Contaminação de água potável com metabólito persistente de agrotóxicos causa alarme na Europa

tfa sampling

Por PAN Europa

A água potável está em perigo. Em toda a Europa, o trifluoroacetato (TFA)  é encontrado na superfície e na água potável. Alarmada pelos relatórios prduzidos pela PAN Europa, a região belga da Valônia pediu à Companhia de Distribuição de Água para monitorar a água para este pequeno PFAS (PFAS são conhecidos como “forever chemicals” (químicos eternos) porque são persistentes, ou seja, não se degradam facilmente). Aguardamos ansiosamente os resultados. Uma autoridade local fez o mesmo e seus resultados estão longe de ser tranquilizadores. Três cidades em áreas agrícolas encontraram altos níveis de TFA em sua água potável. Em um relatório recente, a Agência Alemã do Meio Ambiente (UBA) reitera seu alerta sobre o problema do TFA. Enquanto alguns países já monitoram a substância, muitos outros, como a França, ainda não começaram. Nosso membro Générations Futures revelou que 12 metabólitos de agrotóxicos com alto risco de contaminação não são medidos nos testes de água, incluindo o TFA.

Em dois relatórios, a PAN Europe e membros em 11 países europeus alertam sobre a ocorrência generalizada de TFA em águas superficiais, subterrâneas e de torneira. [1, 2, 3]. Este pequeno PFAS é um produto de decomposição de muitos agrotóxicos que contém PFAS e também de alguns gases  usados ​​para refrigeração. Há mais de 20 anos, a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar, a EFSA e os Estados-Membros da UE declararam-no um “metabólito não relevante”, alimentado por alegações da indústria de que, devido à sua alta solubilidade em água, não se acumulará no corpo humano. 

No entanto, 20 anos após essa suposição, enfrentamos um grande problema. O TFA está em todos os lugares em nossos recursos hídricos. Ele é altamente solúvel e móvel, é muito persistente no ambiente, com evidências crescentes apontando para sua toxicidade. As autoridades alemãs agora o consideram uma provável substância reprotóxica. 

As empresas de água estão alarmadas. Elas fornecem água potável limpa, mas enfrentam um desafio crescente. Até o momento, apenas a osmose reversa pode ser usada para filtrar TFA da água. Este é um sistema exorbitantemente caro para as comunidades e levaria à água completamente desmineralizada.

Enquanto isso, a União Europeia (UE) revisou a diretiva sobre água destinada ao consumo humano. Este regulamento limita o “PFAS Total” a 500 nanogramas por litro a partir de janeiro de 2026. Em nosso relatório, documentamos que 96% da quantidade de PFAS na água é TFA. Em muitas áreas, especialmente em zonas agrícolas, esse limite é excedido apenas para TFA. Somente uma proibição rápida de agrotóxicos PFAS e gases F que emitem TFA pode resolver esse problema em algum momento. Portanto, a PAN Europa e seus membros defendem que a proibição de todos os agrotóxicos PFAS ocorra agora.

Resultados alarmantes de medições recentes na Valônia

Após a atenção da mídia em torno de nossos relatórios, a região belga da Valônia lançou um programa de monitoramento de TFA em toda a região em água destinada ao consumo humano. Os resultados são esperados em breve, mas os resultados já foram apresentados pela cidade de Ciney, na área com agricultura intensiva, especialmente cereais, são alarmantes:

  • 1100 ng/l na cidade de Ciney
  • 1600 ng/l na cidade de Pessoux
  • 2400 ng/l na cidade de Braibant

Após a comunicação destes resultados, a Câmara Municipal decidiu na sua reunião de Setembro passado:

  • Exigir a aplicação da nova norma na Diretiva Europeia de Água Potável, limitando a presença de todos os PFAS [incluindo TFA] a 500 ng/l.
  • Solicitar aos Ministros da Saúde, do Ambiente e da Agricultura que apliquem o princípio da precaução até que seja comprovada a não toxicidade das moléculas de PFAS contidas nestes pesticidas

Nosso membro Nature & Progres está pedindo a proibição das 29 substâncias ativas PFAS autorizadas em produtos pesticidas na Bélgica, como flufenacete, diflufenican e fluazinam, para proteger nossa água e nossa saúde.

Monitorização inadequada da qualidade da água em França

Nossa organização membro Générations Futures analisou os dados oficiais de monitoramento de água na França. Dos 79 metabólitos de agrotóxicos que provavelmente contaminam as águas subterrâneas, eles identificaram, apenas 23 foram monitorados em 2022/2023. Em contraste, 56 metabólitos não são monitorados nas águas subterrâneas ou na água potável. A organização conclui que a poluição da água na França por metabólitos de agrotóxicos é amplamente subestimada. Entre os monitorados estão 12 metabólitos particularmente de alto risco. Oito desses metabólitos vêm de substâncias ativas que são cancerígenas, mutagênicas, reprotóxicas ou desreguladoras endócrinas. Um dos metabólitos ainda não medidos é o TFA. [3]

Relatório alemão sobre águas subterrâneas 2017-2021

A Alemanha é um dos poucos países que monitoram ativamente o TFA. Um relatório de 2017-2021 do Umweltbundesamt alemão (UBA) revelou que, embora a poluição da água por substâncias ativas de pesticidas tenha diminuído, a detecção de produtos de decomposição de pesticidas, incluindo TFA, está se multiplicando.

“A contaminação de águas subterrâneas com agrotóxicos diminuiu. Isso é demonstrado por um estudo nacional recente de mais de 16.000 pontos de medição. O declínio diz respeito principalmente a substâncias que não são mais autorizadas e cuja concentração em águas subterrâneas está agora diminuindo lentamente. Metabólitos, por outro lado, estão aparecendo com muito mais frequência – agora em mais de 70 por cento dos locais de monitoramento.”

O instituto expressa preocupações sobre o TFA, incluído no relatório anual pela primeira vez. “Dados de monitoramento abrangentes para ácido trifluoroacético (TFA) não degradável foram analisados ​​pela primeira vez. O TFA é um metabólito de vários agrotóxicos, mas também pode ter outras causas além da agricultura. A substância é encontrada em águas subterrâneas em 76 por cento dos locais de monitoramento e, portanto, em quase todos os lugares. Essas descobertas representam um grande desafio, pois a substância dificilmente pode ser removida tecnicamente durante o tratamento.” [5]

Conclusão

A contaminação por TFA é um problema enorme e crescente. Como não há meios eficazes para removê-la da água potável, há apenas uma solução viável: uma proibição imediata de todos os pesticidas PFAS e outras substâncias que se decompõem em TFA. A PAN Europe e seus membros pedem a proibição desses produtos químicos para proteger nossa água e nossa saúde.

Notas:

[1] TFA na água: legado sujo de PFAS sob o radar , PAN Europe e membros, maio de 2024

[2] TFA: O produto químico eterno na água que bebemos , PAN Europe e membros, julho de 2024

[3] Campanha PAN Europa: Proibir pesticidas PFAS e TFA

[4] Relatório sobre metabólitos de agrotóxicos, a ponta do iceberg(link externo), Générations Futures, 9 de outubro de 2024

[5]  Pestizide im Grundwasser: Weniger Wirkstoffe, mais Metaboliten(link externo), Umweltbundesamt UBA, outubro de 2024


Fonte: PAN Europa

PT Campos: um compromisso férreo com a derrota

caravana 3

Por Douglas Barreto da Mata

Eu assisti ao programa do Igor José Alves com o professor  Luciano D’ Angelo: triste, lamentável, por onde quer que se olhe.  Não apenas pelos erros analíticos do fracasso eleitoral do PT local, afinal, ele tem o direito legítimo de defender as escolhas que fez. 

A narrativa não é execrável por essa razão.  Mas sim pela hipocrisia.  Ora pelotas, participar do jogo e reclamar depois do placar e do juiz é algo lamentável.  Ouvir o professor Luciano D’ Angelo falar de dinheiro e abuso de poder econômico em Campos dos Goytacazes, enquanto o partido governa Maricá, e um oceano de dinheiro, é de doer os ouvidos.

Fica a questão, quer dizer que no município de Maricá, que é governado pelo PT desde 2008,  a política é feita por frades e freiras?  Por lá, a população votou no PT pelo programa, princípios de esquerda e por uma execução orçamentária acima de qualquer problema? Entendo.

Porém, eu não gostaria de entrar por este campo movediço, até mesmo porque, há alguns anos, quando eu declarava minha crença em aspectos moralistas da política, fui advertido pelo mesmo professor Luciano D’ Angelo que me disse: “A questão da corrupção ou do moralismo não devem ser o principal norte da política”.

Anos depois, com a devassa hipócrita da Lava-Jato, entendi aquele argumento como uma premonição corretíssima.  Eis que, agora, me deparo com o professor Luciano D’ Angelo fazendo o discurso oposto do que fez antes.  Pior, faz um discurso oposto ao que praticou nessa eleição, porque até as placas de mármore da Praça 4 Jornadas sabem que o PT local funcionou como linha auxiliar da oposição, e pelo que se diz, teve bons motivos para tanto.

Alguns chamam essa conduta de hipocrisia. Eu chamo de esquizofrenia moral, para não usar termo mais pesado.  Enfim, parece que a surra que o PT de Campos levou nessa eleição de nada serviu.  A proposta de criar um grupo com o (derrotado, com meros 372 votos) ex-reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) para dar conta de fiscalizar o atual governo é de dar vergonha alheia.

Ótimo.  Mas o problema é um ex-gestor público que sentou em cima de 20 milhões de verbas da Alerj, por anos, dinheiro destinado para restauração do Solar do Colégio (Arquivo Público), e que, por completa ineficiência, quase houve o desabamento daquele patrimônio histórico, ter legitimidade para apontar erros de gestão em uma prefeitura do tamanho da campista, ou de quem quer que seja. O ex-gestor de universidade pública, que não deu conta de 20 milhões de verbas, vai poder tecer críticas sobre um orçamento de 3 bilhões?  Algo parecido com Jefferson Azevedo criticando o IDEB, quando sua gestão rebaixou drasticamente o aproveitamento dos alunos do IFF no Enem/Enad.

Enfim, a caravana seguirá, e os cães permanecerão ladrando.  Lamentável.

Monsanto Papers: mensagens revelam quem são os cientistas de confiança da Bayer no Brasil

A Repórter Brasil teve acesso aos “Monsanto Papers”, série de documentos internos da empresa comprada em 2016 pela multinacional alemã Bayer; Mensagens revelam estratégia de encontrar cientistas aliados para a defesa do glifosato, agrotóxico mais vendido no Brasil

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Por Carla Ruas e Sílvia Lisboa, edição de Paula Bianchi, para a Repórter Brasil

Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc) classificou o agrotóxico glifosato como “provável cancerígeno”. Menos de cinco anos depois, no entanto, o Brasil rebaixou o grau de toxicidade do pesticida banido em países como Áustria e Alemanha. Por aqui, o glifosato segue campeão de vendas.

O lobby por trás dessa decisão, contrária à da agência ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), só agora começa a ser revelado, com a análise pela Repórter Brasildos chamados “Monsanto Papers”, originalmente divulgados em 2019. Até hoje, os documentos que mostram os bastidores da atuação no Brasil da principal fabricante do glifosato não haviam sido investigados.   

E-mails internos da Monsanto, comprada pela multinacional alemã Bayer em 2016, mostram que a companhia fez uma lista de cientistas brasileiros que poderiam atuar contra eventuais restrições ao herbicida. Tratava-se de uma estratégia comum, segundo documentos da empresa.

Em mensagens de 2012 e 2013, o então gerente de toxicologia da Monsanto, David Saltmiras, menciona quatro nomes de confiança no país: o médico Flávio Zambrone, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a toxicologista Silvia Berlanga Moraes de Barros, da Universidade de São Paulo (USP), o patologista João Lauro Viana de Camargo, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e o agrônomo Edivaldo Domingues Velini, também da Unesp e presidente entre 2014 e 2018 da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), do governo federal. 

Em e-mail, o então gerente de toxicologia da Monsanto, David Saltmiras, menciona cientistas brasileiros convidados para evento da empresa (Reprodução: Monsanto Papers)
Em e-mail, o então gerente de toxicologia da Monsanto, David Saltmiras, menciona cientistas brasileiros convidados para evento da empresa (Reprodução: Monsanto Papers)

Os Monsanto Papers vieram a público em 2019, durante uma leva de processos judiciais contra o glifosato nos Estados Unidos, e foram fundamentais para condenações que já somam US$ 11 bilhões (R$ 60 bilhões). Há milhares de ações na Justiça norte-americana em que agricultores afirmam ter contraído câncer devido ao uso do herbicida da empresa.

Os documentos vazados não trazem os posicionamentos dos cientistas brasileiros. Mas indicam como a empresa buscava a participação deles em audiências públicas e congressos acadêmicos, além de sugerir até mesmo edições em artigos científicos.   

Procurada, a Bayer não retornou até a publicação desta reportagem.

Diretor da Monsanto sugeriu edições em artigo científico de brasileiro

Citado nos Monsanto Papers, o médico João Lauro Viana de Camargo é professor aposentado de Patologia da Unesp. Em 2015, enquanto o uso do glifosato estava sob reavaliação no Brasil, a Monsanto foi surpreendida pela decisão da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc) de classificar o glifosato como um “provável cancerígeno para humanos”. O anúncio levou a empresa a montar uma estratégia global de redução de danos.

O plano incluía montar um grupo de especialistas, incluindo Camargo, para realizar estudos refutando as afirmações da Iarc. Em um documento de planejamento, a empresa diz que seu objetivo era “proteger a reputação e a liberdade de operação do Roundup (nome comercial do agrotóxico da empresa), comunicando a segurança do glifosato”. A estratégia também falava em “fornecer cobertura para que as agências reguladoras continuem a tomar decisões de recadastramento com base na ciência.”

Trecho de documento de planejamento da empresa, em que ela fala em  “proteger a reputação e a liberdade de operação do Roundup (nome comercial do agrotóxico da empresa), comunicando a segurança do glifosato”.

Em trecho de documento de planejamento, empresa fala em “proteger a reputação e a liberdade de operação do Roundup [produto da Bayer], comunicando a segurança do glifosato” (Foto: Reprodução/Monsanto Papers)

A ofensiva da Monsanto resultou em uma série de artigos científicos publicados no periódico Critical Reviews of Toxicology. Dois deles foram assinados por Camargo, em conjunto com outros cientistas. Apesar de a empresa negar qualquer envolvimento nas pesquisas, ofícios internos mostram que a Monsanto teria participado ativamente da produção dos artigos, da redação de manuscritos à edição final por parte de executivos da empresa. 

Em um email interno, o Diretor de Estratégia de Avaliação de Segurança de Produtos, William Haydens, admite que analisou um dos artigos coescritos por Camargo e indicou “o que acho que deveria ficar, o que pode ir, e em alguns pontos eu fiz uma pequena edição.”

Em e-mail, executivo da Monsanto sugere modificações em artigo que teve o professor Camargo como um dos autores. A referência ao artigo consta da troca de mensagens (Reprodução: Monsanto Papers)
Em e-mail, executivo da Monsanto sugere modificações em artigo que teve o professor Camargo como um dos autores. A referência ao artigo consta da troca de mensagens (Reprodução: Monsanto Papers)

A Monsanto pagou US$ 350 mil (R$ 1,9 milhão) para uma consultoria científica contratar os especialistas e coordenar o trabalho. Em memorando de comunicação interno analisado pela reportagem, a Monsanto admite que muitos, incluindo Camargo, já haviam trabalhado como consultores pagos pela empresa. Apesar do esforço, a Iarc manteve a classificação do glifosato como potencialmente cancerígeno.

A decisão repercutiu na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que desde 2008 estava reavaliando o glifosato. Em 2016, a agência contratou um parecerista técnico externo pelo valor de R$ 10 mil. Quem ganhou o edital foi a pesquisadora Marize Solano, orientanda de mestrado e doutorado de Camargo, na Unesp. No laudo, Solano discorda da Iarc e diz considerar “pouco provável” que o glifosato seja cancerígeno. 

Em nota, a Anvisa afirmou que a contratada cumpriu exigências profissionais e de formação acadêmica, mas não respondeu se tinha conhecimento do vínculo com Camargo. Procurada, Solano não aceitou dar entrevista. Camargo também não respondeu a perguntas sobre sua relação com a Monsanto.

O parecer foi decisivo para a decisão final da Anvisa sobre o glifosato, finalmente anunciada em 2019. Embora tenha aprovado mudanças nas recomendações sobre o uso do produto, a agência não proibiu o glifosato no Brasil e abrandou seu grau de toxicidade. Hoje, o princípio ativo considerado um provável cancerígeno pela agência da OMS é classificado no Brasil como pouco tóxico para humanos.

Médico representou a Monsanto em audiências sobre o glifosato

Já o médico Flávio Zambrone é um velho conhecido da Monsanto. O toxicologista e professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) fundou a consultoria privada Planitox nos anos 1990, que ainda hoje presta serviço para fabricantes de insumos agrícolas. Ele representou a Monsanto e outras 38 empresas de agrotóxicos durante a reavaliação do glifosato pela Anvisa. 

“As empresas se unem e contratam um toxicologista de confiança para que organize os seus dados e suas informações”, afirmou Zambrone em uma audiência pública sobre o processo no Congresso Nacional, em 2019. “Essas informações são fornecidas para a Anvisa usar nas suas avaliações e tomar decisões”, explicou sobre o seu papel. 

O médico também defendeu a indústria nas reavaliações de outros dois agrotóxicos: o 2,4 D – usado no cultivo da soja e milho – e o clorotalonil, fungicida utilizado em diferentes plantações, como batata e trigo. 

Enquanto a Anvisa avaliava o glifosato, Zambrone fundou outras duas organizações para respaldar o uso de agrotóxicos no país: o Instituto Brasileiro de Toxicologia (IBTox), responsável por treinamentos para produtores rurais e profissionais de toxicologia, e o Grupo de Informações e Pesquisas sobre Glifosato (Gipeg), criado para defender o glifosato, principalmente na imprensa.

Em todas essas organizações, o médico contou com o apoio da filha, Maria Vitória Zambrone, especialista em comunicação corporativa e sócia do pai na Planitox. Maria Vitória também criou o serviço de checagem de notícias “Drops”, utilizado pelo portal do médico e comunicador Drauzio Varella, e encerrado em 2020. 

Em uma das checagens, o Drops afirmou ser “insustentável” a notícia de que o  glifosato tem relação com autismo, sem expor aos leitores a associação direta de sua fundadora com a indústria de agrotóxicos.  

Procurado pela reportagem, o Portal Drauzio afirmou, em nota, desconhecer qualquer envolvimento de Maria Vitória Zambrone com as empresas de seu pai. O texto afirma que, “visto a situação atual, que chegou ao nosso conhecimento através desta reportagem, iremos retirar o conteúdo citado do ar”. 

O agrônomo e ex-gerente de toxicologia da Anvisa, Luiz Claudio Meirelles, lembra que Flávio Zambrone estava sempre na agência defendendo o lado das empresas. “Ele (Zambrone) usa do prestígio de uma universidade pública para defender interesses privados. Esse viés é inaceitável, na minha opinião”, diz Meirelles, atualmente pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. “Universidade pública deve servir ao bem comum, ao interesse de todos”, complementa. 

Procurados, Flávio e Maria Vitória Zambrone não responderam aos questionamentos da Repórter Brasil. 

O médico já precisou dar explicações sobre outros possíveis conflitos de interesses em sua atuação. Em 2009, o Ministério Público do Trabalho (MPT) questionou a conduta do toxicologista diante do vazamento de uma fábrica de agrotóxicos da Shell e da Basf em Paulínia, interior de São Paulo. 

O então pesquisador da Unicamp foi chamado para aferir os níveis de contaminação da população local, como parte de um convênio entre a universidade e a indústria. Mas, na época, Zambrone também prestava serviços de consultoria em toxicologia para a Shell e grandes empresas fabricantes de agrotóxicos, por meio da Planitox.

No documento, a procuradora Márcia Kamei Lopes Aliaga afirma que atuação nas duas frentes “deixa entrever que o interesse público e o privado se mesclam, não havendo clara distinção, no caso, sobre tais conceitos”. A procuradora explica que a prestação de serviço de consultoria privada por um professor de universidade pública pode “comprometer a produção científica, tais questões podem ferir princípios éticos e legais da Administração Pública.”

Na época, moradores da região e ex-funcionários da fábrica acusaram o médico de favorecer a Shell, ao produzir laudos técnicos dizendo que não havia indícios de contaminação humana. Outra análise realizada pela prefeitura detectou substâncias intoxicantes em 86% das amostras de sangue analisadas.

‘A guardiã da toxicologia’ e o defensor dos transgênicos

Os outros dois cientistas citados nos Monsanto Papers são a toxicologista Silvia Berlanga de Moraes Barros, professora aposentada da Universidade de São Paulo (USP), e o agrônomo Edivaldo Domingues Velini, professor da Unesp – Campus Botucatu. 

Berlanga foi presidente da Sociedade Brasileira de Toxicologia (SBTox) nos anos 1990 e continua influente na entidade, que hoje tem a Bayer como  “sócia institucional”. 

A aproximação da entidade com a fabricante do glifosato teria ocorrido em 2015, no mesmo ano em que a Iarc classificou o glifosato como provável cancerígeno. 

Naquele ano, a SBTox chamou a associação que então representava a indústria de agrotóxicos no Brasil, a Andef, para organizar a “agenda científica” do seu congresso anual. Executivos da Bayer, Basf, Syngenta e Dow Agroscience foram palestrantes do evento científico. O episódio gerou uma onda de desfiliações e notas de repúdio entre toxicologistas. 

Repórter Brasil questionou a SBTox sobre a parceria com a Bayer, mas não obteve retorno. Berlanga também foi perguntada sobre sua relação com a multinacional e sobre as críticas de seus pares quanto à proximidade com fabricantes de agrotóxicos. A cientista  se negou a dar entrevistas e disse “não ter gostado das afirmações” a seu respeito. 

Já o agrônomo Edivaldo Velini é um dos principais defensores do uso de sementes transgênicas no país, outro filão de mercado da Bayer. Essas plantas são mais resistentes ao uso de agrotóxicos e consomem mais dessas substâncias.

Velini foi presidente entre 2014 e 2018 da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), órgão vinculado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação responsável pela avaliação e aprovação de sementes transgênicas. 

A nomeação de Velini para o cargo gerou manifestações de repúdio de organizações ambientalistas por causa de declarações favoráveis ao glifosato. Em entrevista ao site institucional da Monsanto em 2011, o professor afirmou que “ainda não há um herbicida que possa ser comparado ao glifosato em termos de segurança de uso e benefícios para o agricultor”.

A primeira semente transgênica comercializada no país foi a Soja Roundup Ready, da então Monsanto, no final da década de 1990. O grão foi desenvolvido para gerar maior produtividade com a aplicação do glifosato da companhia e chegou a ter sua venda proibida pela Justiça federal.

Em março de 2005, com a promulgação da Lei de Biossegurança a CTNBio se tornou responsável por solicitar ou dispensar estudos e relatórios de impacto ambiental para transgênicos. Até então, o Ministério do Meio Ambiente era o responsável por exigir a apresentação desses estudos. Até hoje, no entanto, a Monsanto nunca teve de apresentar os estudos das sementes transgênicas resistentes ao glifosato.

No ano passado, ao receber o Prêmio Personagem Soja Brasil, da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), entidade que mantém na sua diretoria infratores ambientais e acusados de participação nos atos golpistas de 08 de janeiro de 2023, Velini discursou: “Acredito que a minha indicação decorre muito do meu trabalho na CTNBio”, afirmou.

À Repórter Brasil, o professor da Unesp disse que produzir e difundir informações sobre os métodos de controle de ervas daninhas fazem parte das suas atribuições. “Esta é uma atividade que realizo em rotina e que não pode ser reduzida ao termo ‘apoiar agrotóxicos’”, disse.


Concurso para técnicos da Uenf com cara de que subiu no telhado

subindo no telhado 1

Como professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) sou testemunha da grande necessidade de quadros técnicos após o último concurso realizado em 2012,  o que implica em mais de uma década sem qualquer reposição para as aposentadorias e exonerações ocorridas ao longo deste período. Por isso, o anúncio de que a Uenf iria realizar um concurso para 158 vagas para repor perdas no seu quadro de servidores técnicos-administrativos foi recebido com grande alívio.

O problema é que, apesar de autorizado e anunciado, o concurso parece estar navegando por águas turbulentas.  A certeza disso foi reforçada com uma matéria publicada pela Folha Dirigida, veículo especializado na divulgação de concursos públicos dando conta que a Assessoria Jurídica emitiu um parecer favorável à celebração do termo aditivo ao contrato com a banca. 

A matéria da Folha Dirigida traz informações que geram certa incerteza acerca da rápida realização deste concurso tão necessário para a Uenf.  A primeira informação preocupante é que O contrato com a empresa contratada para fazer o concurso, o Instituto AOCP encerra no dia 28 de dezembro de 2024, o que implicará na necessidade de prorrogação do contrato.  Se a prorrogação deste contrato não ocorrer, tudo voltará à estaca zero.

A segunda informação é que Ainda não há prazos oficiais para a publicação do edital, abertura das inscrições e realização das provas. Assim, mesmo que o Instituto AOCP seja prorrogado, o concurso não ocorrerá em 2024. 

Com tudo isso, um concurso tão urgente quanto necessário se encaminha para subir no telhado em 2024, e corre o risco de se instalar por lá ao longo de 2025.

Curiosamente na reunião do Conselho Universitário que ocorreu nesta última sexta-feira (18/10), essa situação periclitante não foi informada pela reitora da Uenf, Rosana Rodrigues, apesar dela ter dados outros informes. Pode ter sido para não gerar um clima de tristeza entre os conselheiros, muitos dos quais esperam ansiosamente pela reposição de quadros técnicos.

Tratado global sobre plásticos: países mais impactados pela poluição defendem reduzir a produção

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Brasil defende regulamentação eficaz, mas resiste a medidas para reduzir produção e consumo de plásticos. Foto: Brian Yurasits / Unsplash

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Questões domésticas influenciam a negociação de tratados internacionais, em especial nos acordos multilaterais – aqueles que envolvem diversos países. No caso da formulação de um Tratado Global contra Poluição Plástica, em andamento na Organização das Nações Unidas, a ONU, países com maior produção de plástico e petróleo, como China e Arábia Saudita, tendem a ter uma postura mais conservadora e menos disposta a concessões. Já países mais impactados pela poluição por plástico, como africanos, latino-americanos e caribenhos, buscam soluções mais sistêmicas e focadas na justiça ambiental. As constatações estão em artigo publicado na sexta (18) na revista científica “Cambridge Prisms: Plastics”.

Os pesquisadores que assinam o artigo, de instituições como a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a Universidade de São Paulo, além de Dartmouth College, nos Estados Unidos, participaram das duas primeiras reuniões intergovernamentais para o desenho do documento. O acordo vem sendo discutido no âmbito do Comitê de Negociação Intergovernamental pelos Estados-membros da ONU desde 2022. O tratado deve ser concluído na última das cinco reuniões previstas pelo Comitê, que acontecerá na Coreia do Sul a partir de 25 de novembro deste ano.

Com base em observações das reuniões e na revisão de documentos oficiais, o estudo sintetiza, em dez pontos, aspectos que ainda são alvo de divergências. “Assim, podemos indicar caminhos no processo focando em alguns pontos específicos que possam de fato avançar” explica Leandra Gonçalves, professora do Instituto do Mar, da Unifesp, e a primeira autora da pesquisa.

Um desses pontos é o escopo do tratado. É preciso determinar se o acordo terá abrangência sistêmica, incidindo sobre todo o ciclo de vida dos plásticos e acarretando a redução da produção, ou se ele terá foco limitado apenas na gestão de resíduos. Já as categorias regulatórias dizem respeito, por exemplo, ao caráter voluntário ou obrigatório das exigências e à responsabilização atribuída a cada país. As nações desenvolvidas tendem a não querer assumir custos maiores, mesmo que historicamente tenham tido maior participação na produção e na geração de resíduos plásticos, defendendo que cada poluidor assuma seu débito.

A pesquisa destaca a influência das questões internas dos países nas negociações internacionais e enfatiza a necessidade de uma maior cooperação global. O Brasil, por exemplo, apoia um tratado eficaz e defende melhorias na gestão do plástico. Por outro lado, desaprova medidas que restrinjam a produção desse derivado do petróleo, mostrando resistência a mudanças significativas no modelo atual de indústria e do consumo. O argumento é de que isso poderia prejudicar o desenvolvimento nacional.

“É fundamental superar os interesses domésticos em prol de um tratado global que promova a justiça e a equidade na luta contra a poluição por plástico”, afirma Gonçalves. A cientista alerta que as decisões tomadas nas negociações serão determinantes para a saúde do oceano e o bem-estar humano. “Nossa expectativa é que o tratado, a ser concluído até o final de 2024, consiga reduzir significativamente o impacto do plástico no planeta, especialmente no oceano”, comenta Gonçalves. “Precisamos priorizar medidas ambiciosas e vinculantes que abordem todo o ciclo de vida dos plásticos. Isso não é apenas uma questão ambiental; é uma questão de equidade global e sustentabilidade”, completa.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, 7 bilhões das 9,2 bilhões de toneladas de plástico produzidas de 1950 a 2017 foram descartadas e se tornaram resíduos. O órgão estimou também que, por ano, de 9 a 14 milhões de toneladas de plástico foram parar no oceano até 2016, e que esse número pode triplicar até 2040 se nada for feito. Portanto, o grupo responsável pela pesquisa continuará acompanhando as negociações e analisando dados para avaliar se o tratado final reflete as conclusões do estudo.


Fonte: Agência Bori

Protesto em Vevey: mais de 100.000 assinaturas contra o duplo padrão da Nestlé sobre excesso de açúcar em alimentos para bebês

105.000 pessoas assinaram uma petição pedindo à Nestlé que pare de adicionar açúcar aos seus produtos de comida para bebês comercializados em países de baixa renda. Ela foi entregue na sede da multinacional em Vevey, onde as ONGs Public Eye, IBFAN e EKO despejaram o equivalente simbólico de 10 milhões de cubos de açúcar, representando o açúcar adicionado consumido diariamente por bebês alimentados com cereais Cerelac. Na Suíça, esses produtos são vendidos sem adição de açúcar. A principal corporação de alimentos para bebês deve pôr fim a esse duplo padrão prejudicial.

nildo nestlé

Por Public Eye

Um caminhão exibindo o slogan “Para a Nestlé, nem todos os bebês são iguais” subiu a Avenida Nestlé em Vevey esta tarde, acompanhado pelos olhares fascinados dos transeuntes. Ele estava carregando 40 m 3 de caixas vazias representando 10 milhões de cubos de açúcar, a quantidade de açúcar adicionado contido nos produtos para bebês Cerelac vendidos a cada dia em países de baixa e média renda. A Public Eye e seus parceiros, a International Baby Food Action Network (IBFAN) e a EKO estão convocando com esta ação de “retorno ao remetente” a gigante da alimentação para acabar com o escandaloso padrão duplo revelado por nossa  investigação em abril passado. Uma  petição assinada por mais de 105.000 pessoas também foi entregue aos representantes da empresa.

Duas das marcas de alimentos para bebês mais vendidas da Nestlé em países de baixa e média renda – os cereais infantis Cerelac e os leites de crescimento Nido – contêm altos níveis de açúcar adicionado, enquanto esses produtos da Nestlé não têm açúcar adicionado na Suíça. A empresa promove agressivamente esses produtos como saudáveis ​​e essenciais para apoiar o desenvolvimento de crianças pequenas, em seus principais mercados na África, Ásia e América Latina. Mas a exposição a alimentos adoçados no início da vida pode criar uma preferência vitalícia por produtos açucarados, aumentando o risco de desenvolver obesidade e vários problemas de saúde relacionados, como diabetes ou doenças cardiovasculares. É por isso que a Organização Mundial da Saúde proíbe a adição de açúcar aos alimentos para bebês.

Nossa investigação desencadeou uma onda de indignação em todo o mundo e levou as autoridades indianas, de Bangladesh e da Nigéria a iniciar investigações, enquanto os apelos por um boicote aumentaram nas redes sociais. Em junho, a Public Eye e a IBFAN  pediram à Secretaria de Estado Suíça para Assuntos Econômicos que acabasse com essas práticas comerciais antiéticas, que também prejudicam a reputação da Suíça. Até hoje, a Nestlé ainda se esconde atrás da conformidade com as regulamentações atuais. A multinacional destaca seus esforços para reduzir gradualmente o açúcar em seus produtos, bem como a introdução de alternativas sem adição de açúcar em certos mercados, conforme anunciado na Índia. No entanto, essas meias-medidas são inadequadas e perpetuam um padrão duplo com consequências devastadoras para a saúde pública. 

Fotos de Vevey podem ser baixadas  aqui .


Fonte: Public Eye

Crise global da água colocará metade da produção mundial de alimentos em risco nos próximos 25 anos

Revisão histórica diz que ação urgente é necessária para conservar recursos e salvar ecossistemas que fornecem água doce

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Uma criança bebe de um recipiente de plástico em Gaza. Mais de 2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável segura. Fotografia: Abed Zagout/Anadolu via Getty Images

Por Fiona Harvey para o “The Guardian”

Alguns países se beneficiam mais do que outros da “água verde”, que é a umidade do solo necessária para a produção de alimentos, em oposição à “água azul” de rios e lagos. O relatório descobriu que a água se move ao redor do mundo em “rios atmosféricos” que transportam umidade de uma região para outra.

Cerca de metade da precipitação pluviométrica mundial sobre a terra vem de vegetação saudável em ecossistemas que transpiram água de volta para a atmosfera e geram nuvens que então se movem a favor do vento. China e Rússia são os principais beneficiários desses sistemas de “rios atmosféricos”, enquanto Índia e Brasil são os maiores exportadores, pois suas massas terrestres suportam o fluxo de água verde para outras regiões. Entre 40% e 60% da fonte de precipitação de água doce é gerada pelo uso de terras vizinhas.

“A economia chinesa depende do manejo florestal sustentável na Ucrânia, Cazaquistão e região do Báltico”, disse o Prof. Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático e um dos copresidentes da comissão. “Você pode fazer o mesmo caso para o Brasil fornecer água doce para a Argentina. Essa interconexão apenas mostra que temos que colocar a água doce na economia global como um bem comum global.”

Tharman Shanmugaratnam, presidente de Cingapura e copresidente da comissão, disse que os países devem começar a cooperar na gestão dos recursos hídricos antes que seja tarde demais.

“Temos que pensar radicalmente sobre como vamos preservar as fontes de água doce, como vamos usá-la de forma muito mais eficiente e como vamos conseguir ter acesso à água doce disponível para todas as comunidades, incluindo os vulneráveis ​​– em outras palavras, como preservamos a equidade [entre ricos e pobres]”, disse Shanmugaratnam.

A Comissão Global sobre Economia da Água foi criada pela Holanda em 2022, com base no trabalho de dezenas de cientistas e economistas renomados, para formar uma visão abrangente do estado dos sistemas hidrológicos globais e como eles são gerenciados. Seu relatório de 194 páginas é o maior estudo global a examinar todos os aspectos da crise hídrica e sugerir soluções para formuladores de políticas.

As descobertas foram surpreendentemente severas, disse Rockström. “A água é a vítima número um da [crise climática], as mudanças ambientais que vemos agora se agregando em nível global, colocando toda a estabilidade dos sistemas da Terra em risco”, ele disse ao Guardian. “[A crise climática] se manifesta antes de tudo em secas e inundações. Quando você pensa em ondas de calor e incêndios, os impactos realmente duros são por meio da umidade – no caso de incêndios, [o aquecimento global] primeiro seca as paisagens para que elas queimem.”

ciclo hidrológico

Cada aumento de 1C nas temperaturas globais adiciona outros 7% de umidade à atmosfera, o que tem o efeito de “energizar” o ciclo hidrológico muito mais do que aconteceria sob variações normais. A destruição da natureza também está alimentando ainda mais a crise , porque o corte de florestas e a drenagem de pântanos interrompem o ciclo hidrológico que depende da transpiração das árvores e do armazenamento de água nos solos.

Subsídios prejudiciais também estão distorcendo os sistemas de água do mundo e devem ser tratados como prioridade, descobriram os especialistas. Mais de US$ 700 bilhões (£ 540 bilhões) em subsídios a cada ano vão para a agricultura, e uma alta proporção deles é mal direcionada, encorajando os agricultores a usar mais água do que precisam para irrigação ou em práticas de desperdício .

Ngozi Okonjo-Iweala, diretora-geral da Organização Mundial do Comércio, também copresidente da comissão, disse que os países devem redirecionar os subsídios, eliminando os prejudiciais e garantindo que os pobres não sejam prejudicados. “Devemos ter uma cesta de ferramentas políticas trabalhando juntas se quisermos obter os três Es – eficiência, equidade e sustentabilidade ambiental e justiça. Portanto, temos que acoplar o preço da água com subsídios apropriados”, disse ela.

Atualmente, os subsídios beneficiam principalmente aqueles que estão em melhor situação, acrescentou Okonjo-Iweala. “A indústria está recebendo muitos subsídios, e pessoas mais ricas. Então, o que precisamos são subsídios mais bem direcionados. Precisamos identificar as pessoas pobres que realmente precisam disso”, disse ela. 

Mulheres em trajes coloridos carregam potes de água na cabeça.
A crise da água tem um impacto descomunal sobre as mulheres, disse um dos copresidentes da comissão. Fotografia: Anjum Naveed/AP

Os países em desenvolvimento também devem ter acesso ao financiamento necessário para reformar seus sistemas de água, fornecer água potável e saneamento e deter a destruição do meio ambiente natural, concluiu o relatório.

Mariana Mazzucato, professora de economia na University College London e copresidente da comissão, disse que empréstimos feitos por bancos do setor público para países em desenvolvimento devem ser condicionados a reformas hídricas. “Isso pode ser melhorar a conservação da água e a eficiência do uso da água, ou investimento direto para indústrias intensivas em água”, ela disse. “[Devemos garantir] que os lucros sejam reinvestidos em atividades produtivas, como pesquisa e desenvolvimento em torno de questões hídricas.”

Problemas com água também tiveram um impacto descomunal em mulheres e meninas , acrescentou Mazzucato. “Uma de nossas comissárias é Yvonne Aki-Sawyerr, prefeita de Freetown, em Serra Leoa. Ela diz que a maioria dos estupros e abusos de mulheres realmente acontecem quando elas vão buscar água”, disse Mazzucato. “Mortalidade infantil, paridade de gênero, o fardo da coleta de água, o fardo da segurança alimentar — todos eles estão conectados.”

Cinco principais conclusões do relatório

O mundo tem uma crise de água

Mais de 2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável segura, e 3,6 bilhões de pessoas — 44% da população — não têm acesso ao saneamento seguro. Todos os dias, 1.000 crianças morrem por falta de acesso à água potável. Espera-se que a demanda por água doce ultrapasse seu suprimento em 40% até o final desta década. Esta crise está piorando — sem ação, até 2050 os problemas de água reduzirão cerca de 8% do PIB global, com os países pobres enfrentando uma perda de 15%. Mais da metade da produção mundial de alimentos vem de áreas que apresentam tendências instáveis ​​na disponibilidade de água.

Não existe um esforço global coordenado para enfrentar esta crise

Apesar da interconexão dos sistemas globais de água, não há estruturas de governança global para a água. A ONU realizou apenas uma conferência sobre a água nos últimos 50 anos , e somente no mês passado nomeou um enviado especial para a água .

A degradação climática está a intensificar a escassez de água

Os impactos da crise climática são sentidos primeiro nos sistemas hidrológicos do mundo , e em algumas regiões esses sistemas estão enfrentando graves perturbações ou até mesmo colapso. Seca na Amazônia, inundações na Europa e Ásia, e derretimento de geleiras nas montanhas, que causam inundações e secas rio abaixo, são todos exemplos dos impactos de condições climáticas extremas que provavelmente piorarão em um futuro próximo. O uso excessivo de água pelas pessoas também está piorando a crise climática – por exemplo, drenando turfeiras e pântanos ricos em carbono que então liberam dióxido de carbono na atmosfera.

A água é artificialmente barata para alguns e muito cara para outros

Subsídios à agricultura ao redor do mundo frequentemente têm consequências não intencionais para a água , fornecendo incentivos perversos para fazendeiros irrigarem demais suas plantações ou usarem água de forma desperdiçada. Indústrias também têm seu uso de água subsidiado, ou sua poluição ignorada, em muitos países. Enquanto isso, pessoas pobres em países em desenvolvimento frequentemente pagam um alto preço pela água, ou só podem acessar fontes sujas. Preços realistas para água que removam subsídios prejudiciais, mas protejam os pobres devem ser uma prioridade para os governos.

A água é um bem comum

Toda a vida humana depende da água, mas ela não é reconhecida como o recurso indispensável que é . Os autores do relatório pedem uma reformulação de como a água é considerada – não como um recurso infinitamente renovável, mas como um bem comum global, com um pacto global pela água pelos governos para garantir que eles protejam as fontes de água e criem uma “economia circular” para a água na qual ela seja reutilizada e a poluição seja limpa. As nações em desenvolvimento devem ter acesso a financiamento para ajudá-las a acabar com a destruição de ecossistemas naturais que são uma parte fundamental do ciclo hidrológico.


Fonte: The Guardian

Fernando Haddad, o “Faria limer”

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Fernando Haddad, o faria limmer, está preparando um pacote de arrocho contra os trabalhadores e os segmentos mais pobres da população brasileira

O ministro da Fazenda Fernando Haddad é um daqueles casos exemplares de como o Partido dos Trabalhadores (PT) se tornou o primeiro guardião dos interesses das oligarquias que controlam a economia do Brasil com mão de ferro.  A sua simples ascensão a cargos de importância reflete o gradual, porém firme, afastamento do PT dos seus compromissos fundacionais com a classe trabalhadora. O PT, com Fernando Haddad como estandarte, se tornou o principal partido da ordem burguesa no Brasil.

Mas voltando a Fernando Haddad, não sei quantos lembram do caso, em 2017 ele mostrou a quais interesses servia e serviria ao se licenciar do cargo de docente da Universidade de São Paulo (USP) para assumir um cargo no Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), um misto de entidade privado de ensino com think thank neoliberal.  Haddad se mandou para o Insper com a desculpa de ir ministrar uma disciplina na área de administração e gestão pública, mas eu desconfio mesmo que foi lá aprofundar seus conhecimentos no processo de privatização do Estado.

Esquecendo um pouco dessa escapada de Haddad, eu tive a certeza de que o terceiro mandato de Lula seria uma versão piorada dos dois mandatos anteriores ao ouvir a informação de que ele seria o ministro da Fazenda. É que a comparação com a nomeação do hoje maldito Antonio Palocci, em território estadunidense horas após um encontro com George W. Bush, em 2002 soou inevitável, com a diferença que Haddad jamais trafegou por qualquer ruela da esquerda do PT desde sua entrada no partido.  Com isso, nada o impediria de ser uma espécie de versão “evil” de Palocci, o que acabou se confirmando com a aprovação do famigerado “Novo Teto de Gastos”, com o qual Haddad algemou qualquer possibilidade de que o Lula III tivesse sequer as tinturas desenvolvimentistas do Lula I e II.  Com Haddad no comando da Fazenda, o que se teve desde o primeiro dia de governo foi uma versão educada e sem xingamentos de Paulo Guedes, apenas isso.

Agora, aproveitando a histeria criada para despistar as causas da vitória eleitoral da direita nas eleições municipais, Fernando Haddad aproveitou uma entrevista com a jornalista Mônica Bergamo da Folha de São Paulo para anunciar, sem qualquer constrangimento, que vai aprofundar o arrocho contra os trabalhadores e os segmentos mais pobres da população brasileira na forma de um profundo corte de gastos em 2025.

A intenção, Haddad não esconde, seria apaziguar as preocupações dos banqueiros sediados na Avenida Faria Lima, os conhecidos “faria limers”.  Segundo declarou Haddad, “A Faria Lima está, com razão, preocupada com a dinâmica do gasto daqui para a frente. E é legítimo considerar isso com seriedade”.  Um detalhe que tanto Fernando Haddad quanto os banqueiros “preocupados” esquecem é que mais de 50% da orçamento federal está comprometido com o pagamento de juros da dívida pública, sendo essa a causa básica do suposto desequilíbrio orçamentário da União.

A verdade é que ao assumir a lógica e a retórica dos banqueiros, Haddad se mostra mais “faria limer” do que o mais empedernido “faria limer”.  Com isso, o que se vive no momento é a antevéspera de um grande estelionato eleitoral (mais um) do PT contra os brasileiros que rejeitam o Consenso de Washington e as políticas neoliberais que esmagam os pobres em todo o Sul global. 

Entender isso será fundamental nos próximos anos, pois é muito provável que em 2026, sejamos instados a esquecer mais esse ataque aos trabalhadores e os brasileiros mais pobres em nome da preservação de uma elusiva democracia brasileira e da luta contra o fascismo. Rejeitar essa nuvem de fumaça e trabalhar para mostrar que precisamos superar o limiar neoliberal a que o PT se aferrou. Do contrário, não será impensável que tenhamos um versão tupiniquim do presidente argentino Javier Milei subindo a rampa do planalto em janeiro de 2027. 

O nosso Greenwashing de cada dia: o Porto do Açu e sua sustentabilidade ambiental para inglês ver

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A mídia corporativa campista noticiou na semana passada o fato do Porto do Açu ter conquistado o obscuro “Prêmio Mundial de Sustentabilidade” da igualmente obscura “Associação Internacional de Portos” (IAPH) no que poderia ser configurado como um prêmio entre parceiros.

Mas, afinal, qual tem sido a grande contribuição do Porto do Açu para a “sustentabilidade” que presumo ser ambiental? Se olharmos para o passivo sociambiental do empreedimento encontraremos de tudo um pouco, incluindo erosão costeira, salinização de águas continentais, áreas de exclusão para a pesca artesanal e expulsão da agricultura familiar de territórios onde esteve fincada por quase 200 anos.

Porém, uma área que é pouco tocada quando se fala da tal sustentabilidade ambiental do Porto do Açu que se refere ao consumo de água doce. Não sei quantos ainda lembram, mas o projeto original do Porto do Açu incluía a realização de um processo de transposição de águas do Rio Paraíba do Sul (ver imagens abaixo).

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Pois bem, em 30 de julho de 2018, postei neste mesmo blog, um texto em que abordava exatamente as consequências do fracasso do projeto de transposição para o abastecimento de água potável no Porto do Açu. Tempo vem, tempo vai, a coisa mais recente que ouvi falar sobre o abastecimento de água no Porto do Açu foi via o canal do Portal Viu na rede social Youtube, em outubro de 2023, onde o vice-presidente do comitê de bacia do Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana, José Armando Falcão, sobre o uso do aquífero Emburê para abastecer todas as empresas localizadas no empreendimento (ver vídeo abaixo).

O interessante é que pouco depois dessa entrevista, em novembro de 2023, eu republiquei um texto da Agência Públcia que colocaba o Porto do Açu estava entre os maiores consumidores hídricos do Brasil, com um volume outorgado anual de 142,4 bilhões de litros de água. No entanto, não consegui localizar maiores informações sobre não só sobre o que foi informado naquela reunião pelos gestores do porto, nem sobre as medidas que já foram adotados para cobrar pelo uso de água retirada do aquifero Emburê.

Mas afora a questão econômica, fica a questão ambiental, visto que, como foi alertado pelo José Armando Falcão na conversa com o jornalista Roberto Barbosa, um dos riscos envolvidos no uso excessivo de água do Emburê poderia resultar na penetração de água salina, o que poderia piorar ainda mais o problema que já foi causado pela penetração de água salgada vinda dos aterros que foram construídos no período de implantação do Porto do Açu.

Por essas e outras, que eu olho com muito ceticismo para a propalada sustentabilidade do Porto do Açu que está mais para inglês ver e dar prêmio para parceiros.  E com toda justiça que só servem para fortalecer a impressão de que esses prêmios não passam de troféus de greenwashing corporativo. Acredita neles quem quer.