Observatório dos Agrotóxicos: governo Lula libera mais 42 agrotóxicos e mantém marcha do envenenamento

Nesta segunda-feira (08/9), o governo Lula liberou o registro de mais 42 agrotóxicos por meio do Ato No. 41 de 05 de setembro de 2025, mantendo firme a marcha do veneno como ferramenta de primeira hora para a manutenção de um modelo de agricultora fortemente dependente de venenos agrícolas. Todos esses produtos na condição de produto técnico que são a forma concentrada que depois é transformada em produtos formulados que são os que são aplicados nos campos agrícolas.

Como já tem sido acompanhado desde janeiro de 2019, este ato mantém as características de liberar registros de produtos pertencentes a empresas chinesas, confirmando a China como principal fornecedora de agrotóxicos para o Brasil. Essa não é um característica que ocorre ao acaso, na medida em que a China é hoje a principal compradora dos principais produtos da agricultura de exportação brasileira. Além disso, fica patente o padrão de troca desigual entre os produtos brasileiros e chineses, já que os preços das commodities brasileiras estão sujeitas a momentos de queda, enquanto os preços dos agrotóxicos possuem perfil de alta constante.

Por outro lado, está confirmada a opção por agrotóxicos genéricos, muitos proibidos nos países cujas empresas possuem as patentes dos produtos originais. Com isso, aumenta a exposição ambiental e humana a produtos conhecidos por serem causadores de danos sobre a cadeia biótica, alcançando os seres humanos. Um destaque negativo é a aprovação de registros do herbicida Diquat, desenvolvido originalmente pela sino-chinesa Syngenta, que tem sido associado a problemas neurológicos por ser neurotóxico.

Mais essa rodada de aprovações de registros apenas confirmam que o governo Lula não tem feito o esforço necessário para diminuir o uso de agrotóxicos pela agricultura brasileira, o que representa um abandono das promessas eleitorais em prol de um modelo de agricultura menos dependente de venenos.

Apenas um de 81 projetos para economia marítima brasileira beneficiou comunidades tradicionais

pesca artesanal e economia azulDe um montante de R$ 22 bi, apenas R$ 8 mil foram direcionados à pesca artesanal

A economia marítima brasileira, chamada de Economia Azul, é frequentemente apresentada como uma oportunidade para conciliar crescimento econômico e sustentabilidade. Porém, ela tem se desenvolvido de forma desigual, pois ignora os povos do mar e comunidades pesqueiras tradicionais, que são afastadas da distribuição dos benefícios oceânicos.

Publicado em 4 de setembro na revista Desenvolvimento e Meio Ambiente, o trabalho mostra que os investimentos nacionais priorizam o potencial de grandes empreendimentos econômicos e setores como petróleo e gás, indústria naval, portuária, transporte marítimo, turismo, biotecnologia marinha e mineração em mar profundo.

Os pesquisadores analisaram as interações entre a pesca artesanal e as políticas de Economia Azul no Brasil entre 2012 e 2020. Para isto, revisaram literatura acadêmica e relatórios técnicos, analisaram dados de cinco plataformas nacionais e internacionais sobre conflitos socioambientais e levantaram informações sobre investimentos de cinco bancos e agências internacionais. Dos 1.459 projetos identificados no Brasil no período, 81 foram classificados como ligados à Economia Azul – com investimentos de US$ 4 bi (cerca de R$ 22 bi). Porém, apenas um deles, com valor de US$ 1.500 (cerca de R$ 8 mil), foi diretamente voltado à pesca e aquicultura, indicando baixa prioridade para o setor.

O artigo identificou, no período, 133 casos de conflitos envolvendo pesca artesanal no país. Eles estão ligados a desenvolvimento costeiro, mudanças no uso do território (como degradação ambiental, especulação imobiliária e restrições de acesso) e atividades do setor energético, especialmente no Sudeste e Nordeste, como exploração de petróleo, energia eólica e usinas.

Iniciativas rotuladas como Economia Azul podem ser vistas como “projetos de morte” para essas comunidades, ameaçando seus territórios, causando degradação ambiental, perda de acesso a recursos e violação de direitos humanos, sem consulta prévia, livre e informada, conforme define uma das lideranças do setor da pesca entrevistadas pela pesquisa. A pesquisadora Deborah Prado, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e uma das autoras do artigo, comenta: “O que nos surpreendeu foi a clareza com que o cruzamento dos dados sobre conflitos e injustiças vivenciadas pelas comunidades a partir de uma série de base de dados revelou-se alinhado ao baixo investimento no setor, evidenciando um cenário mais crítico do que imaginávamos”.

Para fortalecer as comunidades pesqueiras e ribeirinhas e garantir uma Economia Azul mais justa — uma “Justiça Azul” –, os pesquisadores sugerem políticas que garantam a proteção dos territórios tradicionais de pesca, os “maretórios”, assegurando o acesso seguro ao espaço marinho e aos recursos; e a implementação de regulamentações e legislações específicas que considerem as particularidades e a diversidade da pesca artesanal. “Valorizar a cadeia produtiva do pescado artesanal significa fortalecer a resiliência dessas populações, preservar conhecimentos ecológicos tradicionais e contribuir para um modelo de Economia Azul mais inclusivo e sustentável”, explica Deborah Prado.

O grupo de pesquisa pretende dar continuidade aos estudos sobre o tema, visto que as análises do artigo abrangem dados até o ano de 2020.  As futuras pesquisas buscarão avaliar a participação social das comunidades pesqueiras nesse processo e como avançar em arranjos de governança costeira e marinha que sejam mais equitativos.


Fonte: Agência Bori

Os “patriotas” da Avenida Paulista enlameam a si mesmos. Depois ainda reclamam do azar

Como alguém que viveu vários anos nos EUA e ainda tenho lá um grande número de amigos e parceiros acadêmicos, tenho as melhores lembranças do aprendizado que eu consegui. Primeiro no Laboratório Nacional de Oak Ridge, passando pela Virginia Tech, e finalizando na Fairfield University.  Pude aprender e conhecer um pouco das profundezas da sociedade estadunidense, e as parcerias e camaradagens que tive serão sempre parte das minhas melhores memórias.  E sim, pude conhecer o que há de melhor, sem esquecer que ali também existem problemas sociais gravíssimos.

Por isso, mesmo sendo uma pessoa de esquerda a maior parte da minha vida, não sou um inimigo dos habitantes daquele país. É que eu sei que aquela é uma sociedade mais complexa do que os estereótipos nos fazem crer.  Eu sei também por experiência pessoal que existem por lá incontáveis lutadores sociais e defensores das mesmas causas que eu abracei e que me fazem agir todos os dias.  Sim, e que por lá as pessoas são capazes de exibiri extrema gentileza, camaradagem e compromisso por dias melhores para todos no planeta.

Pois bem, deixando as coisas claras, eu só posso lamentar por termos brasileiros que conseguem passar a vergonha de estender uma bandeira dos EUA no dia em que celebramos a independência do Brasil. É daqueles vexames que só gente muito alienada e complexada pode ser deixar passar.  A vantagem é que esses falsos patriotas nos mostraram hoje que deles não se pode esperar qualquer tipo de coerência e entendimento da realidade. É que ao segurar a bandeira dos EUA para defender as medidas arbitrárias do governo Trump contra a nossa soberania nacional, essas figuras trágicas e patéticas se colocam na nossa história como traidores da mesma exata estirpe de Joaquim Silvério dos Reis.

A verdade é que de patriotas como esses, o Brasil não precisa, e desejo que a história os coloque no seu devido lugar.

IA sinaliza centenas de periódicos científicos como potencialmente predatórios, revela estudo

Acompanhar a proliferação dos chamados “periódicos predatórios” tem sido uma tarefa árdua para os humanos, que optaram por usar IA para vasculhar uma lista de quase 15.200 periódicos de acesso aberto na internet, afirma Daniel Acuña, principal autor do estudo e professor associado do Departamento de Ciência da Computação da Universidade do Colorado em Boulder.

Acompanhar a proliferação dos chamados "periódicos predatórios" tem sido uma tarefa árdua para os humanos, então a equipe recorreu à IA para analisar uma lista de quase 15.200 periódicos de acesso aberto na internet, afirma Daniel Acuña, principal autor do estudo e professor associado do Departamento de Ciência da Computação da Universidade do Colorado em Boulder. Foto

Foto: Europa Press / Arquivo

Por La Jornada

Madri. Uma plataforma de inteligência artificial (IA) que busca periódicos científicos questionáveis ​​sinalizou mais de 1.400 como “potencialmente problemáticos” em uma lista de quase 15.200 periódicos de acesso aberto na internet.

O estudo, publicado na Science Advances e liderado pela Universidade do Colorado em Boulder, aborda uma tendência alarmante no mundo da pesquisa.

Daniel Acuña, principal autor do estudo e professor associado do Departamento de Ciência da Computação, recebe lembretes por e-mail várias vezes por semana: essas mensagens de spam vêm de pessoas que se passam por editores de periódicos científicos, geralmente aqueles dos quais Acuña nunca ouviu falar, oferecendo-se para publicar seus artigos por uma taxa alta.

Essas publicações são às vezes chamadas de periódicos “predatórios”. Elas têm como alvo cientistas, convencendo-os a pagar centenas ou até milhares de dólares para publicar suas pesquisas sem a devida verificação.

“Tem havido um esforço crescente entre cientistas e organizações para verificar esses periódicos”, disse Acuña. “Mas é como brincar de caça-toupeiras. Você pega um, e logo aparece outro, geralmente da mesma empresa. Eles simplesmente criam um novo site e dão um novo nome.”

A nova ferramenta de IA de seu grupo filtra automaticamente periódicos científicos, avaliando seus sites e outros dados online com base em certos critérios: os periódicos têm um conselho editorial com pesquisadores renomados? Seus sites contêm muitos erros gramaticais? Acuña enfatiza que a ferramenta não é perfeita. Em última análise, ele acredita que especialistas humanos, e não máquinas, devem tomar a decisão final sobre a reputação de um periódico.

Mas, em um momento em que figuras proeminentes questionam a legitimidade da ciência, conter a proliferação de publicações questionáveis ​​se tornou mais importante do que nunca, disse ele.

“Na ciência, você não começa do zero. Você constrói com base na pesquisa de outros”, disse Acuña. “Então, se a fundação daquela torre desabar, tudo desaba.”

Extorsão

Quando cientistas submetem um novo estudo a uma revista de prestígio, ele normalmente passa por uma prática chamada revisão por pares. Especialistas externos leem o estudo e avaliam sua qualidade — ou, pelo menos, esse é o objetivo.

Um número crescente de empresas tem tentado burlar esse processo para lucrar. Em 2009, Jeffrey Beall, bibliotecário da Universidade do Colorado, cunhou o termo “periódicos predatórios” para descrever essas publicações.

Eles geralmente têm como alvo pesquisadores de fora dos Estados Unidos e da Europa, como na China, Índia e Irã, países onde as instituições científicas podem ser jovens e a pressão e os incentivos para que os pesquisadores publiquem são altos.

“Eles dizem: ‘Se você pagar US$ 500 ou US$ 1.000, nós revisaremos seu artigo'”, explicou Acuña. “Na verdade, eles não oferecem nenhum serviço. Eles apenas pegam o PDF e publicam no site deles.”

Vários grupos têm tentado coibir essa prática. Entre eles está uma organização sem fins lucrativos chamada Directory of Open Access Journals (DOAJ). Desde 2003, voluntários sinalizaram milhares de periódicos como suspeitos com base em seis critérios. (Publicações respeitáveis, por exemplo, frequentemente incluem uma descrição detalhada de suas políticas de revisão por pares em seus sites.)

Mas acompanhar a proliferação dessas publicações tem sido uma tarefa assustadora para os humanos.

Para acelerar o processo, Acuña e seus colegas recorreram à IA. A equipe treinou o sistema com dados do DOAJ e, em seguida, pediu à IA que examinasse uma lista de quase 15.200 periódicos de acesso aberto na internet.

Dessas postagens, a IA sinalizou inicialmente mais de 1.400 como potencialmente problemáticas.

Acuña e seus colegas pediram a especialistas humanos que revisassem um subconjunto dos periódicos suspeitos. A IA cometeu erros, segundo os humanos, sinalizando aproximadamente 350 publicações como questionáveis ​​quando provavelmente eram legítimas. Isso ainda deixou mais de 1.000 periódicos que os pesquisadores identificaram como questionáveis. “Acredito que isso deveria ser usado para ajudar a pré-selecionar um grande número de periódicos”, explicou ele. “Mas a análise final deveria ser feita por profissionais humanos.”

Não é uma caixa preta

Acuña acrescentou que os pesquisadores não queriam que seu sistema fosse uma “caixa preta” como outras plataformas de IA.

“Com o ChatGPT, por exemplo, muitas vezes é difícil entender por que ele sugere algo”, disse Acuña. “Tentamos tornar o nosso o mais fácil de entender possível.”

A equipe descobriu, por exemplo, que periódicos questionáveis ​​publicaram um número anormalmente alto de artigos. Eles também incluíam autores com mais afiliações do que periódicos mais legítimos, e autores que citavam suas próprias pesquisas, em vez das de outros cientistas, com frequência anormalmente alta.


Fonte: La Jornada

Pesquisa mostra contaminação de águas subterrâneas por resíduos plásticos agrícolas

Pesquisa mostra contaminação de águas subterrâneas por resíduos plásticos agrícolas

Contaminação mostra urgência em substituir plástico por materiais biodegradáveis 

Apesar de invisíveis, micro e nanoplásticos estão presentes em sistemas de águas subterrâneas, fontes de quase metade da água potável consumida no mundo. Esses materiais são em grande parte provenientes de produtos para agricultura, como as coberturas plásticas (mulches), recipientes de agrotóxicos e sacos de fertilizantes. O tamanho das partículas faz com que elas atravessem as camadas de solo e contaminem os lençóis freáticos. É o que mostra artigo publicado na sexta (5) na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Os pesquisadores fizeram uma revisão de literatura a partir de mais de 50 artigos disponíveis nas bases de dados Web of Science e ScienceDirect e publicados entre 2019 e 2024. Eles usaram combinações de termos relacionadas ao assunto, priorizando artigos de periódicos com fatores de impacto mais altos para garantir a relevância e qualidade das fontes.

Os resultados mostram a quase onipresença dos resíduos plásticos nesses ambientes. Diante desse contexto, Victor R. Moreira, pesquisador da UFMG e um dos autores do estudo, atenta para a importância de substituir plástico por materiais biodegradáveis. “Observamos muitas vezes que as partículas menores predominam nas camadas mais profundas, inclusive nos aquíferos. Isso acaba sendo um desafio maior, porque é mais difícil de remover”, diz Moreira.

A revisão também indica que o estudo de microplásticos é mais frequente do que o de nanoplásticos, embora estas partículas microscópicas sejam mais predominantes em sistemas de água subterrânea. Essa presença se deve ao tamanho menor e, por efeito, maior mobilidade através das camadas do solo.

Na dinâmica de contaminação, os autores também apontam como fonte relevante os biossólidos, que são os resíduos orgânicos provenientes do tratamento do esgoto. Os biossólidos são materiais ricos em matéria orgânica e nutrientes e usados em atividades agrícolas como fertilizantes. “O processo de tratamento de esgoto remove contaminantes, mas muitos deles, incluindo microplásticos, acabam sendo agregados ao lodo por adsorção, e, portanto, reintroduzidos no solo ao aplicar os biossólidos”, explica Moreira.

Para compreender melhor os efeitos dessa contaminação, são necessários estudos temporais com foco na variabilidade sazonal dos micro e nanoplásticos nos sistemas subterrâneos de água, assim como a análise espacial em regiões com significativa produção agrícola, avaliam os pesquisadores. Além disso, próximos passos para investigar o impacto da contaminação envolvem estudos de laboratórios, que podem analisar a toxicidade dos micro e nanoplásticos e seu papel como carregador de agrotóxicos.


Fonte: Agência Bori

Relatório negacionista sobre mudanças climáticas do governo Trump é dissecado científicamente

Especialistas climáticos internacionais desmascararam amplamente o recente relatório do DOE, mas a ciência vencerá?

Paper Dissection | Program in the History of Science and Medicine

Por Bill McKibben para o “The New Yorker” 

Enquanto observo a Casa Branca de Trump e seu campo de destroços orbitando de excêntricos e charlatões, uma única cena de filme do passado continua voltando à minha mente. Em “Annie Hall”, esperando na fila de um cinema, o personagem de Woody Allen se irrita com um sujeito atrás dele, um acadêmico fanfarrão que pontifica para sua namorada sobre a cultura. Quando ele menciona o guru da mídia canadense Marshall McLuhan, Allen explode e então, em um delicioso espetáculo de vingança, apresenta o próprio McLuhan, que diz ao homem: “Eu ouvi o que você estava dizendo. Você não sabe nada do meu trabalho. Como você conseguiu dar um curso sobre qualquer coisa é totalmente incrível.” Allen então diz, para a câmera: “Rapaz, se a vida fosse assim.”

De vez em quando, é. Na terça-feira, oitenta e seis climatologistas entregaram uma resposta de quatrocentas páginas a um relatório do Departamento de Energia de julho, que tentava demonstrar que o aquecimento global não é um grande problema. Esse relatório era o equivalente científico de um terno sob medida. Dado que o presidente Trump havia declarado que as mudanças climáticas eram uma “farsa” e que o secretário de Energia, Christopher Wright, havia declarado anteriormente que eram um “efeito colateral da construção do mundo moderno”, é lógico que o departamento de Wright tenha escolhido para conduzir seu relatório exatamente cinco pesquisadores climáticos, todos notáveis ​​por carreiras nas quais se posicionaram visivelmente à margem do consenso científico esmagador de que o aquecimento global é um perigo grave e imediato. Esses cinco concluíram, devidamente, entre outras coisas, que “o aquecimento induzido pelo CO₂ pode ser menos prejudicial economicamente do que comumente se acredita, e políticas de mitigação excessivamente agressivas podem ser mais prejudiciais do que benéficas”.

O restante do aparato trumpiano então entrou em ação. Lee Zeldin, ex-congressista e candidato fracassado a governador por Nova York, que de alguma forma acabou como administrador da Agência de Proteção Ambiental (EPA) e que havia declarado que seu objetivo era cravar “um punhal direto no coração da religião das mudanças climáticas”, abraçou as descobertas e rapidamente as utilizou em seu esforço para anular a “constatação de perigo” na qual a EPA havia se baseado anteriormente para regular os gases de efeito estufa.

O relatório do DOE, no entanto, teve que ser aberto para comentários públicos, e assim um cientista climático da Universidade Texas A. & M., Andrew Dessler, usou a plataforma de mídia social Bluesky (que substituiu em grande parte o X para conversas científicas) para começar a montar uma equipe global de oitenta e seis pesquisadores de todas as disciplinas relevantes que, em questão de poucas semanas, submeteram as conclusões do relatório à revisão por pares. Seu “comentário” é duas vezes e meia maior que o relatório, e é quase dolorosamente hilário de ler. Por exemplo, os cinco céticos argumentaram que a “seca meteorológica” não estava aumentando nos Estados Unidos; como os pesquisadores apontam em sua resposta, isso é um absurdo escolhido a dedo. Em primeiro lugar, “seca meteorológica” é apenas uma medida de quanta chuva cai; as temperaturas mais altas associadas às mudanças climáticas têm aumentado a evaporação, o que seca mais dessa chuva. E, de qualquer forma, os opositores usaram todo o território continental dos EUA como base estatística para sua descoberta, o que não faz sentido: à medida que o aquecimento global aumenta a evaporação no oeste árido, também aumenta a precipitação no leste úmido, produzindo as chuvas torrenciais que causaram tantos danos em regiões como os Apalaches. Como o comentário ironicamente aponta, “fazer uma média em todo o território continental dos EUA corre o risco de desconsiderar essas tendências”. De fato, os autores observam, com todas as citações científicas, que “pesquisas indicaram que as secas recentes na região oeste dos EUA foram mais severas do que as secas dos últimos 1.000 anos ou mais: embora megassecas tenham ocorrido no registro paleoclimático, a megasseca no oeste dos EUA de 2000 a 2018 foi a pior desde meados do século XVI (Williams et al., 2020) e a de 2000 a 2021 foi a pior desde 800 (Williams et al., 2022), conforme definido usando anomalias de umidade do solo. Da mesma forma, as mudanças climáticas fizeram do período de 2012 a 2014 na Califórnia o período mais seco em 1.200 anos (Griffin e Anchukaitis, 2014; Williams et al., 2015)”.

O comentário tem seções como esta sobre todos os tópicos levantados pelo relatório do DOE; é uma blitzkrieg de estudos, observações e dados que deixa claro que os autores estavam a quilômetros de distância de sua área de atuação e ainda mais distantes da corrente principal. Mas, é claro, isso não necessariamente conta muito na situação atual, onde a realidade está se tornando uma história de “Escolha Sua Própria Aventura”. Na esteira das renúncias de quatro funcionários dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças na semana passada, alguns comentários do Secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., começaram a aparecer novamente nas redes sociais. Ele havia dito a Tucker Carlson que “confiar nos especialistas não é uma característica da ciência. Não é uma característica da democracia. É uma característica da religião e é uma característica do totalitarismo. Nas democracias, temos a obrigação — e é um dos fardos da cidadania — de fazer nossa própria pesquisa e tirar nossas próprias conclusões sobre as coisas”.

Isso claramente não é verdade em relação às vacinas — confiamos nos especialistas há um século, e tem funcionado muito bem, inclusive durante a pandemia de COVID , quando as vacinas salvaram milhões de vidas. E é claramente absurdo dizer isso sobre o aquecimento global: estamos planejando “fazer nossa própria pesquisa”, para escolher um tópico amplamente abordado na resposta de terça-feira dos oitenta e seis pesquisadores, sobre a “simetria hemisférica do albedo planetário”?

O empreendimento científico americano, fonte de tanta riqueza e prestígio nacional, está sendo desfeito diante de nossos olhos — bolsas de pesquisa estão sendo cortadas, satélites desconectados, relatórios inventados para atender às necessidades de indústrias e ideologias específicas. É tão triste quanto qualquer um dos outros efeitos sombrios da eleição passada. Mas o método científico talvez não se apague silenciosamente. Com centenas de anos de trabalho paciente por trás, com algumas instituições de ensino dispostas a proteger seus cientistas e com pesquisadores trabalhando arduamente em nações menos ignorantes, o desejo humano de saber e compreender continuará a produzir resultados. Muitas dessas descobertas serão contrárias aos interesses dos fanfarrões que, pelo menos temporariamente, controlam nossa nação e, portanto, podem ser suprimidas por enquanto. Mas, sejam ou não ouvidas, no final, a verdade virá à tona. Se não for na forma de políticas esclarecidas, será na forma de pandemias e incêndios florestais, de doenças não tratadas e da elevação do nível do mar. Porque a vida realmente é assim. ♦


Fonte: The New Yorker

Mudanças climáticas empurram abelhas sul-americanas para o Sul

Projeção desenvolvida no Laboratório de Abelhas da UFPR mostra perda de área adequada para espécies já em 2050. Cenários evidenciam necessidade de mitigação dos efeitos das alterações no clima e da preservação do habitat dos insetos

Mudanças climáticas empurram abelhas sul-americanas para o Sul Projeção desenvolvida no Laboratório de Abelhas da UFPR mostra perda de área adequada para espécies já em 2050. Cenários evidenciam necessidade de mitigação dos efeitos das alterações no clima e da preservação do habitat dos insetos

Dezoito espécies exclusivas do continente tiveram o comportamento projetado por pesquisadores. Na foto, uma Lithurgopsis rufiventris, espécie de abelha solitária. Fotos: Adriana Tiba e Julio Pupim/Acervo Pessoal

Por Luana Lopes para o “Ciência UFPR” 

Para onde irão as abelhas com as mudanças climáticas? Esta foi a pergunta que guiou uma pesquisa na Universidade Federal do Paraná (UFPR) que buscou compreender como as alterações nos padrões climáticos poderá afetar a distribuição geográfica destes insetos. Algumas espécies do sudeste da América do Sul podem deixar o Norte, onde em geral é mais calor, e se deslocar para o Sul do continente.

O estudo é fruto da dissertação de mestrado em Entomologia (estudo científico dos insetos) do biólogo Felipe Walter Pereira sob orientação do professor Rodrigo Barbosa Gonçalves, do Departamento de Zoologia da UFPR. Os pesquisadores selecionaram 18 espécies de abelhas de uma das regiões mais diversas do mundo e usaram projeções climáticas computacionais para o ano de 2050, para identificar os possíveis efeitos das mudanças climáticas na distribuição desses insetos.

De acordo com Pereira, com o aumento das emissões de carbono e das consequentes mudanças de temperatura e precipitação do planeta como um todo, essas espécies tendem a perder a parte mais ao norte do seu limite de distribuição, porque essa região deve ficar mais quente do que é atualmente.

“Esta parte Norte vai deixar de ser adequada, porque vai estar mais quente do que ela pode tolerar. As populações de abelhas devem deixar de ocorrer nesse limite norte, havendo uma região de estabilidade ‘no meio’ e ganhos de colonização ao sul. Isso porque as espécies vão tender a acompanhar seus requerimentos climáticos”, explica.

“Então, hoje é onde o clima é adequado para certa espécie, no futuro, com o aquecimento global, essa região vai estar um pouquinho mais ao Sul. Ou seja, são esperados eventos de colonização e de migração em direção ao sul”.

O professor Rodrigo Gonçalves conta que, para o trabalho, eles fizeram a seleção de espécies que vivem no Sudeste da América do Sul (Argentina, Uruguai e estados do sul do Brasil), por serem adaptadas a climas mais amenos. Também foram escolhidas espécies com modos de vida e comportamentos sociais diferentes para entender como cada uma pode reagir às mudanças climáticas.

“A partir dos registros de ocorrência de cada espécie, identificamos quais variáveis ambientais definem seu nicho, ou seja, as condições ideais para sua sobrevivência hoje. Com base nessas informações, usamos modelos para prever como essas condições vão mudar no futuro e, assim, estimar quais áreas continuarão adequadas e quais serão perdidas. Comparando esses cenários, conseguimos prever deslocamentos ou redução na distribuição das espécies”, afirma.

Embora o estudo necessite trabalhos de campo de longo prazo para a confirmação do deslocamento para o sul, há evidências de algumas espécies que deixaram de aparecer em algumas regiões devido ao clima.

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É o caso da Bombus bellicosus, uma abelha das conhecidas popularmente como mamangava que era muito comum na região de Curitiba nos anos 1960. Desde a década de 90, esta espécie não ocorre mais na cidade, e atualmente seu limite norte é na região do município de Palmas, no sul do Paraná. Este fenômeno foi observado pela pesquisadora Aline Cristina Martins e pelo professor Gabriel Augusto Rodrigues de Melo, da UFPR.

“Eles constataram que as extinções locais da espécie se deram às recentes mudanças climáticas e à intensa mudança no uso do solo e na paisagem, com a destruição dos campos sulinos para dar lugar às monoculturas e criações de gado”, conta Felipe Pereira.

Além da dissertação de mestrado, o pesquisador tratou do tema no artigo “Abelhas viajando para o sul: mudanças de alcance induzidas pelo clima e perdas de habitat adequado no Sudeste dos neotrópicos”, publicado pela revista Journal of Biogeography, que tem entre os coautores os professores Rodrigo Gonçalves, Gabriel Melo e Maurício Osvaldo Moura, também da Universidade Federal do Paraná.

Como foi feita a seleção das espécies

O sudeste da América do Sul possui uma variedade muito grande de abelhas: são centenas de espécies na região. Mas para a pesquisa sobre o impacto das mudanças climáticas, Felipe Pereira selecionou 18 espécies. Um dos motivos para a seleção é que, para se construir modelos computacionais de predições ecológicas de distribuições de espécies, é necessário que os pesquisadores tenham um conhecimento amplo sobre onde elas estão, ou seja, as abelhas selecionadas precisam ser bem conhecidas. Este não é o caso da maioria dos insetos, que possuem uma variedade muito grande.

“Dessa maneira, a gente escolheu espécies com trabalhos já feitos por especialistas em taxonomia, com uma extensiva coleta na região. Assim tivemos confiança de onde a espécie está e onde ela não está, o que nos permitiu construir modelos preditivos com uma certa força de predição que torne esses modelos confiáveis”, explica Pereira.

Um outro fator para uma amostragem aparentemente baixa para a pesquisa é que o pesquisador buscou representar a fauna de abelhas na região. Como não é possível fazer predições para centenas de espécies, foram escolhidas abelhas com linhagens diferentes, que possuem atributos variados, representando assim as características conhecidas das abelhas e não só apenas um grupo.

“A gente poderia ter feito um estudo só com abelhas-sem-ferrão, por exemplo, que é um grupo evolutivo único que daria uma resposta. Não fizemos isso: tivemos, entre outras, representantes de abelhas-sem-ferrão, representantes de mamangavas, representantes de abelhas solitárias e abelhas sociais”, afirma o pesquisador.

Para a seleção de espécies que representasse essa fauna de abelhas, Felipe Pereira contou com a colaboração do professor Gabriel Augusto Rodrigues de Melo, um dos maiores especialistas em taxonomia de abelhas do mundo. Melo fez a consultoria das espécies que seriam interessantes para serem analisadas, fazendo o recorte amostral.

“Tinha uma questão de sabermos se havia uma boa quantidade de distribuição de cada uma dessas espécies. Porque, para fazer essas projeções, precisamos ter material, ou seja, os pontos de ocorrência. Não teríamos respostas sobre uma espécie extremamente rara, onde só a conhecemos de um ou dois locais diferentes”, explica. “Temos que trabalhar com espécies que têm uma quantidade razoável de material que foi coletado, que tem registro”.

O registro de onde esses espécimes se encontram distribuídos consta na Coleção Entomológica Pe. Jesus Santiago Moure (DZUP) da UFPR, em Curitiba, que possui a maior coleção de abelhas da América Latina. Na década de 1940, o entomólogo Padre Moure criou na universidade um grupo de pesquisas em abelhas e, desde então, ao longo das décadas, dezenas de pesquisadores foram acrescentando informações sobre as abelhas da região, incluindo dados sobre as condições climáticas do habitat das espécies. Gabriel Melo explica como ocorre essa coleta de informações:

“Pegamos os pontos de ocorrência de uma espécie, como se fosse uma quadrícula no mapa, e a partir disso buscamos uma série de atributos relacionados ao clima. Então olhamos, por exemplo, a precipitação média dos locais que essa espécie ocorre, a temperatura média anual, a temperatura média do mês mais quente, temperatura média do mês mais frio, precipitação anual… vários atributos climáticos em relação àquela quadrícula onde tem um ponto da espécie. Depois, pegamos o somatório de todas as quadrículas que a espécie foi encontrada e temos algo como uma média”.

A partir desta média, são feitas as projeções climáticas para o futuro:

“Desta forma, por exemplo, a quadrícula que hoje tem uma temperatura média, com o aquecimento essa temperatura vai aumentar. E esse aumento pode fazer com que aquela espécie fuja daquele intervalo que ela vive. Se ficou quente, ela não vai conseguir sobreviver ali, porque ela só sobrevive nas quadrículas cuja temperatura média é tal”, explica o docente.

Abelhas podem perder seu limite de distribuição em 2050

Apesar de cada espécie ter sua própria condição climática adequada para sobreviver em determinado local (chamada nicho climático), de modo geral as abelhas são insetos que preferem climas mais amenos, em ambientes mais secos, e são mais diversas em locais de campos abertos. Além disso, são seres ectotérmicos, ou seja, sua temperatura corporal é influenciada pela temperatura do ambiente, o que pode fazer com que estes insetos não resistam às temperaturas mais altas.

“Há trabalhos tentando ver como que a temperatura pode influenciar a sobrevivência das abelhas. Registros acima dos 40 graus já começam a afetá-las de forma que pode ter uma mortalidade muito grande. Varia muito de espécie para espécie, mas tem essa relação de que se o planeta aquecer muito, como está acontecendo esse aquecimento global generalizado, pode levar a um aumento na taxa de mortalidade. A parte fisiológica delas fica comprometida e pode ser que elas morram sem conseguir se reproduzir”, explica Felipe Pereira.

Considerando estes fatores, os pesquisadores buscaram testar a hipótese de que, com o aquecimento global, as abelhas devem buscar locais mais adequados e podem desaparecer de áreas que se tornaram menos favoráveis. Para isso, um dos primeiros passos foi construir modelos de nichos ecológicos para encontrar as áreas climaticamente favoráveis para as espécies no presente.

“O nicho ecológico é uma posição no ambiente em que as populações são viáveis, e cada grupo de espécies tem alguns fatores que são importantes. Para as abelhas, por exemplo, a temperatura, a umidade relativa e porcentagem de floresta são relevantes”, afirma Mauricio Moura, docente da UFPR e coautor do trabalho.

Os modelos de nicho ecológico criados foram projetados para 2050, utilizando um cenário definido pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, da sigla em língua inglesa). Estes cenários representam previsões de mudanças climáticas futuras com base em diferentes níveis de emissões de gases de efeito estufa, avaliando o que os governos estão fazendo para combater o problema e apresentando dados sobre temperatura, umidade e eventos extremos. No estudo sobre as abelhas, os pesquisadores selecionaram o cenário pessimista SSP585, que apresenta maiores emissões de carbono e ações nulas ou limitadas para a mitigação das mudanças climáticas.

“Para realizar este trabalho, temos determinadas as posições geográficas das espécies em latitude e longitude. Fazemos várias perguntas com as variáveis climáticas, encontrando as características do ambiente que são importantes para as abelhas. Com isso, temos um recorte de condições favoráveis para aquela abelha de hoje”, afirma Moura. “Então, entramos com o cenário futuro e perguntamos: ‘Onde essas condições vão ocorrer no próximo cenário?’ Os modelos computacionais vão nos dizer, por exemplo, que essas condições vão acontecer 20 graus para baixo. Assim caracterizamos um deslocamento de área de distribuição”.

A pesquisa concluiu que o padrão de deslocamento para o sul foi observado em todas as 18 espécies analisadas, mas também foi identificado que as espécies de abelhas eussociais da região podem ser mais afetadas pela perda de áreas adequadas para a sobrevivência do que as espécies solitárias. O artigo reforça que, além do clima, mudanças no habitat e particularidades comportamentais das abelhas podem também influenciar na vulnerabilidade dos insetos.

Políticas públicas para preservar habitat previnem contra perdas de distribuição

O estudo também destacou a importância da conservação dos habitats das abelhas para garantir a preservação da espécie, além da mitigação dos efeitos das mudanças climáticas. Segundo Felipe Pereira, o artigo reforça que devem ser feitas estratégias de conservação na região pesquisada, especialmente em relação aos campos sulinos – ambientes muito vulneráveis e geralmente negligenciados em ações de preservação. Para o pesquisador, as projeções podem auxiliar a delinear as regiões que seriam prioritárias para conservação das abelhas no futuro.

“Essa vegetação de campo muitas vezes é interpretada como sendo apenas ‘um mato’ pelos leigos ou por aqueles que têm o recurso financeiro para modificar a paisagem. É muito mais fácil destruir os campos do que a floresta, por exemplo”, opina. “Então, não adianta o clima em termos de precipitação e temperatura estar adequado, se a gente não tem recursos florais para as abelhas usarem, ou solo exposto e cavidades em madeira para as abelhas construírem ninhos. Se isso não existir, não adianta de nada o clima ser bom”.

Pereira conclui que a ideia desta e outras pesquisas sobre as abelhas é juntar vozes para fortalecer a luta pela mitigação dos problemas acarretados pelas mudanças climáticas.

“Existem cenários futuros, e um deles é nós pararmos ou controlarmos ao máximo a emissão de gás de efeito estufa, mudar nosso padrão de consumo”, afirma. “Nós usamos essas vozes de conservação para pensarmos em cenários futuros adequados para produção de alimentos, para o bem-estar, para simplesmente a gente ter um planeta habitável nas próximas décadas”.

Labe-UFPR busca conscientização sobre a diversidade das abelhas

Outros estudos que reforçam a necessidade de preservação das abelhas são desenvolvidos no Laboratório de Abelhas da UFPR (Labe). O grupo é coordenado pelo professor Rodrigo Barbosa Gonçalves, que lançou no ano passado um livro como forma de aumentar a compreensão sobre estes insetos.

“As abelhas são essenciais para a polinização de plantas nativas e cultivadas, garantindo tanto a biodiversidade quanto a produção agrícola. Além disso, algumas espécies são criadas para a produção de mel ou por hobby, o que desperta mais interesse no tema. A crescente popularidade das abelhas pode ser uma oportunidade para conscientizar a sociedade sobre a importância da conservação da natureza”, diz o docente.

➕ Leia o artigo “Bees travelling south: Climate-induced range shifts and suitable habitat losses in south-eastern neotropics, publicado no Journal of Biogeography 


Fonte: Ciência UFPR

“Na Amazônia tem uma área de floresta do tamanho da Bahia que pode desaparecer”, alerta IPAM no Congresso

Câmara dos Deputados realizou audiência pública nesta quinta (4) sobre florestas públicas não destinadas; IPAM apresentou dados sobre desmatamento nessas áreas

A Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais da Câmara dos Deputados realizou, nesta quinta-feira (4), audiência pública para debater as florestas públicas não destinadas. Essas florestas ocupam 50,2 milhões de hectares da Amazônia brasileira – uma área do tamanho da Bahia – e ainda devem receber uma destinação do poder público, seja para unidade de conservação ou terra indígena, por exemplo.

O IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e o movimento Amazônia de Pé, responsáveis pelo Observatório das Florestas Públicas, apresentaram dados e informações sobre essas florestas e seus povos.

Segundo dados do Observatório, 62,3% das florestas públicas não destinadas na Amazônia brasileira são glebas estaduais, enquanto 37,6% são federais. Ainda de acordo com os dados da plataforma, cerca de 13 milhões de hectares dessas florestas estão atualmente em processo de destinação pelo governo federal.

“O IPAM já tem trabalhado há muitos anos com a análise das florestas públicas não destinadas junto aos seus povos, trazendo subsídios para as políticas públicas em uma construção coletiva. Isso porque na Amazônia tem uma área de floresta do tamanho da Bahia que corre o risco de desaparecer. O que vemos a partir desses estudos é o aumento de atividades ilegais principalmente com indício de grilagem a partir do uso fraudulento de CAR [Cadastro Ambiental Rural]. Sem proteção, corremos o risco de perdê-las de vez”, ressaltou Rebecca Lima, pesquisadora do IPAM e coordenadora do Observatório de Florestas Públicas, em apresentação durante a reunião.

“A morosidade do processo da destinação aumenta a concentração fundiária, intensifica conflitos sociais, compromete a segurança de povos e comunidades tradicionais e afeta a todos, já que os rios voadores da Amazônia transportam água para o país”, acrescentou a pesquisadora. A audiência pública foi presidida pelo deputado Reginaldo Veras (PV-DF) e atendeu a requerimento de autoria da deputada Célia Xakriabá (Psol-MG).

Grilagem de florestas públicas

De acordo com o Observatório das Florestas Públicas, há atualmente 32,7 milhões de hectares dessas florestas sob registros ilegais no CAR (Cadastro Ambiental Rural). A área com sobreposição de CAR tem aumentado desde 2019, especialmente com registros maiores do que 15 módulos fiscais.

Se as florestas públicas não destinadas seguirem desprotegidas, o desmatamento dessas áreas pode liberar até 19,1 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera. O montante é equivalente a 51% da emissão global estimada para 2024.

“A destinação de florestas públicas é uma das estratégias de ação climática mais importantes para cumprir com as metas climáticas nacionais e internacionais e para que as florestas e suas populações sejam protegidas. E essa destinação tem que ser acompanhada de políticas públicas, fortalecendo o desenvolvimento de uma economia sustentável na Amazônia. A destinação é urgente, compromisso assumido por lei, em defesa do Brasil, dos povos amazônidas e das futuras gerações”, concluiu Lima.

Em 2025, mais de 62 mil hectares de florestas públicas não destinadas já foram desmatados em 2025, mostram os dados do Observatório. O Estado do Amazonas concentrou a maior parte (62%) dessa área derrubada.

De janeiro a julho de 2025, mais de 59,7 mil hectares foram queimados em florestas públicas não destinadas. A maior parte do fogo (75%) ocorreu em glebas federais e no Estado do Pará.

Mobilização pela Amazônia

“Cada vez mais pessoas entendem que o que acontece na Amazônia não fica só na Amazônia. A gente apresenta dados, mas também envolve pessoas. Sempre falamos que preservando a cultura, a gente preserva os territórios. Não basta anunciar metas que não escutem as pessoas e que não venham através dos territórios. Enquanto o Brasil se distanciar da proteção dos seus territórios, o mundo inteiro também fica longe de cumprir o compromisso de limitar o aumento da temperatura média global em 1,5°C”, afirmou Karina Penha, porta-voz do movimento Amazônia de Pé na audiência.

O movimento Amazônia de Pé nasceu do compromisso de coletar 1,5 milhão de assinaturas físicas para apresentar ao Congresso Nacional o projeto de lei Amazônia de Pé, que visa destinar as florestas públicas não destinadas. Atualmente, o movimento organiza campanhas, treinamentos, ações culturais e educativas com a Amazônia no centro.

Também presente na reunião, Marcos Woortmann, diretor do IDS (Instituto Democracia e Sustentabilidade), lembrou o contexto das políticas ambientais no Congresso Nacional.

“Quando a gente fala dos interesses do Congresso Nacional, dados levantados pelo Farol Verde mostram que mais de ⅔ dos atos legislativos são contrários ao meio ambiente. Hoje, estamos falando de uma série de problemas que estão se avolumando, mas também precisamos falar das soluções, e muitas delas passam por esta Casa. Precisamos impedir os retrocessos e fazer avançar as pautas ambientais”, disse.

Governos estaduais e federais

Para Marcelo Trevisam, representante do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima na audiência, “é fundamental entender a separação entre a terra pública federal e a terra pública estadual”.

“O cadastro de floresta não é estático, é dinâmico, e é somente uma plataforma de visualização das informações alimentadas pelos outros órgãos. Por isso, quero deixar uma sugestão importante para esta comissão: para a gente discutir cadastro nacional de florestas públicas, sejam elas federais ou estaduais, esta mesa tem que ser composta pelo Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária], que é o gestor das glebas públicas federais; tem que ser composta pela Funai [Fundação Nacional dos Povos Indígenas], que é responsável pelas informações que cabem das destinações e afetações realizadas; pelo ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade], porque é o gestor das unidades de conservação; e também os Estados. Tudo isso para entender como se forma um mapa das florestas públicas debatendo junto à sociedade”, concluiu.

A reunião contou ainda com a presença e falas de Denildo Rodrigues de Moraes, representante da CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), Paulino Montejo, porta-voz da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e Letícia Moraes, representante do CNS (Conselho Nacional das Populações Extrativistas).

Justiça barra licenciamento ambiental de projeto da Atlas Lithium, no Vale do Jequitinhonha

Licenciamento de projeto da Atlas Lithium, no Vale do Jequitinhonha, é barrado pela Justiça; entenda

Vista aérea do Vale do Jequitinhonha | Crédito: Pixabay 

Por Thyago Henrique para o “Diário do Comércio” 

O licenciamento ambiental concomitante (LCA) do projeto Anitta, da Atlas Lithium, em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha – que envolve lavra a céu aberto, pilha de rejeito/estéril e estrada para transporte de minério – estava previsto para ser votado pela Câmara de Atividades Minerárias do Conselho Estadual de Política Ambiental (CMI/Copam) em reunião na sexta-feira (29), mas foi barrado pela Justiça Federal em Minas Gerais.  

Na véspera, o juiz Antônio Lúcio Túlio de Oliveira Barbosa, da Vara Federal com Juizado Especial Federal (JEF) Adjunto de Teófilo Otoni, determinou que o Estado de Minas Gerais suspendesse imediatamente a deliberação e votação do processo, bem como se abstenha de pautá-lo em reuniões futuras até que seja proferida uma nova decisão judicial.

O pedido de tutela de urgência foi proferido no âmbito de uma ação civil pública (ACP), movida pela Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais (N’Golo) contra a Atlas, o Estado e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Os réus foram procurados, mas apenas a Advocacia-Geral do Estado de Minas Gerais (AGE) retornou, informando que “irá se manifestar nos autos do processo”.

Na ACP, a N’Golo alegou que a Atlas não realizou o Estudo do Componente Quilombola (ECQ) e a consulta prévia à Comunidade Quilombola de Giral, Malhada Preta, Água Branca e Santa Rita do Piauí, certificada pela Fundação Cultural Palmares, cujo território se encontra a cerca de 5,55 quilômetros (Km) da Área Diretamente Afetada (ADA). A federação ainda acusou a empresa de prestar informação falsa no Estudo de Impacto Ambiental (EIA), ao afirmar que a comunidade estaria a mais de oito Km do projeto.

Ao acatar o pedido da N’Golo, o magistrado, na prática, proíbe o Estado de deliberar sobre o licenciamento ambiental do Anitta até que a mineradora elabore o ECQ e a consulta livre a comunidade quilombola. Cabe ressaltar que os réus podem contestar a deliberação.

O que disse o magistrado

O magistrado apontou na decisão que a consulta prévia dos povos e comunidades tradicionais é obrigatória e disse que, no próprio EIA, a Atlas traz um mapa indicando que a comunidade quilombola está a menos de oito Km do Anitta. O juiz também mencionou uma controvérsia da Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam).

Segundo Barbosa, o parecer do órgão ambiental reconhece que a comunidade quilombola  está a 5,55 Km da ADA do projeto. Ele ainda afirmou que a justificativa do órgão para dispensar a consulta baseada na existência de uma “barreira natural, a Chapada do Lagoão”, “parece, à primeira vista, insuficiente para afastar uma presunção estabelecida em norma federal e o dever imposto por um tratado internacional de direitos humanos”.

Para a federação, a decisão representa uma importante vitória das comunidades

A N’Golo recebeu com satisfação a decisão da Justiça. Conforme nota assinada pelo advogado da federação, Matheus Mendonça Gonçalves Leite, “a decisão judicial representa uma importante vitória das comunidades quilombolas na resistência à expansão da mineração predatória no Vale do Jequitinhonha, vergonhosamente denominado pelo governador do Estado de Minas Gerais como Vale do Lítio”.

Leite destaca que o Jequitinhonha é o vale da riqueza, da solidariedade e do bem-viver dos povos e comunidades tradicionais. Para o advogado, o Estado de Minas Gerais, “subserviente aos interesses do capital minerário, está violando, de modo sistemático e generalizado, os direitos humanos e fundamentais das comunidades quilombolas nos licenciamentos ambientais de empreendimentos minerários”.


Fonte:  Diário do Comércio

Operação apreende mais de 2 toneladas de café irregular na região de Campos dos Goytacazes

Ação foi realizada por auditores fiscais federais agropecuários para garantir qualidade, segurança do consumidor e concorrência justa no mercado 

Uma operação de fiscalização realizada em indústrias de café torrado e moído na região de Campos dos Goytacazes (RJ) resultou na apreensão de 2.420 quilos de café em situação irregular. A ação foi conduzida por auditores fiscais federais agropecuários lotados no Rio de Janeiro, Distrito Federal e Mato Grosso, entre os dias 27 e 29 de agosto, com o objetivo de identificar e coibir práticas irregulares no processamento do produto.

As inspeções constataram o uso de grãos de baixa qualidade, como mofados e ardidos, além da presença de impurezas, incluindo cascas e paus de café. Durante a fiscalização, 1.350 quilos de café impróprio ao consumo humano foram apreendidos para análises laboratoriais e destinação adequada. Outros 1.070 quilos foram destruídos. Também foram descaracterizadas três bobinas de rótulos irregulares de diferentes marcas.

De acordo com o auditor fiscal federal agropecuário Eduardo Alves Pereira, que é chefe do Serviço de Inspeção, Fiscalização de Insumos e Sanidade Vegetal do Rio de Janeiro (Sifisv-RJ), a programação foi elaborada pelo Procon, que solicitou apoio para a ação. “Nós atuamos em duas equipes. Fomos à torrefadoras, encontramos algumas com boas instalações e outras em estado precário. Foram aplicadas medidas cautelares de apreensão de café. Amostras de produtos foram coletadas e encaminhadas para análise”.

Inspeções constataram grãos de baixa qualidade, como mofados e ardidos (Foto: Anffa Sindical)

Segundo a auditora fiscal federal agropecuária e delegada do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (Anffa Sindical) no Mato Grosso, Raquel Mortari, algumas irregularidades eram bastante perceptíveis, os produtos estavam visivelmente fora do padrão, com teor de matérias estranhas bem acima do limite de 1% legalmente permitido. Os produtos serão enviados para análises conclusivas e serão lavrados Autos de infração aos responsáveis.

Segundo o Anffa Sindical, a iniciativa reforça a atuação dos profissionais da carreira na proteção da saúde dos consumidores e na garantia de que apenas produtos dentro dos padrões de qualidade cheguem ao mercado. “Esse tipo de fiscalização é fundamental para assegurar a concorrência leal no setor, garantindo que todos os produtores cumpram as mesmas normas e padrões de qualidade. Somente assim protegemos o consumidor, valorizamos o trabalho de quem atua corretamente e preservamos a reputação do café brasileiro no mercado”, destaca o presidente da entidade, Janus Pablo Macedo.

Operação contou com o apoio do Procon-RJ, da Secretaria de Defesa do Consumidor do Estado do Rio de Janeiro (Sedcon-RJ) e da Polícia Militar (Foto: Anffa Sindical)

A operação contou com o apoio de equipes técnicas do Procon-RJ, da Secretaria de Defesa do Consumidor do Estado do Rio de Janeiro (Sedcon-RJ) e da Polícia Militar. Além da retirada imediata dos produtos irregulares, foram lavradas intimações estabelecendo prazo de 90 dias para que as empresas adequem suas estruturas físicas, processos de higiene e controle de qualidade, bem como implantem procedimentos formais de classificação e rastreabilidade de matérias-primas.

O Anffa Sindical ressalta que a atuação dos auditores fiscais federais agropecuários é decisiva tanto para a proteção da saúde da população quanto para a manutenção da excelência do café no mercado interno. Esse trabalho também preserva a reputação internacional do produto, reconhecido mundialmente pela qualidade. Por isso, valorizar e fortalecer a carreira desses profissionais é essencial para que o Brasil continue avançando na defesa da sociedade, da produção nacional e da concorrência justa.