Uso do glifosato impacta negativamente o desenvolvimento de bebês, aponta estudo

Aumento de agricultores que pulverizam glifosato está correlacionado com queda no peso de bebês no momento do nascimento, mostra estudo

A soja Round-up Ready tolera o herbicida glifosato e levou a um aumento maciço em seu uso. Jim West/Alamy

Por Erik Stokstad para a Science

Bebês em condados rurais dos Estados Unidos que usam glifosato, um herbicida comum nascem um pouco mais cedo e abaixo do peso , segundo um grande estudo. Essas mudanças, embora pequenas em média, podem resultar em deficiências de aprendizagem e um risco aumentado de infecção, relataram pesquisadores na semana passada no Proceedings of the National Academy of Sciences , resultando em mais de US$ 1 bilhão em custos de assistência médica em todo o país a cada ano.

É um estudo “muito convincente e rigoroso”, diz Eyal Frank, um economista ambiental da Universidade de Chicago que não estava envolvido. Para as crianças mais vulneráveis, em grupos historicamente desfavorecidos, o efeito foi significativamente maior. “Essa é a descoberta mais alarmante”, ele diz. Ainda assim, Frank e outros observam que a pesquisa não pode provar que o produto químico conhecido como glifosato é o culpado. Por um lado, o estudo não mediu diretamente a exposição individual ao ingrediente ativo do herbicida.

Mais de 127.000 toneladas de glifosato são pulverizadas em campos dos EUA a cada ano, e a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) e outras agências reguladoras dizem que é seguro usar com as devidas precauções. Mas algumas pesquisas sugerem que o glifosato pode interromper os hormônios reprodutivos em animais de laboratório. Em pessoas, um pequeno estudo em 2018 relacionou a exposição ao glifosato a uma gravidez ligeiramente mais curta.

Edward Rubin, economista ambiental da Universidade do Oregon, e o estudante de pós-graduação Emmett Reynier decidiram dar uma olhada ampla no efeito do glifosato. Com a introdução da soja geneticamente modificada para tolerar o glifosato em 1996, os agricultores puderam pulverizar o herbicida sem prejudicar suas plantações. Isso permitiu o controle barato e fácil de todos os tipos de ervas daninhas sem arar, o que corrói o solo. Nos anos seguintes, as plantas de milho e algodão tolerantes ao glifosato também passaram a dominar as terras agrícolas dos EUA.

Para procurar efeitos em bebês, Rubin e Reynier analisaram dados sobre tempo de gestação e peso ao nascer de mais de 10 milhões de bebês nascidos entre 1990 e 2013 em condados rurais. Eles compararam os dados de nascimento com quantidades estimadas de glifosato e outros agroquímicos pulverizados por quilômetro quadrado nos condados, publicados pelo US Geological Survey.

O baixo peso ao nascer é um importante preditor de problemas de saúde, como atraso no desenvolvimento cognitivo, e aumenta o risco de infecção e doenças não transmissíveis, como diabetes e doenças cardiovasculares.

Entre 1990 e 1996, não houve diferença no peso ao nascer ou na duração da gravidez entre os condados, descobriu a equipe. Depois que as culturas biotecnológicas chegaram ao mercado, no entanto, o peso ao nascer começou a cair em condados onde mais culturas biotecnológicas são cultivadas e pulverizadas com glifosato. Em 2005, os bebês nascidos em condados dominados por milho, soja e algodão biotecnológicos pesavam em média cerca de 30 gramas a menos do que aqueles nascidos em condados rurais que cultivam principalmente outros tipos de culturas nas quais o glifosato não é usado. Os bebês também nasceram 1,5 dias antes em lugares onde o glifosato era comum.

A quantidade de dados permitiu que os cientistas descartassem a possibilidade de que mudanças em outros herbicidas e agroquímicos estivessem em ação. Eles também consideraram outras possíveis influências no peso do bebê ao nascer, como o impacto do desemprego.

A mudança média no peso ao nascer — um pouco menos de 1% de declínio — é relativamente pequena. Mas Rubin observa que ela cancela o aumento do peso ao nascer visto em bebês quando suas mães recebem benefícios alimentares do governo que visam melhorar a saúde infantil, um programa que custa bilhões de dólares a cada ano.

Rubin e Reynier também estimaram os custos de saúde ao longo da vida do nascimento prematuro, incluindo cuidados pós-natais, educação especial e menores ganhos na idade adulta. Os custos gerais de saúde da redução média de 0,6% no tempo de gestação associada à exposição ao glifosato chegam a cerca de US$ 1,1 bilhão anualmente. Essa estimativa é “realmente nova e útil”, diz Carly Hyland, cientista de saúde ambiental da Universidade da Califórnia, Berkeley.  

A injustiça ambiental também está em jogo, diz Rubin. Filhos de pais negros ou solteiros tinham mais de 60 vezes mais probabilidade de ter baixo ou muito baixo peso ao nascer, com quase o dobro de redução de peso. “Isso sugere alguns efeitos realmente grandes”, diz Rubin.

Alguns estudos encontraram danos mais severos em outros países. Dois artigos publicados em 2023 encontraram taxas mais altas de mortalidade infantil e câncer infantil em áreas agrícolas no Brasil, onde as taxas de aplicação de glifosato são duas vezes maiores que nos EUA.

Cynthia Curl, cientista de saúde ambiental e epidemiologista da Boise State University, diz que “uma limitação importante” do estudo dos EUA foi sua dependência do uso de glifosato em todo o condado, em vez de dados de exposição individual. “Gosto de ver medições na mãe durante a gravidez”, acrescenta Lynn Goldman, pediatra e epidemiologista da George Washington University.

No entanto, os novos resultados devem preocupar os reguladores, diz Goldman. “A EPA definitivamente precisa analisar isso.” A segurança dos pesticidas aprovados deve ser reavaliada a cada 15 anos; a EPA atrasou sua revisão do glifosato e agora espera concluí-la no ano que vem. No entanto, a administração do presidente Donald Trump pode adiar ainda mais a revisão.

 

Fonte: Science
 

Parte do vasto sumidouro de carbono do Ártico virou fonte de emissões, revela estudo

Relatório mostra que estoques críticos de CO2 mantidos no permafrost estão sendo liberados à medida que a paisagem muda com o aquecimento global

Um rio e afluentes em pântanos inundados vistos do ar

Perto de Newtok, no Alasca, o derretimento do permafrost está fazendo com que o Rio Ninglick se alargue e eroda suas margens. Fotografia: Andrew Burton/Getty Images

Por Patrick Greenfield para o “The Guardian”

Um terço da tundra, florestas e pântanos do Ártico se tornaram uma fonte de emissões de carbono, segundo um novo estudo , à medida que o aquecimento global acaba com milhares de anos de armazenamento de carbono em partes do norte congelado.

Por milênios, os ecossistemas terrestres do Ártico têm atuado como um congelamento profundo para o carbono do planeta, mantendo vastas quantidades de emissões potenciais no permafrost. Mas os ecossistemas na região estão se tornando cada vez mais um contribuinte para o aquecimento global , pois liberam mais CO 2 na atmosfera com o aumento das temperaturas, concluiu um novo estudo publicado na Nature Climate Change .

Mais de 30% da região era uma fonte líquida de CO2 , de acordo com a análise, aumentando para 40% quando as emissões de incêndios florestais foram incluídas. Ao usar dados de monitoramento de 200 locais de estudo entre 1990 e 2020, a pesquisa demonstra como as florestas boreais, pântanos e tundra do Ártico estão sendo transformadas pelo rápido aquecimento.

“É a primeira vez que vemos essa mudança em uma escala tão grande, cumulativamente em toda a tundra. Isso é algo muito grande”, disse Sue Natali, coautora e pesquisadora líder do estudo no Woodwell Climate Research Center.

A mudança está ocorrendo apesar do Ártico estar se tornando mais verde. “Um lugar onde trabalho no interior do Alasca, quando o permafrost derrete, as plantas crescem mais, então às vezes você pode ter um aumento no armazenamento de carbono”, disse Natali. “Mas o permafrost continua a derreter e os micróbios assumem o controle. Você tem esse reservatório realmente grande de carbono no solo e vê coisas como o colapso do solo . Você pode ver visualmente as mudanças na paisagem”, disse ela.

O estudo surge em meio à crescente preocupação dos cientistas sobre os processos naturais que regulam o clima da Terra, que estão sendo afetados pelo aumento das temperaturas. Juntos, os oceanos, florestas, solos e outros sumidouros naturais de carbono do planeta absorvem cerca de metade de todas as emissões humanas , mas há sinais de que esses sumidouros estão sob pressão.

O ecossistema do Ártico, que abrange a Sibéria, o Alasca, os países nórdicos e o Canadá, vem acumulando carbono há milhares de anos, ajudando a resfriar a atmosfera da Terra. Em um mundo em aquecimento, os pesquisadores dizem que o ciclo do carbono na região está começando a mudar e precisa de melhor monitoramento.

Anna Virkkala, a principal autora do estudo, disse: “Há uma carga de carbono nos solos do Ártico. É quase metade do reservatório de carbono do solo da Terra. Isso é muito mais do que há na atmosfera. Há um enorme reservatório potencial que deveria, idealmente, permanecer no solo.

“À medida que as temperaturas aumentam, os solos também aumentam. No permafrost, a maioria dos solos ficou completamente congelada durante o ano inteiro. Mas agora que as temperaturas estão mais altas, há mais matéria orgânica disponível para decomposição, e o carbono é liberado na atmosfera. Esse é o feedback permafrost-carbono, que é o principal impulsionador aqui.”


Fonte: The Guardian

A histeria associada à posse de Donald Trump tem o propósito de esconder a decadência dos EUA como força imperial

Acompanhei hoje a cobertura da mídia brasileira e internacional da posse do presidente Donald Trump, e não tive como deixar de notar os tons de histeria com as possíveis consequências deste retorno ao posto máximo do executivo estadunidense.

Afora as evidentes consequências para os esforços de relações minimamente equilibradas, principalmente no tocante às mudanças climáticas, o retorno de Donald Trump não reflete nada mais do que o processo de decadência dos EUA enquanto potência hegemônica, seja econômica ou militar.  Essa decadência que começou com a primeira crise do petróleo de 1973 vem se acelerando de forma óbvia com seguidas crises, incluindo a da crise do subprime de 2008 que resultou em uma quebradeira inédita no sistema bancário global.

As promessas de Donald Trump para levantar os EUA soam mais ou menos como os esforços de Rómulo Augústulo, último imperador do Império Romano do Ocidente, para evitar a sua derrocada do primeiro sistema-mundo que acabou finalmente acontecendo 476 d.C.

Um primeiro obstáculo para as promessas de reindustrialização que Donald Trump EUA possuem hoje uma dívida púiblica monstruosa e isso será um obstáculo para o tipo de política industrial que seria necessária para que haja uma reversão na tendência de hegemonia chinesa em uma série de ramos industriais de ponta.

A própria promessa de que os EUA irão retomar uma política agressiva de exploração de combustíveis fósseis esbarra na realidade de que as reservas existentes já dão mais do que conta da demanda existente, a qual tende a diminuir em função do avanço da produção de carros elétricos, e justamente pela China. Quando Trump fala em explorar mais, ele não faz mais nada do que acenar para seus eleitores e financiadores.

Uma área de especial preocupação é a do combate aos efeitos das mudanças climáticas, pois Donald Trump deverá retirar novamente os EUA do Acordo de Paris, e também irá sabotar mais uma vez as conferências climáticas, como a que ocorrerá no Brasil em 2025. Mas também nessa área, a realidade deverá se impor aos anúncios de Trump, na medida em que áreas inteiras dos EUA continuarão sofrendo as piores consequências dos efeitos das mudas climáticas, a começar pela Flórida onde possui uma de suas maiores mansões. Há ainda que se lembrar que no primeiro mandato de Trump, muitas de suas regressões na área climática foram compensadas por contra-medidas nos estados. E isso deverá novamente ocorrer, pois está evidente que o território estadunidense possui várias regiões que estão sofrendo as piores consequências dos eventos climáticos extremos.

O fato é que muito da histeria que está acompanhando  a volta de Trump se deve ao fato de que os EUA possuem forças militares para causar grandes estragos em diversas partes do planeta.  E está também evidente que Trump não hesitará em apoiar agentes políticosque se prestam a defender de forma mais óbvia os interesses dos EUA nos diferentes continentes.  Mas também aqui, a coisa está longe de ser um passeio para Trump, na medida em que os EUA não são o único estado capaz de mobilizar forças militares ou aliados. A existência e fortalecimento dos BRICS é uma prova disso.

Os ecos da posse de Donald Trump no Brasil e as tarefas que estão postas

No caso do Brasil, o maior problema do governo Lula não é o possível apoio de Donald Trump a Jair Bolsonaro e sues aliados de extrema-direita. Basta ver o tratamento que foi dispensado a Michele e Eduardo Bolsonaro que foram barrados no baile para ver que Trump tem mais com que se preocupar do que com Jair Bolsonaro.

O problema real aqui é que a insistência do governo Lula de continuar aplicando um receituário neoliberal que o próprio Trump não é irá aplicar nos EUA. Assim, mais do que o fantasma de Donald Trump, o que o governo Lula precisaria enfrentar é o coração de suas próprias políticas fiscais que continuam jogando nas costas dos traballhadores o ônus de suas políticas de austeridade.

Como não há nenhum sinal de que o governo Lula irá abandonar suas políticas de austeridade, o papel das forças que entendem o risco que isso traz para a classe trabalhadora vão ter que agir para avançar propostas de ação, tanto na área dos direitos trabalhistas, mas também na área ambiental. As recentes catástrofes climáticas que afetaram o Brasil nesse início de 2025 são uma espécie de chamado à ação e me parece óbvio que não será aceitando o limiar da austeridade que isso será possível.

Alto uso de fertilizantes reduz pela metade o número de polinizadores, segundo estudo mais longo do mundo

Mesmo o uso médio de fertilizantes de nitrogênio reduziu o número de flores em cinco vezes e reduziu pela metade os insetos polinizadores

Uma abelha em uma flor de hawkbit. O estudo é o primeiro a mostrar que um aumento no uso de fertilizantes leva a uma queda no número de polinizadores, afetando as abelhas em particular. Fotografia: Kay Roxby/Alamy

Por Phoebe Weston para o “The Guardian”

O uso de altos níveis de fertilizantes comuns em pastagens reduz pela metade o número de polinizadores e drasticamente o número de flores, segundo uma pesquisa do experimento ecológico mais antigo do mundo.

Aumentar a quantidade de nitrogênio, potássio e fósforo aplicados em pastagens agrícolas reduziu o número de flores em cinco vezes e reduziu pela metade o número de insetos polinizadores, de acordo com o artigo da Universidade de Sussex e da Rothamsted Research.

As abelhas foram as mais afetadas – havia mais de nove vezes mais delas em terrenos sem produtos químicos em comparação com aqueles com os níveis mais altos de fertilizantes, de acordo com o artigo, publicado no periódico NPJ Biodiversity .

O pesquisador principal, o doutor Nicholas Balfour, da Universidade de Sussex, disse: “À medida que aumentamos os fertilizantes, o número de polinizadores diminui – essa é a ligação direta que, até onde sabemos, nunca foi demonstrada antes.

“Está tendo um efeito drástico em flores e insetos. O efeito cascata vai direto para a cadeia alimentar”, ele disse.

Isso ocorre principalmente porque os fertilizantes criam condições que permitem que gramíneas de crescimento rápido dominem, superando outras gramíneas e flores. É geralmente assumido que ter uma maior diversidade de flores leva a uma maior diversidade de polinizadores, que frequentemente têm requisitos especializados em termos das flores que gostam de visitar.

Um grande campo de feno com árvores ao longe
Pastagem no local de um dos experimentos de longo prazo em Rothamsted, Hertfordshire. Fotografia: Juliet Ferguson/Alamy

A pesquisa foi feita em Rothamsted, Hertfordshire, em faixas de pastagem chamadas Park Grass, que têm sido estudadas desde 1856 .

O uso médio de fertilizantes em pastagens no Reino Unido é de cerca de 100 kg para cada hectare. A maior quantidade no experimento foi de 144 kg por hectare, ao qual os maiores declínios de polinizadores (de 50% ou mais) foram vinculados.

Mesmo a terra espalhada com a quantidade média, no entanto, teve 42% menos polinizadores e cinco vezes menos flores do que a terra sem nenhuma. Os resultados foram mais pronunciados em parcelas tratadas com nitrogênio, o tipo de fertilizante mais amplamente usado . Os pesquisadores descobriram que as parcelas tratadas com uma mistura de fertilizantes excluindo nitrogênio mantiveram um número relativamente alto de polinizadores e flores.

Quase todas as pastagens no Reino Unido são “melhoradas” – o que significa que são fertilizadas até certo ponto. Apenas 1% a 2% das pastagens no Reino Unido são habitats ricos em espécies de alta qualidade, de acordo com o estudo. Nacionalmente, o Reino Unido perdeu 97% dos prados de flores silvestres desde a década de 1930, e estudos mostraram um declínio generalizado no número de insetos polinizadores .

Os pesquisadores também mediram a produtividade de cada parcela de pastagem pesando a quantidade de feno produzida no final da estação. Eles contaram polinizadores como abelhas, moscas-das-flores, borboletas, vespas e moscas em 18 faixas de terra sujeitas a diferentes tratamentos com fertilizantes.

Na última década, a demanda por fertilizantes agrícolas aumentou . O Professor Francis Ratnieks, um entomologista da Universidade de Sussex, disse: “Visitei o Park Grass há muitos anos e percebi a oportunidade única que ele oferecia para estudar o efeito da fertilização de pastagens em flores silvestres e abelhas.

Um trator espalhando fertilizante em um campo enorme sem sebes visto de cima

Os agricultores enfrentam um dilema: para obter mais espécies de plantas com flores e polinizadores, a terra precisa ser menos fértil, o que reduz os rendimentos. Fotografia: Nigel Francis/Alamy

“Considerando o foco atual no uso de fertilizantes e os declínios substanciais no número de polinizadores nos últimos anos, este estudo não poderia ter vindo em melhor hora, pois buscamos entender como os proprietários de terras podem ajudar melhor as abelhas e outros polinizadores por meio de áreas de pastagens abertas”, disse ele.

Este estudo ilustra o problema que os agricultores enfrentam: para obter mais espécies de plantas com flores e polinizadores, a terra precisa ser menos fértil, o que reduz a produtividade.

“Nossa descoberta mais importante e desafiadora é a existência de um trade-off entre a diversidade de flores e polinizadores e o rendimento das pastagens”, afirmam os pesquisadores no estudo. Eles destacam a necessidade de incentivos financeiros no Reino Unido e na UE para apoiar práticas agrícolas favoráveis ​​à biodiversidade.

IMG 5479 Pansie usou plantas reprodutoras e declínio de polinizadores
Flores ‘desistem’ de insetos escassos e evoluem para se autopolinizar, dizem cientistas
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Balfour disse: “Embora a redução de rendimentos não seja normalmente considerada algo bom, a redução da intensidade da produção de pastagens tem o potencial de concretizar muitos dos benefícios da paisagem multifuncional.” Isso inclui beneficiar polinizadores, melhorar a saúde do solo, melhorar a qualidade do ar e mais resiliência a eventos climáticos extremos.

O doutor Philip Donkersley, pesquisador sênior em ecologia e evolução na Universidade de Lancaster, que não estava envolvido no estudo, disse: “O que é interessante e novo aqui são os prazos. Normalmente, nossos estudos sobre isso duram de quatro a cinco anos. Isso está se aproximando de 150 anos de aplicação de fertilizantes químicos e orgânicos e, portanto, reflete muito mais o que vem acontecendo nas fazendas britânicas.”


Fonte: The Guardian

Com 99% do Pantanal suscetível a perder espécies de anfíbios, são necessárias mais áreas de proteção

Somente 13,7% das áreas de proteção tiveram bom desempenho na proteção de anfíbios – a maioria são terras indígenas

Mais de 80% das espécies de anfíbios do Pantanal e região terão seus habitats reduzidos até 2100, como consequência das mudanças climáticas. A perda das espécies semiaquáticas deve ocorrer em 99% da Bacia do Alto Paraguai — estimativas preocupantes, agravadas pela falta de impacto de áreas protegidas (APs) existentes (unidades de conservação e terras indígenas). As APs cobrem 6% da região e protegem menos de 5% da distribuição geográfica dos anfíbios. As conclusões foram publicadas por pesquisadores das universidades federais da Paraíba (UFPB), de Mato Grosso (UFMT), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com outras instituições, na revista científica “Journal of Applied Ecology” nesta quinta (16).

A equipe chegou às estimativas a partir de registros de ocorrência de espécies de anfíbios da Bacia do Alto Paraguai, considerando dados climáticos e topográficos, modelos de distribuição de espécies e dados de 73 unidades de conservação da região. O estudo buscou analisar a capacidade das atuais áreas protegidas de abrigar a biodiversidade, além de aplicar ferramentas de planejamento sistemático de conservação — um algoritmo de busca inteligente — para identificar áreas prioritárias para expansão e maior proteção possível da fauna semiaquática.

Somente 13,7% das APs existentes tiveram desempenho acima de áreas escolhidas aleatoriamente na proteção de anfíbios, a maioria sendo terras indígenas. Além disso, a análise apontou que apenas 12% das áreas de proteção estão em locais com grande diversidade, conforme explica o primeiro autor do estudo, Matheus Oliveira Neves: “As demais áreas foram estabelecidas há muito tempo, quando ainda não havia estudos suficientes, sendo escolhidas por sua beleza ou ancestralidade. Não levaram em consideração as espécies que estavam protegendo”, explica.

Portanto, é necessário aumentar as áreas de conservação no Pantanal — e as regiões prioritárias, segundo o estudo, seriam suas porções norte e oeste, especialmente em regiões de altitude nas transições com o Cerrado brasileiro, e ao sul, próximo ao Chaco paraguaio.

Ampliar as áreas protegidas é, inclusive, uma das metas que compõem o Quadro Global de Biodiversidade Pós-2020, proposto pela Convenção sobre Diversidade Biológica, da qual o Brasil participa. O autor sênior, Mario R. Moura, ressalta: “É a Meta 30×30, que propõe expandir as APs de 17% para 30% das superfícies de terra, mar e águas interiores até 2030. Se implementada, poderia garantir a proteção de quase 50% da área de ocorrência dos anfíbios no Pantanal, um avanço 10 vezes superior à proteção oferecida pela rede atual de áreas protegidas”.


Fonte: Agência Bori

Queimadas em Florestas Não Destinadas da Amazônia cresceram 64% no último ano

Área de floresta pública atingida pelo fogo em 2024 foi equivalente ao território de El Salvador. Análise foi feita pelo IPAM

Queimadas na Amazônia se intensificam entre agosto e outubro. Foto: Greenpeace

Por Cristiane Prizibisczki para o “OECO” 

Análise divulgada nesta sexta-feira (17) pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) mostra que os incêndios em Florestas Públicas não Destinadas na Amazônia cresceu 64% em 2024, quando comparado com o ano anterior.

Segundo a análise, 2,4 milhões de hectares foram queimados dentro dessas porções florestais ainda preservadas que, por não terem destino ainda definido pelo governo – não foram transformadas em unidade de conservação, Terra indígena, Quilombola ou destinada à privatização – são os principais alvos de crimes como ocupação irregular, desmatamento e fogo.

A área queimada é equivalente ao território de El Salvador ou todo o estado de Sergipe. Setembro de 2024 foi o mês que mais concentrou o fogo, queimando 756,3 mil hectares – foi a maior área queimada já registrada em florestas públicas não destinadas em um único mês desde 2019 pelo Monitor do Fogo, iniciativa coordenada pelo IPAM na rede MapBiomas.

Os pesquisadores do IPAM reforçam a preocupação sobre a situação dessas áreas, que viram o fogo aumentar, mesmo com a redução de 20% no desmatamento registrado em 2024, em relação ao ano anterior.

“A grilagem de florestas públicas não destinadas ainda é o motor da destruição da Amazônia brasileira. O desmatamento e o fogo fazem parte do mesmo processo de ocupação ilegal de terras públicas. As áreas queimadas em 2024 já haviam sido desmatadas antes, e assim ocorre sucessivamente. É por isso que a redução do desmate deve ser acompanhada de políticas como a destinação destas florestas, para ser uma solução sustentada”, diz Paulo Moutinho, pesquisador sênior do IPAM.


Fonte: oeco

Uso intenso de agrotóxicos provoca crise silenciosa na saúde e meio ambiente no Oeste do Pará

Avanço da soja e do milho expõe populações de Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos a problemas de saúde

Os municípios de Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos estão entre os dez maiores produtores do estado – Vitor Shimomura/Brasil de Fato

Por Liege Costa para o Brasil de Fato 

oeste do Pará se tornou um dos grandes polos agrícolas do Brasil destacando-se na produção de soja e milho. Os municípios de Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos estão entre os dez maiores produtores do estado, mas o uso intenso de agrotóxicos traz consequências.

“A chegada da soja trouxe desenvolvimento econômico para a região, mas a um alto custo”, afirma a Dra. Annelyse Figueiredo, professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). “Esses cultivos dependem de agrotóxicos, como o glifosato, que não apenas eliminam ervas daninhas, mas também contaminam o meio ambiente e afetam a saúde humana”, afirmou.

Com o Brasil consolidado como o maior produtor de soja do mundo, a dependência de agrotóxicos cresce, e o glifosato, herbicida amplamente utilizado, torna-se símbolo de um problema que afeta desde o solo até as gerações futuras.

Os números da intoxicação: um alerta para a região

Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinam) revelam, que desde os anos 2000, 92 casos de intoxicação aguda por agrotóxicos foram registrados em Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos ao longo de 24 anos. Belterra lidera as notificações, com 54 casos, enquanto Santarém e Mojuí dos Campos registraram 33 e 5 casos, respectivamente. No entanto, o número pode ser apenas a “ponta do iceberg.

“Esses números podem parecer baixos, mas sabemos que para cada caso registrado, outros 50 ficam fora das estatísticas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Isso significa que o problema é muito maior do que os dados mostram”, alerta Annelyse.

O aumento de casos em Belterra, que passou de 5 notificações em 2018 para 44 em 2023, é motivo de preocupação para especialistas. A situação é ainda mais grave quando se observa que mais de 60% das vítimas são jovens com menos de 19 anos, incluindo crianças e até mesmo bebês.

“Na Escola Municipal Vitalina Mota, localizada ao longo da BR-163, cercada por lavouras de soja, alunos e professores sofrem constantemente com os efeitos da pulverização de agrotóxicos. A exposição gera sintomas imediatos, como náuseas, vômitos e tontura, e frequentemente as aulas precisam ser suspensas”, detalha Annelyse.

Impactos crônicos e subagudos: um legado de doenças

Os impactos do uso de agrotóxicos vão além das intoxicações agudas. Pesquisas apontam para o aumento de casos de câncer, doenças neurológicas e malformações congênitas na região.

“Os agrotóxicos contêm substâncias químicas que podem causar mutações celulares, favorecendo o surgimento de diferentes tipos de câncer, como linfomas, leucemias e tumores de mama e próstata”, explica a Dra. Kalysta Borges, médica oncologista e hematologista do Hospital Regional do Baixo Amazonas, em Santarém.

Ela também alerta para os danos de longo prazo: “a exposição crônica pode levar a alterações hormonais, problemas neurológicos, danos ao fígado e rins, além de aumentar os riscos de doenças degenerativas, como Alzheimer e Parkinson. Isso é especialmente perigoso para populações vulneráveis, como crianças, gestantes e idosos”.

Dados do Sistema Único de saúde (SUS) revelam um aumento de 123% nas mortes por neoplasias em Belterra entre 2000 e 2020. O aumento mais alarmante foi de 667% nas mortes por doenças do sistema nervoso no mesmo período.

“Esse aumento não é coincidência. Estamos falando de uma população exposta a agrotóxicos de forma contínua, muitas vezes sem saber. Esses números indicam um problema muito maior e com consequências que ultrapassam gerações”, reforça Annelyse Figueredo.

A visão das lideranças locais

Para Sileuza Barreto, presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) de Mojuí dos Campos, os agrotóxicos representam uma ameaça direta à saúde da população e à agricultura familiar.

“Os relatos de câncer, náuseas, dores de cabeça, alergias e problemas na gravidez são constantes. Já identificamos até glifosato na urina de moradores. Isso é muito grave”, denuncia Sileuza.

Ela também aponta para os impactos no meio ambiente: “a pulverização contamina o solo, a água e até as plantações dos pequenos agricultores. Muitas famílias perderam suas produções porque os agrotóxicos atingiram áreas de agricultura familiar. Isso afeta a alimentação, a renda e a qualidade de vida dessas pessoas”.

Apesar das dificuldades, Sileuza acredita na agroecologia como solução: “estamos fortalecendo a agroecologia nas comunidades. Ela é o caminho para uma produção sustentável e para proteger a saúde das pessoas. Nossa salvação é investir em alternativas que respeitem o meio ambiente”.

Deriva técnica e o alcance invisível dos agrotóxicos

A dispersão de agrotóxicos pelo vento ou pela água, conhecida como deriva técnica, é outro problema grave. Mesmo seguindo normas técnicas, é impossível evitar que os produtos químicos atinjam áreas próximas.

“Escolas, comunidades e corpos d’água estão constantemente expostos. A chuva pode carregar os produtos para igarapés, contaminando a água utilizada para consumo ou irrigação. Isso expõe a população a riscos invisíveis e constantes”, explica Annelyse.

A Dra. Kalysta reforça que a deriva amplia os danos: “Os sintomas de intoxicação crônica podem surgir anos depois, como fadiga constante, doenças autoimunes e, em casos graves, câncer. O consumo de água contaminada ou alimentos expostos ao agrotóxico intensifica esses riscos”.

Caminhos para um futuro sustentável

Especialistas e lideranças destacam a necessidade de ações integradas para enfrentar os impactos dos agrotóxicos: 

– Criação de zonas livres de agrotóxicos: Proteger áreas sensíveis, como escolas, comunidades e corpos d’água; 

– Fiscalização rigorosa: Monitorar o uso de agrotóxicos e proibir pulverizações em locais próximos a populações; 

– Incentivo à agroecologia: Promover práticas agrícolas sustentáveis e fomentar a agricultura orgânica; 

– Conscientização da população: Educar sobre os riscos dos agrotóxicos e os direitos de saúde e proteção ambiental; 

– Melhoria no registro e monitoramento: Criar sistemas públicos para rastrear o uso de agrotóxicos na região.

“Precisamos de políticas públicas eficazes e de um esforço coletivo para proteger a saúde das pessoas e o meio ambiente. Sem isso, as consequências serão devastadoras”, alerta Annelyse.

Sileuza conclui com um apelo: “A agroecologia é a nossa esperança. Não é só sobre produzir alimentos, é sobre garantir que as próximas gerações tenham um futuro”.

Um legado para as futuras gerações

Este é um chamado urgente para que políticas públicas, conscientização coletiva e práticas sustentáveis sejam adotadas em defesa da vida e do meio ambiente no oeste do Pará.

A situação na região reflete os desafios de um modelo agrícola centrado na produção de commodities à custa do meio ambiente e da saúde pública.

“Sem uma mudança estrutural, os impactos do uso de agrotóxicos continuarão a se manifestar por gerações, comprometendo o futuro das crianças, das comunidades e do ecossistema da região”, conclui Annelyse.

* Liege Costa é jornalista da Rede de Notícias da Amazônia.


Fonte: Brasil de Fatos

MP/RJ indicia procurador e professor da UERJ por desvio milionário em projetos de extensão

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) denunciou à justiça o procurador Bruno Garcia Redondo e o professor Oswaldo Munteal Filho em função do que seria um esquema de desvio de verbas de projetos de extensão na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Essa situação já foi notada neste blog no ano de 2023 quando a situação veio a público em função de diversas reportagens assinadas pelos jornalistas Igor Mello e Ruben Berta sobre o emprego das chamadas verbas secretas enviadas pelo governador Cláudio Castro para execução de projetos “especiais” pela Fundação Ceperj e pela Uerj.

Com a denúncia contra Redondo e Munteal Filho e mais 17 pessoas que estariam envolvidas nesse esquema de desvio de verbas, a situação agora vai para a esfera judicial, após quase 2 anos de espera. Se por um lado, isso me parece tempo demais, a denúncia do MPRJ tem a capacidade de trazer essa situação de volta à atenção pública.

Particularmente sou crítico do uso de universidades públicas como veículos de terceirização de serviços que deveriam estar sendo prestados diretamente por órgãos públicos cuja função é mais afeita à execução de políticas sociais. As universidades deveriam ser preservadas desse tipo de atribuição, já que suas finalidades são muito mais específicas ao campo da pesquisa, do ensino e da extensão (aqui entendida como a distribuição do conhecimento acumulado por pesquisas científicas).

Resta dizer que a denúncia não representa necessariamente a designação prévia de culpa, pois quem decidirá isso será a justiça. Agora que a situação de Bruno Garcia Redondo e de Oswaldo Munteal Filho, e dos demais 17 denunciados, não é tranquila, isso não é. Até porque com tanto tempo para a preparação da denúncia, o MPRJ deve ter caprichado no fornecimento de provas para alicerçar a decisão judicial que virá.

Finalmente, não há como deixar de notar a ironia de ter um procurador da Uerj denunciado em um esquema de desvio milionário de verbas. É que quando foi criada, a Procuradoria da Urerj foi apontada como uma espécie de guardiã da lei dentro da universidade. Pelo jeito, a realidade não ficou à altura da propaganda feita na época em que a procuradoria foi criada à fórceps pelo então reitor Ricardo Lodi.

A polêmica do PIX foi muito útil para esconder a crise climática que se abateu sobre o Brasil

Ruas da cidade de Florianópolis (SC) foram inundadas após chuvas intensas

Toda a polêmica desatada pela decisão do governo federal de apertar minimamente o monitoramento das transações via PIX foi muito útil em vários sentidos. Um deles que creio ser merecedora de atenção foi que todas as milhões de visualizações de vídeos contendo fake news sobre a portaria do PIX caíram com um lençol de silêncio sobre a manifestação da crise climática em diferentes partes do território brasileiro.

Enquanto o governo Lula se enrolava para explicar o que nem precisaria ser explicado, pelo menos 4 estados brasileiros sofreram com eventos meteorológicos extremos: Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais e Santa Catarina. Nesses 4 estados o rastro de destruição causado por chuvas particularmente intensas deveria ter soado o alarme climático, mas até agora a repercussão tem sido inexplicavelmente abaixo daquilo que ocorreu em torno dos vídeos do PIX.

O fato é que está se tornando cada vez mais evidente que vivemos o princípio de um processo de intensificação de eventos meterológicos extremos, e que está pegando a maioria das cidades brasileiras totalmente despreparadas para fazer frente a essa situação extrema. De quebra, o fato de que inexiste qualquer esforço para reservar recursos orçamentários para dar conta de todos os problemas que estão se desenvolvendo torna a situação ainda mais complexa.

E o exemplo ruim vem de cima. Há que se lembrar que mesmo confrontado com evidências de que a crise climática está se agraando, o governo Lula decidiu reduzir em R$ 200 milhões o orçamento voltado para gerenciar e reduzir riscos de desastres ambientais. A verba reservada para o programa voltado a essas medidas prevê o repasse de R$ 1,7 bilhão em 2025, contra R$ 1,9 bilhão em 2024.  É o ajuste fiscal falando mais alto do que a necessidade de responder aos efeitos trazidos por grandes eventos meteorológicos.

Mas a realide nos estados e municípios não é nada diferente, o que causa um grau altíssimo de despreparo para fazer frente aos danos catastróficos trazidos pelos eventos extremos. Ao assistir cenas do que ocorreu nos últimos dias nas áreas mais atingidas, fica evidente o despreparo das estruturas governamentais para responder de forma eficiente ao avanço das águas. 

E quando a coisa se refere ao processo de adaptação climática, a coisa vai na mesma direção, pois o país do PIX continua ignorando a necessidade de que sejam tomadas decisões estruturais e estruturantes para responder ao agravamento dos problemas climáticos.  E com isso, a tendência de que passemos a ver cenários cada vez mais dramáticos.

Que ninguém se engane: a crise climática está aqui para ficar e vai se agravar.  Assim, urge dar a devida importância política às demandas por adaptação, especialmente para os segmentos mais pobres da população que são as vítimas preferenciais da inação governamental também na área climática.

A ciência climática deve desbloquear soluções em uma época de grandes desafios

À medida que 1,5 grau Celsius de aquecimento é alcançado, a ciência climática deve olhar para o futuro, escreve Aditi Mukherji, diretora da Plataforma de Ação de Impacto para Adaptação e Mitigação das Mudanças Climáticas do CGIAR e autora do IPCC

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Instalando sensores climáticos iButton em campos agrícolas na Tanzânia. Novas pesquisas devem preencher lacunas de evidências para reduzir emissões agrícolas e melhorar sistemas alimentares, diz Aditi Mukherji. Copyright: J.van de Gevel / Bioversity International (CC BY-NC-ND 2.0)

Por Aditi Mukherji para a SciDev

[NAIROBI] Quando os principais cientistas climáticos do mundo publicarem seu próximo relatório em 2028-29, o mundo provavelmente já terá ultrapassado 1,5 grau Celsius a mais de temperatura do que na era pré-industrial por alguns anos, e o prazo para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU estará no horizonte.

O limite estabelecido pelo Acordo de Paris de 2015 para reduzir os impactos das mudanças climáticas foi ultrapassado pela primeira vez em 2024, confirmou o serviço de mudanças climáticas da UE, Copernicus, na semana passada (10 de janeiro).

Então, conforme a próxima avaliação da ciência climática do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) começa, é vital que respondamos às perguntas que nos servirão no futuro. Navegar pelos desafios de amanhã requer ciência com visão de futuro hoje e nos próximos meses.

No centro da nossa missão de limitar as mudanças climáticas estão as comunidades e os setores mais vulneráveis ​​aos seus impactos, especialmente a agricultura e os pequenos agricultores, que desempenham um papel fundamental na alimentação do mundo, mas estão particularmente expostos aos efeitos das mudanças climáticas.

O próximo ciclo da ciência climática deve, portanto, preencher as lacunas em evidências e soluções que reduzam as emissões de gases de efeito estufa da agricultura e, ao mesmo tempo, garantir que a agricultura permaneça viável em um mundo mais quente e menos previsível.

Sabemos que os sistemas alimentares são um grande contribuidor para as mudanças climáticas, respondendo por cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa. O setor claramente precisa fazer a transição para meios mais sustentáveis ​​de produção, consumo e descarte de alimentos para dar suporte às reduções globais de emissões.

No entanto, os sistemas alimentares também são vulneráveis ​​aos impactos das mudanças climáticas. As perdas agrícolas por desastres relacionados ao clima totalizaram US$ 3,8 trilhões nos últimos 30 anos, com as maiores perdas relativas nos países mais pobres. Um aumento de 2 graus Celsius nas temperaturas piorará a já séria insegurança alimentar de longo prazo em muitos países, colocando até 80 milhões de pessoas em risco de fome até 2050.

Perguntas candentes

Este próximo ciclo de avaliações do IPCC deve responder a pelo menos três questões principais relacionadas aos sistemas agroalimentares e às mudanças climáticas para ajudar o mundo a passar da compreensão da crise climática para o enfrentamento dela com a máxima urgência.

A primeira questão para os cientistas do clima é como fazer melhor uso das tecnologias existentes que ajudam os agricultores a combater e lidar com as mudanças climáticas — e aumentar sua adoção e uso.

Inovações para ajudar os agricultores a se adaptarem a novas condições, como serviços digitais de informação climática e culturas resilientes ao clima, já existem, juntamente com desenvolvimentos como bombas de irrigação movidas a energia solar e forragens de baixa emissão, ou rações, que reduzem a pegada de carbono da agricultura. Mas elas não estão chegando aos agricultores na escala necessária para fazer a diferença.

Como canalizar de forma mais eficaz o financiamento, os recursos e o apoio climático dos países mais ricos para implementar essas inovações em países de baixa e média renda é uma questão científica.

Da mesma forma, também precisamos avaliar quais ferramentas e tecnologias permitirão que os agricultores se adaptem a condições mais quentes no futuro. Ciclos de pesquisa anteriores do IPCC mostraram que a capacidade de se adaptar às mudanças climáticas se torna cada vez mais difícil à medida que as temperaturas continuam a subir. Os cientistas precisam investigar quais adaptações de cultivo, gado ou pesca permanecerão viáveis ​​a 1,5 graus Celsius ou mais.

A segunda questão para os cientistas do clima é como tornar as tecnologias de baixa emissão acessíveis e econômicas.

Para que os agricultores tenham a melhor chance de se adaptar e evitar perdas futuras, é crucial que as temperaturas globais se estabilizem e isso exige que as emissões diminuam, incluindo as da agricultura.

No entanto, diferentemente do setor energético, que se beneficiou da pesquisa e inovação em fontes renováveis ​​como a energia solar, o setor agrícola ficou para trás em investimentos em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de baixa emissão.

Precisamos urgentemente identificar campos de pesquisa emergentes e promissores, bem como as políticas, infraestrutura e governança necessárias para tornar as tecnologias limpas acessíveis e amplamente disponíveis.

Por fim, os cientistas precisam abordar a questão de como acelerar a remoção de dióxido de carbono para complementar as reduções de emissões.

À medida que as temperaturas aumentam, a capacidade natural da terra e dos oceanos de sequestrar carbono enfraquece, intensificando a necessidade de remoção de dióxido de carbono (CDR) liderada pelo homem. No entanto, intervenções como o reflorestamento podem reduzir as terras agrícolas, particularmente em países de baixa renda, representando riscos à segurança alimentar. Os cientistas do clima devem mapear os impactos tanto das temperaturas mais altas quanto dos esforços de CDR em larga escala nos sistemas alimentares e meios de subsistência para traçar um curso que não coloque em risco a segurança alimentar .

Ciência voltada para o futuro

As decisões moldadas pelos relatórios do IPCC definirão como o mundo enfrentará os desafios sem precedentes de um planeta em rápido aquecimento, especialmente à medida que nos aproximamos do final desta década crucial.

Como autores do relatório do IPCC, nosso papel vai além de fornecer insights; devemos fornecer ciência acionável, baseada em evidências e voltada para o futuro para capacitar os governos a agir de forma decisiva e eficaz. Isso inclui equipar inovadores e formuladores de políticas para aproveitar o financiamento climático, adaptar soluções aos contextos locais e se preparar para futuros aumentos de temperatura.

Acima de tudo, não podemos esquecer a justiça climática como princípio orientador desta transição verde. Garantir que os mais vulneráveis ​​— muitas vezes também os menos responsáveis ​​— permaneçam na frente e no centro dos nossos planos pode ajudar a alcançar um futuro inclusivo, onde ninguém seja deixado para trás.

Este artigo foi produzido pela Global Desk do SciDev.Net.

Aditi Mukherji é diretora da Plataforma de Ação de Impacto para Adaptação e Mitigação das Mudanças Climáticas do CGIAR e colaboradora de relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).


Fonte: SciDev