arsênio no grão, minimizando sua absorção nas plantações.

“O fósforo e o silício exibem características complementares ao arsênio em sua competição pela absorção”, disse ele ao SciDev.Net .

“Consequentemente, a aplicação externa desses nutrientes minerais reduz a probabilidade de absorção de arsênio do solo.”

Jauhar Ali, cientista principal do Instituto Internacional de Pesquisa do Arroz, diz que os pesquisadores estão desenvolvendo variedades de arroz com melhor tolerância ao arsênio.

“Aprimoramos linhagens de melhoramento que reduziram o arsênio nos grãos de arroz. [No entanto,] o melhoramento de novas linhagens de arroz seguras para o arsênio e sua integração exigem financiamento”, disse Ali.


Fonte: SciDev

Climatologista Friederike Otto: ‘Quanto mais desigual for a sociedade, mais grave será o desastre climático’

A cientista alemã em seu novo livro argumenta que a desigualdade, a riqueza e o sexismo estão piorando a crise climática – e o que precisamos fazer a respeito

Retrato de Friederike Otto entre juncos

Friederike Otto: a ascensão das teorias da conspiração é “resultado do sucesso da ciência”. Fotografia: Sarah Lee/The Guardian 

The Observer/ Crise Climática

Friederike Otto é professora sênior de ciências climáticas no Imperial College London. Ela também é cofundadora da iniciativa World Weather Attribution , que busca determinar a influência do aquecimento global na intensidade e na probabilidade de um evento climático extremo. O projeto também examina como fatores como arquitetura inadequada e pobreza agravam ondas de calor, furacões, inundações e incêndios florestais. Este é o tema de seu segundo livro, “ Injustiça Climática : Por que Precisamos Combater a Desigualdade Global para Combater as Mudanças Climáticas” .

A tese do seu livro é que a crise climática é um sintoma de desigualdade e injustiça globais . Isso será bastante confuso para algumas pessoas, que pensam que o aquecimento global é causado pela quantidade de carbono que estamos colocando na atmosfera . 

Sim, claro, se você se ater apenas à física, então o aquecimento é causado pela quantidade de carbono na atmosfera, mas a quantidade de carbono na atmosfera é causada pela queima de combustíveis fósseis. E também é o caso de que aqueles que se beneficiam da queima de combustíveis fósseis são as poucas pessoas já ricas que têm participações ou são donas das próprias empresas. A grande maioria das pessoas não se beneficia. O sonho americano é a mobilidade social, não a queima de combustíveis fósseis.

Você argumenta que racismo, colonialismo e sexismo são a base do aquecimento global. Lidar com essas questões parece mais desafiador do que uma solução técnica para a crise climática.
Claro que é mais desafiador do que simplesmente inventar alguma coisa. Mas temos energia solar e outras fontes renováveis ​​de energia, e isso não resolve o problema. O problema só será resolvido se abordarmos as causas subjacentes. Eu argumento que essas são as desigualdades em nossa sociedade.

Alguns diriam que esse tipo de declaração é política e que os cientistas deveriam se ater à ciência.
A ideia de escrever este livro surgiu por meio do meu trabalho porque, sempre que fazemos um estudo, analisamos o papel das mudanças climáticas no evento climático que, em última análise, levou aos desastres. Mas também analisamos o que mais está acontecendo, quem foi afetado e por que foi afetado. Eu diria que, em todos os casos, o que transforma o clima em um desastre não é a quantidade de chuva, mas a vulnerabilidade das pessoas e o seu preparo. Portanto, dependendo do tipo de evento climático que estamos observando e de onde estamos no mundo, sempre descobrimos que quanto mais desigual for a sociedade, seja uma cidade dos EUA ou um estado da África Ocidental, mais graves serão as consequências.

Um homem carregando uma jarra de água durante a onda de calor de 2021 em Portland, Oregon.

Um homem carregando uma jarra de água durante a onda de calor de 2021 em Portland, Oregon. Fotografia: Bloomberg/Getty Images

A relação entre a extração de combustíveis fósseis, o colonialismo e o racismo parece clara, mas você consegue explicar como o sexismo se intersecta com o aquecimento global?
Em todos os estudos que realizamos, descobrimos que quanto mais patriarcais as estruturas de uma sociedade, piores são as consequências das mudanças climáticas. Se as mulheres forem excluídas da tomada de decisões e não tiverem acesso a financiamento, muito mais pessoas morrerão e perderão seus meios de subsistência em condições climáticas extremas.

Por que você acha o termo desastre natural enganoso?
Existem perigos naturais, embora, devido às mudanças climáticas, eles também estejam se tornando bastante antinaturais em alguns casos. Mas se isso se transforma em um desastre tem muito pouco a ver com a natureza e muito a ver com a vulnerabilidade social.

O processo da COP [Cúpula do Clima da ONU] é adequado? Parece ser mais sobre manter o status quo .
Definitivamente, não é adequado porque não está alcançando o que precisamos: mudanças mais rápidas e mudanças que realmente beneficiem a maioria das pessoas e não apenas algumas poucas. Mas não é culpa do processo da COP. Na verdade, ele já alcançou bastante, porque se não tivéssemos tido essa conversa, estaríamos a caminho de um mundo quatro ou cinco graus [mais quente]. Agora estamos a caminho de um mundo três graus, que ainda é um mundo em que absolutamente não queremos viver. Mas é graças ao processo da COP que falamos sobre mudanças climáticas em nível global internacional. O Acordo de Paris afirma que nos importamos com as mudanças climáticas porque elas violam os direitos humanos e queremos fazer algo a respeito. Essa é uma grande conquista. O que temos que fazer agora não é dizer: “Ah, é tudo uma merda, vamos abandonar tudo”. Mas como podemos fortalecer essas instituições, porque elas podem nos servir bem e precisamos delas?

Os indivíduos também têm responsabilidade? Políticos, empresários , até mesmo cientistas?
O processo – como nas instituições, na Polícia, na justiça internacional etc. – é ótimo, mas só pode funcionar se todos os indivíduos o apoiarem. No momento em que vemos que muitos tentam desmantelá-las, todos nós temos o dever de lutar por elas, formuladores de políticas, cientistas etc. Sem essas instituições, não haverá prosperidade.

Você escreve sobre a onda de calor do noroeste do Pacífico em 2021 , que causou mais de 1.000 mortes e teve um enorme impacto econômico. Preocupa-o que eventos trágicos como este não pareçam ser sinais de alerta?
Precisamos de sinais de alerta, mas precisamos de mais do que isso. Sem ter uma ideia do que fazer, eles não serão suficientes. Mas aprendemos algumas coisas com esses eventos. Por exemplo, a maior diferença em cada evento extremo para o número de mortos é se há sistemas de alerta precoce funcionando ou não. Vimos isso com o furacão Helene : na Flórida, as pessoas estão acostumadas a furacões e sabem que, se houver uma previsão que diga para evacuar, é preciso evacuar. Mas um pouco mais ao norte, nos Apalaches, [onde] as pessoas estão menos acostumadas, elas não o fizeram. Além disso, houve muita desinformação e a FEMA [Agência Federal de Gestão de Emergências] foi atacada por tentar ajudar as pessoas. Portanto, o número de mortos foi muito maior.

Um homem inspeciona os danos à sua casa depois que o furacão Helene atingiu Horseshoe Beach, Flórida, em 28 de setembro de 2024.

Danos na Flórida causados ​​pelo furacão Helene. Fotografia: Chandan Khanna/AFP/Getty Images

Uma congressista republicana sugeriu que o governo dos EUA criou o furacão.
O fato de você poder dizer isso e provavelmente metade das pessoas que a ouviriam pensaria: “É, por que não?”. Essa é uma questão importante. Não sei como resolver o problema de “os fatos não importam mais”.

Chamar essas pessoas de negacionistas da crise climática parece inadequado.
Quanto mais inacreditável a mentira, melhor ela se sustenta. Temos tantas linhas de evidência e tantos dados, e todos mostram a mesma coisa. Questionando os dados, não se pode criar argumentos de que as mudanças climáticas não estão acontecendo. Então, acho que a abordagem sem fatos é, na verdade, resultado do sucesso da ciência.

Você descreveu a onda de calor no noroeste do Pacífico como sendo “matematicamente impossível”; que era tão rara que só poderia ocorrer uma vez a cada 100.000 anos.

Sim, se você não levar em conta a ciência climática. Quando você leva em conta o aquecimento global, a probabilidade de ocorrência passa de estar fora de tudo o que se esperaria de uma avaliação estatística normal para 1 em 100 ou 200.

E essas probabilidades estão diminuindo?
Sim, muito. Então, em um mundo com temperaturas de dois graus Celsius, seria de se esperar que isso acontecesse uma vez a cada cinco anos, mais ou menos.

No início deste mês, um membro do conselho da seguradora global Allianz SE observou que estamos a caminho de um aumento de 2,2°C e 3,4°C acima dos níveis pré-industriais. Ele afirmou que um aumento de 3°C tornaria muitas regiões impossíveis de seguridade e tornaria os investimentos muito incertos – em última análise, o capitalismo deixaria de ser viável .  Isso lhe parece verdadeiro?

É interessante ouvir isso nesses termos de uma seguradora. O capitalismo como o conhecemos hoje seria inviável. Estamos a caminho de destruí-lo por acidente.


Fonte: The Guardian

Pensamento em 2026, Lula não tem nada de aprendiz de feiticeiro, e está mais para Santo Antonio

Por Douglas Barreto da Mata

Na última segunda-feira o Presidente Lula esteve na cidade de Campos dos Goytacazes, para inauguração do prédio do campus da UFF local. Vejam bem, a obra é importante, houve um longo tempo de espera, um esforço parlamentar supra partidário para consecução das emendas, enfim, era algo importante.

Mas uma visita presidencial de Lula não é algo comum, mesmo com todo o peso da Educação universitária no governo Lula, ainda mais em Campos dos Goytacazes, reduto ultra conservador, e local onde as hostilidades seriam de se esperar, e isso se comprovou no aparato de segurança bem mais restritivo que os de outrora. O PT local é de uma fraqueza de dar dó, e não motivaria nem a visita de um secretário adjunto federal de uma pasta menor, de baixo orçamento, como direitos humanos ou outra coisa do tipo.

Então, o que trouxe Lula aqui? Olha, muita gente ficou surpresa, ou fingiu estar surpresa, com os salamaleques presidenciais ao Prefeito Wladimir Garotinho, e tentou até dar uma carona ao deputado Caio Vianna, como se fosse o sussurro dele no cangote presidencial que aumentasse as chances de Lula propor o nome do prefeito local para compor a chapa de Paes, na corrida de 2026, ao palácio Guanabara.

Isso é tolice, ou um desrespeito ao Presidente. Um político como Lula, o único brasileiro a se eleger por três mandatos a presidente, rumo a um quarto, não se emprenha pelos ouvidos, pelo menos, não tão rápido. Com todo respeito ao deputado Caio e seus eleitores, Lula já veio com “a missa pronta”. O Presidente sabia que a audiência poderia hostilizar o Prefeito, e reagiu como de costume, chamando os imbecis da militância às falas, assim como sabe da relação de profundo apreço do prefeito com seus pais, apesar dos ruídos. Assim, o gesto do pedido do número do telefone não foi um improviso, é coisa pensada, calculada e combinada com Paes, que sugeriu ao Presidente a tarefa de seduzir Wladimir.

Lula pode até nem fazer um bom governo, na minha opinião, faz um péssimo governo, mas uma coisa que Lula sabe fazer é montar palanque nacional e regionais. Todos os especialistas e pitaqueiros sabem que sem essa “ciência”, nada feito. Ganhar um estado ali, embolar uma disputa acolá, morder um naco de votos do adversário aqui, e assim se monta uma campanha vitoriosa. Ainda mais quando a vitória se decide em pouquíssimos pontos percentuais de diferença.

Lula sabe da dificuldade que Paes pode enfrentar por estar ligado a ele em um estado que faz o Alabama, ou o Mississipi dos EUA parecerem Nova York. Melhor dizendo, o Rio de Janeiro parece muito com a Louisiana, um estado que esconde seu racismo violento, seu conservadorismo bélico sulista na festa do Mardi Gras, em New Orleans. O antídoto de Lula para colocar una estaca no peito do bolsonarismo fluminense? Um vice para Paes do interior, com família tradicional na política, e mais, saído do ninho bolsonarista, mas que se consolidou na política como um homem de diálogo, de centro.

Agora resta saber se não vão fazer uma proposta melhor para Wladimir do outro lado. Uma coisa é certa, imaginar que ele seria vice de Rodrigo Bacelar não é só burrice estratégica, porque os dois disputam a mesma faixa eleitoral, o interior, mas uma loucura, pois Wladimir sabe que caminhar com Rodrigo é abraçar-se com ele no afogamento. O único risco que Lula e Paes correm com Wladimir, e eles sabem disso, daí o cortejo recente tão explícito, é Wladimir resolver testar seu nome para governador.

As pesquisas internas apontam duas coisas: Uma boa base de intenções para lançamento, algo entre 8 e 10%, para quem nunca se manifestou como pretendente, e o recall do nome da família, que ele soube isolar da rejeição ao seu pai, com seu temperamento e modo de agir diferentes. Em resumo, reuniu o bônus e descartou o ônus. Preocupados com isso, é bem possível que o telefonema do Presidente já tenha acontecido.

Em 13 anos, desastres naturais tiram mais de 49 mil anos de vida no RJ

Desastre em Petrópolis no ano de 2022 visto em sobrevoo de helicóptero

Entre 2010 e 2022, o estado do Rio de Janeiro registrou 752 desastres naturais — como chuvas intensas, deslizamentos, enchentes e alagamentos — que resultaram em 1.523 mortes e mais de 49 mil anos de vida perdidos. Os dados são de um estudo da Universidade Federal Fluminense, publicado nesta sexta (18) na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde, vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS). Os autores destacam que os impactos foram especialmente severos para mulheres e moradores de cinco municípios: Nova Friburgo, Petrópolis, Teresópolis, Niterói e Rio de Janeiro.

O cálculo de “anos de vida perdidos” — uma métrica de saúde pública que estima o tempo de vida interrompido por mortes precoces — chegou a 49.031,76 anos. Mais da metade desse total (54,2%) corresponde a vítimas do sexo feminino, que também foram maioria entre os óbitos (50,1%). As mulheres, segundo os autores, estão entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos dos desastres, por fatores como menor renda, alto número de dependentes e menor acesso a infraestrutura básica.

A pesquisa combinou dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres da Defesa Civil com os registros do Sistema de Informações Hospitalares do SUS. Foram considerados eventos naturais extremos classificados como movimentos de massa, inundações, alagamentos e chuvas intensas. Os autores identificaram que apenas cinco dos 92 municípios fluminenses concentraram 79,3% das mortes, revelando áreas prioritárias para ações de prevenção e resposta.

Além das perdas humanas, os desastres causaram prejuízos materiais estimados em R$ 12 bilhões. A maior parte ocorreu em unidades habitacionais (R$ 7,7 bilhões) e em obras de infraestrutura urbana (R$ 4 bilhões), afetando diretamente o cotidiano da população e a prestação de serviços essenciais como saúde e educação.

A faixa etária mais atingida foi a de 15 a 59 anos — economicamente ativa —, o que amplia o impacto socioeconômico das perdas. Os autores alertam que a perda de anos de vida representa também perda de produtividade e renda para o país. “Mesmo utilizando dados do SUS, que podem não conter a totalidade dos óbitos atribuíveis aos eventos, os resultados foram elevados”, afirma a pesquisadora Roberta Fernanda da Paz de Souza Paiva, uma das autoras do estudo.

Segundo Paiva, a identificação de áreas e grupos mais vulneráveis é fundamental para a formulação de políticas públicas mais eficazes. “A população vem sentindo impactos de diversas dimensões, reduzindo seu bem-estar, e principalmente desses grupos”, conclui. 


Fonte: Agência Bori