A insustentável leveza da inteligência artificial

Por Silvia Ribeiro para o “La Jornada”

O desenvolvimento rápido, desregulado e geralmente desnecessário de sistemas de inteligência artificial levou a um aumento brutal no consumo de água doce e energia globalmente, especialmente em comunidades onde grandes data centers estão instalados. Isso traz consigo um aumento global de gases de efeito estufa que aceleram a crise climática, além de impactos ambientais e à saúde.

Não é um desenvolvimento baseado na demanda . Há atores poderosos que a promovem agressivamente: a oligarquia tecnológica que agora governa os Estados Unidos sem ter um único voto. É uma estratégia deliberada para aumentar a dependência do usuário e o controle sobre os dados e o comportamento do usuário.

Tecnologias com inteligência artificial geral existem há décadas e podem ou não ser úteis para automatizar algumas atividades, dependendo do contexto, necessidades, alternativas, custos e impactos que acarretam. O desenvolvimento recente da chamada inteligência artificial generativa (GAI) é diferente porque não apenas coleta e sistematiza dados, mas também produz novos conteúdos que podem ser texto, imagens, som e até mesmo novas formas biológicas. Esse tipo de inteligência artificial sustenta aplicativos como o ChatGPT e similares. Exige processos de treinamento extensivos com grandes modelos de linguagem e conjuntos de dados cada vez mais volumosos, o que implica um aumento exponencial no uso de computadores, servidores, infraestrutura e, portanto, energia, água, recursos e geração de poluição e resíduos.

A digitalização em todos os setores industriais e seu uso individual em plataformas e redes sociais geram imensos volumes de dados que, para funcionar, exigem muitos computadores interconectados, ou seja, data centers que podem armazenar, processar, extrapolar e reinterpretar. Esses centros são a base física das nuvens de computação. Atualmente, três das maiores empresas da oligarquia tecnológica – Amazon, Microsoft e Google – controlam 66% das nuvens de computação do mundo e, junto com a Meta (dona do Facebook), 70% dos cabos submarinos.

Cecilia Rikap, do University College London, entrevistada na série Data Vampires pelo analista canadense Paris Marx, explica que grandes empresas de tecnologia estabeleceram uma estratégia deliberada de centralizar informações digitais em suas meganuvens. Ela é apresentada a empresas, instituições e governos como uma solução eficiente para evitar a criação de uma infraestrutura digital própria, com contratos que supostamente podem ser interrompidos. De fato, devido às constantes atualizações de programas e aplicativos de interconexão, fica muito difícil para quem contrata esses serviços revogar e até mesmo controlar o uso de suas informações. Os proprietários da nuvem ganham dinheiro vendendo o serviço, ao mesmo tempo em que aumentam seu acesso a mais dados e lucram com o negócio de vender ou usar a interpretação desses dados para influenciar escolhas de consumidores, políticas ou quaisquer outras.

Em 2018, havia 430 grandes data centers no mundo todo. No final de 2023 eram 992, atualmente são mais de mil. Com o uso da inteligência artificial generativa, estima-se que o número de grandes data centers dobre a cada 4 anos, sendo a maioria em hiperescala, uma categoria para aqueles com mais de 5.000 servidores e 10.000 pés quadrados de área de superfície. Por exemplo, a Amazon Web Services (AWS) está instalando um centro com mais de 50 mil servidores em Minnesota,

Com o sucesso de vendas do ChatGPT, todas as grandes empresas de tecnologia investiram no desenvolvimento de aplicativos com o IAG. A China acaba de anunciar o DeepSeek, um aplicativo muito mais barato que os dos EUA. Eles também incorporaram sistemas IAG em mecanismos de busca, celulares e diversos dispositivos, muitas vezes sem nos dar a opção de não usá-los, o que aumenta exponencialmente a demanda por água e energia sem que possamos decidir sobre isso.

De acordo com Sasha Luccioni, cientista da computação entrevistado pelo Data Vampires, a diferença entre fazer um cálculo matemático em uma calculadora manual com energia solar ou usar o ChatGPT pode multiplicar o uso de energia em até 50 mil vezes. Uma pergunta e resposta no ChatGPT ou em um mecanismo de busca de IA consome entre 0,5 e um litro de água. Também sujeito a erros frequentes e sem fornecer fontes.

As necessidades de água e energia são brutais e levaram a conflitos com diversas cidades onde estão instalados data centers. Cingapura, Irlanda e Holanda impuseram moratórias à instalação desses centros devido ao alto consumo de recursos.

Na América Latina, os principais locais para instalação de mega data centers são São Paulo, Brasil, e Querétaro, México. Em terceiro lugar está Quilicura, em Santiago do Chile, onde já há protestos da população contra essas instalações.

Os impactos ambientais, de saúde, sociais e políticos locais e globais do IAG são sérios e afetam a todos. Os lucros vão para um pequeno grupo de ultra-ricos.


Fonte: La Jornada

Manguezais no Rio de Janeiro: em tempos de mudanças climáticas, o descuido desses ecossistemas é garantia de tragédia

Por Carlos Eduardo de Rezende

Os manguezais são ecossistemas de extrema importância ecológica, social e econômica, ocupando uma extensa faixa do litoral brasileiro, ao longo de 6.800 km de costa. Com uma cobertura estimada em 1,38 milhão de hectares, o Brasil, junto com a Austrália, abriga a segunda maior área de manguezais do planeta.

Apesar de representarem apenas cerca de 1% da cobertura vegetal global, os manguezais desempenham um papel essencial na manutenção da biodiversidade marinha, fornecendo matéria orgânica e áreas de reprodução para diversas espécies de vertebrados e invertebrados. Além disso, são fundamentais para a estabilidade da zona costeira, atuam como barreiras biogeoquímicas na retenção de poluentes e são considerados ecossistemas estratégicos para a mitigação das mudanças climáticas.

No entanto, a ideia de que os manguezais vêm sendo valorizados e preservados nos últimos tempos não se sustenta diante dos dados disponíveis. Estudos baseados em levantamentos de campo e sensoriamento remoto revelam uma perda progressiva dessas áreas ao longo do último século, chegando, em alguns locais, à supressão total do ecossistema.

Um exemplo próximo é a foz do Rio Paraíba do Sul, onde estudos realizados, por nosso grupo de pesquisa em 2010, constataram perdas significativas, como nas regiões de Atafona e nas Ilhas do Lima e Graça. A degradação, principalmente por ação humana, dos manguezais nessa área tem contribuído para o avanço da erosão costeira e para a redução da pesca, especialmente do camarão. A queda na produção pesqueira, por sua vez, está associada a dois fatores principais: o uso de redes de pesca com malhas inadequadas, que capturam indivíduos ainda jovens, sem ter se reproduzido uma única vez, e a drástica redução da vegetação de manguezal nos estuários dos rios Paraíba do Sul e Itabapoana.

A destruição dos manguezais tem implicações econômicas expressivas. Entre 1986 e 2001, por exemplo, o estuário do Rio Paraíba do Sul perdeu aproximadamente 200 hectares de manguezal, representando uma taxa de supressão de 13 hectares por ano, assumindo obviamente uma taxa anual, que pode ter sido diferente, isto é, alguns anos maiores e em outros menores. Considerando que cada hectare de manguezal armazena cerca de 6 toneladas de carbono e que o valor de mercado do carbono é de R$ 400,00 por tonelada, essa perda equivale a aproximadamente R$ 500.000,00 por ano. No entanto, esse cálculo não inclui outros impactos econômicos indiretos, como a intensificação da erosão costeira, a redução da pesca e a perda de serviços ambientais essenciais, como o controle hidrológico.

Diante desse cenário, é fundamental promover estratégias de conservação e manejo sustentável dos manguezais, garantindo sua proteção e integrando a valorização econômica desse ecossistema com o desenvolvimento sustentável. Políticas públicas eficazes e ações locais de recuperação e monitoramento contínuo são essenciais para reverter esse quadro e assegurar que os benefícios ambientais, sociais e econômicos dos manguezais sejam mantidos para as gerações futuras.

Os serviços ambientais  fundamentais que são cumpridos pelos ecossistemas de manguezais e a necessidade urgente de sua proteção

Mangue conservado transforma pescadores em guias de turismo | Agência Brasil

No estado do Rio de Janeiro, as maiores áreas de manguezal encontram-se na foz do rio Paraíba do Sul e nas baías de Guanabara, Sepetiba e Angra dos Reis. Esses ecossistemas, que ocupam aproximadamente 16.000 km², abrigam espécies típicas como Avicennia germinans (L.) Stearn., Avicennia schaueriana Stapft & Leechm., Laguncularia racemosa (L.) Gaertn. e Rhizophora mangle L. Segundo uma proposta de classificação (1990), os manguezais do Norte Fluminense estão incluídos na Unidade que se estende do Recôncavo Baiano (13º00’S) até Cabo Frio (23º00’S). Nessa região, destacam-se os manguezais localizados na foz dos três principais rios do litoral norte: Itabapoana, Paraíba do Sul e Macaé.

Os manguezais são ecossistemas fundamentais para a manutenção da biodiversidade, pois abrigam espécies vegetais e animais de elevada importância ecológica. Muitas plantas ocorrem associadas a esses ambientes, e sua diversidade reflete tanto as condições climáticas locais quanto a proximidade com outros ecossistemas. A composição da flora é altamente variável entre regiões e até mesmo dentro de um mesmo sistema. Entre as espécies associadas mais amplamente distribuídas no Brasil, destacam-se Acrostichum aureum L., Conocarpus erecta L., Hibiscus pernambucensis Arruda e a gramínea Spartina alterniflora Loisel.

A fauna dos manguezais também é rica e diversa. Os caranguejos, por exemplo, são espécies bandeira desse ecossistema e ocorrem em toda a costa brasileira, desempenhando um papel crucial na ciclagem de nutrientes e na manutenção do equilíbrio ecológico. Além deles, diversas espécies de moluscos (ostras, mexilhões), aves, répteis e peixes encontram abrigo e alimento nesses habitats, evidenciando sua importância ecológica e socioeconômica.

Apesar da relevância desses ecossistemas, há poucas informações sobre os atributos estruturais e a dinâmica dos manguezais da região Norte do Estado do Rio de Janeiro. Alguns estudos foram conduzidos pelo nosso grupo de pesquisa, como os da Dra Elaine Bernini, ex-aluna da Uenf e atualmente professora na Universidade Federal da Paraíba. No entanto, a carência de dados dificulta a determinação de padrões estruturais para esses manguezais. Por outro lado, pesquisas mais avançadas já foram desenvolvidas nos manguezais da Baía de Guanabara, Baía de Sepetiba e Lagoa da Tijuca, fornecendo subsídios importantes para a compreensão desses ecossistemas.

O estudo da estrutura da vegetação dos manguezais é essencial para sua conservação e manejo sustentável. Esse tipo de pesquisa envolve a caracterização da altura das árvores de cada espécie, o número de indivíduos vivos e mortos em uma determinada área, o diâmetro médio dos troncos, a quantidade de plântulas – plantas jovens – por área, os períodos de floração e frutificação, além do padrão de distribuição das espécies ao longo do tempo e do espaço. Esses parâmetros são fundamentais para embasar qualquer iniciativa de recuperação da vegetação suprimida ilegalmente por atividades humanas.

A preservação dos manguezais é uma questão ambiental e social de grande relevância. Além de funcionarem como berçários naturais para inúmeras espécies marinhas e estuarinas, esses ecossistemas protegem a linha costeira contra erosão, regulam a qualidade da água e fornecem recursos essenciais para comunidades tradicionais. Assim, estudos sobre sua estrutura e dinâmica devem ser incentivados, garantindo a manutenção da biodiversidade e a sustentabilidade dos serviços ecossistêmicos que eles oferecem para toda sociedade.

 Tarefas que continuam ignorados pelas diferentes esferas de governo na proteção e conservação dos manguezais

Com toda sinceridade, não vejo nenhuma ação concreta por parte do poder público para modificar o cenário de desmatamento e degradação desta importante vegetação costeira, exceto pela elaboração de documentos formais que, na prática, têm apresentado poucos resultados na conservação e no uso sustentável desses valiosos recursos naturais. O Brasil, de fato, é pródigo em documentar boas intenções, mas, muitas vezes, falha em implementar o que é proposto nos expedientes legais.

Recentemente, a Presidência da República, por meio da Casa Civil e da Secretaria Especial para Assuntos Jurídicos, publicou o Decreto nº 12.045, de 5 de junho de 2024, que institui o Programa Nacional de Conservação e Uso Sustentável dos Manguezais do Brasil, denominado ProManguezal. A divulgação desse decreto é relevante, pois demonstra uma intenção formal de conservar esse ecossistema crucial. Contudo, um decreto não possui a mesma força normativa de uma lei, o que já evidencia a dificuldade na implementação do que está previsto no ProManguezal. O descumprimento de decretos pelos estados e municípios muitas vezes ocorre pelo simples fato de que não foram discutidos e aprovados no legislativo, o que enfraquece a eficácia de qualquer iniciativa estabelecida por esse meio.

Portanto, embora existam mecanismos legais que deveriam garantir a conservação e o uso sustentável dos manguezais ao longo da costa brasileira, o cenário atual é alarmante e extremamente vulnerável em todas as regiões, especialmente devido ao alto interesse econômico sobre essas áreas costeiras. Para que uma política pública consistente e eficaz seja estabelecida, é imprescindível que ela se baseie em sólidos argumentos científicos e que haja um compromisso genuíno por parte dos políticos em promover uma mudança de comportamento em relação aos recursos naturais e sua conservação.

Entre os múltiplos bens e serviços frequentemente destacados na literatura – como o fornecimento de matéria orgânica para a cadeia alimentar costeira, a função de área de reprodução para vertebrados e invertebrados marinhos, e a estabilização da zona costeira –, este texto enfatiza, sobretudo, a relevância dos manguezais no ciclo global da matéria orgânica e seu papel crucial na dinâmica de poluentes. Além disso, espero que este texto contribua para estimular o interesse de novos pesquisadores na atuação junto aos ecossistemas de manguezais, pois acredito que essa é uma das muitas responsabilidades de cientistas e professores de universidades comprometidas com o bem-estar da humanidade.

Carlos Eduardo de Rezende é Professor Titular do Laboratório de Ciências Ambientais, Centro de Biociências e Biotecnologia, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf).


Uma reportagem sobre a importância dos manguezais e a necessidade de sua proteção foi publicada por J3 News neste domingo 09/fev/2025 (Aqui!)

Não há final feliz, sem contar toda a história…uma missiva sobre o oportunismo do memorialismo fantástico

Por Douglas Barreto da Mata

Um movimento recorrente, que eu vou chamar aqui de memorialismo fantástico, se assanha, de tempos em tempos, na cidade de Campos dos Goytacazes. Suas motivações? Não ouso descrever todas, mas tenho cá minhas suspeitas. Já foram filiados à necrofilia do jornal Monitor Campista, como se coubesse ao dinheiro público (sempre a viúva!) o papel (sem trocadilhos) de embalsamar o espólio do filho menor do grupo Diários Associados, que teve como dono Assis Chateaubriand, uma espécie de Cidadão Kane tupinambá, um tipo que pariu Marinho e outros.

Antes, porém, o memorialismo se reuniu com as carpideiras do ciclo do açúcar em torno do Trianon, e deste soluçar nostálgico, essa nossa classe média ilustrada passou a defesa dos prédios, sim, apenas no aspecto conservacionista físico das construções, desconsiderando que o que mantém de pé as obras civis é gente.

É a história de gente que construiu, limpou, pintou, reformou nesses prédios, junto com aqueles que mandaram nessa gente.  São as classes e seus conflitos. 

Os objetos de desejo desse pessoal são casarões, tabacaria, que eles chamam da “terceira livraria mais antiga do Brasil”, enfim, tudo reunido em um sentimento confuso, que desconhece que cada edifício daqueles reúne o sofrimento, a exploração da mesma classe preta e pobre de sempre, e simboliza em suas fachadas a indiferença de sempre de seus donos, dourada a doses cavalares de falso intelectualismo e poses e gestos cosmopolitas, que um dia bailaram em seus salões.

Agora, essa turma resolveu olhar para o cinema, é um chamado ao passado de uma alegada “glória desse mercado de produção cultural” na cidade plana.  Motivada pelo oportunismo de uma produção de cinema empacotada para “vender”, que por opção comercial e estética sufocou a historicidade da ditadura em um drama familiar, como se fosse isso que realmente devemos saber, essa turma quer porque quer tirar uns trocados no dinheiro público, seja como fomento direto ou subvencionado por renúncias fiscais, com a justificativa de que Campos dos Goytacazes foi a terra do cinema.

Um parêntese. Na defesa apaixonada do filme “Ainda estou aqui”, os minimalistas da ditadura. São aqueles que defendem que as escolhas artísticas do Paiva filho (Marcelo) e do filho do banqueiro (Salles)  impediriam uma abordagem política e histórica do que houve com o desaparecido e sua família, eu diria que essa é uma mentira cavalar, como diria Ariano Suassuna. O filme é, sim, um alívio da história do país e da violência estatal, afogado em lágrimas de um drama pessoal verdadeiro, e que por isso permite a catarse anti histórica.

Há milhões de filmes que tratam de dramas pessoais, partindo dessa referência íntima, mas que não abrem mão de um contexto histórico preciso e bem contado.  Que o filho escreva um livro para homenagear sua mãe, e a luta dela pelo reconhecimento da responsabilidade do Estado, eu entendi e aplaudo de pé. Agora, um filme, um instrumento de intervenção pública com essa importância, escolher ignorar tudo em volta, e fazer parecer que um “bando de homens maus” mataram um ex-deputado é de doer. Central do Brasil, nesse sentido, foi um filme muito mais denso e útil. E muito melhor também, em minha opinião.  O filme é um tipo de: podemos falar de um drama da ditadura, sem falarmos em culpados e em quem apoiou o regime, como a própria produtora associada, a Globo filme, uma ironia doentia.

Voltando ao pessoal do memorialismo fantástico, é engraçado ver o esforço para reescrever o passado.  Agora teremos festival de cinema, blá, blá, blá.  Sim, ótimo, sou um entusiasta, mas e a periferia?  Qual vai ser o alcance dessa empreitada?  Quanto o contribuinte vai pagar, e qual será o retorno? Quanto de cinema vai impregnar o cotidiano das pessoas que já vivem um uma distopia digna de Ridley Scott e sua Los Angeles de Blade Runner?

Esses festivais, saraus e convescotes vão chamar os “replicantes” para o palco principal, ou a choldra vai ficar onde sempre esteve, nos backstages, lavando banheiros e servindo acepipes e bebidas nos foyers? Quantas projeções serão levadas às favelas e bairros pobres?  Enfim, o que esse festival vai melhorar a vida de quem vive aqui? Os pobres poderão contar suas histórias, vão ser incentivados a produzir, escrever e dirigirá suas histórias?

Em tempo, e para encerrar, estranho que  as centenárias liras e bandas sinfônicas da cidade estejam à míngua, e sejam depositárias de cultura (ainda) viva, e tradição na acepção exata do termo, isto é, entrega do passado para o presente, com a transmissão de saberes musicais, e nossos próceres do  memorialismo fantástico não os enxerguem.  Quem sabe um pequeno documentário? Ou um convite para abrirem o festival?

Duvido muito, afinal, o memorialismo fantástico se destina a nos convencer que fomos “grandes”, mas sabemos o quanto medíocres ainda somos.

Luta contra os fabricantes de agrotóxicos sacode o campo nos EUA

A batalha continua contra as proteções legais propostas para proteger os fabricantes de agrotóxicos

Por Carey Gillam para o “The New Lede”

Os esforços das empresas de agrotóxicos para aprovar leis que possam bloquear litígios contra elas estão gerando batalhas em vários estados agrícolas dos EUA e colocando alguns grupos agrícolas uns contra os outros.

Leis foram introduzidas em pelo menos 8 estados até agora e rascunhos estão circulando em mais de 20 estados, apoiados por uma enxurrada de publicidade apoiando as medidas.

A luta é particularmente feroz agora em Iowa, onde os oponentes chamam a lei proposta apoiada por agrotóxicos de “Cancer Gag Act”, devido aos altos níveis de câncer em Iowa que muitos temem estar ligados ao grande uso agrícola de agrotóxicos no estado. Iowa tem a segunda maior taxa de novos casos de câncer nos EUA e a taxa de câncer que mais cresce. 

Os organizadores contra o projeto de lei de Iowa estão planejando um comício no capitólio estadual na segunda-feira, depois que o senado estadual votou em 5 de fevereiro para avançar a medida. O projeto de lei impediria as pessoas de processar os fabricantes de agrotóxicos por não alertá-los sobre os riscos à saúde, desde que os rótulos dos produtos sejam aprovados pela Agência de Proteção Ambiental (EPA).  

Os oponentes dizem que a legislação impedirá que agricultores e outros usuários de agrotóxicos responsabilizem as empresas na justiça caso seus produtos causem doenças ou ferimentos.

“Estamos muito preocupados. Nossos fazendeiros acham que se tiverem ferimentos ou doenças devido ao uso de um agrotóxico, eles devem ter acesso aos tribunais”, disse Aaron Lehman, um fazendeiro de milho e soja de Iowa que é presidente do Iowa Farmers Union . “Nós simplesmente não achamos que o campo de jogo deva ser inclinado (em favor dos fabricantes de agrotóxicos).”

Mas os defensores da legislação dizem que estão tentando garantir que os agricultores não percam o acesso a herbicidas benéficos, inseticidas e outros produtos químicos que são comumente usados ​​no cultivo de alimentos. Eles sustentam que os advogados de responsabilidade civil exploram e induzem pessoas doentes a entrar com ações judiciais que não são apoiadas por evidências científicas, e tais ações devem ser limitadas.

Vários grandes grupos agrícolas, incluindo a Iowa Farm Bureau Federation, estão apoiando o projeto de lei.

As ações nos estados vêm junto com uma pressão simultânea por mudanças na lei federal que efetivamente protegeriam as empresas de processos movidos por pessoas que alegam ter desenvolvido câncer ou outras doenças devido ao uso de agrotóxicos.

A Bayer, proprietária alemã da antiga Monsanto Co., é a principal arquiteta da estratégia, projetada como um meio de combater milhares de processos movidos por fazendeiros e outros que culpam o uso dos herbicidas Roundup da Monsanto por causar câncer.

O litígio custou até agora à Bayer bilhões de dólares em acordos e vereditos do júri favorecendo os demandantes, e mais casos estão pendentes. A empresa diz que a busca pelas mudanças legislativas é necessária para proteger seus “investimentos importantes” e garantir que os fazendeiros não percam o acesso ao Roundup.

A Bayer diz que se uniu a mais de 360 ​​grupos de produtores e da indústria para impulsionar as mudanças legislativas federais e à coalizão de organizações agrícolas Modern Ag Alliance para lutar pelas mudanças nas leis estaduais que ajudam a proteger os fabricantes de pesticidas de litígios.

A CropLife America, que faz lobby em nome da Bayer e de outros fabricantes de agrotóxicos, afirma que a EPA é a “ agência federal especialista ” encarregada pelo Congresso de avaliar a segurança dos pesticidas. As empresas não têm a opção de adicionar avisos aos seus rótulos se a EPA não tiver considerado tais avisos precisos, de acordo com a CropLife .

Além de Iowa, as medidas estão avançando em outros estados. No Missouri, o antigo estado natal da Monsanto, a proposta de lei de proteção foi aprovada pelo House Agriculture Committee em 4 de fevereiro.

A legislação ainda não foi formalmente introduzida em Idaho, mas um rascunho tem circulado entre os legisladores, disse Jonathan Oppenheimer, diretor de relações governamentais da Idaho Conservation League. A liga e um contingente de outros grupos de oposição realizaram uma coletiva de imprensa na semana passada denunciando os esforços para aprovar o que os grupos chamam de lei de “Imunidade de Empresas Químicas”.

Eles citaram pesquisas que mostram níveis elevados de agrotóxicos em mulheres grávidas que vivem perto de campos agrícolas e um estudo que descobriu que a ocorrência elevada de câncer  está correlacionada à exposição ao uso destes produtos. 

“Há preocupações significativas com o fato de que a EPA não conduz seus próprios estudos de segurança sobre esses produtos antes de serem aprovados”, disse Oppenheimer. “Eles confiam nesses estudos de pesquisa da indústria. E quando você olha para o histórico de aprovação de agrotóxicos, houve vários casos em que os fabricantes sabiam que seus produtos causavam certos danos, mas buscavam limitar a divulgação pública desses estudos. Como resultado, muitos produtos perigosos estão no mercado há anos. Muitas vezes, leva décadas para a EPA retirar a aprovação desses produtos.”

Junto com as ações legislativas estaduais, a EPA abriu no mês passado um período de comentários públicos sobre uma petição apresentada pelos procuradores-gerais de Nebraska, Iowa, Alabama, Arkansas, Geórgia, Indiana, Louisiana, Montana, Dakota do Norte, Carolina do Sul e Dakota do Sul buscando uma emenda à lei federal que tornaria mais difícil para as pessoas processarem os fabricantes de agrotóxicos.

As modificações propostas proibiriam quaisquer requisitos de rotulagem estaduais que fossem “inconsistentes” com as conclusões da EPA sobre a segurança de um agrotóxico.

“Declarações ou conclusões sobre os efeitos do produto na saúde humana, incluindo a probabilidade de causar câncer, defeitos congênitos ou danos reprodutivos, que sejam diferentes das descobertas e conclusões da EPA” seriam consideradas “rotulagem enganosa”, afirma a emenda proposta.

Assim como as leis estaduais propostas, o texto essencialmente impediria ações judiciais contra fabricantes de pesticidas que os acusassem de não alertar o consumidor sobre certos riscos à saúde se a EPA não tivesse exigido que esses riscos fossem explicitados no rótulo do produto.

A EPA está aceitando comentários até 20 de fevereiro.

De volta a Iowa, espera-se que o projeto de lei seja aprovado pelo senado estadual, mas a projeção é de que enfrentará uma batalha difícil na câmara dos deputados.

Apesar de uma “enxurrada” de anúncios online e em jornais por parte dos proponentes do projeto de lei de Iowa, a oposição é forte, disse Andrew Mertens, diretor executivo da Associação de Justiça de Iowa, que se opõe ao projeto de lei.

“ Pesquisas em Iowa indicariam que o público em geral simplesmente não vai cair na mensagem da Bayer”, disse Mertens. “Mas os legisladores podem ser influenciados de maneiras que os eleitores não podem, então a luta está longe de acabar.” 


Fonte: The New Lede

Liberação de agrotóxicos mostra como governo Lula segue ‘refém’ de estrutura colonialista, diz Larissa Bombardi

Em 2024, Brasil liberou 663 agrotóxicos, 19% a mais do que ano anterior, superando marca alcançada por Bolsonaro

Por Lucas Salum para o “Brasil de Fato” 

Ano passado, o Brasil liberou 663 agrotóxicos. Embora a grande maioria se refira a produtos genéricos de outros agrotóxicos que já estavam aprovados no país, o número ligou sinal de alerta para pesquisadores que acreditavam que a atual gestão federal iria mudar a política de uso de venenos nas lavouras.

“A gente tem um governo, que se propõe progressista, refém de uma estrutura colonialista em que os proprietários de terra, ou os representantes dos proprietários de terra, controlam o país”, resume a pós-doutora em geografia humana Larissa Bombardi, em entrevista ao programa Bem Viver desta quinta-feira (6).

Ela é autora do livro Agrotóxicos e Colonialismo Químico que explica como a América Latina compra e consome produtos extremamente nocivos à saúde humana e ao meio ambiente, ao mesmo tempo que esses agrotóxicos são proibidos nos países de origem, principalmente nações da União Europeia.

“No Brasil, dos dez agrotóxicos mais vendidos, cinco são proibidos na União Europeia. E um deles, que se chama atrazina, que  é o quarto no ranking de vendas no Brasil, foi proibido na União Europeia, justamente, porque ele está dentro dessas substâncias consideradas extremamente tóxicas e ele está associado a diversos tipos de câncer, por exemplo, de ovário, próstata, tireóide, estômago, dentre outras.”

Na entrevista, a pesquisadora explica mais sobre a ligação do câncer com agrotóxicos e como se dá essa relação de colonialismo, que, segundo ela, segue se agravando ano após ano.

Confira a entrevista na íntegra 

Estamos na semana em que marca o Dia Mundial de Combate ao Câncer. Podemos relacionar o enfrentamento à doença com as políticas de agrotóxicos?

Nossa, é essencial conectar esses pontos. 

Tem uma sigla em inglês, HHP [Highly Hazardous Pesticides], que define os agrotóxicos extremamente perigosos. A maior parte desses agrotóxicos está proibida na União Europeia justamente porque eles causam não só uma intoxicação aguda – aquela situação em que a pessoa teve contato com a substância e passou mal, desmaiou, teve vômitos, dores ou coceiras, algo que é muito instantâneo –, mas também existe outro efeito mais invisível, por assim dizer.

São os efeitos crônicos da exposição agrotóxicos. O que é esse efeito? São doenças crônicas, dentre elas, principalmente, o câncer, que as pessoas desenvolvem em função da exposição cotidiana a essas substâncias. 

No Brasil, dos dez agrotóxicos mais vendidos, cinco são proibidos na União Europeia. E um deles, que se chama atrazina, que é o quarto no ranking de vendas no Brasil, foi proibido na União Europeia, justamente porque ele está dentro dessas substâncias consideradas extremamente tóxicas e ele está associado a diversos tipos de câncer, por exemplo, de ovário, próstata, tireóide, estômago, dentre outras.

Obviamente, que os trabalhadores rurais, os camponeses, a população que vive próximo a áreas com cultivo intensivo, estão mais expostas a essas substâncias, mas eu diria que a população como um todo está, por conta dos alimentos que a gente consome.

Essas substâncias estão presentes na alimentação e na água. Então, o glifosato, por exemplo, que é o agrotóxico mais vendido no Brasil, o mais vendido no mundo, foi considerado potencialmente cancerígeno para seres humanos pela Organização Mundial da Saúde há 10 anos, desde 2015. E, no Brasil, o resíduo dessa substância é 5 mil vezes mais permissivo do que aquele permitido na União Europeia.

Mesmo que a pessoa apenas consuma orgânicos, ela segue exposta aos agrotóxicos, certo?

O monitoramento que acontece no Brasil de resíduos de agrotóxicos é muito incipiente. Por exemplo, quando a gente fala de agrotóxicos nos alimentos, a gente tem essa representação na nossa cabeça de que a gente está falando de alimento fresco, frutas, verduras e legumes.

No entanto, a carne não é monitorada, a alimentação infantil não é monitorada, os ultraprocessados não são monitorados, as bebidas não são monitoradas. 

Então, grande parte da nossa alimentação sequer é monitorada. E houve anos em que sequer a soja, que responde por mais da metade do consumo de agrotóxicos no Brasil, também não foi monitorada. 

Realmente é uma violência invisível. É uma violência invisível no campo quando a gente fala dos conflitos fundiários em que essas substâncias têm sido utilizadas como armas químicas para uma  tentativa de expulsão de indígenas, de camponeses, de quilombolas de suas terras.

E ela é também uma, eu diria, uma violência invisível, na isenção de impostos para agrotóxicos. 

Como a senhora avalia a atuação do governo Lula diante deste cenário?

Eu diria que o governo está tímido. Achei muito importante esse pronunciamento dele com relação à comparação que ele fez Brasil e Alemanha, de que não é possível que o Brasil esteja exposto às substâncias que, por exemplo, a Alemanha não está. 

Mas os dados mostram um caminho diferente do que a gente esperava. Por exemplo, o número de novos agrotóxicos aprovados. Isso me remete ao título do meu livro [Agrotóxicos e Colonialismo Químico]. 

Quando a gente fala de colonialismo, obviamente a gente pensa no colonialismo histórico, no momento em que a Europa avançava sobre as terras da América, em que pilhava essas terras, ou seja, em que se apropriava dos recursos naturais por meio de extrema violência,

[Karl] Marx morou aqui em Bruxelas, onde eu vivo, e escreveu o Manifesto Comunista em 1847, 1848. Ou seja, naquele momento, a Europa já estava discutindo questões de trabalho, relações de trabalho, condição do trabalhador.. E a escravização de pessoas era algo impensável naquele momento histórico. 

No entanto, eram as companhias europeias que comercializavam as pessoas escravizadas, que traziam as pessoas da África para outras partes do mundo na condição de escravos. 

Então, aquilo que ela não tolerava para si, estava no auge mundo afora, patrocinado pela própria Europa.

Guardadas as devidas proporções históricas e geográficas, a gente está diante de uma Europa que não tolera algumas substâncias no seu território, mas que vende essas substâncias para outros países.

Só que o colonialismo não existe sem a colonialidade. Qual que é a parte da colonialidade? A colonialidade é essa maneira, essa forma como nós nos constituímos como nação, em que há uma pequena, minúscula elite, classe social, que controla a propriedade da terra. 

E isso se perpetuou na América Latina e no Brasil ao longo dos séculos. E o que é que a gente tem hoje? A gente tem um governo, que se propõe progressista, refém de uma estrutura colonialista em que os proprietários de terra, ou os representantes dos proprietários de terra, controlam o país.


Fonte: Brasil de Fato

A guerra tarifária de Trump alcançará o Brasil e colocará desafios para o governo Lula e para a extrema-direita

Pressionados por um déficit comercial considerável e pela necessidade de reverter esse quadro desfavorável, o presidente Donald Trump anunciou que vai começar a aumentar as tarifas de importações dos principais parceiros comerciais dos EUA, incluindo o Brasil.  O tamanho da facada ainda não se sabe, mas isso deverá ser anunciado nos próximos dias.

A opção por aumentar o nível das tarefas cobradas por produtos importados é o tipo “faca de dois gumes”, pois para os EUA só funcionará se os países e blocos visados pela ira tarifária de Trump não tomarem medidas reciprocas. E como a maioria das economias nacionais não vive um grande momento, a simples ideia de que não haverá reciprocidade é pouco crível.

O fato do Brasil estar na mira de Donald Trump gerará consequências inevitáveis para o governo do presidente Lula, já que os EUA são o segundo parceiro comercial do nosso país. Mas há que se lembrar que a balança comercial brasileira, ao contrário do caso chinês, possui um déficit na relação com os EUA. Assim, se Trump exagerar no sal tarifário com o Brasil, Lula terá a possibilidade de exercer uma reciprocidade que poderá doer mais lá do que as tarifas estadunidenses doerão por aqui.

O problema com o governo Lula é se haverá disposição de enfrentar a diplomacia do canhão que Trump ameaça usar contra todos aqueles que contrariarem seus planos de reestabelecer a hegemonia econômica dos EUA, cada vez mais ameaçada pela ascensão chinesa.

Um problema a mais é que Trump espertamente aliviou a mão na hora de assinar as tarifas contra a China, pois o agronegócio dos EUA tem todo interesse em competir com o brasileiro por uma fatia maior das importações chinesas de produtos agrícolas.  Aí talvez a coragem de enfrentar Trump receba algum anabolizante, pois será uma situação do tipo “bola ou bulica”, dada a atual dependência da balança comercial brasileira da exportação de commodities agrícolas e minerais.

A extrema-direita e seus próprios problemas com a diplomacia das tarifas de Trump

Congressistas brasileiros se reuniram em hotel para assistir à cerimônia de posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos | Divulgação - 20.jan.2025

Sem convites para o palco principal da posse de Trump, parlamentares da extrema-direita se reuniram em hotel para assistir à cerimônia de posse do presidente dos Estados Unidos

Se Trump pesar demais a mão contra o Brasil, a situação da extrema-direita brasileira também será de saia justa. É que praticando uma forma curiosa de nacionalismo adesista aos interesses dos EUA- lembremos aqui a ida de vários parlamentares do PL para celebrar a posse de Donald Trump (ainda que tenham ficado em locais de menor importância)-,  a extrema-direita agora terá de assistir ao terror tarifário que atingirá os principais financiadores de suas campanhas políticas. Será interessante ver como os Nikolas e Eduardos da vida vão explicar isso à base ruralista/evangélica que os sustenta. 

Uma das nuances dessa sinuca de bico é o fato de que o preço das commodities continua caindo em combinação com as perdas causadas por eventos climáticos extremos. Assim, sofrer a imposição de taxações salgadas poderá agravar a situação de várias empresas que sustentam o funcionamento do latifúndio agro-exportador que majoritariamente apoia políticos da extrema-direita. 

Assim, fiquemos prontos para ver como vai reagir a extrema-direita, já que não será possível culpar o governo Lula pela perda de competividade nos EUA, com a possibilidade de que ainda se tenha de brigar para manter ou ainda aumentar o acesso ao mercado chinês de commodities. 

Em suma, a extrema-direita tem pela frente um interessante desafio para seu modelo de nacionalismo adesista.

Na “The Lancet”, professor da UFF e do Programa de Políticas Sociais da Uenf alerta sobre ataques aos direitos reprodutivos das mulheres brasileiras

O professor da UFF-Campos e que atua como docente do Programa de Políticas Sociais da Uenf, Carlos Abraão Moura Valpassos é um dos co-signatários de uma correspondência que acaba de ser publicada pela prestigiosa revista científica “The Lancet”, uma das mais importantes do mundo na área de estudos médicos. Essa correspondência alerta para o avanço de propostas de legislação que restringem ainda o direito das mulheres brasileiras a decidirem sobre o seu próprio corpo, incluindo a proibição total do aborto, mesmo em casos de estupro e risco de vida para as mães.

Segundo os pesquisadores, um dos projetos que ilustram esse ataque é o Projeto de Lei 1904/24, que equipara abortos feitos após 22 semanas a homicídio, e que foi apresentado pelo deputado federal Sóstenes Cavalcanti (PL/RJ).   O projeto de Sóstenes Cavalcanti, argumentam os pesquisadores signatários,  é um reflexo da ascensão da extrema direita do Brasil após a eleição presidencial de Jair Bolsonaro em 2018. Além disso, eles argumentam que, mesmo com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, o Projeto de Lei 1904/24 simboliza a relevância contínua da extrema direita brasileira e a história da lei do aborto como um campo de batalha moral fundamental.

Na correspondência é lembrado que apenas em 2023, o Brasil registrou 83.988 ocorrências de estupro, o que equivale a um estupro a cada 6 minutos. Em função de ignorar esse dura realidade  em nome de uma pauta moralista que acaba reforçando o processo de violência contra as mulheres, o projeto de lei 1904/24 foi chamado de projeto de lei do estuprador, já que cria uma situação em que as penas para estupro são menores do que para abortos após 22 semanas devido a gestações resultantes de estupro.

Quem desejar ler, o teor completo da correspondência publicada pela “The Lancet”, basta clicar [Aqui!].

Carros da Tesla de Elon Musk se tornam tóxicos com queda nas vendas na Europa e no Reino Unido

As vendas de veículos elétricos na região estão crescendo, mas não para a Tesla

As vendas da Tesla na Europa saíram do cais e caíram na água. Crédito: HAKON MOSVOLD LARSEN/NTB/AFP via Getty Images

Por Jonathan M. Gitlin para a “ARS Technica” 

Os primeiros dados de vendas de carros para janeiro estão começando a chegar de países do outro lado do oceano, e eles pintam um quadro alarmante para a Tesla. As vendas estão caindo na França, Alemanha e Reino Unido — todos países ricos que são mercados-chave para os veículos elétricos da Tesla. Vindo na esteira de um grande fracasso financeiro , é apenas mais um problema para a montadora.

As vendas da Tesla caíram cerca de 13% em toda a Europa em 2024, mas até agora neste ano, a escala do problema é muito maior. Na França , as vendas de novos Teslas caíram 63%, enquanto as vendas totais de carros no país caíram apenas 6 por cento, com as vendas de carros elétricos caindo apenas 0,5%.

A Alemanha já parecia um terreno perdido para a Tesla — sua queda de 41% em 2024 foi responsável pela maior parte das vendas perdidas da Tesla na Europa. Isso deve tornar a queda de 59% nas vendas da Tesla alemã registrada em janeiro ainda mais dolorosa nas declarações de lucros e perdas.

Do outro lado do Canal, a indústria automobilística britânica acaba de divulgar seus dados de vendas de janeiro. Aqui, as vendas da Tesla caíram menos precipitadamente — apenas 12%. No entanto, as vendas de EVs a bateria foram 35% maiores no Reino Unido em janeiro de 2025 do que em janeiro de 2024. O bolo está crescendo, mas a Tesla está comendo cada vez menos dele.

Na verdade, nenhum Tesla entrou na lista dos 10 mais vendidos do Reino Unido no mês passado, algo que aconteceu regularmente no passado, embora isso possa ser devido ao fato de haver apenas dois modelos à venda na maioria dos mercados.

Grandes declínios também foram registrados na Suécia (44%), Noruega (38%) e Holanda (42%).

A gama limitada e desatualizada de modelos da Tesla é, sem dúvida, um fator que contribui para suas vendas fracas na Europa, e a empresa deve estar esperando que o crossover Model Y recentemente remodelado possa estimular mais tráfego em seus showrooms. Seu investimento no Cybertruck não ajuda em nada na região, pois a picape revestida de aço é muito grande e pesada para uso com uma carteira de motorista normal e não está em conformidade com as regulamentações de legalidade nas estradas.

Mas o comportamento do CEO da Tesla, Elon Musk, também pode ser o culpado por grande parte da aversão da Europa por seus carros. Ultimamente, Musk tem se inserido repetidamente na política europeia para criar atrito e promover suas causas de extrema direita. Na Europa, pelo menos, parece que os compradores de carros podem estar cansados ​​dele.


Fonte: ARS Technica

Superexploração das águas subterrâneas está comprometendo a vazão dos rios no Brasil

Estudo constatou que mais da metade dos rios brasileiros pode sofrer redução no fluxo devido à transferência de água para os aquíferos. O bombeamento para irrigação está entre os principais fatores. Mais de 88% dos poços operam em condições ilegais

Reservatório da represa de Itaparica, no rio São Francisco, fotografado a partir da Estação Espacial Internacional, em 2016 (crédito: Nasa/Wikimedia Commons)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP

Mais da metade dos rios brasileiros apresenta risco de redução de fluxo devido à percolação da água em direção aos aquíferos subterrâneos. Esta constatação resultou da análise de 17.972 poços em todo o território nacional. Destes, 55,4% apresentaram níveis de água abaixo da superfície dos rios mais próximos. Essa diferença no nível hidráulico cria um gradiente que favorece a percolação da água do rio para o subsolo, podendo transformar rios em perdedores de fluxo de água. O estudo, realizado por pesquisadores do país e do exterior, foi publicado no periódico Nature Communications “Widespread potential for streamflow leakage across Brazil”.

“Devido a condições climáticas e à intensa atividade agrícola, são áreas especialmente críticas a bacia do rio São Francisco e a região do Matopiba [que abrange os Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia], ambas muito dependentes de águas subterrâneas para irrigação e abastecimento humano”, diz Paulo Tarso Sanches de Oliveira, segundo autor do estudo, professor de hidrologia e recursos hídricos na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Hidráulica e Saneamento da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC-USP).

No caso da bacia do São Francisco, 61% dos rios analisados mostraram potencial de perda de fluxo de água para o aquífero, resultado atribuído ao uso intensivo de águas subterrâneas principalmente para irrigação. A situação é ainda pior na bacia do rio Verde Grande, um afluente do São Francisco, que se estende pelo norte de Minas Gerais e sudoeste da Bahia. Neste caso, o potencial de perda de fluxo chega a afetar 74% dos rios. “Essas duas bacias são cruciais para a agricultura e geração de energia hidrelétrica no Brasil. O que está acontecendo põe em risco não apenas a sustentabilidade local, mas também a segurança hídrica, alimentar e energética em grande escala”, comenta Oliveira.

Um forte fator de impacto é a perfuração indiscriminada de poços, para irrigação agrícola ou consumo privado. Estudo publicado em 2021 por Ricardo Hirata e colaboradores mostrou que existiam naquela data cerca de 2,5 milhões de poços tubulares no Brasil e que mais de 88% deles eram ilegais, sem licença ou registro para bombeamento. O volume de água bombeada, da ordem de 17,6 bilhões de metros cúbicos por ano, seria suficiente para atender toda a população brasileira, mas era usufruído por menos de 20% da população.

Além de o bombeamento comprometer seriamente a vazão dos rios, afetando a disponibilidade de água para o consumo humano, os ecossistemas aquáticos e a própria paisagem, o uso excessivo de água subterrânea pode causar a subsidência do solo – isto é, o afundamento e até mesmo o colapso da superfície. “Esse cenário já foi observado na Índia e na Califórnia, e o Brasil pode vir a enfrentar problemas semelhantes se não houver planejamento e controle adequados. O alerta é ainda mais relevante diante das projeções que indicam um aumento superior a 50% nas áreas irrigadas no país nos próximos 20 anos, o que pressionará ainda mais os recursos hídricos superficiais e subterrâneos”, sublinha o pesquisador.

Planejamento e controle são indispensáveis, pois, apesar de deter 15% da água doce renovável do mundo, o país já está enfrentando grandes problemas hídricos, que o acirramento da crise climática deverá agravar. “A região do bioma Cerrado, que abriga importantes aquíferos e rios estratégicos, além de ser a principal área de expansão agrícola e responsável por 70% da produção de milho do país, está entre as regiões mais vulneráveis. O equilíbrio entre rios e aquíferos na região pode ser comprometido pelas recentes mudanças no uso e cobertura do solo, impulsionadas pelo avanço da fronteira agrícola e, sobretudo, pela crescente demanda por irrigação”, pontua Oliveira.

Para enfrentar esse cenário, os pesquisadores envolvidos no estudo enfatizam a necessidade de integrar a gestão de águas superficiais e subterrâneas. Ferramentas baseadas em sensoriamento remoto e dados de campo podem ajudar a mapear regiões críticas e a orientar políticas públicas. Além disso, investimentos em monitoramento hidrogeológico são cruciais. “O Brasil tem potencial para ampliar a irrigação de forma sustentável, mas é necessário planejar melhor o uso integrado das águas subterrâneas e superficiais para evitar impactos negativos”, afirma José Gescilam Uchôa, primeiro autor do artigo.

Foi ele o responsável pelo levantamento exaustivo de informações sobre os 17.972 poços investigados. Para esse levantamento, feito durante sua pesquisa de mestrado, Uchôa utilizou a base de dados do Serviço Geológico do Brasil (SGB). Agora doutorando na EESC-USP, sob a orientação de Edson Cezar Wendland, que também assina o artigo, Uchôa está pesquisando o impacto do uso e da ocupação do solo, bem como das mudanças climáticas, nos fluxos hidrológicos entre as águas subterrâneas e superficiais em área de afloramento do aquífero Guarani. A investigação é apoiada por bolsa da FAPESP.

Oliveira e Uchôa argumentam que ainda é possível minimizar o problema, mas que medidas efetivas não podem ser postergadas, porque, do jeito que as coisas estão, a depleção do sistema hídrico já está impactando, inclusive, a saúde da população. “Em 2017, foi registrado um aumento significativo nos casos de pressão alta entre os moradores de um pequeno vilarejo no litoral de Alagoas, que consomem água proveniente do rio São Francisco. Posteriormente, constatou-se que o problema estava relacionado à ingestão de uma maior concentração de sal na água, causada pela intrusão de água do mar no rio, em decorrência da redução de sua vazão”, informa Oliveira. O assunto foi objeto de reportagens na mídia.

O estudo em pauta é muito significativo para o Brasil, que pode enfrentar um agravamento do estresse hídrico, com consequências severas para o abastecimento de água, a segurança alimentar e os ecossistemas. Mas seu alcance é ainda maior, pois serve como um chamado global para a revisão de estratégias de manejo hídrico em países tropicais, onde o uso crescente de águas subterrâneas coloca em risco os recursos hídricos superficiais.

O artigo Widespread potential for streamflow leakage across Brazil pode ser acessado em: www.nature.com/articles/s41467-024-54370-3.


Fonte: Agência Fapesp

Interiorização entre o discurso e a prática: o caso da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf)

Por Carlos Eduardo de Rezende para o Jornal da Ciência da SBPC

A Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) iniciou suas atividades no atual campus em 16 de agosto de 1993. Contudo, já em novembro de 1992, diversos cursos já estavam sendo ministrados na Fundação Norte Fluminense de Desenvolvimento Regional (FUNDENOR). Tal arranjo decorreu da obrigatoriedade imposta pela Constituição, que determinava o início das atividades da UENF dentro de um período de três anos após sua promulgação da Constituição Estadual, em 1989. Esse marco, portanto, simboliza a fundação da Uenf.

Inicialmente, cogitava-se a possibilidade de transformar algumas faculdades isoladas em uma universidade estadual. No entanto, com a chegada do Prof. Darcy Ribeiro para liderar o projeto, a concepção da Uenf foi radicalmente redefinida. Sob sua visão inovadora, a instituição foi concebida como a “Universidade do Terceiro Milênio”, apresentando características pioneiras, tais como:

  1. A constituição de um corpo docente integralmente composto por doutores em regime de dedicação exclusiva, com um adicional de interiorização, garantindo a base sólida para o desenvolvimento simultâneo da graduação e da pós-graduação. Essa estrutura permitiu que o primeiro curso da universidade fosse reconhecido pela CAPES já em 1996, além de conquistas expressivas em programas de iniciação científica do CNPq.
  2. A implantação de um ciclo básico comum, proporcionando a todos os estudantes uma formação humanística abrangente.
  3. A criação do primeiro curso de Engenharia de Petróleo do país, sob a liderança do saudoso Prof. Carlos Alberto Dias.
  4. Um robusto programa de financiamento estadual para projetos de pesquisa, atraindo lideranças acadêmicas e consolidando áreas estratégicas de conhecimento. Neste período inicial, tivemos presentes na Uenf vários membros da Academia Brasileira de Ciências.
  5. A estrutura acadêmica inovadora, que substituiu departamentos por laboratórios temáticos integradores, evitando a segmentação excessiva do conhecimento nas diferentes áreas do conhecimento.
  6. A participação ativa na implantação das cotas para estudantes de baixa renda e na formação de recursos humanos por meio do Consórcio das Instituições de Ensino Superior para a criação de um programa de ensino a distância no Estado do Rio de Janeiro, que hoje mantém vários polos distribuídos pelo território fluminense.

A UENF também foi idealizada para contar com uma fundação de apoio administrativo, visando garantir a eficiência na gestão institucional. No entanto, com o passar dos anos, a atividade-meio começou a se sobrepor à atividade-fim, comprometendo a funcionalidade do modelo. Como resultado, os servidores dessa fundação foram incorporados ao quadro da universidade e a fundação extinta.

Atualmente, a Uenf possui campi em Campos dos Goytacazes e Macaé, além de presença em 15 municípios por meio do Ensino à Distância. No entanto, enfrentamos um grave déficit de docentes, com apenas 50% do quantitativo planejado originalmente, além de uma crescente dificuldade na reposição de servidores técnicos devido à falta de autonomia financeira. Essa deficiência limita nossa capacidade de expansão, sobrecarrega a equipe administrativa e compromete o planejamento estratégico institucional. 

Muitos profissionais que escolheram a Uenf acreditaram na proposta de interiorização defendida por Darcy Ribeiro, um modelo que visava descentralizar o ensino superior com qualidade. No entanto, trinta e dois anos depois, é evidente que a maioria dos gestores públicos, sejam estaduais ou federais, ainda não compreende a real dimensão da descentralização acadêmica e suas implicações para o desenvolvimento do país. A exceção fica por conta do Estado de São Paulo, cujas universidades estaduais usufruem de autonomia financeira e contam com uma fundação de apoio à pesquisa altamente estruturada e com autonomia financeira instituída legalmente pelo estado garantindo assim a possibilidade de planejamento.

Nesse contexto, é urgente repensarmos o modelo de interiorização adotado nas universidades brasileiras. Criar pequenos campi vinculados a grandes instituições nem sempre é a solução, pois muitas dessas unidades enfrentam sérias dificuldades de infraestrutura e recursos humanos, dependendo permanentemente da instituição sede. No estado do Rio de Janeiro chegamos ao limite de ações que questionam as universidades até ao ponto de extinguir uma Instituição de Ensino Superior (leia Aqui!).

Por fim, é imperativo que a comunidade acadêmica reflita sobre o futuro das universidades e sobre a interiorização do ensino superior de forma estruturada e eficaz. As deliberações tomadas em nossas assembleias e no Congresso Nacional precisam se traduzir em ações concretas. Desde a criação da Uenf, a sensação predominante é de invisibilidade perante o Estado e a União, com sucessivos desafios no reconhecimento e na valorização das atividades acadêmicas desenvolvidas longe dos grandes centros urbanos. É tempo de transformar o discurso em prática e garantir que a interiorização do ensino superior seja uma prioridade real e efetiva.

Sobre o autor:

Carlos Eduardo de Rezende é professor titular da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF/RJ), Pesquisador 1A do CNPq e CNE FAPERJ


Fonte: Jornal da Ciência