Vivendo em tempos de “tempo raivoso”: uma saída pela esquerda, por favor

Já mencionei aqui neste espaço o interessantíssimo livro da filósofa e física alemã  Friederike Otto que se apresenta sob o título de “Angry Weather” (ou em portuguê “Tempo Raivoso”) onde somos apresentados à situação que está sendo escrita em letras garrafais pelo sistema climático da Terra.  Para quem vive no estado do Rio de Janeiro como eu, esse “tempo raivoso” está se apresentando sob a forma de temperaturas altíssimas e uma chegada igualmente fenomenal de raios ultra-violeta na parte inferior da atmosfera da Terra. 

Para muitos que estudam ou pelo menos se interessam pela situação climática da Terra, vivemos o que se pode chamar por vários nomes (crise climática, colapso climático) e nenhum deles soa legal.  E nem poderia porque a situação é realmente preocupante, pois como eu gosto de dizer, a temperatura alta é só um sinal de algo muito maior e mais amplo que está ocorrendo no nosso sistema climático, muito em função da continua emissão de gases estufa que resulta primariamente da queima de combustíveis fósseis.

Mas até aqui, diria algo com a minha idade, morreu o Neves. O problema me parece ser o que deve ser feito para que haja o início do necessário processo de adaptação a uma condição climática que não será revertida de um dia para outro, até porque quem está na raiz do problema acha que em vez de tirar o pé do acelerador, temos mais é que pisar fundo no pedal.

Em minha modesta opinião é preciso, e já disse isso antes, incorporar a questão climática na pauta da esquerda, até porque Karl Marx já deixou elementos suficientes em seus trabalhos para que nós pudéssemos enfrentar o que ele via como uma consequência inoxerável do sistema capitalista. Sim, quem der uma leve olhadela em livros de leitores minimamente esclarecidos de Marx (cito aqui para começo de conversa John Bellamy Foster, Kohei Saito e Michel Lowy), vai notar que o filósofo alemão já antecipava o que a volúpia perdulária e irresponsável do Capitalismo e dos capitalistas poderia gerar nos sistemas naturais da Terra. E agora, o que estamos vendo e vivenciando é apenas mais um dos muitos acertos analíticos de Marx.

Solving the climate crisis requires the end of capitalism | Salon.com

Luta climática = luta de classes diz o cartaz

Mas para que a questão climática seja uma pauta de esquerda há que se considerá-la como uma questão de classe, e não qualquer outra coisa que seja. É que se olharmos hoje para quem está carregando o ônus das altas temperaturas são os trabalhadores que são relegados a viver em áreas desprovidas das mínimas condições de serem habitadas, muitas vezes em áreas que deveriam estar condenadas para a ocupação humana. E não é preciso ir longe para verificar o que estou dizendo, baastante percorrer as áreas mais inóspitas das regiões metropolitanas de Rio de Janeiro e São Paulo, apenas para citar as maiores.

Os ultrarricos e ricos não terão que experimentar a crise climático e o colapso social que ela cria, pois estarão protegidos em seus palácios climatizados e que foram construídos dentro de vilas muradas que eles escolheram construir em regiões privilegiadas das cidades. Foram construídos ali porque eles sabem o que estão fazendo com os trabalhadores e os pobres em geral.

Para além da retórica é preciso reconhecer que ao colocar a crise climática como pauta de esquerda exige romper com a lógica do mal menor na política partidária, pois, do contrário, iremos continuar prisioneiros da premissa falaciosa que é preciso continuar explorando reservas de combustíveis fósseis para que tenhamos algum tipo de futuro menos indigno para a maioria da população mundial.  É só olhar a armadilha que nos está sendo posta pela pressão em torno da exploração do petróleo  na foz do Rio Amazonas (oportunisticamente rebatizada como “Margem Equatorial”).

A crise climática torna obsoleta a lógica do mal menor, mas o problema é que a extrema-direita é quem já entendeu isso e está com as mãos no volante da luta de classes.  A saída para a esquerda (e não a “exquerda”) é aceitar que precisamos radicalizar as formas de diálogo com a classe trabalhadora, em vez de ficarmos acocorados enquanto somos aplastados pelas forças que criaram a situação crítica em que estamos postos, seja social ou ambientalmente.  Mas vamos para isso, vamos ter que sair do conforto do ar condicionado e encarar o mesmo sol e as mesmas temperaturas que castigam os trabalhadores neste exato momento.

O Cripto Gate de Javier Milei: presidente argentino se enrola em caso da criptomoeda $Libra que ele promoveu e depois sumiu com fortunas de investidores argentinos

Um caso de corrupção abala a Argentina neste momento envolvendo a criptomoeda $Libra que depois de captar milhões de argentinos incautos, simplesmente colapsou, causando perdas totais aos crédulos investidores argentinos que caíram na conversa do presidente anarcocapitalista Javier Milei.

Depois de ver a casa arrombada,  Javier Milei anunciou que determinou que a Agência Anticorrupção, investigue as circunstâncias da emissão e queda da criptomoeda $Libra, uma unidade especial com poderes vinculados a criptoativos e lavagem de dinheiro será criada para se juntar à investigação, disse a Agência presidencial.

A investigação determinada por Milei deverá verificar “se houve conduta imprópria por parte de qualquer membro do Governo Nacional, incluindo o próprio presidente”.  “Todas as informações coletadas serão entregues aos tribunais”,  teria dito o estridente presidente argentino.

Mas a porca torce o rabo quando se olha como o imbróglio foi iniciado. Em 14 de fevereiro, Javier Milei promoveu a criptomoeda chamada $Libra em sua conta X, o que gerou movimentações de milhões de dólares em pouco tempo, para depois entrar rapidamente em colapso.

O gabinete presidencial nega o envolvimento do presidente, enquanto o post em que ele promovia a moeda mencionada foi excluído do X. Mas nem essa rápida retirada deverá aliviar a situação de Javier Milei que pode se enrolar em sua própria ânsia de se promover nas redes sociais.

MST e a luta pela reforma agrária: um espectro ronda o latifúndio no Norte Fluminense

Ocupação nas terras da falida Usina Sapucaia serviu para mostrar que o espectro da reforma agrária ronda o Norte Fluminense 

No Manifesto Comunista, Karl Marx e Friedrich Engels colocaram uma frase que até hoje assombra a burguesia mundial: um espectro ronda a Europa, o espectro do Comunismo. Passados pouco menos de 200 anos desde a publicação do “Manifesto”, eu me sinto tentando a adaptar essa frase ao contexto do Norte Fluminense (e especificamente de Campos dos Goytacazes) para algo que poderia seguir as linhas do “um espectro ronda o latifúndio, o espectro do MST e da luta pela reforma agrária”.

A segurança em torno dessa adaptação se dá com base da aliança (nada santa) que foi formada para forçar a retirada de 400 famílias que ocupavam pacificamente a Fazenda Santa Luzia pertencente à massa falida da antiga Usina Sapucaia para exigir o uso de suas terras para a criação de mais um assentamento de reforma agrária.

Motivos para o governo federal fazer cumprir o Artigo 186 da Constituição Federal não faltam, a começar pela dívida milionária que a Sapucaia possui com a União e com os seus trabalhadores. Afinal, se existem pessoas querendo usar as terras produtivamente e existe débito milionária com a União, qual seria o problema de usar as terras da Santa Luzia para fazer cumprir o que está determinado na Constituição Federal?

Eu diria que o maior problema seria o exemplo. É que as usinas falidas em Campos dos Goytacazes possuem um estoque de terras que só não é maior do que o estoque de dívidas com o Estado brasileiro e com seus trabalhadores. Assim, o medo que deve assombrar o sono dos latifundiários é que mais trabalhadores sem terra queiram voltar para a terra para trabalhar com o simples uso de um dispositivo constitucional que só não é usado porque os latifundiários continuam a ter um controle exagerado sobre a política brasileiro, a começar pelo número de assentos na Câmara de Deputados e no Senado Federal.

O fato é que a alta concentração da propriedade da terra está na raiz de todas as injustiças sociais existentes no Brasil. No caso do município de Campos dos Goytacazes, a existência de uma fortíssima concentração da terra anda de braços dados com a injustiça econômica que põe mais da metade das famílias indignas de existência, com a perpetuação da indigência financeira para quase metade da população.  Assim, enquanto alguns poucos conseguem viver tranquilamente, a maioria é constrangida a existir em condições indignas na completa miséria.

Por isso, a organização social promovida pelo MST em prol da reforma agrária assombra, ao mesmo tempo em que mobiliza reações rápidas e raivosas. Por razões que eu desconheço, o MST retar seus planos de transformar o Norte Fluminense em outro “Pontal do Paranapanema” como se pensava no final dos anos de 1990. Mas aparentemente, o MST está de volta e disposto a cobrar a realização do que está disposto na Constituição Federal.  Se isso se confirmar, eu diria que estamos diante de um cenário interessante e que pode mobilizar grandes contingentes de brasileiros que hoje vivem em áreas esquecidas pelo Estado brasileiro nos diferentes municípios do Norte Fluminense, começando por Campos dos Goytacazes.

E não custa lembrar que no último dia 26 de janeiro se completaram 12 anos desde o assassinato do líder sem terra Cícero Guedes e que até hoje permanece sem que seus mandantes e executores tenham sido punidos pela justiça. De certa forma, é revigorante ver que a memória de Cícero continua impulsionando outros brasileiros a enfrentarem o medo e a repressão em nome da construção de um amplo processo de reforma agrária.

Crise climática está na raiz dos picos nos preços dos alimentos, e a situação deve piorar em 2025

A tendência para eventos climáticos mais extremos continuará a afetar a produtividade das colheitas e a criar picos de preços, diz Inverto

Chocolate sendo adicionado a xícaras de café. Os preços do cacau e do café subiram 163% e 103%, respectivamente, no ano até janeiro. Fotografia: Luca Bruno/AP 

Por Damien Gayle para  o “The Guardian”

Eventos climáticos extremos devem causar volatilidade nos preços dos alimentos ao longo de 2025, disseram analistas da cadeia de suprimentos, depois que os preços do cacau e do café mais que dobraram no ano passado.

Em uma aparente confirmação dos alertas de que o colapso climático poderia levar à escassez de alimentos, uma pesquisa da consultoria Inverto encontrou aumentos acentuados nos preços de uma série de produtos alimentícios no ano até janeiro, que estavam correlacionados com condições climáticas inesperadas.

Várias autoridades declararam 2024 o ano mais quente já registrado , uma tendência para temperaturas mais altas que parece continuar em 2025. Inverto disse que uma tendência de longo prazo para eventos climáticos mais extremos continuaria a atingir os rendimentos das safras regionais, causando picos de preços.

Os maiores aumentos de preços foram para cacau e café, 163% e 103% respectivamente, devido a uma combinação de chuvas e temperaturas acima da média nas regiões produtoras, de acordo com a pesquisa.

Os preços do óleo de girassol aumentaram 56% depois que a seca causou baixa produtividade das colheitas na Bulgária e Ucrânia, que também continuaram a ser afetadas pela invasão russa. Outras commodities alimentares com aumentos acentuados de preços ano a ano incluíram suco de laranja e manteiga, ambos com alta de mais de um terço, e carne bovina, com alta de pouco mais de um quarto.

“Os fabricantes e varejistas de alimentos devem diversificar suas cadeias de suprimentos e estratégias de fornecimento para reduzir a dependência excessiva de qualquer região afetada por quebras de safra”, disse Katharina Erfort, da Inverto.

Em dezembro, o governo do Reino Unido disse que a crise climática e a inflação dos preços dos alimentos estavam levando a um aumento no número de famílias famintas e desnutridas .

Cientistas do clima disseram que as descobertas de Inverto estavam de acordo com suas expectativas.

“Eventos climáticos extremos ao redor do mundo continuarão a aumentar em gravidade e frequência em linha com o aumento contínuo da temperatura global”, disse Pete Falloon, especialista em segurança alimentar do Met Office e da Universidade de Bristol.

“As colheitas são frequentemente vulneráveis ​​a condições climáticas extremas, e podemos esperar testemunhar choques contínuos na produção agrícola global e nas cadeias de fornecimento, o que acaba alimentando preocupações com a segurança alimentar.”

Max Kotz, do Instituto Potsdam de Pesquisa de Impacto Climático, disse que os dados mostram que os extremos de calor já estão afetando diretamente os preços dos alimentos.

“O ano passado mostrou inúmeros exemplos desse fenômeno acontecendo em tempo real, com o calor extremo no leste da Ásia causando aumentos substanciais no preço do arroz no Japão e dos vegetais na China”, disse ele.

“As commodities de mercado também foram fortemente afetadas, com calor extremo e seca nos países produtores de cacau da África Ocidental e regiões produtoras de café no Brasil e no Vietnã, impulsionando fortes aumentos nos preços. Até que as emissões de gases de efeito estufa sejam realmente reduzidas a zero líquido, os extremos de calor e seca continuarão a se intensificar em todo o mundo, causando maiores problemas para a agricultura e os preços dos alimentos do que aqueles que estamos enfrentando atualmente.”


FBOMS emite nota pública em defesa do IBAMA que está sob ataque por fazer o seu trabalho na Foz do Amazonas

Nota Pública do Fórum Brasileiro de Organizações e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS) e redes, alianças, movimentos sociais e organizações da sociedade civil signatários

O Fórum Brasileiro de Organizações e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS), redes, alianças, movimentos sociais e organizações da sociedade civil signatários vêm a público manifestar sua preocupação diante das recentes pressões políticas e institucionais que ameaçam a autonomia do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). Como uma rede comprometida com a defesa da justiça socioambiental e do desenvolvimento sustentável, consideramos essencial reafirmar o papel fundamental do IBAMA na regulação, fiscalização e monitoramento ambiental no Brasil.

As tensões institucionais que emergiram nos últimos dias, revelam um preocupante cenário de tentativas de deslegitimação da governança ambiental, especialmente no que se refere às análises técnicas e aos processos regulatórios que orientam as decisões sobre grandes empreendimentos.

A tentativa de acelerar liberações de projetos de alto impacto sem a devida observância dos ritos técnicos e científicos coloca em risco não apenas a integridade dos ecossistemas brasileiros, mas também o respeito aos direitos das populações tradicionais e das comunidades locais diretamente afetadas.

Em um momento crítico da emergência climática global, torna-se ainda mais urgente garantir que a exploração de recursos naturais seja conduzida com base em critérios de precaução, transparência e participação social. A eventual e polêmica exploração de petróleo na Foz do Amazonas ilustra com clareza os riscos ambientais e sociais que estão em jogo: impactos imensuráveis sobre a biodiversidade, comprometimento da fauna e da flora, riscos à qualidade da água e à pesca, além de profundas alterações nas formas de vida e nos modos de subsistência das comunidades indígenas, ribeirinhas e tradicionais que dependem desse bioma.

Os procedimentos adotados pelo IBAMA não podem ser interpretados como entraves
administrativos, mas sim como garantias de que as decisões ambientais sejam tomadas de forma responsável, alinhadas ao conhecimento técnico e científico e ao compromisso constitucional dedefesa do meio ambiente. O licenciamento ambiental, a fiscalização, o monitoramento e o controle do uso sustentável dos recursos naturais são atribuições que devem ser respeitadas e fortalecidas, não deslegitimadas ou instrumentalizadas por interesses políticos de curto prazo.

Diante desse contexto, o FBOMS e signatários reforçam sua defesa da autonomia do IBAMA e do cumprimento irrestrito da legislação ambiental vigente, bem como do direito das populações impactadas de participarem ativamente das decisões que afetam seus territórios.

Exigimos que as tensões institucionais geradas pelas recentes declarações sejam resolvidas com base no respeito à ciência, à governança ambiental democrática e aos compromissos socioambientais assumidos pelo Brasil em âmbito nacional e internacional.

A luta pela justiça ambiental e climática exige que os órgãos de fiscalização atuem com independência e compromisso com o bem comum. O IBAMA deve ser respeitado e fortalecido, e não  enfraquecido, como uma instituição de Estado.

Brasília, 14 de fevereiro de 2025

Fórum Brasileiro de Organizações e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS)

As nações mais ricas estão ‘exportando a extinção’ com sua procura por carne bovina, óleo de palma e madeira

O consumo em países ricos, incluindo EUA e Reino Unido, é responsável por 13% da perda global de florestas além de suas fronteiras, segundo estudo

Um tucano na Costa Rica. A maioria dos habitats de vida selvagem está sendo destruída em países com florestas tropicais, mostra o estudo. Fotografia: Francesco Puntiroli/Alamy 

Por Phoebe Weston para o “The Guardian”

Pesquisas mostram que as nações mais ricas do mundo estão “exportando a extinção” ao destruir 15 vezes mais biodiversidade internacionalmente do que dentro de suas próprias fronteiras.

A maioria dos habitats da vida selvagem está sendo destruída em países com florestas tropicais, de acordo com o estudo que analisou como a demanda dos países ricos por produtos como carne bovina, óleo de palma, madeira e soja está destruindo pontos críticos de biodiversidade em outros lugares.

Descobriu-se que nações de alta renda eram responsáveis ​​por 13% da perda global de habitats florestais fora de suas próprias fronteiras. Os EUA sozinhos eram responsáveis ​​por 3% da destruição de habitats florestais não americanos do mundo.

“Isso apenas ressalta a magnitude do processo”, disse o pesquisador-chefe Alex Wiebe, um estudante de doutorado em ecologia e biologia evolutiva na Universidade de Princeton, nos EUA. Os países que tiveram os impactos mais significativos no exterior incluíram os EUA, Alemanha, França, Japão, China e Reino Unidode acordo com o artigo , publicado na Nature.

Globalmente, a perda de habitats é a maior ameaça para a maioria das espécies e cerca de 90% é causada pela conversão de habitats selvagens em terras agrícolas .

“Ao importar alimentos e madeira, essas nações desenvolvidas estão essencialmente exportando a extinção”, disse o Prof. David Wilcove, coautor do estudo da Universidade de Princeton. “O comércio global espalha os impactos ambientais do consumo humano, neste caso levando as nações mais desenvolvidas a obter seus alimentos de nações mais pobres e com mais biodiversidade nos trópicos, resultando na perda de mais espécies.”

Muito desmatamento ocorre em lugares com altos níveis de biodiversidade, como Indonésia, Brasil ou Madagascar. Pesquisadores dizem que analisar esses padrões pode ajudar a promover uma conservação mais direcionada e uma produção sustentável de alimentos.

Em um estudo separado, uma equipe internacional de pesquisadores liderada pela Universidade de Cambridge descobriu que recuperar terras agrícolas típicas do Reino Unido para a natureza pode ser cinco vezes mais prejudicial para a biodiversidade global. Esse processo de “vazamento de biodiversidade” pode significar que estabelecer novas reservas naturais resulta em um declínio mais acentuado nas espécies do planeta, de acordo com o artigo publicado no periódico Science.

“À medida que nações em regiões temperadas como a Europa conservam mais terras, as deficiências resultantes na produção de alimentos e madeira terão que ser compensadas em algum lugar”, disse o autor principal, Prof Andrew Balmford, da Universidade de Cambridge. Muito disso provavelmente acontecerá em partes menos bem regulamentadas do mundo, como África e América do Sul. 

Um loris lento de Java, uma das espécies de primatas mais ameaçadas do mundo, é solto de volta em uma floresta perto de Pekanbaru, Indonésia. Fotografia: Wahyudi/AFP/Getty Images

“Áreas de muito maior importância para a natureza provavelmente pagarão o preço pelos esforços de conservação em nações ricas, a menos que trabalhemos para consertar esse vazamento”, disse Balmford. Os autores dizem que o vazamento poderia ser reduzido se houvesse menos demanda por commodities de alta pegada, como carne bovina. Os esforços de conservação também devem ter como alvo as áreas de maior biodiversidade, bem como áreas onde o potencial para produção de alimentos ou madeira é limitado. Há também o potencial para os conservacionistas trabalharem com fazendeiros, como criar chocolate favorável à floresta ou práticas de pastoreio que também protegem leopardos-das-neves, de acordo com o artigo.

O estudo da Nature sobre exportação de extinção analisou os impactos de 24 nações de alta renda (que incluíam as maiores economias do mundo) em mais de 7.500 espécies de pássaros, mamíferos e répteis dependentes de florestas. Eles analisaram dados de 2001 a 2015, descobrindo onde as florestas foram destruídas e quais espécies elas abrigavam.

Eles não analisaram os tipos de culturas cultivadas, mas pesquisas anteriores mostram que cerca de 80% das terras agrícolas são usadas para produção de carne e laticínios.

Os países tendem a ter os maiores impactos em espécies de florestas tropicais mais próximas a eles. Os EUA, que causaram a maior quantidade de destruição fora de suas fronteiras, têm o impacto mais significativo na América Central, enquanto a China e o Japão têm um impacto maior nas florestas tropicais do sudeste asiático.

“Ao terceirizar cada vez mais o uso da terra, os países têm a capacidade de afetar espécies ao redor do mundo, ainda mais do que dentro de suas próprias fronteiras”, disse Wiebe. “Isso representa uma grande mudança em como novas ameaças à vida selvagem emergem.”


Fonte: The Guardian

Shell ignora fraudes na limpeza de poluição petróleo no Delta do Níger, mostra reportagem da BBC

Por Simi Jolaoso para a BBC News 

Uma investigação da BBC revelou alegações de que a gigante de energia Shell ignorou repetidos avisos de que uma controversa operação de limpeza de áreas poluídas por petróleo no sul da Nigéria estava cercada de problemas e corrupção.

A multinacional com sede em Londres, juntamente com o governo nigeriano, declarou repetidamente que o trabalho de limpeza de locais contaminados por petróleo em Ogoniland, iniciado há cerca de oito anos, está indo bem.

Mas a BBC descobriu evidências de que eles foram alertados repetidamente ao longo de vários anos de que o esquema, criado pelo governo e financiado por várias empresas petrolíferas no valor de US$ 1 bilhão (£ 805 milhões), vinha sofrendo com uma série de problemas.

Um observador atento descreveu o projeto de limpeza como um “golpe” e uma “fraude” que desperdiçou dinheiro e deixou a população de Ogonliland, que fica no Delta do Níger, continuando a conviver com o impacto devastador da poluição por óleo – 13 anos após um relatório inovador da ONU ter revelado a gravidade da situação.

A subsidiária nigeriana da Shell disse à BBC: “O ambiente operacional no Delta do Níger continua desafiador devido à enorme escala de atividades ilegais, como roubo de petróleo.

“Quando ocorrem vazamentos em nossas instalações, nós limpamos e remediamos, independentemente da causa. Se for um vazamento operacional, também compensamos pessoas e comunidades.”

As alegações ocorrem no momento em que um julgamento civil deve começar na quinta-feira no Tribunal Superior de Londres, onde advogados que representam duas comunidades de Ogoniland, com cerca de 50.000 habitantes, dirão que a Shell deve assumir a responsabilidade pela poluição por óleo que ocorreu entre 1989 e 2020, supostamente causada por sua infraestrutura.

As comunidades dizem que os vazamentos as deixaram sem água limpa, impossibilitadas de cultivar e pescar, além de criar sérios riscos à saúde pública.

A Shell, que vem pressionando para vender seus ativos no país da África Ocidental para se concentrar em perfuração offshore e gás onshore, indicou que defenderá as reivindicações.

A empresa nega irregularidades e afirma que os vazamentos na região foram causados ​​por sabotagem, roubo e refino ilegal, pelos quais a empresa afirma não ser responsável.

A BBC visitou as áreas afetadas no Delta do Níger, onde a Shell, a maior empresa privada de petróleo e gás do país, descobriu a existência de petróleo bruto há 68 anos.

A ONU diz que pelo menos 13 milhões de barris — ou 1,5 milhão de toneladas — de petróleo bruto foram derramados desde 1958 em pelo menos 7.000 incidentes na região do Delta do Níger.

Os vazamentos deixaram muitas famílias preocupadas com sua saúde e meios de subsistência.

Grace Audi, 37, mora com seu parceiro e seu filho de dois anos em Ogale, no estado de Rivers, onde houve pelo menos 40 vazamentos de óleo na infraestrutura da Shell, de acordo com Leigh Day, o escritório de advocacia do Reino Unido que representa as comunidades neste caso.

Sua família e vizinhos só têm acesso a um poço contaminado, o que os obriga a comprar água limpa para beber, cozinhar, lavar e, uma vez por dia, dar descarga, a um custo de 4.500 nairas nigerianas (US$ 3, £ 2,40) – em uma área onde o salário médio diário é inferior a US$ 8.

É uma história familiar para muitos no estado de Rivers, no Delta do Níger.

Paulina Agbekpekpe disse à BBC que uma vegetação luxuriante antigamente cercava os manguezais prósperos de sua comunidade em Bodo – que não é uma das que vão a tribunal na quinta-feira. Ela disse que os rios e lagoas costumavam transbordar com todos os tipos de animais e peixes, particularmente pervinca.

“O lugar era mais verde, não apenas manguezais, mas tudo na orla – havia mamoeiros, palmeiras e mais. Mas durante os vazamentos, a destruição poluiu tudo”, disse a mãe de seis filhos, de 50 anos.

Sua família sobreviveu da pesca por gerações, até um vazamento devastador há 10 anos.

“A maioria das crianças – da água potável – contraiu doenças. Muitas morreram. Perdi oito filhos. Meu marido está doente.

“Como nossos meios de subsistência foram tirados, as pessoas em Bodo estão com fome e sofrendo.”

Em 2011, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) publicou um importante estudo sobre o impacto da poluição na área rica em petróleo.

Descobriu-se que membros de uma comunidade em Ogoniland estavam bebendo água contaminada com um carcinógeno conhecido em níveis mais de 900 vezes acima da diretriz da Organização Mundial da Saúde (OMS). O mesmo produto químico, benzeno, foi detectado em todas as suas amostras de ar.

Também foi descoberto que os locais que a subsidiária nigeriana da Shell, a Shell Petroleum Development Company of Nigeria (SPDC), alegou ter recuperado, ainda estavam poluídos e as técnicas utilizadas não atendiam aos requisitos regulatórios.

O relatório concluiu que uma limpeza abrangente da área levaria de 25 a 30 anos – e levou à formação do Projeto de Remediação da Poluição por Hidrocarbonetos (Hyprep).

Isso foi inicialmente estabelecido pelo governo nigeriano em 2012, mas nenhuma limpeza foi iniciada até ser relançada por um novo governo em dezembro de 2016.

A Hyprep foi parcialmente financiada por empresas petrolíferas, incluindo a estatal Nigerian National Petroleum Company (NNPC) e a Shell, que doou US$ 350 milhões.

Um pescador nigeriano vestindo uma camisa azul-marinho e um colete salva-vidas de espuma laranja surrado está em meio a uma paisagem contaminada por óleo em Ogoniland. Ele levanta a mão para a câmera - mostrando sua mão manchada com óleo presente na água.

Pescadores mostraram à BBC que há petróleo presente nas hidrovias de Ogoniland

No entanto, a BBC viu documentos internos que sugerem que representantes da Shell e do governo nigeriano foram alertados inúmeras vezes sobre as supostas práticas fraudulentas da agência.

Uma pessoa a par do projeto falou à BBC sobre suas preocupações e pediu para permanecer anônima por medo de represálias.

“É de conhecimento geral que o que estamos fazendo é realmente uma farsa. A maior parte é para enganar o povo Ogoni”, disse o denunciante.

“É um golpe perpetuado para que mais dinheiro possa ser colocado no pote e acabar nos bolsos de políticos e outras pessoas no poder.”

As alegações sobre falhas na Hyprep incluem:

  • Contratos adjudicados a empresas que não tinham experiência relevante
  • Resultados laboratoriais falsificados – às vezes rotulando solo e água contaminados como limpos
  • Custos do projeto estão sendo inflacionados
  • Às vezes, auditores externos são impedidos de verificar se a limpeza dos locais foi feita corretamente.

Na ata de uma reunião em 2023, da qual participaram representantes da subsidiária nigeriana da Shell, o PNUMA e a Hyprep, foi apontado que contratantes “incompetentes” estavam “sendo contratados novamente” e que eles “não deveriam ser autorizados a degradar ainda mais o meio ambiente”.

Em um relatório vazado e visto pela BBC no mesmo ano, foi apontado que os resultados laboratoriais eram “regularmente relatados com desvios”.

Em 2022, a ONU escreveu ao Ministério do Meio Ambiente da Nigéria, alertando que, se nada mudasse, os “padrões extremamente baixos” da limpeza continuariam.

A BBC pediu à Hyprep e ao governo nigeriano que comentassem as alegações, mas não recebeu resposta.

Mas nossa investigação revelou evidências de que a Shell estava ciente dos problemas.

Em uma reunião com o alto comissário britânico na Nigéria em janeiro do ano passado, cujas atas foram obtidas sob a Lei de Liberdade de Informação, representantes da Shell reconheceram os “desafios institucionais” da agência de limpeza e a chance de recusa de “financiamento futuro” para ela.

Shell disse à BBC: “A Hyprep é uma agência criada e supervisionada pelo governo federal da Nigéria, com seu conselho administrativo composto em grande parte por ministros e autoridades governamentais, juntamente com cinco representantes de comunidades e ONGs e um único representante do SPDC.”

AFP Barcos de pesca em Ogoniland são vistos sujos de lama oleosa na margem do rio

A ONU alertou em 2011 que levaria até 30 anos para limpar a poluição por petróleo em Ogoniland

Este não é o único projeto de recuperação no Delta do Níger que supostamente fracassou.

Em 2015, a Shell concordou com um acordo de £ 55 milhões para limpeza após dois vazamentos catastróficos em 2008 em sua infraestrutura na área de Bodo.

A empresa disse que a limpeza, conduzida pela Bodo Mediation Initiative (BMI), que visa servir como mediadora entre as empresas petrolíferas, incluindo a Shell, e a comunidade Bodo (e é parcialmente financiada pela gigante petrolífera e reguladores nigerianos), foi certificada como 98% concluída.

No entanto, a BBC visitou locais na área e encontrou petróleo bruto vazando do solo e flutuando nas águas.

A Shell e a BMI insistem que qualquer ocorrência de vazamento de petróleo na região se deve a roubo — conhecido na indústria como “oil bunkering”.

“Há um plano para chamar de volta os contratados para limpar essas áreas conforme as especificações e os padrões”, disse Boniface Dumpe, diretor do BMI, à BBC.

“É responsabilidade de todas as partes interessadas, da Shell, sim, cuidar de suas instalações, para garantir que o reabastecimento de petróleo não venha de suas instalações.

“Mas para as áreas que foram limpas. Eu acho que alguma responsabilidade também cabe à comunidade para garantir que algumas atividades ilegais não causem repoluição.”

A Shell disse que toma medidas ativas para evitar derramamentos de óleo causados ​​por abastecimento de petróleo.

A empresa disse: “Tomamos medidas abrangentes para evitar essa atividade e os vazamentos que ela causa, incluindo vigilância aérea, remoção de conexões ilegais em oleodutos e construção de gaiolas de aço para proteger as cabeças de poço.”

As supostas falhas na limpeza do petróleo ocorrem no momento em que a Shell se prepara para vender sua subsidiária nigeriana, a SPDC, para a Renaissance Africa, um consórcio de empresas locais e internacionais.

Patience Ogboe em pé em um campo de milho verde abrindo uma espiga de milho para mostrar como ela secou e não cresceu corretamente em Ogoniland, Nigéria.

Patience Ogboe diz que plantou esta safra de milho há quatro meses, mas ela não cresceu adequadamente

Alguns moradores locais acusaram a gigante do petróleo de “fugir” da limpeza adequada das terras e águas que ela supostamente poluiu.

Eles também temem que a Shell ainda possa lucrar com a área simplesmente comercializando o petróleo extraído da região no futuro.

“As operações de qualquer operadora de petróleo que assumir os oleodutos relevantes terão um impacto enorme em sua vida cotidiana”, disse Joe Snape, advogado do escritório Leigh Day, à BBC.

“Há pouquíssimos detalhes sobre o resultado desses acordos.

“Não está claro como a Renaissance [Africa] agirá daqui para frente. Pelo menos com a Shell temos meios de responsabilizá-los.”

Produtos minerais, como petróleo e gás, representam 90% das exportações da Nigéria, a maioria das quais vem da região do Delta do Níger.

Os moradores locais, cuja principal fonte de sustento é a agricultura e a pesca, disseram à BBC que, desde a descoberta do petróleo, ou do que alguns chamam de “ouro negro”, suas casas têm sido exploradas em busca de lucro — por grandes empresas petrolíferas, por ladrões de petróleo e por políticos corruptos.

Eles dizem que não viram nenhum benefício, apenas sofrimento – como Patience Ogboe, que culpa os recentes vazamentos de petróleo no estado de Rivers pela quebra de suas safras.

“Antigamente, se eu colhesse, eu podia comer um pouco com minha família e até vender um pouco, mas nos últimos anos eu não conseguia nada. É muito ruim”, disse o homem de 42 anos à BBC.


Fonte: BBC News

Com seu ataque ao Ibama, Lula chancela que a COP30 será (mais uma) COP das petroleiras

O ataque de nervos do presidente Lula em relação à cuidadosa análise técnica que os técnicos do Ibama estão realizando no processo de licenciamento ambiental feito a pedido da Petrobras já garante pelo menos uma coisa sobre a  30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) que deverá ser realizada na cidade de Belém entre os dias 10 e 21 de novembro: esta será mais uma COP que será controlada pelas empresas de petróleo, com a benção direta do presidente do Brasil.

Ao atacar a capacidade técnica dos servidores do Ibama porque estão fazendo o que deveriam estar fazendo e somar a isso um discurso claramente pró-combustíveis fósseis, o presidente Lula faz claramente o jogo das grandes multinacionais que hoje controlam a exploração da camada Pré-Sal. E, pior, usa a Petrobras como uma espécie de espantalho nacionalista que visa pressionar os servidores do Ibama para não fazerem corretamente o seu trabalho.

Além disso, Lula tenta disfarçar seu compromisso com a continuidade da exploração do petróleo, seja onde for, com o discurso de que o óleo e gás que saírem dos eventuais poços instalados na Margem Equatorial irá financiar a transição energética brasileira. Esse é um discurso que não resiste a um exame mínimo de realidade.  A verdade nua e crua é que Lula acredita piamente na continuidade da exploração do petróleo como fonte de geração de crescimento econômico, independente dos danos ambientais e sociais que isso causa.

Assim, aos que já perceberam que beiramos o colapso climático e que vivemos as evidências disso a partir de temperaturas cada vez mais altas, o melhor a fazer é não cair na ideia de que algo de positivo saíra da COP30. O máximo que vai acontecer é a produção de mais documentos protelatórios, enquanto se assista ao circo literalmente pegando fogo.

E o que fazer então? Eu diria é que precisamos concentrar esforços na produção de uma massa crítica que seja capaz de explicar a gravidade do momento a quem mais tem a perder com as mudanças drásticas no clima da Terra.

E Lula no meio disso tudo? Ele certamente fará algum discurso bonito na abertura da COP30, mas que terá o mesmo valor de uma nota de 2 dólares.

Projeto em discussão Comissão Europeia promete regras comerciais rígidas sobre agrotóxicos e carne bovina

As promessas ecoam a retórica crescente do chefe agrícola da UE, Christophe Hansen, e do comissário de Saúde e Bem-Estar Animal, Olivier Várhelyi

Por Maria Simon Arboleas e Sofia Sánchez Manzanaro  para a Euractiv

Um rascunho da visão da Comissão Europia para o setor agroalimentar da União Europeia (UE) adota uma posição dura sobre o comércio de alimentos e promete impor padrões mais rigorosos a países terceiros no que diz respeito a agrotóxicos e ao bem-estar animal.

Em 2025, o executivo da UE quer apresentar um plano ambicioso para fortalecer a reciprocidade nos padrões de produção, de acordo com um rascunho do roteiro para a UE e alimentos, que será revelado em 19 de fevereiro e analisado pela Euractiv.

De acordo com fontes familiarizadas com o assunto, a parte sobre padrões comerciais é a que está levantando mais suspeitas na discussão interna em andamento da Comissão, pois significaria encontrar um novo equilíbrio em um momento em que o executivo da UE está tentando expandir sua rede de parcerias comerciais.

“A Comissão buscará, em consonância com as regras internacionais, um alinhamento mais forte dos padrões de produção aplicados aos produtos importados, principalmente em relação a agrotóxicos e bem-estar animal”, diz o texto.

A Comissão promete garantir que os agrotóxicos mais perigosos proibidos na UE “não sejam permitidos de volta” por meio de importações. Ela também promete impedir que substâncias proibidas sejam produzidas no bloco para exportação para outros lugares.

As promessas ecoam a retórica crescente do chefe da fazenda da UE, Christophe Hansen , e do comissário de Saúde e Bem-Estar Animal, Olivier Várhelyi, que recentemente sinalizaram uma abordagem mais rígida aos padrões de produção para alimentos importados. Os ministros da agricultura da UE se juntaram ao esforço no mês passado, instando o executivo da UE a reprimir as importações que contêm resíduos de agrotóxicos proibidos.

O plano também propõe uma “força-tarefa dedicada” para fortalecer os controles de importação com verificações maiores, uma medida há muito exigida pelo Parlamento Europeu.

Sobre bem-estar animal, a Vision também busca usar uma revisão de regras há muito adiada para garantir que produtos importados atendam aos padrões de pecuária da UE. “A revisão direcionada da legislação de bem-estar animal será uma oportunidade de aplicar isso de forma compatível com a OMC”, diz o texto.

O documento também sugere estender a rotulagem de origem obrigatória a mais produtos agrícolas e pesqueiros.

Para frente e para trás na sustentabilidade

Para dar aos agricultores mais alternativas aos agrotóxicos sintéticos, a Comissão diz que apresentará uma proposta em 2025 “que acelera o acesso aos bioagrotóxicos”, incluindo um procedimento rápido para sua autorização.

Banir produtos químicos também pode se tornar mais difícil. A Comissão irá “considerar cuidadosamente qualquer proibição adicional de agrotóxicos se alternativas não estiverem disponíveis dentro de um prazo razoável e a um custo razoável”, exceto onde a saúde humana ou habitats agrícolas importantes estejam em risco.

O documento reconhece o setor pecuário como “uma parte essencial da agricultura da UE” que mantém altos padrões, mas nem sempre é recompensado pelo mercado. A Comissão lançará um “fluxo de trabalho sobre pecuária” para desenvolver caminhos de políticas que abordem a pegada climática do setor, ao mesmo tempo em que destaca seu papel na manutenção ambiental.

Embora o documento não priorize proteínas vegetais em detrimento de proteínas animais, conforme recomendado pelo Diálogo Estratégico, ele descreve planos para construir “um sistema de proteínas da UE mais autossuficiente e sustentável”.

Comida e preços

Com o poder de barganha dos agricultores na cadeia de fornecimento de alimentos em evidência, o roteiro promete não tolerar práticas “onde os agricultores são sistematicamente forçados a vender abaixo dos custos”.

A Comissão disse que revisaria a Diretiva sobre Práticas Comerciais Desleais (UTPs) para abordar essa questão, uma medida que deve ocorrer após a avaliação das regras em novembro deste ano.

Do lado da oferta, a nova legislação para compras públicas terá como objetivo fornecer incentivos para promover o consumo de “produtos locais e sazonais” e alimentos produzidos com altos padrões ambientais, como os orgânicos.

Angelo Di Mambro contribuiu para a reportagem .

[DE]


Poluição por microplásticos está disseminada de forma ampla na neve do Pólo Sul, mostra estudo

Por Douglas Main para o “The New Lede”

Uma nova pesquisa encontrou níveis significativos de minúsculos microplásticos na neve da Antártida em vários locais da região selvagem mais remota do mundo, descobertas que reforçam as preocupações de que nenhuma parte do planeta está a salvo da poluição plástica.

artigo , publicado este mês na Science of the Total Environment , fornece evidências de que estudos anteriores subestimaram a extensão da contaminação por microplásticos na região.

O primeiro estudo desse tipo sobre o assunto, publicado em 2022 , encontrou uma média de 29 partículas por litro de neve amostrada. O novo estudo, que usou técnicas que permitem maior detecção de materiais minúsculos, descobriu que “os microplásticos eram generalizados” em mais de 3.000 partículas por litro, com uma média de cerca de 800 partículas. Cerca de 95% desses pedaços tinham menos de 50 mícrons, um pouco menores do que a largura média de um fio de cabelo humano.

Os pesquisadores agora sabem que os microplásticos estão essencialmente em todos os lugares — na remota Amazônia, dentro do cérebro humano , nas raízes das plantas, nas nuvens — mas encontrá-los em tais níveis na região selvagem mais remota do mundo ainda foi um choque.

“Foi surpreendente ver concentrações tão altas de microplásticos em áreas com pegada humana limitada”, disse a coautora do estudo Emily Rowlands, pesquisadora do British Antarctic Survey.

As amostras foram retiradas da neve perto de três bases de pesquisa remotas em diferentes partes do continente, conhecidas como Union Glacier, Schanz Glacier e o Polo Sul. Para obter a neve, os pesquisadores cavaram de oito a 16 polegadas abaixo, examinando plástico provavelmente depositado no último ano ou dois.

Poliamida, um tipo de plástico usado em tecidos, cordas, equipamentos para atividades ao ar livre e outros produtos, foi o tipo de plástico mais prevalente encontrado nos dois primeiros locais. Polietileno tereftalato (PET), comumente usado em roupas e embalagens para atividades ao ar livre, foi o polímero mais abundante no Polo Sul.

O polietileno (PE), o plástico mais comumente usado no mundo, frequentemente usado na fabricação de garrafas plásticas, foi o terceiro tipo de plástico mais prevalente detectado.

Esses materiais provavelmente estão chegando à neve de fontes locais, mas também de transporte de longo alcance na atmosfera, disse Sedat Gündoğdu , um pesquisador não envolvido com o artigo I que estuda microplásticos na Universidade Cukurova, na Turquia. As partículas também podem estar vindo de lixo plástico carregado no oceano e, em seguida, fazendo seu caminho na própria neve.

“Isso mostra que qualquer pedaço de terra pode ser contaminado com microplásticos, mesmo sem qualquer atividade humana [nas proximidades]”, disse Gündoğdu.

O tamanho minúsculo dessas partículas é particularmente preocupante, ele acrescentou, já que qualquer coisa menor que 100 mícrons pode entrar nos corpos de muitos organismos, incluindo animais tão diversos quanto krill, pinguins e humanos.

Quando ingeridas, essas partículas podem obstruir a alimentação, limitar o crescimento e prejudicar a saúde e a capacidade de reprodução, disse Rowlands.

Essa poluição equivale a um “fator de estresse adicional em um ecossistema já estressado”, disse Rowlands, provavelmente impactando a capacidade das espécies polares de lidar com as mudanças climáticas e outras pressões relacionadas aos humanos.

O fato de que a atividade humana está deixando uma “pegada considerável de microplásticos na neve da Antártida” fornece ainda mais motivos para agir nessa “emergência global”, disse Gündoğdu. “Devemos limitar a produção de plástico para deixar a Terra menos poluída para as gerações futuras e para a vida selvagem”, ele acrescentou.


Fonte: The New Lede