Crise no CBPF pode deixar o carioca sem internet e Brasil sem ciência

Por SBF

A internet no Rio de Janeiro vai parar! Pode parecer jornalismo sensacionalista, mas talvez esse alerta seja o mais forte a ser feito para que a população entenda de início que isso é o que exatamente vai acontecer se o governo brasileiro, incluindo as instâncias do Executivo e Legislativo Nacional, mantiverem no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2026 os cortes no Orçamento do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), responsável pela Rede Rio, que gerencia todo o tráfego da rede mundial de computadores em empresas e órgãos públicos, incluindo hospitais e unidades de defesa nacional, no Rio de Janeiro.

Criado em 1949 após o sucesso internacional do cientista brasileiro César Lattes na área da física nuclear, o CBPF contou inicialmente com apoio da iniciativa privada e, aos poucos, de vários governos ao longo dos anos. Ana Maria Ribeiro de Andrade, que escreveu o livro “Físicos, Mésons e Política – A Dinâmica da Ciência na Sociedade”, conta que em 1946 ficou claro que o País precisava aprimorar a geração de energia, à época com dependência de 82% de lenha, 3,9% de carvão importado e apenas 1,6% de energia hidroelétrica. “A exploração do petróleo, principalmente, e a construção de usinas nucleares se apresentavam como alternativas viáveis”, explica a escritora na página 77, citando em nota de rodapé que os soviéticos haviam criado em 1954 a primeira usina termonuclear do mundo.

Além de colaborar no desenvolvimento da pesquisa nuclear no Brasil, usada não apenas para a indústria, geração de energia e defesa nacional, mas principalmente na Medicina Nuclear, os físicos do CBPF eram monitorados antes mesmo da criação do órgão. Como já reportamos no Boletim SBF sobre artigo publicado na Revista Brasileira de Ensino de Física feito pelo pesquisador do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast), Alfredo Tiomno Tolmasquim, os cientistas do CBPF já foram alvo de perseguições políticas que chegam ao ápice com a Ditadura de 1964, que levou a um processo de desmonte do órgão que chegou ao ápice na década de 1970, com cientistas resistindo e negociando saídas para o histórico projeto das pesquisas nucleares no País. Após grandes investimentos nos últimos anos e contratação de pessoal, o CBPF enfrenta um novo paradoxo de vôo de Ícaro sob um maremoto de acontecimentos nacionais e internacionais que desafiam a sociedade.

Os cortes no Orçamento da instituição já começaram em 2025, de forma que o órgão já está reduzindo suas atividades. Com contas de luz atrasada, que podem danificar equipamentos de alta tecnologia que custam na ordem dos milhões de reais, a instituição ainda corre o risco de perder colaboradores especializados que vão desde as áreas administrativa, técnica e científica. Além da tão preciosa internet do carioca, o CBPF é responsável por sistemas de extrema importância ao CNPq, reúne também um sistema computacional para análise de dados do CERN, o centro europeu que administra o maior acelerador de partículas do mundo, do qual o Brasil é agora signatário.

O CBPF ainda é a “casa” da Rede Nacional de Física de Altas Energias (RENAFAE). Paradoxalmente, o governo contratou dezenas de cientistas, muitos repatriados do exterior, que agora têm novas complexidades para além dos segredos da matéria para equacionar, podendo até deixar o País porque, afinal, físico (a) também paga boleto. Hoje, o órgão reúne 121 servidores após a entrada de novos contratados no atual governo, e 106 terceirizados.

“Nós estamos nessa encruzilhada de decidir entre parar as atividades de fato, prejudicando nossa missão, demitir parte do corpo de terceirizados, servidores que a gente não pode demitir, reduzir as jornadas de trabalho, reduzir o uso de energia elétrica”, enumera os desafios o físico João Paulo Sinnecker, vice-diretor do CBPF, em entrevista ao Boletim SBF. Durante a entrevista, João Paulo explicou que estava sem ar-condicionado, por sorte, era uma terça-feira de temperatura amena no Rio, mas isso prejudica não apenas estudantes em salas de aula, mas equipamentos caríssimos que precisam de refigeração. Durante a entrevista, por exemplo, houve um pico de energia que paralisou a transmissão via ZOOM da conversa.

Em 2025, o CBPF solicitou ao governo R$ 26 milhões para manter suas atividades, mas recebeu a sinalização de apenas R$ 19 milhões, e mesmo esse valor chegou de forma fragmentada, dificultando a gestão. “O orçamento não chegou inteiro. Ele chegou por partes e, num determinado momento, se eu não me engano, foi em junho, houve uma publicação de uma decisão do Planejamento e da Fazenda de que haveria um contingenciamento e um cancelamento”, explica João Paulo. O resultado foi a perda de R$ 2,8 milhões que estavam previstos para despesas essenciais.

Na prática, a direção teve que optar entre romper contratos de manutenção, como os de elevadores, sistemas de refrigeração e fornecimento de energia, ou reduzir a jornada dos terceirizados. A escolha foi a de buscar um equilíbrio: a jornada de trabalho caiu 25%, e com ela, os salários foram reduzidos no mesmo grau. Parte da equipe entrou em férias.

O objetivo foi manter o conhecimento acumulado dessas pessoas, que há anos atuam na gestão, na segurança, na operação de sistemas, no suporte às pesquisas e na produção de conhecimento. “Se a gente demite, a gente não pode contratar pela mesma empresa, mesmo que o problema seja sanado, em um período de seis meses. E isso desmobiliza… enfim, a gente perde essa pessoa especializada.”

Ainda assim, a economia obtida não foi suficiente. As contas de energia se acumularam e a instituição passou a negociar diretamente com a Light para evitar cortes no fornecimento. A saída encontrada foi ligar o gerador a diesel no horário de pico, das 18h às 21h, aliviando a sobrecarga elétrica e garantindo o funcionamento do data center e da Rede Rio, responsável por todo o tráfego de internet de universidades, hospitais e órgãos públicos do Estado e armazenamento de dados do governo federal. Essa medida reduziu em torno de R$ 40 mil os gastos mensais, mas expôs a fragilidade de uma instituição que está na vanguarda científica passando o chapéu à plateia da mesma forma como um músico experiente que não faz dancinha no TikTok.

O impacto direto já pode ser sentido. Laboratórios multiusuários deixaram de receber novas demandas externas. Teses de doutorado estão atrasadas. Microscópios de alta precisão correm o risco de sofrer danos irreversíveis por falta de energia. “Se um microscópio desse parar por muito tempo, por falta de luz, por exemplo, isso pode danificar o canhão do microscópio. E aí, o custo para recuperar isso é muito maior do que a conta de luz que deixou de ser paga”, alerta o vice-diretor.

A Rede Rio, que deveria ser sinônimo de estabilidade, também está também na corda bamba. Fibras ópticas vandalizadas e cabos rompidos dependem de equipes ágeis e treinadas para manutenção. Agora, com pessoal reduzido, o tempo de resposta aumenta e a chance de pequenos apagões cresce. “O fato de a gente ter que diminuir as equipes e descontratar gente vai fazer com que a gente demore mais para resolver os problemas, o que vai ter um impacto. Pode ser que ocorram pequenos apagões. E a recuperação, embora haja redundância, talvez seja muito menor.”

As restrições atingem até a área estratégica da computação quântica. O CBPF abriga o primeiro laboratório nacional com equipamentos para todo o processo de fabricação e caracterização de chips quânticos. Um investimento de peso, comparável a estruturas como o Sirius, em Campinas, explica João Paulo. Mas sem manutenção adequada, essa infraestrutura corre risco de ficar paralisada, comprometendo anos de avanço científico.

Outro setor afetado é o de importações. O CBPF desenvolveu uma expertise única para lidar com processos de aquisição de grandes equipamentos no exterior, conhecendo os trâmites para compra desses equipamentos de alta tecnologia no exterior. Foi essa equipe, por exemplo, que viabilizou a chegada do supercomputador do LNCC, importado da França. Hoje, esse serviço está suspenso. “Nós interrompemos agora mesmo o serviço de importação porque a gente não tem garantias, pois um processo de importação leva muito tempo”, diz Sinnecker.

De um lado, o Brasil se tornou signatário do CERN, o maior acelerador de partículas do mundo, ampliando colaborações internacionais; do outro, vê ameaçada a própria estrutura que sustenta a Rede Nacional de Física de Altas Energias (RENFAE), sediada no CBPF, instituição que também processa dados do CERN e conecta universidades e instituições de ponta. A cada corte, mais difícil fica manter acordos e responsabilidades que já colocaram o País no mapa da ciência mundial, mas parece que o voo chega de forma perigosa muito próximo do Sol, ameaçando a cera que prende as frágeis penas de Ícaro.

Nesse voo, o horizonte parece não ser um “Céu de Brigadeiro”, mas de “Língua de Sogra”, com respeito aos doces e às sogras que fogem ao estigma das relações sociais patriarcais. Essa brincadeira com as palavras não tem muita graça, mas traduz o momento delicado de um centro que já viveu crises profundas, mas que agora vê suas funções mais elementares colocadas em risco por conta de um orçamento incompatível com sua missão.

Há, no entanto, um vento trazendo boas notícias. O projeto de transformar o pavilhão Mário de Almeida em Centro de Memória da Física está caminhando, graças ao aporte do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). Após negociações com a UFRJ, proprietária do prédio, e com o apoio de entidades científicas como Sociedade Brasileira de Física (SBF), Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e Academia Brasileira de Ciência (ABC), foi possível preservar o espaço histórico. “Nós conseguimos, através de muita negociação, com a ajuda do Ministério, inclusive, do Ministério de Ciência e Tecnologia, e rodas de discussão, reitores, etc., nós chegamos a um consenso de preservar o pavilhão de Almeida”, diz João Paulo.

A reforma permitirá não apenas a preservação da sala onde César Lattes revelava emulsões nucleares, mas também a instalação de áreas para seminários, minicursos e exposições. O projeto inclui ainda a permanência do Centro Latino-Americano de Física (CLAF) no local e a criação de um pequeno museu, capaz de aproximar o público da história da física no Brasil.

Como contrapartida à cessão de outro espaço para a UFRJ, o CBPF recebeu recursos para projetar um prédio de expansão no Parque Tecnológico na Ilha do Fundão. Esse novo edifício deverá abrigar laboratórios e escritórios, ampliando a capacidade da instituição. Porém, os avanços correm o risco de se transformar em mais um “voo de galinha” caso o orçamento não seja recomposto.

“Isso também está andando, a gente já recebeu os recursos para fazer o projeto executivo, já está se planejando para tudo isso. Nesse aspecto, essa restrição orçamentária ainda não nos afetou, mas ela pode nos afetar. Por quê? Porque para gerir o pavilhão Mario de Almeida e para gerir a expansão do CBPF, nós vamos precisar ampliar a nossa equipe”, afirma João Paulo.

A preocupação é que os mesmos gargalos que hoje sufocam laboratórios e servidores possam comprometer a nova fase de expansão, porque para isso mais segurança, energia elétrica e contratos de gestão serão necessários. E tudo isso exige dinheiro. “Se não houver uma recomposição do orçamento, isso pode ficar inviabilizado. Então apesar de a gente ter um recurso para construir o prédio, para reformar o pavilhão Mário de Almeida, etc., não teremos recurso para gerir a função que nos foi designada.”

Há quem discorde de educadores como Paulo Freire para quem o desenvolvimento de um País se dá pela cultura, não exatamente pela ciência. Isso porque a decisão de desenvolver a educação, a arte e a ciência necessárias para estimular um voo de cruzeiro parte do arcabouço de uma cultura que muitos políticos do País perderam, inclusive, a vergonha de revelar que esse pensamento não lhes interessa.

Assista à entrevista no canal da SBF no YouTube


Fonte: SBF

Zâmbia: empresa de mineração chinesa minimiza vazamento de lixo tóxico enquanto moradores sofrem os impactos

A China Nonferrous Mining informou aos investidores que o desabamento da mina de rejeitos não teve um “impacto significativo” no meio ambiente ou na população da Zâmbia. Um novo processo, no entanto, relata doenças, perda de meios de subsistência e medo entre os moradores locais.

Uma paisagem na Zâmbia 12 semanas após uma mina de cobre chinesa ter derramado resíduos tóxicos contaminados com metais pesados, incluindo chumbo, arsênio e urânio. Crédito: Katie Surma/Inside Climate News

Uma paisagem na Zâmbia 12 semanas após uma mina de cobre chinesa ter derramado resíduos tóxicos contaminados com metais pesados, incluindo chumbo, arsênio e urânio. Crédito: Katie Surma/Inside Climate News

Por Katie Surma para o “Inside Climate News” 

Uma empresa de mineração chinesa nega que seu derramamento de resíduos tóxicos , um dos piores desastres ambientais deste ano, tenha tido um “impacto significativo” no meio ambiente ou nas comunidades locais. 

Em uma declaração registrada na quinta-feira na Bolsa de Valores de Hong Kong, a China Nonferrous Mining Corp. disse que o colapso em fevereiro da barragem de rejeitos em uma mina de cobre na Zâmbia resultou apenas em “vazamento parcial de rejeitos”.  

O vídeo do vazamento, que durou meio dia e liberou milhões de litros de resíduos, mostra um lodo marrom jorrando para o interior. O lixo altamente ácido, rico em metais pesados, inundou rios e córregos, matando a vida aquática e deixando para trás uma camada de peixes inchados e mortos. 

Desde o vazamento, os moradores que vivem abaixo da mina não conseguem usar com segurança a água subterrânea da qual dependem para beber, tomar banho, cozinhar e cultivar. Alguns moradores também relataram doenças, incluindo erupções cutâneas, sangue na urina, aperto no peito, sangramento nasal e visão turva, após exposição aos resíduos.

Uma nova ação judicial movida em nome dos moradores alega que a empresa fez de tudo para impedi-los de relatar suas experiências e obter ajuda. A denúncia alega que a empresa ameaçou moradores locais, alegando que está usando drones para monitorá-los e que seus telefones estão grampeados.

A China Nonferrous Mining é uma mineradora estatal chinesa e uma das principais empresas que operam globalmente como parte da abrangente Iniciativa Cinturão e Rota da China, um programa de um trilhão de dólares que investe em minas, portos, oleodutos e outros projetos de energia e infraestrutura em países predominantemente pobres. A subsidiária da China Nonferrous Mining, a Sino-Metals Leach Zambia, opera a mina de cobre onde ocorreu o rompimento da barragem de rejeitos em fevereiro. 

O comunicado também atribuiu o desabamento da mina de rejeitos a “roubos e danos” no revestimento da mina e às fortes chuvas, embora a Instituição de Engenharia da Zâmbia, um órgão regulador profissional, tenha alegado falhas operacionais e de projeto na barragem de rejeitos. O grupo afirmou estar investigando o acidente. 

O Ministério das Relações Exteriores da China também se pronunciou sobre o vazamento na semana passada. 

“As empresas envolvidas assumiram ativamente suas responsabilidades”, disse o porta-voz Lin Jian. “Solicitamos e continuaremos a exigir que as empresas chinesas no exterior cumpram as leis e regulamentações locais em suas operações, prestem atenção especial às suas responsabilidades corporativas e protejam rigorosamente o meio ambiente.” 

Membros da comunidade em Kalusale, Zâmbia, se inscrevem para se tornarem autores em um possível processo contra a Sino-Metals Leach Zambia. Crédito: Katie Surma/Inside Climate News
Membros da comunidade em Kalusale, Zâmbia, se inscrevem para se tornarem autores em um possível processo contra a Sino-Metals Leach Zambia. Crédito: Katie Surma/Inside Climate News

Tanto o Ministério das Relações Exteriores quanto a China Nonferrous Mining destacaram declarações feitas por autoridades zambianas em uma coletiva de imprensa em 7 de agosto, alegando que os níveis de pH haviam se normalizado em cursos d’água impactados, “as concentrações de metais pesados ​​estão diminuindo constantemente” e “o perigo imediato à vida humana, animal e vegetal foi evitado”. 

As declarações entram em conflito com duas avaliações, incluindo os resultados de um estudo anterior e independente sobre os resíduos, realizado em nome da embaixada finlandesa, que encontrou altos níveis de 16 metais pesados, incluindo chumbo, arsênio e urânio. 

A outra avaliação foi feita pelo próprio consultor da Sino-Metals e posteriormente vazada para a imprensa. O consultor, uma empresa sul-africana cujos clientes incluem grandes petrolíferas e outras grandes mineradoras, alertou sobre “substâncias extremamente perigosas” em terras e margens de rios afetadas, que colocam as comunidades a jusante “em sério risco de desenvolver defeitos congênitos, câncer, doenças hepáticas e pulmonares, problemas cardíacos e outras doenças crônicas”. O consultor também afirmou que o vazamento envolveu 30 vezes a quantidade de resíduos relatada anteriormente pela empresa.  

A Sino-Metals então demitiu o consultor, alegando uma disputa contratual .

A declaração da China Nonferrous Mining registrada na Bolsa de Valores de Hong Kong apontou outras declarações de autoridades do governo da Zâmbia, que a empresa caracterizou como elogios à Sino-Metals.  

“O vice-presidente fez um discurso elogiando o SML por sua resposta oportuna e conquistas na gestão ambiental”, disse o comunicado, acrescentando: “O governo zambiano declarou que… nenhum problema de saúde grave ou surto diretamente relacionado a este incidente de poluição foi encontrado.” 

Em junho, o governo da Zâmbia anunciou que a Sino-Metals não cumpriu uma ordem governamental para fornecer uma avaliação de sua poluição, um primeiro passo para avaliar os danos e a remediação. Desde então, a Zâmbia assumiu esse processo, que ainda não foi concluído. 

Grupos da sociedade civil da Zâmbia criticaram duramente a resposta do governo e da Sino-Metals ao vazamento, dizendo que ambos minimizaram o desastre e foram lentos para reagir, e que a Sino-Metals tentou erroneamente apresentar a questão como algo instigado pelo governo dos EUA por razões políticas. 

Em 6 de agosto, a embaixada dos EUA em Lusaka emitiu um alerta aos cidadãos americanos para que não viajassem para áreas afetadas pelo vazamento e disse que havia transferido pessoal devido a ameaças à saúde causadas pela contaminação da água e do solo. 

“Nenhuma outra opção”

Uma ação judicial movida em nome dos moradores afetados em setembro acusa a Sino-Metals de impedir que advogados e defensores visitem as pessoas afetadas e de causar ferimentos pessoais graves, perdas financeiras e danos materiais. 

“Famílias e crianças continuaram a viver na mesma área” com contaminação por metais pesados ​​excedendo os níveis seguros estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde e pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, diz a denúncia. 

“Eles continuaram a beber e usar água de poços e furos rasos”, diz a denúncia, e “não tiveram outra opção a não ser continuar comendo as plantações contaminadas”.

Um morador de Kalusale com visão turva desde que água tóxica de uma mina de cobre atingiu seu rosto. Crédito: Katie Surma/Inside Climate News
Um morador de Kalusale com visão turva desde que água tóxica de uma mina de cobre atingiu seu rosto. Crédito: Katie Surma/Inside Climate News

A ação judicial busca o pagamento imediato de US$ 200 milhões como fundo de emergência e US$ 80 bilhões para um fundo de reparação e remediação administrado pelo governo. 

A China Nonferrous Mining, que é negociada na Bolsa de Valores de Hong Kong com o código de ações 1258, chamou o processo de “infundado” na declaração que apresentou e disse que o vazamento não teve um impacto financeiro significativo na empresa. 

Um segundo grupo de autores, em uma notificação de intenção de ação judicial, exigiu que a Sino-Metals pagasse US$ 220 milhões e estabelecesse um fundo de longo prazo de US$ 10 bilhões. A ação deve ser ajuizada esta semana. 

Em outros casos de rompimento de barragens de rejeitos ao redor do mundo, os danos e os custos de remediação chegaram a dezenas de bilhões de dólares. 

Barragens de rejeitos armazenam resíduos extremamente tóxicos e ácidos, incluindo metais pesados ​​que podem causar danos à saúde de diversas maneiras. Por isso, os principais padrões da indústria exigem que as barragens de rejeitos sejam construídas para durar 10.000 anos. Metais pesados ​​não se desintegram naturalmente e devem ser fisicamente removidos e armazenados. 

Uma casa nos arredores da comunidade de Kalusale, em Copperbelt, na Zâmbia. Crédito: Katie Surma/Inside Climate News
Uma casa nos arredores da comunidade de Kalusale, em Copperbelt, na Zâmbia. Crédito: Katie Surma/Inside Climate News

A ação movida alega que, desde o final de julho, algumas operações de remoção física de resíduos de áreas impactadas “estão sendo conduzidas sem quaisquer medidas de proteção, como o uso de máscaras”, para os moradores que vivem a menos de 100 metros das operações.

“As operações em andamento estão gerando uma quantidade incalculável de poeira, levando à inalação de substâncias perigosas e cancerígenas — incluindo arsênio, cianeto, urânio e outros metais pesados”, afirma a denúncia, citando depoimentos de especialistas. 

Os moradores, segundo a denúncia, já estão “enfrentando problemas de saúde significativos”. Esses problemas incluem problemas respiratórios, dor de estômago, diarreia, erupções cutâneas, irritação nos olhos e, acrescentou o processo, “até tosse com sangue”.

Moradores alegam ameaças e vigilância em processo judicial

Em setembro, a Sino-Metals começou a fazer pagamentos provisórios de indenização a alguns moradores, com alguns pagamentos variando de cerca de US$ 150 a US$ 850, de acordo com o processo pendente, que chamou os pagamentos de “grosseiramente inadequados”. 

A ação judicial alega que, embora o governo tenha identificado 449 agricultores como “afetados”, o número real de zambianos afetados é muito maior. A denúncia cita uma declaração do governo de que as hidrovias afetadas sustentam “aproximadamente 300.000 famílias que dependem da pesca para sobreviver”.

“Nenhuma assistência está sendo dada ou prometida para as aproximadamente 300.000 famílias que perderam suas fontes de alimento e meios de subsistência e estão vivendo com incerteza e medo”, diz a denúncia.

A Sino-Metals exigiu que os destinatários dos pagamentos de indenização determinados pelo governo assinassem acordos legais isentando a empresa de toda responsabilidade pelos danos causados ​​pelo vazamento, de acordo com a denúncia e relatado anteriormente pelo Inside Climate News . 

A empresa, segundo a denúncia, “vem detendo e prendendo” ativistas e outros representantes da sociedade civil que visitaram moradores afetados, muitos dos quais têm “baixos níveis de educação formal” e que não tiveram acesso a aconselhamento jurídico antes de serem informados de que teriam que assinar as autorizações legais para receber os pagamentos mínimos de indenização. 

A Sino-Metals, segundo a denúncia, “ameaçou e alertou a comunidade de que seus telefones foram grampeados, que a Autoridade de Tecnologia da Informação e Comunicação da Zâmbia (ZICTA) está gravando todas as suas conversas e que, se fizerem ou receberem ligações, enfrentarão consequências severas e não reveladas”.

A empresa também alertou os moradores de que “coloca drones sobre a comunidade para saber quem visita quem e quem os visita”, alegou a denúncia. 

Os moradores temem por sua saúde, meios de subsistência e meio ambiente, diz a denúncia.

“Muitos estão tão perturbados que têm dificuldade para dormir, pois seus meios de sobrevivência foram destruídos sem qualquer apoio”, acrescentou. “Eles temem que, devido à saúde gravemente comprometida e à perda de renda, não consigam arcar com as inevitáveis ​​contas médicas que os aguardam.”

No início deste mês, o vice-presidente da Zâmbia disse que o país pode ordenar que a Sino-Metals pague uma indenização adicional, dependendo do resultado da avaliação de poluição. 

A declaração da China Nonferrous Mining arquivada na bolsa de valores disse que a Sino-Metals “cumpriu totalmente suas obrigações de restauração e remediação”. 

Este artigo foi atualizado em 22 de setembro de 2025 para incluir informações sobre ações da China Nonferrous Mining.


Fonte: Inside Climate News

Grandes árvores na Amazônia são mais resistentes às mudanças no clima do que se pensava

A floresta é “notavelmente resiliente às mudanças climáticas”, mas continua ameaçada por incêndios e desmatamento

Uma vista aérea da floresta amazônica, repleta de árvores, e do rio Curuá serpenteando por ela

O estudo mostrou que a vegetação tropical intocada continua a atuar como um sumidouro eficaz de carbono, apesar do aumento das temperaturas e das fortes secas. Fotografia: Jorge Sáenz/AP

Por Jonathan Watts para o “The Guardian” 

As maiores árvores da Amazônia estão crescendo e se tornando mais numerosas, de acordo com um novo estudo que mostra como uma floresta tropical intacta pode ajudar a extrair dióxido de carbono da atmosfera e sequestrá-lo na casca, tronco, galho e raiz.

Cientistas disseram que o artigo, publicado na Nature Plants ontem, foi uma confirmação bem-vinda de que as grandes árvores estão se mostrando mais resistentes ao clima do que se acreditava anteriormente, e a vegetação tropical intocada continua a agir como um sumidouro de carbono eficaz, apesar do aumento das temperaturas e das fortes secas.

No entanto, os autores alertaram que essa função vital está cada vez mais em risco devido a incêndios, fragmentação e desmatamento causados ​​pela expansão de estradas e fazendas.

“São boas notícias, mas são boas notícias com reservas”, disse o professor Oliver Phillips, da Universidade de Leeds. “Nossos resultados se aplicam apenas a florestas intactas e maduras, que é onde estamos monitorando de perto. Eles sugerem que a floresta amazônica é notavelmente resiliente às mudanças climáticas. Meu receio é que isso possa ter pouca importância, a menos que consigamos deter o desmatamento em si.”

Essa cautela ocorre em um momento em que o Brasil planeja pavimentar uma importante rodovia – a BR-319 – através da Amazônia central, próxima a uma das últimas regiões que ainda possuem grandes áreas de floresta intocada. A Bolívia também continua a desmatar árvores a um ritmo alarmante para plantações de soja e criação de gado.

O estudo foi conduzido por quase 100 pesquisadores de 60 universidades no Brasil, Reino Unido e outros lugares, que examinaram mudanças na floresta em 188 áreas na Amazônia nos últimos 30 anos.

Eles constataram que a seção transversal média dos troncos engrossou 3,3% por década, com o maior aumento observado em árvores maiores. Essa expansão foi atribuída ao aumento da quantidade de CO2 na atmosfera, resultante da queima de gás, petróleo e carvão causada pelo homem.

Árvores grandes como castanheiras , sumaúmas e angelim vermelho podem atingir mais de 30 metros de altura, dominando a copa e liderando a competição entre as plantas pela luz, água e nutrientes necessários para a fotossíntese de CO2 .

Os resultados destacam como as áreas mais bem protegidas da floresta continuam sendo aliadas importantes na luta para estabilizar o clima, embora sozinhas estejam longe de ser suficientes para lidar com todo o dióxido de carbono extra lançado no ar globalmente por carros, fábricas e usinas de energia.

Eles também demonstram a importância de prevenir o desmatamento. As áreas da Amazônia que foram fortemente fragmentadas pelo agronegócio e pela infraestrutura – principalmente no sudeste – já passaram de sumidouros de carbono a fontes de carbono .

Árvores grandes são mais vulneráveis ​​a ventos fortes, incêndios e secas se forem isoladas ou deixadas na borda de uma divisa entre floresta e terras agrícolas ou pastagens.

Durante décadas, presumiu-se que árvores maiores– mesmo em florestas densas – morreriam mais rapidamente com o aumento das temperaturas, pois acreditava-se que tinham raízes relativamente rasas em comparação com seu tamanho. Mas estudos recentes mostram que muitas têm raízes muito finas, capazes de sugar água de profundidades muito maiores.

Ainda não está claro como as tendências de mortalidade podem ter sido afetadas pela seca severa dos últimos anos em grande parte da Amazônia.

Uma das principais autoras do novo artigo, Adriane Esquivel-Muelbert, da Universidade de Cambridge, afirmou que as árvores de grande porte são desproporcionalmente importantes para o funcionamento do bioma. Embora representem apenas 1% das árvores da floresta, são responsáveis ​​por 50% do ciclo e armazenamento de carbono, e provavelmente por uma proporção semelhante do ciclo da água.

“As florestas ficam muito mais secas depois que as árvores grandes morrem. Isso altera a estrutura da floresta e ela demora muito para se recuperar, porque as árvores grandes demoram muito para crescer”, disse Esquivel-Muelbert. “Portanto, é um pouco promissor que as vejamos aumentando em tamanho e número em toda a Amazônia. Há alguma resiliência aí.”


Fonte: The Guardian

O longo braço do lobby da soja sufoca povos indígenas na Amazônia

Como os gigantes agrícolas do Brasil estão usando a política e os agrotóxicos para expulsar os povos indígenas de suas terras 

Com a construção do terminal de Santarém, em 1998, a empresa norte-americana Cargill lançou as bases para o cultivo industrial de soja no estado do Pará. Foto: Knut Henkel 

Por Knut Henkel, de Açaizal, para o “Neues Deutschland”

Josenildo dos Santos, de 39 anos, é professor da aldeia e, como cacique, uma espécie de chefe da aldeia, representa as cerca de 70 famílias indígenas Munduruku do Açaizal perante as autoridades, na justiça e junto a empresas agrícolas. Estas últimas cultivam soja e milho nas fazendas vizinhas, grandes propriedades rurais, alternando-as. No final do verão, o milho é a cultura dominante na aldeia. A soja tem um ciclo de crescimento de apenas quatro meses , o que complementa as espigas amarelas, que levam de sete a oito meses para serem colhidas.

Especialmente ao redor da cidade amazônica de Santarém , vastas terras agroindustriais se estendem por um planalto. O cultivo de soja começou lá em 1998 – e vem se expandindo continuamente desde então. Isso ocorre frequentemente em terras reivindicadas por comunidades indígenas como os Munduruku em Açaizal. “Os processos judiciais sobre os títulos de propriedade que reivindicamos para áreas onde nossa comunidade vive há cerca de 100 anos estão em andamento desde 2000”, diz dos Santos. “Grandes áreas foram destruídas e plantadas com soja desde então.

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas começa em 10 de novembro no Brasil – bem no coração de um país onde a floresta amazônica está desaparecendo a um ritmo alarmante. Nossa série mostra a rapidez com que o desmatamento está progredindo – e quais soluções existem para o desenvolvimento econômico sustentável.

O chefe da aldeia representa sua comunidade no longo processo – apoiado pela Igreja Católica. A igreja assessora não apenas o município de Açaizal, mas também pelo menos outras cinco aldeias da região. “Onde quer que os produtores de soja avancem pela Rodovia Transamazônica , as aldeias estão sob pressão e ameaçadas de deslocamento”, explica Gilson Fernando de Jesús Rego, engenheiro agrônomo da Pastoral Rural Católica, em uma noite em Santarém. A rodovia é o elo de transporte mais importante da região.

“Os produtores de soja são muito agressivos, limpando a terra, inventando fatos — eles cultivam soja e pulverizam pesticidas até 15 vezes nos quatro meses entre a semeadura e a colheita.” Rego fala com cautela. Ele se recusa a ser fotografado e só compartilhará um novo estudo sobre conflitos de terra quando for publicado. “O lobby da soja tem um braço longo”, diz ele, em tom de desculpa.

Cultivo de soja no campo de futebol

O início do cultivo de soja no estado do Pará foi a construção de um terminal de soja pela empresa americana Cargill no porto de Santarém. Isso criou a infraestrutura para a expansão massiva do cultivo da planta, cujos grãos também são usados ​​na Europa principalmente como ração animal – em detrimento da floresta tropical. Isso é evidente nos arredores da vila de Açaizal.

Há apenas dez anos, a aldeia, com suas aproximadamente 70 casas, era cercada por uma densa floresta tropical. Pequenos agricultores como Paulo Munduruku caçavam ali, coletando castanhas-do-pará, frutas e plantas medicinais. Mas essa era está chegando ao fim. Hoje, um produtor de soja mora com sua família na aldeia – e continua a se expandir. Há alguns meses, ele exigiu que a comunidade da aldeia desocupasse o campo de futebol. “Ele disse que queria plantar soja lá”, lembra Munduruku, de 62 anos. “Quando eu me opus, junto com um dos meus filhos, ele nos ameaçou. Quase se tornou violento.”

Paulo Munduruku mora em um terreno no centro da aldeia, onde se encontram diversas castanheiras e árvores frutíferas. Ele plantou uma horta para sustentar a si mesmo e à sua família, pelo menos parcialmente. Isso costumava ser muito mais fácil antes da chegada dos produtores de soja. “Hoje, estamos cercados por fazendas de soja que ocuparam terras para as quais solicitamos o título de propriedade.” O ex-cacique recebeu ameaças de morte de produtores de soja diversas vezes porque descreve a situação com clareza.

Burocracia como arma

Este é o caso de muitas comunidades na Amazônia brasileira. Elas frequentemente têm uma relação tensa com as autoridades, que exigem provas de que as famílias vivem na região há muito tempo, que administram o meio ambiente de forma sustentável e que, portanto, têm direito legítimo à terra. Tal burocracia é estranha a muitas comunidades. “Mas sem títulos de terra, é impossível defender a área que habitamos da invasão de sociedades agrárias ou mineradoras”, explica Munduruku, com um gesto de desdém e olhando para seu sucessor, Josenildo dos Santos.

Ambos estão desgastados pela interminável batalha judicial. E veem que os produtores de soja não precisam lidar com tais obstáculos. “Eles compram pastagens de fazendeiros ou pequenos agricultores, mas também deslocam comunidades como a nossa”, critica Santos. “Eles ocupam terras – sem a intervenção do Estado. Pelo contrário: eles até recebem empréstimos.” A razão para isso é óbvia: o lobby da soja tem boas conexões com instituições públicas, pode influenciar significativamente as decisões nos parlamentos regionais e também tem um forte lobby no parlamento nacional em Brasília. O agronegócio controla financeiramente a política brasileira, explica o cientista agrícola Rego.

Moratória suspensa

De fato, os produtores de soja estão continuamente ocupando novas terras. Por um tempo, a moratória da soja acordada em 2006 – destinada a impedir o cultivo de feijão em terras recém-desmatadas – desacelerou essa expansão. No entanto, o acordo foi recentemente suspenso, tornando a soja novamente um dos principais impulsionadores da destruição da Amazônia. As metas climáticas do Brasil são, portanto, prejudicadas, e a população local está sofrendo particularmente com os desertos agroindustriais de milho e soja.

A professora dos Santos está particularmente preocupada com a saúde dos moradores quando agrotóxicos são pulverizados nas imediações da escola. “Náuseas, vômitos e até erupções cutâneas são o resultado. Aqui na aldeia, a maioria está preocupada com os efeitos que os pesticidas podem ter sobre a nossa saúde.” Sabe-se que o glifosato, sob o nome comercial Roundup, é usado no cultivo de soja. Não se sabe se outros agrotóxicos são usados. Os produtores locais de soja permanecem em silêncio sobre o assunto.

No entanto, os industriais agrícolas podem ter desconfiado da presença de uma equipe de pesquisa viajando por Santarém, realizando entrevistas e exames médicos, muitas vezes perto de escolas. Eles visitaram especificamente vilarejos no chamado corredor da soja do estado do Pará, onde o cultivo aumentou significativamente nos últimos anos.

Evidência científica

“Queremos determinar se há alguma mudança na população local”, explica Annelyse Rosenthal Figuerredo, professora da Universidade de Santarém. “Observamos pequenas mudanças nos testes cognitivos e visuais em comparação com o grupo de controle de uma área sem exposição a pesticidas. Também há alterações nas contagens sanguíneas.”

Para Figuerredo, essas são indicações claras dos efeitos negativos do uso generalizado de agrotóxicos. Embora tal descoberta científica não deva surpreender, ela é importante — é a única maneira de as agências governamentais agirem. A comunidade da aldeia de Açaizal espera que o estudo ajude a impor distâncias maiores entre edifícios residenciais e tratores que pulverizam pesticidas no futuro. O estudo ainda não foi publicado. Não está claro se será publicado antes da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas em Belém , que começa em 10 de novembro.

“É claro que sabemos que o estudo causará comoção — e que o lobby da soja tentará desacreditar os resultados e a nós, pesquisadores”, diz Rosenthal Figuerredo. “Nós respeitamos isso. Mas já sabemos de várias escolas onde crianças com intoxicação por agrotóxicos tiveram que ser tratadas em postos de saúde.”

O professor e cacique Josenildo dos Santos também quer se basear justamente nesses casos. “Precisamos de argumentos fortes contra os grandes agricultores que colhem mais soja a cada ano”, afirma. Na safra atual, o total foi de 169 milhões de toneladas — mais de 16 milhões de toneladas a mais do que em 2024. Esse aumento anda de mãos dadas com a superexploração da floresta tropical.


Fonte: Neues Deutschland

Relatório põe Brasil no centro da crise climática e diz que é hora de puxar o freio de emergência nas emissões de metano

Gado no Pará

O Brasil tem mais de 70% de suas emissões de metano ligadas à agropecuária 

BORI - Soluções para um conhecimento científico acessível

Um relatório divulgado nesta terça-feira (23) pelo Climate Crisis Advisory Group, organização formada por 19 especialistas de 12 países, aponta que o corte das emissões de metano é a ação mais rápida e barata para conter o aquecimento global ainda nesta década. O grupo internacional de cientistas descreve as ações do tipo como um “freio de emergência” capaz de evitar até 0,3°C de aquecimento se as emissões forem reduzidas em 45% até 2030. 

O documento alerta que, embora as atenções globais estejam voltadas para o dióxido de carbono (CO₂), o metano é responsável por cerca de 30% do aquecimento já registrado e tem efeito mais de 80 vezes mais potente do que o CO₂. Por permanecer pouco mais de uma década na atmosfera, cada corte nas emissões gera efeito imediato de resfriamento, perceptível em poucos anos.

O Brasil ocupa posição central nesse desafio. O país concentra mais de 70% de suas emissões de metano na agropecuária, principalmente na criação de gado. Resíduos e energia completam o quadro. Para os autores, essa configuração coloca o Brasil simultaneamente como um dos maiores riscos e uma das maiores oportunidades globais de liderança. O programa federal “Zero Metano”, lançado em 2022, é citado como carente de metas claras e mecanismos robustos de monitoramento, com risco de se tornar apenas simbólico se não for integrado a políticas agrícolas e de uso da terra mais amplas.

O estudo apresenta medidas de baixo custo já disponíveis. Na energia, recomenda banir a queima e o descarte de metano em poços de petróleo e gás, adotar monitoramento rigoroso de vazamentos e garantir transparência nos relatórios de emissões. Na agricultura, propõe limites estritos para grandes propriedades de gado e laticínios, incentivo a ações que diminuam a produção de metano e sistemas de manejo de esterco que permitam gerar biogás em pequenas propriedades. No setor de resíduos, pede coleta universal, desvio de orgânicos de aterros e incentivo à compostagem e ao uso de bioenergia.

Para a ecóloga Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília e integrante do grupo, o momento é de transformar o desafio em oportunidade. “A oportunidade de combater a mudança do clima por meio da redução das emissões de metano é também uma oportunidade de reformular nossos sistemas agroalimentares. Isso significa dar mais transparência sobre os impactos da cadeia de produção de alimentos, melhorar a sustentabilidade, garantir água e segurança alimentar, proteger a saúde e promover justiça social”, afirma.

“O metano é o único freio de emergência que temos à disposição. As soluções estão prontas, são acessíveis e trazem ganhos imediatos para a saúde, a segurança alimentar e os meios de vida. Em países como o Brasil, onde a agricultura é parte central da economia, não agir equivale a investir na própria queda”, diz David King, presidente do Climate Crisis Advisory Group.

O Climate Crisis Advisory Group inclui autoridades de destaque em ciência do clima, emissões de carbono, energia, meio ambiente e recursos naturais. Alguns de seus membros também participam de conselhos consultivos governamentais. Sua função é complementar, e não substituir, esses outros papéis. A atuação envolve análises aprofundadas de questões políticas e financeiras, inclusive daquelas que ainda não estão presentes nas agendas governamentais. Todos os cientistas concordaram em dedicar seu tempo de forma voluntária, sem qualquer remuneração.

A lista completa de recomendações inclui:

Energia

  • Proibir o venting, ou seja, impedir que empresas liberem metano diretamente na atmosfera
  • Proibir o flaring rotineiro, encerrando a queima de gás nos poços, prática poluidora e desperdiçadora
  • Detectar e reparar vazamentos com monitoramento regular e reparo imediato em toda a infraestrutura de óleo e gás
  • Garantir transparência por meio de relatórios independentes e robustos sobre emissões, usando as melhores técnicas e tecnologias disponíveis

Agricultura

  • Estabelecer limites rígidos de intensidade de metano em fazendas de gado de corte e leite, com monitoramento e fiscalização
  • Exigir manejo responsável do esterco, com tratamento e armazenamento adequados para evitar liberação de metano, conforme o porte da fazenda
  • Reduzir emissões de ruminantes por meio de práticas alimentares que diminuam significativamente o metano
  • Apoiar pequenos produtores com recursos, capacitação e infraestrutura para cortar emissões e acessar energia limpa
    Reduzir emissões da produção de arroz e da aquicultura com práticas de manejo comprovadas

Resíduos

  • Fortalecer regras de gestão de resíduos, com coleta universal, separação, reciclagem e desvio de materiais do aterro
  • Impedir o envio de alimentos e outros resíduos orgânicos para aterros, direcionando-os para compostagem, biogás ou biochar
  • Apoiar sistemas circulares de alimentos, reformando cadeias alimentares, educando populações para reduzir desperdício na origem, incentivando mudanças na dieta e garantindo acesso a alimentos de baixa emissão
    Trabalhar com comunidades por meio de centros locais, inclusão de trabalhadores informais e infraestrutura acessível para mudanças de baixo para cima
  • Monitorar e capturar o metano de aterros, exigindo acompanhamento rigoroso e sistemas de coleta baseados nas melhores práticas compatíveis com a capacidade local

O relatório completo pode ser acessado no link: http://www.ccag.earth/reports/methane-the-emergency-brake-for-climate-heating


Fonte: Agência Bori

Agrotóxicos no seu prato – Novo estudo alerta para a necessidade de compreender melhor os efeitos na saúde

Por Carey Gillam para o “The New Lede” 

Comer muitas frutas e vegetais é recomendado como essencial para uma dieta saudável, mas novas pesquisas ressaltam que o consumo de alimentos favoritos da família, como morangos, pêssegos, espinafre e couve, geralmente vem acompanhado de resíduos de agrotóxicos que podem prejudicar sua saúde.

Usando conjuntos de dados gerados por pesquisadores do governo dos EUA, uma equipe que inclui cientistas do Environmental Working Group (EWG) e da Brown University School of Public Health disse no estudo divulgado na quarta-feira que eles descobriram que os alimentos que tinham as maiores cargas de agrotóxicos incluíam espinafre, couve, morangos, batatas, nectarinas, pêssegos, maçãs e passas.

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) afirmam que frutas e vegetais “fornecem vitaminas e minerais essenciais, fibras e outras substâncias importantes para uma boa saúde”.

“Comer frutas e vegetais como parte de um plano alimentar saudável pode reduzir o risco de alguns tipos de câncer e doenças crônicas”, afirma a agência em seu site .

Mas o novo estudo, publicado no International Journal of Hygiene and Environmental Health, analisou a relação entre o consumo de alimentos contaminados com agrotóxicos e os níveis de resíduos presentes na urina humana. O estudo alerta que o consumo de certos alimentos contaminados com agrotóxicos leva a níveis mais elevados de resíduos encontrados no soro humano. O estudo afirma que é necessário um melhor monitoramento dos potenciais impactos da exposição a agrotóxicos sobre a saúde.

“As descobertas reforçam que o que comemos afeta diretamente o nível de agrotóxicos em nossos corpos”,   disse Alexis Temkin, Ph.D. , vice-presidente de ciência do EWG e principal autor do estudo, em um comunicado à imprensa. “Comer vegetais é essencial para uma dieta saudável, mas também pode aumentar a exposição a agrotóxicos.”

O estudo cita pesquisas que relacionam a exposição a agrotóxicos a uma série de problemas de saúde, incluindo aumento do risco de câncer, resultados adversos no parto, danos neurológicos, toxicidade respiratória, toxicidade reprodutiva e função hormonal prejudicada.

“O biomonitoramento de  agrotóxicos é essencial para a proteção da saúde pública”, afirma o estudo. “O desenvolvimento de métodos analíticos para medir a exposição interna a uma gama mais ampla de agrotóxicos também ajudaria a compreender os efeitos na saúde associados a essas exposições.”

Os pesquisadores disseram que criaram um “índice de carga de agrotóxicos” para classificar produtos com base em dados nacionais de testes de resíduos coletados pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), principalmente entre 2013 e 2018 para 44 tipos de produtos.

As pontuações de exposição alimentar a pesticidas para 1.837 indivíduos foram então calculadas com base em informações sobre o consumo de produtos agrícolas retiradas da Pesquisa Nacional de Exame de Saúde e Nutrição (NHANES) de 2015-2016 do CDC. Os índices de carga de agrotóxicos foram calculados com base na detecção de 178  produtos parentais únicos, ou 42 agrotóxicos parentais com biomarcadores urinários correspondentes na NHANES.

Os pesquisadores disseram que o estudo aumenta as dúvidas sobre a abordagem da Agência de Proteção Ambiental em relação aos resíduos de agrotóxicos em alimentos, já que a agência estabelece limites para substâncias individuais, mas não leva em conta o fato de que as pessoas normalmente consomem resíduos de uma série de substâncias que contaminam produtos alimentícios.

O Dr. Philip Landrigan, pediatra e especialista em toxinas ambientais e diretor do Observatório Global de Saúde Planetária do Boston College, disse que a exposição a agrotóxicos na dieta pode ser particularmente preocupante para crianças.

“Pode ser verdade que um baixo nível de uma determinada substância química não seja motivo de preocupação para um adulto. Mas tudo se complica quando se trata de crianças e bebês ainda não nascidos no útero”, disse ele.

“O monitoramento é muito importante. Como pediatra, sempre fico irritado quando pessoas que não estudaram medicina dizem que a presença de uma substância química tóxica no corpo humano não é motivo de preocupação”, disse Landrigan.

(Foto em destaque de  Engin Akyurt  no  Unsplash.)


Fonte: The New Lede

Estudo feito na França revela a presença de toneladas de agrotóxicos estocadas nas nuvens

Medições feitas em Puy-de-Dôme mostram a presença de dezenas de agrotóxicos no interior das nuvens, alguns dos quais estão proibidos há vários anos, com concentrações que excedem os limites da União Europeia para água potável

A uma altitude de 1.500 metros, pesquisadores do Laboratório de Meteorologia Física da Universidade de Clermont-Ferrand descobriram 32 substâncias diferentes. (PASCAL POCHARD-CASABIANCA / AFP)

A uma altitude de 1.500 metros, pesquisadores do Laboratório de Meteorologia Física da Universidade de Clermont-Ferrand descobriram 32 substâncias diferentes. (PASCAL POCHARD-CASABIANCA / AFP)

Por FranceInfo 

Até 140 toneladas de agrotóxicos foram encontradas nas nuvens, de acordo com um estudo publicado por uma equipe científica da Universidade de Clermont-Ferrand (Puy-de-Dôme), informou a France Inter no domingo, 21 de setembro.

A uma altitude de 1.500 metros, no topo do Puy de Dôme, pesquisadores do Laboratório de Meteorologia Física da Universidade de Clermont-Ferrand, auxiliados por colegas italianos, descobriram 32 substâncias diferentes: herbicidas, inseticidas, fungicidas e até produtos proibidos há vários anos por sua periculosidade. Eles coletaram seis amostras de nuvens de diferentes estações do ano e descobriram que metade delas continha concentrações que excediam os limites estabelecidos pela União Europeia para água potável.

Agrotóxicos de outros lugares

Com base nessas amostras, os cientistas estimaram a quantidade total transportada pelas nuvens. É muito mais do que eles imaginavam: entre 6 e 140 toneladas de pesticidas, dependendo da circulação das nuvens. Como produtos proibidos na Europa são encontrados lá, eles devem ter vindo de outro lugar, já que os agrotóxicos são voláteis. Espalhados no solo, eles evaporam, se movem com as massas de ar e, então, empurrados pelo vento, são depositados novamente em outro lugar.

Esse efeito gafanhoto pode ocorrer em longas distâncias, como sugere como sugere este estudo publicado na Environmental Sciences & Tecnology . Em outras palavras, mesmo em áreas sem tratamento, como os polos ou montanhas, os agrotóxicos caem nas chuvas. Essa poluição, insuspeitada por sua escala, pode explicar em parte a poluição generalizada dos cursos d’água.


Fonte: FranceInfo

As duas faces de Lula: líder climático global versus paladino da devastação amazônica

O presidente Lula é um daqueles personagens históricos que já alcançaram a transcendência de suas pessoas físicas.  A longa trajetória de criança pobre migrante para líder de uma das maiores economias do planeta dá essa condição a ele. Goste-se ou não dele, Lula já é uma daquelas figuras que estão marcadas na história não apenas do Brasil, mas do mundo.

Dito isso, Lula é uma daquelas esfinges que são aparentemente difíceis de serem decifradas. Basta ver a última participação na Assembleia Geral das Nações Unidas onde apareceu a face do líder carismático e antenado com as coisas do mundo, a começar pela luta em prol dos palestinos onde ele foi duro e certeiro. Mas o discurso de Lula também abrangeu áreas delicadas como a guerra contra a fome e a pobreza, bem como sobre a necessidade proteger o ambiente, a começar pela necessidade de se encontrar respostas para os problemas derivados das mudanças climáticas.  Lula inclusive propôs a criação de um conselho para monitoramento das ações climáticas globais e conclamou os países a se comprometerem com metas ambiciosas para redução de emissão dos gases que causam o efeito estufa.

Esse é a face de Lula que é consumida globalmente. A de um líder de esquerda pragmático, mas que não tem medo de tocar nos problemas candentes do mundo, nem de criticar, ainda que indiretamente, as pressões autoritárias do presidente Donald Trump contra a democracia, especialmente a brasileira. Digamos que esse é o Lula para o consumo externo, aquele que recebe afagos até de quem ele acabou de criticar, como foi o caso de Trump.

A outra face de Lula, a doméstica

Porém, para o consumo interno, sobre a outra face de Lula. Aquela face que deixa os grandes discursos de lado e parte para os acordos diretos e retos para manter o Brasil na sua condição de economia agromineral, e cada vez mais desindustrializada.  E é justamente na Amazônia que essa face doméstica mais causa danos porque impõe uma visão de economia do Século XIX, a da fronteira de recursos.

Quando Lula assumiu seu primeiro mandato, escrevi um texto na revista NovaAmérica onde eu previa um ataque à Amazônia por parte do governo que assumia.. Me baseei para fazer essa previsão em declarações que Lula fez durante a festa de Parintins onde ele atacava as restrições criadas pelo licenciamento ambiental para a expansão das hidrelétricas na Amazônia.  Depois disso, vimos a construção de Belo Monte e das hidrelétricas do Rio Madeira.  O fato é que com base no discurso Neodesenvolvimentista, o primeiro governo Lula acabou fazendo coisas que nem os governos militares conseguiram, sempre sob o manto do discurso em prol do desenvolvimento.

Agora em seu terceiro mandato, Lula resolveu atacar os técnicos do IBAMA por causa das exigências técnicas para liberação das licenças ambientais para exploração do petróleo na Foz do Amazonas que ele rotulou de “lenga-lenga”.  Depois de todas as pressões pouco republicanas, as licenças estão sendo concedidas sem que os problemas identificados pelos técnicos do IBAMA tenham sido resolvidos. 

Mas é na pavimentação da BR-319 que essa face pró-devastação de Lula fica ainda mais clara, pois até uma medida provisória (a 1308/25)  foi promulgada para estabelecer a chamada Licença Ambiental Especial (LAE). A questão é que a LAE permitirá não apenas a exploração do petróleo na Foz do Amazonas, mas também a pavimentação da BR-319, cujos efeitos sociais e ecológicos deverão ser devastadores sobre o último grande bloco intacto de floresta na Amazônia.   Mas a pavimentação da BR-319 também atingirá em cheio comunidades tradicionais, terras indígenas e a população da cidade Manaus, conforme mostrou artigo que foi divulgado neste espaço no dia de hoje.

Duas faces da mesma moeda

A verdade é que não me parece haver contradição alguma entre as duas faces de Lula. O que ele faz no plano internacional é fortalecer a sua imagem para tratativas que dependem diretamente da sua capacidade de fazer valer sua visão de desenvolvimento econômico no plano interno.  Eu diria que ele age para se colocar em uma posição de negociador menos precário, pois com a imagem de paladino de uma esquerda que não assusta, ele consegue impor sua agenda agromineral com mais facilidade no plano interno.  

E é até por isso que os governantes das economias centrais gostam de Lula, pois ele é um tipo de mascate viajante em quem se pode confiar. Ao contrário do instável Jair Bolsonaro que, acima de tudo, demonstrou ser um incompetente completo no tipo de tratativa em que Lula é mestre.

O problema é que mantidas as condições normais de temperatura e pressão em que Lula opera, o que teremos pela frente é mais devastação ambiental, mais agrotóxicos e mais dependência de produtos industrializados importados.  Tudo isso em nome de um modelo de desenvolvimento que se já era ruim no Século XIX, imaginem agora em um mundo que ronda o colapso climático.

Tribunal de Justiça do RS libera uso de agrotóxico 2,4-D para safra 

Denúncias de deriva do 2,4-D caem, mas produtores de uva continuam sofrendo  perdas | GZH

Deriva de 2,4-D causa morte de parreirais na campanha gaúcha

Por Sílvia Lisboa para “Matinal”

Em decisão publicada em 15 de setembro, o desembargador Francesco Conti, do Tribunal de Justiça gaúcho, manteve a decisão que suspendeu a proibição do agrotóxico 2,4-D. Com isso, o herbicida poderá ser usado no plantio da soja, que começa neste mês.

O governo de Eduardo Leite (PSD) entrou com um recurso contra a decisão da juíza Patrícia Laydner, titular da Vara de Meio Ambiente, que proibiu temporariamente uso do herbicida até que o estado delimitasse zonas de exclusão ou um zoneamento que protegesse as culturas da uva, da maçã, das oliveiras e a fruticultura, em geral, que são destruídas pela deriva do herbicida. O recurso pedia o efeito suspensivo da decisão da primeira instância, alegando que “as perdas na Região da Campanha poderiam ser superiores a 30% nas lavouras de grãos.”

Conti julgou procedentes os argumentos da ação civil pública em nome de duas associações de produtores de vinho e maçã que entraram com a ação civil pública em 2020, solicitando a proibição do uso do 2,4-D, um dos componentes do Agente Laranja, uma arma química usada na Guerra do Vietnã. O produto é muito usado nas lavouras da soja, milho, arroz e outros grãos e cereais, mas inviabiliza os cultivos de frutas e oleaginosas. O desembargador entendeu que, até ser analisado o mérito da apelação do estado, que quer manter o herbicida em uso, fica suspensa a proibição. Ou seja, até a ação não ter transitado em julgado, o 2,4-D seguirá liberado ao uso no Rio Grande do Sul.

Entramos em contato com a Associação de Vinhos Finos da Campanha, uma das autoras da ação, mas não obtivemos retorno até o fechamento desta notícia. O espaço segue aberto.

Para o deputado estadual Adão Pretto Filho (PT), vice-presidente da subcomissão sobre herbicidas hormonais da Assembleia Legislativa, a decisão é resultado da falta de diálogo do governo com os setores produtivos.

“O governo teria a oportunidade de dialogar com esses setores tão importantes, da fruticultura, da uva, das hortaliças, e tão afetados pelo 2,4-D e outros hormonais, mas de forma autoritária foi ao judiciário, pensando só no benefício econômico de alguns”, declara. “Lamentavelmente, a iniciativa foi tomada sem diálogo e de forma atrasada. A ciência e os pesquisadores já conhecem o mal que esses venenos fazem para o nosso estado.”

Além dos prejuízos aos cultivos de frutas e hortaliças, o 2,4-D causa danos à saúde humana. A Organização Mundial de Saúde (OMS) o classifica como possivelmente cancerígeno para humanos. Um dossiê da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) mostra que a substância está associada a problemas endócrinos, formação de câncer e malformações fetais.

A Assembleia Legislativa do RS criou uma subcomissão para debater o assunto que opõe o setor agrícola do estado. Em um relatório, a subcomissão propôs um novo marco regulatório com 10 medidas estruturantes que tentam melhorar as ações de fiscalização, regrar a aplicação do agrotóxico, criar um fundo para indenizar produtores atingidos e outro para premiar aqueles que conservam os biomas, entre outras ações.


Fonte: Matinal

Flores (agro) tóxicas: sem limite de agrotóxico, cultivo de flores põe em risco saúde de produtores e clientes

Produção de flores ornamentais não é monitorada quanto à aplicação correta de agrotóxicos e dispensa análise de resíduos químicos no produto final; falta de normas leva ao uso excessivo de pesticidas, segundo pesquisadores 

Mercado de flores ornamentais não passa por controle de resíduos de agrotóxicos no mercado, o que é visto como um risco à saúde (Ilustração: Rodrigo Bento/Repórter Brasil) young beautiful couple happy man and woman with bouquet of flowers smiling cheerfully embracing happy in love celebrating international women's day march 8 standing over orange background

Por Adriana Amâncio | Edição Diego Junqueira para “Repórter Brasil”

Quem visita uma unidade de produção de plantas ornamentais, como as usadas em festas de casamento, pode se deparar com impressões conflitantes. Por um lado, a inegável beleza das flores. Por outro, o forte cheiro dos agrotóxicos — responsáveis por náusea e dores de cabeça em quem lida diariamente com a atividade. 

Em 2024, o setor empregou 265 mil trabalhadores e movimentou mais de R$ 21 bilhões. Apesar da escala, o cultivo de plantas ornamentais não é monitorado em relação à aplicação correta de agrotóxicos e está sujeito a regras mais brandas que as exigidas nas lavouras de alimentos. 

Órgãos competentes, como Anvisa e Ministério da Agricultura, não estabelecem, por exemplo, limites de segurança de resíduos dessas substâncias para o cultivo desse tipo de planta. Estudos recentes, porém, têm mostrado que a falta de normas e de fiscalização coloca em risco não só a saúde dos trabalhadores, mas também a dos clientes. 

“Já tive dor de cabeça, enjoo, tontura. Mesmo com o EPI [equipamento de proteção individual], a gente sente”, conta um produtor de Nova Friburgo (RJ), um dos polos de produção no país, que prefere não se identificar. 

Aos 27 anos, o produtor mantém um hectare de flores como boca-de-leão, áster mariana e tango, comumente usadas em buquês, arranjos e decoração de eventos.

Com poucos agrotóxicos com aplicação indicada para esses tipos de flores, o agricultor recorre a produtos de outras culturas. É o caso do Verango, fabricado pela Bayer e recomendado para frutas, grãos e legumes.

O fungicida é um dos mais usados pelo produtor, cujo trabalho é em boa parte manual. “A aplicação é feita com um jato conectado a um motor, que suga a mistura de agrotóxico com água direto da bomba até a copa das flores”, descreve.

Ele aplica 1 litro por hectare. Essa é a dose máxima indicada na bula do Verango para a maioria das frutas, mas está acima do prescrito para culturas como algodão e soja. Como o produto não é indicado para flores, o floricultor de Nova Friburgo (RJ) não conta com nenhuma orientação precisa sobre a forma correta de uso do Verango.

“Eu aplico semanalmente, sempre às sextas, e realizo a colheita nas segundas. Tem produtor que pulveriza, já colhe e leva para o consumidor final”, conta. Em dias de pouca ventilação, as gotículas de agrotóxico não se disseminam bem e formam “uma névoa branca sobre as flores que demora a sair”, detalha o produtor. 

A bula do Verango recomenda para algumas frutas o intervalo de segurança de três dias entre a última aplicação e a colheita. No caso do tomate, o período de carência é de 30 dias. Como não há indicação para flores, o produto sequer foi testado para plantas ornamentais.

A falta de opções de agrotóxicos para esse tipo de atividade é explicada pelo fato de as flores integrarem a categoria de Cultura com Suporte Fitossanitário Insuficiente (CSFI), explica o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente Robson Barizon. Trata-se de um grupo de cultivos para o qual há poucos agrotóxicos registrados pelas indústrias, por serem considerados de pequeno porte. 

“As indústrias priorizam produtos destinados a culturas maiores, com maior retorno financeiro”, afirma Barizon. Com isso, os agricultores acabam recorrendo a produtos registrados para outras lavouras, como a soja. A praga pode até ser a mesma que afeta as flores, explica o pesquisador, mas as diretrizes de segurança não foram testadas para a espécie.

O uso irregular de agrotóxicos revela também falhas na fiscalização pelo poder público, afirma Luiz Cláudio Meirelles, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e ex-gerente da área de toxicologia da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

“Os agrotóxicos só podem ser vendidos com receitas agronômicas. Se o agrônomo sabe que o produtor está comprando um produto sem registro para usar em flores, ele precisa ser responsabilizado. Se o agricultor adquire um agrotóxico sem receita, a fiscalização precisa atentar para isso”, resume.

Cultivo de flores faz parte do grupo de culturas com poucos agrotóxicos disponíveis no mercado por desinteresse da indústria (Foto: Arquivo pessoal)
Cultivo de flores faz parte do grupo de culturas com poucos agrotóxicos disponíveis no mercado por desinteresse da indústria (Foto: Arquivo pessoal)

Setor não monitora limites de agrotóxicos no produto final

Apesar do número insuficiente de agrotóxicos, o cultivo de flores deveria ter regras mais claras para o uso dos químicos, de acordo com especialistas consultados pela Repórter Brasil. 

O setor deveria, por exemplo, passar por controle de resíduos de agrotóxicos no produto final. Mas como se trata de um item “não alimentar”, a legislação dispensa a definição do LMR (Limite Máximo de Resíduo).

Esse parâmetro define a quantidade máxima aceitável de resíduos que pode ser encontrada em determinado produto. O objetivo é evitar a aplicação em excesso dos agrotóxicos e reduzir o risco de contaminação. “Se o produto final é analisado e têm uma quantidade acima do permitido, pode indicar que o produtor aplicou mais vezes do que o indicado ou colheu antes do prazo”, explica Barizon. 

A falta de limites de segurança é considerada “alarmante” pela cientista ambiental Patrícia Pereira, do Instituto de Biofísica da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). “Cria muitos pontos nebulosos”, avalia.

“O produtor rural em campo está mais exposto à contaminação dérmica, pela pele. E o consumidor final também pode ter contato com os agrotóxicos residuais nas flores. Mas ninguém sabe a quantidade”, alerta Patrícia.

A pesquisadora é uma das autoras de um estudo publicado em 2021 sobre os riscos de exposição humana e contaminação ambiental na floricultura. A pesquisa concluiu que a falta de limites de agrotóxicos para as flores de uso ornamental pode levar ao uso excessivo de químicos no plantio.

O estudo fez uma revisão bibliográfica de pesquisas realizadas em várias partes do mundo e identificou 201 químicos adotados na produção de flores. Quase metade deles (94) é proibida na Europa, região com regras rigorosas para uso de agrotóxicos. Na Bélgica, um dos maiores produtores globais, resíduos tóxicos foram encontrados em amostras de flores e nas luvas usadas pelos trabalhadores.

Sobre o impacto à saúde, as pesquisas analisadas indicavam alterações no desenvolvimento neurocomportamental, disfunções endócrinas, distúrbios reprodutivos e malformações congênitas em trabalhadores e moradores de áreas produtivas. “No entanto, há pouca informação sobre a exposição por via oral e inalatória”, diz o estudo. 

Para a pesquisadora, o Brasil deveria definir limites de agrotóxicos no cultivo de ornamentais. “O LMR vai obrigar o registro adequado dos produtos para este tipo de cultura, criar parâmetros para coibir o uso excessivo e estabelecer o intervalo de segurança, evitando que o produtor defina esse prazo por conta própria”, explica.

“É fundamental estabelecer LMR específicos para o setor ornamental e criar incentivos para o registro de pesticidas adequados”, concorda o engenheiro agrônomo Márcio Godoi, pesquisador do Centro de Energia Nuclear na Agricultura, ligado à Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo). “Essas medidas são essenciais para garantir maior segurança ao consumidor, proteger o meio ambiente e promover uma produção de flores e plantas ornamentais mais sustentável”, afirma.

Um representante dos produtores ouvido pela reportagem reconhece os riscos na cadeia produtiva. “Temos poucos produtores associados, mas eles estão cientes que o uso de agrotóxicos é prejudicial à saúde. Mas sem agrotóxicos eles não conseguem colher um produto de qualidade”, diz Amauri Verly, presidente da Associação de produtores da Vargem Alta (Afloralta), de Nova Friburgo.

Nova Friburgo registrou 15 intoxicações exógenas por agrotóxico agrícola desde 2021, segundo o painel VSPEA. Em Holambra foram 11 casos oficiais, mas especialista apontam subnotificação (Foto: Arquivo Pessoal)
Nova Friburgo registrou 15 intoxicações exógenas por agrotóxico agrícola desde 2021, segundo o painel VSPEA. Em Holambra foram 11 casos oficiais, mas especialista apontam subnotificação (Foto: Arquivo Pessoal)

Uso de agrotóxicos potencialmente cancerígenos

Um dos motivos de preocupação é o fato de o setor usar agrotóxicos ligados a graves problemas de saúde, como o mancozebe e a abamectina, conforme contaram à Repórter Brasil produtores de Nova Friburgo e Holambra (SP), maior produtora nacional.

O mancozebe, ingrediente usado em produtos como o Ridomil, está associado a casos de câncer de tireoide. E a abamectina é investigada pela relação com infertilidade e baixa qualidade do sêmen.

A abamectina já passou por duas reavaliações da Anvisa, nos anos de 2008 e  2018. Na primeira, a Fiocruz emitiu uma nota técnica considerando que o produto provoca “toxicidade para o sistema nervoso, endócrino, reprodução e desenvolvimento”. Já em 2018, também optou-se por mantê-lo no mercado “com adoção de medidas de mitigação de riscos à saúde e necessidade de alterações no registro, monografia e bulas.”

O pesquisador da Fiocruz Luiz Cláudio Meirelles considera “perigoso destinar agrotóxicos carcinogênicos e com alta toxicidade para o cultivo de flores”. A solução mais viável, diz ele, seria os órgãos de registro priorizarem produtos biológicos, com baixa toxicidade. “Mais do que registrar, [é preciso] garantir o acesso, pois muitos agricultores sequer sabem que esses produtos existem e podem ser usados”, afirma.

“O cenário estufa, que é um ambiente fechado, aumenta os riscos [de contaminação] e precisa ser considerado para determinar medidas adequadas”, continua Meireles. 

Outro aspecto que levanta preocupação é a dependência do trabalho manual para o cultivo. Por se tratar de um produto sensível, isso ocorre em todas as etapas de produção, desde a colheita, pós colheita, embalagem e até a organização de arranjos e buquês. “É onde o funcionário da indústria floral tem o maior contato com esses produtos”, afirma o engenheiro agrônomo Márcio Godói, pesquisador da Esalq/USP.

“Essa exposição prolongada pode provocar a contaminação pela pele, que tem potencial de 10% de levar o agrotóxico à corrente sanguínea”, explica Godoi. “E as mãos, assim como a inalação, têm 100% de potencial de levar o produto à corrente sanguínea”, continua.

Mas os mais expostos são os produtores de flores, “pela demanda por aplicações sequenciais na alta temporada de vendas”, finaliza.

O que dizem Ibraflor e Anvisa?

Procurado pela Repórter Brasil, o Ibraflor (Instituto Brasileiro de Floricultura) afirmou que já existem no mercado opções de produtos registrados para as plantas ornamentais. “Além disso, muitos produtores não usam mais defensivos agrícolas e preferem optar por controle biológico”, diz a nota enviada à reportagem.

A Anvisa afirmou que “as flores não são consideradas culturas de uso alimentar e, de acordo com a legislação vigente, não são exigidos estudos de resíduos para tais culturas (RDC 4/2012, Art. 7º, § 4º).”

Ainda segundo o órgão, “as flores se enquadram no tipo de cultivo de plantas ornamentais, para o qual foi estabelecido regramento específico”, por meio de uma instrução normativa de 2019, assinada conjuntamente por Anvisa, Mapa e Ibama. “Este ato estabelece diretrizes para o registro de agrotóxico e afins destinados ao uso agrícola em cultivos de plantas ornamentais, bem como para inclusão desses usos em produtos já registrados”, diz a nota.


Fonte: Repórter Brasil