Entrevista ao Portal Viu sobre a situação do PCV da UENF

Concedi uma entrevista hoje ao jornalista Roberto Barbosa, âncora do programa jornalístico matinal do Portal Viu, onde tratou-se da situação do novo Plano de Cargos e Vencimentos da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) cuja trâmite se encontra virtualmente paralisado após mais de 4 anos de espera.

A entrevista abordou uma série de problemas enfrentados pelos professores da Uenf não apenas em relação a salários defasados, mas também à perda de direitos que foram retirados pelas seguintes reformas realizadas nas carreiras públicas.  Dentre direitos retirados dos novos professores estão o pagamento de triênios e a concessão de licenças por tempo de trabalho.  

Veja abaixo a íntegra dessa entrevista.

Indígenas Munduruku protestam em frente à Blue Zone na COP30 e cobram reunião urgente com Lula

Povos exigem revogação do Decreto 12.600/2025, cancelamento da Ferrogrão e proteção contra grandes empreendimentos dentro do território

Membros do movimento indígena Munduruku Ipereg Ayu aguardam do lado de fora do local da COP30 durante um protesto em Belém, Brasil, em 14 de novembro de 2025

Membros do movimento indígena Munduruku Ipereg Ayu aguardam do lado de fora do local da COP30 durante um protesto em Belém, Brasil, em 14 de novembro de 2025 (AFP/AFP)

Belém (PA), 14 de novembro de 2025 — Na manhã desta sexta-feira (14), indígenas do povo Munduruku, articulados pelo Movimento Ipereg Ayu, realizaram um ato em frente à entrada da Blue Zone da COP30 para cobrar uma reunião emergencial com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O grupo denuncia que o governo federal está avançando com projetos de infraestrutura que ameaçam diretamente o território Munduruku, bem como todos os povos da bacia do Tapajós e Xingu — sem consulta prévia, livre e informada, como determina a Convenção 169 da OIT.

Além dos megaempreendimentos, os Munduruku também protestam contra projetos de crédito de carbono e mecanismos de REDD+ jurisdicional que vêm sendo discutidos no âmbito da COP30 e em negociações governamentais. Para o movimento, tais iniciativas representam formas de “venda da floresta” que retiram autonomia dos povos, permitem a entrada de empresas e intermediários nos territórios e não enfrentam a raiz dos problemas climáticos: o desmatamento industrial, o garimpo, as hidrovias e a expansão da soja.

O principal alvo da manifestação é o Decreto nº 12.600/2025, que instituiu o Plano Nacional de Hidrovias e incluiu o Tapajós, o Madeira e o Tocantins como eixos prioritários para navegação de cargas. Para os Munduruku, o decreto “abre a porteira” para novas dragagens, derrocamento de pedrais sagrados e expansão acelerada de portos privados. “Esse decreto ameaça exterminar nosso modo de vida, porque transforma o rio em estrada de soja. Presidente Lula, o senhor precisa ouvir o nosso povo antes de decidir sobre nosso futuro”, afirma liderança do Movimento Ipereg Ayu.

Dados dos estudos do Inesc mostram que o corredor Tapajós–Arco Norte é hoje um dos principais vetores de avanço do agronegócio sobre a Amazônia. Entre 2010 e 2022, 68% de todo investimento federal em infraestrutura na região foi destinado a corredores de exportação, incluindo BR-163, Terminais de Itaituba/Miritituba e projetos de hidrovias no Tapajós. Em 2023, 47% das exportações de soja do Brasil já saíam pelos portos do Arco Norte — antes, eram 16% em 2010.

Na prática, isso tem efeito direto no território Munduruku. O Inesc e organizações parceiras apontam que:

 • A movimentação de cargas e adubos nas hidrovias do Tapajós explodiu: 167 mil toneladas em 2022, contra apenas 4 mil toneladas em 2019, um salto de mais de 4.000%.

• O crescimento dos portos e barcaças reduz pesca, contamina água e restringe circulação de comunidades ribeirinhas — impactos já denunciados por aldeias Munduruku ao longo dos rios Tapajós e Teles Pires.

• Dragagens emergenciais recentes no Tapajós, feitas sem consulta, mobilizaram sedimentos contaminados e afetaram igarapés usados por aldeias para pesca e navegação.

“Tudo isso acontece sem o Estado nos ouvir. Querem destruir o fundo do rio, querem explodir nossos pedrais sagrados, querem lotar o Tapajós de barcaças para levar soja para fora do Brasil. Quem mora aqui somos nós, não as empresas”, disse uma liderança Munduruku.

O movimento também cobra o cancelamento definitivo da Ferrogrão (EF-170) — projeto planejado para transportar soja desde Sinop (MT) até Miritituba (PA), onde as barcaças seguem pelo Tapajós. Segundo estudos do Ministério dos Transportes, a ferrovia pode multiplicar por seis o volume de grãos enviados pelo rio até 2049. Para os Munduruku, isso significará:

 • Mais portos próximos às aldeias (Miritituba, Itaituba e Trairão já concentram projetos em série);

 • Mais dragagens e risco de explosão de pedrais sagrados;

 • Expansão da soja sobre a borda das terras indígenas e aumento de conflitos fundiários;

 • Contaminação da água e dos peixes por agrotóxicos.

Os Munduruku também cobram do governo federal a aceleração da demarcação das terras indígenas, dos processos parados no Ministério da Justiça e na Casa Civil, e responsabilizam o Estado por conflitos que aumentaram com o avanço da soja.

“Presidente Lula, estamos aqui na frente da COP porque queremos que o senhor nos escute. Não aceitamos ser sacrificados para o agronegócio. Revogue o Decreto 12.600. Cancele a Ferrogrão. Demarque nossas terras. Fora crédito de carbono — nossa floresta não está à venda. Quem protege o clima somos nós, e a Amazônia não pode continuar sendo destruída para enriquecer grandes empresas”, finaliza.

Mostra agrícola da COP30 é patrocinada pelo agronegócio ligado ao desmatamento e ao lobby anti-conservacionismo

O pavilhão “Agrizone” será patrocinado por gigantes multinacionais de agrotóxicos e lobistas do agronegócio brasileiro, aos quais foram oferecidos “visibilidade” e “ganho de imagem”

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, na Plenária Geral de Líderes da COP30 em Belém, Brasil, em 6 de novembro de 2025. A agência governamental brasileira de agricultura está sediando a Agrizone. Foto: Pablo Porciuncula / AFP via Getty Images

Por Naira Hofmeister e Lucy Jordan para o “Unearthed” 

Entre os patrocinadores do pavilhão da agricultura sustentável na COP30, a cúpula climática deste ano no Brasil, estará a gigante de pesticidas e sementes Bayer , que, segundo ativistas sul-americanos, promove um modelo de agricultura industrial que está impulsionando o “desmatamento em massa ” no continente 

A Bayer pagará pelo menos R$ 1 milhão (£ 142.000) pelo patrocínio diamante ” do pavilhão “Agrizone”. Organizada pela Embrapa, a Agrizone sinaliza a influência do agronegócio no Brasil e sua determinação em se apresentar como sustentável, apesar das altas emissões do setor e de seus comprovados vínculos com o desmatamento .   

A Bayer enfrenta uma denúncia em andamento na OCDE por parte de grupos do Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia, que a acusam de promover um modelo agrícola na América do Sul que impulsiona o desmatamento , a perda de biodiversidade e conflitos com comunidades indígenas . 

multinacional alemã é uma das principais empresas do mercado sul-americano de sementes geneticamente modificadas e pesticidas relacionados, utilizados no cultivo de soja.

“Essa monocultura exige o desmatamento de grandes áreas de terra em países que enfrentam enormes conflitos de posse de terras. A Bayer está realmente promovendo um modelo de agronegócio e uma fronteira da soja que impacta negativamente os direitos humanos e ambientais”, disse Cristina Hernandez Hurtado, Assessora Jurídica Sênior do Centro Europeu para os Direitos Constitucionais e Humanos (ECCHR), uma das organizações que apresentaram a queixa à OCDE

A placa da Embrapa pode ser vista na Agrizone, um pavilhão dedicado à agricultura sustentável, na COP30 em Belém, em 7 de novembro de 2025. © Hyury Potter / Unearthed

“A Bayer tem tentado se posicionar como sustentável, e vemos sua participação na COP em uma escala tão grande como um grande esforço para apresentar essa imagem ao mundo todo”, acrescentou ela. “Somos céticos em relação a essa mensagem.” 

Qualquer pessoa pode apresentar uma queixa aos Pontos de Contato Nacionais da OCDE sobre supostas violações de direitos humanos por parte de empresas. A OCDE não tem o poder de impor sanções, mas pode iniciar um processo de mediação entre os reclamantes e a empresa .

Outros patrocinadores do pavilhão Agrizone incluem a Senar braço da principal associação do agronegócio brasileiro, a CNA , e a UPL fabricante indiana de agrotóxicos que fornece ao Brasil produtos contendo substâncias químicas proibidas na União Europeia. Essas substâncias químicas ainda podem ser legalmente vendidas por empresas europeias ao Brasil. 

Juntos, esses patrocinadores pagaram pelo menos R$ 4,4 milhões (£ 625.000) por exposição da marca, salas de negociação privadas, direito de sediar eventos e espaços para discursos em debates sobre o clima .

Um rascunho de contrato obtido pela Unearthed por meio de um pedido de acesso à informação promete aos patrocinadores “visibilidade” e “ganho de imagem” por sua “associação com empresas comprometidas com as mudanças necessárias para enfrentar… as mudanças climáticas” .

O presidente Lula faz sinal de positivo ao lado de chefes de Estado e representantes na Cúpula de Líderes, antes da COP30, a conferência climática da ONU, em Belém, Pará, Brasil. Foto: Mauro Pimentel /AFP via Getty Images

Brice Böhmer, do grupo de campanha Transparência Internacional, alertou que os anfitriões da COP30 deveriam ser “cautelosos com o acesso privilegiado que às vezes é concedido às empresas”, já que, por vezes, existe “uma discrepância entre a forma como as empresas se apresentam” e o trabalho que realizam para “promover soluções que sejam do seu próprio interesse… a portas fechadas”.

O ministro da Agricultura do Brasil, Carlos Favaro, deverá trabalhar na Agrizone durante a cúpula O ministério não respondeu ao pedido de comentário 

Böhmer defendeu uma política de conflito de interesses para regular a visibilidade e o acesso concedidos às empresas nas cúpulas da COP.

“As cúpulas climáticas da ONU estão se tornando plataformas para ações climáticas genuínas ou para desinformação e influência indevida da indústria?”, questionou. “Para que as COPs impulsionem ações climáticas reais, não deve haver espaço para aqueles que fazem lobby contra seus objetivos .”   

Um porta-voz da Bayer afirmou que “Combater as mudanças climáticas exige esforços coletivos em toda a cadeia produtiva… Na COP, portanto, participaremos de discussões sobre soluções baseadas na ciência para o combate às mudanças climáticas.” 

Agrotóxicos são pulverizados em uma plantação de soja recém-semeada no Mato Grosso, principal estado produtor de soja do Brasil. A Bayer é atualmente alvo de uma denúncia à OCDE devido aos impactos de suas atividades com soja e agrotóxicos. Foto: Lucas Ninno / Getty Images

Em julho de 2024, a Bayer respondeu formalmente à queixa da OCDE, detalhando a situação e afirmando que a empresa levava “muito a sério todas as informações sobre potenciais impactos adversos aos direitos humanos e ao meio ambiente”, mas que, com base em sua própria pesquisa e nas informações fornecidas pelos reclamantes, “não foi possível identificar qualquer ligação entre os impactos adversos e os negócios da Bayer”.

Em comunicado, a Embrapa afirmou que, como instituição pública de pesquisa e inovação, “baseia suas ações e todos os seus relacionamentos na ética, na transparência e em um compromisso inabalável com a legislação ambiental e de direitos humanos no Brasil e no mundo”.

Acrescentou ainda que rejeita práticas que tenham sido “comprovadamente” constituídas de desflorestação ilegal, utilização indevida de pesticidas ou violação dos direitos dos povos indígenas e das comunidades tradicionais.

A Embrapa tem feito campanha recentemente para que o Brasil adote o GWP* , uma nova métrica para medir o impacto climático do metano, um gás de efeito estufa, que visa levar em consideração o fato de o metano se decompor rapidamente na atmosfera. Os críticos argumentam que a adoção desse padrão permitiria que grandes emissores, como a pecuária, mascarassem sua contribuição para o aquecimento global.

A expansão das fazendas de gado é a principal causa do desmatamento na Amazônia brasileira, e a pecuária é uma fonte significativa de metano. A Embrapa, anfitriã do Agrizone, recentemente fez campanha para que o Brasil adote o GWP* (Potencial de Aquecimento Global) para medir o impacto climático do metano. © Getty Images

Hannah Daly, professora de Energia Sustentável na University College Cork, afirmou que se o Brasil, o maior exportador de carne bovina do mundo, adotasse o GWP*, isso criaria um “precedente desastroso”.  

Ela acrescentou que a Embrapa estava promovendo “uma métrica que permitiria ao enorme setor pecuário brasileiro reivindicar a “neutralidade climática”, mantendo, ao mesmo tempo, altas emissões de metano”.

A Embrapa afirmou que “as discussões sobre os SLCPs [poluentes climáticos de vida curta] devem continuar sendo tema de encontros científicos antes de serem adotadas ou abandonadas. A Embrapa considera que a divergência e o debate são partes fundamentais do desenvolvimento científico e devem ser baseados em argumentos fundamentados em evidências científicas.”

Desmatamento e conflitos fundiários

A Bayer é uma força dominante no mercado sul-americano de sementes de soja geneticamente modificadas e dos herbicidas utilizados nelas. 

O desenvolvimento de sementes resistentes a herbicidas transformou a indústria da soja no Brasil, onde, segundo relatos, até 98% da safra é geneticamente modificada. A expansão do cultivo da soja consumiu vastas extensões de terra impulsionando o desmatamento e conflitos fundiários nas fronteiras da Amazônia e do Cerrado. 

“Essa remoção muitas vezes está ligada a despejos forçados ou à invasão de comunidades indígenas e camponesas ” disse Cristina Hernandez Hurtado à Unearthed . 

As terras indígenas Guasu Guavirá, no oeste do Paraná, estão em disputa – lar de aldeias indígenas, mas reivindicadas por agricultores cujos campos de soja as cercam 

A soja é irrigada no Mato Grosso, onde a cultura é cultivada em vastas extensões de terra que antes eram florestadas. © Matt Mawson / Getty Images

“Não temos liberdade. E muitas comunidades fazem fronteira com terras agrícolas. Então, os agrotóxicos são pulverizados a 5 metros, a 10 metros das casas dos Guarani”, disse Ilson Soares, líder da aldeia Yvy Okaju da terra Guasu Guavirá. 

Ele acrescentou que os agricultores, por vezes, usaram pesticidas contra os povos indígenas como uma “arma química”. 

“Os agrotóxicos também causam ansiedade, tristeza”, disse uma líder indígena da região de Guasu Guavira, que pediu anonimato para evitar ameaças.   Ela acrescentou: “Quando se trata de pesticidas e de plantações de soja, nada é sustentável”.

O Brasil é atualmente o maior produtor mundial de soja, com uma produção estimada em 169,5 milhões de toneladas em 2024-25. O Reino Unido importou £243 milhões em soja do Brasil em 2024 , mais do que de qualquer outro país principalmente para alimentação animal . 

A denúncia da OCDE contra a Bayer também cita impactos na Bolívia, onde, segundo ela, a soja geneticamente modificada agora utiliza cerca de 50% das terras cultivadas cerca de 436.000 hectares de floresta foram desmatados para o cultivo de soja entre 2011 e 2022 

A Bayer não respondeu diretamente às perguntas da Unearthed relacionadas às alegações da denúncia da OCDE, mas afirmou que “a Bayer historicamente fez da sustentabilidade um de seus principais pilares estratégicos e contribui globalmente com soluções e iniciativas inovadoras relacionadas à agricultura, saúde, transição energética e sistemas alimentares sustentáveis”.

Hurtado, do ECCHR, disse que o escritório nacional da OCDE na Alemanha deve decidir em breve se irá mediar a queixa.  

A UPL, fabricante indiana de agrotóxicos, também patrocinará a Agrizone. A UPL pagou R$ 900.000 (£ 125.000), garantindo diversos espaços de marca e um estande de 300 m² A partir de 2023, a UPL foi autorizada a vender 136  agrotóxicos no Brasil contendo substâncias proibidas na União Europeia devido a preocupações com a saúde humana ou o meio ambiente .

A UPL não respondeu ao pedido de comentário. 

Lobistas anti-conservacionistas

A Senar, patrocinadora da Agrizone, é o braço educacional da CNA, a maior associação de agronegócio do Brasil. A Senar pagou R$ 2,5 milhões (cerca de £ 360 mil) pelo “patrocínio master”, o nível mais alto Recentemente,a CNA apoiou o chamado “projeto de lei da devastação” do Brasil, um pacote de reformas legais condenado por grupos ambientalistas por supostamente afrouxar o licenciamento ambiental. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, afirmou que o projeto, em sua versão original, prejudicaria a promessa do país de eliminar o desmatamento até 2030. Em contrapartida, a CNA apoiou publicamente o projeto, argumentando que ele reduziria a burocracia. 

Gado é visto perto de uma área recentemente desmatada na Amazônia. A CNA tem feito lobby contra a legislação da UE destinada a impedir a importação de carne bovina, soja e outras commodities provenientes de terras desmatadas. © Victor Moriyama / Amazônia em Chamas

A CNA também liderou os esforços para revogar a Moratória da Soja na Amazônia, um acordo histórico para bloquear a venda de soja ligada ao desmatamento . Em fevereiro, a CNA apresentou uma denúncia ao Departamento de Execução de Armas de Defesa Econômica (CADE), alegando que a moratória era “ilegal”. 

O CADE deu um passo preliminar para suspender a ASM , mas um tribunal federal reverteu essa decisão; uma decisão final está pendente. Estudos demonstraram que a moratória reduziu significativamente o desmatamento na Amazônia. 

A CNA também fez lobby contra a legislação EUDR, que proíbe a importação pela UE de produtos provenientes de terras desmatadas, classificando-a como uma “ restrição comercial significativa ”. 

A CNA não respondeu ao pedido de comentário. A Embrapa afirmou que, embora a Senar seja uma entidade privada, possui “fortes laços e objetivos públicos, já que atua principalmente em formação profissional, assistência social e promoção da qualidade de vida dos trabalhadores. Portanto, são atores relevantes no ecossistema de inovação da agricultura e da agricultura familiar, visto que desempenham uma importante função social que complementa a da Embrapa”.

Negação e desinformação sobre as mudanças climáticas 

Em julho, os organizadores da COP30 prometeram combater a desinformação. Mas dois dos patrocinadores da Agrizone foram recentemente associados à negação das mudanças climáticas.

A Bayer patrocina o Agro Bar, um podcast focado no agronegócio, que em 2023 entrevistou o notório negacionista brasileiro das mudanças climáticas, Luiz Carlos Molion . No episódio, Molion afirmou que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) é responsável por “terrorismo climático ” Ele descarta o CO2 como um fator climático significativo, chamando-o de um “gás da vida ” vital, com um efeito atmosférico tão pequeno que é imperceptível . 

Membros da Academia Brasileira de Ciências refutaram publicamente as teorias de Molion .

Um porta-voz do podcast Agro Bar afirmou que o objetivo era “ampliar o debate e trazer diferentes vozes e pontos de vista sobre questões que impactam o agronegócio e a sociedade” e que “a Bayer não teve qualquer envolvimento na pauta, na escolha do entrevistado ou na produção do episódio em questão”. 

Durante o episódio, os apresentadores não contestaram nenhuma das opiniões de Molion. 

“A ausência de questionamentos imediatos aos convidados, ou de reações humorísticas em momentos específicos, são características do formato de debate livre e não implicam a promoção de falsidades ou desinformação”, disse o porta-voz.

Molion também tem ministrado palestras regularmente em eventos organizados pela Senar, patrocinadora do Agrizone, onde é apresentado como “o maior especialista em clima do Brasil”. Em uma palestra da Senar em 2023, Molion afirmou que a chuva na Amazônia “não tem absolutamente nenhuma influência sobre o resto do país” e que o desmatamento não tem impacto no clima global. 

Molion não respondeu ao pedido de comentário.

A Bayer não comentou a participação de Molion no Agrobar e continua patrocinando o podcast. 

Outro convidado frequente das conferências da CNA/Senar , o ex-cientista da Embrapa Evaristo de Miranda , foi acusado de liderar um grupo de pesquisadores que intencionalmente produziu controvérsias falsas que impactaram seriamente a conservação ambiental, particularmente em questões relacionadas ao desmatamento e às mudanças climáticas”.  

As afirmações de Miranda, feitas por meio de relatórios, apresentações e artigos de jornal, incluíam a de que as proteções ambientais do Brasil são as mais fortes do mundo, que as leis de conservação dificultam o desenvolvimento e que a preocupação com o desmatamento da Amazônia é infundada.

Miranda não respondeu ao pedido de comentário. 

O professor Klaus Jensen , da Universidade de Copenhague, co-liderou uma revisão sistemática de 300 artigos científicos sobre desinformação climática. Ele disse à Unearthed que a iniciativa do governo brasileiro de combater a desinformação era importante, mas que: “a inclusão de patrocinadores que anteriormente e continuamente apoiaram vozes negacionistas e contrárias em relação às mudanças climáticas coloca em questão o valor deste componente da COP30”.


Fonte: Unearthed

Lobistas de combustíveis fósseis superam todas as delegações da COP30, exceto o Brasil, diz relatório

Um em cada 25 participantes da cúpula climática da ONU de 2025 é um lobista de combustíveis fósseis, de acordo com Kick Big Polluters Out

gás queimando no ar com avião voando no céu

Lawrenceburg, Indiana, em 13 de novembro de 2025. Fotografia: Jason Whitman / NurPhoto / Shutterstock

Nina Lakhani, climate justice reporter, para o “The Guardian”  

Mais de 1.600 lobistas de combustíveis fósseis tiveram acesso às negociações climáticas da Cop30 em Belém, superando significativamente a delegação de todos os países, exceto o Brasil, segundo uma nova análise.

Um em cada 25 participantes da cúpula climática da ONU deste ano é um lobista de combustíveis fósseis, de acordo com a análise da coalizão Kick Big Polluters Out (KBPO), levantando sérias questões sobre a captura corporativa e a credibilidade das negociações anuais da Cop.

A contagem deste ano representa um aumento de 12% em relação às negociações climáticas do ano passado em Baku, no Azerbaijão, e é a maior concentração de lobistas de combustíveis fósseis na Cop desde que a KBPO começou a expor a participação da indústria em 2021. O número total é menor este ano do que na Cop29 em Baku (1.773) e na Cop28 em Dubai (2.456), mas a proporção é maior este ano, já que a cúpula de Belém é menos frequentada.

Isso eleva o número total de lobistas de combustíveis fósseis que tiveram acesso às cúpulas climáticas da ONU para 7.000 nos últimos cinco anos, um período marcado por um aumento no clima extremo catastrófico, desinformação e lucros de petróleo e gás.

“Outro policial, mesmo manual. Isso é captura corporativa, não governança climática”, disse Lien Vandamme, ativista sênior de direitos humanos e mudanças climáticas do Centro de Direito Ambiental Internacional (CIEL).

As negociações climáticas anuais começaram em Belém na segunda-feira, com o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, negando a desinformação e declarando que seria o “Cop da verdade”.

No entanto, a indústria de combustíveis fósseis, que tem uma longa história de espalhar desinformação e desinformação enquanto bloqueia ações climáticas significativas, recebeu quase 60% mais passes para a Cop30 do que as 10 nações mais vulneráveis ao clima juntas (1.061), de acordo com a análise da KBPO, uma coalizão internacional de 450 organizações.

O colapso climático está aumentando. No período que antecedeu a COP30, centenas de pessoas morreram depois que dois poderosos tufões causaram estragos com menos de uma semana de intervalo nas Filipinas – um país que foi atingido por 21 tempestades significativas somente este ano. Os lobistas afiliados aos combustíveis fósseis superam os delegados oficiais das Filipinas em quase 50 para 1, e do Irã, onde uma seca severa pode forçar o governo a evacuar a capital Teerã, por 44 para 1.

Enquanto isso, espera-se que custe à Jamaica bilhões de dólares e anos para se recuperar do furacão Melissa, uma tempestade de categoria 5 turbinada pelo aquecimento global, mas os lobistas dos combustíveis fósseis superaram a delegação da nação insular em 40 para 1.

Em julho, a Corte Internacional de Justiça (CIJ) decidiu que a expansão, a extração, o consumo e os subsídios contínuos de combustíveis fósseis podem constituir um ato internacionalmente ilícito.

“Após a opinião consultiva da CIJ e o manual de seis décadas de obstrução climática, os Estados da Cop devem reconhecer o conflito de interesses irreconciliável da indústria de combustíveis fósseis – que é semelhante à indústria do tabaco”, disse Elisa Morgera, relatora especial da ONU para mudanças climáticas que apóia a proibição global do lobby de combustíveis fósseis.

As descobertas surgem no momento em que 2025 deve se tornar um dos anos mais quentes já registrados, mas os estados não estão regulando as empresas poluidoras e cortando subsídios, com quase US$ 250 bilhões destinados a novos projetos de petróleo e gás desde a COP29.

“Dos corredores da UNFCCC às nossas terras e territórios, as corporações de combustíveis fósseis estão destruindo nossas comunidades e meio ambiente. No entanto, o tapete vermelho está estendido para milhares de lobistas percorrerem os corredores”, disse Nerisha Baldevu, da Friends of the Earth Africa.

As últimas descobertas aumentarão ainda mais a pressão sobre a ONU para banir a indústria de combustíveis fósseis das cúpulas anuais de ação climática, onde os líderes mundiais devem negociar de boa fé e concordar com planos ambiciosos para reduzir a catástrofe climática.

Na semana passada, o The Guardian revelou que 57% de toda a produção de petróleo e gás no ano passado veio de 90 empresas de combustíveis fósseis que enviaram um número substancial de lobistas para as negociações climáticas da ONU de 2021 a 2024.

Uma investigação recente da Drilled Media revelou que as empresas petrolíferas, com a ajuda do governo dos EUA, cooptaram pela primeira vez o cenário climático internacional no início dos anos 1970, influenciando a eventual elaboração da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) em 1992, e todas as conferências das partes (Cop) dessa convenção desde então.

A KBPO analisou a lista provisória de participantes da Cop30 publicada pela UNFCCC, identificando delegados que representam empresas de petróleo, gás e carvão, grupos comerciais, instituições financeiras e outros que financiam ou se beneficiam financeiramente da obstrução da ação climática para eliminar gradualmente os combustíveis que aquecem o planeta.

Os 1.602 lobistas de combustíveis fósseis identificados incluem 148 da Câmara de Comércio Internacional (ICC); 60 com a International Emissions Trading Association (Ieta), incluindo delegados das gigantes do petróleo e gás ExxonMobil, BP e TotalEnergies; e 41 com a Confederação Nacional da Indústria (BNCI).

Vários grandes poluidores do norte global convidaram representantes de combustíveis fósseis para se juntarem às suas delegações oficiais, incluindo a França, que trouxe 22 delegados da indústria, incluindo o CEO da TotalEnergies, e a Noruega, cujo grupo incluía seis executivos seniores de sua gigante nacional de petróleo e gás Equinor.

No geral, apenas o Brasil, com 3.805 delegados, tem uma presença maior do que os interesses de petróleo, gás e carvão.

Mas a verdadeira extensão da influência dos combustíveis fósseis provavelmente será maior, já que mais da metade de todos os membros da delegação dos países na Cop30 retiveram ou ocultaram detalhes de suas afiliações, de acordo com uma análise separada da Transparência Internacional. Rússia, Tanzânia, África do Sul e México estão entre os países que não divulgaram a afiliação de nenhum delegado oficial.

Após anos de campanha de grupos da sociedade civil, os delegados da Cop foram obrigados este ano a divulgar publicamente quem estava financiando sua participação – e confirmar que seus objetivos estavam alinhados com a UNFCCC. Mas o novo requisito de transparência exclui qualquer pessoa em delegações oficiais do governo ou transbordamentos; Além disso, os pedidos de proteções mais rígidas contra conflitos de interesse para reduzir a influência da indústria não foram adequadamente atendidos, dizem os defensores.

“Enquanto os povos indígenas locais lutavam para entrar na conferência, os lobistas dos combustíveis fósseis entraram livremente. Minha geração merece políticas de Transição Justa que reflitam o que as pessoas e o planeta precisam, não o que os lucros dos poluidores exigem”, disse Pim Sullivan-Tailyour, da Coalizão Climática da Juventude do Reino Unido. “A UNFCCC precisa de reabilitação.”

“As empresas de combustíveis fósseis continuam a nos levar a um abismo climático. [No entanto] por 30 anos, as cúpulas sobre mudanças climáticas têm sido um palco ideal para as empresas petrolíferas limparem sua imagem, fazerem negócios e encontrarem novas maneiras de se safar de crimes ambientais”, disse Ivonne Yanez, da Acción Ecológica, um grupo ambiental sem fins lucrativos no Equador, onde a perfuração de petróleo está se expandindo em toda a Amazônia.

“Hoje, em vez de fazer a transição para sociedades pós-petróleo, eles querem extrair até a última gota de combustíveis fósseis para continuar alimentando o sistema capitalista e as guerras genocidas.”

Um porta-voz da UNFCCC disse: “A partir de 2023, foram tomadas medidas para aumentar a transparência para que fique mais claro quem participa da COP. Fizemos isso em consulta com a sociedade civil e outras partes interessadas. Assim como não se pode esperar que nenhum policial resolva a crise climática da noite para o dia, fazer mais melhorias concretas é uma jornada contínua, observando que os governos nacionais têm autoridade exclusiva para decidir quem está em suas delegações.

Ieta e o BNCI se recusaram a comentar. O ICC foi contatado para comentar.


Fonte: The Guardian

O hub ferro metálico do Porto do Açu em tempos de colapso climático: ávido consumidor de H20 e grande emissor de CO2

Uma audiência pública que varou a noite, mas pouco explicou

Na noite de ontem foi realizada uma longuíssima audiência pública no Grussai Praia Clube para apresentar os estudos de impacto ambiental do chamado “hub ferro metálico” que deverá ser construído no Porto do Açu. Não estive presente pessoalmente, mas recebi dezenas de imagens do evento, incluindo a maioria dos slides onde foram apresentados os principais impactos que mais este empreendimento instalado em terras expropriadas de agricultores familiares que até hoje esperam pelo ressarcimento que lhes é devido.

Das muitas imagens que me foram enviadas, selecionei as que se refere a três elementos que considero importantes: o consumo de água, as emissões de CO2 e o impacto sobre as localidades no entorno imediato do “hub ferro metálico”.  Quando colocados em unidades que são mais intelegíveis para o cidadão comum, todos esses elementos ganham caras impressionantes.

Mas antes de me deter na análise dos números, tenho que lembrar que esse hub é uma pálida consumação das duas siderúrgicas que foram anunciadas por Eike Batista.  A produção de ferro metálico, por mais impactante que seja social e ambientalmente, não é nada mais do que um processo de redução do ferro à sua forma metálica pura, a qual é inexistente na natureza.  Assim, a produção de ferro metálico não passa de um beneficiamento primário que adiciona mais valor ao ferro, mas com custos altíssimos para o ambiente e a população que reside nas áreas de entorno.

Dito isso, vamos ao anunciado consumo de água nas diferentes fases do processo de produção do ferro metálico que seria de 2.934 metros cúbicos por hora (ver imagem abaixo).

Como a maioria das pessoas consegue entender bem consumo de água em litros, fiz essa conversão para a escala de um dia, e cheguei ao consumo de aproximadamente 70 milhões de litros de água por dia, o que daria um consumo anual de 25,5 bilhões de litros de água.  Para que se tenha ideia do que isso significa só é preciso dizer que essa quantidade de litros abasteceria uma cidade com população de 475 mil habitantes.

Um detalhe não menos importante é que quase um terço dessa água seria obtida de aquíferos, o que implicaria em uma descarga desses corpos hídricos subterrâneos. Um problema imediato seria a penetração de águas ocêanicas para o interior dos aquíferos, o que implicaria em um novo processo de salinização na região do Porto do Açu.

Mas pelo menos agora se pode começar a entender o porquê do Porto do Açu ter uma outorga para o consumo de incríveis 142 bilhões de litros de água anualmente.

O hub como emissor de CO2

Outro impacto direto da construção do hub ferro metálico seria a ocorrência de uma grande elevação na emissão de CO2 pelo Porto do Açu.  Levando em conta apenas os insumos envolvidos em uma produção estimada de 10 milhões de toneladas anuais, as estimativas de emissões de CO2 serão bastante consideráveis (ver figura abaixo).

Se considerarmos o consumo de 9 milhões de m³ de gás natural por ano somados a 18 milhões de metros cúbicos de hidrogênio e a 15 milhões de toneladas anuais de minério de ferro, a conta é assombrosa. Senão vejamos:  apenas o consumo de 9 milhões de m³ de gás natural por ano resulta em uma emissão estimada de cerca de 17 mil toneladas de CO₂ (ou 17,1 kt CO₂) para a atmosfera. E dependendo do tipo de hidrogênio que for usado, as emissões poderão variar de 0 toneladas anuais (se o hidrogênio usado for “verde”), passando para 3,3 milhões de toneladas de CO₂/ano (se for o hidrogênio usado for “azul”), e podendo alcançar 65,7 milhões de toneladas de CO₂/ano (se o hidrogênio usado for “cinza). Já o consumo de 15 milhões de toneladas de ferro/ano gera algo entre 4,5 e 34,5 milhões de toneladas de CO₂, dependendo da rota tecnológica. Em outras palavras, o hub ferro metálico do Porto do Açu tem o potencial de se tornar um grande emissor de CO2, totalizando um valor máximo estimado de 117.2 milhões de toneladas anuais.  E tome aquecimento global!

Curiosamente, a audiência desse hub “fóssil” ocorreu em plena COP30, o que apenas reforça as contradições entre o discurso oficial do Brasil e os projetos econômicos que continuam sendo aprovados e financiados com muito dinheiro público.

A questão dos impactos sobre o território do V Distrito

Até este momento, o que já se documentou em relação aos impactos socioambientais do Porto do Açu envolve o deslocamento forçado de centenas de famílias de pequenos agricultores de suas terras, o processo de salinização de áreas continentais e ainda o grave processo de erosão que ocorre ao sul do molhe do Terminal 2.   A esses impactos se somam as emissões atmosféricas de material particulado, seja por movimentação de cargas, seja pela operação das duas usinas termelétricas instaladas pela GNA.

Agora, com a possível implantação do hub ferro metálico, o que teremos será uma soma da emissão de material particulado e gasoso, e um grande volume de ruídos.   Assim sendo, dado o volume de material envolvido, seja como matéria-prima ou como insumo de produção, o que não vai faltar é poluição atmosférica. Nos slides que me foram enviados, não vi uma estimativa do valor estimado de emissões atmosféricas de materiais particulados e gasosos. Mas que não será pouca coisa, me parece mais do que óbvio.

Por isso, apesar das figuras mostradas (ver uma delas abaixo) não mostrarem a distância do hub das localidades de Água Preta e Mato Escuro, me parece óbvio que a população dessas duas localidades vai ser fortemente impactada pela produção de poluição química e sonora.

Além disso, me parece igualmente óbvio que os impactos inevitáveis desse projeto estão sendo subestimados.  E aí é que mora o problema, já que após o projeto ser instalado não haverá volta. Outra coisa que parece óbvia, dada a situação da erosão em curso na Praia do Açu, é que não se pode esperar que o empreendedor vá assumir espontaneamente a responsabilidade de corrigir os problemas que vão ocorrer com a instalação do projeto.  Por isso seria importante colocar condicionantes explícitas em relação às responsabilidades que deverão ser assumidas em relação à mitigação dos impactos socioambientais desse hub com forte impacto socioambiental.  

Mas dada a experiência pregressa e atual com o Porto do Açu, se a população não se movimentar para exigir condicionantes robustas, as licenças ambientais serão emitidas e daqui a alguns anos vamos conviver com impactos que não terão nem pai nem mãe, apenas vítimas indefesas. E dado o envolvimento da mineradora Vale nesse hub, acho que não é preciso lembrar das experiências de Mariana e Brumadinho para dizer, lembrando a canção “Meu caro amigo” de Chico Buarque, que a coisa aqui vai ficar preta, de pó de ferro…

Observatório dos Agrotóxicos: em plena COP30, governo Lula libera mais 30 agrotóxicos

As contradições entre discurso e prática do presidente Lula e seu governo são evidentes a cada dia e cada ato prático, por mais corriqueiro que seja. Como alguém que acompanha com interesse a situação da aprovação de agrotóxicos no Brasil desde 2019, pensei que pelo menos para disfarçar, o governo federal não publicaria nenhum daqueles infames atos de liberação de agrotóxicos para comercialização no território nacional.

Pois bem, pensei errado.  É que hoje o Diário Oficial da União traz a publicação do ATO Nº 54, de 11de  Novembeo de 2025 que libera a comercialização de mais 30 agrotóxicos do tipo Produto Técnico, que é aquela classificação que se refere a produtos concentrados que serão usados para a fabricação dos produtos formulados que serão consumidos no final das contas.

Já olhei a lista dos agrotóxicos inclusos nesse ato é vejo ali velhos conhecidos e aquela costumeira característica de serem produzidos, explicitando uma espécie de colonialismo químico sul-sul, e não norte-sul.

De qualquer forma, como os agrotóxicos são emissores de gases estufa,  o que fica claro é que o governo Lula, quando seu líder não está no palco da COP30 vendendo a sua imagem de exportação, não hesita em rasgar a fantasia da sustentabilidade para introduzir mais venenos perigosos no já sobrecarregado mercado brasileiro de agrotóxicos.

Essa história de COP é semelhante àquela festa em que vamos todos bem vestidos para tomar um porre com whisky barato para acordar no dia seguinte com uma tremenda ressaca.  E, pior, quem dá a festa já sabendo que a ressaca será devastadora.

E depois ainda vai ter gente em 2026 dizendo que é melhor votar em Lula do que arriscar a ter a extrema-direita bolsonarista de volta no poder por causa da devastação ambiental que vai acontecer. Pura hipocrisia. Afinal, na hora de acalentar os lucros do agronegócio, essas duas vertentes estão juntas e misturados. E tome agrotóxicos na água e na comida dos brasileiros!

COP30 no Brasil: uma cúpula climática manchada por petróleo e desmatamento

Por Monica Piccinini para “The Canary” 

Com o início da COP30 Brasil em Belém, o mundo se reúne mais uma vez para prometer salvação — uma solução para a crise climática. Líderes globais chegam de avião e se encontram sob a copa da floresta amazônica , prometendo ambição, justiça e preservação.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, comparece diante das câmeras proclamando a liderança de sua nação na luta global contra as mudanças climáticas, mas sua retórica parece estar em desacordo com a realidade.

O governo brasileiro que agora se veste com a linguagem da sustentabilidade é o mesmo que promove leis, projetos e indústrias extrativistas que colocam em risco a própria floresta que alega proteger.

A Amazônia está ameaçada não apenas por madeireiros e garimpeiros ilegais, mas também pelo próprio governo do país, que promove uma cúpula climática enquanto abre novas fronteiras petrolíferas, enfraquece a proteção de terras indígenas e acelera a emissão de licenças para atividades ecodestrutivas.

COP30 Brasil — Fumaça e espelhos

Enquanto diplomatas saboreiam smoothies de açaí em Belém, incêndios, desmatamento e degradação continuam a devastar a Amazônia.

No final de 2023, Manaus, a capital do Amazonas, desapareceu sob uma sufocante nuvem escura de fumaça. Os moradores acordaram com céus cinzentos e o gosto de floresta queimada na boca. As máscaras deixaram de ser uma proteção contra o vírus e se tornaram escudos contra o próprio ar de que precisavam para sobreviver.

Monitores de qualidade do ar registraram níveis de PM2,5 vinte vezes superiores ao limite da Organização Mundial da Saúde. É a Amazônia falando, e ela estava gritando.

Os incêndios seguem um caminho muito familiar: a rodovia BR-319, antes abandonada e agora sendo revitalizada pelo governo Lula, corta a floresta tropical como uma faca. Tratores abrem um corredor de destruição em uma das partes mais intactas da floresta, dando margem à pecuária, à grilagem de terras, ao crime organizado, à mineração legal e ilegal, aos incêndios e, possivelmente, a novas pandemias.

“O Brasil está retrocedendo enquanto promete liderança climática, caminhando na direção oposta aos seus compromissos para a COP30 Brasil”, afirma Lucas Ferrante, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP). Ele acrescentou :

O desmatamento e a degradação já são visíveis ao redor da BR-319. Se a rodovia for reconstruída, poderá desencadear uma reação em cadeia irreversível que devastará a Amazônia, prejudicará comunidades indígenas e acelerará as mudanças climáticas a um nível incontrolável.

Cássio Cardoso Pereira , ecologista e editor da revista BioScience, disse :

Enquanto o desmatamento ganha as manchetes, a crise mais profunda da degradação florestal continua sem controle. E agora, projetos imprudentes, incluindo a rodovia BR-319, a ferrovia Ferrogrão e a desastrosa proposta de perfuração de petróleo na foz do Amazonas, levam a floresta tropical cada vez mais perto do colapso.

Perfuratriz, perfuratriz, perfuratriz

Uma das contradições mais flagrantes é a aprovação, por parte do Brasil, da exploração de petróleo na foz do rio Amazonas, na chamada margem equatorial brasileira.

Apesar dos apelos globais para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis, a gigante estatal Petrobras recebeu autorização ambiental do Ibama , órgão ambiental brasileiro , para perfurar um poço exploratório no Bloco 59, a cerca de 500 km da foz do rio, em uma área que abriga ecossistemas sensíveis, incluindo o Grande Sistema Arrecifal da Amazônia e manguezais. Ambientalistas alertam para os riscos de tal projeto e as trágicas consequências de um derramamento de petróleo.

Como um país pode sediar uma cúpula sobre ação climática enquanto expande a extração de petróleo em uma das regiões mais biodiversas e sensíveis ao clima do mundo?

A contradição é tão flagrante que quase parece deliberada, um lembrete de que a diplomacia climática muitas vezes serve à ilusão de progresso, sinalizando que a cúpula pode estar mais voltada para a promoção da marca do que para uma mudança real.

A batalha pelas terras indígenas

A narrativa climática do Brasil também desmorona quando se trata de direitos indígenas.

O controverso “Marco temporal ”, legislação apoiada pelo lobby do agronegócio (“ruralistas”), afirma que os povos indígenas só podem reivindicar terras que ocupavam fisicamente em 5 de outubro de 1988, data em que a Constituição brasileira entrou em vigor.

Comunidades indígenas inteiras deslocadas antes dessa data perderiam seus direitos aos territórios ancestrais.

Embora o Supremo Tribunal Federal do Brasil tenha derrubado o projeto de lei em 2023, o Congresso logo aprovou a Lei 14.701/2023 para reimpor a lei, uma manobra legislativa enganosa que mina a justiça constitucional.

Para quem vive perto da floresta, a questão é existencial.

Especialistas da ONU alertaram que a lei pode invalidar centenas de demarcações de terras e acelerar o desmatamento. No entanto, na COP30, é provável que delegados indígenas participem de painéis governamentais, e sua presença será usada como prova de inclusão, mesmo enquanto seus direitos territoriais estão sendo corroídos em seus próprios países.

Desregulamentação

Como se isso não bastasse, em julho de 2025, o Congresso brasileiro aprovou a chamada “PL da devastação ”, oficialmente a lei 2159/2021 . Essa legislação afrouxa radicalmente as normas de licenciamento ambiental, permitindo que muitos projetos prossigam com avaliações de impacto mais brandas, contornando a fiscalização e concedendo mais poder aos estados e municípios.

Organizações de direitos humanos alertaram que o projeto de lei coloca as pessoas e o planeta em risco ao enfraquecer as proteções relacionadas às comunidades indígenas e quilombolas.

Embora o presidente Lula tenha vetado ou emendado 63 dos quase 400 artigos do projeto de lei em agosto, observadores alertam que as disposições restantes ainda representam uma séria ameaça. Consciente de que o Congresso poderia derrubar seus vetos, Lula pareceu buscar um delicado equilíbrio, tentando apaziguar tanto a direita quanto a esquerda, mantendo ao mesmo tempo uma aparência de neutralidade.

Organizar uma cúpula climática enquanto o governo aprova esse tipo de lei é declarar guerra à credibilidade. Um país não pode, simultaneamente, presidir a mesa de negociações climáticas e acelerar a desregulamentação que incentiva o desmatamento e o deslocamento de comunidades.

A bioeconomia disfarçada de verde

Outro dos temas de maior orgulho do presidente Lula é a “revolução da bioeconomia” no Brasil. No Fórum Empresarial dos BRICS, ele declarou :

Nossos países podem liderar um novo modelo de desenvolvimento baseado na agricultura sustentável, na indústria verde, em infraestrutura resiliente e na bioeconomia.

Parece visionário, mas por trás dos slogans, persistem as mesmas dinâmicas extrativistas .

As monoculturas em larga escala de soja, cana-de-açúcar, óleo de palma e milho estão se expandindo pela Amazônia, justificadas como culturas para biocombustíveis “renováveis”, “verdes”, “limpas” e “sustentáveis”, o “combustível do futuro”. Projetos como a Amazônia 4.0 prometem inovação sustentável, mas correm o risco de replicar a lógica colonial de extração de recursos sob um disfarce verde.

“A extensão desse conceito à Amazônia acarreta o risco inerente de que a matéria-prima acabe sendo transformada em polpa e vendida para obter lucro”, alerta o pesquisador Ossi Ollinaho, da Universidade de Helsinque.

Entretanto, o especialista em política ambiental, Jorge Rodriguez Morales, observa que:

“Posicionar a bioenergia como uma estratégia climática justificou, na prática, políticas mais amplas de apoio à indústria de biocombustíveis e contribuiu para a deturpação dos princípios verdes da política climática brasileira.”

Deslocamentos

Enquanto isso, outro destaque da COP30 Brasil são os mercados de carbono, a suposta varinha mágica para a ação climática, mas as compensações voluntárias de carbono estão agora sob intenso escrutínio . Uma pesquisa liderada pelo Dr. Thales West, da Universidade Livre de Amsterdã, descobriu que muitos projetos florestais REDD+, antes celebrados como prova de progresso, são construídos sobre “esperança, não prova”, baseando-se em premissas frágeis.

A revista Nature relata que as compensações de carbono muitas vezes “minam a descarbonização, permitindo que empresas e países reivindiquem reduções que não existem”.

No cerne do problema está o cenário base: ameaças exageradas permitem que projetos vendam mais créditos, mesmo para florestas que nunca estiveram em risco. O Dr. West  afirma :

Mesmo com as melhores intenções, se você seguir a ‘receita errada’, provavelmente não obterá o resultado desejado.

Os sistemas de certificação, financiados pelos próprios projetos que auditam, criam conflitos de interesse, enquanto muitos créditos não levam em consideração a perda florestal causada por incêndios, exploração madeireira ou deslocamento de populações.

O projeto Suruí, no Brasil, outrora celebrado como um sucesso de conservação liderado por indígenas, entrou em colapso devido à mineração ilegal e à pressão sobre a terra, demonstrando que mesmo compensações bem planejadas não conseguem ter sucesso em um sistema falho.

Os críticos alertam que as compensações de carbono se tornaram uma forma de greenwashing, permitindo que companhias aéreas, empresas de tecnologia e marcas de luxo continuem poluindo.

O Dr. West adverte :

A menos que haja uma mudança de atitude entre empresas, governos e organizações como a ONU, é provável que o mercado continue priorizando a conveniência em detrimento da integridade.

Integridade, verdade e justiça

A retórica internacional de Lula continua poderosa, seus discursos sobre “salvar a Amazônia” ainda recebem aplausos em Nova York, Londres, Paris e Davos, mas poder sem integridade é apenas ruído.

Na COP30 Brasil, a palavra “justiça” será repetida muitas vezes, mas justiça exige mais do que palavras, exige ação, alinhamento de políticas e princípios.

O Brasil não pode sediar a cúpula mundial do clima enquanto concede licenças para exploração de petróleo na foz do Amazonas, enquanto afrouxa as proteções territoriais dos povos indígenas e enquanto acelera projetos ambientalmente sensíveis sob a égide da “lei da devastação”.

A Amazônia não é apenas uma floresta, é o pulmão de um continente, guardiã de “rios voadores” que trazem chuva e umidade para o Brasil e outras regiões, um escudo contra o caos climático. Destrua-a, e as consequências se espalharão muito além do Brasil, trazendo secas, inundações, instabilidade climática e até mesmo novas pandemias.

A floresta já se manifesta através dos incêndios, da fumaça, do desaparecimento dos rios e das pessoas ameaçadas. O mundo ouve os discursos da COP30, mas a floresta ouve as ações — ela responde ao que os líderes fazem, não ao que prometem.

A Amazônia não tem mais tempo para hipocrisia.

Imagem em destaque via Foreign Policy Centre


Fonte: The Canary

Povos indígenas exigem a proteção das florestas tropicais contra as indústrias extrativistas

mapas de extrativismoComunidades indígenas exigem o reconhecimento de seus direitos territoriais nas florestas tropicais, acesso direto aos recursos e proteção para aqueles que defendem a natureza. Crédito da imagem: Sergio Carranza Basantes/Wikimedia Commons , sob licença Creative Commons CC BY-SA 4.0 Deed.

Por Aleida Rueda para o SciDev 

[CIDADE DO MÉXICO, SciDev.Net ] Grupos indígenas e comunidades locais de diferentes regiões do mundo, incluindo a Mesoamérica e a Amazônia, uniram-se em uma reivindicação global pelo reconhecimento de seus direitos territoriais nas florestas tropicais, acesso direto aos recursos e proteção para aqueles que defendem a preservação da natureza.

O apelo é consequência de um novo relatório elaborado pela Aliança Global das Comunidades Territoriais (GATC) e pela organização Earth Insight, que expõe pela primeira vez, com mapas detalhados, a crise ambiental causada pelo modelo de produção baseado na extração intensiva de recursos naturais.

Os mapas indicam as áreas onde ocorrem atividades de extração de petróleo e gás, bem como mineração, exploração madeireira industrial e agricultura em larga escala nas florestas da Amazônia, da região do Congo, da Indonésia e da Mesoamérica, onde vivem 35 milhões de indígenas.

Um estudo realizado pela Aliança Global de Comunidades Territoriais (GATC) e pela organização Earth Insight produziu mapas detalhados das indústrias extrativas em várias regiões do mundo, incluindo a Mesoamérica e a Amazônia. Crédito da imagem: Earth Insight.

“Pela primeira vez, temos evidências globais e comparáveis ​​que confirmam o que os povos indígenas vêm dizendo há muito tempo”, disse Juan Carlos Jintiach Arcos, secretário executivo da GATC, à SciDev.Net .

“Eles não podem mais dizer que inventamos essas coisas. Os dados mostram claramente as pressões e ameaças que nossos territórios enfrentam”, afirmou ele.

Jintiach Arcos, que faz parte do povo Shuar da Amazônia equatoriana, também afirmou que este relatório demonstra que as ameaças aos territórios indígenas não são incidentes isolados, mas parte de um padrão estrutural que se repete em todas as regiões de floresta tropical do mundo.

Esse padrão é evidente nos mapas do relatório, que constituem “uma ferramenta poderosa, pois são uma forma de tornar visível, de forma clara e urgente, o que normalmente fica oculto em documentos técnicos ou bancos de dados dispersos”, disse Florencia Librizzi, vice-diretora da Earth Insight, ao SciDev.Net .

“Pela primeira vez, temos evidências globais e comparáveis ​​que confirmam o que os povos indígenas vêm dizendo há muito tempo (…) Os dados mostram claramente as pressões e ameaças que nossos territórios enfrentam.”

Juan Carlos Jintiach Arcos, Secretário Executivo do GATC

Na Mesoamérica , por exemplo, o relatório mostra que existem 3,7 milhões de hectares (Mha) de terras de povos indígenas e comunidades locais ameaçadas pela extração de petróleo e gás, enquanto as concessões de mineração ameaçam 18,7 milhões de hectares desse tipo de terra.

A isso se somam outras ameaças, como o tráfico de drogas, o desmatamento, a construção de megaprojetos e a fragilidade da governança em países como México, Honduras e Nicarágua.

Na Amazônia , onde 250 milhões de hectares são terras habitadas por povos indígenas e comunidades locais, 31 milhões de hectares estão ameaçados por petróleo e gás; 9,8 milhões de hectares por mineração; e 2,4 milhões de hectares por exploração madeireira.

As indústrias extrativas estão presentes em todos os países da Amazônia: Brasil, Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa, mas existem diferenças interessantes.

Por exemplo, a indústria petrolífera representa uma ameaça maior na Amazônia do que na Mesoamérica, mas nesta última, a maior parte da exploração ocorre longe da costa ( em alto-mar). Também se observa que países como Suriname e Guiana têm uma concentração maior de concessões madeireiras do que o resto da região.

Após a divulgação do relatório, as pessoas que vivem nas áreas ameaçadas estão exigindo mudanças. A principal reivindicação é a garantia e o reconhecimento dos direitos territoriais indígenas, bem como a asseguração do consentimento livre, prévio e informado  (CLPI) para todos os projetos.

“Muitas vezes, empresas ou governos chegam aos nossos territórios sem compreender os nossos processos internos, sem respeitar as nossas formas de governação e tomada de decisões, ou pior, enganando as nossas comunidades para obter uma assinatura ou autorização. Isso não é consentimento”, afirmou Jintiach Arcos.

O consentimento, esclareceu ele, “não busca abrir as portas para as indústrias extrativas, mas afirmar nossa soberania (…) que somos nós que decidimos o que entra e o que não entra em nossos territórios”.

Outra reivindicação diz respeito ao financiamento direto para as comunidades indígenas. “Não estamos falando apenas do dinheiro chegar às comunidades”, explicou Levi Sucre Romero, diretor-geral da Aliança Mesoamericana dos Povos e das Florestas (AMPB). Especificamente, eles se referem a empresas, governos e organizações multilaterais que modifiquem seus modelos de financiamento, fortaleçam os sistemas de governança que sustentam esses territórios e criem mecanismos diferenciados de monitoramento e avaliação que respondam às realidades de cada território.

Para Ivan Brehaut, diretor de programas da Associação ProPurus, dedicada à proteção das florestas, e que não participou do relatório, o documento oferece um panorama muito claro de onde estão as ameaças, não apenas para as florestas, mas também para os povos indígenas em isolamento e em contato inicial (PIACI).

“Para a maioria das pessoas, a floresta tropical continua sendo um espaço vazio, sem população. Mostrar a sobreposição entre as áreas do PIACI e as iniciativas extrativistas ajuda a perceber o nível de impacto causado pelas indústrias extrativistas na vida das pessoas”, disse ele ao SciDev.Net .

No entanto, acrescentou, não haverá interrupção do extrativismo enquanto a economia mundial depender de combustíveis fósseis e enquanto não for reconhecido que as florestas (e seus habitantes, os povos indígenas) “são mais do que apenas uma mercadoria ”.

Evidências de proteção bem-sucedida

O relatório não apenas destaca as ameaças, mas também propõe soluções. Por exemplo, onde há maior reconhecimento dos direitos territoriais e da governança comunitária, a saúde da natureza é preservada e o desmatamento diminui significativamente.

“Um exemplo é a Reserva da Biosfera Maia na Guatemala, onde a sobreposição com as concessões é muito menor, a ponto de o desmatamento em áreas comunitárias ser mais de sete vezes menor que a média nacional”, disse Librizzi.

Para Olo Villalaz, líder da AMBP, isso tem a ver com a forma como as comunidades entendem o cuidado com as florestas.

“Entendemos que a Mãe Terra é um único lar onde todos vivemos e do qual nossas vidas dependem. Sua proteção se baseia no respeito, na espiritualidade e em decisões tomadas coletivamente, onde cada voz — de mulheres, jovens, idosos e autoridades — tem seu lugar”, disse ela ao SciDev.Net .

Líderes indígenas concordaram que, embora pareça não haver como deter o extrativismo na região, existem sinais de esperança: “Não falamos mais sozinhos. Hoje, o mundo começa a entender que sem os povos indígenas não há futuro possível”, afirmou Jintiach Arcos.

De acordo com Librizzi, há claros sinais de progresso devido à crescente colaboração entre organizações indígenas nas três principais bacias tropicais: a Amazônia, a bacia do Congo e o Sudeste Asiático. “Isso está gerando uma voz coletiva mais forte e coordenada.”

Jintiach concordou: “A esperança reside na força organizada do povo, na nossa capacidade de propor, resistir e construir. Não pedimos para sermos incluídos; exigimos ser aliados em pé de igualdade, porque sem nós, a regeneração é impossível.”


Fonte: SciDev.Net

O que esperar da COP 30?

Indígenas na Área Verde (Green Zone), espaço aberto ao público, da COP30. A programação principal do evento e tomada de decisões ocorre na Blue Zone, área restrita a credenciados. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil 

Por Eduardo Sá Barreto*

O que esperar da COP 30, que começou na segunda-feira, 10 de novembro, em Belém do Pará? A resposta curta é: nada.

No entanto, a resposta curta corre o risco de parecer controversa. Em parte, isso talvez se deva ao fato de haver um esforço variado de crítica que, ao mesmo tempo que aponta lacunas e fragilidades evidentes a cada nova edição da Conferência das Partes, não deixa também de supor (nem sempre de maneira velada) que as coisas poderiam ser diferentes. Para quem conserva a expectativa de que eventualmente alguma COP enfim entregará o que não tem sido entregue nem mesmo na forma de promessas, vaticinar a inevitável impotência deste evento certamente parecerá absurdo.

Para que não reste dúvidas, a crítica do óbvio é, em geral, pertinente. Realmente, uma baixa presença de chefes de Estado é sintoma do desprestígio desta edição e mina as pretensões de resultados expressivos, mesmo no campo estritamente performático/diplomático. A participação cada vez maior e mais explícita dos representantes do capital fóssil revela a garantia de sabotagem de qualquer ambição descarbonizante. Também é uma incoerência política insolúvel que o governo brasileiro faça um chamado à ampliação dos esforços ao mesmo tempo que patrocina a abertura de novas frentes de exploração de petróleo. Além disso, as Partes estão distantes do cumprimento de suas próprias promessas. Tudo isso é verdade, mas quem cata pulgas deixa passar os elefantes. E embora essas sejam pulgas grandes e incômodas, vejamos os elefantes.

Tanto o discurso de abertura do Presidente Lula quanto o documento intitulado Chamado de Belém pelo clima mencionam um certo papel inaugural da Cúpula da Terra (ocorrida no Rio de Janeiro, em 1992) nos esforços globais de política climática. O legado da cúpula, afirma-se no documento, teria sido demonstrar a possibilidade de encontrar soluções pela negociação. Claro! Como discordar? Assim, em abstrato, é ponto pacífico. Mas olhemos com um pouco mais de cuidado. Apoiando-se na proposição anterior, segue o documento: “Avançamos, mas não o bastante”. Não há dúvida de que, fora do negacionismo mais aguerrido, esse lamento ressoa no senso comum: avanço insuficiente! Mas avançamos mesmo?

Se quisermos tentar responder generosamente, poderíamos lembrar da expansão de políticas de estímulo aos ganhos de eficiência energética, visando uma contenção no consumo de energia. Poderíamos lembrar da expansão de políticas de estímulo às fontes renováveis, visando uma matriz energética de menor intensidade em emissões. Os dois conjuntos de políticas existiram e foram exitosos, contribuindo para ganhos expressivos tanto de eficiência energética quanto de oferta primária de energia a partir de fontes renováveis. Foram, contudo, vitórias de Pirro, porque o consumo de energia continuou crescendo fortemente, assim como a escala do consumo de combustíveis fósseis. Não avançamos.

Ainda na veia generosa, poderíamos lembrar que nesse período, importantes protocolos e acordos foram redigidos, sendo os de Quioto e Paris os mais emblemáticos e conhecidos. Reduções sustentadas nos níveis globais de emissões de gases de efeito estufa foram recomendadas, projetadas e acordadas. Anualmente, a diplomacia mundial se reúne em algum canto do mundo e as revisa, reafirma e, por vezes, as aumenta. No entanto, quase metade de todo o volume de emissões dos últimos 175 anos aconteceu após 1990!1 As emissões globais de gases de efeito estufa em 2023 foram 44% maiores que as de 1992. Talvez mais impactante que isso, consideradas todas as fontes de emissão antrópicas, o nível de emissões cresceu em quase todos os anos desde então. As exceções foram 2012, com as crises da dívida em várias nações europeias, e 2020, o primeiro ano da pandemia de covid-19.

Em outras palavras, dizer que não avançamos é dizer pouco. Foram poucas promessas diante de tudo que era necessário, e embora muito tenha sido feito, ficou-se bastante aquém do prometido. E o que se fez não foi sequer capaz de interromper nossa caminhada a passos largos na direção errada.

Acelerar a luta contra o aquecimento global, conforme propõe o Chamado de Belém, é obviamente imperativo. Como não poderia deixar de ser, contudo, o chamado (feito no documento e enfatizado pelos discursos de Lula e do presidente da COP30, André Corrêa do Lago) nos convoca a uma forma de luta que, embora proporcione possibilidades de pequenas vitórias aqui e acolá, castra pela raiz qualquer capacidade de intervenção realmente transformadora. Dobra-se a aposta no multilateralismo, palavra simpática, mas que esconde uma diplomacia climática subordinada a interesses econômicos. Dobra-se a aposta na cantilena da transição justa, como se fosse plausível supor que as grandes potências econômicas, políticas e militares do mundo fossem absorver voluntariamente a maior porção dos sacrifícios que seriam exigidos na suposta aceleração da luta. Dobra-se a aposta numa refundação pacífica dos padrões de governança global, em que nações formalmente independentes (inclusive aquelas com privilégios imperialistas) cederiam parte de sua soberania em favor da tal luta.

Em suma, o samba da COP é de uma nota só e não pode ser outro, porque ele representa o limite do que é possível enunciar em voz alta no capitalismo. A gravidade do contexto de colapso climático se impõe e a política da ordem se vê obrigada a mirar o mais alto que a política institucional pode pretender alcançar: a concertação global, a união de esforços em prol de um objetivo comum. O objetivo comum que realmente se impõe, no entanto, é o de mudar o que for possível mudar sem balançar demais os alicerces do sistema.

Não haverá concertação pelo decrescimento (muito menos um que contemple responsabilidades históricas diferenciadas); não haverá concertação pela contenção (muito menos pela aniquilação) do capital fóssil; não haverá concertação pela abertura de fronteiras ou pela relocalização de populações de regiões vulneráveis ou tornadas inabitáveis; não haverá concertação pela desconcentração urbana ou pela desglobalização da produção e do consumo.

Enfim, conforme venho afirmando em outros espaços, à medida que as condições climáticas desmoronam — e, com elas, condições básicas de suporte à vida e à vida em sociedade —, cada vez mais nações, classes, comunidades, organizações, pessoas serão levadas a situações de tudo ou nada. Num mundo em colapso, o que tende a acontecer é a multiplicação dos conflitos; é o aumento da frequência, abrangência e intensidade dos choques, não o apogeu da harmonia de interesses e de uma articulação eficaz, planejada, voluntária e pacífica de esforços.

Nesse quadro, a COP tende a cada vez mais aparecer como aquilo que ela realmente é: um teatro anacrônico. Como um espaço onde impera o cinismo, é verdade. Mas, além disso, como um espaço onde justas, legítimas e sinceras intenções frequentemente vão para morrer.

Disputar os rumos da COP? Não. Os rumos da COP são crônica e estruturalmente indisputáveis para a direção realmente necessária. Abandonar a COP? Não necessariamente. Não deixa de ser possível disputar na COP essas consciências sinceras, porque ali abundam evidências para que elas compreendam na prática que aquilo que almejam se encontra do lado de lá de um processo de ruptura revolucionária com a sociedade atual. O esverdeamento dos radicais é um processo já em curso. É imperioso radicalizar os verdes. Para tomarmos o que precisa ser salvo e para tomarmos o que pode nos salvar.

Notas

  1. IPCC. AR6 synthesis report: climate change 2023. Genebra: IPCC, 2023 ↩︎

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Eduardo Sá Barreto é professor associado da Faculdade de Economia (UFF) e membro do NIEP-Marx. É autor do capítulo “Terra de ninguém: entre o urgente e o prefigurado”, publicado em Tempo fechado: capitalismo e colapso ecológico (Boitempo, 2025).


Fonte: Blog da Boitempo

A Springer Nature amplia seu portfólio de ferramentas de integridade em pesquisa

Shutterstock.com/Andrii Zastrozhnov

Por Research Information 

A Springer Nature lançou uma nova ferramenta para ser usada em submissões a seus periódicos e livros, com o objetivo de detectar frases não padronizadas em manuscritos submetidos.

A ferramenta funciona detectando frases incomuns, construídas de forma confusa ou excessivamente complexas, como por exemplo, “consciência falsificada” em vez de “inteligência artificial”. Essas frases indicam que os autores utilizaram ferramentas de paráfrase para burlar a detecção de plágio. Caso a ferramenta identifique diversas frases atípicas, o trabalho será retirado.

A ferramenta foi desenvolvida utilizando o catálogo público de frases problemáticas do  Problematic Paper Screener  (PPS), criado por Guillaume Cabanac, Cyril Labbé e Alexander Magazinov, e passou por múltiplas rodadas de testes e validação para fornecer uma avaliação confiável de trabalhos submetidos em diversas disciplinas acadêmicas.  

Tamara Welschot, Chefe de Integridade em Pesquisa e Prevenção da Springer Nature, comentou: “Pesquisas fraudulentas são um desafio que afeta a todos nós na indústria editorial e precisamos trabalhar juntos para combatê-las. O desenvolvimento desta ferramenta foi um projeto de longa duração que envolveu estreita colaboração entre o grupo de integridade em pesquisa e diversas equipes de tecnologia da Springer Nature, com base em importantes trabalhos de investigadores de integridade da comunidade acadêmica.

“Agradecemos a Cabanac, Labbé e Magazinov por seus esforços no desenvolvimento do Problematic Paper Screener e por destacarem artigos com frases confusas para a comunidade editorial em geral. Nossa ferramenta identifica esses artigos problemáticos no momento da submissão, impedindo sua publicação e economizando o valioso tempo de editores e revisores  .”

A ferramenta de detecção de frases não padronizadas é a mais recente adição ao conjunto de soluções de integridade científica da Springer Nature e complementa as ferramentas já existentes: um detector de textos sem sentido,   o Snappshot  (que identifica imagens duplicadas ou manipuladas) e uma  ferramenta de verificação de referências irrelevantes.   Essas ferramentas foram desenvolvidas internamente como parte do compromisso contínuo da Springer Nature em garantir a integridade do trabalho que publica. Esse compromisso inclui investimentos em uma equipe de especialistas em rápido crescimento e no desenvolvimento contínuo de tecnologia.

A Springer Nature também se comprometeu a colaborar com a comunidade editorial em geral, como uma organização contribuinte do STM Integrity Hub , que facilita a troca de conhecimento e dados e desenvolve ferramentas tecnológicas compartilhadas, e para o qual a Springer Nature  doou seu detector de textos sem sentido para uso em todo o setor.


Fonte: Research Information