O blefe de Donald Trump para deportar imigrantes com voos militares só dará certo se for respondido com covardia

Como sou leitor do blog “The Proof” do jornalista Seth Abramson, posso compartilhar o fato de que toda a gritaria do governo Trump em torno dos voos militares para retornar imigrantes considerados ilegais esconde um blefe salgado para os contribuintes dos EUA.  Segundo Abramson, os governos de Barack Obama e Joe Biden expulsaram muito mais imigrantes considerados ilegais do que Trump o fez durante seu primeiro mandato.  A diferença é que tanto Obama quanto Biden não utilizaram voos militares para mandar de volta os imigrantes, mas voos de carreira com empresas aéreas civis.

Essa opção por voos militares, além de desrespeitar a soberania dos países que podem sim recusar a chegada de aeronaves com forças estrangeiras em seus territórios nacionais, esconde o fato de que o plano de deportação em massa que Donald Trump diz que realizará não custará os US$ 3 bilhões anunciados na campanha eleitoral, mas salgados US$ 86 bilhões. Com isso, os contribuintes americanos estão pagando 300% a mais pelo plano de imigração de Trump do que deveriam.  Como essa diferença  teria que sair de um orçamento para lá de estourado, toda a pantomima em torno de exigências mínimas de civilidade no retorno de imigrantes indesejados só serve para Trump blefar em cima de outros governos nacionais.

A resposta, ainda que limitada do presidente da Colômbia, Gustavo Petro, é um exemplo de como se portar frente à imposição dessa intrusão de voos militares no seu espaço aéreo  vai no sentido totalmente oposto ao que foi adotado até agora pelo governo do Brasil. As cenas vindas de Manaus onde um voo militar teve que parar por razões técnicas são acima de tudo humilhantes não apenas para os deportados, mas para um governo que se diz de esquerda.

A verdade é que uma resposta mais dura do Brasil teria criado mais dificuldades para Donald Trump, na medida em que o valor dos intercâmbios comerciais entre nós e os EUA é muito mais significativo do que aquele representado pela Colômbia.  Mas ao invés de recusar o uso de voos militares que aviltam a nossa soberania nacional, o governo Lula preferiu uma saída meia boca que foi realizar as medidas óbvias de retirar algemas e correntes e de colocar os brasileiros em voos da FAB.  Para os EUA mesmo, só sobrararam muchochos. 

Quem um dia participou de um jogo de pôquer sabe que em toda mesa existente um blefador contumaz cuja única chance de ganho é amedrontar os outros membros da mesa. É exatamente essa a postura que Donald Trump está adotando e que nos seus primeiros dias de governo está servindo para deixar a mesa em polvorosa. A saída mais óvia seria chamar o de chamar cada blefe do blefador, mas até agora, no caso da América do Sul, o único jogado com um mínimo de capital para chamar o blefe está preferindo se fazer de morto. Resta saber até quando.

Chefões das “big techs” abraçam Trump: gesto de força ou sinal de fraqueza?

O abraço entre as grandes empresas de tecnologia e o presidente Donald Trump vem suscitando uma série de reflexões sobre o futuro das chamadas redes sociais, já que boa parte da existência das mesmas se ancorou na premissa de que ofereciam novos espaços de sociabilidade que estariam livres do controle de governos.

Já é sabido que esa premissa era falsa, pois a relação entre grandes empresas e as diferentes administrações que governaram os EUA nas últimas décadas já estava clara. O problema é que agora está escancarado que figuras como Jeff Bezos, Elon Musk e Mark Zuckerberg que estiveram na posse de Trump decidiram aderir à sua forma particular de hegemonismo estudanidense.  Diante disso,  cai definitivamente a máscara de neutralidade e se vê um processo de adesão a um projeto geopolítico que visa estancar a decadência da hegemonia política, econômica e militar dos EUA. 

A consequência dessa tomada de posição por parte das big techs estadunidenses que controlam as chamadas redes sociais dependerá do que irão fazer os bilhões de pessoas que acreditaram na ideia de que era possível estabelecer ambientes de interação social que dispensassem o contato direto entre as pessoas. 

Os próximos meses deveram ser importantes para se verificar o que vai acontecer em termos da migração de usuários para espaços que estejam ainda fora do controle do oligopólio de informação que foi sendo formado pela aquisição de redes e aplicativos, processo esse que deixou nas mãos de figuras como Elon Musk e Mark Zuckerberg o controle total da informação que circula de forma digital.

Por outro lado, há que se reconhecer que os chefões das redes sociais se jogaram no colo de Donald Trump por razões estratégicas para os seus negócios, em que pesem as mega fortunas que já acumularam.  A questão é que junto com a decadência da hegemonia dos EUA e o surgimento de blocos alternativos como o do BRICS, há o surgimento de uma contra-hegemonia que se ancora no extraordinário desenvolvimento das ferramentas digitais a partir da China. Essa parece ser a principal razão para que a máscara tivesse que cair. É mais um gesto de fraqueza do que de força, e com grandes riscos envolvidos já que a deserção dos usuários/consumidores poderá ser massiva.

Uma reflexão que me parece necessária é que embora tenhamos que reconhecer a  atual dominância das formas virtuais de relação social, esse giro das big techs forçará a todos nós a retomada de formas de interação que se julgava estarem ultrapassadas.  E essa parece a melhor notícia que surge nesse início de 2025.

Reportagem mostra que o JP Morgan está maquiando suas operações

A divulgação incorreta de atividades comerciais em Wall Street pode levar a uma crise financeira e inflacionar a remuneração dos executivos

Por Josephine Moulds e  David Kenner para o TBIJ 

A senadora Elizabeth Warren criticou o Federal Reserve por permitir que bancos dos EUA violem regras criadas para evitar outra crise financeira e evitar grandes resgates dos contribuintes.

Um denunciante do JPMorgan disse que o maior banco do mundo estava relatando incorretamente sua atividade de negociação, o que poderia ter inflado seus lucros em bilhões de dólares e adicionado milhões aos pacotes de remuneração dos executivos. Eles relataram o problema em uma carta enviada aos membros do conselho, o Federal Reserve e o regulador financeiro, o Bureau of Investigative Journalism (TBIJ) e o International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ) podem revelar.

Outro banqueiro familiarizado com o assunto disse que outros grandes bancos dos EUA estavam fazendo o mesmo – com a aprovação tácita do Federal Reserve, o banco central dos EUA.

Warren, uma democrata e voz de liderança em responsabilidade no setor financeiro, disse: “Estou profundamente preocupada que o Fed possa estar fazendo vista grossa enquanto o JPMorgan e outros bancos de Wall Street maquiam seus livros e desviam fundos destinados a evitar um colapso econômico global. A supervisão bancária inconsistente e frouxa já destruiu nossa economia antes.

“[O presidente do Federal Reserve, Jerome] Powell deve uma explicação ao povo americano por permitir que os CEOs manipulem seus relatórios financeiros para que possam pagar a si mesmos e a seus ricos investidores mais em remuneração executiva e recompras.”

Contágio global

Na esteira da crise financeira de 2008, reguladores ao redor do mundo concordaram com um conjunto de regras projetadas para evitar outro cenário em que os contribuintes fossem forçados a socorrer os bancos. Uma área-chave de foco era garantir que os bancos mantivessem capital suficiente para se manterem à tona no caso de outra crise financeira.

De acordo com as regras, que o Federal Reserve é responsável por manter nos EUA, os bancos considerados “grandes demais para falir” devem enviar dados sobre as negociações que estão realizando, o que determina quanto capital eles são obrigados a manter contra perdas potenciais.

O denunciante do JPMorgan disse que o banco vinha deliberadamente subnotificando esses dados desde que as regras foram introduzidas em 2016. Isso teria reduzido artificialmente as reservas que ele era obrigado a manter em cerca de US$ 7,5 bilhões por ano.

Outro ex-banqueiro do JPMorgan que trabalhou nessa área e desde então mudou para outro banco disse que entende que outros bancos dos EUA adotam essa abordagem para relatar suas atividades comerciais.

Graham Steele, ex-secretário assistente de instituições financeiras do Tesouro dos EUA, disse: “Se [os bancos] não têm capital suficiente para os momentos em que passam por estresse financeiro, isso coloca suas economias domésticas em maior risco, porque está corroendo sua capacidade de absorver perdas.

“Ele também impõe riscos ao sistema financeiro global. Eles espalharão risco e contágio porque são instituições financeiras globais e mercados financeiros globais.”

As revelações vêm em um momento crítico. O Federal Reserve já está sob fogo por ceder à pressão dos bancos dos EUA, que no ano passado fizeram lobby com sucesso contra uma proposta para aumentar a quantidade de capital que eles são forçados a manter. No início deste mês, Michael Barr renunciou ao cargo de chefe de supervisão do Fed antes do segundo mandato de Trump, supostamente para evitar um potencial conflito com o novo presidente.

Quebrando as regras

O desrespeito a essas regras nos EUA corre o risco de minar promessas semelhantes feitas ao redor do mundo. O Federal Reserve é membro do Comitê de Basileia, uma organização internacional que desenvolve padrões regulatórios mínimos. A estrutura não é juridicamente vinculativa, mas os membros concordam em implementá-la integralmente.

David Aikman, professor de finanças no King’s College London, disse: “Nenhum país individual vai querer penalizar seus próprios grandes bancos. Eles só vão assinar essas regras se acharem que todos os outros estão aplicando as regras fielmente.”

O denunciante do JPMorgan disse que os relatórios incorretos do banco poderiam permitir que ele ganhasse US$ 2 bilhões extras por anoWolterfoto / Ullstein Bild via Getty

Um porta-voz do Federal Reserve não respondeu a uma pergunta do ICIJ e do TBIJ sobre se ele permitia que os bancos interpretassem as regras dessa forma. Em vez disso, eles apontaram para as maiores quantidades de capital adicional que os grandes bancos dos EUA devem manter e a natureza consultiva da estrutura de Basileia.

O porta-voz disse: “Os maiores e mais complexos bancos dos EUA são obrigados pelas regras do Fed a ter sobretaxas de capital substancialmente mais altas do que suas contrapartes internacionais e sobretaxas de capital substancialmente mais altas do que as especificadas no Acordo de Basileia não vinculativo.”

Steele disse que a falha do Fed em esclarecer sua posição sobre essa regra era preocupante. “É profundamente lamentável que [o Federal Reserve] permita que os bancos escapem com a violação de padrões nacionais e internacionais muito claros, mas é ainda mais chocante fazê-lo de uma forma tão opaca.”

Ele disse que haveria questões de justiça se outros bancos dos EUA não estivessem cientes da posição do Fed.

Jogando com o sistema

Executivos dos maiores bancos dos EUA não fizeram segredo de sua oposição à retenção de mais capital – ativos que poderiam ser investidos, distribuídos a acionistas ou emprestados. Em outras palavras, esse capital poderia estar rendendo dinheiro ao banco.

Jamie Dimon, CEO do JPMorgan, disse em 2023: “Temos nossos funcionários mais inteligentes descobrindo todos os ângulos para reduzir os requisitos de capital do JPMorgan.”

Uma maneira de um grande banco dos EUA burlar as regras de capital seria subestimar sua atividade de negociação. Os bancos que realizam mais negociações são considerados como representando um risco maior para o sistema financeiro e, portanto, são forçados a manter maiores quantidades de capital.

Frequentemente, as mesas de operações bancárias mantêm posições “longas” e “curtas” em ações e outros produtos financeiros – o que significa que compram as ações assumindo que seu preço subirá, mas também fazem uma aposta oposta de que o valor dessas ações cairá.

Se eles compensarem suas posições longas – as ações que detêm – com suas posições curtas ao reportar ao regulador, a quantidade de negociações que eles estão fazendo parecerá menor e o banco parecerá menos exposto.

Mas as regras do Federal Reserve, baseadas na estrutura de Basileia, proíbem especificamente os bancos de fazer isso, afirmando que eles devem “relatar valores em uma base bruta longa (ou seja, não compensar posições curtas com posições longas)”.

Na carta aos membros do conselho do JPMorgan datada de agosto de 2023, o denunciante disse que o banco estava quebrando essa regra ao compensar posições longas e curtas quando elas eram mantidas na mesma entidade legal. Eles escreveram que faziam parte de uma equipe no JPMorgan que levantou isso como um problema em 2018. Junto com colegas, eles descobriram que essa abordagem teve o resultado de subestimar os requisitos de capital do banco em meio ponto percentual.

Cálculos baseados nas próprias estimativas do JPMorgan sugerem que isso poderia liberar US$ 7,5 bilhões, permitindo que o banco fizesse US$ 95 bilhões a mais em empréstimos. O denunciante calculou que, com base nas margens de lucro do JPMorgan, isso poderia gerar lucro líquido de mais de US$ 2 bilhões em apenas um ano. “O efeito cumulativo ao longo de vários anos dessa conduta é impressionante”, eles escreveram.

O CEO do JPMorgan, Jamie Dimon, ganhou mais de US$ 30 milhões em 2023 com base no desempenho de seu bancoJeenah Moon / Bloomberg via Getty

Isso teria um efeito cascata nos bônus dos executivos, que estão intimamente ligados aos ganhos. Em 2023, US$ 34,5 milhões do pacote de remuneração de Dimon estavam diretamente ligados ao desempenho do banco.

Além de levantar a questão internamente, o denunciante disse que havia informado o Federal Reserve e a Securities and Exchange Commission, um regulador financeiro, em 2022.

O JPMorgan disse ao TBIJ e ao ICIJ que o banco cumpre integralmente com todas as regulamentações de capital e está confiante em sua metodologia, que “é totalmente transparente para nossos reguladores”. Ele não respondeu a uma pergunta sobre se a abordagem detalhada pelo denunciante refletia com precisão sua política.

O outro ex-banqueiro do JPMorgan sugeriu que o banco não havia buscado aprovação para sua interpretação das regras do Federal Reserve. “As empresas dos EUA são meio que desencorajadas de fazer dos reguladores seus escritórios de interpretação”, eles disseram.

“Os supervisores esperam que os bancos tenham expertise, que façam seu trabalho e então ele esteja sujeito à revisão. É menos pedir permissão antecipadamente e mais fazer as interpretações e estar sujeito a ser informado de que estão errados.”

Um porta-voz do Financial Services Forum, que representa os maiores bancos dos EUA, disse: “[Os maiores bancos dos EUA] enfrentam requisitos de capital significativamente mais altos do que outros bancos nacionais e globais, com envios de dados regulares e obrigatórios sujeitos a uma supervisão rigorosa.”

Repórter: Josephine Moulds
Editor: Franz Wild
Editor de produção: Alex Hess
Verificador de fatos: Jasper Jackson

O TBIJ tem vários financiadores, uma lista completa dos quais pode ser encontrada aqui . Nenhum dos nossos financiadores tem qualquer influência sobre decisões editoriais ou produção.


Fonte: TBIJ

Proposta da EPA para atrazina, agrotóxico vinculado a danos reprodutivos, volta a cair com Donald Trump

Por Douglas Main para o “The New Lede” 

Os reguladores ambientais dos EUA estão planejando alterar os níveis permitidos de um herbicida associado a problemas de saúde reprodutiva para uma concentração que, segundo os críticos, desconsidera anos de riscos documentados à saúde e ao meio ambiente — o que pode marcar uma nova frente de batalha dentro do governo Trump.

A proposta da Agência de Proteção Ambiental (EPA), apresentada no final de 2024 sob o governo Biden, permitiria concentrações do herbicida atrazina de até 9,7 partes por bilhão (ppb) em riachos e lagos antes que quaisquer esforços de mitigação fossem necessários.

Isso é quase três vezes maior do que o nível de 3,4 ppb proposto pela EPA em 2016 e reiterado pela agência como adequado em 2022. Mas é menor do que um nível pressionado pela administração Trump anterior. Também é menor do que a referência de longa data de 10 ppb que estava em vigor de 2011 a 2019, e menor do que a fabricante de atrazina Syngenta diz ser necessário.

A ação da agência foi recebida com indignação pelos defensores da saúde ambiental, que dizem que a influência da indústria está anulando a ciência sólida, e anos de luta para reduzir a contaminação de cursos d’água por atrazina estão em risco.

“É um soco no estômago de todas as pessoas que trabalharam para nos proteger desse veneno incrivelmente prejudicial”, disse Nathan Donley , diretor de ciências da saúde ambiental do Centro de Diversidade Biológica.

Atrazina é um produto químico herbicida amplamente utilizado, popular entre fazendeiros, particularmente aqueles que cultivam milho, e descobriu-se que o produto químico contamina fortemente o abastecimento de água potável em todo o país, levantando preocupações com a saúde humana. O produto químico foi proibido para uso como herbicida na União Europeia desde 2003.

Pesquisas mostraram que a atrazina é um disruptor endócrino que pode afetar o desenvolvimento sexual de sapos — castrando sapos quimicamente e feminilizando anfíbios machos. Os efeitos são vistos em exposição a níveis bem abaixo de 1 ppb — mais de 10 vezes menor do que o novo limite proposto para segurança ambiental, conhecido como CE-LOC, ou nível de preocupação equivalente à concentração.

Em uma ampla variedade de espécies, incluindo mamíferos, a atrazina faz com que andrógenos, ou produtos químicos masculinizantes, sejam convertidos em estrogênio. Também foi associada a um risco aumentado de vários tipos de câncer, parto prematuro , defeitos congênitos e função imunológica diminuída.

A Syngenta, a principal fabricante de atrazina, não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. Mas o site da empresa afirma que a atrazina é bem estudada, boa para o meio ambiente e não perigosa.

“Não há ligação entre atrazina e desregulação endócrina em níveis de exposição no mundo real”, afirma a empresa.

Embora os defensores da saúde pública digam que o novo nível permitido é alto demais para ser realmente protetor, a posição mais recente da EPA discorda. Antes de Biden deixar o cargo, o porta-voz da EPA, Remmington Belford, observou em uma declaração enviada em resposta a perguntas que a nova proposta CE-LOC seguiu uma reavaliação do painel consultivo científico de 2023 de um subconjunto de estudos sobre o tópico.

“A EPA não prevê nenhum risco à saúde humana decorrente da exposição à atrazina em águas superficiais e água potável”, acrescentou Belford.

A EPA está atualmente recebendo comentários públicos sobre a proposta. O período de comentários termina em 18 de fevereiro, embora a agência diga que os comentários devem ser recebidos até 3 de fevereiro.

Não está claro se a proposta será impactada por mudanças na administração da EPA sob o recém-empossado presidente Donald Trump. Mas a administração Trump anterior provocou um alvoroço quando tentou aumentar o CE-LOC para 15 ppb.

Cientistas da EPA relataram que interferência administrativa os forçou a desconsiderar descobertas científicas para respaldar esse nível, e a medida foi contestada com sucesso no tribunal.

Vai e volta

Conforme definido, o CE-LOC deve fornecer um limite que proteja peixes, invertebrados e anfíbios no ecossistema aquático. Mas concordar sobre onde esse nível deve estar tem sido uma batalha prolongada entre a Syngenta e os apoiadores que pressionam por níveis mais altos contra os defensores da saúde e do meio ambiente que pressionam por níveis mais baixos.

A EPA tem oscilado sobre a questão em meio a mudanças políticas na liderança da EPA.

Em uma carta de 2022 da Administradora Assistente da EPA, Michal Freedhoff, para um grupo de defesa da indústria, Freedhoff citou “confusão” sobre as posições de mudança da agência sobre o assunto. Ela disse que os 15 ppb assumidos pela primeira administração Trump representavam uma “decisão política”, mas os melhores dados sobre o assunto — conforme analisados ​​em 2016 antes de Trump assumir o cargo e novamente durante a administração Biden — apoiavam os 3,4 ppb.

Não está claro por que a agência passou de 3,4 ppb para 9,7 ppb antes de Biden deixar o cargo, mas muitos suspeitam que a pressão corporativa seja uma possível culpada.

A Syngenta tem um longo histórico de tentar influenciar descobertas regulatórias sobre atrazina e outros produtos pesticidas e usar táticas secretas para desconsiderar a ciência independente, e alguns observadores dizem que a pressão da empresa e seus apoiadores é um fator-chave na mudança de posição da EPA. A Syngenta é uma das maiores empresas agroquímicas do mundo e é de propriedade da ChemChina, uma gigante química estatal chinesa.

Registros internos divulgados por meio de litígio há mais de uma década mostram que a empresa tem um histórico de uso de várias táticas para silenciar as críticas à atrazina, incluindo investigar cientistas em um painel consultivo da EPA, assediar um cientista que estudava a atrazina e outras medidas , como recrutar “aliados terceirizados” para apoiar a segurança de seus produtos, ao mesmo tempo em que parece ser independente da empresa.

Táticas semelhantes foram usadas pela Syngenta para minimizar os riscos de seus herbicidas paraquate, revelou o The New Lede após obter milhares de registros internos da empresa .

O pesquisador Tyrone Hayes , um ecotoxicologista e biólogo do desenvolvimento da UC-Berkeley que estuda a atrazina há quase 30 anos, disse que a ação da EPA para permitir um nível tão alto de atrazina na água é inexplicável, dada a evidência de danos da atrazina ao meio ambiente. A pressão da indústria é a única explicação razoável para a ação da agência, disse ele.

Jason Rohr , um pesquisador que estudou a atrazina na Universidade de Notre Dame, disse que a última medida da EPA de estabelecer uma referência em 9,7 é “um pouco decepcionante”.

“Eu esperava que [a EPA] fosse na direção oposta, que houvesse mais regulamentações e restrições, especialmente na última década, com tudo o que aprendemos”, disse ele.

Em um artigo de 2021 , Rohr escreveu que a história da atrazina “representa um exemplo clássico de fabricação de incerteza e distorção da ciência para atrasar decisões regulatórias indesejadas”.

O artigo relata como a Syngenta e outros grupos da indústria regularmente “distorceram a ciência” em direção a resultados favoráveis; atacaram e negaram a ciência percebida como prejudicial aos seus interesses; assediaram cientistas como Hayes e, em geral, “fabricaram incerteza” para atrasar ou impedir regulamentações.

Além dos efeitos de desregulação endócrina da atrazina, ela suprime a atividade de plantas aquáticas e algas, que formam a base de toda a cadeia alimentar. “A atrazina, como muitos herbicidas, suprime a produtividade primária, [que] tem potencial para ter efeitos em cascata em todos os outros organismos”, disse Rohr.

Medidas de mitigação

O CE-LOC é a concentração média de atrazina encontrada em corpos d’água que “quando excedida, apresenta uma chance maior que 50% de afetar negativamente” um ambiente aquático, de acordo com a EPA. Ele é destinado principalmente para proteger plantas aquáticas, que a atrazina, um herbicida, suprime diretamente — mas também deve ser definido em um nível que não machuque animais.

A proposta sobre atrazina é parte de um plano mais amplo para implementar um conjunto de medidas de mitigação   destinadas a reduzir danos associados à atrazina. Junto com a alteração do CE-LOC, a proposta da EPA inclui um “ menu de mitigação ” baseado em pontos destinado a promover medidas que reduzam o escoamento, como deixar campos agrícolas sem cultivo.

A quantidade de pontos que os agricultores precisam varia de acordo com a área e inclui fatores que a EPA tentou levar em consideração, como o uso de atrazina pela comunidade, a quantidade de chuva e o tipo de solo.

Em algumas áreas, os fazendeiros precisam apenas de três “pontos” para cumprir as instruções do rótulo proposto; em outras áreas, são cinco. Praticar o plantio direto rende três pontos — mas isso não é suficiente para eliminar o risco de escoamento, acusam os críticos.


Fonte: The New Lede

A herança maldita do Tsulama da Vale: estudo da Fiocruz detecta presença de metais pesados na urina de crianças em Brumadinho (MG)

Percentual de arsênio passou de 42% em 2021 para 57% em 2023

Exames feitos em crianças de até 6 anos moradoras de Brumadinho, na Grande BH, apontam aumento da taxa de detecção de metais na urina. Os menores foram avaliados pela Fiocruz Minas e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O estudo analisa as condições de vida e saúde da população após o desastre causado pelo rompimento de uma barragem da Vale, que completa 6 anos neste sábado (25). A tragédia matou 272 pessoas.

Foi detectada a presença de pelo menos um de cinco metais (cádmio, arsênio, mercúrio, chumbo e manganês) em todas as amostras analisadas. O percentual total de crianças com níveis de arsênio acima do valor de referência passou de 42%, em 2021, para 57%, em 2023, sendo que, nas regiões próximas a áreas do desastre e de mineração ativa, o percentual de aumento entre um ano e outro é ainda mais significativo.

O estudo visa detectar as mudanças ocorridas nessas condições em médio e longo prazo e, dessa forma, os participantes são acompanhados anualmente, desde 2021. Um compilado dos dados coletados durante o primeiro ano de acompanhamento já havia sido realizado. Agora, as análises incluem dados do terceiro ano, 2023, permitindo estabelecer uma comparação.

Dos metais, o arsênio é o que aparece mais frequentemente acima dos limites de referência, detectado, entre os adultos, em cerca de 20% das amostras e, entre os adolescentes, em aproximadamente 9% das amostras. No entanto, nesse público, dependendo da região de moradia, o percentual de amostras com arsênio acima do limite chega a 20,4%.

Conforme a pesquisa, chama atenção o fato de todos os metais apresentaram elevado percentual de detecção, nos dois anos, com reduções mais relevantes dos valores para manganês e menos expressivas para arsênio e chumbo, quando se compara 2021 e 2023. Esse quadro demonstra uma manutenção da exposição a esses metais no município, de forma disseminada em todas as regiões investigadas, ainda que com níveis mais baixos no último ano investigado.

“Os resultados encontrados demonstram uma exposição aos metais, e não uma intoxicação, que só pode ser assim considerada após avaliação clínica e realização de outros exames para definir o diagnóstico. Dessa forma, recomenda-se uma avaliação médica para todos os participantes da pesquisa que apresentaram níveis acima dos limites biológicos recomendados, de forma que os resultados sejam analisados no contexto geral da sua saúde”, informou a Fiocruz.

Além disso, é necessária uma rede de atenção que permita realização de exames de dosagem desses metais não apenas na população identificada pelo projeto, mas para atender outras demandas do município. Segundo a Fiocruz, a organização dessa rede de serviços é importante, considerando que a exposição aos metais investigados permanece entre 2021 e 2023, de forma disseminada em todo município.

Um dos aspectos avaliados na pesquisa é o perfil de exposição. A dosagem de cádmio, arsênio, mercúrio, chumbo e manganês foi verificada por meio de exames de sangue e/ou urina. Na população acima de 12 anos, os resultados mostraram que há exposição a esses metais nos dois anos analisados, mas, em 2023, o percentual de amostras detectadas com metais acima dos valores de referência diminuiu.

Chumbo e mercúrio apresentaram taxa de detecção em 100% das amostras em 2023, mas apenas 6,8% delas apontaram dosagem de chumbo acima dos valores de referência.

Condições de saúde da população

O estudo também analisa as condições de saúde da população, baseando-se em diagnósticos médicos anteriores e na percepção dos próprios participantes. Quando perguntados como avaliavam sua saúde, a maioria dos adultos e adolescentes, tanto em 2021 quanto em 2023, avaliou como boa ou muito boa, com variações entre as regiões de moradia. No entanto, o percentual da população adulta que avaliou a saúde como ruim ou muito ruim se manteve elevado nas regiões atingidas pela lama ou com atividade de mineração.

Entre os adolescentes, quando perguntados se já tinham recebido diagnósticos de doenças crônicas, as respostas mais frequentes, em 2021, foram asma ou bronquite asmática, mencionadas por 12,7% dos entrevistados. Em 2023, o percentual subiu para 14%. Chama a atenção dos pesquisadores o aumento na prevalência de algumas condições, como colesterol alto, que passou de 4,7%, em 2021, para 10,1%, em 2023; e um grupo de doenças que inclui enfisema, bronquite crônica ou doença pulmonar obstrutiva crônica, que foi de 2,7%, em 2021, para 10,7%, em 2023.

Quanto às doenças crônicas, em 2021, ao serem questionados se algum médico já havia diagnosticado essas condições, os adultos mencionaram principalmente hipertensão (27,9%), colesterol alto (20,9%) e problemas crônicos de coluna (19,7%). Em 2023, essas doenças continuam sendo as mais prevalentes, mas com aumento na frequência em que ocorrem: hipertensão foi citada por 30% dos adultos, colesterol alto por 28,5% e problemas crônicos de coluna por 22,8%. Deve-se destacar também um aumento no diagnóstico médico do diabetes entre adultos, que passou de 8,7% para 10,7%, entre os dois anos avaliados.

A pesquisa investigou ainda a presença de sintomas e outros sinais nos 30 dias anteriores à entrevista. Em 2021, os adultos relataram principalmente irritação nasal (31,8%), dormências ou cãibras (25,2%) e tosse seca (23,5%). Em 2023, houve aumento na frequência dessas condições para 40,3%, 34,4% e 21,5%, respectivamente. Esses sintomas também foram os mais citados entre os adolescentes tanto em 2021 quanto em 2023, mas com poucas alterações entre um ano e outro.

“A pior percepção da saúde é um indicador de extrema importância para avaliação da condição geral da saúde em uma população, refletindo impacto negativo nessa condição entre os moradores das áreas atingidas pela lama e pela atividade de mineração. Sobre as condições crônicas, é importante ressaltar a elevada carga de doenças respiratórias e do relato de sinais e sintomas, o que demonstra a necessidade de maior atenção dos serviços de saúde sobre esse aspecto, que pode estar relacionado às condições do ambiente, como disseminação de poeira pela natureza da atividade produtiva”, disse o pesquisador da Fiocruz Minas Sérgio Peixoto, coordenador-geral da pesquisa.

Depressão, ansiedade e insônia

A avaliação da saúde mental incluiu perguntas sobre o diagnóstico médico de algumas condições. Os resultados mostraram poucas alterações de um ano para outro. Entre os adolescentes, quando perguntados sobre o diagnóstico para depressão, o percentual foi de 9,9%, em 2021, e 10,6%, em 2023. Entre os adultos, 21,3% relataram diagnóstico médico de depressão, em 2021, e 22,3%, em 2023, valores superiores aos 10,2% relatados por adultos brasileiros avaliados na Pesquisa Nacional de Saúde, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2019. Já o diagnóstico de ansiedade ou problemas do sono foi reportado por 32,8% dos entrevistados com mais de 18 anos de idade, em 2021, e por 32,7%, em 2023.

A dificuldade para dormir em três ou mais noites por semana nos últimos 30 dias foi relatada por 26,7% da população adulta de Brumadinho em 2021; no ano de 2023, houve aumento, que chegou a 35,1%. Entre os adolescentes, tal dificuldade foi reportada por 18,3% em 2021, e 17,4% em 2023.

“Os números mostram a necessidade de avaliar as ações voltadas à saúde mental no município, dada a manutenção de elevada carga de transtornos mentais na população nos dois anos avaliados. Faz-se necessário priorizar estratégias intersetoriais, considerando a complexidade do problema e as especificidades de cada território”, explica Sérgio Peixoto.

Procura por serviços de saúde aumenta em Brumdinho

O estudo também mostrou que aumentou a procura por serviços de saúde no município. Sobre a realização de consultas médicas, em 2023, 44,1% dos adolescentes relataram ter realizado três ou mais consultas; em 2021, eram apenas 21,7%. Entre os adultos, 53,7% tiveram três ou mais consultas, em 2023, e 38,6%, em 2021.

De acordo com os resultados, o Sistema Único de Saúde (SUS) é a principal referência dos entrevistados. Os profissionais da Atenção Primária à Saúde foram apontados, em 2021, como os mais procurados por 56,8% dos adultos e por 59,6% dos adolescentes. Em 2023, o percentual passou para 64% entre os adultos e para 66% entre os adolescentes.

Dos adultos, 34,9% declararam ter plano privado de saúde, em 2021, e 39,8%, em 2023. Entre os adolescentes que afirmaram ter plano, foram 27,8%, em 2021, e 33,9%, em 2023.

“A elevada utilização dos serviços de saúde e a menção ao serviço público como sendo a principal referência para atendimento demonstram a grande demanda para o SUS no município, mas também o grande potencial desse sistema para a realização de intervenções efetivas que visem minimizar os impactos na saúde da população”, destaca Peixoto.

Número de crianças com risco de atraso no desenvolvimento de habilidades apresenta queda

Além da analisar a exposição das crianças a metais, foram avaliados também os efeitos em relação ao desenvolvimento neuromotor, cognitivo e emocional, por meio da aplicação do Teste de Denver II. Os resultados mostraram que, de um ano a outro, caiu o número de crianças com risco de atraso no desenvolvimento de habilidades esperadas para sua faixa etária. Em 2021, eram 42,5% na faixa de risco, sendo, em 2023, 28,3% do total de avaliados.

O estudo avaliou ainda o crescimento pôndero-estatural das crianças, que considera a estatura, o peso e o índice de massa corporal. Entre 2021 e 2023, a maioria das crianças apresentou Índice de Massa Corporal (IMC) normal. Em relação aos quadros de obesidade (IMC > 30) e sobrepeso (IMC > 25), houve melhora nos índices. Em 2021, cerca de 11% das crianças eram consideradas obesas; em 2023, o percentual caiu para 4,6%. Com sobrepeso, eram 12,5%, em 2021, e 4,6%, em 2023.

Para os pesquisadores, essa melhora na avaliação das crianças pode ser justificada pelo retorno das atividades escolares e da vida social, após o isolamento social provocado pela pandemia de covid-19. A equipe recomenda o acompanhamento das que apresentaram alterações nos indicadores antropométricos e na aquisição de habilidades associadas com o desenvolvimento neuropsicomotor, social e cognitivo. Os pesquisadores sugerem ainda a articulação entre as equipes de saúde e educação municipais, já que a atividade escolar tem grande potencial de estímulo sobre o desenvolvimento infantil.

Como é feita a pesquisa

Intitulado Programa de Ações Integradas em Saúde de Brumadinho, o estudo é desenvolvido em duas frentes de trabalho: uma com foco na população com idade acima de 12 anos, chamada Saúde Brumadinho, e outra voltada para as crianças de até 6 anos de idade, que recebeu o nome de Projeto Bruminha. Em 2021, a amostra foi composta por 3.297 participantes, sendo 217 crianças, 275 adolescentes com idade entre 12 e 17 anos, e 2.805 adultos com mais de 18 anos. Em 2023, foram 2.825 participantes: 130 crianças, 175 adolescentes e 2.520 adultos.

Ao compor a amostra, os pesquisadores buscaram cobrir toda a extensão territorial do município. No projeto Saúde Brumadinho, a amostra foi segmentada em três regiões geográficas, incluindo as áreas diretamente expostas ao rompimento da barragem de rejeitos; a região de moradores em área com atividade de mineração, mas não atingida pela lama; e a parcela considerada como não exposta diretamente ao rompimento da barragem ou à atividade mineradora, constituída aleatoriamente pelo restante do município.

Para o Projeto Bruminha, a amostra do estudo incluiu todas as crianças com até 6 anos, residentes em quatro localidades selecionadas: Córrego do Feijão, Parque da Cachoeira, Tejuco e Aranha, sendo as duas primeiras localizadas na rota da lama de rejeitos, a terceira em região de mineração ativa e a última distante dessas três áreas.

A pesquisa se baseia em diversas fontes de dados, incluindo exames de sangue e ou de urina, feitos por todos os participantes para verificar a dosagem de metais no organismo, além de entrevistas que analisam diversos aspectos relacionados à saúde e avaliação física e antropométrica.

* Com informações da Agência Brasil


Fonte: Hoje em Dia

BlueSky toma o centro das atenções na comunidade científica: 70% de entrevistados pela Nature usam a plataforma

Cerca de 6.000 leitores responderam à enquete da Nature, com muitos declarando que Bluesky era mais legal, mais gentil e menos antagônico à ciência do que X

A plataforma de mídia social Bluesky tem mais de 27 milhões de usuários. Crédito: Peter Kováč/Alamy

Por Celeste Biever para a Nature 

70% dos leitores da Nature que responderam a uma pesquisa online estão usando a plataforma de mídia social Bluesky, que funciona muito como o X (antigo Twitter) e cuja popularidade disparou nos últimos meses, em particular desde a eleição de novembro nos EUA .

Embora a pesquisa não seja estatisticamente representativa dos leitores da Nature ou da comunidade científica em geral, ela ecoa o entusiasmo recente dos pesquisadores pelo Bluesky e a desilusão com o X. Dos cerca de 5.300 leitores que responderam a uma pergunta sobre o X, 53% disseram que costumavam estar no X, mas agora o deixaram (veja ‘Êxodo em massa’).

ÊXODO EM MASSA. O gráfico mostra que 53% dos entrevistados em uma pesquisa da Nature disseram que costumavam estar na plataforma X, mas agora saíram.

Fonte: L. Balduf et al . Pré-impressão no arXiv https://doi-org.ez81.periodicos.capes.gov.br/10.48550/arXiv.2501.11605 (2025)

“Bluesky é muito melhor para a ciência. Há muito menos toxicidade, desinformação e distrações”, escreveu um entrevistado. “Meu feed é quase todo de cientistas e eu realmente recebo atualizações sobre pesquisas que são relevantes e oportunas”, escreveu outro.

O Bluesky agora tem mais de 27 milhões de usuários e é amplamente similar em funcionalidade e experiência do usuário ao X, que por muito tempo foi uma plataforma de referência para cientistas discutirem e disseminarem seus trabalhos. O X caiu em desgraça com alguns depois que o empreendedor Elon Musk comprou a ferramenta em outubro de 2022.

Na pesquisa da Nature , 55% dos entrevistados à pergunta “Para que você usa o Bluesky?” disseram que era uma mistura de três atividades relacionadas à pesquisa: conectar-se com outros cientistas, manter-se atualizado com outras pesquisas ou pesquisadores e promover suas próprias pesquisas (veja “Conexões online”).

CONEXÕES ONLINE. O gráfico mostra que 55% dos entrevistados na pesquisa da Nature disseram que usaram o Bluesky para se conectar com outros cientistas, manter-se atualizado com outras pesquisas ou pesquisadores e promover suas próprias pesquisas.

Fonte: L. Balduf et al . Pré-impressão no arXiv https://doi-org.ez81.periodicos.capes.gov.br/10.48550/arXiv.2501.11605 (2025)

No total, quase 6.000 leitores responderam à pesquisa da Nature , que ocorreu de 14 a 17 de janeiro de 2025. Solicitamos respostas no site da Nature , nas mídias sociais e no Nature Briefing , um boletim informativo por e-mail. Dos quase 5.000 entrevistados que responderam a uma pergunta sobre seu trabalho, 85% — ou 3.970 — disseram que eram cientistas atuantes. Um número semelhante respondeu a uma pergunta sobre seu campo de estudo: 38% disseram que trabalhavam em ciências biológicas, 11% em ciências da computação ou da informação, 9% em ciências físicas e 9% em ciências ambientais. As respostas vieram de cientistas de 84 países ou regiões, com a maioria vindo dos Estados Unidos (33%), seguido pelo Reino Unido (15%) e Alemanha (12%).

Vibrações positivas

Milhares de entrevistados da pesquisa escreveram expressivamente sobre como eles acham que Bluesky se compara a X. “Bluesky se compara lindamente até agora. Conversas mais civilizadas e informadas”, escreveu um. Outros termos positivos que os entrevistados usaram para contrastar a plataforma com X incluíram mais agradável, mais solidário, mais amigável, mais gentil, mais legal, mais colegial, edificante, mais pacífico e mais seguro.

Uma sensação de segurança é particularmente valiosa para pesquisadores que ensinam ou lideram equipes. “Sinto que posso recomendá-lo a alunos e estagiários. Não posso fazer isso para X, não é um espaço de aprendizagem seguro”, escreveu um entrevistado.

Alguns escreveram que o Bluesky é um fórum melhor do que o X para discutir ciência, porque o debate lá é mais medido e mais focado, com menos hostilidade. “Eu acho que é muito menos antagônico à ciência”, disse um entrevistado.

Mas com menos debate acalorado e menos usuários do que X, alguns acham o Bluesky chato. Isso pode mudar se ele continuar a atrair novos usuários em ritmo acelerado (veja ‘crescimento do Bluesky’). “Estava bem sonolento até novembro de 2024. Agora parece haver massa crítica suficiente de pesquisadores na minha área para encontrar novas pesquisas e conectar-se novamente”, escreveu um entrevistado.

CRESCIMENTO DO BLUESKY. O gráfico mostra o rápido aumento no número de usuários do Bluesky desde meados de 2024.

Fonte: L. Balduf et al . Pré-impressão no arXiv https://doi-org.ez81.periodicos.capes.gov.br/10.48550/arXiv.2501.11605 (2025)

Menos fascistas?

Outras marcas a favor da Bluesky observadas pelos entrevistados incluem a percepção de que há menos “nazistas” na plataforma do que na X, e menos racismo; que ela não é de propriedade nem é considerada influenciada por Musk; e que não hospeda anúncios.

Não foi possível contatar X para comentar essas críticas antes da publicação deste artigo.

Nem todos os leitores da Nature amam o Bluesky. Uma crítica que surgiu nas respostas da pesquisa afirma que ele é uma câmara de eco de esquerda. “O Bluesky está cheio de pessoas loucas e acordadas que vão te ameaçar com violência se você discordar da narrativa liberal”, disse um entrevistado.

E nem todos os entrevistados desiludidos com X acham que Bluesky é a resposta. Dezenas mencionaram que usam — e em alguns casos preferem — a plataforma de microblog descentralizada Mastodon , que surgiu como a favorita inicial entre cientistas que buscavam alternativas ao Twitter em 2022 e 2023.

Pacotes iniciais de ciências

Ignacio Castro, que pesquisa redes sociais e a Internet na Queen Mary University of London, atribui a crescente popularidade do Bluesky a alguns de seus recursos, incluindo “pacotes iniciais”, listas de contas e feeds criados por usuários para ajudar novos participantes a encontrar uma comunidade e conteúdo dos quais gostem de forma rápida e fácil. ( O pacote inicial da revista Nature está disponível aqui .)

Castro, que também respondeu à enquete da Nature , faz parte de uma equipe que estudou o impacto dos pacotes iniciais na dinâmica social do Bluesky 1. Os resultados dão uma ideia da presença de cientistas no Bluesky. Dos pacotes iniciais que incluíam uma descrição, Castro diz que 6% usaram palavras-chave relacionadas à academia, universidades de pesquisa ou ciência. E quando a equipe aleatoriamente fez uma amostragem de 30% dos pacotes iniciais no Bluesky e usou inteligência artificial para classificá-los, 4% dos pacotes examinados pareciam estar relacionados à ciência.

O Bluesky perderá seu apelo para muitos usuários se ele se tornar mais popular e menos silencioso e aconchegante? Essa é uma preocupação para alguns entrevistados da pesquisa da Nature . “Minha preocupação com o Bluesky é que ele é apenas o Twitter inicial, então a mesma coisa pode acontecer de novo”, escreveu um. Mas Castro diz que os recursos do Bluesky permitirão que os usuários mantenham grande parte do caos e da toxicidade fora, se quiserem. “Acho que a capacidade de personalizar o conteúdo que você vê deve ser capaz de lidar com pelo menos uma grande parte do desafio”, diz ele.

doi: https://doi-org/10.1038/d41586-025-00177-1

Referências

  1. Balduf, L. et al. Pré-impressão em arXiv https://doi-org.ez81.periodicos.capes.gov.br/10.48550/arXiv.2501.11605 (2025).


Fonte: Nature

Falta conhecimento sobre o impacto dos agrotóxicos nas abelhas sem ferrão

As abelhas sem ferrão, conhecidas como meliponíneos, são polinizadores essenciais na América Latina, mas existem poucos estudos sobre como os pesticidas as afetam. Crédito da imagem: Cortesia de Ricardo Ayala para SciDev.Net

Por Daniela Hirschfeld para o SciDev 

[MONTEVÍDEO] Embora exista um número significativo de estudos toxicológicos sobre como os agrotóxicos afetam a abelha comum ( Apis mellifera ), há muito pouca pesquisa sobre seu impacto nas abelhas sem ferrão, conhecidas como meliponíneos, que são polinizadores essenciais na América Latina.

Essa é uma das conclusões de uma revisão bibliográfica realizada por pesquisadores latino-americanos, publicada na revista Science of the Total Environment , que indica que a escassa informação sobre os meliponíneos leva a omissões na regulamentação de agrotóxicos, o que poderia ter consequências significativas. para a biodiversidade e a segurança alimentar na região.

Os meliponíneos – que apresentam diferenças biológicas e comportamentais das abelhas comuns – são o maior grupo de abelhas sociais, com mais de 600 espécies registradas. São também os polinizadores fundamentais nas regiões tropicais e subtropicais e contribuem para a reprodução de muitas espécies de plantas, incluindo culturas economicamente importantes como o cacau, o café e diversas frutas.

Da mesma forma, essas abelhas possuem relevância cultural e econômica para as comunidades nativas e rurais, pois fornecem mel, pólen e própolis para fins nutricionais e de saúde.

Abelhas sem ferrão da espécie Tetragonisca fiebrigi . Crédito da imagem: Cortesia de María Sol Balbuena (Argentina) para SciDev.Net.

No entanto, trabalhos recentes revelaram que, entre 2000 e 2024, foram publicados apenas 144 artigos sobre os efeitos dos agrotóxicos nos meliponíneos. Destes, 90% foram fabricados na América Latina e 80% especificamente no Brasil. Os artigos analisaram apenas 43 espécies das mais de 600 existentes, e cinco espécies representaram quase metade dos dados coletados.

Entre os agrotóxicos, os autores identificaram estudos em 79 dos 3.400 registrados. Ao comparar com a disponibilidade de informações sobre Apis millifera , a revisão encontrou 2.054 artigos apenas sobre o impacto específico dos inseticidas. A quantidade aumenta ao adicionar outros compostos .

“A maioria desses estudos (sobre os efeitos dos agrotóxicos nas abelhas) são realizados nos EUA e na Europa, onde não existem meliponíneos, por isso eles priorizam as abelhas melíferas”, explicou Gherardo Boggo, membro, ao SciDev.Net

Além disso, “os órgãos reguladores de referência mundial, como a Agência de Proteção Ambiental dos EUA e a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar, não consideram na sua legislação espécies de abelhas ausentes nos EUA ou na Europa”, acrescentou Diego Vázquez, investigador do Instituto de Investigação Biológica Clemente Estable. (IIBCE) do Uruguai e outro autor do estudo.

Este é um problema especialmente para os países latino-americanos, que seguem as recomendações destas organizações para elaborar a sua legislação. “A variabilidade que existe entre as espécies no grau de toxicidade dos pesticidas pode significar que estamos colocando em risco as abelhas nativas”, sublinhou Vázquez.

“Tal como acontece com as abelhas melíferas, os meliponíneos também enfrentam uma taxa alarmante de perda anual de colónias, como mostra outro estudo da SoLatinA, e uma das principais causas é, sem dúvida, o uso de agrotóxicos”, disse Boggo, também investigador. no Conselho de Pesquisa Agrícola e Análise da Economia Agrária (CREA) da Itália.

“A variabilidade que existe entre as espécies no grau de toxicidade dos pesticidas pode significar que estamos colocando em risco as abelhas nativas.”

Diego Vázquez, pesquisador do Instituto de Pesquisas Biológicas Clemente Estable (IIBCE) do Uruguai

A revisão recente também analisou o tema dos estudos e observou que há uma falta significativa de trabalhos focados na exposição crónica, nos ensaios de campo e nos efeitos subletais.

“Uma avaliação de risco abrangente deve incluir experimentos em nível de colônia e individual, tanto em adultos quanto em larvas, juntamente com a avaliação de efeitos subletais”, menciona o trabalho.

“Na verdade, um aspecto fundamental da biologia social nas abelhas melíferas e nas abelhas sem ferrão é a divisão do trabalho determinada pelo seu estado fisiológico e insumos externos”, acrescenta, indicando que esse aspecto não foi considerado na análise toxicológica.

Favo de mel de abelhas sem ferrão da espécie Tetragonisca angustula . Crédito: Cortesia de Aurora Xolalpa (México) para SciDev.Net

Consultado pelo SciDev.Net , Ciro Invernizzi, pesquisador da Seção de Etologia da Faculdade de Ciências da Universidade da República do Uruguai, destacou a importância deste estudo como um “alerta” sobre o papel que outros polinizadores têm na além das abelhas comuns.

Na sua opinião, durante muito tempo presumiu-se que as abelhas poderiam suplantar qualquer polinizador, mas é cada vez mais importante ter em conta outros polinizadores, tanto outros insetos sociais como solitários, sobre os quais muito pouco se sabe.

Além disso, sublinhou que o facto de o estudo ter sido realizado maioritariamente por especialistas latino-americanos e publicado numa revista de prestígio mostra a contribuição que a ciência regional pode dar. Nesse sentido, destacou também o valioso trabalho da SoLatiNa, que reúne mais de 250 pesquisadores de 16 países da América Latina e de outros países do mundo.

Entre as recomendações que emergem do trabalho, Boggo destacou a importância de aumentar a consciência e o conhecimento do público em geral, dos agricultores e das organizações políticas, fazendo-os compreender o papel vital destes polinizadores. Ele também destacou a necessidade de trabalhar na regulamentação dos agrotóxicos, incluindo os meliponinos na avaliação de risco.

“Na SoLatInA promovemos a cooperação científica multinacional focada na conservação da imensa diversidade de abelhas latino-americanas que nos rodeia e que por vezes as ignoramos”, concluiu Vázquez, que também é membro desta rede.


Fonte: SciDev.net

Microplásticos bloqueiam fluxo sanguíneo no cérebro, revela estudo em ratos

Imagens em tempo real mostram como células recheadas de plástico formam aglomerados que afetam o movimento do camundongo

 
Uma micrografia de luz de partículas microplásticas em uma gota de água do mar.

Pequenos pedaços de plástico foram encontrados alojados em vasos sanguíneos no cérebro de camundongos. Crédito: Sinclair Stammers/Science Photo Library

Por Smriti Mallapaty para a Nature

Pela primeira vez, cientistas rastrearam microplásticos se movendo pelos corpos de camundongos em tempo real 1 . As minúsculas partículas de plástico são engolidas por células imunológicas, viajam pela corrente sanguínea e eventualmente se alojam em vasos sanguíneos no cérebro. Não está claro se tais obstruções ocorrem em pessoas, dizem os pesquisadores, mas elas parecem afetar o movimento dos camundongos.

Microplásticos são partículas de plástico , com menos de 5 milímetros de comprimento, que podem ser encontradas em todos os lugares , do oceano profundo ao gelo da Antártida. Eles estão no ar que respiramos, na água que bebemos e na comida que comemos. Eles podem até entrar em nossas correntes sanguíneas diretamente por meio de dispositivos médicos de plástico.

Estudos mostram que microplásticos e nanoplásticos menores chegaram aos cérebros, fígados e rins dos humanos, mas os pesquisadores estão apenas começando a entender o que acontece com esses intrusos plásticos e seus efeitos na saúde humana. Um estudo do ano passado, por exemplo, descobriu que pessoas com micro e nanoplásticos em depósitos de gordura em sua artéria principal tinham mais probabilidade de sofrer um ataque cardíaco , derrame ou morte 2 .

‘Acidente de carro’

No estudo mais recente, publicado na Science Advances hoje, Haipeng Huang, um pesquisador biomédico da Universidade de Pequim, em Pequim, e seus colegas queriam entender melhor como os microplásticos afetam o cérebro. Eles usaram uma técnica de imagem de fluorescência chamada microscopia de dois fótons em miniatura para observar o que estava acontecendo nos cérebros dos camundongos através de uma janela transparente implantada cirurgicamente no crânio do animal.

A técnica de imagem pode rastrear microplásticos conforme eles se movem pela corrente sanguínea, diz Eliane El Hayek, pesquisadora de saúde ambiental na University of New Mexico em Albuquerque. “É muito interessante e muito útil.”

Os pesquisadores deram aos camundongos água misturada com esferas fluorescentes de poliestireno, um produto popular usado para fazer eletrodomésticos, embalagens e até brinquedos. Cerca de três horas depois, células fluorescentes apareceram. Investigações posteriores sugeriram que células imunes conhecidas como neutrófilos e fagócitos ingeriram as partículas de plástico brilhantes. Algumas dessas células provavelmente ficaram presas nas curvas apertadas de pequenos vasos sanguíneos em uma área do cérebro chamada córtex. Mais células embaladas em plástico às vezes se acumulavam — “como um acidente de carro nos vasos sanguíneos”, diz Huang. Algumas obstruções eventualmente desapareceram, mas outras permaneceram durante o período de observação de quatro semanas.

Quando os pesquisadores injetaram as esferas de plástico nos camundongos intravenosamente, eles observaram as células brilhantes em minutos. Partículas menores resultaram em menos obstruções.

Fragmentos desgastados

As obstruções parecem se comportar de forma semelhante a coágulos sanguíneos, dizem os pesquisadores. Eles descobriram que camundongos que receberam microplásticos tiveram fluxo sanguíneo reduzido em seus cérebros e sua mobilidade diminuiu. Os efeitos duraram alguns dias.

Huang diz que ele e seus colegas observaram obstruções semelhantes se formando no coração e no fígado de camundongos, mas os resultados desses estudos ainda não foram publicados.

Algumas das descobertas se alinham com outras pesquisas. Em uma pré-impressão publicada no Research Square no ano passado 3 , El Hayek e seus colegas relataram ter encontrado altas concentrações de pequenos fragmentos de plástico desgastados no tecido cerebral, particularmente nas paredes dos vasos sanguíneos e células imunes, em pessoas que morreram e doaram seus corpos para pesquisa.

O estudo de El Hayek descobriu que o polietileno, outro microplástico comum usado em embalagens, era o plástico mais abundante nesses tecidos. Esperançosamente, a técnica de imagem pode ser usada para estudar como esses plásticos se comportam no corpo, ela diz.

doi: https://doi-org.ez81.periodicos.capes.gov.br/10.1038/d41586-025-00178-0

Referências

  1. Huang, H. et al. Ciência Adv. 11 , eadr8243 (2025)

    Google Acadêmico 

  2. Marfella, R. et al. N. Engl. J. Med. 390 , 900–910 (2024).

    Artigo PubMed Google Acadêmico 

  3. Campen, M. et al. Pré-impressão na Research Square https://doi-org.ez81.periodicos.capes.gov.br/10.21203/rs.3.rs-4345687/v1 (2024).


Fonte: Nature

Embargo chinês afeta 5 empresas exportando soja brasileira por contaminação com agrotóxicos

Especialistas advertem que o uso extensivo de insumos químicos na agricultura é prejudicial à economia do Brasil

Por Leonardo Fernandes para o Brasil de Fato

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) informou, nesta quarta-feira (22), que foi notificado pela Administração-Geral de Aduanas da China (GACC) sobre a detecção de pestes e revestimento de pesticidas na soja exportada por cinco empresas brasileiras ao país asiático. As autoridades chinesas decidiram suspender o embarque do grão brasileiro ao país até que a situação seja esclarecida.

Carregamentos das empresas Cargill Agrícola SA, ADM do Brasil, Terra Roxa Comércio de Cereais, Olam Brasil e C.Vale teriam sido afetados pela medida, de acordo com a Reuters. A agência de notícias noticiou a decisão das autoridades chinesas em 8 de janeiro. O Brasil de Fato entrou em contato as cinco companhias, mas não obteve retorno.  

Para Diana Chaib, economista e pesquisadora das relações sino-brasileiras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a decisão da China de suspender as importações de parte da soja do Brasil pode ser interpretada como “um alerta ao agronegócio brasileiro, principalmente no que diz respeito à necessidade de aprimorar os controles de qualidade e rever práticas relacionadas ao uso de agrotóxicos”. 

“A manutenção e expansão do mercado e comércio chinês dependem do cumprimento rigoroso de padrões sanitários e ambientais exigidos, e isso pode acarretar a necessidade de mudanças significativas nas práticas agrícolas brasileiras”, avalia Chaib. 

Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, lembra que os movimentos de agroecologia alertam há anos sobre a qualidade dos produtos agrícolas brasileiros, baseados na utilização de insumos químicos altamente tóxicos e prejudiciais ao meio ambiente. O ativista critica o modelo do agronegócio brasileiro, baseado em uma economia dependente de países mais desenvolvidos, e de costas para a concretização de uma política nacional de produção de alimentos.  

“Casos como esse não são incomuns, e já afetaram outros produtos, como a laranja, ou a própria carne. A aposta brasileira das últimas décadas em colocar todas as fichas no agronegócio gerou este tipo de dependência, tornando nosso país vulnerável a crises catastróficas caso os grandes importadores resolvam retaliar o Brasil por algum motivo”, afirma Tygel. 

“O que estamos vendo neste caso pode ser de fato um caso de contaminação por agrotóxicos, ou alguma doença, mas também pode ser uma barreira política ou econômica às exportações brasileiras”, avalia o ativista. “Num cenário geopolítico cada vez mais desafiador, a escolha mais estratégica para o país seria adotar um modelo de agricultura soberano, com foco na produção de alimentos saudáveis para o Brasil, e no fortalecimento dos laços com a América Latina e África, diversificando o mercado externo e deixando o país menos vulnerável às crises externas”, conclui Tygel. 

Chaib afirma que o impacto dessa medida poderá ser medido de acordo com o tempo de permanência do embargo, ou mesmo de novas restrições a outros produtos brasileiros. “Isso pode afetar os preços internos da soja no Brasil e aumentar os custos de ração para gado, o que pode tornar a carne bovina do Brasil menos competitiva no mercado internacional”, analisa a economista. “Mas esse impacto no comércio de carne bovina vai depender da extensão e da duração da suspensão de soja que a China praticar”, finaliza.

O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, superando China e Estados Unidos juntos. Ao invés de desincentivar o uso desses agentes químicos na produção agrícola, o Estado brasileiro oferece bilhões de reais em isenções fiscais a empresas do mercado de agrotóxicos no país, fomentando sua utilização. Desde 2012, o país conta com um Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara) que, segundo as organizações da sociedade civil, foi desmontado pelos governos anteriores. O Pronara ainda não foi retomado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por resistência do Ministério da Agricultura.

E por que só agora? 

Em entrevista ao Brasil de Fato, a biomédica e pesquisadora da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), Karen Friedrich, chama a atenção para os efeitos nocivos do uso extensivo de agrotóxicos na produção agropecuária, além de todas as evidências de danos à saúde coletiva e ao meio ambiente. E isso pode ter a ver com esses “incidentes” comerciais.  

“Essas substâncias usadas há décadas, elas já vão desenvolvendo as próprias pragas, vão desenvolvendo resistência. É a mesma lógica do antibiótico hospitalar. De tanto usar indiscriminadamente, desenvolveram bactérias super-resistentes. E na agricultura a gente tem essas pragas que estão desenvolvendo resistência”, afirmou a pesquisadora.   

“Então isso não é bom para o agricultor e para o agronegócio. Isso é bom para a fábrica, para a Bayer, Basf, Monsanto, Syngenta etc, que estão querendo manter esse produto no mercado até o último segundo”, disse Friedrich, referindo-se a algumas das empresas produtoras de agentes químicos usados amplamente na agricultura brasileira, e que já são proibidos em diversos outros países por comprovada relação com a incidência de cânceres e distúrbios neurológicos em humanos, além de perigosos para o meio ambiente. A pesquisadora cita o caso da atrazina, um herbicida que há mais de 20 anos tem seu uso proibido em diversos países da União Europeia, e é um dos mais utilizados nas lavouras brasileiras.  

Em nota, o Mapa afirmou que “outras unidades das empresas notificadas seguem exportando normalmente para a China, sendo as suspensões válidas apenas para as 5 unidades oficialmente notificadas”. Portanto, segue o ministério, “os volumes negociados pelo Brasil não serão afetados em função desta suspensão temporária destas 5 unidades notificadas”. 

O ministério afirmou ainda que o monitoramento dos produtos importados é “parte da rotina de fiscalização”, adotados tanto no Brasil como na China. O ministério disse ainda que aguarda os planos de ações que devem ser adotados pelas empresas para evitar novas ocorrências, e declarou ter expectativa de que o embargo seja suspenso brevemente pelas autoridades chinesas.

O Brasil de Fato questionou o ministério sobre o motivo do embargo, ou seja, ‘a contaminação química provenientes de agrotóxicos utilizados nos cultivos de soja pelo agronegócio brasileiro’, mas não obteve resposta. O Mapa se limitou a encaminhar a nota mencionada.  

A reportagem também questionou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), que possui uma secretaria dirigida à gestão do comércio exterior, e à Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja); ambos sem retorno. 

A China é o maior consumidor de soja do mundo, concentrando mais de 60% do comércio mundial do grão. Segundo a Administração Geral das Alfândegas chinesa, as importações totais de soja da China em 2024 ultrapassaram os 100 milhões de toneladas, o que representou um aumento de 6,5% em relação a 2023. E a soja brasileira foi responsável por 54% das importações chinesas, seguido dos Estados Unidos, com outros 38%. Do lado brasileiro, dois terços de toda a soja produzida no país é embarcada para o gigante asiático. 

Edição: Martina Medina


Fonte: Brasil de Fato

O exército israelense é um dos principais clientes de IA da Microsoft, revelam documentos vazados

Por Ryan Grim e Waqas Ahmed para o Drop Site

A Microsoft é uma grande provedora de serviços de nuvem e inteligência artificial para o exército israelense, de acordo com documentos internos relacionados aos contratos entre o Ministério da Defesa de Israel (MoD) e a Microsoft Israel obtidos pelo Drop Site News. Os documentos vazados mostram que o uso de Israel aumentou drasticamente nos meses seguintes a 7 de outubro de 2023, quando Israel estava usando Inteligência Artificial (IA) e outras tecnologias para travar sua guerra brutal em Gaza.

O tesouro de documentos revela que os laços da Microsoft com o exército israelense são mais profundos e lucrativos do que se sabia anteriormente, expondo o papel da gigante da tecnologia no fornecimento de serviços avançados de nuvem e IA durante a guerra que vários órgãos internacionais, incluindo a Corte Internacional de Justiça, decidiram que pode plausivelmente constituir um genocídio . O Drop Site compartilhou os documentos com a revista investigativa israelense +972, que expôs anteriormente o uso de IA por Israel em sua campanha de bombardeio , e com o The Guardian, ambos os quais também publicaram histórias na quinta-feira.

As negociações da Microsoft com o exército israelense são parte de um padrão entre gigantes da tecnologia americana que correm para fornecer tecnologias de nuvem e IA para garantir uma parte do crescente fundo de guerra de Israel desde outubro de 2023. De acordo com os documentos, a Microsoft expandiu drasticamente seu relacionamento com o exército israelense desde o início da guerra em Gaza e se tornou uma grande fornecedora de serviços de nuvem para várias unidades militares israelenses.

No total, os custos apenas para suporte de engenharia e consultoria com os militares israelenses somaram aproximadamente US$ 10 milhões desde o início da ofensiva em Gaza em outubro de 2023, com projetos de suporte adicionais no valor de outros US$ 30 milhões sob consideração em 2024. O tamanho total do contrato do Ministério da Defesa israelense com a Microsoft, incluindo o uso da plataforma Azure, é muito maior, mas o valor exato não pôde ser determinado a partir dos documentos.

Os militares israelenses têm aproveitado uma gama de serviços de nuvem da Microsoft para dar suporte às suas operações em andamento, de acordo com os documentos. O Microsoft Azure é uma plataforma de computação em nuvem que fornece um conjunto de aplicativos e serviços para seus clientes corporativos. Seus componentes mais importantes historicamente têm sido computação e armazenamento, que permitem que os clientes da Microsoft processem e armazenem grandes quantidades de dados em servidores de nuvem hospedados globalmente. Mais recentemente, devido ao investimento de bilhões de dólares da Microsoft na OpenAI, a mesma empresa que administra o ChatGPT, a Microsoft adicionou os Large Language Models da OpenAI ao seu conjunto de ofertas do Azure.

Juntos, esses serviços são o que formam o núcleo dos serviços que o exército israelense comprou da Microsoft. Entre seus serviços mais usados estão a tradução e o serviço Azure OpenAl, um serviço empresarial baseado na mesma tecnologia do ChatGPT, juntos respondendo por quase 75 por cento do uso total. Serviços de fala e voz compõem o restante.

Dados vazados mostram um aumento dramático no armazenamento em nuvem da Microsoft usado pelos militares israelenses, saltando mais de 155% entre junho de 2023 e abril de 2024, e atingindo o pico pouco antes da ofensiva de Rafah em maio de 2024. O uso de armazenamento é um indicador importante que mostra a extensão do uso de IA, já que o armazenamento geralmente cresce junto com o uso de outros produtos de nuvem.

A inteligência artificial assumiu um novo papel na guerra de Israel em Gaza, com os militares israelenses usando um programa chamado Lavender para identificar alvos, de acordo com reportagem do +972 — embora não se saiba exatamente quais empresas alimentaram esse programa em particular e os militares reduziram esse programa nos meses subsequentes. O relatório deles em agosto também revelou que o Microsoft Azure e o Amazon AWS estavam competindo por lucrativos contratos militares israelenses.

O conflito em Gaza estimulou uma “corrida do ouro” entre empresas de tecnologia que buscavam fornecer serviços aos militares israelenses. Nas semanas seguintes ao ataque de 7 de outubro, o Google intensificou seus esforços para fornecer ao Ministério da Defesa de Israel maior acesso à sua tecnologia de IA. Essa urgência foi motivada pela preocupação de que os militares recorreriam à concorrente do Google, a Amazon, que também tem um contrato com o governo israelense. O novo conjunto de documentos mostra que a Microsoft estava igualmente entusiasmada com os contratos israelenses e deu grandes descontos pela oportunidade.

Desde o início da guerra em Gaza, Israel surgiu como um dos 500 principais clientes globais da Microsoft, com o MoD israelense servindo como um cliente guarda-chuva da Microsoft, supervisionando o relacionamento geral do exército israelense com a empresa. Mas, diferentemente de um modelo de aquisição centralizado tradicional, onde uma única organização toma decisões de compra em nome de toda a entidade, a estrutura do exército israelense é mais descentralizada. O que diferencia o exército israelense de outras contas guarda-chuva é que vários departamentos e entidades dentro do exército israelense operam com um grau significativo de autonomia e podem assinar contratos de forma independente com base em seus orçamentos internos.

Os documentos também revelam a amplitude das negociações da Microsoft com o exército israelense; várias unidades dentro do exército israelense contrataram serviços da Microsoft de forma independente, incluindo a Unidade 8200, uma unidade de inteligência de elite especializada em inteligência de sinais, guerra cibernética, descriptografia de código e vigilância militar; Matzov, o Centro de Criptografia e Segurança da Informação; Mamram, a unidade central do sistema de computação; Tikshuv, a Diretoria de Computadores e TI supervisionando comunicações e segurança cibernética; e Lotem, a unidade de Telecomunicações e Tecnologia da Informação. A Força Aérea e a Marinha israelenses também fizeram acordos significativos com a Microsoft imediatamente após o início da ofensiva de Gaza em outubro de 2023.

Os data centers da Microsoft que prestam serviços ao exército israelense não se limitam a Israel, com muitos sendo hospedados em países europeus que reconhecem a jurisdição do Tribunal Internacional de Justiça como compulsória. Se o tribunal finalmente decidir que a guerra é um genocídio, hospedar os servidores de dados da Microsoft utilizados pelo exército israelense pode constituir uma violação da lei internacional e pode causar problemas legais relacionados às operações da Microsoft nessas jurisdições.

Internamente, os funcionários da Microsoft já estavam solicitando ao seu empregador que examinasse suas políticas relacionadas a Israel. O Drop Site havia relatado em setembro do ano passado que a Microsoft foi criticada por seu patrocínio da conferência “I Love Mamram”, celebrando o 65º aniversário do Mamram, a unidade do Centro de Computação e Sistemas de Informação do exército israelense, onde o CEO da Microsoft Israel estava programado para falar. Os documentos agora revelam que o Mamram era um cliente da Microsoft. A empresa também enfrentou críticas por igualar doações de funcionários a organizações que apoiam o exército israelense, enquanto não igualou doações a organizações que apoiam os palestinos, e até mesmo retirou organizações da lista como a UNRWA, a agência da ONU para refugiados palestinos.


Fonte: Drop Site