Entidades ligadas à agricultura sustentável e o direito à alimentação alertam para os riscos à saúde. Pães, massas e todos os derivados do trigo HB4 terão resíduos de glufosinato de amônio, agrotóxico altamente tóxico
Crédito da Foto: Pixabay
Por Cida de Oliveira
São Paulo — Organizações da sociedade civil que reúnem países da América Latina, África e Ásia voltaram a reivindicar a suspensão das autorizações do plantio e comercialização do trigo HB4 na Argentina, Brasil e Paraguai. E de importação na África do Sul, Colômbia, Nigéria, Nova Zelândia, Indonésia e China. Desenvolvida e negociada pela companhia argentina Bioceres, a semente promete resistir aos períodos secos do ano e às chamadas plantas invasoras, cada vez mais resistentes a agrotóxicos. Essa segunda característica se deve a uma modificação genética que permite ao trigo resistir a altas doses do herbicida glufosinato de amônio. Segundo as entidades, há estudos que mostram que essa substância chega a ser 15 vezes mais tóxica que o glifosato.
E aí é que está a grande preocupação. As plantas acumulam resíduos dos agrotóxicos nelas aplicados ao longo do cultivo. E em doses tão significativas que vão bem além das permitidas pela legislação, como mostraram diversas pesquisas de órgãos de saúde em amostras de hortaliças, frutas e outros alimentos. No caso do trigo transgênico, além de outros agroquímicos que serão utilizados, haverá concentração do glufosinato de amônio. Classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como potencialmente cancerígeno, o agrotóxico é associado ainda por diversos estudos científicos como causador de alterações genéticas, danos ao fígado e desregulação endócrina.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, um desregulador endócrino pode exercer vários efeitos nocivos, alterando os hormônios e suas funções. Isso é muito grave porque o funcionamento adequado do organismo, portanto, a saúde, depende de ação hormonal. E o mais perverso é que essa desregulação afeta principalmente fetos, crianças com até dois anos e adolescentes, por estarem em fase de desenvolvimento, com grande multiplicação celular. Não é por acaso que em 2009 o glufosinato foi banido na União Europeia.
Para piorar, o trigo transgênico se propõe a dominar a produção de um cereal que compõe a principal fonte de carboidratos, base da alimentação mundial. Ou seja, o pão de cada dia, seja do tipo que for. Além do café da manhã, está em muitas refeições diárias, como suporte para sanduíches e outros pratos. Tem ainda o macarrão, a pizza, bolos, biscoitos, doces e uma infinidade de subprodutos.
“Apesar da importância do trigo na alimentação humana, não existe um método público validado para detectar, identificar e quantificar a presença de trigo HB4 em farinhas e outros produtos de trigo”, alertam as entidades emcomunicado divulgado nesta quarta-feira (5), na qual reivindicam a suspensão das autorizações já concedidas.
No documento, elas destacam também as circunstâncias nada democráticas em que o cultivo e a venda foram liberados. No caso Brasil, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) encerrou o processo em março de 2023. Foramignorados alertas de cientistas, órgãos de saúde, meio ambiente e defesa dos direitos humanos e do consumidor. A opinião pública tampouco foi levada em consideração. E como tornou-se praxe no órgão criado justamente para assessorar o governo federal quanto à biossegurança, houve dispensa de pesquisas. Foram considerados suficientes os dados incompletos apresentados pela empresa interessada na aprovação.
“Pedimos que todas as licenças para o plantio e comercialização do trigo HB4 sejam suspensas e que um processo de reparo abrangente seja iniciado nos espaços já intervencionados”, destacam as organizações. Em junho de 2022 a Embrapa já havia anunciado a criação de campos de testes em Brasília.
O trigo HB4 já é vendido na Argentina desde maio de 2024, segundo anunciou na época a Bioceres. E os negócios avançam nos Estados Unidos. Nesta quinta-feira (6) a companhia anunciou ter obtido a primeira das quatro patentes solicitadas ao órgão oficial local. Já há também autorização do Departamento de Agricultura (USDA) e do Departamento de Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA). O país é o quarto maior produtor mundial do cereal.
No entanto, nem só de notícia boa vive a Bioceres. No início de fevereiro, a própria companhia divulgou queda de 24% na sua receita, o que levantou fortes suspeitas de que a nova tecnologia tenha tudo a ver com isso. Embora a empresa não tenha explicado as causas do tombo financeiro, há desconfiança de fracasso comercial do novo trigo. Ou seja, não estaria oferecendo a resistência ou tolerância à seca prometida na propaganda.
“De acordo com dados oficiais, o trigo HB4 rende muito menos do que os trigos convencionais (não transgênicos), mesmo em anos de seca. Na média anual de dados de 2021, os trigos HB4 renderam 17% menos do que os trigos convencionais. Nos anos seguintes, nem o Estado nem a empresa publicaram dados de produção nas diferentes regiões. Talvez seja porque o fracasso produtivo da tecnologia foi confirmado, e a queda nas vendas e receitas da Bioceres fez com que a empresa saísse da venda de sementes”, acreditam as entidades.
Seja como for, ainda segundo essas organizações (veja lista no final da reportagem), o lançamento e posterior aprovação do trigo HB4 levantou expectativas entre os produtores. Apesar da falta de dados oficiais sobre o cultivo de trigo transgênico no Paraguai, circula por lá a informação sobre a adaptação de variedades em diversas regiões do país por corporações do agronegócio. Além disso, o uso de glufosinato de amônio aumentou substancialmente no país.
“Acreditamos que, diante do grande fracasso da tecnologia HB4, para a qual a empresa Bioceres está arrastando agricultores, é hora de enterrá-la definitivamente”, pedem as organizações.
Para o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, integrante do Movimento da Ciência Cidadã, que subscreve o comunicado, o trigo transgênico é “mais uma das promessas de uma tecnologia enganosa, patrocinada por interesses opostos às necessidades da população”. “Diante das promessas de redução no uso de agrotóxicos, de geração de plantas mais nutritivas, de benefícios aos pequenos agricultores e aos consumidores, nada mais coerente do que um trigo tolerante à seca, mas que não é tolerante a seca”, disse à reportagem.
Melgarejo foi além: “Penso que as evidências concretas de inconsistência entre os discursos dos técnicos interessados, as propagandas da mídia corporativa e a realidade observada nas lavouras expliquem os pedidos, e as aprovações, de dispensa de monitoramento pós liberação comercial destas tecnologias pela CTNBio”.
Em fevereiro de 2024, essas mesmas entidades enviarampetição aos Relatores Especiais sobre Direitos Humanos da ONU. O objetivo foi alertar para a gravidade do risco a que estão expostas as populações desses países e pedir providências. Isso porque o plantio e a comercialização violarão vários direitos humanos, como o direito à vida e aos estilos de vida, à saúde, à alimentação adequada e à soberania alimentar. E também a um meio ambiente equilibrado e livre de poluição, entre outros. Entretanto, ainda não houve resposta alguma das Nações Unidas.
Confira as solicitações aos Relatores Especiais da ONU:
Inste os governos da Argentina, Brasil e Paraguai a suspender/revogar todas as autorizações para o cultivo comercial do trigo transgênico HB4
Recomende ao governo do Paraguai que revogue a Resolução 556/2023 – por meio da qual o trigo transgênico HB4 foi aprovado – e que reforme a estrutura regulatória para organismos geneticamente modificados (OGMs), por meio de um processo aberto, transparente e participativo, com ênfase especial na necessidade de proteger os direitos dos povos indígenas e das comunidades camponesas
Recomende que o governo da Argentina revogue a Resolução 27/2022, que se baseia apenas em informações documentais da Bioceres, a empresa que desenvolveu a variedade de trigo transgênico, e institua uma proibição adequada do cultivo de trigo transgênico no país
Recomende que o Conselho Nacional de Biossegurança do Brasil proíba o cultivo comercial de trigo transgênico e suspenda a decisão da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que permite a importação de grãos e farinha de trigo transgênico para o país, e promova uma revisão da legislação de biossegurança por meio de um processo participativo aberto, transparente e democrático
Recomende que os governos da Colômbia, África do Sul, Nigéria e Indonésia instruam suas autoridades de biossegurança a revisar as aprovações de importação de trigo GM e iniciar uma moratória em todas as aprovações (autorização de produto, importação e liberação ambiental) de culturas Geneticamente Modificadas.
Faleceu no dia de hoje (07/3) aos 86 anos, o professor Isaac Roitman. Ao longo de sua longa trajetória acadêmica, o professor Roitman ocupou diversas posições de liderança, uma delas a direção do Centro de Biociências e Biotecnologia da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). Como diretor do CBB/Uenf, o professor Roitman teve um papel fundamental no fortalecimento das áreas de microbiologia e biotecnologia.
Além da sua contribuição para a gestação e consolidação da Uenf, Isaac Roitman foi membro ativo de instituições científicas, tais como a Sociedade Brasileira de Protozoologia e a Academia Brasileira de Ciências, da qual foi membro titular desde 1996. Ele também foi membro da diretoria, conselheiro e secretario regional do Distrito Federal da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Em função dessa trajetória de compromisso com o desenvolvimento da ciência brasileira, Isaac Roitman recebeu várias homenagens, entre elas, a Medalha Nacional do Mérito Científico na categoria Comendador e Grã Cruz, tendo sido outorgado o títul ode Professor Emérito da Universidade de Mogi das Cruzes e da Universidade de Brasília, bem como o de Pesquisador Emérito do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Pessoalmente tive um contato breve com o professor Roitman quando o convidei e ele prontamente aceitou escrever um texto que foi publicado em uma dossiê especial da revista Reoriente que tinha como objetivo celebrar o centenário do nascimento de Darcy Ribeiro. Nesse texto, o professor Roitman narrou suas experiências pessoais com Darcy Ribeiro, principalmente no tocante à implantação da Uenf que nascia sob os desígnios de ser experimental onde as ideias de cientistas comprometidos com um futuro melhor para o Brasil pudessem ser transformadas em realidade.
Com certeza, a ciência brasileira morte com o desaparecimento físico de um personagem que soube mesclar com extrema qualidade a capacidade de fazer ciência com o pensar crítico sobre os desafiosque cercam a universidade e da ciência brasileira. Mas fica o legado de um pesquisador que se mostrou sempre inquieto e disposto a pensar um futuro mais próspero e socialmente justo para a população brasileira.
Finalmente, é possível dizer que, como Darcy Ribeiro, Isaac Roitman jamais aceitou se resignar e sempre optou por se indignar em face das injustiças e do arbítrio. Por isso, a Uenf e a ciência brasileira deverão ser sempre gratos a ele.
Fator de impacto, número originalmente utilizado por bibliotecas para selecionar que revistas adquirir, deturpa produção científica
Por Brenno A. D. Neto
Imagine se a qualidade de um cientista fosse medida não pelo impacto real de suas descobertas, mas por apenas um número atrelado às revistas nas quais ele publica artigos científicos. Parece absurdo? Pois essa é a realidade que vivemos e que há décadas tem se cristalizado no meio acadêmico.
Ofator de impactodos periódicos (journal impact factor, ou JIF) surgiu nos anos 1960 como um recurso para ajudar bibliotecas a selecionar quais revistas científicas deveriam ser assinadas. Até aí, tudo bem. Mas o que ninguém previu foi que esse índice, criado com um propósito meramente administrativo, se tornaria uma obsessão global, que quase sempre tem distorcido a própria ciência.
Atualmente, o JIF é tratado como sinônimo quase absoluto de qualidade científica. Universidades, órgãos de fomento e até mesmo os próprios pesquisadores utilizam esse número como critério de avaliação. Como consequência, cientistas enfrentam uma pressão, por vezes anormal, para publicar em revistas com um JIF elevado, o que leva a uma série de distorções no processo científico:
Publicação por status: A busca por revistas com alto fator de impacto faz com que muitos pesquisadores priorizem onde publicar em vez de se preocuparem com o real alcance e relevância de seus trabalhos. O foco passa a ser menos a contribuição científica e mais a estratégia de publicação.
Pesquisas “seguras”: Para garantir publicações em revistas de alto impacto, muitos pesquisadores evitam temas inovadores ou controversos, optando por abordagens previsíveis, que se encaixam nos padrões de aceitação das revistas mais prestigiadas. Isso sufoca a criatividade e a diversidade da pesquisa.
Jogo de números: Algumas revistas adotam práticas para inflar seus índices, como publicar revisões extensas que acumulam muitas citações rapidamente ou estimular a autocitação em massa de artigos publicados na própria revista. Isso gera uma distorção, privilegiando estratégias quantitativas em vez da qualidade intrínseca da pesquisa.
Esses problemas são apenas alguns e se tornam ainda mais evidentes quando comparamos revistas de longa tradição com outras que surgiram recentemente. Como eu pude discutir recentemente em um editorial do periódico The Journal of the Brazilian Chemical Society (JBCS), por exemplo, os periódicos The Journal of Organic Chemistry e o Tetrahedron Letters são reconhecidos como referências na química orgânica há décadas. No entanto, seus JIFs atuais são inferiores aos de algumas revistas mais novas e menos relevantes. Ainda assim, qualquer químico orgânico sério sabe que JOC e TL são periódicos fundamentais para a área, e que um artigo publicado neles carrega um peso científico muito maior do que os números frios do fator de impacto poderiam indicar.
A cultura do JIF não apenas prejudica a ciência, mas também afeta a trajetória de muitos pesquisadores. Jovens cientistas, especialmente aqueles em início de carreira, sentem-se pressionados a publicar em revistas de alto impacto para garantir bolsas de pesquisa, promoções e reconhecimento acadêmico. Esse cenário leva a uma competição acirrada e, muitas vezes, desleal, em que a produtividade é medida mais pelo fator de impacto das revistas do que pelo real avanço gerado do conhecimento.
Além disso, essa obsessão reforça desigualdades. Pesquisadores de países (ou instituições) pobres, que muitas vezes enfrentam dificuldades para acessar equipamentos, reagentes ou colaborações de ponta, encontram ainda mais barreiras para publicar em periódicos de alto JIF. Isso gera um ciclo vicioso.
Mudanças no horizonte
O problema não está apenas no JIF, mas no peso que damos a ele. Muitas instituições de ensino e pesquisa já perceberam que as métricas devem ser uma consequência do bom trabalho, não um objetivo a ser perseguido a qualquer custo. Grandes editoras e revistas têm adotado políticas mais éticas, como a recomendação da Declaração de São Francisco sobre Avaliação da Pesquisa (DORA), que propõe que cientistas sejam avaliados com base no mérito de seu trabalho, e não na revista onde publicaram.
Na prática, algumas mudanças estão acontecendo. Muitas revistas já removeram o fator de impacto de seus sites e materiais promocionais, focando na transparência do processo editorial e na qualidade da revisão por pares. Algumas universidades e agências de fomento também têm tentado reduzir a importância do JIF em suas avaliações. Mas ainda há um longo caminho a percorrer.
No JBCS, do qual sou o atual editor-chefe, acreditamos que o verdadeiro impacto de um artigo deve ser medido pela contribuição que ele traz ao conhecimento, e não por um número arbitrário. Nosso compromisso não é inflar métricas artificialmente, mas fortalecer a tradição, a seriedade e a qualidade da pesquisa que publicamos.
Se há algo que aprendemos ao longo dos anos é que cientistas sabem onde querem publicar – e essa escolha vai muito além de um número estampado em um site de métricas. Afinal, a ciência de verdade não se resume com apenas um numerozinho.
Sobre o autor:
Brenno A. D. Neto é químico pela UFRGS, onde também fez mestrado e doutorado. Desde 2009, é professor da UnB. É ainda editor associado da revista RSC Advances e editor-chefe do Journal of the Brazilian Chemical Society, e faz parte do conselho do periódico Chemical Society Reviews
LONDRES, 4 de dezembro (Reuters) – Os preços globais do café atingiram o nível mais alto em quase 50 anos devido ao mau tempo no Brasil e no Vietnã, forçando torrefadores como a Nestlé (NESN.S)para aumentar os preços e levar os consumidores a procurar cervejas mais baratas em meio à crise do custo de vida.
Os altos preços beneficiarão os agricultores com a safra deste ano, mas desafiarão os comerciantes que enfrentam custos exorbitantes de hedge nas bolsas e uma corrida para receber os grãos que compraram antecipadamente.
O que impulsiona os preços?
Problemas de produção ligados ao mau tempo no Brasil e no Vietnã fizeram com que os suprimentos globais ficassem aquém da demanda por três anos. Isso deixou os estoques esgotados e levou os preços de referência da bolsa ICE a um pico de US$ 3,36 por libra.
A última vez que o café foi negociado tão alto foi em 1977, quando a neve destruiu faixas de plantações do Brasil. No entanto, o choque para os consumidores foi muito maior naquela época. Se ajustado pela inflação, US$ 3,36 por libra em 1977 seria equivalente a US$ 17,68 hoje.
Enquanto isso, especialistas preveem mais um ano de produção fraca de café. O Brasil, que produz quase metade do arábica do mundo — grãos de alta qualidade usados principalmente em misturas torradas e moídas — sofreu uma das piores secas já registradas neste ano.
No Vietnã, que produz cerca de 40% dos grãos robusta normalmente usados para fazer café instantâneo, uma seca severa no início deste ano foi seguida por chuvas excessivas desde outubro.
A consultoria StoneX prevê que a produção de arábica do Brasil cairá 10,5%, para 40 milhões de sacas no ano que vem, compensada em parte pela maior produção de robusta, reduzindo assim a safra geral do país em 0,5%.
No Vietnã, a safra pode encolher até 10% no ano até o final de setembro de 2025, aumentando a escassez global de robusta.
Por que os comerciantes estão preocupados?
Grãos de café torrados são vistos em um laboratório na Fazenda de Café Lechuza em Juayua, El Salvador, em 29 de novembro de 2024. REUTERS/Jose Cabezas/Arquivo Foto
As traders brasileiras Atlantica e Cafebras estão buscando reestruturação de dívida supervisionada pela Justiça devido aos aumentos nos preços do café, custos de hedge exorbitantes e atrasos nas entregas.
A reestruturação da dívida supervisionada pelo tribunal precede a falênciase a negociação não for bem-sucedida.
Os comerciantes que compram grãos de fornecedores locais como Atlantica e Cafebras normalmente assumem posições vendidas no mercado futuro para proteger sua exposição ao mercado físico.
Com medo de não conseguir mais obter seu café físico, muitos traders estão fechando posições vendidas em futuros que se tornaram deficitárias.
Fechar posições vendidas envolve comprar ou comprar futuros, o que por sua vez eleva ainda mais os preços.
Preços futuros mais altos então elevam as chamadas de margem ou pagamentos iniciais que os traders são obrigados a pagar para se proteger contra perdas comerciais, criando assim mais estresse no setor.
Impacto nos torradores e consumidores
O aumento nos preços do café é um problema para os torrefadores.
O chefe da Nestlé , a maior empresa de café do mundo, foi demitido no início deste ano depois que o conselho ficou descontente com as vendas fracas e a perda de participação de mercado devido aos aumentos de preços , o que levou os consumidores a mudar para marcas mais baratas.
Os torrefadores tendem a comprar café com muitos meses de antecedência, o que significa que os consumidores provavelmente verão o preço subir em 6 a 12 meses.
Os consumidores que bebem fora sentirão menos o impacto do aumento atual dos preços.
(Esta história foi corrigida para esclarecer que os comerciantes fazem hedge, não importa de quem compram, no parágrafo 13, e para remover a referência estranha a empresas comerciais específicas, no parágrafo 14)
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Reportagem de Maytaal Angel; edição de David Evans
O motivo é a maior industrialização da agricultura. Agrotóxicos são usados principalmente no cultivo de soja. Bayer e BASF estão entre as empresas líderes. Pesquisadores apontam aumento do risco de câncer por causa do uso de agrotóxicos, muito banidos na Europa
Por Ulrike Bickel para o Amerika21
Segundo informações da imprensa , o Brasilseconsolidou como o maior mercado global de defensivos agrícolas em 2024, com um faturamento estimado em 14,3 bilhões de dólares. O país ultrapassa assim os EUA (13,3 mil milhões de dólares) e a China (10,8 mil milhões de dólares). O motivo é a maior industrialização da agricultura.
O uso de pesticidas no Brasil cresceu 9,2% em valor e 8,5% em volume em 2024 em comparação ao ano anterior, de acordo com dados da organização guarda-chuva brasileira daindústria de agrotóxicos. O consumo total, portanto, foi de cerca de 1,5 milhão de toneladas.
Essa pegada química e de uso intensivo de energia é baseada principalmente em três produtos agrícolas: soja 56%, milho 16% e algodão 8%, que juntos respondem por 80% dos agrotóxicos usados no Brasil. Soma-se a isso o uso de agroquímicos em grandes plantações de cana-de-açúcar e café. Foram utilizados principalmente herbicidas, inseticidas e fungicidas. O restante foi usado para outros fins, como tratamento de sementes.
Os estados do Mato Grosso e Rondônia lideram o uso de pesticidas com uma participação de mercado de 28% devido às monoculturas de soja em larga escala, seguidos por São Paulo e Minas Gerais, cada um com 18%, e os estados do nordeste da Bahia, Maranhão, Tocantins, Piauí e Pará, com 15%.
O avanço da soja na Amazônia e no Cerrado depende fortemente do uso de agrotóxicos, até porque o avanço das grandes monoculturas favorece a proliferação de pragas, doenças fúngicas e virais.
Os grandes vencedores do crescente consumo de pesticidas no Brasil são as cinco multinacionais que dominam o mercado: Syngenta, Bayer, BASF, Corteva Agriscience e UPL. As empresas também vendem no Brasil a maior parte dos agrotóxicos proibidos na Europa. Apesar das flutuações do mercado global, prevê-se um crescimento anual adicional de 1,8% até 2030.
A América Latina consolida assim sua posição como motor de crescimento do setor de agroquímicos, com Brasil e Argentina na vanguarda. Muitos dos agrotóxicos usados na América Latina são proibidos em países com legislações ambientais mais rigorosas, como a UE, porque causam uma variedade de doenças, incluindo câncer, doenças neurológicas e desregulação do sistema endócrino.
Um novo estudo da Universidade de Caxias do Sul publicado na revista “Saúde em Debate” mostraque agricultores expostos a agrotóxicos têm risco aumentado de câncer. O estudo analisa 29 estudos publicados entre 2012 e 2021 em todo o mundo. Portanto, o contato prolongado com agrotóxicos podecausardanos celulares que favorecem o desenvolvimento de todos os tipos de câncer. Os mais comuns são o câncer de pulmão, mama e próstata, bem como o câncer hematológico (leucemia e linfoma).
Segundo uma das autores do artigo, Fernanda Meire Cioato, o tipo e a duração do contato são essenciais. O risco é ainda mais pronunciado entre trabalhadores rurais do sexo masculino, pois eles geralmente não usam equipamentos de proteção termicamente desconfortáveis ao pulverizar. As mulheres também são afetadas quando manuseiam equipamentos contaminados ou armazenam agrotóxicos. A toxicidade dos agrotóxicos geralmente aumenta porque os agricultores costumam combinar diversas substâncias.
Os pesquisadores acreditam que a ação governamental é essencial para garantir melhor controle e segurança no uso de agrotóxicos. Da mesma forma, o treinamento de profissionais médicos para diagnosticar e tratar os trabalhadores agrícolas afetados em um estágio inicial. Além disso, a comunicação de risco deve ser melhorada: como muitos agricultores têm pouca educação, as complicadas instruções de segurança nos rótulos dos pesticidas devem ser simplificadas para reduzir o impacto negativo dos venenos agrícolas na saúde da população rural.
Se a ideia de ter uma colherada de plástico na sua cabeça parece ruim para você, você não é o único. Cientistas estão soando o alarme sobre um estudo recente que mostra que microplásticos podem se acumular no cérebro.
Pesquisadores dos EUA e Canadá escreveram o comentário, publicado no periódico Brain Medicine. Além de discutir o estudo cerebral recente, eles detalham a ciência geral sugerindo que os microplásticos estão prejudicando o meio ambiente e nossa saúde. Embora mais pesquisas sejam necessárias para descobrir as melhores maneiras de limpar essas substâncias de nossos corpos, as pessoas já podem tomar medidas para minimizar sua exposição, afirmam os cientistas.
Microplásticos são quaisquer pedaços de plástico menores que 5 milímetros. Nos últimos anos, cientistas os encontraram em praticamente qualquer lugarque eles olharam — de nuvens no topo de montanhasanossos testículos efezes de bebês. Mas um estudopublicadono mês passado na Nature Medicine por pesquisadores da Universidade do Novo México desencadeou uma nova onda de preocupação.
Os pesquisadores da UNM não só encontraram microplásticos nos cérebros de pessoas falecidas, como também encontraram concentrações maiores de plástico nos fígados, rins ou outros órgãos das pessoas. Além disso, esse acúmulo pareceu ser muito maior em pessoas falecidas recentemente, sugerindo que a exposição ao plástico só piorou ultimamente. Eles também encontraram uma concentração maior de plástico nos cérebros de pessoas com demência — talvez sinalizando uma conexão com a condição neurológica fatal. Os pesquisadores da UNM estimaram que os cérebros das pessoas hoje podem estar carregando uma colher de plástico inteira desses pequenos fragmentos.
Nicholas Fabiano, autor principal do novo comentário, publicado hoje, adverte que ainda há muito que não sabemos sobre os impactos dos microplásticos na saúde. Mas o que aprendemos até agora não é exatamente encorajador.
“Ouvir que há uma colher de microplásticos no cérebro foi chocante. Como residente em psiquiatria, isso é particularmente relevante, já que atualmente não sabemos a extensão total que isso pode impactar a cognição ou a saúde mental de alguém”, Fabiano, pesquisador do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Ottawa, disse ao Gizmodo. “No estudo da Nature Medicine, os níveis de microplásticos eram 3-5 vezes maiores nos cérebros daqueles com demência, o que levanta alarmes, no entanto, essas descobertas não são causais por natureza.”
Não são apenas os plásticos em si que podem ser perigosos para nossos corpos, mas os produtos químicos que vazam dele. Os pesquisadoresidentificarammais de cem produtos químicos no plástico que podem nos prejudicar ou prejudicar outros animais, particularmente produtos químicos que podem imitar e, então, possivelmente interromper a regulação de hormônios importantes. Esses produtos químicos desreguladores endócrinos têm sido associados a maiores taxas de infertilidade, certos tipos de câncer e distúrbios metabólicos como diabetes, para citar alguns. E provavelmente há outras maneiras pelas quais os plásticos ou seus produtos químicos podem estar afetando nossa saúde para pior.
“A base de evidências atual (amplamente baseada em estudos de cultura de células e animais) sugere que a exposição [ao microplástico] pode levar a impactos adversos à saúde por meio de estresse oxidativo, inflamação, disfunção imunológica, metabolismo bioquímico/energético alterado, proliferação celular prejudicada, desenvolvimento anormal de órgãos, vias metabólicas interrompidas e carcinogenicidade”, escreveram os autores do comentário do Brain Medicine.
Muitas perguntas sem resposta sobre microplásticos permanecem, observa Fabiano. Além dos riscos desconhecidos para a saúde a longo prazo, não temos certeza de como esses plásticos estão entrando no cérebro, por exemplo. Também ainda sabemos pouco sobre como nossos corpos podem eliminar microplásticos, embora algumas pesquisas tenham sugeridoque podemos literalmente suar certos produtos químicos associados ao plástico.
Apesar dessas incógnitas, Fabiano (emuitos outros pesquisadores) pediram que governos e formuladores de políticas tomem medidas e comecem a reduzir nossa exposição coletiva a microplásticos. Enquanto isso, as pessoas também podem fazer coisas em suas vidas pessoais para limitar sua ingestão de plásticos. Isso inclui: mudar de beber água engarrafada regularmente para água filtrada da torneira; comer menos alimentos comumente feitos com plástico, como certos saquinhos de chá (dito isso, alguns tipos de saquinhos de chá são melhores do que outros ), ou alimentos que são conhecidos por conter altos níveis de microplásticos, como frutos do mar, álcool e alimentos altamente processados em geral; e armazenar nossas sobras em recipientes de vidro ou aço inoxidável em vez de plásticos.
Pesquisadores dizem que os dados fortalecem o argumento para responsabilizar as empresas por sua contribuição à crise climática
Se a Saudi Aramco fosse um país, seria o quarto maior poluidor do mundo, depois da China, dos EUA e da Índia. Fotografia: Alamy
Por Damian Carrington para o “The Guardian”
Metade das emissões de carbono que causam o aquecimento global vêm de combustíveis fósseis produzidos por apenas 36 empresas, revelou uma análise.
Os pesquisadores disseram que os dados de 2023 fortaleceram o caso para responsabilizar as empresas de combustíveis fósseis por sua contribuição ao aquecimento global. Versões anteriores do relatório anual foram usadas em processos judiciais contra empresas e investidores.
O relatório descobriu que as 36 principais empresas de combustíveis fósseis, incluindo Saudi Aramco, Coal India, ExxonMobil, Shell e várias empresas chinesas, produziram carvão, petróleo e gás, responsáveis por mais de 20 bilhões de toneladas de emissões de CO 2 em 2023.
Se a Saudi Aramco fosse um país, seria o quarto maior poluidor do mundo, depois da China, dos EUA e da Índia, enquanto a ExxonMobil é responsável por aproximadamente as mesmas emissões que a Alemanha, o nono maior poluidor do mundo, de acordo com os dados.
Os maiores emissores de combustíveis fósseis em 2023
As cinco principais empresas emissoras por tipo de propriedade, milhões de toneladas de CO2 equivalente
As emissões globais devem cair45% até 2030se o mundo quiser ter uma boa chance de limitar o aumento da temperatura a 1,5°C, a meta acordada internacionalmente. No entanto, as emissões ainda estão aumentando,sobrecarregando o clima extremoque está tirando vidas e meios de subsistência em todo o planeta.
A Agência Internacional de Energia disse quenovos projetos de combustíveis fósseisiniciados depois de 2021 são incompatíveis com atingir emissões líquidas zero até 2050. A maioria das 169 empresas no banco de dados Carbon Majors aumentou suas emissões em 2023, que foi o ano mais quente registrado na época.
“Essas empresas estão mantendo o mundo viciado em combustíveis fósseis sem planos de desacelerar a produção”, disse Christiana Figueres, chefe do clima da ONU quando o marco do acordo de Paris de 2015 foi entregue. “A ciência é clara: não podemos retroceder para mais combustíveis fósseis e mais extração. Em vez disso, devemos avançar para as muitas possibilidades de um sistema econômico descarbonizado que funcione para as pessoas e para o planeta.”
Emmett Connaire, da InfluenceMap, o thinktank que produziu o relatório Carbon Majors, disse: “Apesar dos compromissos climáticos globais, um pequeno grupo dos maiores produtores de combustíveis fósseis do mundo está aumentando significativamente a produção e as emissões. A pesquisa destaca o impacto desproporcional que essas empresas têm na crise climática e apoia os esforços para impor a responsabilidade corporativa.”
Um porta-voz da Shell disse: “A Shell está comprometida em se tornar um negócio de energia com emissões líquidas zero até 2050. Nossos investimentos em novas tecnologias estão ajudando a reduzir as emissões para a Shell e nossos clientes.” A Saudi Aramco não quis comentar. A Coal India, a ExxonMobil, a Chevron, a TotalEnergies e a BP não responderam aos pedidos de comentários.
Os dados da Carbon Majors foram usados como evidência apoiando leis aprovadas nos estados deNova YorkeVermontnos EUA, que buscam compensação de empresas de combustíveis fósseis por danos climáticos. Os dados também foram citados por grupos legais como suporte para potenciaisacusações criminais contra executivos de combustíveis fósseis e referenciados em ações regulatórias, como a reclamação da ClientEarth contra a BlackRock por enganar investidores.
O relatório Carbon Majorscalcula as emissões liberadas pela queima de carvão, petróleo e gás produzidos por 169 grandes empresas em 2023. O banco de dados também inclui emissões da produção de cimento, que aumentaram 6,5% em 2023.
As 36 empresas responsáveis por metade das emissões globais em 2023 incluem empresas estatais como a China Energy, a National Iranian Oil Company, a russa Gazprom e a Adnoc dos Emirados Árabes Unidos. As empresas de propriedade de acionistas nesse grupo incluem a Petrobras, sediada no Brasil, e a Eni, da Itália.
As 36 empresas são dominadas por empresas estatais, das quais há 25. Dez delas estão na China, o maior país poluidor do mundo. O carvão foi a fonte de 41% das emissões contabilizadas em 2023, o petróleo 32%, o gás 23% e o cimento 4%.
O conjunto de dados Carbon Majors também inclui emissões históricas de 1854 a 2023. Ele mostra que dois terços das emissões de carbono de combustíveis fósseis desde a Revolução Industrial são de 180 empresas, 11 das quais não existem mais.
Kumi Naidoo, presidente daIniciativa do Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis, disse: “Estamos vivendo um momento crítico na história humana. É essencial que os governos se manifestem e usem sua autoridade para acabar com a causa raiz da crise em que nos encontramos: a expansão dos combustíveis fósseis.”
O acadêmico científico mais prolífico da Espanha – o especialista em carnes José Manuel Lorenzo – colocou seu nome em 176 artigos no ano passado, expondo um submundo de práticas obscuras
O tecnólogo de alimentos José Manuel Lorenzo, no Centro de Tecnologia de Carnes, em San Cibrao das Viñas, Espanha. Universidad de Vigo
Por Manuel Ansede para o “El País”
O especialista em carnes José Manuel Lorenzo, 46 anos, é o pesquisador que mais publicou estudos científicos na Espanha. Ele colocou seu nome em 176 artigos no ano passado, de acordo com uma contagem de John Ioannidis – especialista em estatísticas biomédicas da Universidade de Stanford – que foi solicitada pelo EL PAÍS.
Lorenzo publica um estudo a cada dois dias (se você incluir fins de semana). É um número surpreendente, muito acima do segundo cientista mais bem classificado: o prestigioso ecologista Josep Peñuelas, 65, que publicou 112 estudos em 2022.
A grande maioria dos colegas de Lorenzo em seu campo normalmente publica uma dúzia de artigos por ano, no máximo. A Universidade de Vigo, na Galiza – onde Lorenzo é professor associado – afirma que ele é “o maior especialista em carne do mundo“. No entanto, um pesquisador francês – que costuma encabeçar conferências internacionais sobre o tema da carne – disse ao EL PAÍS que nunca ouviu o nome do espanhol. O caso de Lorenzo revela olado mais sombrio da ciência.
Os pesquisadores estão sob pressão brutal para publicar estudos. Seus aumentos salariais, promoções, financiamento de projetos e prestígio social dependem de avaliações nas quais seu desempenho é medido praticamente pelo peso. Esse sistema – conhecido como “publicar ou perecer“ – criou monstros. Milhares de cientistas em todo o mundo publicampelo menos um estudo a cada cinco dias, de acordo com os cálculos de Ioannidis. São os chamados pesquisadores “hiperprolíficos”, que têm uma taxa de produção incrível, que às vezes é suspeita.
José Manuel Lorenzo é chefe de pesquisa do Centro de Tecnologia da Carne(CTC) — entidade dedicada aos produtos cárneos, apoiada pelo governo regional da Galiza — em San Cibrao das Viñas, cidade da província espanhola de Ourense. Uma pessoa que trabalhou com ele lembra que, por volta de 2018, seu laboratório se tornou “uma fábrica de salsichas”. Lorenzo passou de publicar menos de 20 estudos por ano para assinar seu nome em mais de 120. “Ele nem tem tempo para lê-los”, diz outra pessoa, que colaborou em projetos com o homem.
A certa altura, Lorenzo começou a colaborar com pesquisadores exóticos – que ninguém conhecia – em tópicos que não têm nada a ver com carne. Quatro meses atrás, ele publicou um estudo sobre a gestão hospitalar da varíola dos macacos, ao lado de coautores iraquianos, indianos e paquistaneses. E há um ano, ele e alguns pesquisadores da Índia e da Arábia Sauditapublicaram um artigo sobre o tratamento da doença gengival com veneno de abelha. Em uma conversa telefônica com o EL PAÍS, Lorenzo admite que não conhece nenhum desses coautores pessoalmente, nem é especialista em nenhum desses assuntos.
O Centro de Tecnologia de Carnes, em San Cibrao das Viñas, Espanha.Brais Lorenzo (EFE)
A Índia é um dos países onde se concentram as chamadas “fábricas de artigos” – fábricas que produzem estudos científicos que já estão escritos e prontos para serem publicados em revistas especializadas. A coautoria é oferecida em troca de dinheiro. O EL PAÍS solicitou preços a uma das empresas indianas que envia as suas ofertas a cientistas espanhóis: a iTrilon, com sede em Chennai. O diretor científico da empresa, Sarath Ranganathan, ofereceu a possibilidade de ser o primeiro autor de um estudo que já foi escrito – intitulado Neuroterapias de próxima geração contra a doença de Alzheimer – em troca de cerca de US $ 500. Também é possível ser o quinto co-autor de um artigo intitulado Surgimento de infecções microbianas raras na Índia por US $ 430. O iTrilon promete publicar esses estudos prontos nos periódicos das principais editoras científicas do mundo: Elsevier, Taylor & Francis, Springer Nature, Science e Wiley. No ano passado, a indústria editorial acadêmica reconheceu que pelo menos 2% dos estudos que cada periódico recebe são considerados suspeitos. Às vezes, o número de estudos suspeitos chega a46%.
Lorenzo nega categoricamente ter recorrido a esses serviços, mas está ciente da existência de um mercado de venda de autoria. “Recebi vários e-mails de uma pessoa que se ofereceu para me pagar € 1.000 ou € 2.000 [US$ 1.070 a US$ 2.144] para colocá-lo como coautor, mas eu nem respondi”, afirma. Lorenzo diz que cientistas da Índia, Paquistão, Iraque e outros países costumam convidá-lo para colaborar, mesmo que não o conheçam. Segundo ele, o bioquímico vegetal Manoj Kumar – do Instituto Central de Pesquisa em Tecnologia do Algodão, em Bombaim – pediu-lhe para participar de um estudo sobre o tratamento de doenças gengivais e ele – um especialista em carne – aceitou. Lorenzo diz que se limitou a revisar o inglês, propondo alguns gráficos e assinando-o como coautor.
“Recebo muitos e-mails todos os dias e, se tiver tempo e [estiver interessado] no tópico que eles levantam, digo sim”, explica ele. “Eu confio nas pessoas. Se eles estão me enganando, eu não sei. É antiético usar o nome de uma pessoa para publicar um estudo ou cobrar pela coautoria. Sou contra todas essas práticas. E, até onde eu sei, eles nunca me usaram para isso”, afirma.
As revistas científicas têm um incentivo perverso para publicar estudos de qualidade duvidosa. No passado, eram os leitores que pagavam para ler os artigos, que eram inacessíveis sem uma assinatura. Mas, nos últimos anos, outro modelo foi imposto, no qual os próprios autores são os que pagam até US$ 6.500 a editoras privadas para que seus estudos possam ser publicados com acesso aberto a qualquer leitor. A mudança neste modelo causou um terremoto no mundo da ciência. Em 2015, havia apenas uma dúzia de revistas biomédicas que publicavam mais de 2.000 estudos por ano, representando 6% da produção total entre elas. Existem agora 55 desses chamados “mega-periódicos” – juntos, eles publicam quase um quarto de toda a literatura especializada, de acordo com uma pesquisa recente de John Ioannidis.
Metade dos principais mega-periódicos vem da mesma editora: MDPI, uma gigante corporativa fundada em Basel, na Suíça, pelo químico chinês Shu-Kun Lin. Atualmente, controla 427 periódicos. Sua principal publicação – International Journal of Environmental Research and Public Health – publica quase 17.000 estudos a cada ano, um número que dificulta a garantia da qualidade. Esta revista cobra dos autores mais de US $ 2.500 pelos custos de publicação de cada trabalho. Cinco anos atrás, mais de uma dúzia de editores da Nutrients – outro desses mega-periódicos – renunciaram, alegando que o MDPI os pressionou aaceitar estudos de baixa qualidadee aumentar a receita. O trabalho do especialista em carnes José Manuel Lorenzo sobre doenças gengivais foi publicado na revista Antioxidants– também de propriedade da MDPI.
A editora de Shu-Kun Lin tornou-se um império em pouco tempo. Os periódicos MDPI oferecem uma maneira fácil de publicar estudos, graças aos seusrequisitos menos exigentes. Um cientista pode enviar um artigo para eles e vê-lopublicado em menos de um mêsapós uma revisão superficial, em vez dos seis meses típicos que outros editores exigem. Emilio Delgado – professor de Metodologia de Pesquisa da Universidade de Granada, na Espanha – faz um diagnóstico devastador sobre essa situação: “Os periódicos MDPI engoliram o sistema”.
Delgado brinca que, no mundo acadêmico, já se fala em “professores MDPI”, que se refere àqueles que subiram graças a currículos baseados nesse tipo de trabalho de má qualidade. Ele observa que as universidades espanholas se tornaram verdadeiras “fazendas industriais” para estudos insubstanciais. Delgado e seu colega Alberto Martín analisaram essa mudança no comportamento dos cientistas espanhóis. Seus dados mostram que, em 2015, apenas 0,9% da produção espanhola foi publicada em periódicos MDPI, em comparação com uma taxa de 0,6% em todo o mundo. Seis anos depois, a porcentagem na Espanha disparou para quase 15% – o dobro da proporção no resto do mundo. Algumas universidades se concentram em publicar seus estudos em periódicos MDPI, como a Universidade Católica de Ávila (71%), a Universidade Alfonso X el Sabio (42%), a Universidade da Extremadura (30%) e a Universidade Católica de Múrcia (27%). Na universidade mais prestigiada da Espanha – a Universidade Complutense de Madri – a porcentagem ultrapassa 12%.
Jesús Simal, professor de Nutrição na Universidade de Vigo, na Galiza, Espanha.Universidad de Vigo
O terceiro cientista mais prolífico da Espanha é Jesús Simal. Professor de Nutrição na Universidade de Vigo, teve 110 estudos publicados no ano passado… quase um a cada três dias. Simal é especialista em contaminantes químicos em alimentos, mas seu currículo também inclui estudos sobre diferentes temas com coautores exóticos. Há um ano, ele publicou um estudo sobre a ferramenta de edição de genes CRISPR contra o câncer, ao lado de coautores de Bangladesh, Indonésia e Arábia Saudita. O professor (e ex-vice-reitor de sua universidade) admite que não conhece pessoalmente o resto dos signatários e atribui sua produção incomum à sua cooperação com “múltiplas equipes de pesquisa internacionais”. Simal também colaborou ocasionalmente com José Manuel Lorenzo. Juntos, eles escreveram um livro sobre comida de peixe.
O quarto lugar na lista dos cientistas mais prolíficos da Espanha é ocupado pelo psiquiatra japonês Ai Koyanagi, com um pico de 108 estudos anuais (sem contar trabalhos menores). Koyanagi foicodiretor do grupo de trabalho de Epidemiologia dos Transtornos Mentaisdo Instituto de Pesquisa Sant Joan de Déu, na área metropolitana de Barcelona. Em 30 de abril passado, ela renunciou ao cargo, depois que o EL PAÍS revelou que o psiquiatra é um dos 19 cientistas na Espanha que declararam falsamente – em troca de dinheiro – que seu principal local de trabalho é uma universidade saudita. O objetivo é ajudar a instituição árabe asubir nos rankings acadêmicos internacionais. Um porta-voz da ICREA – a instituição pública catalã que pagou o salário de Koyanagi – disse que ela procurará trabalho fora da Espanha.
Para avaliar o desempenho de um pesquisador e decidir sobre promoções ou aumentos salariais, as instituições consultam sua produção em bases de dados internacionais, como a Web of Science, da multinacional Clarivate. A química Nandita Quaderi – vice-presidente da plataforma Web of Science – anunciou em 20 de março passado que sua equipe havia detectado mais de 500 periódicos suspeitos, graças a um novo programa de inteligência artificial criado para limpar “registros acadêmicos cada vez mais contaminados”. A empresa já removeu mais de 80 periódicos de seu banco de dados, incluindo 15 mega-periódicos e o já mencionado International Journal of Environmental Research and Public Health do MDPI. É a revista em que os cientistas espanhóis mais publicaram nos últimos cinco anos, com mais de 5.400 estudos, de acordo com uma análise de Rafael Repiso e Ángel María Delgado Vázquez, dois professores de Ciência da Informação.
“Estamos perdendo milhões de euros de dinheiro público pagando pela publicação de estudos que geralmente não contribuem com nada – como os papagaios, eles apenas repetem o que todos já conheciam”, lamenta Delgado Vázquez, da Universidade Pablo de Olavide, em Sevilha. Sua análise revela que os 82 periódicos agora expulsos da base de dados publicaram quase 190.000 estudos nos últimos cinco anos. Cerca de 7.000 – quase 4% – têm coautores espanhóis. As instituições espanholas gastaram mais de € 12 milhões – quase US $ 13 milhões – para pagar os custos de publicação desses estudos controversos, de acordo com seus cálculos.
“Não é necessário generalizar, mas em nossas universidades, todos nós conhecemos um professor cujo currículo cresceu misteriosamente – em um período muito curto de tempo – e que está conseguindo ser promovido em um período de tempo excepcionalmente curto. A podridão está lá. quem não sente o cheiro está cobrindo o nariz”, diz Delgado Vázquez. Cinco universidades públicas espanholas – as universidades de Granada, Valência, Extremadura, Sevilha e Almería – publicaram quase 1.900 estudos no controverso International Journal of Environmental Research and Public Health em apenas cinco anos. “Soma-se ao desperdício de dinheiro público a desigualdade que isso causa no sistema científico. Esses professores desavergonhados progridem em suas carreiras, enquanto pessoas honradas são deixadas à margem. Isso é realmente lamentável”, enfatiza Delgado Vázquez.
O Centro de Tecnologia para Carne se orgulha de que quatro dos cinco maiores especialistas do mundo em produtos à base de carne são pesquisadores da organização.CTC
O desempenho de um cientista também é medido pelo número de vezes que seu trabalho é citado por outros pesquisadores. Publicar um grande número de estudos e pertencer a uma rede internacional de colegas (que fazem a mesma coisa e citam uns aos outros) é uma maneira fácil de subir em alguns rankings internacionais. O Centro de Tecnologia para Carne se orgulha de que “quatro dos cinco maiores especialistas em produtos cárneos” do mundo são pesquisadores dentro da organização, de acordo comdados do portal norte-americano Expertscape, que valoriza os estudos por peso. Nesta lista, José Manuel Lorenzo é o primeiro do mundo, seguido dos seus colegas de laboratório Paulo Munekata, Mirian Pateiro e Rubén Domínguez. Esses dois últimos também estão implicados na conspiração saudita para trapacear no ranking global.
O quinto cientista mais prolífico da Espanha é Toni Frontera, professor de Química da Universidade das Ilhas Baleares. Ele é coautor de cem estudos por ano. “Eu trabalho oito horas e depois mais oito, porque meu hobby é publicar. Eu adoro. Trabalho basicamente todos os dias do ano: sábados, domingos, no Natal”, garante ao EL PAÍS em conversa telefônica. Ele acaba de publicar um estudosobre a estrutura de um complexo molecular com potencial farmacológico, junto com pesquisadores da Arábia Saudita, Paquistão, Nova Zelândia e Egito. Frontera admite que não conhece nenhum de seus coautores e diz que se limitou a fazer simulações de computador com base em dados experimentais que lhe foram enviados. “Eles me contataram por e-mail. Se houve venda de autoria, ou se acrescentaram autores [que na realidade não fizeram nada], não sei realmente”, afirma o professor.
O sexto pesquisador mais prolífico é Rafael Luque, um químico expulso da Universidade de Córdoba há seis meses por seu envolvimento na conspiração saudita. Luque – que, pelos próximos 13 anos, está suspenso da universidade e proibido de receber salário – colocou seu nome em 98 estudos no ano passado, incluindo um trabalho publicado pela editora Springer Nature sobre afotodegradação do ibuprofeno em águas residuais. Ele foi co-autor com sete iranianos. O engenheiro britânico Nick Wise, da Universidade de Cambridge, denunciou que as coautorias do referido estudoforam colocadas à venda alguns meses antes. Luque afirma que nunca pagou para assinar o estudo de outra pessoa, mas acrescenta que não descarta a possibilidade de que um de seus coautores iranianos tenha pago para comparecer.
O químico Rafael Luque, em um laboratório na Universidade de Córdoba, Espanha.Universidad de Córdoba
A editora MDPI criou um novo modelo de negócios. Seus periódicos convidam cientistas – mesmo os mais medíocres – para serem editores de uma infinidade de edições especiais, transformando os pesquisadores em seus agentes comerciais (que não são pagos). Posteriormente, um editor convidado oferecerá a seus colegas a publicação de estudos no referido periódico, desde que paguem os US $ 2.500 ou mais em despesas de publicação. Em troca dessa rede, o editor convidado poderá publicar um ou mais artigos gratuitos na edição especial. Estes são semelhantes aos esquemas de pirâmide, de acordo com Isidro Aguillo, do Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha (CSIC). Cada periódico MDPI publica centenas de edições especiais por ano, multiplicando o número de edições regulares. O MDPI aumenta seus lucros, enquanto milhares de editores convidados preenchem seus currículos.
Delgado Vázquez e Repiso instam as instituições a considerar essas práticas como deméritos, em vez de méritos, como é o caso atualmente. “Um demérito [deve ser aplicado] quando você está tentando vender a ideia de que seu artigo foi publicado em um periódico internacional, quando a realidade é que ele foi publicado em sua própria edição, ou em uma edição editada por seu coautor regular, ou por um colega de seu departamento. Isso não é mérito – é endogamia”,eles apontam em sua análise. José Manuel Lorenzo e seus três colegas do Centro de Tecnologia da Carne foram editores convidadosde edições publicadas pela editora MDPI.
Muitos dos cientistas mais prolíficos acabam entrando na prestigiosa lista dePesquisadores Altamente Citados, compilada pela multinacional Clarivate. Esta lista é composta pelos 7.000 pesquisadores do mundo que são mais citados por outros colegas. Simal, Koyanagi, Luque e os dois colegas de laboratório de José Manuel Lorenzo — Mirian Pateiro e Rubén Domínguez — aparecem nesta lista, usada pelo influente Ranking de Xangai para designar as melhores universidades do planeta. Algumas instituições sauditas oferecem secretamente até US $ 75.000 por ano para aqueles na lista de Altamente Citados, em troca de mentir no banco de dados da Clarivate e declarar que trabalham principalmente na Arábia Saudita.
O matemáticoDomingo Docampo– ex-reitor da Universidade de Vigo – também denuncia a existência de “fazendas de citações”, ou redes internacionais de pesquisadores que concordam em citar uns aos outros para subir artificialmente nos rankings internacionais. Historicamente, os estudos matemáticos mais citados vieram de universidades de renome mundial, como Harvard, Stanford e Princeton. Agora, explica Docampo, é difícil encontrar uma instituição de prestígio nas primeiras posições, que foram assumidas por universidades asiáticas de segundo escalão.
O estudo matemático mais citado de 2022 foi um artigo sobre o fluxo de calor em um nanomaterial específico, liderado por um pesquisador da Universidade Rei Abdulaziz – uma das instituições sauditas implicadas no suborno de cientistas altamente citados. De acordo com Docamplo, este artigo irrelevante recebe mais de 430 citações em um único ano, em comparação com as 24 que o estudo mais citado de Princeton recebeu. “Na Arábia Saudita, existem os xeques na máfia das citações”, adverte. O trabalho árabe já foi retratado, depois que “mudanças suspeitas” foram detectadas no último minuto, com três coautores da Índia e da Arábia Saudita tendo sido discretamente adicionados ao artigo, de acordo com uma nota da editora: Elsevier, uma editora acadêmica holandesa. Este é o comportamento usual envolvido na venda de autorias. Isidro Aguillo, do Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha, pede uma mão forte para lidar com essa questão: “O problema não são os trapaceiros nem o sistema, porque se o sistema mudar, os trapaceiros se adaptarão. O problema é a impunidade.”
Gregory Lip, cardiologista da Universidade de Liverpool, é o cientista mais publicado do mundo.Universidad de Liverpool
Gregory Lip – cardiologista da Universidade de Liverpool – é o cientista mais publicado do mundo, publicando mais de 250 estudos por ano, de acordo com cálculos (solicitados por este jornal) de Ioannidis. É uma taxa que envolve a coautoria de um artigo a cada dia e meio, enquanto trabalha nos fins de semana.
“Não há nada de errado com a produtividade em si. Na verdade, é bom que os cientistas sejam produtivos em vez de preguiçosos, mas o número de artigos não deve ser o importante”, diz Ioannidis. “O fato de muitos pesquisadores relativamente jovens na Espanha terem taxas de produtividade tão altas nos últimos anos é preocupante. Isso sugere que existe um sistema de recompensa que encorajou essas taxas de publicação massivas “, reflete o professor de Stanford.
O guardião da qualidade das universidades espanholas é a Agência Nacional de Avaliação e Acreditação da Qualidade (ANECA). Em 2017, o órgão passou a exigir mais de uma centena de trabalhos publicados como mérito essencial para que um professor seja credenciado em determinadas especialidades. A nova diretora da agência – Pilar Paneque – atribui essas mudanças a um decreto real feito pelo governo de Mariano Rajoy (2011-2018). “Há um clamor sobre como isso é loucura, que estamos distorcendo o sentido do que a universidade e a ciência deveriam ser”, diz Paneque, que está no cargo há apenas três meses.
“Em cada café, em cada universidade, há essa conversa sobre como nos jogamos nos braços do mercado editorial e sobre o custo que esse sistema está tendo em todos os sentidos”, lamenta o diretor da ANECA. As universidades espanholas e o Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha pagam cerca de € 43 milhões (US $ 46 milhões) a cada ano a quatro editoras – Elsevier, Wiley, Springer Nature e ACS – para que alunos e professores possam ler seus periódicos, ao mesmo tempo em que garantem que mais estudos de acesso aberto sejam publicados. Outras empresas – como a controversa MDPI – também chegaram a acordos individuais com várias universidades.
Eva Méndez – especialista em ciência aberta da Universidade Carlos III de Madri – critica o sistema atual e o “comportamento predatório” de todas as editoras científicas. “Pagar 43 milhões de euros por ano é ultrajante. Com esses 43 milhões de euros, um grande sistema alternativo poderia ser feito”, ela zomba. Méndez dá o exemplo daOpen Research Europe, uma plataforma de publicação apoiada pela Comissão Europeia, onde os pesquisadores não precisam pagar para ler artigos ou publicar seus estudos.
O diretor da ANECA está otimista, apesar de tudo. “Justamente porque todos nós chegamos ao ponto de exaustão diante dessas más práticas – porque o mercado editorial domina nossa atividade de pesquisa e porque isso é conhecido e criticado por todos – acredito que estamos em um momento perfeito para fazer todas as mudanças necessárias”, opina.
O plano de Pilar Paneque é introduzir novos critérios de avaliação para cientistas em janeiro de 2024, após a aprovação de uma nova lei para substituir a polêmica da época de Rajoy. “Todo o sistema é louco e está custando milhões de euros. Por isso, este é um excelente momento para mudá-lo”, afirma.
Pesquisa do Idec surpreende ao mostrar que até os chamados plant-based têm veneno
O duplo perigo dos ultraprocessados já é conhecido, mas os dados continuam alarmantes. O IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) lançou o terceiro volume da pesquisa “Tem Veneno Nesse Pacote” e, mais uma vez, encontrou resíduos de agrotóxicos em produtos populares, muitos deles direcionados ao público infantil, como bolos prontos e bebidas lácteas.
A novidade deste estudo foi a análise de produtos plant-based, itens naturais, vegetais e mais especificamente, feitos de plantas e vendidos como alternativas “saudáveis e sustentáveis”.
O resultado, no entanto, não condiz com a promessa: duas das três marcas de hambúrgueres vegetais continham resíduos de agrotóxicos, e todas as três marcas de empanados de frango vegetais apresentaram a mesma contaminação.
Assim como nas edições anteriores, o glifosato foi o agrotóxico mais identificado nas amostras analisadas. Essa substância, amplamente utilizada na agricultura, está associada ao desenvolvimento de câncer e é proibida em diversos países. Ele apareceu em 7 das 24 amostras analisadas.
Produtos à base de trigo, ingrediente comum em ultraprocessados, frequentemente apresentam resíduos desse agrotóxico. “Farinha de trigo, ingrediente encontrado na crosta dos empanados, no biscoito maisena e no macarrão instantâneo, continua sendo um ingrediente com alta prevalência de contaminação por agrotóxicos”, informa a pesquisa.
Impacto para os consumidores
A presença de agrotóxicos em alimentos industrializados preocupa especialistas em segurança alimentar e saúde pública. O consumo excessivo desses produtos pode levar a doenças crônicas e expor crianças a substâncias prejudiciais desde a primeira infância.
Na avaliação do Instituto, além disso, a contaminação em produtos plant-based levanta questionamentos sobre a regulação e o controle desses alimentos, que muitas vezes são comercializados como alternativas mais saudáveis.
Para auxiliar os consumidores na escolha de produtos mais seguros, o IDEC disponibiliza gratuitamente uma cartilha com informações detalhadas sobre os riscos dos agrotóxicos em alimentos ultraprocessados e alternativas mais saudáveis. O material pode ser baixado mediante cadastro no site do instituto.
Um novo estudo reforça as evidências de que agricultores no cinturão do milho dos EUA plantaram em excesso um tipo de milho geneticamente modificado (GM), levando a perdas estimadas em mais de 1 bilhão de dólares, pois as pragas que o milho foi projetado para repelir se tornaram resistentes ao longo do tempo.
Os autores do artigo, publicadona revista Science , disseram que suas descobertas apoiam uma mudança em direção a um fornecimento de sementes “mais diversificado”.
Conhecido como milho Bt porque contém até cinco toxinas produzidas por uma bactéria chamada Bacillus thuringiensis , a cultura é projetada para expressar proteínas que a tornam tóxica para certas pragas, incluindo a larva da raiz do milho. Maisde 85% do milho plantadonos EUA é da variedade Bt, à qual várias pragas de insetos estão se tornando resistentes.
Após examinar dados de danos causados por vermes da raiz em plantações de 10 estados no período de 2005-2016, os pesquisadores determinaram que muitos agricultores plantaram mais milho GM do que o considerado necessário para lidar com problemas de pragas. As sementes Bt normalmente têm um prêmio de preço significativo.
Os cientistas descobriram que o plantio de milho Bt em certos estados do Cinturão do Milho oriental proporcionou “apenas benefícios marginais de proteção de rendimento”, benefícios que parecem ser frequentemente eclipsados pelos custos mais altos das sementes GM em comparação com as sementes não GM.
Além disso, quando você planta mais milho Bt do que o necessário, “você move a praga em direção à evolução da resistência”, disse Christian Krupke , professor de entomologia na Universidade Purdue e coautor do estudo.
Entre 2014 e 2016, fazendeiros em Indiana, Ohio e Michigan plantaram cerca de 50% de seus campos com milho Bt, mas os dados que os autores do estudo revisaram sugeriram que o nível ideal era 18% ou menos. Se fazendeiros nesses estados tivessem plantado esse nível mais baixo e ótimo de milho Bt, eles teriam lucrado US$ 99 milhões a mais por ano durante esse período, de acordo com o artigo.
“Este estudo é o primeiro a mostrar que ganhos econômicos de curto prazo para agricultores individuais estão associados ao plantio de menos milho Bt visando vermes da raiz”, disse Bruce Tabashnik , professor da Universidade do Arizona que não estava envolvido no estudo.
Até agora, a resistência do verme da raiz ao milho Bt foi documentada em pelo menos seis estados do Cinturão do Milho dos EUA, e 29 casos de resistência às culturas Bt foram documentados em 11 espécies de pragas em sete países, disse ele.
Os cientistas ficaram surpresos ao encontrar níveis muito mais altos de verme da raiz do milho no cinturão do milho ocidental em comparação ao leste. “Você tem que acompanhar a biologia mais do que teríamos previsto”, disse Krupke.
O estudo também cita evidências de que a eficácia da toxicidade do milho Bt contra pragas geralmente diminuiu à medida que o plantio de Bt aumentou.
À medida que a resistência aumenta, ouso de agrotóxicos geralmente também aumenta, embora esses custos não tenham sido incluídos nas perdas potenciais que o estudo atribuiu ao plantio excessivo.
Os autores do estudo observaram que os fabricantes de milho Bt, frequentemente “acumulam” ou combinam características genéticas que permitem que o milho combata pragas com outras características genéticas, como tolerância a herbicidas, em suprimentos de sementes vendidos a agricultores. A combinação torna difícil para os agricultores identificarem claramente o custo individual de cada característica, disseram os autores.
“As empresas de sementes movidas pela maximização do lucro tendem a combinar estrategicamente características e genética”, afirma o estudo. “À medida que a consolidação da indústria de sementes continua, os agricultores dos EUA enfrentam uma lista cada vez menor de fornecedores de sementes e podem ser compelidos a adotar variedades com características desnecessárias.”
Os autores do estudo propuseram “aumentar a transparência” na comercialização de sementes por meio da rotulagem de combinações de características, incluindo o detalhamento do prêmio atribuído a cada característica.
E eles pediram programas governamentais que incentivassem as empresas de sementes a ampliar a diversidade genética e as combinações de características disponíveis para os agricultores.
O estudo também emitiu um alerta, dizendo que “a crescente resistência do verme da raiz ao milho Bt levou a um ressurgimento do uso de inseticidas que os híbridos Bt pretendiam substituir… Se as inovações atuais e futuras relacionadas forem gerenciadas como os híbridos de milho Bt foram, corremos o risco de entrar em um ciclo de rápida obsolescência entre as tecnologias transgênicas, uma versão biotecnológica da ‘esteira de agrotóxicos’”.
Tabashnik disse que os melhores métodos para prevenir a resistência e prolongar a eficácia do milho Bt incluem não usar mais culturas GM do que o necessário, praticar a rotação de culturas e plantar proativamente “refúgios” de milho convencional.
Essas descobertas ilustram a importância do monitoramento generalizado de pragas e do financiamento contínuo para pesquisas agrícolas, algumas das quais estão ameaçadas pelos recentes cortes orçamentários, disse Krupke.