O colapso de uma importante revista científica expõe o poder especulativo das editoras na ciência

Uma das maiores revistas científicas do mundo foi expulsa do sistema devido a irregularidades.  A sua editora, a Elsevier, ostenta lucros anuais superiores a 1,3 bilhão de euros

Revista 'Science of the Total Environment'

Um estudo sobre o coronavírus foi “despublicado” pela revista ‘Science of the Total Environment’. Víctor Sanjuan 

Por Manuel Ansede para “El País”

Com a Humanidade aterrorizada pela segunda onda mortal do coronavírus, no outono de 2020, uma revista científica publicou um estudo com uma solução: amuletos de jade da medicina tradicional chinesa poderiam prevenir a COVID-19. A proposta era extravagante, mas o editor-chefe do semanário, o químico espanhol Damià Barceló, defendeu seus rigorosos controles de qualidade. Essa revista, Science of the Total Environment — uma das 15 que publicam o maior número de estudos em todo o mundo — acaba de ser excluída do grupo de publicações de prestígio por uma das principais empresas de avaliação, após a descoberta de dezenas de artigos irregulares. O escândalo expõe os lucros exorbitantes das editoras científicas, que nos últimos anos acumularam bilhões de euros em verbas públicas destinadas à ciência.

Damià Barceló, nascido em Lleida há 71 anos, assumiu a direção da revista em 2012. Em apenas dois anos, dobrou o número de estudos publicados. Em uma década, multiplicou-o por dez, chegando a quase 10.000 artigos anuais. Com o aumento do número de artigos, a qualidade declinou, devido a um incentivo perverso para aceitar trabalhos medíocres: para publicar uma pesquisa na revista, o cientista precisa pagar 3.600 euros, mais impostos. Emilio Delgado, professor de Documentação da Universidade de Granada, resume a situação da seguinte forma: “É claramente uma revista de portas abertas, que aceita tudo. É o que eu chamo de mega-revista, ou seja, um mega-negócio”. A publicação pertence à gigante editora holandesa Elsevier, que domina o mundo da publicação científica, com uma participação de 17% no mercado global. Suas 3.000 revistas publicaram 720.000 estudos no ano passado. O empresário sueco Erik Engstrom, CEO da RELX (multinacional proprietária da Elsevier), ganhou mais de 15 milhões de euros em 2024, entre salário e outras remunerações.

Delgado e seu colega Alberto Martín analisaram o comportamento incomum da mega-revista a pedido do EL PAÍS. De todos os estudos publicados na Science of the Total Environment, 40% são de autores chineses e 8% de autores espanhóis — percentagens que representam o dobro da proporção usual na área. A terceira instituição que mais publica artigos nesta revista, depois de duas organizações chinesas, é o Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), a maior organização científica da Espanha, onde o próprio Barceló trabalhou até sua aposentadoria no ano passado. “Com esses padrões, poderíamos considerar a possibilidade de fraude na publicação, mas isso é mera especulação”, afirma Delgado.

O químico Damià Barceló, na Universidade de Almería, em maio de 2022.UAL

O sistema científico opera de forma controversa. O financiamento e a promoção de pesquisadores dependem, em grande parte, do número de estudos que publicam em periódicos validados por algumas empresas privadas. Uma dessas empresas, a multinacional Clarivate, com sede em Londres, removeu a revista Science of the Total Environment de seu banco de dados em 18 de novembro. “A revista foi removida porque não atende mais aos nossos critérios de qualidade”, explica um porta-voz, que se recusou a fornecer mais detalhes.

A qualidade dos periódicos científicos é, em teoria, garantida porque outros especialistas anônimos concordam em revisar os rascunhos gratuitamente para decidir se os publicarão ou não. No caso da Science of the Total Environment, esse sistema teria sido corrompido. A própria editora Elsevier retratou cerca de cinquenta estudos publicados pelo biólogo brasileiro Guilherme Malafaia, após descobrir que seu trabalho recebeu pareceres fictícios assinados por cientistas reais sem o seu consentimento, como aconteceu com um artigo sobre coronavírus em peixes e outro sobre a toxicidade de um herbicida em tartarugas. Malafaia e Barceló são coautores de diversos estudos sobre poluição por microplásticos, mas esses artigos de pesquisa em conjunto ainda não foram retratados.

As quatro maiores editoras científicas — Elsevier, Springer Nature, Wiley e Taylor & Francis — faturaram mais de € 6 bilhões em 2024, com margens de lucro inimagináveis ​​em quase qualquer outro setor, superiores a 30%, segundo uma nova análise liderada pelo antropólogo britânico Dan Brockington, da Universidade Autônoma de Barcelona. Essa bonança coletiva se explica pelo sistema “publique ou morra”, que recompensa até mesmo cientistas incrivelmente prolíficos que publicam um estudo a cada dois dias, mas também por uma mudança no modelo de negócios. Antes, os leitores pagavam assinaturas para acessar periódicos de qualidade. Agora, com a promoção do acesso aberto à ciência, os próprios autores precisam pagar para que suas pesquisas sejam publicadas e outros possam lê-las gratuitamente. Esse incentivo perverso — em que tanto cientistas quanto periódicos lucram mais quanto mais publicam, independentemente da qualidade — criou uma bolha de milhões de estudos sem substância. É o que se chama de uma megarrevista, isto é, um meganegócio.

A Elsevier é a editora que publica o maior número de estudos e lucra mais, com uma margem de lucro de 38% (1,333 bilhão de euros em 2024), segundo uma análise de Brockington e colegas. Os autores defendem o “desmantelamento do sistema” que permite que bilhões de euros de dinheiro público sejam gastos na publicação de estudos sem fundamento, para benefício exclusivo de empresas privadas. De acordo com seus cálculos, a Elsevier, a Springer Nature, a Wiley e a Taylor & Francis acumularam mais de 12 bilhões de euros em lucros nos últimos seis anos. Entre os coautores da análise está o engenheiro espanhol Pablo Gómez Barreiro, do Jardim Botânico Real de Kew, no sul da Inglaterra.

Uma porta-voz da Elsevier defende as práticas da empresa. “Mantemos os mais altos padrões de rigor e ética em nossas publicações para proteger a qualidade e a integridade da pesquisa”, afirma. A editora conduziu uma investigação inicial que culminou em dezenas de retratações na revista Science of the Total Environment, oficialmente devido à revisão por pares fraudulenta de artigos. “Estamos agora conduzindo uma investigação mais ampla, focada em conflitos de interesse, além de revisar os artigos sinalizados em busca de outros possíveis indícios de má conduta”, acrescentou o porta-voz. A editora pretende “reabilitar completamente” a revista.

Damià Barceló é um cientista hiperprolífico, daqueles que publicam um novo estudo a cada cinco dias ou até menos. Ele é autor de cerca de 1.800 artigos ao longo de sua vida, mais de 200 deles na revista Science of the Total Environment, de sua própria autoria. Seu nome aparece inúmeras vezes como editor de seus próprios estudos, como um sobre produtos farmacêuticos em águas residuais mexicanas e outro sobre poluição química nos rios Ebro e Guadalquivir. O porta-voz da Elsevier explica que Barceló “demitiu-se do cargo” de editor-chefe em março de 2025. “Essa mudança fez parte de uma iniciativa mais ampla para fortalecer a governança da revista e abordar as preocupações levantadas”, afirma o porta-voz.

Segundo a Elsevier, os “problemas sistêmicos” que levaram à expulsão da revista Science of the Total Environment “não podem ser atribuídos a uma única pessoa”. Este jornal solicitou a avaliação do próprio Barceló, tanto por meio de seu WhatsApp pessoal quanto pelo endereço de e-mail associado ao seu cargo atual de professor honorário na Universidade de Almería, mas não obteve resposta.

O químico Damià Barceló recebeu um prêmio de 120.000 euros do rei saudita Salman bin Abdulaziz em 2013. ICRA

A produção prolífica de Barceló o ajudou a entrar na Lista de Cientistas Altamente Citados, um ranking compilado pela multinacional Clarivate que inclui cerca de 7.000 pesquisadores do mundo todo. Quanto mais cientistas altamente citados uma universidade possui, mais alta ela aparece no influente Ranking de Xangai, que designa as instituições acadêmicas teoricamente melhores do mundo. Uma investigação do EL PAÍS revelou em 2023 que a Arábia Saudita ofereceu subornos de até € 70.000 por ano para induzir cientistas altamente citados a mentir no banco de dados da Clarivate e declarar falsamente que trabalhavam em uma universidade árabe, a fim de inflar artificialmente sua classificação.

Desde 2016, Damià Barceló figurava como professor da Universidade Rei Saud, na Arábia Saudita, no topo da lista, apesar de sua função principal ser a de diretor do Instituto Catalão de Pesquisa da Água, em Girona. Barceló garantiu a este jornal na época que não recebia € 70.000 anualmente. Em 2013, o químico espanhol recebeu um prêmio de € 120.000 do rei saudita Salman bin Abdulaziz por sua pesquisa sobre poluentes da água.

As universidades espanholas, assim como as de outros países, tornaram-se “megafazendas de galinhas poedeiras de pesquisa”, nas palavras de Emilio Delgado e Alberto Martín, especialistas em bibliometria da Universidade de Granada. Professores com currículos completamente inflados ascenderam a cátedras ou mesmo reitores de universidades. Impulsionada por diversos manifestos internacionais, a agência espanhola que decide se um professor universitário pode ser promovido ou merece aumentos salariais, a Agência Nacional de Avaliação da Qualidade e Acreditação (ANECA), alterou seus critérios para deixar de avaliar cientistas com base apenas em números. O presidente do Comitê de Ética em Pesquisa da Espanha, o médico Jordi Camí, defendeu uma abordagem mais abrangente. “Temos que acabar com esse atoleiro”, proclamou ele em uma conferência em Barcelona, ​​no dia 6 de novembro. Em sua opinião, “devemos continuar a introduzir medidas para desencorajar, quase penalizar, a publicação por si só”.


Fonte: El País

PRF apreende quatro toneladas de agrotóxicos escondidas em caminhão de leite no interior do Paraná

Por Kevin Polasso para “Toledo News”

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) apreendeu, na manhã desta quinta-feira (27), um caminhão utilizado para transporte de leite que carregava aproximadamente quatro toneladas de agrotóxicos contrabandeados. A ação ocorreu na zona rural de Toledo e foi conduzida pelo Núcleo de Operações Especiais (NOE) da Polícia Rodoviária Federal (PRF), com apoio do 19º Batalhão de Polícia Militar de Toledo (19º BPM).

De acordo com a PRF, durante a abordagem o motorista recebeu ordem de parada, mas pulou pela porta do passageiro e fugiu em direção a uma área de mata fechada. Buscas foram iniciadas imediatamente, porém o condutor ainda não havia sido localizado até o momento da divulgação da ocorrência.

Na inspeção do veículo, os agentes encontraram diversos pacotes de agrotóxicos de origem chinesa escondidos dentro do tanque do caminhão, espaço originalmente destinado ao transporte de leite. O veículo também possuía um rádio comunicador, que teria sido utilizado pelo motorista para manter contato com outros envolvidos no contrabando e acompanhar possíveis movimentações policiais ao longo do trajeto.

Todo o material apreendido, assim como o caminhão, foi encaminhado à Receita Federal em Cascavel-PR, onde serão realizados os procedimentos legais cabíveis ao caso.


Fonte: Toledo News

Derrubada dos vetos do PL da Devastação é derrota histórica para o povo brasileiro, lamenta IPAM

Ainda à sombra da COP30, a liberação de pontos críticos da Lei do Licenciamento Ambiental abre caminho para o descontrole socioambiental e o desrespeito aos direitos humanos

Congresso nacional derruba vetos presidenciais ao PL da Devastação, o que deverá ampliar caos ambiental e conflitos de jurisdição

O IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) repudia veementemente o retrocesso histórico representado pela derrubada dos vetos à Lei 15.190/25, que enfraquecem o Licenciamento Ambiental no Brasil. Dias após o encerramento da COP30, marco da liderança global do país na construção de um futuro mais sustentável, a decisão do Congresso arrisca desfazer avanços obtidos nos últimos anos e coloca em risco a vida de milhões de pessoas.

“Precisamos ser mais eficientes com licenciamento ambiental, mas jamais ao custo de insegurança e riscos atuais e futuros para a população. Será que os ilustres senadores não entenderam o recado que a natureza está nos dando? A COP30, em Belém, deixa claro que ultrapassamos limites. Temos que repensar nossa relação com nossos rios e florestas. E não é com um PL apressado e disfuncional que seremos mais harmônicos com o meio em que vivemos”, lamenta André Guimarães, diretor executivo do IPAM e Enviado Especial da Sociedade Civil para a COP30.

A nova lei desmonta a capacidade do Estado de prevenir e controlar danos ao meio ambiente e atropela o direito dos povos originários de serem consultados sobre empreendimentos que possam gerar impactos em seus territórios. Sua aprovação, opaca e sem abertura para debates com a sociedade civil, representa a maior ameaça recente à conservação ambiental, ao abastecimento hídrico e à segurança alimentar do país.

Mais do que uma derrota para a Presidência, a derrubada dos vetos é um grave desrespeito ao povo brasileiro e às gerações futuras, que poderão viver em um mundo mais hostil e instável em razão da crise climática.

Aprovada na Câmara em julho, a lei foi publicada com vetos a 63 dos 400 dispositivos previstos no projeto original. Entre os pontos vetados estavam mecanismos que transferiam a Estados e municípios a responsabilidade plena pelo licenciamento ambiental, além da possibilidade de licenciamento simplificado para empreendimentos de médio potencial poluidor e da adoção do licenciamento autodeclarado.

Embora não revertessem todos os danos trazidos pela lei, os vetos presidenciais barravam alguns dos dispositivos mais críticos, como o autolicenciamento e a exclusão de consultas a territórios tradicionais ainda em processo de regularização. Com a derrubada dos vetos, autorizações para empreendimentos nocivos poderão ser emitidas mediante o preenchimento de um simples formulário online.

Além disso, povos que habitam a mesma região há séculos poderão ter seus direitos violados para abrir espaço ao desmatamento e à exploração insustentável dos recursos naturais. Apesar de serem os menos responsáveis pela crise climática e de conservarem alguns dos maiores remanescentes de vegetação nativa do país, povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais são, mais uma vez, ignorados em nome de um desenvolvimentismo ultrapassado, que coloca em risco vidas e territórios.

Ainda em julho, cientistas haviam alertado para o impacto crítico que a aprovação integral da Lei poderia representar para o futuro. Segundo especialistas, a pressão e o desmatamento potencializados pelo novo marco do Licenciamento Ambiental podem acelerar os pontos de não retorno em todos os biomas brasileiros, empurrando os ecossistemas nacionais para um cenário de colapso.

China barra 69 toneladas de soja brasileira por contaminação com agrotóxicos proibidos

China bans 69 tons of soybeans from Brazil, finds wheat contaminated with a  banned pesticide, and

O jornal Folha de São Paulo está noticiando que a China bloqueou a entrada de 69 mil toneladas de soja brasileira após encontrar trigo contaminado com agrotóxicos no porão do navio onde parte da carga estava sendo transportada.

Segundo reportagem da Folha, as exportações de duas fábricas da Cargill, bem como de outras controladas pela Louis Dreyfus, CHS Agronegocio e 3Tentos serão suspensas a partir de hoje em decorrência do incidente.

Segundo o relatório da agência sanitária chinesa teriam encontradas aproximadamente dez toneladas de trigo com agrotóxicos proibidos no mercado chinês dentro do navio que transportava a carga de soja.

A avaliação chinesa concluiu que o revestimento químico utilizado no grão é tóxico e destinado exclusivamente ao plantio, não ao consumo humano ou animal. Por isso, foi classificado como um risco sanitário inaceitável. Além disso, o trigo brasileiro não está habilitado para exportação à China, o que reforçou a violação das regras comerciais e sanitárias locais.

Em carta enviada à Embaixada do Brasil em Pequim, a qual a reportagem da Folha de São Paulo teve acesso, a GACC afirma que sua decisão tem “o objetivo de proteger a saúde dos consumidores chineses e garantir a segurança da soja importada” pelo país asiático.

A Folha informou ainda que a Administração Geral de Alfândegas da China comunicou às autoridades brasileiras que o ocorrido representa uma “violação grave” das normas chinesas de segurança alimentar.

Nessa situação uma curiosidade: o Brasil é o maior exportador de soja para a China, e o país asiático é o principal fornecedor de agrotóxicos para o mercado brasileiro, inclusive de muitas substâncias que são proibidas por lá em função de sua alta toxicidade ambiental e para a saúde humana.

Desta forma, aqueles que ficam passando o pano e autorizando a comercialização dessas substâncias altamente perigosas deveriam se perguntar o porquê da China ter agido tão firmemente em um caso que reflete bem a postura de governantes que zelam pelos interesses de seus cidadãos, enquanto por aqui tudo é permitido em nome do sucesso da balança comercial.

Flávio Serafini quer instalação de CPI para investigar perdas do RioPrevidência no Banco Master

O investimento bilionário do RioPrevidência, fundo estadual de aposentadorias e pensões dos servidores públicos do estado do Rio de Janeiro, no Banco Master pode virar objeto de uma CPI na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).  É que o deputado estadual Flavio Serafini (PSOL), presidente da Comissão de Servidores da Alerj, protocolou projeto de resolução para instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar esses aportes e também os realizados por outras instituições públicas, a começar pela Cedae. 

Os dirigentes do RioPrevidência falam em cerca de um bilhão de reais investidos, mas o valor segundo técnicos do Tribunal de Contas do Estado (TCE) pode ter chegado a R$ 2,6 bilhões no Master e em fundos associados.

Flávio Serafini, deputado de oposição ao governo de Cláudio Castro (PL)  tem dito que os cofres estaduais do Rio de Janeiro tiveram um prejuízo bilionário e culpa o governador por essa situação escabrosa.  Para Serafini está evidente que houve um direcionamento para favorecer o Banco Master, o que agora  se mostra uma ação completamente irresponsável e que coloca em risco a saúde financeira do RioPrevidência.

É importante lembrar que Flávio Serafini presdiu a CPI do RioPrevidência entre 2019 e 2021, e sabe muito da situação financeira do fundo de previdência dos servidores estaduais fluminenses.

O escândalo do açúcar em alimentos infantis da Nestlé na África

A Nestlé está explorando o amor e as preocupações dos pais em todo o mundo para transformar a alimentação infantil em um negócio altamente lucrativo. Mas a que preço? Um ano e meio após nossas primeiras revelações, uma nova investigação da Public Eye sobre os cereais infantis Cerelac mostra que a multinacional continua a alimentar bebês à força com açúcar no continente africano

How Nestlé gets children hooked on sugar in lower-income countries

Por Laurent Gaberell para “Public Eye”

No ano passado, destacamos o duplo padrão da Nestlé em relação ao açúcar em alimentos infantis, o que gerou uma onda de indignação em todo o mundo. Na Índia, onde esse escândalo causou uma queda no preço de suas ações, a Nestlé anunciou o lançamento de 14 novas variantes do Cerelac sem adição de açúcar. Uma excelente notícia para milhões de bebês. 

Mas será que esse desejo de agir é seletivo? Que sistema os clientes mais jovens da Nestlé enfrentam hoje em outras regiões do mundo? Esta investigação recente da Public Eye centra-se em África, um mercado fundamental para a multinacional suíça, onde a obesidade se tornou uma grande preocupação de saúde pública.

Promovidos como “especialmente desenvolvidos para atender às necessidades nutricionais” dos bebês, os cereais infantis Cerelac são os mais populares no continente africano. As vendas anuais ultrapassam os 250 milhões de dólares e a Nestlé detém uma participação de mercado superior a 50%, segundo dados exclusivos obtidos da Euromonitor, empresa especializada no setor alimentício.

Na trilha do açúcar

Com a ajuda de diversas organizações da sociedade civil na África, coletamos quase uma centena de produtos Cerelac vendidos em 20 países do continente e os enviamos para análise no Inovalys, um laboratório de referência especializado no setor agroalimentar. O resultado: mais de 90% contêm açúcar adicionado, em quantidades elevadas. 

Na Suíça, onde a empresa tem sua sede, a principal marca de cereais infantis da Nestlé não contém açúcar adicionado . E em mercados europeus importantes, como Alemanha e Reino Unido, onde a Nestlé também vende os cereais infantis Cerelac, todos os produtos destinados a bebês a partir dos seis meses de idade também não contêm açúcar adicionado.

©Laurent Gaberell

Os produtos Cerelac foram analisados ​​pela Inovalys, um laboratório líder especializado no setor agroalimentar.

Diante desse inaceitável duplo padrão, organizações da sociedade civil africana apelam à Nestlé para que cumpra as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e pare imediatamente de adicionar açúcar aos seus alimentos infantis, em todo o mundo. 

Em uma carta aberta , 20 organizações da sociedade civil do Benim, Burundi, Camarões, Costa do Marfim, Marrocos, Moçambique, Namíbia, Nigéria, Senegal, África do Sul, Togo, Tunísia e Zimbábue estão pedindo à gigante alimentícia que pare imediatamente de adicionar açúcar aos seus alimentos infantis. 

“Todos os bebês têm o mesmo direito a uma alimentação saudável, independentemente de sua nacionalidade ou cor da pele. Todos os bebês são iguais. Portanto, faça a coisa certa. O mundo está observando”, alertam.

Em 2024, uma petição assinada por 105 mil pessoas foi entregue à empresa. Mas, até hoje, a Nestlé ignora o apelo.

Até quase dois cubos de açúcar

Em média, cada porção analisada de Cerelac contém quase seis gramas de açúcar adicionado, o equivalente a cerca de um cubo e meio de açúcar. Isso representa 50% a mais do que a média encontrada em nossa primeira investigação , que se concentrou principalmente em produtos vendidos na Ásia e na América Latina. E é o dobro da quantidade detectada na Índia, o principal mercado mundial do Cerelac.

A maior quantidade detectada na África – 7,5 gramas por porção, o equivalente a quase dois cubos de açúcar – foi encontrada em um produto Cerelac vendido no Quênia e destinado a bebês de seis meses de idade. No geral, cereais infantis da marca Cerelac contendo pelo menos sete gramas de açúcar adicionado por porção foram encontrados em sete países africanos.

Açúcar adicionado nos produtos Cerelac vendidos na África

Fonte: análise laboratorial realizada em produtos Cerelac comercializados pela Nestlé em 20 países africanos. Produtos importados da Europa e não destinados ao mercado africano não foram incluídos. Os valores representam as quantidades de açúcar adicionadas pela Nestlé na forma de açúcar de mesa (sacarose) e mel, e excluem os açúcares naturalmente presentes no leite e nas frutas. As porções correspondem às recomendadas pela Nestlé na embalagem.

Outro fato revelador: com exceção de duas variantes lançadas recentemente na África do Sul, todos os produtos sem adição de açúcar que encontramos não foram concebidos pela Nestlé para o mercado africano, mas sim importados da Europa por outras empresas.

“Essas práticas refletem uma longa história de colonialismo, exploração e racismo”, disse Lori Lake, da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, onde a Public Eye conversou com mães que usam Cerelac em áreas rurais pobres. “Parece que a Nestlé está alimentando conscientemente o problema da obesidade e das doenças relacionadas à alimentação na África.”

Consequências graves para a saúde pública

A OMS alerta há décadas que a exposição precoce ao açúcar pode criar uma preferência duradoura por produtos açucarados e é um importante fator de risco para o sobrepeso e a obesidade. A obesidade está aumentando a um ritmo alarmante no continente africano, causando uma explosão de casos de diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares. 

A obesidade infantil na África também é uma preocupação crescente , com o número de crianças com sobrepeso menores de cinco anos quase dobrando desde 1990. A maioria dos países africanos enfrenta agora uma “dupla carga” de má nutrição, onde o baixo peso e a obesidade coexistem.

A obesidade já impõe custos significativos aos sistemas públicos de saúde da África. Se as tendências atuais continuarem, a obesidade poderá aumentar em mais de 250% neste continente até 2050, com a projeção de que um em cada dois adultos será afetado por sobrepeso ou obesidade.

A Nestlé está bem ciente desses riscos. “As crianças podem se acostumar com alimentos doces”, escreve a Nestlé em um site voltado para pais sul-africanos. “A alta ingestão de açúcar acarreta riscos a curto e longo prazo para as crianças”, acrescenta a empresa. “O ideal é limitar o consumo de todos os açúcares adicionados para evitar esses riscos.” 

“Não enganamos os consumidores”

Em cerca de dois terços dos produtos que analisamos, a quantidade de açúcar adicionado sequer constava nas informações nutricionais da embalagem. Essa falta de transparência “prejudica os direitos do consumidor e a saúde pública”, afirmou Chiso Ndujkwe-Okafor, Diretora Executiva da Fundação Nigeriana de Defesa e Empoderamento do Consumidor (CADEF). “Os pais precisam ter acesso a informações claras e honestas para que possam fazer escolhas seguras para seus filhos.”

Com vendas anuais superiores a 50 milhões de dólares, a Nigéria é o maior mercado para o Cerelac no continente africano. A CADEF apela à Nestlé para que “se alinhe com as diretrizes da OMS” e remova os açúcares adicionados de todos os seus produtos alimentares para bebés.

©James Oatway / Panos

Cerelac é a marca de cereal infantil mais popular no continente africano. As vendas anuais ultrapassam os 250 milhões de dólares e a Nestlé controla mais de 50% do mercado.

Contactada pela Public Eye, a Nestlé enfatizou sua “abordagem consistente em relação à nutrição para todos os bebês, em todos os lugares”. A empresa explicou que acelerou o lançamento do Cerelac sem adição de açúcar em todo o mundo, inclusive na África. “Até o final de 2025, pretendemos ter introduzido variantes sem adição de açúcar em todos os mercados em que atuamos.”

A Nestlé afirmou que cumpre integralmente as legislações nacionais e que suas diretrizes internas estabelecem um limite para açúcares adicionados bem abaixo do estipulado pela norma internacional da Comissão do Codex Alimentarius da ONU. A Nestlé acrescentou que declara o teor de açúcar de forma transparente, em conformidade com as exigências regulamentares locais. “Não enganamos os consumidores.”

“Marketing disfarçado de compaixão”

No entanto, a Nestlé promove agressivamente o Cerelac como “especialmente desenvolvido” para atender às necessidades nutricionais dos bebês, oferecendo “um nível ideal” de vitaminas e minerais para seu crescimento e desenvolvimento adequados. E a empresa direciona suas ações aos pais nas redes sociais e em outros canais online de maneiras que muitas vezes não são reconhecidas como publicidade.

A Nestlé também tem como alvo profissionais de saúde, por exemplo, por meio do Instituto de Nutrição Nestlé. Ela utiliza essa plataforma , cujo objetivo declarado é “compartilhar informações e educação de ponta baseadas na ciência com profissionais de saúde, cientistas e comunidades de nutrição”, para aprimorar sua imagem e ampliar sua influência.

“Observamos taxas incrivelmente altas de marketing da Nestlé, muitas vezes disfarçado de compaixão”, disse Petronell Kruger, da Healthy Living Alliance (HEALA), uma coalizão de organizações da sociedade civil na África do Sul. “Como resultado, para a maioria das pessoas, o Cerelac é um produto saudável e quase farmacêutico.” 

Kruger está indignada com a “decisão flagrantemente racista da Nestlé de alimentar países de baixa renda com alimentos de qualidade inferior”. Sua mensagem para a multinacional suíça é: “Tratem os bebês africanos como vocês tratariam os filhos da sua própria família”.

“Combater a desnutrição”

A Nestlé não hesita em afirmar que seus produtos Cerelac, enriquecidos com vitaminas e minerais, são essenciais para “ajudar a combater a desnutrição”, especialmente na África, onde “milhões de crianças são afetadas por deficiências de micronutrientes”.

Na Costa do Marfim, a associação de consumidores (AIC) condena essa “marketing enganosa” da Nestlé, que “coloca em risco a saúde das crianças mais novas”. A associação se diz “indignada” com o fato de os produtos Cerelac vendidos na Costa do Marfim conterem mais de 6 gramas de açúcar adicionado por porção, enquanto produtos similares na Europa não contêm açúcar adicionado.

©James Oatway / Panos

“Essas descobertas refletem a continuidade do longo histórico da Nestlé de descaso corporativo com a saúde de bebês na África em busca de lucro”, afirmou Sara Jewett, professora da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul.

Sara Jewett, professora da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, também não está convencida pelos argumentos de marketing da Nestlé: “Embora a fortificação deva continuar fazendo parte da resposta de saúde pública à desnutrição, precisamos analisar os produtos como um todo para determinar seu valor social.” 

“Quando o enriquecimento é combinado com açúcares viciantes e prejudiciais, o equilíbrio parece estar errado.” Para ela, as descobertas destacadas pela Public Eye “refletem uma continuidade do longo histórico da Nestlé de descaso corporativo com a saúde de bebês na África em busca do lucro”.

Estudo sugere que microplásticos impulsionam o acúmulo de placas nas artérias de camundongos machos

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Por Shanon Kelleher para “The New Lede” 

De acordo com um novo estudo, a exposição a minúsculas partículas de plástico presentes no meio ambiente pode acelerar o acúmulo de placas nas artérias de ratos machos, uma condição que leva a doenças cardíacas.

O estudo , publicado em 17 de novembro na revista Environment International , constatou aumentos significativos na formação de placas nas artérias de ratos machos expostos a fragmentos de plástico com menos de 5 milímetros de comprimento, chamados microplásticos, em doses semelhantes às que encontrariam no meio ambiente.

Os pesquisadores afirmaram ter encontrado também alterações em tipos de células relacionados e genes ativados ligados ao acúmulo de placas, embora os ratos não tenham desenvolvido obesidade ou colesterol alto, condições associadas à doença.

As ratas não foram afetadas da mesma forma. Os autores sugeriram que o estrogênio pode ter tido um efeito protetor nas ratas do estudo, poupando suas artérias do acúmulo de placas induzido por microplásticos.

“Este estudo enfatiza a importância de limitar a exposição humana às fontes de microplásticos e de implementar abordagens para limitar sua produção”, disse Timothy O’Toole, professor associado de medicina da Universidade de Louisville, que não participou do estudo.

Microplásticos são liberados por inúmeros produtos do dia a dia, incluindo roupas, embalagens e itens plásticos, contaminando alimentos, água e ar em todo o mundo, no que especialistas chamam de crise da poluição plástica. Representantes de países de todo o mundo se reuniram em Genebra, na Suíça, em agosto, para discutir pela sexta vez um tratado para combater a crise, mas não conseguiram chegar a um acordo .

O novo estudo soma-se a um crescente conjunto de pesquisas alarmantes que mostram que os microplásticos estão se acumulando no cérebro , pulmões, rins, articulações, vasos sanguíneos e outras partes do corpo humano. As descobertas vêm na sequência de um relatório de 6 de novembro que constatou que os impactos na saúde humana associados ao uso de plásticos nos EUA podem totalizar US$ 930 bilhões, e de um relatório separado de agosto que alerta que os plásticos são responsáveis ​​por cerca de US$ 1,5 trilhão em custos anuais relacionados à saúde em todo o mundo.

As novas descobertas também ajudam a esclarecer o papel dos microplásticos nas doenças cardíacas, sugerindo que eles estão diretamente envolvidos no início ou na progressão da formação de placas, disse O’Toole. “Embora a presença de microplásticos de vários tipos tenha sido identificada em vasos sanguíneos e corações doentes, e os níveis desses microplásticos tenham sido associados à gravidade da doença e à probabilidade de futuros desfechos adversos, seu envolvimento direto em doenças cardiovasculares era incerto”, afirmou.

Um estudo realizado por O’Toole e sua equipe, publicado em abril de 2024 na revista Circulation Research , descobriu que camundongos machos que receberam água contaminada com poliestireno, um plástico amplamente utilizado, apresentaram maior acúmulo de gordura nas válvulas cardíacas após 20 semanas do que camundongos machos que receberam água normal para beber (o estudo não avaliou camundongos fêmeas).

As conclusões de ambos os estudos abordam “questões justificáveis” levantadas em um artigo de março de 2024 do New England Journal of Medicine (NEJM) “sobre se os microplásticos causam a doença ou são apenas espectadores”, disse Matthew Campen, pesquisador de ciências da saúde da Universidade do Novo México e um dos autores do estudo publicado na Environment International .

O estudo publicado no NEJM comparou os resultados de saúde em mais de 250 pacientes com ou sem microplásticos e partículas ainda menores, chamadas nanoplásticos, em suas artérias. Os pesquisadores descobriram que pacientes com placas na artéria carótida contendo partículas de plástico apresentavam maior risco de ataque cardíaco, acidente vascular cerebral ou morte por qualquer causa após um acompanhamento de quase três anos, em comparação com aqueles em que as partículas não foram detectadas.

“É importante ressaltar que nossos resultados não comprovam causalidade”, escreveram os autores do estudo publicado no NEJM , observando que as descobertas podem ser influenciadas por riscos de outros tipos de exposição ao longo da vida do paciente, bem como por seu estado de saúde e comportamentos.

Imagem em destaque: Zyanya Citlalli via Unsplash .


Fonte: The New Lede

COP30: a COP das “não-decisões”

Quase duas semanas de negociações em Belém não conseguiram produzir um avanço em questões-chave

A presidente da conferência, Corrêa do Lago, durante um intervalo em uma sessão plenária.

O presidente da conferência, Corrêa do Lago, durante um intervalo em uma sessão plenária. Foto: dpa/AP/Andre Penner 
Por Lisa Kuner e Christian Mihatsch, de Belém, para “Neues Deutschland”

Com quase um dia de atraso, o martelo do presidente da COP 30, André Corrêa do Lago, bateu na tarde de sábado na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas em Belém, Brasil: representantes de quase 200 países adotaram uma declaração final que delineia como a comunidade internacional pretende proceder com a política climática no futuro. Entre outras coisas, a declaração pede mais financiamento para adaptação ao aquecimento global, um mecanismo para uma transição energética justa e o fortalecimento dos direitos territoriais indígenas. Segundo observadores, isso não é suficiente para tornar a meta de 1,5 grau novamente alcançável.

Mais impressionante do que esses pequenos sucessos é o que não foi decidido: os culpados pela crise climática, os combustíveis fósseis carvão, petróleo e gás, sequer foram mencionados na principal decisão da COP 30. Um roteiro para a eliminação gradual desses combustíveis, proposto pela ministra do Meio Ambiente do Brasil, Marina Silva, e prometido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não obteve maioria. “As empresas petrolíferas e países exportadores como Arábia Saudita e Rússia impediram a conferência de adotar uma eliminação acelerada do petróleo, gás e carvão”, afirma Martin Kaiser, do Greenpeace. Mais de 80 países, principalmente da Europa, América Latina e pequenos estados insulares, defenderam esse roteiro até o fim, mas encontraram forte resistência de um grupo igualmente grande de países, incluindo Arábia Saudita, Índia, Rússia e China. Mesmo alguns dos países mais pobres do mundo acabaram não apoiando o plano. O ministro do Meio Ambiente da Alemanha, Carsten Schneider (SPD), disse estar “um pouco decepcionado” com a falta de decisões mais ambiciosas.

Contudo, formou-se resistência contra as potências dos combustíveis fósseis: vários países latino-americanos – em particular a Colômbia, com sua dedicada delegada Daniela Durán – continuaram a defender a eliminação gradual dos combustíveis fósseis, mesmo na sessão plenária de encerramento. O mundo precisa finalmente ouvir a ciência e agir, afirmou ela. A Colômbia planeja sediar uma conferência no próximo ano para discutir a eliminação gradual dos combustíveis fósseis. Resta saber se os maiores poluidores estarão presentes.

Em última análise, não houve uma decisão vinculativa para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis, mas uma iniciativa voluntária para acelerar os esforços dos países em matéria de proteção climática foi acordada como o mínimo denominador comum. Isso reafirmou a decisão já tomada dois anos antes na COP 28 em Dubai (Emirados Árabes Unidos): no chamado Consenso dos Emirados Árabes Unidos, os países foram convocados a iniciar a transição para longe dos combustíveis fósseis. Lá, os países também se comprometeram a triplicar a capacidade de energia renovável até 2030, dobrar a taxa anual de melhoria da eficiência energética e reduzir as emissões de metano em 30%.

“Infelizmente, a COP 30 dá continuidade à tendência dos últimos anos e, mais uma vez, alimenta falsas esperanças.”

Instituto Johan Rockström  Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático

Após a aprovação na sessão plenária de encerramento, o presidente da conferência, Corrêa do Lago, tirou o equivalente a um coelho da cartola das profundezas do regimento interno da ONU: como presidente da COP até a COP 31, ele lançou a meta de desenvolver dois roteiros: um sobre combustíveis fósseis e outro sobre desmatamento. Com essa manobra, ele pode garantir que os roteiros façam parte do processo da COP e, ao mesmo tempo, aproveitar os recursos do Secretariado do Clima da ONU em Bonn. A continuidade dessas iniciativas, no entanto, dependerá dos futuros presidentes da COP. Aqui também houve um compromisso um tanto peculiar: Turquia e Austrália discutiram sobre quem deveria sediar a conferência climática do ano seguinte e finalmente concordaram que a conferência climática de 2026 aconteceria na cidade turística turca de Antalya, mas sob a presidência australiana. A COP 32 será então realizada em Addis Abeba, sob a presidência etíope.

O mundo está atualmente lutando para chegar a um acordo e precisa agir muito mais rápido. Eventos climáticos extremos estão se tornando cada vez mais frequentes – no início da conferência climática, fortes chuvas causaram inundações no sul do Brasil, e um tufão provocou muitas mortes no Vietnã e nas Filipinas. Um incêndio no local da conferência climática na quinta-feira teve um desfecho menos grave, felizmente resultando apenas em ferimentos leves em algumas pessoas.

Nos preparativos para a conferência, questionamentos foram levantados repetidamente sobre se a infraestrutura de Belém seria suficiente para um evento dessa magnitude. Devido à escassez de quartos de hotel, alguns participantes tiveram que se hospedar em navios de cruzeiro. O presidente brasileiro Lula escolheu deliberadamente a cidade amazônica para sediar a conferência, a fim de destacar a importância da conservação florestal. No início da conferência, foi lançado um novo fundo, com o objetivo de destinar bilhões de dólares anualmente a países tropicais para a proteção das florestas tropicais. No entanto, resta saber se a quantia arrecadada será suficiente. Os países participantes não conseguiram chegar a um acordo sobre um “roteiro para acabar com o desmatamento”, conforme prometido pelo presidente brasileiro.

A questão central da COP 30, no entanto, foi o financiamento da adaptação às mudanças climáticas. Durante a sessão plenária de encerramento, quase houve uma revolta quando Corrêa do Lago tentou aprovar a decisão sem considerar os comentários da plateia. Isso é permitido se apenas um ou dois países desejarem expressar sua oposição, mas inúmeros países europeus e africanos, bem como, surpreendentemente, quase todos os estados vizinhos do Brasil, se opuseram. A sessão plenária de encerramento foi, portanto, suspensa por um período prolongado, e as regras de procedimento da ONU foram consultadas: estas estipulam que uma resolução é válida assim que o martelo cerimonial do Presidente da COP for utilizado.

Isso significa que os países decidiram triplicar o financiamento para a adaptação às mudanças climáticas sem especificar o ponto de partida. No entanto, permanece incerto quanto financiamento estará realmente disponível em 2025, criticou Sabine Minninger, da organização Bread for the World. Devido à retirada dos EUA de seus compromissos e aos cortes no financiamento para o clima e o desenvolvimento, inclusive por parte da Alemanha, Minninger teme que o financiamento deste ano seja significativamente insuficiente. A especialista em clima da organização de desenvolvimento ligada à Igreja acredita que as decisões relativas à meta global de adaptação estão longe de ser adequadas para proteger efetivamente as populações mais pobres e vulneráveis.

Johan Rockström também se mostra bastante crítico em relação aos resultados. Dez anos após Paris, a COP 30 foi proclamada uma cúpula da “verdade” e da “implementação”, recorda o diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático. No entanto, ele argumenta que os chefes de Estado e de governo não cumpriram essa promessa. A única chance de manter o aquecimento global abaixo de 1,5 grau Celsius, calcula o cientista do sistema terrestre, reside em quebrar a curva de emissões globais até 2026 e, em seguida, reduzir as emissões em pelo menos cinco por cento a cada ano. Isso teria exigido roteiros concretos em Belém para uma eliminação acelerada dos combustíveis fósseis e para a proteção da natureza. Ambos estiveram ausentes, afirma Rockström: “Infelizmente, a COP 30 continua a tendência dos últimos anos e, mais uma vez, alimenta falsas esperanças.”

O que deu a Belém alguma esperança foi, principalmente, o povo: depois de anos de conferências climáticas realizadas em estados autoritários que reprimiam protestos, no Brasil a situação era diferente. Seja em manifestações em barcos, ocupações ou cúpulas paralelas, os ativistas se mostraram ativos, visíveis e criativos. Além disso, a participação de indígenas na conferência climática foi maior do que nunca. Esses esforços se refletem, ao menos em parte, nos resultados: os países conseguiram chegar a um acordo sobre um mecanismo para uma transição energética justa. Segundo a ONG Rede de Ação Climática, isso fortalece significativamente a vinculação dos direitos humanos à proteção climática.


Fonte: Neues Deutschland

Potencial de volatilização do paraquat força EPA a pedir mais informações à Syngenta

PIC_Grupo Syngenta - Sede - Basileia - Suíça

Por Carey Gillam para “The New Lede” 

Novos dados estão aumentando as preocupações regulatórias sobre os potenciais riscos à saúde humana decorrentes do herbicida paraquat, levando a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) a solicitar mais informações aos fabricantes do agrotóxico.

Na semana passada, a EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) divulgou publicamente uma revisão atualizada  do paraquat, que incorpora um novo estudo referente às potenciais “exposições por inalação pós-aplicação” que podem resultar da volatilização do paraquat em campos agrícolas tratados.

A Divisão de Efeitos na Saúde (HED, na sigla em inglês) da EPA afirmou no novo relatório que, após analisar os novos dados, determinou que “há maior incerteza em relação ao potencial de volatilização do paraquat do que se considerava anteriormente”.

O paraquat é um herbicida altamente tóxico, comumente usado por agricultores para eliminar ervas daninhas em plantações antes do plantio, para secar as culturas antes da colheita e para matar ervas daninhas em pastagens e áreas não agrícolas. Mesmo uma quantidade ínfima, se ingerida, pode matar uma pessoa rapidamente , por isso o agrotóxico é de uso restrito a aplicadores licenciados.

No entanto, crescem as preocupações com os efeitos crônicos da exposição ao paraquat, e muitos estudos científicos têm associado a exposição prolongada – por inalação ou outras vias – à doença de Parkinson. Muitos países proibiram o paraquat, e houve apelos por proibições por parte de diversos grupos nos EUA, incluindo vários membros do Congresso.

As preocupações mencionadas em relação à volatilização podem ser significativas, uma vez que a volatilização ocorre quando um agrotóxico se transforma em vapor e é liberado na atmosfera, dispersando-se para além do local de aplicação.

Assim, pessoas que moravam fora da área onde o agrotóxico foi pulverizado poderiam ser afetadas, inalando o vapor do produto.

A agência afirmou que, embora os novos dados mostrem uma pressão de vapor muito maior do que se pensava anteriormente, existem alguns “indicadores contraditórios” que podem atenuar os motivos de preocupação.

Para ajudar a esclarecer a questão, a EPA está solicitando aos fabricantes de paraquat que forneçam dados adicionais sobre a volatilização. Assim que esses novos dados forem recebidos e analisados ​​pela agência, a EPA planeja divulgar uma análise atualizada, informou a agência.

A EPA levantou a questão da volatilização no início deste ano, quando anunciou que estava retirando sua decisão regulatória provisória sobre o paraquat e prorrogando o prazo para a decisão final sobre o novo registro do pesticida. A medida ocorreu após diversas organizações de defesa da saúde contestarem a decisão da EPA de 2021 sobre a revisão provisória do registro, na qual a agência concluiu que havia evidências “insuficientes” que ligassem a exposição ao paraquat à doença de Parkinson.

Os novos dados que causaram preocupação à EPA foram entregues à agência pela Syngenta, fabricante de paraquat de longa data e empresa de propriedade chinesa que atua na fabricação e venda de paraquat em todo o mundo há décadas.

Milhares de pessoas nos Estados Unidos estão processando a Syngenta, alegando que a empresa sabia há muito tempo que o paraquat poderia causar a doença de Parkinson, mas trabalhou para esconder as evidências do risco em vez de alertar os usuários.

A Syngenta sempre sustentou que as evidências que ligam o paraquat à doença de Parkinson são  “fragmentárias” e “inconclusivas ”. No entanto, inúmeros estudos científicos constataram que o paraquat danifica as células cerebrais de maneiras que podem levar ao desenvolvimento da doença de Parkinson.

E muitos dos documentos internos da empresa mostram que ela tinha conhecimento de pesquisas que relacionavam o paraquat à doença de Parkinson décadas atrás.

O The New Lede, em conjunto com  o The Guardian ,  obteve e revelou  muitos desses arquivos internos e mantém  uma biblioteca com alguns dos documentos. Os registros internos da empresa mostram que a Syngenta não só tinha conhecimento das pesquisas que ligavam o paraquat à doença de Parkinson, como também procurou  influenciar secretamente informações científicas  e a opinião pública a respeito dessas ligações.

Imagem em destaque: Material de divulgação da Syngenta


Fonte: The New Lede

90% das gestantes brasileiras consomem ultraprocessados; obesidade afeta três em cada dez adultas

obesidade em gestantesApesar da esperada alta participação de ultraprocessados, houve queda da participação de bebidas adoçadas na dieta das gestantes 

Agência BORI

Uma pesquisa conduzida pela Universidade de Fortaleza (Unifor) e Universidade Federal do Ceará (UFC) observou o aumento da obesidade entre gestantes brasileiras de 2008 a 2022. Entre gestantes adultas, a prevalência passou de 13,3% para 29,9%. Entre adolescentes grávidas, evoluiu de 4,5% para 10,4%. O crescimento médio anual da obesidade nesses dois grupos foi de 5,2% e 5,9%, respectivamente.

Publicado na Revista Epidemiologia e Serviços de Saúde na sexta (21), o estudo também mostra o elevado consumo de ultraprocessados – como biscoitos recheados, salgadinhos e bebidas açucaradas: embora a variação anual tenha sido estável, 90% das gestantes relataram ingerir ao menos um desses produtos no dia anterior ao levantamento de dados, prevalência bem acima da média de 18% verificada entre a população brasileira.

Os pesquisadores realizaram uma análise de série temporal utilizando mais de 6,5 milhões de dados de peso e altura e mais de 319 mil registros de consumo alimentar de gestantes adultas e adolescentes cadastradas do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan). Por limitações metodológicas, não é possível relacionar diretamente o alto consumo de ultraprocessados e o aumento da prevalência da obesidade entre as gestantes. Entretanto, os autores consideram que a tendência pode ser um reflexo do consumo contínuo de ultraprocessados, que são alimentos com excesso de calorias e baixa qualidade nutricional.

O Nordeste foi a região brasileira com maior frequência no consumo de ultraprocessados por gestantes, especialmente adultas. Entre 2015 e 2022, o consumo anual de macarrão instantâneo, salgadinho ou biscoito salgado cresceu 1,8%, enquanto o de biscoito recheado, doces ou guloseimas aumentou 1,6% na região. Entre as gestantes adolescentes, o Nordeste também registrou um crescimento significativo no consumo de hambúrgueres e/ou embutidos, com um aumento de 4,6% ao ano.

Embora a alta participação de ultraprocessados na alimentação de gestantes fosse esperada, o grupo de pesquisa identificou que a variação percentual do consumo de bebidas adoçadas por gestantes adolescentes diminuiu 1% no Brasil entre 2015 e 2022, e 1,6% na região Norte. “A redução deste consumo entre gestantes é um achado inédito em nosso estudo. Tendências semelhantes já vinham sendo observadas na população adulta brasileira, especialmente pela diminuição da presença de refrigerantes nos domicílios”, conta a pesquisadora da UFC Sthefani da Costa Penha, uma das autoras do estudo.

Segundo a autora, essa mudança pode refletir os efeitos de políticas públicas e ações de educação alimentar e nutricional implementadas nos últimos anos, como a publicação da segunda edição do Guia Alimentar para a População Brasileira, em 2014, e os seus fascículos complementares.

Para a equipe, a identificação da elevada e estável prevalência de ultraprocessados na dieta e o aumento da obesidade ressaltam a necessidade de ações de vigilância alimentar e nutricional, estratégias de prevenção e programas de educação alimentar e nutricional. “Investir na qualificação e ampliação da cobertura desses registros é essencial para que se possa avançar na promoção da alimentação adequada e no cuidado nutricional das gestantes”, conclui Sthefani Costa.


Fonte: Agência Bori