Estudos apontam chances de poluição do ar representar riscos ao cérebro

Neurocirurgião e pesquisador da Unicamp aborda os efeitos da poluição no sistema vascular cerebral e os riscos a longo prazo para a saúde mental

cérebro poluição

No mês de agosto, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o estado de São Paulo registrou mais queimadas do que nos últimos dois anos, contrariando um padrão histórico. A gravidade dos danos ambientais gerou preocupações urgentes sobre a qualidade do ar. As densas nuvens de fumaça, especialmente no interior, alarmaram a população e provocaram reflexões sobre os impactos dessa poluição no corpo humano, incluindo o cérebro.

Estudos destacam que, mesmo com exposição a níveis considerados seguros de poluentes, existem chances de o funcionamento cerebral sofrer impactos a longo prazo, principalmente nas funções cognitivas, aumentando o risco de doenças neurodegenerativas.

Uma pesquisa realizada na Keck School of Medicine1, da Universidade do Sul da Califórniaavaliou dados de cerca de 9 mil participantes, a fim de investigar os impactos da exposição à poluição do ar no desenvolvimento cerebral de adolescentes. Os resultados indicaram que, mesmo nos casos em que níveis de poluição são considerados “seguros”, há alterações significativas na conectividade funcional do cérebro, influenciando o desenvolvimento cognitivo e emocional.

Outra publicação no Neurology Journals2 investigou a relação entre o contato com a poluição atmosférica e o risco de comprometimento cognitivo leve e demência. Os pesquisadores acreditam que a exposição prolongada a níveis mais altos está associada ao risco de desenvolvimento de problemas cognitivos, com implicações significativas para a saúde pública.

Dr. Marcelo Valadares, neurocirurgião e pesquisador da Disciplina de Neurocirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ressalta a necessidade de olhar além dos efeitos mais óbvios da poluição. “O ar que respiramos não afeta apenas nossos pulmões. A longo prazo, essas agressões ao sistema nervoso central podem contribuir para o declínio cognitivo e aumentar o risco de demência, como evidenciam as pesquisas mais recentes,” afirma Dr. Valadares.

Existem riscos vasculares associados à poluição do ar?

A curto prazo, a poluição do ar, incluindo a fumaça das queimadas, pode também aumentar o risco de acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e de outros problemas vasculares3. A exposição aos poluentes atmosféricos está associada a um aumento da inflamação sistêmica e do estresse oxidativo, que podem danificar os vasos sanguíneos e levar a problemas cardiovasculares e cerebrovasculares.

“As partículas finas podem penetrar profundamente nos pulmões e entrar na corrente sanguínea, provocando respostas inflamatórias que afetam o coração e o cérebro”, explica o Dr. Valadares.

3 medidas essenciais de proteção

Para se proteger da poluição intensa, confira três dicas importantes a seguir:

  1. Monitore a qualidade do arem tempos de poluição intensa, existem aplicativos e sites que informam a qualidade do ar em tempo real, como o do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Quando a qualidade do ar estiver ruim, siga as recomendações de saúde pública para proteger-se adequadamente.
  2. Evite atividades ao ar livre: evite ou minimize o tempo ao ar livre, especialmente durante o pico de poluição mais intensa. Se precisar sair, tente reduzir o tempo de exposição, principalmente se fizer parte de grupos de risco, como crianças, idosos, ou pessoas com problemas respiratórios.
  3. Mantenha ambientes internos saudáveis: em casa, mantenha janelas e portas fechadas para evitar que a poluição entre. Utilize purificadores de ar com filtros HEPA para melhorar a qualidade do ar.
  4. Use máscaras apropriadas: em ambientes com alto nível de poluição, especialmente em dias de muita fumaça ou poeira, como aconteceu nos últimos dias em diversos pontos do estado, utilize máscaras que filtrem partículas finas, como as do tipo N95 ou PFF2. Essas máscaras são capazes de bloquear a inalação de partículas perigosas que podem afetar tanto o sistema respiratório, quanto o cardiovascular.

Referências:

1: Even “safe” air pollution levels can harm the developing brain, study finds. Acesso clicando aqui.

2: Association of Long-term Exposure to Air Pollution and Dementia Risk. Acesso clicando aqui

3: Impact: Air pollution. Acesso clicando aqui.

Qual será a opção academia diante do fascismo: ação ou omissão?

queima de livros10 de maio de 1933: nazistas começam a queimar livros por toda a Alemanha (Foto: reprodução)

Por Douglas da Barreto da Mata

Em conversa reservada com um amigo, professor universitário e estudioso da ciência política, chegamos a uma conclusão.  Os intelectuais e acadêmicos dessa cidade têm uma responsabilidade histórica, refletida na tarefa de estabelecer um limite que parece turvo, nesses tempos de realidade “líquida”, e de relativizações permanentes, aquilo que se convencionou chamar de pós-verdade.

Eu fui um pouco além, e lhe disse que diagnosticar essa pós-verdade, e com ela a ameaça ao que se chama de processo democrático, não basta, fica parecendo aquele alcoólatra que reconhece o vício, mas nada faz para aderir a algum tipo de tratamento. 

Consensuamos que a “democracia” não é algo acabado, e que por isso mesmo, requer, sempre, um cuidado permanente, e que há um perigo mundial, nacional e local rondando todos aqueles que, de uma forma ou de outra, estão no campo do antifascismo. 

Aqui na planície temos a Ku Klux Kampos, uma franquia municipal atualizada da extrema-direita nacional, representada na candidatura da delegada. Um fenômeno que se corresponde com o imbecil que diz que, dentre outras bizarrices, vai ressuscitar gente, em um misto de estelionato religioso e eleitoral.  Esta figura atende pelo nome de Marçal, mas que bem poderia ter uma alcunha adicionada, Marçal, o boçal.

Neste ponto da conversa avançamos para a demanda urgente que se impõe para a academia de Campos dos Goytacazes, tão ensimesmada recentemente, incapaz de praticar o que diz ser correto fazer, isto é, debater, refletir e influir no jogo político.

Há uma hierarquia infértil no pensamento acadêmico, que confina as melhores mentes em estado de narcisismo e individualismo muito parecido com as raízes do pensamento liberal que tanto criticam.  É mais ou menos assim, somos os melhores entendedores da realidade, mas somos tão bons que não vale a pena nosso esforço em mudá-la (a realidade), ou isso não é tarefa para gente tão boa como nós. 

Chegou a hora de botar o pé na porta, eu argumentei com o meu estimado interlocutor.  Não é possível que a academia campista se exonere do dever de dizer o que ninguém mais diz:  A tolerância não pode ser usada com os  intolerantes, enfim, o Estado de Direito resguarda aos defensores da democracia os meios para afastar essa gente. 

A política também carrega em si, por sua definição, as possibilidades de negação dos fascistas, e a negativa em tratar politicamente com eles.

Caberá aos intelectuais, doutores, mestres, professores, a missão de dizer que há opções mais ou menos ao centro, ou mais ou menos à esquerda, dependendo da referência de quem olha.

No entanto, a candidatura da Ku Klux Kampos, da delegada que solidariza com Marçal, o boçal, deve ser execrada de todas as formas por essa frente intelectual.

hitler saudações

Lembrei, por fim, que a diferença entre um palhaço e Hitler é o resultado. A omissão, lembramos, também é crime.

Cientistas monitoram com preocupação a chegada do La Niña após recordes de calor

La-Nina-996x567O fenômeno La Niña cria uma massa de águas mais frias ao longo do Equador no Pacífico central e oriental, o que altera frequentemente as condições meteorológicas em diversas regiões do mundo, incluindo a América Latina. Crédito da imagem: Universidade Nacional de La Plata , sob licença Creative Commons CC BY 2.5

La Niña está associada à diminuição das temperaturas superficiais no Pacífico equatorial e a mudanças nas condições climáticas em diversas regiões do mundo. Mas os especialistas não têm certeza sobre como será o fenômeno este ano.

“Os modelos climáticos previam que teríamos um forte El Niño em 2023, com aumento das temperaturas das águas do Pacífico equatorial e da temperatura média global de até 1,3 graus Celsius [°C] acima da média do período pré- -período industrial ”, disse o climatologista Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), no Brasil, SciDev.Net . “No entanto, foi um cenário muito mais dramático.”

Em grande parte da Bacia do Atlântico, as temperaturas da superfície em 2023 estiveram até 2°C acima da linha de base de 1971-2000. Nas águas da África do Sul, Japão e Holanda, a anomalia atingiu 3°C ou mais, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos Estados Unidos.

Segundo dados do Serviço de Mudanças Climáticas do Programa Copernicus da União Europeia, entre julho de 2023 e junho de 2024, a temperatura média do planeta – impulsionada pelo El Niño – foi pelo menos 1,5°C superior à média do período pré-industrial. . “A Terra nunca esteve tão quente”, acrescentou Nobre.

Evolução das anomalias térmicas no planeta. Crédito da imagem: Berkeley Earth , licenciado sob Creative Commons CC BY-NC 4.0 Deed .

Os cientistas ainda não sabem o que causou este pico de calor em 2023. “Os níveis de gases com efeito de estufa continuaram a aumentar, mas a carga adicional de 2022 poderia explicar um aquecimento adicional de apenas 0,02°C”, disse o climatologista. “A anomalia de temperatura de 2023 revelou uma lacuna de conhecimento sem precedentes, talvez pela primeira vez em cerca de 40 anos.”

De Lima, no Peru, o oceanógrafo físico Antonio Salvá alertou que 2024 também poderá atingir recordes de temperatura. De acordo com o que ele disse ao SciDev.Net , junho foi o mês mais quente desde que os registros de temperatura começaram em 1850 e a temperatura média global de julho de 2023 a junho de 2024 atingiu +1,68°C acima da média medida de 1850 a 1900.

Para o físico Paulo Artaxo, do Instituto de Física da USP, o aquecimento global pode estar alterando a dinâmica atmosférica, comprometendo a capacidade dos modelos climáticos de prever com precisão o comportamento climático. “Isso torna mais difícil saber exatamente como se comportará o próximo La Niña, quais serão sua intensidade e efeitos”, disse ele ao SciDev.Net. “Estamos em território incerto.”

“Esperamos um La Niña moderado, mas dada a anomalia de temperatura do ano passado, as previsões para o fenômeno em 2024 podem não ser suficientemente precisas.”

Carlos Nobre, climatologista do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), no Brasil

“Muitos modelos climáticos não consideraram o impacto que o aquecimento global pode ter. Em longos períodos de previsão, 10, 20, 30 anos, fica claro como o aquecimento global está afetando os modelos de previsão. Nos modelos de curto prazo, de dois ou três meses, logicamente esse impacto não aparece. Penso que estes modelos terão de ser ajustados a esta situação de aquecimento global”, refletiu Salvá, professor titular da Faculdade de Oceanografia, Pesca e Ciências Alimentares da Universidade Nacional Federico Villarreal, em Lima.

Nos anos de La Niña, os ventos alísios, que sopram de leste a oeste nos trópicos, intensificam-se e empurram as águas superficiais quentes do Pacífico Tropical das Américas em direção à Oceania, fazendo com que as águas frias mais profundas do leste subam à superfície perto do equatorial. costas da América do Sul. Isto cria uma massa de águas mais frias ao longo do equador no Pacífico central e oriental, o que altera frequentemente as condições climáticas em várias regiões do mundo, incluindo a América Latina.

Na Colômbia, por exemplo, há chuvas acima da média, que se tornam mais intensas e podem causar inundações, enquanto há redução das chuvas na metade norte da Argentina e no Chile, Peru, Paraguai, Equador e Uruguai. No Brasil, o fenômeno costuma desencadear chuvas mais intensas nas regiões Norte e Nordeste. Secas severas são observadas na região sul. No Sudeste e Centro-Oeste os efeitos são mais imprevisíveis, com possíveis secas, inundações e tempestades.

“Esperamos um La Niña moderado, mas dada a anomalia de temperatura do ano passado, as previsões para o fenómeno em 2024 podem não ser suficientemente precisas”, disse Nobre.

O fenômeno geralmente dura entre 9 e 12 meses, mas às vezes pode durar até três anos. “É difícil prever a sua duração quando ainda não está completamente estabelecido e principalmente porque não sabemos o que mudou do ponto de vista da sua dinâmica com o El Niño”, disse Artaxo.

Para Madeleine Renom, meteorologista da Faculdade de Ciências do Uruguai, tudo indica que o La Niña será moderado, mas ainda não se pode prever sua duração ou intensidade real. Sobre seus efeitos, disse ao SciDev.Net que o Uruguai vem de alguns meses de déficit pluviométrico (julho e agosto), portanto a chegada do La Niña, geralmente associada a menos chuvas entre outubro e dezembro, pode acentuar as condições de baixa. disponibilidade de água.

“O aquecimento global está a alterar o clima tal como o conhecemos e isso leva a altos e baixos: se [La Niña] vai ocorrer, ou se for adiado, se for um evento moderado, a única certeza é que o aquecimento global o aquecimento “continua”, disse Salva. Ele estima que, embora haja um resfriamento das águas no Pacífico Central, “não é exatamente La Niña como está definido” e que, caso ocorra, será um evento moderado.

Mas o meteorologista Micael Amore Cecchini, do Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas do IAG-USP, disse ao SciDev.Net que também há 50 ou 60 por cento de chance de o La Niña perder força entre fevereiro e maio de 2025.


Fonte: SciDev.Net [Aqui!].

Lerdeza e discursos vazios retardam a adaptação climática e agravarão os custos da elevação do mar no Brasil

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Com as evidências irrefutáveis de que nas próximas décadas teremos uma elevação importante no nível médio do mar seria de se esperar que os governantes brasileiros estivessem soando os alarmes de emergência.  Afinal, a previsão de que regiões inteiras estão destinadas a serem invadidas pelas águas oceânicas é algo que não se pode dar simplesmente de ombros, pois os custos econômicos e humanos prometem ser colossais.

Mas o que se vê é uma combinação de ignorância premeditada e a aplicação de fórmulas que são uma espécie de enxuga gelo debaixo de temperaturas equatoriais.  Isso, é preciso que se diga, é uma completa irresponsabilidade já que os estudos científicos estão trazendo informações que deveriam ser levados com a devida seriedade.

Agora, segundo o que foi divulgado por um veículo da mídia corporativa campista, o que teria declarado a Prefeitura Municipal de São João da Barras após a forte repercussão de um relatório da ONU que prevê que Atafona é um hotspot  no processo de intrusão de águas marinhas nas regiões costeiras do planeta:

“Dentro desse contexto, a orientação foi para a elaboração de um estudo de viabilidade técnica e econômica para que seja analisado o atual cenário para as possíveis soluções. O município já contratou a elaboração do termo de referência e está nas fases finais da elaboração do edital de licitação para a contratação deste estudo. Há um processo de aquisição de uma área em Atafona para construir casas populares para essas pessoas que foram atingidas”.

Atafona, distrito do RJ que vem sendo engolido pelo mar, serve de alerta  para erosão costeira - 13/11/2021 - Ambiente - Folha

O Distrito de Atafona vem sendo engolido pelo mar,  mas até agora nada foi feito para conter o processo

Essa resposta parece ser uma mistura da tática do enxugar gelo com a ideia tosca de que vai bastar mover casas de um ponto para outro para que os impactos da chegada das águas marinhas seja resolvido.  Além disso, falar a estas alturas na contratação de um estudo de viabilidade técnica e econômica para definir possíveis soluções é como aquele sujeito que fala em em comprar detectores de fumaça logo após a sua casa ser totalmente consumida por um incêndio.

Sem ter lido os programas de governo dos candidatos a prefeito de São João da Barra, a começar pelo da atual prefeita, Carla Caputi, eu sou capaz de prever que não há nenhuma menção de que será adotada a adoção de uma política pública voltada para preparar o município para a necessária adaptação ao irreversível processo de mudança climática que está ocorrendo na Terra neste momento, mas cujos efeitos mais drásticos serão sentidos nos próximos anos e décadas.

O mais lamentável é essa lerdeza em adotar medidas urgentes ainda custará muito dinheiro e vidas com o tipo de postura que se verifica nos governantes dos estados e municípios costeiros do Brasil.

Mas como não quero dizer que não dei dicas propositivas e apenas critiquei, republico abaixo os mapas contendo as previsões para as áreas que serão inundadas em São João da Barra com diferentes cenários de elevação do nível médio do mar. Como se pode inferir a partir desses mapas,  o problema da intrusão das águas marinhas está longe de estar restrito a Atafona.

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MG tem 400 minas abandonadas e especialistas falam em “bomba-relógio”

Duas das instalações seriam mais perigosas do que a barragem que se rompeu em Brumadinho

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Tragédia em Brumadinho acendeu alerta sobre a segurança de barragens no país 

O rompimento da barragem da Vale em Brumadinho reacendeu o debate sobre a eficiência da fiscalização da atividade de mineração no país, trazendo a reboque outra questão: o que fazer se uma tragédia no futuro envolver não a gigante multinacional, com recursos para pagar multas bilionárias, mas uma empresa de pequeno porte, desativada ou até falida?

Trata-se de um perigo real, destaca O Estado de S. Paulo após ouvir especialistas do setor. As barragens mais vulneráveis de Minas Gerais, segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), pertencem a empresas que hoje estão com as atividades paralisadas.

A barragem de mais alto risco de Minas Gerais é a da Mina Engenho, da Mundo Mineração, companhia que deixou de operar no município de Rio Acima há mais de seis anos. Sem manutenção desde então, a única sinalização que a barragem recebeu foram placas que alertam para a presença de material tóxico usado na extração de ouro, como arsênico e mercúrio.

É a situação mais grave, mas longe de ser a única: o Estado apurou que outras duas minas com atividades paralisadas também são consideradas mais perigosas que a instalação da Vale em Brumadinho. A situação já chamou a atenção do Ministério Público de Minas Gerais, que investiga algumas dessas operações.

Abandono

A questão das minas abandonadas em Minas Gerais não é desconhecida do poder público. Em 2016, a Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), do governo mineiro, detectou nada menos do que 400 minas abandonadas ou desativadas no estado. Embora o levantamento concentre apenas os sítios inoperantes, e não a situação das barragens, cita casos de barragens que não apresentaram relatórios de segurança sobre seus rejeitos.

O levantamento da fundação traz três casos listados como preocupantes: Mundo Mineração, Minar Mineração Aredes e Topázio Imperial Mineração. Quem entende do setor garante que as minas desativadas de Minas Gerais são uma “bomba-relógio”.

Para Carlos Martinez, professor da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), a situação é “desesperadora”. “A conta um dia vai chegar e tem o potencial de quebrar de vez o estado”, diz ele. “Muitas dessas mineradoras sequer existem mais. E quem vai pagar a conta do desastre ambiental e social? O poder público.”

Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Bruno Milanez diz que a legislação brasileira deveria prevenir que “aventureiros” se lançassem na mineração e deixassem para trás perigos ambientais e sociais. “Vários países com atividade minerária relevante exigem que as empresas provem sua viabilidade econômica antes de iniciar a exploração de uma determinada área.”

A mina da Minar Mineração Aredes, companhia de Itabirito, município da Grande BH próximo a Brumadinho, fica dentro de uma área de preservação ambiental e não funciona há quase uma década. O atual dono, o empresário Lucas Cabalero, já foi notificado pelo Ministério Público Federal (MPF) a apresentar um relatório de estabilidade. Como a mina está parada, o proprietário afirma que os rejeitos estão secos e que o reservatório não corre risco de romper. Já o MP diz ter cobrado providências e classifica o caso como “urgente”.

Outro mina desativada que preocupa é a da Topázio Imperial Mineração, no distrito Rodrigo Silva, em Ouro Preto (MG). A reportagem esteve em Rodrigo Silva e, segundo os moradores, a mina não é explorada há vários anos. Guilherme Capanema Gonçalves, que se identificou como filho de um dos sócios da companhia, disse que as atividades da mina estão paralisadas desde 2017, quando o MP entrou com ação contra a empresa.


Fonte: Correio do Povo

Avanço do mar: veja quais praias são ameaçadas pela erosão costeira no litoral de São Paulo

Litoral de São Paulo pode ser “engolido” pelo avanço do mar. Saiba quais são as praias com maior risco de erosão costeira

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Por Isabela Thurmann para o “Metrópoles” 

São Paulo

 Se confirmadas as previsões de aumento de temperatura disponíveis em um estudo da organização não governamental norte-americana Climate Central, todo o litoral deSão Paulo estará em risco de ser engolido pelo mar por causa da erosão costeira.

De acordo com o Mapa de Risco à Erosão Costeira do Estado de São Paulo, feito pelo Instituto Geológico do Estado de São Paulo, com dados de 2017, as praias com maiores riscos de sofrerem com o avanço do mar são: Ubatumirim, Barra Seca, Itaguá, Praia Grande, Fortaleza e Maranduba, em Ubatuba; Tabatinga, Massaguaçu e Caraguatatuba, em Caraguatatuba; Enseada, São Francisco, Pontal da Cruz e Baraqueçaba, em São Sebastião; Perequê, em Ilhabela; Itaguaré e São Lourenço, em Bertioga; Pernambuco e Astúrias, em Guarujá; Gonzaguinha e Capitão, em São Vicente; Itanhaém, em Itanhaém; Peruíbe e Guaraú, em Peruíbe; Itacolomi, Jureia e Leste, em Iguape; Ilha Comprida, em Ilha Comprida; e Itaguaçu, em Ilhabela.

Erosão costeira

A Fundação Florestal define a erosão costeira como um fenômeno natural que ocorre nas áreas costeiro-marinhas e no litoral sul do estado de São Paulo.

O avanço do mar provoca a perda de áreas de praia, impacta a vegetação de restinga e ameaça casas e edificações próximas. O fenômeno, intensificado por fatores humanos, afeta diretamente a biodiversidade e as comunidades locais.

Segundo o professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP)Alexander Turra, cerca de 40% da região costeira brasileira vivencia um severo processo de erosão. Os dados constam em um documento publicado pelo Ministério do Meio Ambiente em 2018.

“A erosão costeira tem várias causas: desde a retirada de areia rio acima, a construção de barragens, o aumento ou a diminuição de chuva, até as mudanças climáticas, o padrão de ocupação local”, explica o docente.

Na Barra do Una, em Peruíbe, um dos processos erosivos é a ocupação da bacia hidrográfica da região, que altera a desembocadura do rio. “Esse é um movimento natural que ocorre no passado geológico ou em momentos em que não ocorria ocupação humana”, confirma Turra.


Fonte: Metrópoles

Um herbicida altamente tóxico, paraquate deverá passar por revisão na Califórnia

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Por Carey Gillam para o “The New Lede”

Os esforços de alguns legisladores da Califórnia para proibir o controverso herbicida paraquate terminaram esta semana com a aprovação de uma lei que mantém o produto químico em uso, mas exige uma reavaliação pelos reguladores nos próximos cinco anos.

Os defensores da proibição citaram evidências científicas que ligam o paraquate a uma série de problemas de saúde, incluindo a doença cerebral incurável conhecida como Mal de Parkinson, como uma das principais razões para proibir o uso do paraquate no estado.

No início deste ano, a Assembleia Estadual da Califórnia aprovou o que foi chamado de “moratória” sobre o paraquate, que entraria em vigor em janeiro de 2026 e previa um processo que daria aos reguladores estaduais a oportunidade de reavaliar o paraquate e potencialmente reaprovar o produto químico com ou sem novas restrições.

Mas as emendas do Senado estadual eliminaram qualquer moratória ou restrição ao uso. O projeto de lei, conforme aprovado, agora exige apenas que os reguladores estaduais de agrotóxicos concluam uma reavaliação do paraquate até janeiro de 2029.

A deputada da Califórnia, Laura Friedman, disse que o fato de a legislatura ter aprovado requisitos para uma reavaliação regulatória ainda é uma vitória.

“Com a crescente evidência médica indicando que o paraquate é simplesmente muito tóxico para permanecer em uso amplo, estou muito confiante de que [os reguladores estaduais] não apenas farão uma reavaliação completa do paraquate, mas também o proibirão completamente ou colocarão maiores restrições ao seu uso”, disse Friedman em uma declaração.

“A legislatura falou alto e claro”, disse Bill Allayaud, vice-presidente de assuntos governamentais do Environmental Working Group (EWG), em um comunicado à imprensa . O EWG foi um dos principais apoiadores do projeto de lei. “Eles querem que a ciência sobre o paraquate seja considerada agora, enquanto os trabalhadores rurais e os moradores próximos são expostos – não mais para frente.”

Houve forte oposição à proibição do paraquate. Uma análise legislativa da lei cita uma “coalizão de oponentes, incluindo fabricantes de agrotóxicos, associações comerciais da indústria química e organizações comerciais agrícolas”, opondo-se à lei.

Os oponentes da indústria também se opõem a uma reavaliação regulatória do paraquate, dizendo que isso “constituirá um impacto fiscal significativo” sobre os reguladores estaduais que poderiam estar revisando outros produtos, de acordo com a análise.  

O governador da Califórnia, Gavin Newsom, tem até o final de setembro para assinar ou vetar a lei.

Neste verão, os legisladores estaduais aprovaram um projeto de lei relacionado que aumenta as taxas sobre vendas de pesticidas para ajudar a financiar programas aprimorados de supervisão regulatória dentro do estado.

O paraquate tem sido usado há décadas como um herbicida amplamente utilizado. Mas um grande corpo de evidências científicas vinculou o uso crônico do produto químico à doença de Parkinson, que se tornou uma das principais causas de morte nos Estados Unidos.

Vários milhares de agricultores, trabalhadores agrícolas e outros estão processando a fabricante de paraquate, Syngenta, alegando que desenvolveram Parkinson devido aos efeitos crônicos de longo prazo do paraquate e alegando que a Syngenta escondeu os riscos do público e dos reguladores.

O New Lede revelou anteriormente que a pesquisa interna da Syngenta encontrou efeitos adversos do paraquate no tecido cerebral décadas atrás, mas a empresa escondeu essa informação dos reguladores, trabalhando em vez disso para desacreditar a ciência independente que liga o produto químico a doenças cerebrais e desenvolvendo uma “equipe SWAT” para combater as críticas.  

“É simplesmente inconcebível que esse herbicida ainda exista e seja amplamente usado nos Estados Unidos”, disse o membro da Assembleia da Califórnia Rick Zbur em uma coletiva de imprensa em abril, discutindo os esforços para proibir o paraquate. “Não deveríamos pulverizar amplamente um herbicida conhecido por causar pressão alta, insuficiência cardíaca, insuficiência renal, doença de Parkinson, leucemia infantil e câncer.” 


Fonte: The New Lede

Agrotóxicos criam gerações de filhos doentes da agricultura brasileira

Investigação expõe a relação entre o uso de agrotóxicos e o aumento de condições graves entre bebês do campo

agrotoxicos bfAluna da escola rural Attilio Benedetti, em Vacaria, caminha diariamente em meio a plantações – Anna Ortega

Sílvia Lisboa e Carla Ruas para a  Dialogue Earth

Maria nasceu com uma grave anomalia congênita que limitou seu desenvolvimento. Embora os médicos tenham logo drenado o excesso de líquido acumulado ao redor de seu cérebro, um distúrbio conhecido como hidrocefalia, eles não conseguiram impedir danos severos à recém-nascida. Mais tarde, outras cirurgias tentaram corrigir seus pezinhos atrofiados, mas ela nunca andou, nem falou; e à medida que crescia perdia seus poucos movimentos. Seu olhar era distante, segundo a família. 

Em uma consulta médica assim que Maria nasceu, seus pais ouviram a possível causa da condição: contaminação por agrotóxicos. Eles são agricultores de frutas e hortaliças de Vacaria, município rural de 64 mil habitantes no nordeste do Rio Grande do Sul, e usam esses produtos em seu dia a dia. 

“Eles se sentem culpados, foi uma dor muito grande”, disse uma tia da menina que não quis se identificar para não expor os pais, que autorizaram a entrevista, mas ainda sofrem com o diagnóstico mesmo mais duas décadas depois. “Eles são vítimas, não há alerta sobre os riscos”.

Com o passar dos anos, Maria (seu nome foi trocado nesta reportagem) entrou em estado vegetativo e morreu aos 21 anos, em 2020. 

Esse não é um caso isolado. Uma investigação do Dialogue Earth em parceria com Tatiane Moraes, pesquisadora em saúde ambiental na Universidade de São Paulo, explorou os impactos de agrotóxicos na saúde infantil. A análise conduzida por Moraes para essa reportagem revela uma associação entre anomalias como a de Maria e de mortes fetais (após a 28ª semana de gestação) com a proximidade de áreas agrícolas do Brasil.

Pela plataforma Mapbiomas, Moraes identificou os estados onde mais da metade dos municípios têm ao menos 5% da área ocupada pela agricultura. Depois, com dados de 2013 a 2021 do sistema nacional de saúde Datasus, ela verificou se a taxa de anomalias congênitas e mortes fetais — condições já associadas à exposição de agrotóxicos — aumentou nessas cidades. 

A análise encontrou risco aumentado para essas condições no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, no Sul, além de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, no Centro-Oeste. Esses estados são grandes produtores de soja, milho e cana-de-açúcar, segundo o levantamento de Moraes. 

Os mesmos estados estão entre os que mais comercializam agrotóxicos, segundo dados do Ibama, órgão de fiscalização ambiental. Mato Grosso — líder nacional em produção agrícola — está no topo do ranking, enquanto Goiás, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Rio Grande do Sul estão entre os dez primeiros colocados. 

“Os resultados reforçam a necessidade de reavaliar o uso massivo de agrotóxicos na agricultura brasileira”, disse Moraes, que foi bolsista do Departamento de Saúde Global e População da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. 

No Mato Grosso, cidades como Sinop e Sorriso, onde o agronegócio domina a economia, foi identificado um risco 20% maior para anomalias congênitas e 30% para mortes fetais na comparação com cidades sem plantações.


Gestante aguarda consulta médica na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Vacaria / Anna Ortega

Nas cidades gaúchas com mais da metade da área dedicada à agricultura, foi encontrado um risco de morte antes do nascimento 73% maior em comparação com os demais municípios. Já em cidades com até um terço da área agrícola, como Vacaria, onde Maria nasceu, foi visto um risco 2% maior de desenvolver anomalias congênitas entre 2013 e 2021.

Segundo Moraes, essa ampla variação do risco pode se dar por outros fatores como, por exemplo, o acesso à saúde em determinados municípios. Para entendê-los a fundo, seria necessário fazer novas investigações. “O importante foi demonstrar haver uma associação positiva e mensurar o risco de se viver em um município agrícola olhando para as crianças”, disse.

Glifosato, perigoso mas disseminado

O glifosato, mais usado no país, e outros químicos, como 2,4-D, atrazina, mancozebe, clorotalonil e acefato interferem na regulação hormonal e podem provocar anomalias, segundo o Atlas dos Agrotóxicos. Com exceção do glifosato e 2,4-D, os demais são proibidos na União Europeia.

Pesquisas no Brasil e no exterior vão ao encontro do trabalho de Moraes. Em um estudo de 2019, a Fundação Oswaldo Cruz revelou que microrregiões (ou seja, regiões dentro dos estados) com maior produção de grãos e de exposição a agrotóxicos têm taxas mais altas de anomalias congênitas.

Em estudo semelhante de 2023, pesquisadoras americanas encontraram índices acima da média de leucemia linfoblástica aguda em crianças por onde a soja está se expandindo na Amazônia e no Cerrado. As cientistas estimaram que, entre 2008 e 2019, houve 123 mortes adicionais entre pacientes com menos de 10 anos que vivem em áreas onde o cultivo do grão avançou.

Para uma das autoras, Kaitlyn Margaret Sims, professora de microeconomia e políticas públicas na Universidade de Denver, o resultado surpreendeu. “Já tínhamos ouvido rumores de que, quando a soja chega, o câncer vem logo atrás. Mas não pensávamos que encontraríamos resultados tão expressivos,” disse ao Dialogue Earth. 

Outra pesquisa, publicada no periódico Review of Economic Studies em 2023, mostrou que até as crianças vivendo longe de plantações podem ser afetadas, já que os resíduos do glifosato são transportados pelos rios. Os resultados mostraram um maior número de bebês que nascem prematuros e abaixo do peso normal, além de um aumento de 5% na mortalidade infantil entre 2000 e 2010 no Centro-Oeste e Sul.

“Mesmo em distâncias de até cem quilômetros da área de uso, nós ainda achamos algum efeito negativo”, explicou Mateus Dias, um dos autores do estudo e professor assistente de economia da saúde na Católica Lisbon School of Business and Economics.

Dados da Organização para Alimentação e Agricultura (FAO) indicam que o Brasil é o campeão mundial no uso de  agrotóxicos. Em 2022, o país aplicou mais de 800 mil toneladas de agrotóxicos nos mais diversos cultivos, superando o total usado por China e Estados Unidos juntos.

“Esses dados precisam ser lidos em um contexto: o Brasil é um país tropical muito sujeito a pragas. Além disso, plantamos quatro a cinco culturas por ano, diferentemente de países com invernos rigorosos que plantam apenas uma cultura”, explica o pesquisador Décio Karam, da Embrapa, órgão federal que atua na pesquisa agropecuária. “Ainda assim, há muito espaço para reduzir o uso de agrotóxicos com manejo adequado”.

O crescimento no uso de agrotóxicos no Brasil coincide com a introdução da soja transgênica e a adoção do glifosato no final dos anos 1990. Entre 2000 e 2022, dados da FAO mostram que seu consumo por hectare plantado quintuplicou no país.

Em Vacaria, a soja avançou 13 vezes entre 1985 e 2022, e hoje ocupa 70 mil hectares, um terço do município. Já a maçã, que também demanda a aplicação intensa de agrotóxicos, ocupa quase sete mil hectares.

No município, as lavouras ficam extremamente próximas às áreas residenciais. Quando visitamos o local em meados de junho, vimos o nabo forrageiro – que fertiliza e descompacta o solo, preparando-o para o plantio de soja – adentrando o pátio e a quadra da escola rural Attilio Benedetti.


Menino joga futebol na escola rural Attilio Benedetti, em Vacaria, instituição cercada por plantações de soja / Anna Ortega

A diretora Leila Tais Fernandes explicou que o terreno havia sido doado por um agricultor cujas fazendas são limítrofes ao colégio, e a maioria dos 75 alunos são filhos de funcionários.

Uma mãe em busca de respostas

Juliana Pedroso suspeita que o agrotóxico esteja por trás do diagnóstico de seu filho João Otávio, de 7 anos, que tem uma síndrome neurodegenerativa extremamente rara que provoca paraplegia, deficiência intelectual e obesidade. “Foi uma mutação genética na gestação, mas os médicos nunca dizem a causa. Já me perguntei se poderia ser agrotóxico que afetou o pai agricultor”, disse a técnica em enfermagem, que mora na área urbana de Vacaria, também circundada por lavouras.


João Otávio (à esquerda) e sua mãe Juliana Pedroso brincam com bexiga recheada de amido de milho na varanda de sua casa, em Vacaria / Anna Ortega

João Otávio nasceu prematuro e logo manifestou sintomas preocupantes. “Suas mãozinhas eram viradas para dentro, e ele não movia o lado esquerdo”, lembrou a mãe. Depois vieram as crises convulsivas e a peregrinação por médicos e hospitais. 

Apesar das dificuldades e graças ao empenho da família, ele desenvolveu bem a fala e os movimentos. Sua maior diversão é seu canal no YouTube dedicado a videogames. Em uma tarde fria quando o visitamos, João Otávio mostrou orgulhoso seu quarto repleto de bichos de pelúcia e se divertiu estourando um balão recheado de amido de milho que ele fez parecer neve. 

À frente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Vacaria há 23 anos, Sérgio Poletto está determinado a entender se o agrotóxico pode ter contribuído para o surgimento da síndrome que afeta João Otávio e a de condições de outras crianças que aguardam uma vaga na Apae, centro para a reabilitação e inclusão de pessoas com deficiência, no município.


Funcionário da Apae municipal de Vacaria trabalha com criança / Anna Ortega

A entidade viu explodir a busca por vagas nos últimos anos e convocou Poletto para investigar o que poderia estar contribuindo para isso. “Estamos muito preocupados com o aumento, de dez anos para cá, de crianças com deficiências”, disse Maria Aparecida Fabris, coordenadora pedagógica da Apae, que hoje atende 80 crianças, enquanto outras 20 seguem na fila de espera. “Não temos capacidade para receber mais, porque todos continuam conosco por um longo tempo”.

Com os ombros levemente curvados, o que lhe dá um ar tímido, mas que contrasta com sua atuação corajosa, Poletto assumiu a tarefa “de questionar o que ninguém questiona”, como ele mesmo diz. Em 2013, ajudou a organizar um amplo estudo que ouviu mais de 980 trabalhadores do campo: 95% disseram usar agrotóxico, e a maioria o aplicava com pulverizadores acoplados como mochilas, colados ao corpo e sem proteção. 

Em visitas às propriedades rurais, ele ficou estupefato com o uso intensivo dos químicos, com a falta de cuidados no seu manuseio e com o desconhecimento sobre seus riscos. A médica Neice Muller, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, liderou a pesquisa.


Sérgio Poletto, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Vacaria, iniciou uma campanha de conscientização sobre o uso de equipamentos de proteção individual ao pulverizar agrotóxicos / Anna Ortega

Poletto decidiu colocar toda a estrutura do sindicato para conscientizar seus sete mil membros sobre os riscos dos pesticidas. Imprimiu panfletos e organizou palestras sobre a importância do uso de equipamentos de proteção individual, além de nomear um técnico para orientar na migração de agricultores para o cultivo orgânico. Mas, com a resistência interna, passou a apenas auxiliá-los na redução do uso de agrotóxicos. “Tivemos de maneirar no discurso para não perder associados”, disse ele. 

Até Silvandro Fonseca, secretário de Saúde de Vacaria, confiou a Poletto a busca por explicações. Fonseca disse estar em alerta com os índices acima da média brasileira de óbitos fetais, cânceres e problemas renais no município, mas reconheceu que a prefeitura não tem programa de prevenção. “É difícil estabelecer uma causa, por isso também é difícil implementar algum programa”, disse o secretário, em uma reunião na prefeitura convocada por Poletto e acompanhada pela reportagem.

Médico no sindicato, o ginecologista Dirceu Trevisan também está atento ao alto índice de abortos e mortes fetais entre as assalariadas. “Em muitos casos, eu pergunto que produto ela aplica na lavoura, e ela não sabe dizer porque são misturas”, disse ele. “A vigilância sanitária precisa ter um controle disso, senão só trataremos a consequência”.

Ainda é um desafio quantificar a influência dos agrotóxicos sobre doenças graves no país. “Mas o fato de ser complexo não significa que não haja impacto, isto é, que os riscos não existam”, disse a geneticista Lavinia Schuler-Faccini, autoridade em anomalias congênitas na América Latina.

Schuler-Faccini diz que os riscos estão sendo cada vez mais demonstrados por estudos comparando populações expostas e não expostas e por análises em animais e células in vitro. “Um dos grandes desafios agora é sabermos o peso exato dos agrotóxicos no desenvolvimento de condições e doenças”, explica a professora do departamento de genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


Trabalhadores podam macieiras para o inverno em Vacaria. A cultura exige aplicação intensa de pesticidas e ocupa quase sete mil hectares no município / Anna Ortega

Os efeitos dos agrotóxicos sobre as crianças podem originar tanto do pai quanto da mãe, segundo Schuler-Faccini. A presença de pesticidas no organismo desregula hormônios e interfere nas sinalizações produzidas pelos genes, podendo desligar, enfraquecer ou ativar excessivamente sua expressão. “É um efeito a longo prazo, que ocorre muito antes de uma gestação”, diz a pesquisadora, que também lidera a vigilância de anomalias congênitas no estado.

Legislação flexível e batalhas judiciais

No Brasil, os agrotóxicos têm um caminho cada vez mais livre. Em 2020, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária reavaliou o glifosato e o considerou seguro, desde que não extrapole doses de contaminação aguda e crônica. 

Aprovada em 2023, a lei cujo projeto ficou conhecido como “PL do Veneno” afrouxou ainda mais o controle de agrotóxicos no país, apesar de duras críticas da comunidade científica. Em junho, o governo federal liberou 80 novos produtos com agrotóxicos, incluindo quatro a base de glifosato. Um deles será fabricado pela Monsanto no Brasil, enquanto os outros três, na China, um fornecedor de agrotóxicos cada vez mais relevante no mercado brasileiro.

O glifosato e outros produtos considerados perigosos também seguem sem restrições em vários países. Em 2023, a Comissão Europeia autorizou o uso do herbicida por mais dez anos, embora alguns países europeus tenham proibido seu uso em áreas residenciais e espaços públicos. 

Nos Estados Unidos, porém, a Monsanto tem contabilizado derrotas na Justiça. Vítimas de câncer têm conseguido provar que ficaram doentes por causa do Roundup, à base de glifosato. Até agora, 154 mil ações já chegaram às Cortes americanas, e a multinacional pagou cerca de US$ 11 bilhões em indenizações. Como resultado da ofensiva, a multinacional alemã Bayer, proprietária da Monsanto, retirou o glifosato de produtos para uso residencial no país – este uso segue autorizado no Brasil.

O Brasil tem visto poucas ações judiciais desse tipo, mas há algumas em andamento. Em um caso, a agricultora Lídia Maria do Prado, do Paraná, processou a multinacional Alliance One por ter desenvolvido polineuropatia tardia, uma disfunção de nervos periféricos associada ao contato com agrotóxicos da lavoura de tabaco. Até agora, ela vem vencendo a batalha nos tribunais. 

Agricultores gaúchos de Nova Santa Rita e Eldorado do Sul também buscaram na Justiça a proibição da pulverização aérea de agrotóxicos, que afetou plantações orgânicas e a saúde dos assentados, que relataram sintomas de intoxicação após a deriva. 

Mas nem todos buscam justiça ou respostas. Os pais de Maria preferem não mexer nas feridas do passado. Saber a causa do destino da filha ainda é insuportavelmente doloroso. Outra agricultora com quem conversamos relembrou sua sobrinha, nascida na década de 1990, quando os campos de Vacaria começaram a ser tomados pela soja. A menina, filha de agricultores, nasceu sem vida, vítima de anomalias congênitas. Agora, a mulher se pergunta se a vida da sobrinha teria sido abreviada, assim como a de Maria, pela exposição a agrotóxicos. 

Esta reportagem foi apoiada pelo Fundo Howard G. Buffett para Mulheres Jornalistas da International Women’s Media Foundation. 

Tatiane Moraes contribuiu para a reportagem com sua pesquisa sobre a associação entre o uso de agrotóxicos e as mortes fetais e anomalias congênitas.


Fonte:  Dialogue Earth

Preço dos medicamentos: muros de patentes abusivas impedem concorrência

public eye nov

Por Patrick Durisch para a Public Eye

As empresas farmacêuticas suíças frequentemente se destacam internacionalmente por acumular disputas legais com o objetivo de manter os concorrentes genéricos afastados e manter um preço alto para seus principais produtos. No entanto, essa estratégia coloca em risco o acesso a tratamentos acessíveis. Já passou da hora de agir contra a proliferação de patentes secundárias abusivas, que não fornecem nenhum valor terapêutico agregado e servem apenas para encher os cofres já bem abastecidos da Big Pharma. Uma verdadeira operação de extorsão nas costas do seguro social, que a Suíça deve denunciar em vez de apoiar cegamente.

Um novo medicamento não é protegido por uma única patente, mas por dezenas, ou às vezes até mais de uma centena de patentes, comumente chamadas de “ patente thickets ”. Elas também são arquivadas ao longo de um período de tempo, o que significa que a duração do monopólio de um produto frequentemente excede facilmente os 20 anos teóricos previstos pelo Acordo sobre Propriedade Intelectual (TRIPS) da Organização Mundial do Comércio (OMC). Uma estratégia de acumulação infinita de patentes descrita como “ evergreening ” . 

Deve ser feita uma distinção entre dois tipos de patente: 

  • patentes primárias relacionadas à(s) substância(s) e depositadas no início da fase de desenvolvimento, 

  • e patentes secundárias depositadas imediatamente antes ou durante a fase de comercialização, que prolongam o período de monopólio, mas sem qualquer valor terapêutico acrescentado real . 

Embora qualquer patente seja uma exceção ao livre mercado, as patentes secundárias são, sem dúvida, as que têm mais impacto na concorrência e nos preços – especialmente porque elas proliferaram nos últimos anos, principalmente nos Estados Unidos, onde são concedidas com mais facilidade. 

Patentes secundárias concedidas em massa

A Suíça se gaba de ser um dos “países mais inovadores” todos os anos, com base simplesmente no número de patentes registradas. No entanto, pelo menos no que diz respeito aos medicamentos, a grande maioria é injustificada e tem pouco a ver com o progresso real. Os grandes grupos farmacêuticos rapidamente perceberam as vantagens financeiras que poderiam obter com o uso abusivo de patentes para bloquear o caminho de seus concorrentes. Na outra ponta da cadeia de suprimentos, os pacientes têm que pagar altos preços de monopólio por seus tratamentos por mais tempo, sem nenhuma justificativa válida.

Vale lembrar que uma patente é um direito exclusivo que permite ao titular da invenção proibir terceiros de fabricá-la e comercializá-la. Mas é um direito territorial: se uma empresa farmacêutica quer proteger seu medicamento em vários países, ela tem que solicitá-lo em cada um deles – exceto na Europa, com o Escritório Europeu de Patentes (EPO) reunindo 39 países, incluindo a Suíça, e tendo um procedimento centralizado que se aplica simultaneamente em todas essas jurisdições.

Também deve ser lembrado que uma invenção deve atender a três requisitos gerais para ser patenteada: (1) ser nova; (2) envolver uma etapa inventiva; e (3) ser capaz de aplicação industrial. Um pedido de patente para um medicamento não é, portanto, julgado com base no benefício do tratamento – mas apenas com base no fato de que é uma “nova invenção” que é levada em consideração, mesmo que seja apenas uma pequena modificação de um produto já existente. 

O Acordo TRIPS deixa uma grande margem de manobra para os estados-membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) decidirem qual invenção merece uma patente ou não, desde que os três requisitos sejam atendidos. Portanto, dependendo da legislação em vigor e de quão meticulosamente os pedidos são examinados, as patentes são concedidas em massa (como nos Estados Unidos), de forma um pouco mais restrita porque às vezes são contestadas (como na Europa), ou com parcimônia devido a cláusulas mais restritivas que visam evitar recompensar pseudo-inovações que colocam em risco o direito à saúde (como na Índia). Essas abordagens têm consequências muito diferentes em termos de concorrência e acesso a medicamentos, com os genéricos chegando ao mercado mais ou menos tarde, dependendo do país, e vendidos a preços mais baixos.

©2024 Bloomberg Finanças LP. Vas Narasimhan, CEO da Novartis e presidente do lobby farmacêutico dos EUA PhRMA, entrevistado em Nova York em fevereiro de 2024.

Estados Unidos – um verdadeiro paraíso para a indústria farmacêutica

Como em várias outras indústrias, os Estados Unidos dão o tom no setor farmacêutico. Com um faturamento de mais de US$ 600 bilhões anualmente, os EUA sozinhos respondem por mais da metade do mercado farmacêutico global. Este é um teatro de operações fundamental para a Roche e a Novartis, que estão classificadas em segundo e oitavo lugar, respectivamente, no mundo em termos de vendas em 2023.

As gigantes sediadas em Basileia são membros de longa data do poderoso lobby farmacêutico nos Estados Unidos (Pharmaceutical Research and Manufacturers of America ou PhRMA), que está bem estabelecido no Congresso e na Casa Branca. O CEO da Novartis está até mesmo presidindo-o desde 2023. Nos Estados Unidos, as empresas farmacêuticas se beneficiam de vários incentivos e grandes benefícios fiscais no campo da pesquisa, bem como de uma política de patentes muito generosa e um sistema legal propício para iniciar litígios a todo custo. O procedimento de autorização de comercialização também está intimamente ligado ao status das patentes, o que não é o caso na Europa. E a cereja do bolo: atualmente não há uma política governamental adequada de controle de preços. 

Por isso, as grandes corporações buscam lançar seus novos produtos primeiro nos Estados Unidos para poderem proteger sua invenção pelo maior tempo possível (às vezes por 40-50 anos) e obter um preço muito alto no mercado dos Estados Unidos, que depois usarão como base para negociação em outros países, por exemplo na Europa, onde os controles de preços são um pouco mais rígidos. 

Entresto é apresentado como o produto de crescimento mais rápido no último relatório trimestral da Novartis para investidores (Resultados do segundo trimestre de 2024, disponíveis gratuitamente no site da Novartis).

Entresto – sucesso de bilheteria da Novartis

Para destacar como o setor farmacêutico está explorando sua posição de força para espremer a concorrência, analisamos o caso do Entresto da Novartis. Após um início bastante lento, esse tratamento para insuficiência cardíaca, lançado em julho de 2015 nos Estados Unidos e logo depois na Suíça e no resto da Europa, viu suas vendas explodirem em 2021, após obter uma extensão de indicação para diferentes tipos de insuficiência cardíaca. Na Suíça, suas vendas anuais mais que dobraram de CHF 18 milhões para mais de CHF 39 milhões entre 2019 e 2023, de acordo com números da seguradora de saúde Helsana. Em 2023, o Entresto gerou a maior receita do grupo globalmente, registrando um valor superior a US$ 6 bilhões (cerca de 13% do total de vendas). Em apenas oito anos, a Novartis já arrecadou mais de US$ 20 bilhões em vendas com este produto.

Seu preço oficial na Suíça para um mês de tratamento é de cerca de CHF 130 francos (CHF 2,3 por comprimido). Como costuma ser o caso para medicamentos, é quatro vezes maior nos Estados Unidos: $ 668 por mês, enquanto é um pouco mais barato na Índia (10.200 rúpias ou cerca de CHF 103 por mês). Esse preço pode parecer irrisório comparado ao de medicamentos contra o câncer, mas a margem permanece substancial devido à alta demanda e a um custo de produção extremamente baixo de CHF 0,13 por comprimido.

Além disso, Entresto é uma combinação de duas substâncias antigas, incluindo valsartan, que tem sido um sucesso para a Novartis como um tratamento para hipertensão nos últimos 25 anos sob a marca Diovan, gerando mais de US$ 65 bilhões em receita até agora. De uma perspectiva comercial, Entresto é, portanto, uma tentativa da Novartis de estender as vendas impressionantes de seu antecessor Diovan, ao mesmo tempo em que expande seu público-alvo para pacientes que sofrem de insuficiência cardíaca. Em poucas palavras, ele acertou na loteria. 

A Novartis há muito tempo recuperou seu investimento no desenvolvimento do Entresto, gerando uma enorme margem de lucro na barganha. No entanto, a gigante suíça ainda está faminta por mais e iniciou uma saga jurídica em 2019 nos Estados Unidos e na Índia com o objetivo de atrasar a entrada no mercado de concorrentes genéricos pelo maior tempo possível. É aqui que as patentes secundárias entram em jogo. 

©Shutterstock. Entresto, uma combinação de sacubitril e valsartana, é um medicamento cardíaco usado para insuficiência cardíaca crônica.

Uma onda de patentes frívolas

A Novartis obteve pelo menos 13 patentes sobre este produto nos Estados Unidos, teoricamente garantindo exclusividade de mercado por quase 40 anos, o dobro do padrão previsto pelas regras da OMC (veja a tabela abaixo). Além do número envolvido, outro aspecto marcante é o tipo de patentes e suas datas de depósito. O medicamento, uma combinação de duas substâncias, permaneceu exatamente o mesmo desde o início. As únicas mudanças feitas foram na indicação, dosagem e outros aspectos, como seu método de uso. No entanto, em cada ocasião, novas patentes secundárias foram depositadas e concedidas. Onde estão os benefícios terapêuticos disso? Praticamente nenhum. Por outro lado, o período de monopólio foi estendido por 18 anos, até 2042.

Na Europa, há pelo menos nove pedidos de patentes, três dos quais estão sob exame pelo EPO. Apenas três patentes são válidas até o momento (veja a tabela abaixo). A patente primária da Entresto expirou em 2023, mas sua proteção foi estendida na Suíça até janeiro de 2028 pelas autoridades suíças. A proteção da Entresto na Europa, com todas as patentes concedidas juntas, teoricamente vai até maio de 2036, mas se os três pedidos pendentes forem bem-sucedidos, esse período será de 40 anos – o dobro do padrão da OMC. Duas patentes secundárias foram revogadas (uma pelo titular e a outra após oposições), demonstrando que elas não deveriam ter sido concedidas se tivessem sido examinadas mais de perto pelo EPO.

O cenário é diferente na Índia, onde cinco patentes foram concedidas para o Entresto (comercializado sob a marca Vymada), quatro das quais são secundárias (veja a tabela abaixo). A patente primária (expirada em janeiro de 2023) foi contestada em tribunal em vão em 2019 por quatro fabricantes de genéricos. A segunda patente, registrada em 2006, foi objeto de nove oposições antes de ser concedida, conforme autorizado pela lei indiana, mas acabou sendo concedida. Novos recursos foram então registrados, e os procedimentos ainda estão pendentes. Quanto às outras três patentes, elas podem muito bem ser contestadas posteriormente em tribunal por empresas indianas. Em jogo estão atrasos na comercialização de equivalentes genéricos mais acessíveis (pelo menos 50% mais baratos que o original) e na melhoria do acesso a este produto em um país onde a maioria dos pacientes paga pelo tratamento médico do próprio bolso. 

Com suas patentes primárias expiradas e mais de US$ 85 bilhões gerados em 25 anos, graças a Diovan e Entresto, é hora de a Novartis finalmente abrir caminho para produtos genéricos. Mas a corporação suíça não se importa com isso e continua a tomar medidas legais sistematicamente para bloquear seus concorrentes com base em suas patentes secundárias abusivas.

Uma onda de ações judiciais nos Estados Unidos

Nossas extensas investigações nos permitiram rastrear as inúmeras reclamações que a Novartis apresentou nos Estados Unidos por suposta violação de suas patentes Entresto, com base em documentos judiciais que conseguimos acessar (veja o cronograma abaixo).

Uma observação marcante esteve na origem desta investigação: na última década, as empresas farmacêuticas suíças tomaram medidas legais quase rotineiramente nos Estados Unidos ou na Índia com o objetivo de excluir – ou pelo menos atrasar significativamente – a concorrência, seja para Entresto ou Gilenya (usado para tratar esclerose múltipla) em relação à Novartis, ou para Esbriet (usado para tratar fibrose pulmonar) ou seus tratamentos contra câncer de mama (Herceptin no passado, Perjeta atualmente) em relação à Roche. Examinamos cada um desses casos, mas vamos nos concentrar aqui no caso emblemático de Entresto. 

Nos Estados Unidos, a Novartis apresentou nada menos que 25 queixas por suposta violação de nove de suas patentes sobre o Entresto entre outubro de 2019 e outubro de 2022 contra 18 empresas farmacêuticas que haviam sinalizado sua intenção de comercializar versões genéricas. Deve-se notar que todas essas queixas, antes da comercialização, eram puramente preventivas. Na época, as empresas envolvidas não vendiam nenhuma forma genérica do Entresto no mercado dos EUA, mas simplesmente iniciaram o longo processo de aprovação com a Food and Drug Administration (FDA), para estarem prontas quando a exclusividade comercial terminasse. Esses litígios preventivos são uma característica particular da lei dos Estados Unidos, conhecida como “vinculação de patentes”, que vincula o status das patentes ao procedimento de autorização de comercialização. Felizmente, essa situação não existe na Europa. O papel de uma agência de medicamentos como a Swissmedic é garantir que os tratamentos a serem aprovados sejam seguros e eficazes, não desempenhar o papel de cão de guarda da concorrência.

Das 18 empresas processadas pela Novartis, três tiveram a queixa contra elas rejeitada devido à ausência de infração. Onze outras chegaram a um acordo confidencial negociado com a Novartis, provavelmente se comprometendo a não comercializar seu produto genérico antes de uma data acordada entre as partes, em troca de uma suspensão do processo.

Este tipo de acordo geralmente assume duas formas no setor farmacêutico: 

  • concessão de licença mediante pagamento de royalties, válida a partir de determinada data; 

  • “pagar por atraso”, uma tática tradicional, especialmente quando uma patente é precária. O fabricante de um medicamento original então paga uma quantia específica a uma empresa concorrente para incentivá-la a adiar o lançamento de seu produto genérico. Essa prática, que também é comum na Europa, foi fortemente criticada em várias ocasiões pelas autoridades de concorrência. Também é muito cara para os sistemas de saúde, já que o medicamento continua a ser vendido a um preço alto até que um produto genérico chegue. No caso do Entresto, parece que acordos de licenciamento foram concluídos, embora isso não possa ser estabelecido com certeza, já que os documentos judiciais são lacrados ou redigidos. 

Linha do tempo sobre as reclamações apresentadas pela Novartis nos EUA por suposta violação de patente da Entresto. Baixe o PDF aqui .

Em julho de 2023, foram proferidos os únicos dois veredictos até o momento nesta saga jurídica:

  • No primeiro caso, após quatro anos de litígio com muitos especialistas e advogados, uma das nove patentes da Entresto envolvidas foi invalidada pelo Tribunal de Delaware ( In re: Entresto (Sacubitril/Valsartan) Patent Litigation , Case No. 1:20-md-02930, US District Court of Delaware, 21/07/2023). A Novartis entrou com um recurso imediato no tribunal federal (os processos estão pendentes).

  • No segundo caso, o veredito foi dado pelo Tribunal da Virgínia Ocidental em favor da empresa suíça para confirmação de uma violação de duas patentes pela empresa Mylan. Esta última não apresentou um recurso e nenhuma outra informação pode ser obtida dos documentos do tribunal, mas é concebível que um acordo confidencial tenha sido alcançado. Deve-se notar que foi decidido com base em meia molécula de água na fórmula química entre o produto original da Novartis e o produto genérico da Mylan quando se tratava de inclinar a balança da justiça para um lado ou para o outro, de acordo com o veredito do tribunal emitido em 6 de julho de 2023. Isso destaca a natureza complexa dos procedimentos, mas também o tempo considerável que as gigantes farmacêuticas podem ganhar graças à apresentação de tais queixas legais.

No momento, as reclamações da Novartis “apenas” dizem respeito a quatro empresas e se relacionam a uma suposta violação de quatro patentes (cinco se a Novartis vencer sua apelação). Não está claro quando os próximos vereditos serão entregues, mas os procedimentos ainda podem levar muito tempo.

Entre maio e agosto de 2024, seis versões genéricas do Entresto finalmente receberam sinal verde do FDA, mas essa aprovação ainda não significa que elas poderão ser comercializadas e disponibilizadas aos pacientes em breve. A Novartis está mais uma vez tomando medidas legais em 30 de julho, desta vez com uma queixa civil contra o FDA por violar seus procedimentos de aprovação ( Novartis Pharms Corp. v. Xavier Becerra ¬ Robert Califf, Caso nº 1:24-cv-02234, Tribunal Distrital dos EUA de Columbia, 30/07/2024 ). Embora o tribunal tenha negado o pedido da Novartis de suspender a aprovação do FDA em primeira instância, essas empresas podem muito bem ver a comercialização de seu Entresto genérico nos Estados Unidos ainda mais adiada, dependendo do resultado final deste caso e de outros litígios de patentes pendentes.

Enquanto isso, a Novartis pode continuar a arrecadar bilhões de dólares a mais com suas patentes secundárias frívolas – um exemplo perfeito de “evergreening” e uma verdadeira extorsão feita às custas dos pacientes e da previdência social.

Saga jurídica também na Índia

Como a Índia sempre se recusou a introduzir um sistema que vinculasse o status das patentes ao procedimento de aprovação (“vinculação de patentes”), versões genéricas do Vymada (o nome da marca Entresto na Índia) receberam autorização de comercialização em 2019. As perspectivas são realmente suculentas, com um mercado de cardiologia estimado em CHF 2,5 bilhões e mais de 650.000 novos casos de insuficiência cardíaca diagnosticados a cada ano. Em 2019, a Novartis processou os quatro fabricantes indianos de genéricos envolvidos, que então revidaram solicitando a revogação da patente primária (IN 229051). O Tribunal Superior de Déli finalmente decidiu a favor da corporação suíça em 2021, proibindo empresas locais de fabricar e comercializar suas versões genéricas, pelo menos até o vencimento da patente primária (janeiro de 2023).

A atenção então se voltou para a segunda patente secundária (IN 414518), que havia sido concedida na Índia apesar de nove oposições pré-concessão bem argumentadas, e que estendeu o monopólio de mercado da Novartis até novembro de 2026. Várias empresas genéricas, portanto, entraram com ações legais, já em 2022, para tentar revogar essa patente secundária após ela ter sido concedida. Inicialmente, o Tribunal Superior de Déli suspendeu a patente secundária em questão em janeiro de 2023, antes de reverter sua decisão alguns dias depois, confirmando sua validade. O que se seguiu foi ainda mais confuso, entre um contra-ataque de empresas de produtos genéricos para tentar revogar a patente secundária e apelações da Novartis sobre as quais – até onde sabemos – nenhum veredito foi proferido ainda. E a questão das outras três patentes secundárias, com um prazo teórico de proteção até fevereiro de 2037, também não foi resolvida. 

Mesmo que este não tenha sido o caso até agora para a Entresto, as empresas farmacêuticas suíças, no passado, quebraram os dentes várias vezes com essas oposições de patentes pré-concessão. Começando com o caso simbólico do medicamento contra o câncer Glivec da Novartis, que teve sua patente primária recusada pelas autoridades indianas. Apenas alguns países, como a Índia ou a Tailândia, usam essa flexibilidade legal consagrada nos acordos da OMC. A Europa (com exceção de Portugal) e os Estados Unidos não preveem esses procedimentos de pré-concessão, pois irritam a Big Pharma ao ir contra seus negócios. Em seu acordo bilateral de livre comércio concluído recentemente com a Índia, a Suíça também conseguiu minar essas oportunidades de intervir em um estágio inicial do procedimento. Esta é uma péssima notícia em termos de acesso a medicamentos e saúde pública.

Novartis processa governo Biden

Nos Estados Unidos, o caso Entresto não se limita a um cabo de guerra entre empresas farmacêuticas. A Novartis também pressionou o FDA diretamente para garantir que o órgão regulador de medicamentos dos EUA não aprove nenhuma versão genérica de seu produto durante seu período de exclusividade de mercado, buscando constantemente ganhar mais tempo.

Em setembro de 2021, o Departamento de Justiça dos EUA anunciou a abertura de um inquérito civil sobre possível remuneração paga a médicos para impulsionar as vendas do Entresto. A Novartis já estava na linha de fogo das autoridades dos EUA por práticas de marketing. Em 2020, a empresa sediada em Basel teve que pagar uma multa de mais de US$ 670 milhões para resolver um caso de propina envolvendo vários de seus produtos (incluindo o antecessor do Entresto, Diovan). Nenhuma outra comunicação sobre a última investigação sobre o Entresto foi tornada pública desde então. 

Em agosto de 2022, a Novartis recebeu uma dose de seu próprio remédio. A empresa foi processada pelas universidades de Michigan e do Sul da Flórida por uma potencial violação de sua patente cobrindo uma técnica de fabricação usada para produzir Entresto. O resultado deste caso não é conhecido, mas pode ter sido resolvido pela Novartis pagando uma compensação financeira a ambas as universidades. 

Finalmente, por meio da adoção do Inflation Reduction Act (IRA), alcançado após um grande esforço do governo Biden em agosto de 2022 contra o poderoso lobista farmacêutico PhRMA, o seguro público Medicare (para maiores de 65 anos) obteve, pela primeira vez na história, a possibilidade de negociar diretamente o preço dos tratamentos mais caros em termos de cobertura. Um ano depois, a lista dos primeiros 10 medicamentos a passar por esse novo procedimento foi tornada pública, com um novo preço regulamentado aplicável a partir de 2026. Esses produtos prioritários incluem o Entresto da Novartis, que custou ao Medicare cerca de US$ 2,9 bilhões em 2023 para cerca de 600.000 pacientes. O Medicare pretendia reduzir seu preço em pelo menos 25%. 

A resposta não demorou a chegar. A Novartis entrou com uma ação judicial contra o Governo dos Estados Unidos em 1º de setembro de 2023 , chamando essa reforma de inconstitucional. A corporação suíça acredita que isso equivale a “expropriação de propriedade privada” e corre o risco de “colocar em risco a pesquisa de medicamentos inovadores”.

Todos os participantes da Big Pharma envolvidos, assim como sua organização guarda-chuva, também levaram o assunto ao tribunal, gritando lobo. Até mesmo a Roche, cujo nome não aparece nesta primeira seleção, protestou, ameaçando atrasar a comercialização de novos produtos vitais devido a esta reforma. Como é frequentemente o caso, a Big Pharma está colocando uma frente unida para evitar qualquer precedente infeliz que possa ir contra seu modelo de negócios – ainda mais em sua terra de leite e mel, os Estados Unidos, onde as empresas têm sido até agora todo-poderosas em termos de definição de preços. 

No entanto, uma pesquisa realizada pela ONG Public Citizen indicou que, em 2022, as empresas farmacêuticas envolvidas nessas negociações investiram em média US$ 10 bilhões a mais em recompras de ações, pagamentos de dividendos a acionistas e remuneração de executivos do que em pesquisa e desenvolvimento (P&D) — no caso da Novartis, foram US$ 18 bilhões contra US$ 10 bilhões para P&D. Isso coloca sua ameaça à inovação muito claramente em perspectiva.

A Novartis finalmente se resignou a entrar em negociações, apesar de sua reclamação pendente. O motivo para isso é que os impostos poderiam aumentar para 95% do faturamento do produto relevante se não o fizesse. Também foi capaz de apresentar uma contraproposta ao preço sugerido pelo Medicare. Este último eventualmente Este último finalmente revelou os preços recém-negociados em meados de agosto de 2024, indicando uma redução de mais de 50% do preço do Entresto (US$ 295), o que levou a Novartis a criticá-los publicamente . Embora duas outras reclamações da Big Pharma já tenham sido rejeitadas, a reclamação da Novartis contra o governo Biden ainda está pendente.

A Suíça deve tomar medidas contra o uso abusivo de patentes

“ Evergreening ” ou o acúmulo de patentes secundárias abusivas em produtos terapêuticos é um obstáculo ao acesso a medicamentos, bem como um enorme custo adicional para pacientes e sociedade. Na Suíça, os medicamentos respondem por quase 1 em cada 4 francos suíços de despesas com seguro de saúde obrigatório, 75% dos quais são atribuíveis a produtos patenteados, de acordo com uma análise do Conselho Federal. Qual proporção destes são frívolos permitindo que um monopólio seja mantido – e o alto preço que o acompanha – muito mais longo do que a duração prevista pelas regras da OMC? É impossível quantificar isso, devido à falta de estudos precisos sobre o assunto na Europa. No entanto, podemos apostar que esta é uma proporção alta, se compararmos o número limitado de novos medicamentos lançados no mercado a cada ano com todas as patentes farmacêuticas registradas. 

De acordo com a ONG americana I-MAK , o abuso de patentes envolvendo os 10 medicamentos mais vendidos nos Estados Unidos equivale a dezenas de bilhões de dólares em custos adicionais para o sistema de saúde todos os anos. O governo dos Estados Unidos finalmente se manifestou contra esses matagais de patentes que alimentam a ganância da Big Pharma e está considerando reformas. A maré está finalmente mudando do outro lado do Atlântico? 

A Suíça, por sua vez, se recusa sistematicamente a agir contra abusos de propriedade intelectual relativos ao acesso a medicamentos em fóruns multilaterais, como vimos durante a crise da COVID (na OMC) e atualmente no contexto do acordo pandêmico, que está sendo negociado na Organização Mundial da Saúde (OMS). Pior ainda, as autoridades suíças estão buscando fortalecer ainda mais a propriedade intelectual ou, se falharem, limitar o espaço de manobra dos países de baixa e média renda no combate a abusos, como vimos como parte do acordo bilateral de livre comércio concluído em março com a Índia. 

Como membro do EPO, que concede patentes europeias para produtos farmacêuticos, a Suíça poderia agir neste nível para pedir um exame mais meticuloso dos pedidos. Embora a Europa conceda menos do que os Estados Unidos, muitas patentes imerecidas ainda são concedidas, como ilustrado por nossa oposição de 2019 ao tratamento de câncer Kymriah, após o qual a Novartis revogou a patente disputada antes de qualquer debate contencioso. É melhor evitar que patentes abusivas sejam concedidas, em vez de ter que contestá-las em litígios longos e custosos depois. Para conseguir isso, é essencial definir e aplicar regras de patenteabilidade mais rigorosas.


Fonte: Public Eye

Cientistas querem banir o termo “savanização” para colapso da Amazônia

Expressão associaria o Cerrado a florestas desmatadas ou degradadas e reforçaria preconceitos contra as savanas naturais

paisagem desmatadaA Amazônia concentra metade das perdas de vegetação nativa no Brasil, desde 1985. Foto: ESA/Alexander Gerst/Creative Commons 

Por Aldem Bourscheit para o O(eco)

O Brasil perdeu ⅓ da vegetação natural só nas últimas quatro décadas e metade dessa destruição se concentrou na Amazônia, demonstram alarmantes dados do MapBiomas divulgados esta semana por ((o))eco. 

O desmate imparável e a crise do clima empurram o bioma ao “ponto de não retorno”, quando ele poderá colapsar e perder a capacidade atual de manter biodiversidade, fontes de água e chuva e populações urbanas e rurais.

Essa drástica mudança foi taxada de “savanização”, apostando que a floresta se tornaria algo similar à “savana brasileira”, o Cerrado. Contudo, cientistas de instituições brasileiras e internacionais querem o termo banido.

Em artigo na revista Perspectives in Ecology Conservation, eles encontraram 481 estudos onde a “savanização” era associada a florestas desmatadas ou degradadas, “reforçando os preconceitos contra as savanas naturais”. 

Os pesquisadores lembram que o Cerrado é a maior e mais rica savana do mundo, “mas recebe menos atenção e recursos para a conservação”, e que há uma negligência multissetorial com o bioma, mesmo ocupando ¼ do Brasil. 

“Propomos abandonar o uso de ‘savanização da Amazônia’, promovendo o apoio e a atenção que o Cerrado precisa”, ressaltam os cientistas.

Paisagem típica de Cerrado conservado. Foto: Hudson Pontes da Silva/Creative Commons

Críticas à expressão já constavam em artigo dos pesquisadores Annabelle Stefânia Gomes e Fabian Borghetti, da Universidade de Brasília (UnB), na obra ‘Uma viagem pelo sertão: 200 anos de Saint-Hilaire em Goiás (2021)’.

Os autores lembram que o desmate e outros impactos não levam a “uma simples troca de matas nativas por savanas nativas”, como “tem sido amplamente difundido nos meios sociais e acadêmicos”.

Pelo contrário, para eles isso resultaria numa vegetação que não representaria nem uma floresta e nem uma verdadeira savana, sendo mais pobre em biodiversidade e mais fraca para manter fontes de água e regular o clima.

“Savanas que se formam com desmatamento, fogo e invasão de espécies exóticas apresentam baixa riqueza de espécies, não representam a vegetação nativa e tampouco executam seus serviços ecossistêmicos”, avisam.


Fonte:  O(eco)