Interiorização entre o discurso e a prática: o caso da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf)

Por Carlos Eduardo de Rezende para o Jornal da Ciência da SBPC

A Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) iniciou suas atividades no atual campus em 16 de agosto de 1993. Contudo, já em novembro de 1992, diversos cursos já estavam sendo ministrados na Fundação Norte Fluminense de Desenvolvimento Regional (FUNDENOR). Tal arranjo decorreu da obrigatoriedade imposta pela Constituição, que determinava o início das atividades da UENF dentro de um período de três anos após sua promulgação da Constituição Estadual, em 1989. Esse marco, portanto, simboliza a fundação da Uenf.

Inicialmente, cogitava-se a possibilidade de transformar algumas faculdades isoladas em uma universidade estadual. No entanto, com a chegada do Prof. Darcy Ribeiro para liderar o projeto, a concepção da Uenf foi radicalmente redefinida. Sob sua visão inovadora, a instituição foi concebida como a “Universidade do Terceiro Milênio”, apresentando características pioneiras, tais como:

  1. A constituição de um corpo docente integralmente composto por doutores em regime de dedicação exclusiva, com um adicional de interiorização, garantindo a base sólida para o desenvolvimento simultâneo da graduação e da pós-graduação. Essa estrutura permitiu que o primeiro curso da universidade fosse reconhecido pela CAPES já em 1996, além de conquistas expressivas em programas de iniciação científica do CNPq.
  2. A implantação de um ciclo básico comum, proporcionando a todos os estudantes uma formação humanística abrangente.
  3. A criação do primeiro curso de Engenharia de Petróleo do país, sob a liderança do saudoso Prof. Carlos Alberto Dias.
  4. Um robusto programa de financiamento estadual para projetos de pesquisa, atraindo lideranças acadêmicas e consolidando áreas estratégicas de conhecimento. Neste período inicial, tivemos presentes na Uenf vários membros da Academia Brasileira de Ciências.
  5. A estrutura acadêmica inovadora, que substituiu departamentos por laboratórios temáticos integradores, evitando a segmentação excessiva do conhecimento nas diferentes áreas do conhecimento.
  6. A participação ativa na implantação das cotas para estudantes de baixa renda e na formação de recursos humanos por meio do Consórcio das Instituições de Ensino Superior para a criação de um programa de ensino a distância no Estado do Rio de Janeiro, que hoje mantém vários polos distribuídos pelo território fluminense.

A UENF também foi idealizada para contar com uma fundação de apoio administrativo, visando garantir a eficiência na gestão institucional. No entanto, com o passar dos anos, a atividade-meio começou a se sobrepor à atividade-fim, comprometendo a funcionalidade do modelo. Como resultado, os servidores dessa fundação foram incorporados ao quadro da universidade e a fundação extinta.

Atualmente, a Uenf possui campi em Campos dos Goytacazes e Macaé, além de presença em 15 municípios por meio do Ensino à Distância. No entanto, enfrentamos um grave déficit de docentes, com apenas 50% do quantitativo planejado originalmente, além de uma crescente dificuldade na reposição de servidores técnicos devido à falta de autonomia financeira. Essa deficiência limita nossa capacidade de expansão, sobrecarrega a equipe administrativa e compromete o planejamento estratégico institucional. 

Muitos profissionais que escolheram a Uenf acreditaram na proposta de interiorização defendida por Darcy Ribeiro, um modelo que visava descentralizar o ensino superior com qualidade. No entanto, trinta e dois anos depois, é evidente que a maioria dos gestores públicos, sejam estaduais ou federais, ainda não compreende a real dimensão da descentralização acadêmica e suas implicações para o desenvolvimento do país. A exceção fica por conta do Estado de São Paulo, cujas universidades estaduais usufruem de autonomia financeira e contam com uma fundação de apoio à pesquisa altamente estruturada e com autonomia financeira instituída legalmente pelo estado garantindo assim a possibilidade de planejamento.

Nesse contexto, é urgente repensarmos o modelo de interiorização adotado nas universidades brasileiras. Criar pequenos campi vinculados a grandes instituições nem sempre é a solução, pois muitas dessas unidades enfrentam sérias dificuldades de infraestrutura e recursos humanos, dependendo permanentemente da instituição sede. No estado do Rio de Janeiro chegamos ao limite de ações que questionam as universidades até ao ponto de extinguir uma Instituição de Ensino Superior (leia Aqui!).

Por fim, é imperativo que a comunidade acadêmica reflita sobre o futuro das universidades e sobre a interiorização do ensino superior de forma estruturada e eficaz. As deliberações tomadas em nossas assembleias e no Congresso Nacional precisam se traduzir em ações concretas. Desde a criação da Uenf, a sensação predominante é de invisibilidade perante o Estado e a União, com sucessivos desafios no reconhecimento e na valorização das atividades acadêmicas desenvolvidas longe dos grandes centros urbanos. É tempo de transformar o discurso em prática e garantir que a interiorização do ensino superior seja uma prioridade real e efetiva.

Sobre o autor:

Carlos Eduardo de Rezende é professor titular da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF/RJ), Pesquisador 1A do CNPq e CNE FAPERJ


Fonte: Jornal da Ciência

Janeiro mais quente já registrado intriga cientistas climáticos

Monitor da UE diz que as temperaturas globais estavam 1,75 °C acima dos níveis pré-industriais, estendendo a série de máximas sem precedentes

Uma enorme pluma de nuvens de tempestade paira sobre uma paisagem árida ao pôr do sol

Nuvens de tempestade fora de época trazidas por La Niña pairam sobre um acampamento no interior do Rainbow Valley, Austrália. Fotografia: Genevieve Vallee/Alamy

Por Agências

Uma série de temperaturas globais recordes continuou, mesmo com o padrão climático La Niña resfriando o Pacífico tropical.

O Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus disse que o mês passado foi o janeiro mais quente já registrado, com temperaturas da superfície do ar 1,75 °C acima dos níveis pré-industriais.

O programa de observação da Terra financiado pela União Europeia (UE) destacou condições mais úmidas do que a média no leste da Austrália e condições mais secas do que a média em outras partes do país.

Samantha Burgess, líder estratégica para o clima no Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, disse: “Janeiro de 2025 é outro mês surpreendente, continuando as temperaturas recordes observadas ao longo dos últimos dois anos… O Copernicus continuará monitorando de perto as temperaturas oceânicas e sua influência em nosso clima em evolução ao longo de 2025.” As temperaturas da superfície do mar permaneceram excepcionalmente altas em muitas bacias oceânicas e mares.

Janeiro marcou o 18º mês dos últimos 19 a registrar temperaturas médias globais da superfície acima do nível pré-industrial de 1,5 °C. Sob o acordo climático de Paris , os líderes mundiais disseram que tentariam evitar que as temperaturas globais subissem mais de 1,5 °C – mas o limite foi baseado no aquecimento multidecadal de longo prazo e não nas temperaturas mensais de curto prazo.

Cientistas do clima esperavam que esse período excepcional diminuísse depois que o evento de aquecimento El Niño atingiu o pico em janeiro de 2024 e as condições mudaram para uma fase oposta e mais fria, La Niña.

Mas o calor permaneceu em níveis recordes ou quase recordes, gerando debates sobre quais outros fatores poderiam estar levando-o ao limite superior das expectativas.

Julien Nicolas, um cientista climático da Copernicus, disse à Agence France-Presse: “É isso que torna tudo um pouco surpreendente: não estamos vendo esse efeito de resfriamento, ou pelo menos uma frenagem temporária, na temperatura global que esperávamos ver.”

Espera-se que La Niña seja fraca, e Copérnico disse que as temperaturas predominantes em partes do Oceano Pacífico equatorial sugeriram uma desaceleração ou estagnação do movimento em direção ao fenômeno de resfriamento. Nicolas disse que ele pode desaparecer até março.

No mês passado, Copernicus disse que as temperaturas globais médias entre 2023 e 2024 excederam 1,5C pela primeira vez. Isso não representou uma violação permanente da meta de longo prazo de 1,5C sob o acordo climático de Paris, mas foi um sinal claro de que o limite estava sendo testado.

Cientistas dizem que cada fração de grau de aquecimento acima de 1,5 °C aumenta a intensidade e a frequência de eventos climáticos extremos, como ondas de calor, chuvas intensas e secas.

Copernicus disse que o gelo marinho do Ártico atingiu um recorde mensal de baixa em janeiro. A análise dos EUA esta semana mostrou que foi o segundo menor naquele conjunto de dados. No geral, não se espera que 2025 siga 2023 e 2024 nos livros de história: os cientistas preveem que ele será o terceiro ano mais quente até agora.

Copernicus disse que monitoraria de perto as temperaturas dos oceanos em busca de dicas sobre como o clima pode se comportar. Os oceanos são um importante regulador climático e sumidouro de carbono, e águas mais frias podem absorver maiores quantidades de calor da atmosfera, ajudando a diminuir as temperaturas do ar. Eles também armazenam 90% do excesso de calor retido pela liberação de gases de efeito estufa pela humanidade.

Nicolas disse: “Este calor está fadado a ressurgir periodicamente. Acho que essa também é uma das perguntas: é isso que tem acontecido nos últimos dois anos?”

As temperaturas da superfície do mar foram excepcionalmente quentes em 2023 e 2024, e Copernicus disse que as leituras em janeiro foram as segundas mais altas já registradas. “É isso que é um pouco intrigante – por que elas permanecem tão quentes”, disse Nicolas.

Os cientistas são unânimes em afirmar que a queima de combustíveis fósseis causou o aquecimento global a longo prazo e que a variabilidade climática natural também pode influenciar as temperaturas de um ano para o outro.

Mas ciclos naturais de aquecimento, como o El Niño, não conseguiam explicar sozinhos o que havia ocorrido na atmosfera e nos mares, e respostas estavam sendo buscadas em outros lugares.

Uma teoria é que uma mudança global para combustíveis de transporte mais limpos em 2020 acelerou o aquecimento ao reduzir as emissões de enxofre que tornam as nuvens mais parecidas com espelhos e reflexivas da luz solar.

Em dezembro, outro artigo revisado por pares analisou se uma redução em nuvens baixas havia deixado mais calor atingir a superfície da Terra. “Ainda é realmente uma questão de debate”, disse Nicolas.

O monitor da UE usa bilhões de medições de satélites, navios, aeronaves e estações meteorológicas para auxiliar seus cálculos. Seus registros remontam a 1940, mas outras fontes de dados climáticos – como núcleos de gelo, anéis de árvores e esqueletos de corais – permitem que os cientistas expandam suas conclusões usando evidências de muito mais tempo no passado.

Cientistas dizem que o período atual provavelmente será o mais quente que o planeta já teve em 125.000 anos.


Fonte: The Guardian

Como a China está retaliando as tarifas dos EUA e que impacto isso terá?

A China anunciou um conjunto de medidas, incluindo tarifas, restrições à exportação e sanções às empresas norte-americanas

Por Jo Siqi para o “Southern China Morning Post”

Poucos minutos depois de os Estados Unidos aumentarem as tarifas sobre todas as importações chinesas em 10%, Pequim anunciou uma série de medidas retaliatórias em uma tentativa de ganhar vantagem em quaisquer negociações comerciais futuras com Washington.

As medidas reveladas na terça-feira incluíram um aumento de 10% a 15% nas tarifas sobre certas importações dos EUA, restrições à exportação de alguns minerais essenciais, a inclusão de duas empresas dos EUA na lista negra do governo chinês e uma investigação antitruste visando a gigante de tecnologia americana Google.

A China também apresentou uma queixa contra as taxas dos EUA à Organização Mundial do Comércio.

Embora as medidas tomadas por Pequim sejam mais comedidas e direcionadas do que as tarifas generalizadas dos EUA sobre produtos chineses, economistas disseram que as ações da China foram cuidadosamente calibradas, já que algumas delas atingirão áreas com as quais o presidente dos EUA, Donald Trump, mais se importa.

“A combinação de tarifas retaliatórias com proibições de exportação, adições à lista de entidades e investigações antitruste sugere uma abordagem mais coordenada e abrangente por parte dos formuladores de políticas em comparação com a guerra comercial entre EUA e China de 2018-19”, disseram economistas do Goldman Sachs em nota na terça-feira.

Quais produtos dos EUA são cobertos pelos aumentos de tarifas de 10% a 15% da China?

De acordo com o anúncio de Pequim, oito produtos importados dos EUA enfrentarão taxas adicionais de 15%, incluindo carvão e gás natural liquefeito (GNL).

Enquanto isso, 72 produtos serão cobertos por um aumento de tarifa de 10%, incluindo petróleo bruto e veículos de alta emissão.

Em 2024, as importações chinesas de produtos abrangidos pelas novas tarifas dos EUA atingiram US$ 13,9 bilhões, o que representou 8,5% de todas as importações chinesas dos EUA naquele ano, de acordo com dados da alfândega chinesa.

A China parece ter como alvo específico produtos de indústrias que Trump prometeu reavivar, como combustíveis fósseis — que Trump impulsionou com seu slogan “drill, baby, drill” — e automóveis, a espinha dorsal do setor manufatureiro dos EUA.

Pequim também impôs tarifas sobre essas categorias de produtos durante sua guerra comercial anterior com Washington, durante o primeiro mandato de Trump.

Como as tarifas afetarão os exportadores dos EUA?

A China é o maior importador de energia do mundo, mas a participação dos EUA nas importações totais da China é relativamente pequena.

Em 2024, apenas 5,4% das importações totais de GNL da China vieram dos EUA, enquanto o país dependia dos EUA para cerca de 2% de suas importações de carvão e petróleo bruto.

A China importou 4,16 milhões de toneladas de GNL dos EUA em 2024, um aumento de 32,8%, ano a ano, com o valor total dessas importações excedendo US$ 2,4 bilhões. Ela também importou US$ 1,8 bilhão de carvão de coque e mais de US$ 6 bilhões de petróleo bruto dos EUA.

Após as novas tarifas entrarem em vigor na segunda-feira, a tarifa geral da China sobre carvão, GNL e petróleo bruto dos EUA aumentará para 43, 40 e 15 por cento, respectivamente.

As exportações de veículos dos EUA para a China têm apresentado tendência de queda nos últimos anos. SUVs de combustão são o produto automotivo americano mais popular coberto pelas últimas tarifas de Pequim – a China importou US$ 2,9 bilhões deles dos EUA em 2024.

Quais são os minerais essenciais abrangidos pelos últimos controles de exportação da China?

Além dos aumentos de tarifas, o Ministério do Comércio da China também impôs controles de exportação sobre cinco minerais essenciais – tungstênio, telúrio, bismuto, molibdênio e índio – bem como certos compostos metálicos baseados neles.

As restrições entraram em vigor imediatamente, aplicando-se às exportações para todos os países – não apenas para os EUA.

Os materiais são amplamente utilizados nos setores de tecnologia e defesa, e a China é o principal produtor global da maioria deles.

Em 2024, a China foi responsável por 83% da produção global de tungstênio, 75% de telúrio, 81% de bismuto, 42% de molibdênio e 70% de índio, de acordo com o Serviço Geológico dos EUA.

Pequim tem alavancado cada vez mais seu domínio de minerais essenciais e suprimentos de terras raras nos últimos meses para combater as restrições dos EUA destinadas a limitar o acesso da China a semicondutores avançados.

Em dezembro, a China proibiu as exportações de gálio, germânio e antimônio para os EUA, o que poderia prejudicar as indústrias de defesa e semicondutores do país.

Quais duas empresas americanas foram adicionadas à Lista de Entidades Não Confiáveis ​​da China e o que isso significa para seus negócios na China?

As duas empresas são o PVH Group – empresa controladora das marcas de roupas Calvin Klein e Tommy Hilfiger – e a empresa de testes genéticos Illumina.

Em uma declaração, o Ministério do Comércio disse que ambas as empresas “violaram os princípios normais de transações de mercado, interromperam transações normais com empresas chinesas, tomaram medidas discriminatórias contra empresas chinesas e prejudicaram seriamente os direitos e interesses legítimos das empresas chinesas”.

O ministério iniciou uma investigação sobre o PVH Group em setembro, dizendo que a empresa era suspeita de “violar os princípios normais de transação de mercado ao boicotar arbitrariamente o algodão de Xinjiang e outros produtos”.

Em janeiro, anunciou que uma investigação inicial havia concluído que a empresa estava envolvida em “conduta inapropriada” .

A Illumina, sediada em San Diego, é uma empresa líder em sequenciamento genético. Em 2019, ela entrou com ações de violação de patente contra uma unidade dos EUA da empresa chinesa de genômica BGI Group em países como Alemanha e Dinamarca. A BGI respondeu entrando com suas próprias ações de violação de patente contra a Illumina nos EUA.

Em 2022, um júri de Delaware ordenou que a Illumina pagasse mais de US$ 333 milhões à BGI após descobrir que os sistemas de sequenciamento de DNA da Illumina infringiam duas patentes. As duas empresas mais tarde resolveram o caso, com a Illumina concordando em pagar US$ 325 milhões para encerrar o litígio nos EUA.

Em 2024, a Illumina teria feito lobby com legisladores dos EUA para promover um projeto de lei que proibiria agências dos EUA de adquirir “equipamentos ou serviços de biotecnologia” de certas empresas chinesas, incluindo a BGI. Mas o projeto de lei, embora aprovado pela Câmara dos Representantes dos EUA, nunca foi promulgado como lei.

Pequim ainda não especificou quais medidas tomará contra as duas empresas após elas serem adicionadas à Unreliable Entity List – uma lista negra semelhante à US Entity List . Possíveis medidas incluem restrições e proibições em seu comércio com a China e investimentos no país, cancelamentos de autorizações de trabalho para qualquer pessoal na China e multas.

Como a investigação antitruste afetará o Google?

Também na terça-feira, a Administração Estatal de Regulamentação de Mercado da China (SAMR) disse que havia iniciado uma investigação sobre o gigante de buscas dos EUA , sem especificar suas supostas violações.

A maioria dos serviços do Google – incluindo pesquisa, Gmail e Google Maps – não estão disponíveis na China continental, mas a gigante da tecnologia dos EUA manteve uma presença no país. Seu sistema operacional móvel Android é usado por fabricantes de telefones chineses, incluindo a Xiaomi, enquanto as empresas chinesas são grandes compradoras de anúncios no Google e no YouTube.

As investigações antitruste da SAMR normalmente resultam em multa. Em dezembro, ela também lançou uma investigação sobre a gigante de chips dos EUA Nvidia sobre sua aquisição em 2019 da fornecedora israelense de produtos de rede de computadores Mellanox Technologies.


Fonte: Southern Morning China Post

A meta de mudança climática de 2°C está “morta”, diz renomado cientista climático

A meta de mudança climática de 2°C está “morta”, diz renomado cientista climático

A chaminé de um navio emitindo fumaça preta

A análise concluiu que os cortes recentes na poluição do transporte marítimo que bloqueia o sol aumentaram as temperaturas mais do que o esperado. Fotografia: scphoto/Alamy

Por Damian Carrington para o “The Guardian” 

O professor James Hansen diz que o ritmo do aquecimento global foi significativamente subestimado, embora outros cientistas discordem

O ritmo do aquecimento global foi significativamente subestimado, de acordo com o renomado cientista climático Prof. James Hansen , que disse que a meta internacional de 2°C está “morta”.

Uma nova análise feita por Hansen e colegas conclui que tanto o impacto dos recentes cortes na poluição causada pelo sol nos navios, que elevou as temperaturas, quanto a sensibilidade do clima ao aumento das emissões de combustíveis fósseis são maiores do que se pensava.

Os resultados do grupo estão no limite superior das estimativas da ciência climática convencional, mas não podem ser descartados, disseram especialistas independentes. Se estiverem corretos, eles significam que condições climáticas extremas ainda piores virão mais cedo e há um risco maior de passar por pontos de inflexão globais, como o colapso das correntes críticas do oceano Atlântico.

Hansen, da Universidade de Columbia, nos EUA, alertou o público em geral sobre o colapso climático em depoimento que prestou a um comitê do Congresso da ONU em 1988.

“O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPPC) definiu um cenário que dá 50% de chance de manter o aquecimento abaixo de 2C – esse cenário agora é impossível”, ele disse. “A meta de 2C está morta, porque o uso global de energia está aumentando, e continuará aumentando.”

A nova análise disse que o aquecimento global provavelmente atingirá 2°C até 2045, a menos que a geoengenharia solar seja implantada.

As nações do mundo se comprometeram em Paris em 2015 a manter o aumento da temperatura global abaixo de 2°C acima dos níveis pré-industriais e a buscar esforços para limitá-lo a 1,5°C. A crise climática já sobrecarregou o clima extremo em todo o mundo com apenas 1,3°C de aquecimento em média nos últimos anos destruindo vidas e meios de subsistência – 2°C seria muito pior.

O professor Jeffrey Sachs, também da Universidade de Columbia, disse: “Um aumento chocante do aquecimento foi exposto, ironicamente, por uma redução de poluentes, mas agora temos uma nova linha de base e trajetória para onde estamos.”

O cientista climático Dr. Zeke Hausfather , que não fez parte do estudo, disse que foi uma contribuição útil. “É importante enfatizar que ambas as questões – [cortes de poluição] e sensibilidade climática – são áreas de profunda incerteza científica”, disse ele.

“Embora Hansen et al estejam no limite superior das estimativas disponíveis, não podemos dizer com certeza que estejam erradas, mas sim que representam algo mais próximo do pior resultado possível.”

No novo estudo, publicado no periódico Environment: Science and Policy for Sustainable Development , a equipe de Hansen disse: “Não ser realista na avaliação climática e não denunciar a ineficácia das políticas atuais para conter o aquecimento global não é útil para os jovens”.

Eles disseram que a análise do IPCC dependia fortemente de modelos de computador e que a abordagem complementar que eles adotaram de fazer mais uso de observações e análogos climáticos do passado distante era necessária.

O mundo viu temperaturas extraordinárias nos últimos dois anos . A causa primária é o aumento implacável nas emissões de CO 2 da queima de combustíveis fósseis. O pico do ciclo climático El Niño em 2024 adicionou um aumento extra de temperatura.

No entanto, esses dois fatores não explicam completamente as temperaturas extremas, ou sua persistência após o fim do El Niño em meados de 2024. Isso deixou cientistas climáticos intrigados se perguntando se havia um novo fator preocupante não contabilizado anteriormente, ou se o calor extra era uma variação natural incomum, mas temporária.

Um foco importante tem sido nas emissões do transporte marítimo. Por décadas, as partículas de sulfato produzidas por navios queimando combustível bloquearam parte da luz solar de atingir a superfície da Terra, suprimindo as temperaturas.

Mas em 2020, novas regulamentações antipoluição entraram em vigor, cortando drasticamente o nível de partículas de aerossol. Isso levou a mais calor do sol atingindo a superfície , o que os cientistas medem como watts por metro quadrado (W/m2).

A estimativa da equipe de Hansen sobre o impacto disso – 0,5 W/m2 – é significativamente maior do que cinco outros estudos recentes, que variaram de 0,07 a 0,15 W/m2, mas explicaria o calor anômalo. A equipe de Hansen usou uma abordagem de cima para baixo, observando a mudança na refletividade sobre partes importantes do oceano e atribuindo isso às reduções nas emissões de transporte. Os outros estudos usaram abordagens de baixo para cima para estimar o aumento do calor.

“Ambas as abordagens são úteis e frequentemente complementares”, disse o Dr. Gavin Schmidt, diretor do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da Nasa. “Mas acho que, neste caso, a abordagem de Hansen é muito simples e não leva em consideração as mudanças nas emissões chinesas ou a variabilidade interna.”

O novo estudo também argumenta que a sensibilidade climática do planeta ao aumento das emissões de carbono foi subestimada, em parte devido à subestimação do impacto da redução das emissões do transporte marítimo.

A sensibilidade climática é definida pelos cientistas como o aumento de temperatura que resultaria de uma duplicação dos níveis de CO 2 na atmosfera. Novamente, a equipe de Hansen usou um método diferente da maioria dos cientistas e chegou a uma estimativa mais alta.

O IPCC, uma colaboração de cientistas climáticos do mundo, descobriu que os modelos de computador que melhor reproduzem temperaturas passadas têm uma sensibilidade climática de 2,5 °C a 4 °C.

A equipe de Hansen adotou uma abordagem mais simples, calculando o intervalo potencial de aumento de temperatura para uma duplicação de CO 2 e, em seguida, usando dados sobre quanto calor a Terra reteve para estimar a sensibilidade climática mais provável. A estimativa deles é de 4,5 °C. A formação de nuvens , que é afetada pelo aquecimento global e pela poluição por aerossóis, é uma fonte importante das incertezas.

Temperaturas anormalmente altas continuaram em janeiro de 2025 , o que estabeleceu um novo recorde para o mês e confundiu as expectativas de que as temperaturas cairiam com a atual La Niña, a parte mais fria do ciclo El Niño. “Este recorde inesperado pode pressagiar temperaturas mais altas este ano do que muitos de nós pensávamos”, disse Hausfather.

O grupo de Hansen também argumenta que o aquecimento global acelerado que eles preveem aumentará o derretimento do gelo no Ártico.

“Como resultado, o fechamento da Circulação Meridional do Atlântico (Amoc) é provável dentro dos próximos 20-30 anos, a menos que ações sejam tomadas para reduzir o aquecimento global – em contradição com as conclusões do IPCC.

“Se a Amoc for autorizada a fechar, isso causará grandes problemas, incluindo o aumento do nível do mar em vários metros – portanto, descrevemos o fechamento da Amoc como o ‘ponto sem volta’.”

A estimativa central de outro estudo recente sobre o momento do colapso da Amoc foi 2050.

No entanto, Hansen disse que o ponto sem retorno poderia ser evitado, com base na crescente convicção dos jovens de que eles deveriam seguir a ciência. Ele pediu uma taxa de carbono e uma política de dividendos, onde todos os combustíveis fósseis são taxados e a receita retorna ao público.

“O problema básico é que os resíduos de combustíveis fósseis ainda são despejados no ar sem custo algum”, ele disse. Ele também apoiou o rápido desenvolvimento da energia nuclear.

Hansen também apoiou pesquisas sobre o resfriamento da Terra usando técnicas controversas de geoengenharia para bloquear a luz solar, o que ele prefere chamar de “resfriamento global proposital”.

Ele disse: “Não recomendamos a implementação de intervenções climáticas, mas sugerimos que os jovens não sejam impedidos de ter conhecimento do potencial e das limitações do resfriamento global proposital em sua caixa de ferramentas.”

Mudança política é necessária para atingir todas essas medidas, disse Hansen: “Interesses especiais assumiram poder demais em nossos sistemas políticos. Em países democráticos, o poder deve estar com o eleitor, não com as pessoas que têm dinheiro. Isso requer consertar algumas de nossas democracias, incluindo os EUA.”


Fonte: The Guardian

Pesquisa mostra que latino-americanos confiam nos cientistas

A grande maioria dos entrevistados concordou que os cientistas devem comunicar a ciência ao público

Embora um estudo tenha descoberto que a confiança nos cientistas é moderadamente alta nos países latino-americanos, a maioria dos entrevistados concordou que os cientistas devem comunicar a ciência ao público. Crédito da imagem: Viktor Braga/Universidade Federal do Ceará , licenciado sob Creative Commons CC BY-NC 2.0 Deed .

A pesquisa coletou respostas de quase 72.000 pessoas em 68 países — seis deles na América Latina e no Caribe — que avaliaram a confiança em uma escala de 1 (confiança muito baixa) a 5 (confiança muito alta). Dos 10 países latino-americanos, seis — Argentina, México, Chile, Brasil, Costa Rica e Colômbia — apresentaram índice de confiança superior à média geral, que foi de 3,62.

Abaixo da média, mas ainda com índice de confiança moderado, ficaram Uruguai, Peru, Nicarágua e Bolívia. No total, 6.407 pessoas da América Latina participaram da pesquisa.

No ranking geral, Argentina e México aparecem em 10º e 11º lugares, respectivamente. Por outro lado, Nicarágua e Bolívia apresentam menor índice de confiança, ocupando as posições 63 e 66.

O índice consiste em uma escala de 12 itens que mede quatro dimensões de confiabilidade: competência percebida, benevolência, integridade e abertura. As respostas foram coletadas por meio de um questionário on-line entre novembro de 2022 e agosto de 2023.

“Durante a pandemia, vimos um aumento significativo na desinformação e nos ataques à ciência. No entanto, nossos dados sugerem que a confiança na ciência permanece relativamente alta em muitos contextos, embora seja fortemente influenciada por fatores políticos e culturais.”

Flavio Azevedo, Professor de Ciências Interdisciplinares na Universidade de Utrecht (Holanda) e membro do projeto Trust in Science and Scientific Populism (TISP)

Segundo os pesquisadores, nenhum país demonstra baixa confiança geral nos cientistas, contradizendo a narrativa de uma crise da autoridade epistêmica da ciência, especialmente após a pandemia de COVID-19.

“Durante a pandemia, vimos um aumento significativo na desinformação e nos ataques à ciência. “No entanto, nossos dados sugerem que a confiança na ciência permanece relativamente alta em muitos contextos, embora seja fortemente influenciada por fatores políticos e culturais”, explica à SciDev.Net Flavio Azevedo, professor de Ciências Interdisciplinares na Universidade de Utrecht (Holanda) e membro do projeto  Trust in Science and Scientific Populism (TISP)  , no âmbito do qual o estudo foi realizado .

Embora a pesquisa não tenha encontrado um padrão claro de cientistas menos confiáveis ​​na América Latina, como sugerem alguns estudos anteriores , Azevedo reflete que desigualdades estruturais e menos acesso a recursos educacionais podem moldar o relacionamento das pessoas com a ciência.

“Também é importante notar que, nesses contextos, a ciência pode ser percebida como uma ferramenta poderosa para o progresso social. No Sul Global, o uso de narrativas que conectam a ciência às necessidades locais e culturais pode aumentar significativamente a confiança pública”, acrescenta o pesquisador.

Comunicando ciência

De acordo com pesquisas, as pessoas concordam que os cientistas devem se envolver na sociedade e na formulação de políticas públicas . Mas, embora esses profissionais sejam vistos como competentes, sua integridade e abertura ao feedback são vistas como moderadas.

Um dos resultados mais significativos mostra que 83% dos participantes concordam que os cientistas devem comunicar a ciência ao público.

“Recomendamos evitar a comunicação de cima para baixo e, em vez disso, encorajar o envolvimento público em um diálogo genuíno, onde os cientistas buscam considerar as percepções e necessidades de outras partes interessadas”, escrevem os pesquisadores no artigo.

Em entrevista ao  SciDev.Net , Vanessa Fagundes, pesquisadora do Instituto Nacional de Divulgação Pública da Ciência e Tecnologia, disse que os resultados da pesquisa coincidem com estudos sobre a percepção pública da ciência no Brasil .

Segundo ela, os cientistas, especialmente aqueles que trabalham em universidades ou institutos públicos de pesquisa , estão entre as fontes de informação mais confiáveis, e a confiança na ciência e nos cientistas continua alta no país.

Questões ideológicas também aproximam os estudos. Em pesquisas recentes, orientação política conservadora, preferência por hierarquias sociais e desigualdade entre grupos e atitudes populistas relacionadas à ciência estão associadas à menor confiança nos cientistas.

Fagundes menciona que, no Brasil, entrevistados que expressam opiniões contrárias à igualdade de gênero tendem a confiar menos na ciência e nos cientistas. Isso significa que os valores e o contexto das pessoas são importantes para construir essa confiança.

Desafios

Pesquisas sobre percepções públicas sobre ciência e cientistas apresentam diversos desafios metodológicos, especialmente quando envolvem muitos países.

Para o diretor executivo da Academia Mundial de Ciências, Marcelo Knobel, “é difícil reduzir algo tão complexo como a percepção da sociedade sobre a ciência e os cientistas a um único índice, que certamente não abrange as nuances que pesquisas mais consolidadas têm demonstrado claramente”.

“É absolutamente essencial incluir mais pesquisas sobre a percepção pública da ciência na agenda de políticas públicas e, portanto, estudos desse tipo são sempre bem-vindos. Mas é importante lembrar que muitos países e regiões estão envolvidos nesse tipo de pesquisa há décadas, e muitas dessas informações não foram consideradas neste trabalho”, disse Knobel.


Fonte: SciDev

Sem qualquer perspectiva de novo PCV e recheada de penduricalhos, Uenf enfrenta cenário desafiador

Acabo de completar 27 anos de serviços na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), mas informo que não há motivos para festa. É que olhando em retrospectiva, nunca vi a universidade de Darcy Ribeiro tão mal parada das pernas.  Para começo de conversa, continuamos sem qualquer perspectiva de que o novo (rapidamente envelhecido) Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) aprovado pelo Conselho Universitário no final de 2020 finalmente saia da gaveta onde acumula pó no Palácio Guanabara e siga para análise da Assembleia Legislativa. Somando-se a isso, a quebra do compromisso assumido pelo governador Cláudio Castro de, pelo menos, repor as perdas inflacionárias, transforma a espera em uma espera de tortura medieval já que o ritmo da inflação (principalmente a dos alimentos) está claramente em ritmo acelerado. 

A reitoria da Uenf, comandada pela professora Rosana Rodrigues, vem mostrando duas faces em relação à crise salarial que assola a instituição. A primeira é de não fazer absolutamente nada de prático para descongelar o processo de tramitação do PCV dentro do governo. Afora, alguns momentos em que a situação do PCV é trazida à tona, geralmente por alguma ação dos sindicatos de professores e servidores técnicos, o que predomina é o que se pode chamar de imobilismo praticante. Em outras palavras, nada é feito. A outra face da postura institucional é a criação de uma série de auxílios que têm o efeito de amenizar mais as consciências do que o déficit salarial. Para piorar, há casos, como o descrito pelo professor Carlos Eduardo Rezende aqui mesmo neste blog, no qual a distribuição dos benefícios é feita de forma desigual, e sem qualquer garantia de sustentabilidade até para quem é aquinhoado com a concessão.

O resultado disso é que depois de que quase 3 décadas dentro da Uenf, nunca percebi um ambiente de tamanho desencanto com o estar na e viver na Uenf.  Me arrisco a dizer que sequer na crise salarial de 2017, o ambiente esteve tão desanimado. Para uma instituição universitária, esse é o pior dos mundos, pois a adesão à causa, por assim dizer, é um elemento fundamental para o exercício da criatividade que impulsiona a produção de pesquisas de impacto.

Uma consequência objetiva da corrosão salarial é que se torna mais difícil realizar o processo de interiorização de quadros altamente preparados. É que a Uenf só foi capaz de se instalar em Campos dos Goytacazes com um corpo docente formado exclusivamente por doutores em regime de dedicação exclusiva porque pagava excelentes salários.  É que apesar das transformações ocorridas no município nos ultimos 31 anos, a ideia de sair de grandes centros para atuar em uma instituição com salários defasados não é muito atrativa se não houver o tipo de incentivo que só bons salários podem dar. Com isso, a Uenf só vem conseguindo atrair seus próprios egressos para os poucos concursos que consegue realizar, fato que contribui para que não haja a devida renovação de ideias e práticas. Como em ciência, a renovação de ideias e práticas é fundamental, o resultado acaba sendo uma combinação de perda de dinamismo e engessamento que gera a perpetuação de atos rotineiros em vez de inovação.

Para piorar o que já é ruim, vivemos um contexto de financiamento é particularmente ruim, visto que o governo federal fez uma opção por uma forma de controle fiscal em que tudo, inclusive investimento em ciência. é visto não como oportunidade, mas como custo.  Com isso, o próprio lugar das universidades, a Uenf incluída, fica secundarizado em face dessa orientação, com uma perda de visão de futuro acerca do papel que o desenvolvimento de um sistema nacional de ciência e tecnologia pode significar para a posição do Brasil no cenário econômico global.

Alguém poderia me perguntar se existe alguma saída para um enrosco desse tamanho. Eu diria que vivemos uma situação complexa e que exige atitudes corajosas e firmes em defesa da existência das universidades públicas. Mas primeiro é preciso reconhecer que não será com meros jogos de cena que vamos dar as respostas necessárias a uma situação tão desafiadora.  Tampouco será com medidas paliativas que criam mais desigualdade do que oportunidades. Desta forma, como sou brasileiro e não desisto nunca, me parece que é preciso adotar a concepção que não existem momentos difíceis que não possam ser transformados em oportunidades. E que siga o périplo, mas sem ilusões de que penduricalhos oferecem algum tipo de solução.

Crise climática: Temperaturas no pólo norte estão 20°C acima da média e além do ponto de derretimento do gelo

Cientistas dizem que temperaturas amenas incomuns estão relacionadas ao sistema de baixa pressão sobre a Islândia, direcionando um forte fluxo de ar quente em direção ao pólo norte

Cientistas dizem que esperam que o Oceano Ártico perca a cobertura de gelo marinho no verão pela primeira vez nas próximas duas décadas. Fotografia: Jose Luis Stephens/Alamy

Por Ajit Niranjan para o “The Guardian” 

As temperaturas no polo norte subiram mais de 20°C acima da média no domingo, cruzando o limite para o derretimento do gelo.

As temperaturas ao norte de Svalbard, na Noruega, já haviam subido para 18°C ​​mais quentes do que a média de 1991–2020 no sábado, de acordo com modelos de agências meteorológicas na Europa e nos EUA, com temperaturas reais próximas ao ponto de derretimento do gelo de 0°C. No domingo, a anomalia de temperatura havia subido para mais de 20°C.

“Este foi um evento de aquecimento de inverno muito extremo”, disse Mika Rantanen, cientista do Instituto Meteorológico Finlandês. “Provavelmente não o mais extremo já observado, mas ainda no limite superior do que pode acontecer no Ártico .”

A queima de combustíveis fósseis aqueceu o planeta em cerca de 1,3 °C desde os tempos pré-industriais, mas os polos estão esquentando muito mais rápido à medida que o gelo marinho reflexivo derrete. O aumento nas temperaturas médias levou a um aumento nos verões extremamente quentes e invernos perturbadoramente amenos.

Julien Nicolas, cientista do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus da UE, disse que as temperaturas anormalmente amenas nas profundezas do inverno polar estavam ligadas a um sistema profundo de baixa pressão sobre a Islândia, que estava direcionando um forte fluxo de ar quente em direção ao polo norte.

Mares extremamente quentes no Atlântico nordeste estão intensificando o aquecimento causado pelo vento, ele acrescentou.

“Esse tipo de evento é relativamente raro, mas não somos capazes de avaliar sua frequência sem uma análise mais aprofundada”, disse Nicolas. “Estamos cientes de que um evento semelhante ocorreu em fevereiro de 2018.”

Os dados do Copernicus mostraram que as temperaturas médias diárias estavam mais de 20°C acima da média perto do polo norte no domingo, com temperaturas absolutas acima de -1°C até 87°N.

As descobertas foram confirmadas por uma bóia de neve do Ártico, que registrou temperaturas absolutas de 0,5 °C no domingo.

Cientistas do clima estimam temperaturas globais por meio da reanálise de bilhões de medições meteorológicas de satélites, navios, aeronaves e estações meteorológicas. Mas em regiões remotas como o Ártico central, onde há menos locais de observação direta, era “difícil estimar a anomalia exata da temperatura”, disse Rantanen.

“Todos os modelos que vi indicam uma anomalia de temperatura acima de 20°C”, ele disse. “Eu diria que 20-30°C é a ordem de magnitude.”

O Ártico aqueceu quase quatro vezes mais rápido que a média global desde 1979, e o calor extremo se tornou mais intenso e comum.

Temperaturas acima do ponto de congelamento são particularmente preocupantes porque derretem o gelo, disse Dirk Notz, um cientista climático da Universidade de Hamburgo. “Não há como negociar com esse fato, e não há como negociar com o fato de que o gelo desaparecerá cada vez mais enquanto as temperaturas continuarem subindo.”

Um estudo coautorado por Notz em 2023 descobriu que o gelo marinho do Ártico no verão seria perdido mesmo com cortes drásticos na poluição que aquece o planeta.

“Esperamos que o Oceano Ártico perca sua cobertura de gelo marinho no verão pela primeira vez nas próximas duas décadas”, disse Notz. “Esta provavelmente será a primeira paisagem que desaparecerá por causa das atividades humanas, indicando mais uma vez o quão poderosos nós, humanos, nos tornamos em moldar a face do nosso planeta.”


Fonte: The Guardian

Conheça e use o verificador de revistas científicas sequestradas

Por Retraction Watch 

Bem-vindo ao Retraction Watch Hijacked Journal Checker .

Periódicos sequestrados imitam periódicos legítimos ao adotar seus títulos, ISSNs e outros metadados . Normalmente, periódicos sequestrados espelham periódicos legítimos sem permissão do periódico original; em raras ocasiões, no entanto, os editores compram direitos de um periódico legítimo, mas continuam a publicação sob protocolos de publicação consideravelmente menos rigorosos e sem informar claramente ao leitor a mudança na propriedade ou nos padrões de publicação (às vezes conhecidos como periódicos “clonados”). Acadêmicos podem ser enganados para publicar em periódicos sequestrados – muitos dos quais exigem taxas – por ofertas de publicação rápida e indexação em bancos de dados como o Scopus; ser indexado em tais bancos de dados é visto por muitas universidades e governos como uma marca de legitimidade.

Rastrear esses periódicos não é tarefa fácil, mas saber quais periódicos podem ter sido sequestrados é vital para o mundo da integridade editorial. Anna Abalkina se envolveu no processo quando ela e seus colegas, investigando alegações de plágio, encontraram vários títulos, incluindo o Journal of Talent Development and Excellence , que aumentou drasticamente sua indexação de artigos no Scopus em 2020, e Waffen-und Kostümkunde , um periódico que citou um artigo sobre psicologia absolutamente sem relação com a especialização em armas e trajes do periódico. Abalkina então começou a analisar esses arquivos de periódicos e encontrou sobreposições com outros periódicos aparentemente sequestrados, dedicando enormes períodos de tempo localizando e verificando a validade de periódicos suspeitos de sequestro ou de terem sido sequestrados.

Em parceria com a Retraction Watch, Anna Abalkina criou o Retraction Watch Hijacked Journal Checker . Este recurso é dinâmico; mais periódicos serão adicionados conforme seu status de hijacked for descoberto. Isso significa que ele requer recursos contínuos, e esperamos que você considere apoiar o esforço fazendo uma doação dedutível de impostos dos EUA usando o Square ou enviando um cheque emitido para o The Center For Scientific Integrity, com “Checker” no campo de memorando, e enviado para 121 W. 36th St., Suite 209, New York, NY 10018.

Para mais informações sobre como o Checker foi criado, consulte nossa página Methods . Tem um título para consideração? Use este formulário .


Fonte: Retraction Watch

A unanimidade burra em torno de Rodrigo Bacellar fala mais sobre quem o elegeu do que sobre ele mesmo

Aliado de Jair Bolsonaro e investigado pelo TRE, Rodrigo Bacellar foi reeleito para presidir a Alerj por unanimidade. Na foto, Bacellar segura medalha ‘imbrochável’ ao lado do ex-presidente

O deputado estadual Rodrigo Bacellar (União Brasil) acaba de conseguir o feito inédito de ter sido reeleito presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) por unanimidade.  Esse é um fato que nunca ocorreu na história da Alerj, e que dificilmente se repetirá: Bacellar recebeu todos os 70 votos possíveis para continuar no cargo!

A mim não me assombra o fato de que Bacellar ter sido reeleito e, tampouco, por unanimidade. Eu diria que essa votação inédita reflete muito bem o estado de coisas na política fluminense. Quem tiver um mínimo de curiosidade para analisar como as eleições proporcionais vem se dando no Rio de Janeiro saberá que tem algum tempo que determinadas candidaturas recebem votações expressivas, sem que isso reflita uma capacidade mínima do candidato de articular propostas ou, quiçá, um raciocínio inteiro.

Agora, há que se dizer que há algo muito esquisito na chamada esquerda parlamentar, incluindo aí o PSOL,  o spinoff do PT que em seu nascedouro insaiou os trejeitos da rebeldia original dos barbudos de São Bernado do Campo.  Eu não me surpreendo nem um pouco com o PT, pois a degeneração do pai (ou seria mãe?) do PSOL já está evidente há alguns anos. Mas do pessoal do PSOL, tenho que dizer queo partido envelheceu muito mais rápido do que o PT, parecendo até uma repetição da decadência do PSDB em relação ao PMDB.

Essa acomodação da esquerda parlamentar fluminense ao jogo/jogado é particularmente inquietante, na medida em que dada essa votação em Bacellar, as chances de uma candidatura para enfrentar a direita e a extrema-direita em 2026 se tornaram basicamente nulas.  Esse é o resultado de se juntar, usando um jargão familiar, no mangueirão com o resto da turma, incluindo a extrema-direita bolsonarista.

E aí quem sofrerá somos todos nós que gostaríamos de ver o Rio de Janeiro trilhando um caminho diferente do que se tem visto nas últimas décadas com governantes medíocres que conseguiram aniquilar com quaisquer possibilidades de um modelo de desenvolvimento social e economicamente mais justo.

Para terminar, uma observação recolhida de uma das tiradas do dramaturgo Nelson Rodrigues que dizia que “toda a unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”. Se ainda estivesse vivo, Nelson Rodrigues certamente nos diria que é preciso vencer unanimidades como a que foi criada em torno de Rodrigo Bacellar.

Contaminação por microplásticos é ampla! Estudo sugere que níveis de contaminação em cérebros humanos podem estar aumentando rapidamente

Pesquisa que analisou tecidos de autópsias entre 1997 e 2024 encontra tendência de aumento na contaminação

Close up de uma ponta de dedo coberta de microplásticos

Microplásticos foram encontrados no cérebro, fígado e rins. Fotografia: Alamy

Por Damian Carrington para o “The Guardian” 

O aumento exponencial da poluição por microplásticos nos últimos 50 anos pode estar refletido no aumento da contaminação no cérebro humano, de acordo com um novo estudo.

Eles encontraram uma tendência crescente de micro e nanoplásticos no tecido cerebral em dezenas de autópsias realizadas entre 1997 e 2024. Os pesquisadores também encontraram as pequenas partículas em amostras de fígado e rim.

O corpo humano é amplamente contaminado por microplásticos. Eles também foram encontrados no sangue , sêmen , leite materno , placentas e medula óssea . O impacto na saúde humana é amplamente desconhecido, mas eles foram associados a derrames e ataques cardíacos .

Os cientistas também descobriram que a concentração de microplásticos era cerca de seis vezes maior em amostras de cérebro de pessoas que tinham demência. No entanto, os danos que a demência causa no cérebro deveriam aumentar as concentrações, disseram os pesquisadores, o que significa que nenhuma ligação causal deve ser assumida.

“Dada a presença ambiental exponencialmente crescente de micro e nanoplásticos, esses dados exigem um esforço muito maior para entender se eles têm um papel em distúrbios neurológicos ou outros efeitos na saúde humana”, disseram os pesquisadores, que foram liderados pelo Prof. Matthew Campen da Universidade do Novo México, nos EUA.

Os microplásticos são decompostos a partir de resíduos plásticos e poluíram o planeta inteiro, do cume do Monte Everest aos oceanos mais profundos . As pessoas consomem as minúsculas partículas por meio de alimentos , água e respirando-as .

Um estudo publicado na quinta-feira descobriu que a poluição plástica minúscula é significativamente maior em placentas de partos prematuros . Outra análise recente descobriu que microplásticos podem bloquear vasos sanguíneos nos cérebros de camundongos, causando danos neurológicos, mas observou que os capilares humanos são muito maiores.

A nova pesquisa, publicada no periódico Nature Medicine , analisou amostras de tecidos cerebrais, hepáticos e renais de 28 pessoas que morreram em 2016 e 24 que morreram em 2024 no Novo México. A concentração de microplásticos era muito maior no tecido cerebral. Também era maior em amostras de cérebro e fígado de 2024, em comparação com aquelas de 2016.

Os cientistas estenderam a análise com amostras de tecido cerebral de pessoas que morreram entre 1997 e 2013 na costa leste dos EUA. Os dados mostraram uma tendência crescente na contaminação por microplásticos de cérebros de 1997 a 2024.

O plástico mais comum encontrado foi o polietileno, que é usado em sacolas plásticas e embalagens de alimentos e bebidas. Ele compôs 75% do plástico total em média. As partículas no cérebro eram principalmente fragmentos e flocos de plástico em nanoescala. As concentrações de plástico nos órgãos não foram influenciadas pela idade da pessoa na morte, ou pela causa da morte, seu sexo ou sua etnia.

Os cientistas observaram que apenas uma amostra de cada órgão foi analisada, o que significa que a variabilidade dentro dos órgãos permanece desconhecida, e que alguma variação nas amostras de cérebro pode ser devido a diferenças geográficas entre o Novo México e a costa leste dos EUA.

“Esses resultados destacam uma necessidade crítica de entender melhor as rotas de exposição, as vias de absorção e eliminação e as potenciais consequências para a saúde dos plásticos nos tecidos humanos, particularmente no cérebro”, disseram os pesquisadores.

A Prof. Tamara Galloway da Universidade de Exeter no Reino Unido, que não fazia parte da equipe do estudo, disse que o aumento de 50% nos níveis de microplásticos cerebrais nos últimos oito anos refletiu a crescente produção e uso de plásticos e foi significativo. “Isso sugere que se reduzíssemos a contaminação ambiental com microplásticos, os níveis de exposição humana também diminuiriam, oferecendo um forte incentivo para focar em inovações que reduzam a exposição”, disse Galloway.

O professor Oliver Jones, da Universidade RMIT, na Austrália, disse que a nova pesquisa era interessante, mas o baixo número de amostras e a dificuldade de analisar pequenas partículas de plástico sem contaminação significam que é preciso ter cuidado ao interpretar os resultados.


Fonte: The Guardian