A inauguração da ponte do “rio que cai”: um perfeito retrato do estado da política fluminense

O governador Cláudio Castro e o presidente da Alerj Rodrigo Bacellar na inauguração da “ponte do rio que cai”.  Foto: Silvana Rust

Um dos quadros mais famosos do extinto “Programa do Faustão” era a “Ponte do rio que cai” na qual intrépidos figurantes tentavam atravessar uma ponte em meio a obstáculos e tiros de canhão para invariavelmente caírem de forma estrepitosa dentro do “rio”.   Sabe-se lá por quais cargas do destino, lembrei desse quadro ao ver ontem cenas vindas do trecho sanjoanense do Rio Paraíba do Sul.

É que, pouco mais de 24 horas depois de ter ameaçado usar ilegalmente a Polícia Militar para retirar 400 famílias que ocupavam pacificamente uma propriedade que já deveria estar passando pelo processo de reforma agrária, o governador Cláudio Castro esteve na nossa região para inaugurar a chamada “ponte da integração” que deverá ligar os municípios de São João da Barra e São Francisco de Itabapoana, e ainda impactar o trânsito de veículos pesados em Campos dos Goytacazes.

Um detalhe nada glorioso sobre esta inauguração é que passadas mais de quatro décadas entre o planejamento e a entrega, essa ponte ainda não possui vias pavimentadas para dar celeridade ao inevitável fluxo de veículos que sua existência criará.  A saída escolhida pelo presidente da Alerj, o campista Rodrigo Bacellar foi culpar os técnicos do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE) por fazerem o que se espera deles: garantir a lisura de todos os processos licitatórios que são realizados com o dinheiro público no estado do Rio de Janeiro, gostem ou não seus governantes.

Em sua forma cândida e característica de se pronunciar, Bacellar teria dito que “Só não entregamos as duas RJs porque, novamente, o Tribunal de Contas fez aquela palhaçada de paralisar a licitação por quase um ano, assim como fez na ponte. Se não a gente estaria hoje inaugurando não só a ponte, mas concluindo todo o asfaltamento e urbanização dessas duas rodovias“. Pois é, deve ser duro não poder fazer licitações que não atendem critérios técnicos e legais.

Mas o que mostra a inauguração da “Ponte João Peixoto”, além do inconformismo de Rodrigo Bacellar? Para mim, o simples fato de se inaugurar uma ponte tão estratégica sem que as vias de circulação estejam pavimentadas é um excelente retrato do estado de coisas que grassam na política fluminense. Fossem os nossos políticos minimamente sérios, essa inauguração aconteceria sem nenhuma pompa ou circunstância, na medida em que ela reflete uma evidente incompetência.  

Mas vá lá, a maioria desses políticos é aliada de Jair Bolsonaro, um presidente que em 2021 teve a capacidade de gastar mais R$ 700 mil em despesas de viagens para inaugurar uma ponte de madeira de 18 metros de extensão por 6 metros de largura em uma comunidade indígena no estado do Amazonas que havia custado apenas R$ 255 mil.  Assim, para inaugurar uma ponte que não liga nada a qualquer coisa é um pulo.

Ascema responde declarações de Lula em relação à atuação do Ibama no licenciamento da exploração de petróleo na Foz do Amazonas

Resposta às declarações do presidente Lula em relação à atuação do Ibama no processo de licenciamento da exploração de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas

A Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (ASCEMA Nacional) vem a público manifestar sua preocupação com as recentes declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a respeito da atuação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no processo de licenciamento ambiental para exploração de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas.

O Ibama é um órgão de Estado, cuja missão é a proteção do meio ambiente e dos recursos naturais do Brasil, e todas as suas decisões são baseadas em critérios técnicos, científicos e legais. O processo de licenciamento ambiental é conduzido de maneira rigorosa, transparente e responsável, levando em consideração a proteção da biodiversidade e o bem-estar das populações que dependem diretamente dos ecossistemas afetados, mas também o desenvolvimento econômico do país.

Entendemos que há interesses por parte do governo em acelerar a análise, mas há um limite do que o Ibama pode fazer diante do sucateamento da Gestão Socioambiental que a ASCEMA Nacional vem denunciando há tempos. Isso ficou bem claro na mobilização do ano passado, cobramos do governo melhores condições e pessoal para dar conta de todas as necessidades. Ainda assim, a análise técnica de grandes projetos submetidos ao licenciamento ambiental federal, especialmente aqueles a serem desenvolvidos em áreas socioambientalmente sensíveis, com número reduzido de estudos científicos e onde não há experiências prévias da atividade em questão, demandam imensa dedicação das servidoras e servidores e, inevitavelmente, consomem tempo. O tempo necessário para garantir que os impactos previstos sejam evitados, mitigados ou compensados, caso o empreendimento ocorra.

É fundamental destacar, ainda, que desde 2012 o Estado brasileiro tem a possibilidade de realizar uma Avaliação Ambiental de Área Sedimentar – AAAS na Bacia da Foz do Amazonas, o que permitiria identificar áreas aptas e não aptas à exploração de petróleo na região, auxiliaria no planejamento estratégico e econômico, e reduziria as incertezas do licenciamento ambiental de empreendimentos avulsos. Porém, não se tem notícias de pressão do Palácio do Planalto para que a AAAS saia do papel.
Nesse sentido, é inadmissível qualquer tipo de pressão política que busque interferir no trabalho técnico do órgão, especialmente quando se trata de uma decisão que pode resultar em impactos ambientais irreversíveis. As declarações que desqualificam o Ibama e seus servidores desrespeitam o papel fundamental da instituição na defesa do interesse público, que é seu objetivo final, independente do governo da vez.

O Ibama precisa ser reconhecido como órgão de Estado, motivo pelo qual propusemos uma emenda parlamentar para que passe a ter esse status e não fique sujeito a interferências políticas como a que o presidente Lula tenta implementar. Os servidores públicos dos órgãos de meio ambiente federais fizeram o possível para impedir retrocessos ambientais durante o governo Bolsonaro e continuarão atuando neste ou em qualquer outro governo que contrarie as necessidades de conservação socioambiental no Brasil.

É contraditório que um país que sediará a COP-30, um evento de relevância global para o enfrentamento das mudanças climáticas, adote posturas que fragilizam a governança ambiental e colocam em risco compromissos assumidos internacionalmente. O Brasil tem a oportunidade de se consolidar como potência ambiental e no desenvolvimento sustentável, e isso só será possível com o fortalecimento das instituições ambientais e o respeito aos seus processos técnicos.

A ASCEMA Nacional reforça seu compromisso com a proteção ambiental e a defesa de um serviço público independente, que atue com base na ciência e na legalidade, sem subordinação a interesses político-econômicos.

Brasília, 12 de fevereiro de 2025.

ASCEMA Nacional

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O Brasil sob o Lula III: uma economia fóssil e fortemente (agro) tóxica

Quem ouviu o discurso da terceira posse do presidente Lula ficou com a impressão que haveria algum nível de ruptura com o período de Jair Bolsonaro, fosse na pauta de costumes ou na ancoragem da economia brasileira. Passados pouco mais de dois anos, aquele discurso jaz abandonado nas práticas e costumes das ações práticas do governo Lula.

E, pior, o que se vê é o reforço do apoio às ações do latifúndio agro-exportador e sua agricultura envenenada, e ainda pressões explícitas para o avanço das explorações petrolíferas na região da foz do Rio Amazonas, uma área tão biodiversa quanto perigosa para a instalação das estruturas que tratam da extração de petróleo e gás.

Pouca gente nota, mas no Lula III até o discurso neodesenvolvimentista foi jogado para escanteio, e ninguém no atual governo faz sequer menção à ideia de que precisamos desenvolver o Brasil e não simplesmente correr atrás de superávits na balança comercial.  Vivemos uma época de realismo trágico, pois o que parece importar mesmo é garantir que Lula III vire Lula IV, sem que isso nos ofereça qualquer janela para um futuro menos poluído, quente e catastrófico como se antevê com o aprofundamento da crise sociambiental que as mudanças no clima da Terra estão trazendo.

O presidente Lula sequer nos aponta para o simulacro de utopia que seu discurso de posse sinalizou. Lula agora é uma versão garoto-propaganda da economia fóssil que se cala com os crimes cometidos contra os povos originários que são a nossa última barreira de defesa contra a perda das florestas tropicais. Há ainda que se lembrar que ao insistir na pavimentação da BR-319, Lula fornece a justificativa ideológica que todos os tipos de aventureiros existentes na Amazônia avancem de forma decidida para destruir o último grande bloco de reservas relativamente intacto que ainda escapou da sanha devastadora dos desmatadores. Mais ainda, fornece uma via de acesso fácil para que a destruição se espalhe, em que pesem todas as evidências científicas do que a destruição da floresta amazônica traz para o Brasil.

Curiosamente quem se arrisca a falar o óbvio sobre as ações práticas do Lula III ainda corre o risco da demissão sumária como foi o caso do economista David Deccache que foi demitido do posto de assessor da bancada federal do PSOL por ousar criticar o viés neoliberal do ministro Fernando Haddad.  Esse caso é uma expressão de como a visão fóssil e (agro) tóxica está enraizada na esquerda institucional que parece ter capitulado sem nenhuma vergonha a um modelo econômico que apenas reforça as profundas desigualdades historicamente existentes no Brasil.

Mas em meio a essa situação tão desafiadora é preciso dizer que não há tempo para lamentações. As tarefas postas pela perpetuação pela economia fóssil e (agro) tóxica precisam ser enfrentadas de forma urgente, até porque esse modelo é garantia de que continuaremos caminhando para um cenário climático catastrófico para a classe trabalhadora brasileira.  É preciso informar, dialogar e mobilizar todas as forças sociais que se opõe ao modelo neoliberal que controla o Estado brasileiro neste momento, independente de quem esteja no controle da máquina federal.  A verdade é que as consequências para a inação são fortes demais para que deixemos tudo como está, como se não houvesse outra saída. A verdade é que as saídas existem, mas não será com a continuidade de Lula como garantidor de um futuro melhor que isso vai acontecer. E quanto antes entendermos isso, mais fácil será iniciar a construção dos instrumentos que a crise social e climático nos demanda nesta conjuntura histórica.

Ah, sim, quando acenarem com o espantalho da extrema-direita, lembrem que tanto Hugo Motta quanto David Alcolumbre foram eleitos por uma aliança cada vez mais corriqueira entre o PT de Lula com o PL de Jair Bolsonaro.

ADUENF apoia realização da reforma agrária na Fazenda Santa Luzia

A diretoria da Associação de Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Aduenf) emitiu no início da tarde de hoje (11/02), uma nota de apoio à realização da reforma agrária na Fazenda Santa Luzia que compõe os bens da massa falida da Usina Sapucaia.

A nota da diretoria da Aduenf diz o seguinte:

A reforma agrária é um instrumento essencial para a promoção da justiça social e da distribuição equitativa da terra no Brasil. Em um país onde a concentração fundiária histórica perpetua desigualdades, garantir acesso à terra para aqueles que nela querem e precisam trabalhar é um passo fundamental para combater a pobreza, fortalecer a produção de alimentos e consolidar a cidadania no campo.
Nesse contexto, manifestamos nosso total apoio ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e às famílias que, na última segunda-feira (10/02), ocuparam a Fazenda Santa Luzia, na Usina Sapucaia, em Campos dos Goytacazes.
A ocupação das terras não foi um ato de conflito, mas sim um clamor por justiça, pelo cumprimento da função social da propriedade e pelo direito fundamental de viver do próprio trabalho.
Lamentavelmente, o governador Cláudio Castro preferiu tratar essa questão social como caso de polícia, mobilizando um grande contingente policial com o objetivo de expulsar os trabalhadores, mesmo sem nenhuma ordem judicial a favor da desocupação. Temendo atos de violência, as famílias preferiram se retirar das terras de forma pacífica.
Desejamos que as autoridades competentes reconheçam essa luta legítima e concluam nos próximos meses o processo de adjudicação da Fazenda Santa Luzia. Esta solução contemplará os princípios constitucionais da reforma agrária, garantindo às famílias o acesso à terra e promovendo um modelo de desenvolvimento rural mais justo e sustentável.”

Microplásticos podem bloquear vasos sanguíneos em cérebros de ratos, descobrem pesquisadores

Cientistas observam diminuição da função motora em roedores expostos a microplásticos

Microplásticos em um dedo

Microplásticos em um dedo. Pesquisadores disseram que o acúmulo de pedaços de plástico atrás de um bloqueio nos vasos sanguíneos do cérebro se assemelhava a um “acidente de carro”. Fotografia: Kinga Krzeminska/Getty Images

Por Tom Perkins para o “The Guardian”

Microplásticos podem se mover através do cérebro de ratos e bloquear vasos sanguíneos, essencialmente imitando coágulos sanguíneos que podem ser fatais ou prejudicar a função cerebral.

As descobertas são detalhadas em um artigo revisado por pares publicado pela Science Advances para o qual os pesquisadores usaram pela primeira vez imagens em tempo real para rastrear pedaços de plástico enquanto eles se moviam e se acumulavam nos vasos sanguíneos do cérebro. Quando um pedaço de plástico ficava preso, outros se acumulavam atrás dele, como um “acidente de carro”, relataram os autores .

Os autores então encontraram diminuição da função motora nos camundongos expostos a microplásticos, sugerindo impactos no cérebro. Embora evidências crescentes tenham vinculado microplásticos à neurotoxicidade, a pesquisa é a primeira a sugerir como – provavelmente reduz o fluxo sanguíneo.

“Esta revelação oferece uma lente através da qual podemos compreender as implicações toxicológicas dos microplásticos que invadem a corrente sanguínea”, escreveram os autores da Universidade de Pequim.

Microplásticos são pequenos pedaços de plástico adicionados intencionalmente a bens de consumo ou que são produtos de plásticos maiores se decompondo. As partículas contêm qualquer número de 20.000 produtos químicos plásticos, dos quais milhares, como BPA, ftalatos e Pfas, apresentam sérios riscos à saúde .

A substância foi encontrada em todo o corpo humano e pode atravessar as barreiras placentárias e cerebrais . Pesquisas recentes descobriram que microplásticos estão se acumulando em cérebros humanos em níveis muito mais altos do que há oito anos. A substância está ligada a um risco aumentado de ataque cardíaco e câncer , e é considerada um neurotóxico que pode causar múltiplas formas de disfunção cerebral, como a doença de Parkinson.

Até agora, muito pouco se sabe sobre como os pedaços de plástico se movem através do cérebro e por que eles podem causar algumas doenças e neurotoxicidade.

Para rastrear o plástico nos cérebros dos camundongos em tempo real, os pesquisadores deram a eles água cheia de poliestireno revestido com fluorescência, um material comum encontrado em produtos domésticos e embalagens. Usando uma técnica de imagem chamada microscopia de dois fótons, eles conseguiram observar como, em apenas algumas horas, os bits fluorescentes começaram a aparecer no cérebro.

Pesquisadores suspeitam que células imunes tinham, de fato, absorvido os pedaços de plástico, criando células de formato irregular. Conforme as células viajavam pelos minúsculos vasos do córtex cerebral, onde geralmente há mais curvas e mais fechadas, elas às vezes ficavam alojadas. Pedaços maiores de plástico eram mais propensos a ficarem presos.

Quando as células se alojavam, mais células se acumulavam, imitando o efeito de carros em um acidente de engavetamento. Os bloqueios reduziam o fluxo sanguíneo e às vezes se rompiam após alguns dias ou semanas, mas alguns persistiam além do fechamento do período de observação de quatro semanas do estudo.

Em avaliações comportamentais após exposição ao microplástico, os ratos expostos percorreram distâncias mais curtas e mais lentas do que aqueles que não foram expostos, e tiveram um desempenho ruim em um teste de labirinto que avalia a função da memória.

No entanto, os autores enfatizaram que não estava claro se os mesmos efeitos aconteceriam em um cérebro humano porque os vasos não são tão pequenos quanto os de camundongos, e o volume e a taxa de fluxo sanguíneo são maiores. Ainda assim, isso apontou fortemente para sérios riscos à saúde cardiovascular e cerebral, e “o aumento do investimento nessa área de pesquisa é urgente e essencial para compreender completamente os riscos à saúde representados pelos microplásticos no sangue humano”, escreveram os autores.


Fonte: The Guardian

Terras ocupadas pelo MST em Campos dos Goytacazes sofrerão adjudicação para serem usadas para reforma agrária

Mobilização teve a capacidade de fazer o governo Lula para acelerar o processo de reforma agrária da área – Foto: divulgação

Em um desdobramento bastante peculiar para os tempos que vivemos onde falta ousadia e coragem para enfrentar os descalabros cotidianos, a ocupação organizada pelo MST em uma fazenda de propriedade da falida Usina Sapucaia, o governo Lula decidiu usar o instrumento da adjudicação para criar mais um assentamento de reforma agrária em Campos dos Goytacazes.

Para quem nunca ouviu falar de adjudicação, este termo serva para designat “um ato judicial ou extrajudicial que consiste na transferência de bens de um devedor para um credor. O objetivo é quitar a dívida do devedor“. 

A boa nova foi publicizada em vídeo pela deputada estadual Marina do MST (PT/RJ) que se manifestou no início da noite de ontem sobre o resultado das negociações realizadas pelo movimento social com o ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira (ver abaixo).

O que me parece interessante nesse desdobramento tão rápido para algo que já se desenrolava há décadas, é que foi necessário que 400 famílias que demandam a execução da reforma agrária ocupassem uma das fazendas da Usina Sapucaia para que um ato que devia ser rotineiro, mas não é, fosse colocado em marcha para entregar terra para quem quer produzir alimentos.

O mais curioso é que neste município tão rico mas que possui uma massa de pessoas vivendo abaixo da linha da miséria, o que não falta é terra pronta para ser “adjudicada” em função das dívidas bilionárias que o setor sucro-alcooleiro possui com o Estado brasileiro. 

Não vamos nem falar nas dívidas tributárias e trabalhistas que as usinas falidas ainda devem para a União e seus ex-empregados. Afinal, apenas no caso da Usina Sapucaia, dados do portal Lista de Devedores do governo federal, apontam que a empresa acumula dívidas superiores a R$ 208 milhões, incluindo mais de R$ 90 milhões em débitos previdenciários não pagos aos trabalhadores.   No caso de Campos dos Goytacazes, bastaria dar uma olhada no estoque de dívidas existentes pela tomada de empréstimos milionários com o Fundo de Desenvolvimento do Município de Campos (Fundecam) que certamente já se identificariam milhares de hectares prontos para ser “adjudicados” e entregues para famílias pobres implantarem sistemas agrícolas voltados para a produção de alimentos.

Aliás, falando nas dívidas milionárias do Fundecam, talvez esse fosse o momento perfeito para os vereadores que assinaram a nota de repúdio contra a ocupação da Fazenda Santa Luzia decidirem criar uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para apurar de forma ampla, geral e irrestrita, o montante das dívidas existentes pelo setor sucro-alcooleiro com o município de Campos dos Goytacazes.  É que pau que bate em Chico, precisa bater primeiro nos Franciscos que devem bilhões aos cofres municipais.  Com a palavra os vereadores campistas, especialmente os que se dizem de oposição, mas valendo também para os que são claramente da situação!

Uma dica para começo da apuração é o caso da Usina Paraíso que em 2021 mereceu uma série de reportagens no Portal Viu que apurou uma situação para lá de estranha que envolvia personagens bem conhecidos na nossa cidade.

Em tempo: quem estuda a reforma agrária como eu estudo sabe que a sua realização representaria um salto para frente sem precedentes na história do Brasil.  Por isso, que o exemplo das famílias lideradas pelo MST possa resultar em muitas outras adjudicações. É que dívida para ser paga é o que não falta por estas bandas.

A ocupação do MST tira o véu das dívidas milionárias da Usina Sapucaia e reforça urgência da reforma agrária

A reforma agrária continua sendo o único mecanismo capaz de trazer paz e justiça no campo

A rápida reação do chamado setor (im) produtivo combinada com uma rara unanimidade na Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes (ver imagens abaixo) tem como objetivo ocultar um fato que a ocupação liderada pelo MST deixa escancarado: as dívidas milionárias que a Usina Sapucaia possui com o governo federal e com os seus antigos trabalhadores.

A ação do governo de Cláudio Castro para forçar a retirada dos trabalhadores sem terra da Fazenda Santa Luzia, que pertence à massa falida da Usina Sapucaia, é uma espécie de coroamento de uma aliança anti-reforma agrária. Tal aliança nada santa busca apenas impedir que seja feita justiça com centenas de famílias que vivem na mais completa miséria, enquanto dívidas milionárias continuam, como diria Bob Dylan, “blowing in the wind“.

Grande efetivo da Polícia Militar está impedindo entrada de água e alimentos no acampamento de trabalhadores rurais sem terra na Fazenda Santa Luzia

É importante lembrar aos vereadores que assinaram a nota de repúdio à ocupação da Fazenda Santa Luzia que a única forma de garantir um efetivo compromisso com o desenvolvimento sustentável, defender o direito dos trabalhadores e manter a legalidade seria cobrar do governo Lula a rápida desapropriação das terras da Fazenda Santa Luzia e sua transformação em uma assentamento de reforma agrária.

O resto, me perdoem, é tampar o sol com a peneira.  Fato que nessa planície tão ensolarado é um grande nada.

Deputada Marina do MST denuncia ação ilegal contra ocupantes da Fazenda Santa Luzia

A deputada estadual Marina do MST (PT/RJ)denuncia o bloqueio feito contra 400 famílias que ocupam fazenda em Campos dos Goytacazes. Segundo Marina, este bloqueio está impedindo a chegada água, comida e solidariedade ao acampamento montado na Fazenda Santa Luzia.

Ainda segundo a deputada, a Polícia Militar teria recebido “ordens superiores” do governador Claúdio Castro para despejar à força quem luta por terra e dignidade. Segundo ela, isso configura repressão e injustiça!

Marina aponta que, enquanto a Usina Sapucaia deve 200 milhões à União, famílias sem terra são tratadas como criminosas.  Segundo a deputada, a reforma agrária é um direito, não um favor!

É importante afirmar a solidariedade com essas 400 famílias e denunciar a tentativa de criminalizar quem luta pela reforma agrária.

Veja a declaração completa da deputada Marina do MST no vídeo abaixo.

Perfilamento de oponentes da indústria de agrotóxicos foi interrompida nos EUA após a prática da empresa ser exposta

Por Carey Gillam, Margot Gibbs e Elena Debre para o “the Nee Lede”

Uma empresa norte-americana que estava secretamente traçando perfis de centenas de defensores da alimentação e da saúde ambiental em um portal privado interrompeu as operações devido à reação generalizada após suas ações terem sido expostas pelo The New Lede em colaboração com o Lighthouse Reports e outros parceiros de mídia.

A empresa de St. Louis(Missouri), v-Fluence, está fechando o serviço, que ela chamou de “wiki de stakeholders”, que apresentava detalhes pessoais sobre mais de 500 defensores ambientais, cientistas, políticos e outros vistos como oponentes de pesticidas e culturas geneticamente modificadas (GM). Entre os visados ​​estava Robert F. Kennedy Jr., a escolha controversa do presidente Trump para Secretário de Saúde e Serviços Humanos. 

Os perfis frequentemente forneciam informações depreciativas sobre os oponentes do setor e incluíam endereços residenciais, números de telefone e detalhes sobre membros da família, incluindo crianças.

Os perfis foram fornecidos a membros de um portal da web somente para convidados, onde a v-Fluence também ofereceu uma variedade de outras informações para sua lista de mais de 1.000 membros. A associação incluía funcionários de agências regulatórias e políticas dos EUA, executivos das maiores empresas agroquímicas do mundo e seus lobistas, acadêmicos e outros. 

O perfil foi parte de um esforço para minimizar os perigos dos agrotóxicos, desacreditar oponentes e minar a formulação de políticas internacionais, de acordo com registros judiciais, e-mails e outros documentos obtidos pela redação sem fins lucrativos Lighthouse Reports. A Lighthouse colaborou com The New Lede, The Guardian , Le Monde, Africa Uncensored, Australian Broadcasting Corporation e outros parceiros de mídia internacionais na publicação da investigação em setembro de 2024.

As notícias sobre o perfil e o portal privado geraram indignação e ameaças de litígio por parte de algumas das pessoas e organizações perfiladas.

O professor pesquisador de Londres Michael Antoniou, que foi perfilado no portal com informações depreciativas sobre sua vida pessoal e de membros da família, disse temer que as ações para remover os perfis possam ser “muito pouco e tarde demais”.

“Aqueles de nós que foram perfilados ainda não sabem quem acessou as informações e como elas foram usadas”, ele disse. “Isso nos atrapalhou em nossas carreiras ou fechou portas que de outra forma poderiam estar abertas para nós? O fato de que a V-Fluence e as indústrias que ela atende recorreram a esses métodos desonestos mostra que eles não conseguiram vencer no nível da ciência.”

A V-Fluence não apenas eliminou o perfil, mas também fez “cortes significativos de pessoal” na esteira da exposição pública, de acordo com  Jay Byrne, o ex-executivo de relações públicas da Monsanto que fundou e lidera a v-Fluence. Byrne culpou as dificuldades da empresa pelos “custos crescentes do assédio contínuo de litigantes e ativistas à nossa equipe, parceiros e clientes com ameaças e falsas representações…” 

Ele disse que os artigos publicados sobre o perfil da empresa e o portal privado eram parte de uma “campanha de difamação” baseada em “representações falsas e enganosas” que “não eram apoiadas por nenhum fato ou evidência”.

Para piorar os problemas da empresa, vários patrocinadores corporativos e organizações do setor cancelaram contratos com a v-Fluence, de acordo com uma publicação para profissionais da agricultura.  

“Reunião de informações”

Desde seu lançamento em 2001, a v-Fluence tem trabalhado com os maiores fabricantes de agrotóxicos do mundo e fornecido serviços autodescritos que incluem “coleta de informações”, “mineração de dados proprietários” e “comunicações de risco”.  

Um cliente de mais de 20 anos é a Syngenta, uma empresa estatal chinesa que está sendo processada por milhares de pessoas nos EUA e Canadá que alegam que desenvolveram a doença cerebral incurável Parkinson por usar os herbicidas paraquat da Syngenta. O primeiro teste nos EUA está programado para começar em março. Vários outros estão programados para os meses seguintes.

Byrne e v-Fluence são nomeados como co-réus em um dos casos contra a Syngenta. Eles são acusados ​​de ajudar a Syngenta a suprimir informações sobre os riscos de que o paraquat da empresa poderia causar a doença de Parkinson e de ajudar a “neutralizar” seus críticos. (A Syngenta nega que haja uma ligação causal comprovada entre o paraquat e o Parkinson.) Byrne contesta as alegações no processo. 

A v-Fluence, que também tinha a antiga Monsanto Co. como cliente , garantiu algum financiamento do governo dos EUA como parte de um contrato com uma terceira parte. Registros de gastos públicos mostram que a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID) contratou uma organização não governamental separada que gerencia uma iniciativa governamental para promover culturas GM em nações africanas e asiáticas.

Essa organização, o Instituto Internacional de Pesquisa em Política Alimentar (IFPRI), pagou à v-Fluence um pouco mais de US$ 400.000, aproximadamente entre 2013 e 2019, por serviços que incluíam o enfrentamento de críticas às “abordagens agrícolas modernas” na África e na Ásia.

O “portal de rede social privada” criado pela v-Fluence era parte do contrato e deveria fornecer, entre outras coisas, “suporte tático” para esforços de ganhar aceitação para as culturas GM . A empresa chamou a plataforma de “Bonus Eventus”, nomeada em homenagem ao deus romano da agricultura  cujo nome se traduz como “bom resultado”.

Um contrato separado assinado pelo Departamento de Agricultura dos EUA nos últimos meses do primeiro mandato do presidente Donald Trump também forneceu aos funcionários do governo acesso ao portal, incluindo os “documentos de histórico das partes interessadas” sobre cientistas e ativistas que a v-Fluence diz ter removido. 

O perfil de Kennedy o descreveu como “um litigante ativista antivacinas, anti-OGM e antipesticidas que defende várias alegações de conspiração em matéria de saúde e meio ambiente”.

Questões legais

Após as operações se tornarem públicas em artigos do The New Lede, do The Guardian e de parceiros de mídia, a v-Fluence contratou um escritório de advocacia para conduzir uma revisão independente sobre se o perfil pode ou não ter violado o Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR) da União Europeia. O regulamento tem como objetivo proteger o direito de um indivíduo sobre a coleta e o uso de seus dados pessoais.

A análise descobriu que a v-Fluence “não estava sujeita ao GDPR”, mas recomendou que a v-Fluence lidasse com “dados pessoais da UE consistentes com os requisitos do GDPR no caso de o Regulamento ser considerado aplicável”, disse a empresa em uma declaração . Uma das recomendações foi remover os perfis, reconheceu a empresa.  

A v-Fluence continuará a “oferecer pesquisas às partes interessadas com diretrizes atualizadas para evitar futuras interpretações errôneas do nosso produto de trabalho”, de acordo com a declaração da empresa.

Wendy Wagner, professora de direito na Universidade do Texas com experiência na regulamentação de substâncias tóxicas, disse que parecia haver poucos motivos para manter esse banco de dados, além de ser usado para assediar oponentes.

“Estou bastante familiarizado com o assédio corporativo de cientistas que produzem pesquisas indesejadas, e às vezes isso inclui desenterrar informações pessoais sobre o cientista para fazer seu trabalho parecer menos confiável”, disse Wagner. “Mas não encontrei o uso de bancos de dados maiores que rastreiam detalhes pessoais de vários críticos de uma corporação (incluindo cientistas e jornalistas independentes). É difícil ver a relevância de detalhes pessoais sem o uso como assédio.”

(As jornalistas do Lighthouse Margot Gibbs e Elena DeBre foram coautoras deste artigo.) 

(Este artigo foi publicado em parceria com o The Guardian.)


Fonte: The New Lede

MST ocupa fazenda para pressionar a execução da Reforma Agrária no Norte Fluminense

Cerca de 400 famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam a Fazenda Santa Luzia que pertence à Usina Sapucaia

Integrantes do MST na Fazenda Santa Luzia, próximo à Usina Sapucaia (Reprodução)

Por J3 News 

Na manhã desta segunda-feira (10), cerca de 400 famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam a Fazenda Santa Luzia, pertencente à Usina Sapucaia, em Campos dos Goytacazes (RJ). O grupo reivindica a conclusão do processo de adjudicação (ato judicial que dá a alguém a posse e a propriedade de determinados bens) de duas matrículas que tramitam no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA-RJ).

A reportagem entrou em contato com a assessoria da Coagro, indústria que funciona nas instalações da Usina Sapucaia para um posicionamento sobre a situação.

Em um comunicado oficial, a empresa diz que “repudia veementemente a invasão de terras produtivas pertencentes à Usina Sapucaia e arrendadas à cooperativa desde 2013. Essas áreas, arrendadas em processo judicial, são fundamentais para a geração de empregos e o sustento de milhares de famílias em Campos e Região” (leia na íntegra abaixo).

Veículos estacionados na fazenda ocupada pelo MST

A assessoria do MST afirma que áreas ocupadas serão destinadas à Reforma Agrária ainda este ano, com processos avançados na Procuradoria Geral da Fazenda Nacional. De acordo com o MST, as terras estão atreladas a dívidas superiores a R$ 200 milhões com a União, incluindo mais de R$ 90 milhões em débitos previdenciários devidos a trabalhadores.

A ocupação faz parte da estratégia do MST para pressionar o governo a acelerar a destinação das terras, garantindo o assentamento das famílias que desde abril do ano passado estão acampadas às margens da BR-101, próximo ao Morro do Coco. O movimento reivindica urgência na conclusão do processo e na efetiva implementação da Reforma Agrária nessas áreas.


Fonte: J3 News