Sobre as avaliações quadrienais da CAPES

Imagem: Camilla Plener

Por Thiago Canettieri*

1.

Foi publicado o resultado das avaliações quadrienais da CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior. Entre comemorações pelas notas alcançadas e recursos para tentar atingir as notas desejadas, perdem todos.

Nós, acadêmicos, nós, professor universitários, nós, teóricos críticos, nós, que nos mobilizamos no assim chamado “tsunami da educação” (primeira grande mobilização contra o Governo Jair Bolsonaro por conta do ‘contingenciamento’ de recursos para educação), naturalizamos o método quantitativo de avaliação da CAPES – que produz tanto sofrimento entre docentes e, sobretudo, discentes (afinal, são o andar de baixo desta pirâmide de sofrimento).

O modo de produção (acadêmica) CAPEStalista, baseado em criar uma equivalência universal e abstrata entre programas de pós-graduação, periódicos científicos, não difere tanto assim do modo de produção capitalista de mercadorias. Assim, o que o sistema de avaliação da CAPES produz nada mais é do que uma tentativa, fracassada de partida, de quantificar um trabalho que, em sua “natureza”, não é tão prescrito assim.

Paulo Arantes,[i] em uma aula pública durante as mobilizações do “tsunami da educação”, apontou que o problema não era exatamente o Governo Bolsonaro ou o Ministro Abraham Weintraub, mas sim o coração sombrio que legitimava os cortes na educação: o modo de como se concebe o “trabalho do conhecimento”.

O filósofo, pensando junto com Christopher Dejour, lembra que o trabalho de ensinar, orientar, acompanhar, participar, em suma, pensar, não pode, por princípio, ser avaliado. A produtividade do trabalho em uma fábrica de braças de linho ou de casacos pode ser avaliada quantitativamente – ainda que o real deste trabalho, como pensa Christopher Dejours,[ii] não seja capturado por esses métodos de avaliação.

A imposição deste sistema de avaliação – que não é exatamente uma novidade – deve ser lida em conjunto com os sucessivos cortes no chamado “orçamento do conhecimento”. Há mais de dez anos as universidades públicas e as instituições de apoio à pesquisa e à pós-graduação sofrem sucessivos cortes de orçamento.

Segundo o Observatório do Conhecimento,[iii] 2014 foi o primeiro ano em que os recursos empenhados no orçamento do conhecimento foram inferiores aos do ano anterior. Em 2015, o governo de Dilma Rousseff contingenciou 15% do orçamento do MEC. Em 2016, com o famigerado PEC do Teto de Gastos, um estudo conduzido pela Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira (Conof) da Câmara dos Deputados estimou que a PEC poderia causar perda real de até R$ 25,5 bilhões por ano para a educação.

Em 2019, primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro, ocorreu o bloqueio de 20% das verbas do MEC, e o Ministério da Ciência e Tecnologia teve seus recursos contingenciados em 44%. 2021 foi o pior ano para o Orçamento do Conhecimento. Em 2024, primeiro ano de proposta de orçamento do Governo Lula III, o valor empenhado foi inferior ao de 2020. Tanto em 2024 quanto em 2025, o Orçamento do Conhecimento foi inferior à metade do de 2014 e 2015.

2.

O que a avaliação da CAPES permite (e ela já faz isso) é a “alocação eficiente” dos recursos públicos. Por que financiar um programa nota 3 se pode financiar um programa nota 7? Há algo mais neoliberal do que a alocação eficiente de recursos?

Como foi analisado pelo Observatório do Conhecimento,[iv] tem ocorrido um incremento da participação das emendas, individuais e de bancada, para financiar as universidades federais. Por serem recursos incertos e definidos a cada exercício financeiro, seu empenho nas universidades não permite estruturar políticas duradouras. Além disso, como as prioridades dos parlamentares mudam a cada exercício, a aposta neste tipo de instrumento pode resultar na ampliação das desigualdades, pois não distribui recursos de forma equitativa entre instituições e regiões do país. Afinal, o critério para pleitear os recursos continua sendo as notas da CAPES.

O modelo deste financiamento vem das universidades americanas e europeias que dependem de mecenas ou de parcerias com organizações privadas. O resultado é um sufocamento de áreas com ritmos de publicação e de inovação reduzidos, além de uma tendência ao reforço do lugar de destaque das instituições de ponta. O que, claro, só resulta na reprodução de uma lógica concorrencial de mercado.

Em um importante texto, o geógrafo escocês radicado nos Estados Unidos, Neil Smith,[v] aborda a questão da “corporatized education”. Seu mote é uma passagem do texto de O capital: “Diremos que um mestre-escola é um trabalhador produtivo se não se limita a trabalhar a cabeça das crianças, mas exige trabalho de si mesmo até o esgotamento, a fim de enriquecer o patrão. Que este último tenha investido seu capital numa fábrica de ensino, em vez de numa fábrica de salsichas, é algo que não altera em nada a relação”.[vi]

Neil Smith então vai narrar como as várias transformações do capitalismo tardio, a partir de 1970, produziram as condições de possibilidade para a mercantilização da educação nos Estados Unidos, com modelo de gestão e financiamento baseado no desempenho e produtividade, reconfigurando o que se chamava de “setor educacional”. A medida puramente quantitativa da produtividade acadêmica, diz Smith, produz “a mercantilização crescente” das universidades que “afeta e infecta a todos nós”: “diariamente, todos nós entramos na fábrica de salsichas. Alguns de nós somos as salsichas, alguns colocam a carne nas tripas, alguns apenas cuidam das máquinas e alguns são os gerentes – mas todos nós estamos na fábrica educacional de Marx”.[vii]

Para “aperfeiçoar” a universidade pública, gratuita, universal, e de qualidade, para que se possa produzir conhecimento e crítica sobre o nosso mundo, o primeiro passo é abrir mão da “escala” abstrata de sucesso acadêmico baseada em rankings, estratos de periódicos e notas de programas de pós-graduação. Talvez, assim, a universidade acabe por não se parecer com uma fábrica de salsichas.

*Thiago Canettieri é doutor em geografia e professor do Departamento de Urbanismo da UFMG.

Notas

[i] https://www.youtube.com/watch?v=zQ1S_K4ZGqg&t=687s

[ii] Christopher Dejours, Subjetividade, trabalho e ação. Revista Produção, 14(3), 27-34, 2004.

[iii] https://observatoriodoconhecimento.org.br/wp-content/uploads/2024/12/ObC-PLOA-2025-1.pdf

[iv] https://observatoriodoconhecimento.org.br/emendas-parlamentares-no-orcamento-das-universidades-federais/

[v] Neil Smith, Who run this sausage factory? Antipode, 32(3), 330-339, 2000.

[vi] Karl Marx, O capital: crítica da economia política, livro I. Boitempo, 2013, p.578.

[vii] Neil Smith, p. 338.


Fonte: A Terra é redonda

Ciência Latino-Americana 2026, entre os freios e o desmantelamento

Ciência latina 1A estagnação dos orçamentos para a ciência em diversos países da América Latina pode prejudicar a pesquisa para o desenvolvimento. Crédito da imagem: Carmen Victoria Inojosa.

Embora o Uruguai, a Bolívia e o Chile não alterem seus orçamentos para cientistas em 2026, o Peru e o Brasil estão passando por um leve declínio, com diferentes motivações subjacentes, visto que o Brasil destina uma alta porcentagem do seu PIB para essa área.

Entretanto, a Argentina está registrando mínimas históricas, o que prenuncia um novo êxodo científico desse país do Cone Sul.

“As classes políticas da maioria dos países latino-americanos não desenvolveram uma visão estratégica que incorpore necessariamente a ciência, a tecnologia e a inovação como fatores de desenvolvimento humano integral.”

Benjamín Marticorena, gestor público e presidente do Conselho Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (CONCYTEC) do Peru em duas ocasiões.

A exceção

Contrariando a tendência regional, o México registrará um aumento de 11% no setor de ciência e tecnologia, especificamente na Secretaria de Ciência, Humanidades, Tecnologia e Inovação (SECIHTI ), criada há um ano pela presidente Claudia Sheinbaum.

O orçamento total, que inclui os diversos centros públicos de pesquisa do país, aumenta de 33 bilhões de pesos (US$ 1,84 bilhão) em 2025 para 37,36 bilhões de pesos (US$ 2 bilhões).

Embora possa parecer um aumento mínimo, existem diferenças significativas na sua distribuição interna, uma vez que o orçamento exclusivo para a SECIHTI passa de US$ 16 milhões em 2025 para US$ 148 milhões em 2026. Ou seja, um aumento de mais de 800%.

A ideia de Sheinbaum é que o país produza protótipos de carros elétricos compactos; semicondutores; supercomputadores para análises climáticas, de saúde e de segurança ; bem como satélites de observação em órbita baixa para melhorar a conectividade em áreas rurais e monitorar riscos.

Apesar do aumento, o orçamento para ciência e tecnologia no México permanece estagnado em aproximadamente 0,2% do PIB, muito aquém do 1% que a comunidade científica vem exigindo há décadas.

E a regra

Embora o Brasil seja o país que mais investe na região em relação ao seu PIB (1% em média), neste ano consolida um cenário de restrição de verbas públicas para ciência, tecnologia e inovação (CTI).

No caso do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a agência mais antiga e tradicional de fomento à pesquisa científica no governo brasileiro, o orçamento aprovado para 2026 é de 1,738 bilhão de reais (cerca de US$ 322,5 milhões), uma redução de US$ 17,1 milhões em relação à proposta inicial e de US$ 24,6 milhões em comparação com o orçamento de 2025.

Para Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), os números “revelam claramente as verdadeiras prioridades do governo brasileiro”.

“Estamos falando de um orçamento geral de 6,34 trilhões de reais [aproximadamente US$ 1,18 trilhão], no qual a educação representa cerca de 3,35% e a ciência apenas 0,35%”, disse ele ao SciDev.Net .

O Brasil é o país que mais investe em ciência e tecnologia na região, o que lhe permite realizar pesquisas e inovações para o desenvolvimento, como este complexo tecnológico de vacinas. Crédito da imagem: Raquel Portugal/Fundação Oswaldo Cruz. Imagem em domínio público.

Peru e o Cone Sul

No Peru, o orçamento para o setor de ciência, tecnologia e inovação (CTI) sofrerá redução em 2026, interrompendo a recuperação lenta, porém constante, observada desde 2013. Por ora, o Conselho Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (Concytec) terá uma redução de 10,1% em seu orçamento inicial em comparação com 2025. Se for considerada a diminuição dos orçamentos públicos explicitamente destinados à CTI como percentual do PIB projetado para 2026, esse investimento poderá cair ainda mais.

Benjamín Marticorena, especialista em políticas de ciência e tecnologia na América Latina e presidente da Concytec de 2001 a 2006 e de dezembro de 2020 a junho de 2024, destaca que, historicamente, o orçamento do Peru para ciência, tecnologia e inovação (CTI) representa um terço da média latino-americana. Segundo o Banco Mundial e outras fontes internacionais, o país historicamente destinou entre 0,12% e 0,18% do seu PIB para pesquisa e desenvolvimento.

A Bolívia, sob a presidência de Rodrigo Paz desde novembro de 2025, ainda não divulgou os números oficiais destinados às CTI (Ciência, Tecnologia e Inovação) em 2026, mas, segundo diversas fontes, o valor permanecerá em aproximadamente 0,06% do PIB, percentual que se mantém inalterado desde 2021 e é o mais baixo da América do Sul.

Mauricio Céspedes, ex-vice-ministro de Ciência e Tecnologia da Bolívia e especialista em formulação de políticas públicas para o setor, disse à SciDev.Net que o país “precisa gerar um círculo virtuoso entre políticas públicas, ciência, inovação e desenvolvimento produtivo que fortaleça estruturalmente o sistema nacional de CTI (Ciência, Tecnologia e Inovação)”.

A formação de jovens cientistas é sempre afetada por cortes no orçamento de pesquisa. Crédito da imagem: Tecsup, Peru. Imagem em domínio público.

Entretanto, nos três países do Cone Sul, a situação é bem diferente. O Uruguai está passando por uma mudança positiva na hierarquia da ciência dentro do Poder Executivo, deixando de ser uma Diretoria vinculada ao Ministério da Educação e Cultura para se tornar uma Secretaria, que responde diretamente à Presidência.

Alguns cientistas uruguaios pediam que a ciência fosse transformada em ministério, o ponto mais alto da hierarquia, segundo Anabel Fernández, presidente da Investiga Uy, associação que reúne cerca de 1.200 cientistas de todas as áreas e que entrou em diálogo com o governo de Yamandú Orsi.

“Estamos buscando uma lei da ciência e tentando garantir um investimento de 1% do PIB em pesquisa, aumentando 0,1% ao ano”, disse Fernández à SciDev.Net . Hoje, esse valor equivale a aproximadamente 0,4% do PIB.

No Chile, a ascensão ao poder em março do governo de extrema-direita de José Antonio Kast gera incertezas quanto à sobrevivência do orçamento nesta área, que, no entanto, deverá ser mantido pelo menos neste ano. Atualmente, o investimento representa 0,4% do PIB.

Durante o governo cessante de Gabriel Boric, houve tentativas frustradas de atingir 1% do PIB.

“No entanto, não houve aumento no investimento em ciência e tecnologia. Isso está na retórica, o que é importante, mas não na prática”, afirmou Cristina Dorador, professora da Universidade de Antofagasta, que aponta que o setor apresenta falhas estruturais, como o centralismo: “Os recursos estão concentrados em uma ou duas universidades, e muito pouco chega às regiões”, enfatizou.

O caso da Argentina

Os protestos de cientistas argentinos contra os cortes orçamentários se intensificaram ao longo de 2025, mas as reduções continuarão neste ano. Crédito da imagem: Agência CTyS-UNLaM .

A situação mais crítica para a pesquisa é na Argentina, liderada por Javier Milei. Lá, a porcentagem do PIB destinada à ciência caiu para um mínimo histórico de 0,14% do PIB. Há apenas alguns anos, era o dobro disso, e existe uma lei — que o governo está violando — que estipula que esse valor deve se aproximar gradualmente de 1% do PIB até 2032.

Nesse contexto, “os salários (dos cientistas) caíram aproximadamente 35% e o investimento muito mais”, afirma Jorge Aliaga, Secretário de Planejamento e Avaliação Institucional da Universidade Nacional de Hurlingham e membro do conselho do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica (Conicet).

“É um desastre. As equipes de trabalho vão se desfazer. Isso não é ruim apenas em relação à Europa ou aos Estados Unidos. É ruim em relação ao Brasil, Chile ou Uruguai”, disse Aliaga.

Além disso, surge a questão de para onde vai essa porcentagem do PIB, levanta Lidia Szczupak, neurocientista e pesquisadora do CONICET. “Faz diferença se esses 0,15% forem usados ​​para sustentar a estrutura existente ou o que restou, ou se forem destinados à Secretaria de Ciência para lidar com a segurança cibernética, como foi proposto”, lamenta ela.

Para Marticorena, esse desprezo pela ciência e pelo conhecimento na região se explica pelo fato de que “as classes políticas da maioria dos países latino-americanos não desenvolveram uma visão estratégica que incorpore necessariamente a CTI como um fator de desenvolvimento humano integral”.

“São classes desconectadas das histórias nacionais, ignorantes dos territórios de seus países e, sobretudo, desinteressadas pelas culturas de suas populações”, conclui ele.


Fonte: SciDev.Net.

Resíduos de glifosato, agrotóxico associado ao câncer, foram encontrados em testes realizados em parques infantis no Reino Unido

A pressão aumenta para que o uso do glifosato, classificado pela OMS como provável carcinógeno desde 2015, seja severamente restringido

Balanços em um parquinho

Vestígios de glifosato ou de seus produtos de decomposição foram encontrados em oito dos 13 parques infantis testados pela Pan UK. Fotografia: Christopher Thomond/The Guardian 

Por Damien Gayle para “The Guardian”

Crianças podem estar sendo expostas ao controverso herbicida glifosato em parques infantis por todo o Reino Unido, afirmaram ativistas após testarem parques em Londres e nos condados vizinhos.

A Organização Mundial da Saúde classificou o glifosato como um provável carcinógeno humano desde 2015. No entanto, ativistas afirmam que as autoridades locais no Reino Unido ainda utilizam milhares de litros de herbicidas à base de glifosato em áreas verdes públicas.

Ativistas da Rede de Ação contra Agrotóxicos (Pan) do Reino Unido coletaram amostras de solo e de superfície em 13 parques infantis em Kent, Cambridgeshire, Milton Keynes, Tower Hamlets e Hackney. Em oito deles, encontraram vestígios de glifosato ou de seu produto de degradação, o ácido aminometilfosfônico (AMPA).

A única área onde não foram encontrados vestígios do herbicida foi em Hackney, que deixou de usar glifosato em espaços verdes públicos em 2021.

“É profundamente preocupante encontrar um agrotóxico altamente perigoso como o glifosato nos locais onde nossas crianças brincam”, disse Nick Mole, da Pan UK. “Todos sabemos que as crianças pequenas tendem a colocar os dedos e outros objetos na boca, então encontrar resíduos de glifosato em parques infantis, inclusive em equipamentos como balanços e escorregadores, é particularmente preocupante.”

Nos últimos anos, a utilização do glifosato tem gerado controvérsia. No entanto, o produto químico continua autorizado para uso em espaços públicos no Reino Unido e é aplicado rotineiramente pelas autoridades locais em parques, campos de jogos, cemitérios e calçadas.

O câncer não é a única doença associada ao glifosato. O professor Michael Antoniou, especialista em genética molecular e toxicologia do King’s College London, afirmou: “Nossos estudos mostraram que a exposição a herbicidas à base de glifosato é um fator de risco significativo para o desenvolvimento de uma série de problemas de saúde graves, incluindo esteatose hepática e doença renal e, o que é mais preocupante, uma ampla gama de cânceres, incluindo leucemias.

“A afirmação dos órgãos reguladores governamentais de que o glifosato é seguro não resiste ao escrutínio científico mais recente, que demonstra que uma dose segura de glifosato é, atualmente, desconhecida. Portanto, todos os esforços devem ser feitos para reduzir o uso do herbicida glifosato tanto em áreas agrícolas quanto urbanas, e para eliminar vias desnecessárias de exposição, especialmente para crianças.”

A Agência Executiva de Saúde e Segurança (HSE), órgão governamental responsável por pesticidas, deverá reexaminar a autorização para o uso de glifosato este ano, e ativistas afirmam esperar que uma consulta pública sobre a renovação comece em breve.

A pressão para que seu uso seja severamente restringido está aumentando. Siân Berry, deputada do Partido Verde por Brighton Pavilion, apresentou um projeto de lei de iniciativa parlamentar que pede que os conselhos municipais proíbam o uso de glifosato em áreas públicas.

“Muitos conselhos municipais em cidades, vilas e aldeias por todo o Reino Unido adotaram uma abordagem diferente para controlar o crescimento de plantas e gerenciam ruas e parques infantis de maneiras que garantem a segurança das crianças e da natureza”, disse Berry ao The Guardian. “Os conselhos têm muitas outras opções além de cobrir o ambiente local de nossas crianças com perigos.”

Dafina Bozha e sua filha Alessia, que está em pé em um brinquedo do parquinho.

Dafina Bozha e sua filha Alessia no Victoria Park. Fotografia: Linda Nylind/The Guardian

Na tarde de quarta-feira, no Victoria Park, o maior parque de Tower Hamlets, Dafina Bozha disse estar chocada ao saber que poderia haver vestígios de substâncias químicas cancerígenas no parquinho. “Este deveria ser o lugar mais seguro para eles”, disse ela, olhando para onde sua filha pequena estava subindo em um carrossel. “Se isso afetar a saúde da minha filha, é algo muito importante para mim.”

Outra mãe, que pediu para ser identificada como Naz B, disse que achava que o uso de glifosato ia contra o propósito dos parques infantis. “Não acho aceitável”, disse ela. “O parque infantil deveria ser um espaço sobre natureza e sobrevivência.”

Naz B e sua filha em um parquinho infantil

Naz B: ‘O parque infantil deve ser um espaço dedicado à natureza.’ Fotografia: Linda Nylind/The Guardian

Enquanto sua filha procurava na terra com um graveto um fragmento de joia perdido, Naz continuou: “As crianças vêm ao parque para tocar na grama e na lama, ninguém quer visitantes estranhos.”

“Temos muitos produtos, produtos naturais, produtos orgânicos. Temos pessoas que vêm ao parque que são veganas, vegetarianas, então tenho certeza de que existem produtos que podem ser usados ​​sem os produtos químicos antiquados.”

Este artigo foi alterado em 15 de janeiro de 2026 para esclarecer que uma amostra de solo do condado de Buckinghamshire foi coletada em Milton Keynes, que é administrativamente separada do conselho do condado para decisões relativas a parques.


Fonte: The Guardian

Movimento Tapajós Vivo denuncia dragagam ilegal no Rio Tapajós

🚨 DENÚNCIA PÚBLICA 🚨

O Estado brasileiro está avançando com a dragagem do rio Tapajós sem licenciamento ambiental e sem consulta aos povos indígenas, ribeirinhos e comunidades tradicionais.

❌ Não existe licença ambiental válida
❌ Não há EIA/RIMA
❌ Não houve Consulta Livre, Prévia e Informada
❌ Documentos ambientais não estão acessíveis ao público

Mesmo assim, o planejamento da obra segue avançando para atender interesses do agronegócio, colocando em risco o rio, a pesca, a biodiversidade e os modos de vida de quem sempre cuidou do Tapajós.

Dragar o rio é violar direitos, é ferir a lei, é atacar a vida.
O Tapajós não é estrada para barcaças! O Tapajós é território, é cultura, é existência!

📢 Exigimos transparência, respeito aos direitos dos povos e a suspensão imediata desse processo ilegal.

Movimento Tapajós Vivo

https://tapajosvivo.com.br/

Nova análise revela a extensão do desmatamento ilegal no Brasil

O Instituto Centro de Vida e a Trase publicaram um novo conjunto de dados sobre licenças de desmatamento que pode ajudar empresas, reguladores e instituições financeiras a gerenciar os riscos de desmatamento nas cadeias de suprimentos

A plantação de soja contrastava com o Cerrado brasileiro.Plantação de soja no Cerrado brasileiro.

Por Osvaldo Pereira, Vinícius Silgueiro e Ana Valdiones para a “Trase” 

As regras do mercado global estão agora a intensificar o foco na conformidade legal, juntamente com cadeias de abastecimento livres de desmatamento. Apesar dos atrasos na sua implementação, o Regulamento da UE sobre o Desmatamento levou muitas empresas a investir em sistemas de due diligence para cumprir a sua proibição de produtos cultivados ou produzidos ilegalmente em terras desmatadas. Entretanto, a China, a maior compradora de soja e carne bovina brasileiras, iniciou projetos-piloto de importações livres de desmatamento e conversão , o que aponta para uma crescente procura por cadeias de abastecimento com garantia de legalidade.

No Brasil, os biomas Amazônia e Cerrado estão ameaçados pela expansão das commodities agrícolas. Embora o Código Florestal Brasileiro forneça o arcabouço legal para o uso da terra, a verificação do cumprimento em larga escala continua sendo um desafio. Uma evidência inicial de conformidade é a Autorização para Supressão de Vegetação (ASV) , emitida por órgãos ambientais para permitir a remoção e conversão de vegetação nativa. No entanto, apesar dos esforços recentes para aumentar a transparência e integrar dados, as informações sobre essas autorizações são frequentemente descentralizadas e de difícil acesso, criando uma lacuna significativa de dados. Sem dados transparentes e consolidados sobre as ASVs, é difícil para compradores e órgãos reguladores saberem se uma área específica de desmatamento foi autorizada ou não.

Para suprir essa lacuna de dados, o Instituto Centro de Vida (ICV) publicou um banco de dados sistemático de autorizações para desmatamento de vegetação nativa no Brasil. Essa iniciativa consolida dados disponíveis publicamente sobre autorizações para desmatamento de vegetação nativa, tornando as informações mais acessíveis para avaliar o cumprimento da legislação em regiões impactadas pelo desmatamento no Brasil.

Nova análise revela evidências de descumprimento

A Trase está trabalhando com o ICV para usar esse novo banco de dados e esclarecer ainda mais como os mercados consumidores estão expostos ao desmatamento não autorizado por meio das importações de carne bovina e soja do Brasil. Na primeira etapa deste projeto, comparamos dados oficiais de desmatamento por satélite do PRODES para o período de 2009 a 2024 com as ASVs válidas, a fim de estimar a extensão do desmatamento recente ocorrido sem autorização na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal.

Os resultados mostram uma significativa falta de autorizações públicas para a conversão de vegetação nativa. Tanto na Amazônia quanto no Cerrado, o desmatamento totalizou 26,4 milhões de hectares (Mha) entre 2009 e 2024. Desse total, 22,8 Mha (86%) não possuíam autorizações emitidas para o desmatamento de vegetação nativa, enquanto apenas 3,6 Mha (14%) coincidiam com áreas de uso comum da vegetação nativa. Isso sugere que a maior parte do desmatamento nesses biomas ocorreu sem uma licença registrada e divulgada publicamente (ver nota de isenção de responsabilidade no final).

No Brasil, a maior parte do desmatamento ocorre sem autorização.
Percentual de desmatamento sem Autorização para Supressão da Vegetação (ASV), 2009–2024. Os dados incluem apenas os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

Na Amazônia, as evidências de desmatamento irregular são impressionantes. O desmatamento totalizou 11,7 milhões de hectares entre 2009 e 2024, sendo que 11,2 milhões de hectares (96%) ocorreram sem um Sistema de Vigilância de Manejo (SVM). Além disso, o desmatamento irregular apresenta alta concentração geográfica. Apenas cinco municípios foram responsáveis ​​por 20% de todo o desmatamento sem SVM. Três municípios, Altamira, São Félix do Xingu e Porto Velho, responderam por 13% do total de desmatamento irregular.

No Cerrado, o desmatamento total atingiu 14,7 milhões de hectares no período de 2009 a 2024. Embora a proporção de desmatamento não autorizado seja menor do que na Amazônia, a área absoluta é elevada. Constatamos que 11,7 milhões de hectares (78%) do desmatamento ocorreram sem um Acordo de Vigilância de Manejo (AVM), enquanto apenas 3,2 milhões de hectares (22%) foram abrangidos por um AVM. O desmatamento sem AVM é menos concentrado no Cerrado em comparação com a Amazônia. Nossa análise mostra que 29 municípios foram responsáveis ​​por 20% da área total desmatada sem AVM.

Fiscalização menos eficaz no Cerrado

O banco de dados do ICV também inclui informações sobre Áreas Embargadas – sanções emitidas por agências ambientais federais e estaduais que servem como um indicador adicional de infrações ambientais. Comparamos os dados oficiais de desmatamento por satélite do PRODES para o período de 2009 a 2024 com as Áreas Embargadas para fornecer uma camada extra de evidências de descumprimento.

Grande parte do desmatamento na Amazônia está associada a áreas embargadas.
Percentual de desmatamento associado a áreas embargadas, 2009–2024. Os dados incluem apenas os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

A análise mostra que 46% de todo o desmatamento na Amazônia coincide com áreas embargadas, o que significa que quase metade do desmatamento não autorizado foi sinalizado por agentes federais.

Em contraste, apenas 8% do desmatamento no Cerrado coincide com áreas sob embargo. Essa discrepância sugere que, embora o descumprimento seja generalizado em ambos os biomas, a fiscalização é muito mais ativa na Amazônia do que no Cerrado.

A fiscalização é mais ativa na Amazônia do que no Cerrado.
Desmatamento por bioma em 2009–2024 e abrangência da Autorização para Supressão da Vegetação (ASV) e Áreas Embargadas. Os dados incluem apenas os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

Gestão de riscos nas cadeias de abastecimento de soja e carne bovina

Na próxima etapa deste projeto, liderado pelo Centro de Inteligência Territorial da Universidade Federal de Minas Gerais, focaremos na produção de soja e carne bovina nos biomas Cerrado, Amazônia e Pantanal, avaliando o cumprimento do Código Florestal e identificando casos ligados ao desmatamento irregular, utilizando dados de Áreas de Vegetação Sustentável (AVS) e Áreas Embargadas.

Esses dados permitirão que as empresas a jusante na cadeia de suprimentos que utilizam soja e carne bovina em seus produtos priorizem a devida diligência e a avaliação de riscos, identificando os municípios com as maiores taxas de desmatamento não autorizado. Para os governos produtores e consumidores, isso fornece um roteiro para direcionar recursos de fiscalização e monitoramento onde são mais necessários. Dados transparentes sobre a legalidade são essenciais para fortalecer a responsabilização e apoiar a transição para cadeias de suprimentos legais e livres de desmatamento.

Aviso: Apesar da sólida estrutura legal brasileira que rege a transparência das informações ambientais, existem limitações quanto à completude, formato e acessibilidade dos dados sobre Áreas de Conservação Ambiental (ACAs) e Áreas Embargadas. Consequentemente, deve-se ter cautela no uso e na interpretação dos resultados desta análise. Informações detalhadas sobre a metodologia desta análise podem ser encontradas aqui .


Fonte: Trase

Riscos de escassez hídrica nas cadeias de suprimento de carne bovina e soja brasileiras

A análise da trajetória da água utilizada na produção de carne bovina e soja no Brasil mostra onde os comerciantes de commodities enfrentam os maiores riscos de escassez hídrica. Para lidar com esses riscos na cadeia de suprimentos, é necessária uma ação urgente de empresas, bancos e governos para investir em áreas com estresse hídrico e apoiar práticas agrícolas mais eficientes no uso da água, afirma a Water Witness

Gado bebendo água no BrasilGado bebendo água de um pequeno lago no bioma Caatinga em Exu, Pernambuco, Brasil (Cacio Murilo/Shutterstock)

Por Rafaela Flach, Michael Lathuillière e Charles Wright para “Trase” 

De onde vem nossa comida? Responder a essa pergunta é um desafio, pois as complexas cadeias de suprimentos internacionais que garantem que as prateleiras dos nossos supermercados estejam sempre abastecidas obscurecem importantes conexões entre produtores e consumidores – especialmente a dependência destes em relação aos recursos hídricos.

Embora nossos sistemas alimentares necessitem de água em todas as suas cadeias de suprimentos, grande parte dela permanece invisível para os consumidores. As empresas geralmente monitoram a captação e o descarte de água doce em suas próprias operações, mas o volume muito maior necessário para suas cadeias de suprimentos de commodities – também chamado de uso “indireto” de água – raramente é contabilizado. Esse uso oculto de água doce na cadeia de suprimentos é essencial para os mercados consumidores, que muitas vezes dependem de bacias hidrográficas distantes e, portanto, podem estar ligados a riscos e impactos relacionados à água que vão muito além dos limites corporativos.

Um novo relatório da Trase revela essas dependências e riscos ocultos nas cadeias de suprimentos de soja e carne bovina brasileiras. Com base em pesquisas da Trase revisadas por pares sobre os riscos da escassez de água para as importações europeias e chinesas , este relatório aprofunda-se nos detalhes do uso da água na produção de soja e carne bovina e nos riscos relacionados à água nas cadeias de suprimentos de algumas das maiores empresas de comércio de commodities do mundo.

Revelando as dependências da cadeia de suprimentos e os riscos da escassez de água

A produção brasileira de soja e carne bovina requer água doce, mas a origem dessa água e a forma como ela é armazenada variam. Para a produção de soja, a chuva é a principal fonte de água, embora águas superficiais e subterrâneas também sejam utilizadas para irrigação. Para a produção de carne bovina, a água para o gado é geralmente armazenada em pequenos reservatórios nas propriedades rurais. A produtividade da soja cultivada em regime de sequeiro é sensível a secas ou períodos de estiagem, e a água para irrigação e para o gado pode se tornar escassa, visto que outros setores, consumidores domésticos e ecossistemas competem por recursos.

Os riscos relacionados à água nas cadeias de suprimento de soja e carne bovina são geralmente opacos para comerciantes e consumidores. Ao vincular informações sobre o uso da água na produção de soja e carne bovina com dados da Trase, podemos quantificar a dependência dos comerciantes de commodities em relação aos recursos hídricos brasileiros e os riscos para suas cadeias de suprimento. Nossa análise mostra que os principais comerciantes de soja estão ligados a regiões com alta probabilidade de seca.

Risco hídrico para os comerciantes na cadeia de suprimentos de soja de sequeiro
Exportações de soja de sequeiro (milhões de toneladas) em 2017, de acordo com a probabilidade de seca (%).

Os principais comerciantes de carne bovina também dependem fortemente de bacias hidrográficas que já enfrentam escassez hídrica elevada ou crítica, de acordo com a Agência Nacional de Águas e Saneamento (ANA) do Brasil.

Comerciantes de carne bovina expostos à escassez hídrica nas bacias hidrográficas do Brasil
Volume de água doce (km³) utilizado nas cadeias de suprimento de comerciantes de carne bovina em 2017, relacionado aos níveis de escassez hídrica definidos pela Agência Nacional de Águas e Saneamento (ANA) do Brasil.

Onde o desmatamento e a escassez de água convergem

A pesquisa da Trase também revela como as cadeias de suprimentos dos comerciantes podem estar expostas aos impactos tanto do desmatamento quanto da escassez de água. Essa convergência significa que políticas ou decisões de fornecimento guiadas por uma única métrica ambiental podem correr o risco de transferir impactos de uma categoria para outra. Por exemplo, afastar o fornecimento de soja de áreas com alto índice de desmatamento pode, inadvertidamente, aumentar a exposição a regiões com escassez de água.

No oeste da Bahia, no coração da fronteira agrícola do Matopiba, as consequências da escassez hídrica são visíveis e profundas. O mapeamento participativo realizado por organizações locais mostrou que mais de 7.000 km de rios e córregos deixaram de fluir durante o ano todo. Essas são apenas algumas das vítimas do desmatamento, da expansão da irrigação agrícola e da extração descontrolada de água. Cursos d’água antes confiáveis ​​agora só aparecem após chuvas intensas, e reservatórios construídos para a criação de gado ou geração de energia evaporam os preciosos recursos hídricos. Para as comunidades que dependem dos ecossistemas de água doce, essa perda ameaça a segurança alimentar, os meios de subsistência tradicionais e a identidade cultural.

Pegadas Hídricas Justas: rumo a um uso da água mais justo e resiliente.

A pesquisa comprova os objetivos da iniciativa Fair Water Footprints , que visa estabelecer a gestão responsável da água como norma internacional para os negócios. A iniciativa conta com o apoio de governos, empresas, investidores e organizações da sociedade civil, incluindo a Water Witness.

Lançada em Glasgow para a COP26, a iniciativa Fair Water Footprints atua principalmente por meio de cadeias de suprimentos e relações comerciais internacionais para estimular ações e investimentos relacionados aos riscos hídricos e climáticos, visando impulsionar um crescimento sustentável, resiliente e inclusivo. Identificar os pontos de interseção entre o uso da água nas cadeias de suprimentos e a escassez hídrica nas bacias hidrográficas é um primeiro passo para ações direcionadas, desde a priorização de investimentos em bacias hidrográficas com estresse hídrico até o apoio a práticas agrícolas mais eficientes no uso da água.

A intersecção entre as cadeias de abastecimento globais e a escassez de água sublinha a importância das Pegadas Hídricas Justas: garantir que a água seja usada de forma equitativa e sustentável e que as decisões da cadeia de abastecimento não prejudiquem os direitos e a resiliência daqueles que vivem a montante.

Oportunidades para ação

A pesquisa da Trase destaca diversas áreas prioritárias para empresas, governos e instituições financeiras:

  • Ampliar a contabilização da água para as cadeias de abastecimento : os comerciantes devem definir metas de “escopo 3” para a água que abordem o uso pelos fornecedores, a exposição ao risco e os impactos ambientais, assim como muitos já fazem para o desmatamento e as emissões de gases de efeito estufa; por exemplo, por meio da Iniciativa de Metas Baseadas na Ciência (Science Based Targets Initiative ).
  • Reduzir as lacunas de políticas e dados : as agências brasileiras de água, agricultura e meio ambiente devem coordenar-se mais para integrar o controle do desmatamento, a gestão da irrigação e a adaptação à seca. Essas agências também devem promover a melhoria e o compartilhamento de conjuntos de dados, incluindo informações sobre o balanço hídrico anual, reservatórios agrícolas e licenças de uso da água, para subsidiar as avaliações anuais de risco.
  • Alinhar melhor as finanças com os objetivos de sustentabilidade : os critérios de crédito e investimento rural devem recompensar práticas que protejam os recursos hídricos, complementando os requisitos de desmatamento zero no setor financeiro.

Compreender como o uso da água, a escassez e o desmatamento se inter-relacionam é fundamental para construir sistemas alimentares resilientes. Ao combinar dados de alta resolução da cadeia de suprimentos com conhecimento prático, podemos direcionar melhor as ações, protegendo tanto os mercados globais quanto as comunidades que dependem da água para sustentá-los.

Como parte dessa nova fronteira de trabalho, a Trase se concentrará em fornecer métricas revisadas de uso da água para o comércio global de commodities agrícolas por meio do Indicador Global de Impactos Ambientais do Consumo . Esse esforço permitirá avaliações globais mais atualizadas do uso da água em atividades de consumo global e na cadeia de suprimentos associada. Continuaremos a apoiar usuários e parceiros com os conjuntos de dados que fundamentam este relatório, principalmente em relação a projetos-piloto que possam impulsionar iniciativas focadas no uso da água nas cadeias de suprimentos. Também estamos explorando como nossos dados sobre água – juntamente com informações mais amplas relacionadas ao clima – podem ser usados ​​para apoiar discussões sobre segurança alimentar e resiliência da cadeia de suprimentos.

Para obter mais informações sobre o trabalho da Trase sobre o uso da água nas cadeias de suprimento de commodities, entre em contato com michael.lathuilliere@sei.org.

Charles Wight é diretor de pesquisa e políticas da Water Witness, onde desenvolve e divulga pesquisas-ação para abordar a segurança hídrica global. Seus interesses incluem ciência geoespacial, conservação de água doce, soluções baseadas na natureza e economia da conservação. Mais informações em www.waterwitness.org

Leia o novo relatório de pesquisa: Lathuillière, MJ, & Flach, R. (2026). Revelando a dependência hídrica dos comerciantes e os riscos nas cadeias de suprimentos de soja e carne bovina brasileiras. Trase. https://doi.org/10.48650/V347-SZ93

Faça o download do conjunto de dados que inclui os dados da Trase sobre a cadeia de suprimentos de soja e carne bovina, relacionados ao uso da água, desmatamento e emissões de gases de efeito estufa provenientes do desmatamento, metano entérico e emissões de esterco (carne bovina) em https://zenodo.org/records/14921618

Veja o artigo de pesquisa original: Lathuillière, MJ, Flach, R., Wang-Erlandsson, L., Ribeiro, V., zu Ermgassen, EKHJ, & Souza, CM, Jr. (2025). Dependência internacional da água brasileira por meio das cadeias de suprimento de soja e carne bovina. Communications Earth & Environment, 6, 688. https://doi.org/10.1038/s43247-025-00835-0


Fonte: Trase

Representação do Cerrado em modelo global aprimora previsões sobre o impacto de incêndios

incêndios no cerradoAvanço na representação do Cerrado contribui para planos de restauração, manejo sustentável e adaptação climática

Bori - Soluções para um conhecimento cieníftico acessível

O Cerrado, segundo maior bioma da América do Sul e um dos mais ameaçados do planeta, ganhou um retrato mais fiel nos modelos climáticos e ecológicos utilizados internacionalmente. Pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e do Potsdam Institute for Climate Impact Research (Alemanha) desenvolveram um novo tipo funcional de planta, chamado Tropical Broadleaved Savanna Tree (TrBS). Essa representação virtual de uma árvore típica do Cerrado aprimora simulações sobre o impacto do fogo e de outros cenários climáticos na vegetação de savana. 

Publicado em 6 de janeiro na revista Biogeosciences, o trabalho considera características marcantes da vegetação do Cerrado, como as raízes profundas, que podem ultrapassar os 15 metros, e a casca mais espessa. Esses traços, definidos com base em dados de campo e extensa revisão da literatura, conferem às plantas uma notável resiliência ao fogo e à seca — e explicam a estrutura típica da “floresta de cabeça-para-baixo”, com grande parte da biomassa concentrada no subsolo.

Os resultados das simulações mostram que o novo modelo melhora a representação das dinâmicas ecológicas, do ciclo de carbono e das interações entre clima e vegetação. Além disso, passou a refletir com mais precisão a sazonalidade e a extensão das queimadas. A iniciativa foi conduzida por Jéssica Schüler, doutoranda em ecologia pela UnB, com colaboração de Mercedes Bustamante, professora titular da UnB, sua orientadora.

De acordo com Bustamante, a motivação para desenvolver um modelo específico para o Cerrado veio de uma lacuna histórica nos modelos globais. “Apesar da importância das savanas para o ciclo do carbono e da biodiversidade mundial, elas ainda são sub-representadas nas grandes ferramentas de modelagem”, conta. “O Cerrado é um hotspot ameaçado e compreender como ele responde às pressões ambientais é essencial para prever cenários futuros e apoiar a conservação”, afirma a pesquisadora.

Ao reunir informações de campo em larga escala, o modelo ganhou maior capacidade de representar a dinâmica natural da vegetação e a resposta das plantas a fatores ambientais críticos. A profundidade das raízes, por exemplo, se mostrou determinante não apenas para melhorar as simulações no Brasil, mas também em testes globais — sinalizando que estruturas subterrâneas têm papel essencial na organização de savanas em diferentes continentes.

Embora o estudo não tenha incluído simulações específicas sobre os efeitos das mudanças climáticas na frequência ou intensidade das queimadas, ele estabelece a base para que essa análise seja realizada nas próximas etapas. Com o avanço obtido, já estão sendo desenvolvidos modelos que combinam o TrBS com ferramentas mais detalhadas, o que permitirá avaliar a variação de atributos funcionais das plantas e sua resposta a eventos extremos, como seca prolongada e incêndios severos.

Além da relevância científica, modelos mais realistas permitem prever como a vegetação responde ao desmatamento, às mudanças no uso do solo e às pressões climáticas, auxiliando na formulação de planos de restauração, manejo sustentável e adaptação climática. “Compreender a resposta da vegetação a diferentes pressões ambientais nos ajuda a desenhar políticas públicas mais sólidas e alinhadas à realidade brasileira”, destaca Bustamante.

A pesquisa teve financiamento do CNPq, CAPES, INCT–Mudança do Clima e da Conservation International Foundation, além de apoio da União Europeia pelo programa Horizon 2020. A nova fase do estudo já está em andamento, com foco em expandir o entendimento sobre como mudanças climáticas e pressões humanas podem moldar o futuro do Cerrado.


Fonte: Agência Bori

Destruição disfarçada de sustentabilidade: Desenvolvimento sustentável na Amazônia é conversa para boi dormir

Para analistas críticos, o termo “desenvolvimento sustentável” foi cunhado para desviar o debate sobre os malefícios do capitalismo sobre os sistemas naturais da Terra. E já se vão quase quase 4 décadas desde que o termo foi usado originalmente no famoso Relatório Bruntdland. E desde então o que se vê é o avanço desmensurado da destruição de ecossistemas naturais em todo o planeta. A Amazônia brasileira é talvez um das regiões em que já se injetou muito dinheiro em projetos que prometem a concretização desse modelo que promete formas menos destrutivas de utilização das riquezas naturais ali existentes.

Mas o que não se fala de forma minimamenrte clara é que para cada centavo gasto com projetos ‘sustentáveis”, milhares de reais são aplicados em outros projetos que claramente não têm nada de sustentáveis.  E isso acaba sendo obscurecido pela máquina publicitária do governo federal e de seus aliados dentro do que venho chamando de sistema “agroquímico mineral” que é composto por uma amálgama de latifundiários, corporações multinacionais que controlam o sistema alimentar global e grandes mineradoras. 

Hoje recebi uma coletânea de matérias do jornal “Folha de São Paulo” dentro de uma série intitulada “Grandes na Amazônia” que foi publicada entre julho/2025 e janeiro/2026. As matérias apresentam e analisam seis grandes projetos de investimento que incluem a construção ou ampliação de ferrovias, hidrovias, estradas e exploração de rochas destinadas a aumentar a produção nacional de fertilizantes (Aqui!, Aqui!, Aqui! Aqui! Aqui! Aqui!).  As matérias mostram claramente que esses projetos causarão não apenas problemas ambientais, mas servirão para deslocar e impor situações de grande violência sobre povos indígenas e comunidades tradicionais. E como as matérias jornalíticas mostram, os riscos sociais e ambientais são plenamente conhecidos pelos ocupantes do governo federal, no caso a frente amplíssima construída pelo presidente Luís Inácio.

Conversando hoje com um parceiro científico de longa data, ouvi algo que me parece irrefutável. Ele, um pesquisador com décadas de experiência de pesquisas amazônicas, me disse que lamentavelmente há um grau muito grande de acordo sobre como usar a Amazônia entre as distintas forças politicas que têm ocupado historicamente o governo federal, apesar das distinções pontuais na hora de sustentar a lógica do uso dos recursos ali existentes. Na prática, segundo esse pesquisador,  fica tudo muito parecido quando se trata de definir as linhas de investimento em grandes projetos que nada têm de sustentáveis.

Desta forma, o chamado “desenvolvimento sustentável” tem operado, no caso da Amazônia, mais como discurso legitimador do que como alternativa real ao modelo predatório vigente. Apesar da retórica ambiental, os investimentos públicos e privados continuam priorizando grandes obras de infraestrutura, mineração e agronegócio, aprofundando o desmatamento, os conflitos sociais e a violência contra povos indígenas e comunidades tradicionais. Esse padrão revela um amplo consenso político em torno de um projeto de uso da Amazônia subordinado ao sistema agroquímico-mineral, incompatível com uma sustentabilidade efetiva.

Como estamos entrando em um ano eleitoral em que certamente teremos novamente campanhas eleitorais que vão reduzir o debate a um combate entre “bem” e “mal” com vistas a impedir um debate mais amplo sobre quais são efetivamente as propostas de uso das riquezas nacionais, pois o debate aberto acaba mostrando que no caso da Amazônia as propostas são essencialmente as mesmas, qual seja, mais desmatamento e degradação florestal para alimentar a expansão do modelo agroquímico mineral.

Greenpeace pede paralisação de perfurações após vazamento na Foz do Amazonas

A Petrobras descobriu um vazamento na bacia amazônica e interrompeu as perfurações. O Greenpeace e as comunidades locais alertaram para a poluição e exigem a paralisação imediata das atividades

Os recifes de coral mesofóticos estão localizados em zonas mais profundas do oceano e requerem menos luz. Um desses recifes está ameaçado pela extração de petróleo da Petrobras. Fonte:Greenpeace / Alexis Rosenfeld / Olivier Bianchimani

Por Ulrike Bickel para Amerika21

No início de 2026, aproximadamente 15 mil litros de fluido de perfuração vazaram de um poço pertencente à Petrobras, empresa petrolífera brasileira, próximo à bacia Amazônica . Segundo a empresa, o vazamento foi descoberto em 4 de janeiro de 2026, a cerca de 175 Km da costa do Amapá, a uma profundidade de aproximadamente 2.700 metros.

A área costeira afetada é conhecida por seu ecossistema quase intocado, ainda considerado em grande parte inexplorado e que abriga o Grande Recife da Amazônia. Este vasto sistema recifal, descoberto apenas em 2016 na costa atlântica do norte do Brasil, abriga recifes de coral mesofóticos, caracterizados pela presença de corais e algas dependentes da luz, bem como organismos encontrados em águas com baixa transmissão luminosa.

A Petrobras anunciou a suspensão das operações de perfuração para reparos após a detecção de um vazamento de fluido em duas linhas auxiliares que conectam uma plataforma de perfuração ao poço Morpho. Segundo a estatal, o vazamento foi imediatamente estancado e contido. A Petrobras informou que o fluido era uma mistura de sólidos, líquidos e produtos químicos “não perigosos”.

O IBAMA afirmou ter sido informado do incidente e que não houve vazamento de petróleo. Mesmo assim, o IBAMA, que concedeu a licença somente em outubro de 2025 após anos de disputas, intensificou o monitoramento. As consequências para a Petrobras incluem o atraso na campanha de perfuração de cinco meses, revisões regulatórias adicionais e o adiamento do desenvolvimento da área da Margem Equatorial, de importância estratégica, visto que o projeto na Amazônia é considerado pelo governo brasileiro um componente fundamental para a era pós-esgotamento de outras reservas de petróleo que em breve se esgotarão.

Segundo o Greenpeace, o último vazamento está diretamente ligado aos riscos ambientais que já haviam sido apontados durante o processo de licenciamento. O acidente não é um incidente isolado, mas um sinal de alerta, já advertido em 2025 por uma delegação do Greenpeace Brasil, ONGs locais, quilombolas, movimentos indígenas e comunidades pesqueiras em uma ação judicial movida na Justiça Federal contra o IBAMA, a Petrobras e o Estado brasileiro . A organização ambiental exige agora a paralisação imediata das atividades e a cassação da licença de operação da Petrobras para a exploração desse campo de petróleo.

Em meados de junho de 2025, o governo brasileiro leiloou um total de 34 dos 172 blocos de produção de petróleo e gás em um processo de licitação controverso , incluindo blocos no estuário da Foz do Amazonas. Essa área é classificada como ecologicamente muito vulnerável por autoridades ambientais, promotores públicos e organizações indígenas (a Amerika21 noticiou o fato antes e depois do leilão ).

No ano passado, o Greenpeace Brasil, juntamente com as organizações parceiras Arayara, WWF, ClimaInfo e Instituto Iepé, realizou oficinas sobre os possíveis impactos da produção de petróleo em Foz do Amazonas nas comunidades ribeirinhas e quilombolas de Amapá, Oiapoque, Cunani e Calçoene, cujo modo de vida e existência estão ameaçados.

Um vazamento de petróleo perto da bacia amazônica poderia ter efeitos devastadores no ecossistema da região e nas comunidades locais cuja subsistência depende de um oceano saudável. Informações sobre o vazamento foram incluídas em um processo judicial no qual os demandantes enfatizaram “a urgência de uma ação judicial federal imediata para suspender a licença de operação”.

Vazamentos durante a extração em águas profundas ocorrem repetidamente no Brasil. Segundo um advogado do Greenpeace Brasil, entre 1975 e 2014, um total de 95,2% dos acidentes registrados foram atribuídos a essas atividades. As consequências e os riscos são óbvios e, portanto, segundo os autores da ação, uma ordem judicial para suspender essas atividades é necessária com base nos princípios da prevenção e da precaução.

Segundo os demandantes, a extração de petróleo na Amazônia representa um risco “real, previsível e evitável”. No entanto, a perfuração continua apesar da falta de avaliações de impacto ambiental adequadas, da ausência de consulta às comunidades afetadas e da inexistência de qualquer avaliação de impacto climático. Já passou da hora de eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e promover uma transição justa que priorize as pessoas, sua dignidade e um futuro livre de combustíveis fósseis.


Fonte: Amerika21

Soja e agrotóxicos sufocam comunidades tradicionais da Amazônia

Pesquisa documenta dificuldades respiratórias e alimentares de indígenas e quilombolas causadas pelo uso de glifosato em terras griladas no Baixo Tapajós

A foto mostra uma grande área agrícola já colhida ou preparada para plantio, com o solo exposto e restos de palha seca. Próximo à borda da plantação há uma floresta densa, com árvores altas e vegetação tropical fechada. No canto esquerdo da imagem, uma máquina agrícola vermelha, equipada com uma barra pulverizadora longa, está trabalhando no campo.Pequenos fragmentos florestais mascaram dimensão da devastação ocasionada por platações de soja no Baixo Tapajós – Foto: Bruno Kelly

Por Jean Silva, com arte de  Gustavo Radaelli, para o Jornal da USP 

Plantações de soja, agrotóxicos e grilagem de terras na Amazônia brasileira: esse é o cenário. Em meio ao vasto território, existe um mito de a região florestal estar vazia, apesar de os povos tradicionais tentarem manter suas formas de vida. Por 18 meses de estudo etnográfico, Fabio Zuker, pesquisador da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP investigou a expulsão por sufocamento no Baixo Tapajós devido ao uso de glifosato em plantações de soja de terras griladas. Os casos ilustram dificuldades respiratórias, alimentares e econômicas como formas de expulsar indígenas, quilombolas e ribeirinhos de suas terras.

O artigo intitulado Expulsion by suffocation: Soybean plantations, toxicity, and land grabbing in the Brazilian Amazon foi publicado na revista Environment and Planning E: Nature and Space.

“O sufocamento acontece de forma literal e metafórica. Literalmente, as pessoas não conseguem respirar devido à intensa aplicação de agrotóxicos. Elas se trancam em suas casas, relatando dificuldade para respirar”, conta Zuker. Em metáfora, é uma alusão à supressão da capacidade dessas comunidades manterem sua produção, seu modo de vida, manterem-se junto a esse território e às relações com outras espécies das quais dependem para viver. No trabalho, o pesquisador evidencia como um imaginário colonial-militar de vazio é produzido através de danos químicos lentos.

“A ideia é que o vazio na Amazônia é produzido, e não natural. Foi criado ao longo da história, desde a Marcha para o Oeste no governo Vargas até o Plano de Integração Nacional da ditadura militar”, contextualiza. 

No trabalho de antropologia, o pesquisador quis dar um tratamento reflexivo e crítico ao processo de expulsão por sufocamento. Por isso, encarou a “farsa” do vazio como uma categoria que permite compreender o processo de fabricação da paisagem, na qual pequenos pedaços de floresta e comunidades escondem a dimensão da devastação ambiental.

“O vazio é produzido pelas próprias atividades [violentas] que o ocupam, como o uso de agrotóxicos. Uma produção intencional desse espaço esvaziado” – Fabio Zuker

Violência e resistência

No contexto da pesquisa, a expansão do agro é colocada como uma forma de morte induzida quimicamente pelo uso de agrotóxicos no Baixo Tapajós. Em conversa com lideranças das comunidades, o pesquisador constatou também a existência de uma floresta que é quase uma maquiagem. “Pequenos trechos de floresta na beira de estrada. São as bolhas que sobram aqui e ali”, indica Zuker. 

Em diálogo com Beto, morador e trabalhador rural da região, o pesquisador chama essas bolhas de “farsa das comunidades”. “Só tem umas casinhas ali, na beira da estrada. E nada mais. Antes havia uma comunidade grande aqui. Só umas árvores ali. É tudo soja atrás”, relata o morador.

 A farsa indicada é criada pelas comunidades remanescentes e pelos fragmentos de mata que, da beira da estrada, escondem os vastos campos de soja que invadem a paisagem. De outro lado, o pesquisador destaca os processos de resistência para impedir toda essa lógica de “vazio”.

“Tem um problema grande nas ciências sociais, que é focar exclusivamente numa narrativa da violência, da destruição, uma narrativa do apagamento. O que está colocado em jogo é uma tensão, é uma força que leva para a violência, para o apagamento, para o processo de sufocamento. Por outro lado, há uma resistência constante de coletivos indígenas, quilombolas, ribeirinhos que se contrapõe a essa expulsão”, continua. Ele alega que essa é uma forma de contra plantation ao se colocarem contra a incorporação de seus territórios numa lógica de violência do sistema de produção global de grãos e proteínas vegetais.

Uma casa antiga de madeira parcialmente escondida pela vegetação densa de tábuas claras já desgastadas tem um telhado simples e uma pequena abertura frontal da porta — tomada pela sombra e por plantas que cresceram para dentro do espaço. Arbustos, cipós e árvores envolvem quase toda a fachada, cobrindo paredes e avançando pelo telhado.

No território, existem múltiplos seres, não humanos ou humanos, defendendo o território para que ali se multipliquem outras formas de vida – Foto: Bruno Kelly

Junto com os tupinambás do Baixo Tapajós, a pesquisa resgatou a ideia de um território vivo em contraposição ao vazio. E em um lugar onde coexistem múltiplos seres: não humanos que têm um papel fundamental na defesa do território e defendem junto com os humanos a integridade dele para que ali se multipliquem outras formas de vida. “Todos esses encantados, esses outros seres que compõem esse território de múltiplas formas de vida, não somem. Eles têm a possibilidade de reaparecer e voltar esse léxico. Um processo de retomadas, de mobilizações contra o avanço do agronegócio”, explica o pesquisador.

Soluções

O esforço de documentar esse fenômeno da região amazônica vem de campos diferentes do saber, que buscam evidenciar a dimensão de danos causados por agrotóxicos. “Junto com análises de ciências sociais, conseguimos demonstrar também a partir de narrativas, de histórias de vida, de casos, um padrão de violência local”, explica Zuker. Essa complementaridade é necessária devido à dificuldade de produzir conhecimento sobre os efeitos de uma substância invisível que age no longo prazo. 

“Além de ser difícil traçar os resultados por um período extenso, [a pesquisa nesse assunto] é também reprimida por conta de pessoas poderosas com muitos interesses e muita entrada na política local”, alerta. Ainda assim, ele defende que os índices de desenvolvimento humano das comunidades amazônicas devem acontecer com a floresta viva e em pé. “Nada indica que o desmatamento seja um caminho importante para que exista uma melhoria na vida dessas pessoas”, afirma. Pelo contrário, a floresta e os ecossistemas são partes fundamentais para essas populações de acordo com sua pesquisa. 

Sobre o uso de agrotóxicos, Zuker defende melhores práticas regulatórias e de fiscalização para evitar a lógica de expulsão. “Um elemento fundamental é a não comercialização no Brasil de agrotóxicos que são proibidos nos seus países de origem”, indica. Contudo, ele ressalta a importância do diálogo de diferentes setores para promoção do respeito à existência ecológica e do conhecimento local nessas e em outras regiões que são ameaçadas pela monocultura e pela mineração.

O artigo intitulado Expulsion by suffocation: Soybean plantations, toxicity, and land grabbing in the Brazilian Amazon pode ser acessado clicando aqui.

Para mais informações: fabiozuker@gmail.com, com Fabio Zuker

*Estagiário sob orientação de Tabita Said

**Estagiário sob orientação de Moisés Dorado


Fonte: Jornal da USP