Em Ribeirão Preto (SP), a fumaça das queimadas da monocultura da cana fez o dia ser trocado pela noite
O estado de São Paulo que é vendido como o exemplo de modernidade e avanço tecnológico do agronegócio nacional enfrenta nos últimos dias um número recorde de focos de incêndio, formando o que alguns já estão chamando de “paisagem marciana“. Para além de São Paulo, a paisagem não é muito diferente, fazendo com que as emissões brasileiras de CO2 associadas apenas ao uso da terra coloquem o Brasil como um dos maiores emissores globais de gases estufa.
Focos de incêndios ativo derectados no dia 24 de agosto pelo sistema de monitaramento da Nasa — Foto: Nasa
Com essa verdadeira orgia de queimadas, o agronegócio brasileira rasga de vez a máscara de modernidade e revela sua faceta mais anti-ambiental e também anti-social em sua faceta piromaníaca, na medida em que os prejuízos que a opção pelo uso do fogo traz danos não apenas para o ambiente, mas também para a saúde humana.
Enquanto tudo isso acontece, vemos um mutismo explícito por parte das diferentes esferas de governo, a começar pelo governo federal de onde não parte nenhuma condenação mínima do que está sendo realizado nos territórios dominados pela grandes monoculturas de exportação. Se olharmos para o governo de São Paulo, a coisa também não está sendo diferente, em que pese o risco real de se ter cidades inteiras dizimadas pelo fogo. Ao nível dos municípios, a coisa não vai muito diferente, nem poderia ser, pois a maioria dos prefeitos ou pertence ao agronegócio ou foi eleito por ele. Um dos municípios paulistas mais afetados é Ribeiro Preto, que se encontra rodeado por grandes plantios de cana, mas de onde não se ouve nada do prefeito Duarte Nogueira (PSDB). Parece até que a cidade não está trocando o dia pela noite por causa da fumaça vindo das queimadas de cana. Aliás, a única declaração dele até agora foi que a atual estação de queimadas é “fora do comum“.
Com as queimadas se espalhando por todo o país em um ritmo alucinante, muito em função de uma combinação entre mudanças climáticas e o aprofundamento de um modelo agrícola que aprofunda seus impactos, a verdade é que ficará difícil o Brasil continuar jogando o papel de vítima nos debates sobre controle das emissões de gases estufa. A verdade é que por causa das tendências piromaníacas do agronegócio nacional, o Brasil terá que cedo ou tarde assumir o papel que lhe cabe como vilão e não mocinho nas mudanças climáticas. E isso certamente será cobrado durante a realização da chamada COP30 em Belém no ano que vem.
O problema é que não há hoje força política que esteja disposta a colocar as responsabilidades devidas nos ombros do agronegócio brasileiro. Com isso, os recordes de 2024 serão provavelmente quebrados em 2025. A conta não resta dúvidas recairá sobre a maioria pobre da população brasileira que nada lucra com um modelo agrícola ancorado na destruição da natureza com um clara tendência piromaníaca.
Ainda sem normatização, lei centraliza a gestão de registros de agrotóxicos no Ministério da Agricultura
Agricultura se reuniu pelo menos sete vezes com indústrias de agrotóxicos para discutir regulamentação – O Joio e o Trigo
Por Flávia Schiochet O Joio e o Trigo, em parceria com Fiquem Sabendo
A nova lei de agrotóxicos, sancionada em dezembro, tem múltiplos problemas. Começando pela modificação estrutural preocupante que ela introduz: a centralidade do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) na coordenação das análises de registro de agrotóxicos. Isso significa que a prioridade de substâncias e produtos a serem analisados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) será definida pela Agricultura, agora o único órgão responsável por conceder o registro.
Só que a lei ainda está sem regulamentação, o que deixa Ibama e Anvisa em um limbo de competências. Os órgãos ainda operam conforme definido por umdecreto de 2002, mas há brechas para que as atuações se tornem acessórias com a normatização de uma lei que, de largada, já enfraquece seus papéis.
O decreto de 2002 prevê, por exemplo, que as empresas apresentem todos os anos junto a Ibama, Anvisa e Mapa relatórios sobre quantidade produzida, importada, exportada e comercializada de agrotóxicos. Precisam também enviar detalhes, como o percentual de componente químico que há nos produtos. Com esses dados em mãos, o governo federal pode divulgar análises de interesse público.
É assim que o Ibama consegue publicar desde 2009 o Relatório Anual de Comercialização de Agrotóxicos, indicando quais produtos tiveram maior comercialização no ano e manter um registro público das substâncias mais usadas e para quais culturas. O nível de detalhamento é superior ao dos Estados Unidos – que publica estimativas de mercado – e reúne mais recortes que o da União Europeia – cuja apresentação de dados por país é do volume total.
O Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para), da Anvisa, é outro monitoramento importante que o Brasil faz. Desde 2001, o programa coleta duas vezes por ano amostras de alimentos vegetais mais consumidos pelo brasileiro e verifica se há resíduo de mais de 200 agrotóxicos. Em 2022, por exemplo, a agência testou 1.772 amostras de 13 vegetais coletados em 25 estados para verificar se havia algum resíduo de 311 agrotóxicos diferentes. Foram encontrados resíduos além do parâmetro considerado seguro em 25% das amostras.
Não há garantia que a captação de informações e a publicação dessas análises continuem previstas na regulamentação da nova lei. Ter os órgãos responsáveis por essas análises com o poder de vetar o registro de um agrotóxico faz sentido em qualquer país. E, mais ainda, no Brasil, que comercializou mais de 800 mil toneladas de agrotóxicos em 2022 – e que, desde 2011, é o país do mundo em que mais se usa esses produtos.
“É imprescindível que continuemos a análise de riscos à saúde humana no país em que mais se usam esses produtos”, defendeu Rodrigo Agostinho, presidente do Ibama, em entrevista ao Joio.
A nova lei não prevê mais a figura do Comitê Técnico de Assessoramento para Agrotóxicos (CTA). O CTA era composto por Mapa, Anvisa e Ibama, e os três aprovavam ou reprovavam os pedidos de registro de acordo com suas análises. Se um dos órgãos não concedia o registro, o agrotóxico não era aprovado para comercialização.
Os órgãos seguem recebendo cadastros distintos com documentos específicos anexados pelo fabricante: ao Mapa cabe analisar as questões de eficiência agronômica; à Anvisa, os riscos à saúde humana; e, ao Ibama, os riscos ao meio ambiente. Na nova legislação, os três órgãos continuam com as análises de estudos e dossiês, mas a estrutura tripartite para concessão do registro foi extinta. Apenas o Mapa mantém essa prerrogativa.
Isso foi feito na nova lei retirando a expressão “conceder registro” das competências do Ibama e da Anvisa, e incluindo definições como “apoiar tecnicamente os órgãos competentes” e “priorizar as análises dos pleitos de registro dos agrotóxicos conforme estabelecido pelo órgão registrante”. Na prática, Ibama e Anvisa enviam seu parecer ao Mapa, funcionando como conselheiros. Se as advertências serão levadas em conta pela Agricultura na hora de decidir se aprova ou não um novo agrotóxico, não se sabe.
“Não existe mais a figura do indeferimento dos órgãos de saúde e meio ambiente e isso coloca as agências em uma situação delicada. Tomar decisão sobre liberação de agrotóxicos não é papel de quem tem olhar apenas sobre economia e aumento de produção, porque aí não se fala do risco ambiental e à saúde do trabalhador. Os órgãos que não têm interferência direta começam a perder o poder e acabam abandonando a atividade, porque há falta pessoal”, alerta Luiz Cláudio Meirelles, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz). Para ele, que durante muitos anos esteve à frente do setor de análise de agrotóxicos da Anvisa, os riscos são concretos. “Um perigo é que se voltem ideias como contratar um escritório terceirizado para fazer as avaliações toxicológicas, tirando essa competência da Anvisa.”
A nova lei concentrou poderes nas mãos do Mapa, mas esses poderes podem se tornar ainda maiores / Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Limbo de competências
A coordenação de registros se dará pelo Sistema Integrado de Agrotóxicos (SIA), uma plataforma em que servirá como “guichê único” para o pedido de registro. A previsão é que o sistema comece a ser testado neste mês de agosto. Mas, por enquanto, o caminho para registrar um agrotóxico continua o mesmo: Mapa, Anvisa e Ibama recebem os pedidos de registro em seus respectivos sites, gerando uma fila de espera para cada um. Com o SIA, a fila de espera de análise de registro será a mesma para os três órgãos, e a decisão será do Mapa.
“A gestão do Mapa se dará a partir dessa ferramenta”, afirma Edilene Cambraia, diretora de Sanidade Vegetal e Insumos Agrícolas do ministério. “Enquanto não tem o SIA, tudo continua como está”, garante. “O registro continua tripartite igual, precisa da manifestação dos três [órgãos], cada um faz sua análise. Com a nova lei, o Mapa passa a coordenar a distribuição, que não é diferente do que fazemos hoje, só que isso fica transparente de forma que os três órgãos acompanhem o registro um do outro”.
Uma fonte ouvida pelo Joio esteve em uma reunião com representantes da Anvisa em maio e disse que o clima na agência é de incerteza e falta de direcionamento para suas futuras competências institucionais.
Em nota, a agência afirmou que “mesmo que se verifique a necessidade de ajustes normativos e de processos de trabalho, considerando a expertise da Anvisa e suas atribuições relacionadas a avaliações toxicológicas relacionadas à saúde humana, não se vislumbra que as conclusões da reavaliação, por exemplo, sejam consideradas meras recomendações para o órgão registrante [Mapa]”. A agência pontua que tem um ano para adequar as normativas infralegais e fluxos de trabalho após a publicação da lei. Foram feitas duas solicitações para entrevistar um representante da Anvisa durante a primeira quinzena de julho. A agência não retornou até o fechamento desta reportagem.
Por enquanto, a nova lei não paralisou as atividades em andamento, como o relatório do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos 2023/2024, que será lançado em 2025, informou a agência via Lei de Acesso à Informação (LAI).
Fontes ouvidas pelo Joio apontam para tentativas do Mapa ao longo das últimas duas décadas de instituir programas e análises próprias que seriam similares às competências de Anvisa e Ibama. Uma delas é oPrograma Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes em Produtos de Origem Vegetal (PNCRC/Vegetal), que é similar ao Para da Anvisa, mas que investiga uma gama menor de substâncias químicas e gera resultados mais positivos para o agronegócio. “Como são menos substâncias testadas, muitos alimentos recebem o resultado de estarem livres de agrotóxicos. São falsos negativos, pode haver resíduos de outros produtos, mas que não foram testados”, alerta Luiz Cláudio Meirelles, da Fiocruz.
No Ibama, as análises de registro de agrotóxico também seguem. Atualmente, são mais de 2,2 mil pedidos na fila de espera do instituto. Segundo o presidente do órgão, Rodrigo Agostinho, a equipe responsável pelas avaliações é de 22 pessoas. Ele garante que a nova lei não interrompe os processos internos do instituto. “Nosso entendimento é que a lei não muda a prerrogativa do Ibama. Enquanto persistirem essas substâncias, o Ibama tem seu papel mantido, sem hierarquia”, diz.
Questionado pelo Joio se é possível que os órgãos esvaziem seus setores de agrotóxicos e, com isso, haja um apagão de dados, Agostinho respondeu que a análise e controle de substâncias químicas é uma atribuição institucional prevista na lei de criação do órgão, em 1989, e que o quadro técnico será reposto por um concurso que deve ocorrer em 2025. A autorização do concurso com 260 vagas foi feita em junho, e o edital pode ser publicado até dezembro.
“A regulamentação vai estabelecer como vai se dar a operacionalização de ritos, sistemas, comandos normativos e normas infralegais, bem como modelos de requerimento, certificado de registro, parâmetros para bulas, rótulos, todos esses pontos que entendemos necessários”, declarou Agostinho, sem confirmar se já há algo definido em algum desses pontos.
Questões indefinidas e brechas da lei
Algumas questões seguem indefinidas. É uma incógnita, por exemplo, se a regulamentação trará alguma mudança nos documentos enviados à Anvisa e ao Ibama, e se estes terão prerrogativa para agir de forma autônoma solicitando novos dados e aprofundamento de estudos à indústria.
Este é um dos desmontes possíveis diante das brechas da nova lei que, durante a tramitação, ficou conhecida como “Pacote do Veneno“. Passados sete meses da aprovação, a Câmara votou apenas metade dos vetos presidenciais, e derrubou todos. Não há previsão para votar o restante dos vetos, mas isso não impede a regulamentação da parte já sancionada e publicada.
Questionado pelo Joio sobre como estuda fazer a regulamentação, o Ministério da Agricultura deu duas respostas diferentes em menos de um mês.
Em 17 de julho, a Coordenação-Geral de Fertilizantes, Inoculantes e Corretivos respondeu via LAI que não há intenção de fazer uma portaria para definir as competências específicas da pasta. “Destaca-se que já está bem claro na supracitada legislação quais são as competências do Mapa e dos outros órgãos que participam do processo de registro”, diz a nota. A coordenação é subordinada à Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA).
O posicionamento mudou em 29 de julho. Em entrevista, Edilene Cambraia, da SDA, afirmou que Mapa, Ibama e Anvisa têm debatido internamente a regulamentação da lei desde o início do ano. “Não é uma regulamentação feita do dia para noite. Quando tivermos uma proposta concluída, seguiremos os trâmites para consulta pública. Pretendemos fazer isso até o final do ano”, declarou.
A informação das reuniões foi confirmada pelo presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, mas o Joio não encontrou registros públicos dos encontros interministeriais sobre o assunto. O Ibama também parece participar menos das discussões sobre regulamentação quando o assunto é agrotóxico.
Mapa e Anvisa discutem assuntos regulatórios com indústria
Segundo dados apurados pelo projetoLobby na Comida, produzido pelaFiquem Sabendo(FS) em parceria com o Joio, as agendas do Mapa e Anvisa estiveram bastante ocupadas para discutir “regulamentação” entre abril de 2023 e junho de 2024. O levantamento foi feito por meio da ferramenta Agenda Transparente, desenvolvida pela FS, e o relatório com o estudo completo foi lançado hoje.
Associações, empresas e lobistas ligados a agrotóxicos e agronegócio estiveram reunidos com Anvisa ou Mapa em 20 ocasiões para discutir algum tipo de regulamentação. Em pelo menos seis delas, o tema era a nova lei de agrotóxicos. Na maior parte das agendas públicas, a pauta é deixada em branco, o que dificulta ter o número real de encontros em que o assunto foi tratado. Não foi encontrada nenhuma presença de representantes do Ibama nos resultados dessa pesquisa.
Só o titular da Secretaria de Defesa Agropecuária, Carlos Goulart, se encontrou quatro vezes com representantes da CropLife, associação que reúne empresas de biotecnologia, agrotóxicos e bioinsumos, para tratar de “regulamentação”. A Ourofino, fabricante brasileira de agrotóxicos, foi recebida duas vezes e o Sindiveg, também duas, pelo secretário.
Já a Anvisa teve diferentes diretores e gerentes encontrando representantes da CropLife, Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina (Abifina), Ourofino, Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), Associação Brasileira de Defensivos Pós-Patente (Aenda) e da União dos Produtores e Fabricantes Nacionais de Fitossanitários (Unifito) ao longo desse período para discutir o mesmo tema.
Com o filtro de regulamentação, o Joio não encontrou nenhum membro de entidades da sociedade civil presente nas reuniões. A situação sugere que o Executivo esteja mais interessado em ouvir o pleito da iniciativa privada que organizações ligadas aos temas de saúde e meio ambiente.
Ao analisar as agendas considerando apenas os visitantes registrados como diretores, gerentes, consultores ou analistas de assuntos regulatórios ligados a fabricantes de agrotóxicos e associações, o número é de 26 pessoas. A Sumitomo foi a indústria com a maior comitiva, com cinco pessoas, seguida pela BASF, com quatro.
A presença dessas figuras em reuniões – muitas vezes feitas a portas fechadas, sem divulgação de atas – chama a atenção para o risco de ministros e servidores públicos estarem sendo influenciados por interesses corporativos na construção da regulamentação. Um risco é uma redação menos rigorosa de uma portaria ou decreto, beneficiando a agenda dessas indústrias e associações.
Uma lei, múltiplos problemas
Alertas sobre as falhas do Pacote do Veneno não faltaram durante a tramitação do projeto de lei e após sua aprovação. Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, Conselho Nacional de Saúde, Conselho Nacional de Direitos Humanos e até relatores das Nações Unidas chamaram atenção para os problemas, especialmente a centralização do registro de agrotóxicos no Ministério da Agricultura. Os conselhos ligados à Presidência, inclusive, recomendaram que Lula vetasse integralmente o projeto de lei.
“Tudo isso foi ignorado. Retrocedemos a um tipo regulatório de 1934, quando eram decretos que regulavam inseticidas dentro do Mapa e do Instituto de Química Agrícola, e só saberemos o cenário regulatório no final de 2024, quando o prazo para a regulamentação termina”, diz Leonardo Pillon, advogado do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Instituto de Defesa do Consumidor, o Idec.
Críticas à nova legislação vão além da centralização do pedido de registro no Mapa e abarcam também as diretrizes frouxas e interpretações abertas que a falta de parâmetro permite.
Uma delas é o uso da expressão “risco inaceitável” para falar da proibição de agrotóxicos. Na lei anterior, era citado que produtos que apresentassem “características teratogênicas, carcinogênicas ou mutagênicas” ou com potencial de provocar “distúrbios hormonais, danos ao aparelho reprodutor”, segundo estudos científicos, deveriam ser proibidos. Com a nova redação, o entendimento pode ser o de que o produto químico não apresenta riscos ambientais e à saúde se aplicado corretamente.
Mesmo com a regulamentação, a sociedade civil organizada não acredita que haverá soluções dos vácuos na nova lei de agrotóxicos. Por isso, as organizações do terceiro setor preparam em conjunto uma ação direta inconstitucional (ADI) para ajuizar no Supremo Tribunal Federal e tentar derrubar a lei integralmente ou pelo menos parte dela.
“Esses quase 30 anos que os projetos de lei foram sendo alterados e viraram o Pacote do Veneno foram um período longo de disputa. Mesmo que tivéssemos uma legislação que limitava os usos de agrotóxicos, o Brasil já era campeão no uso, à frente dos Estados Unidos”, diz Jaqueline Andrade, advogada da ONG Terra de Direitos, uma das organizações que assinará a ADI. A expectativa é que, pelo menos, Anvisa e Ibama tenham seus poderes restituídos.
“Com uma aprovação tão ampla na Câmara e Senado, talvez o Supremo avalie retirar alguns dos dispositivos. Se houver algum vazio legislativo, pode ser que se entenda necessária uma nova lei. Se for considerado tudo inconstitucional, volta para a legislação de 1989 e seus decretos e portarias”, explica Emiliano Maldonado, professor da Faculdade de Direito do Rio Grande do Sul e advogado da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, que também prepara a ação, que deve ser ajuizada no Supremo ainda em 2024.
Ignoradas pela bancada ruralista, as organizações da sociedade preparam uma ação a ser apresentada ao Supremo / Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida
Os últimos dias tem sido marcados por um tempo muito seco, o que tem propiciado a plantadores de cana de açúcar no entorno de Campos dos Goytacazes a colocarem fogo nos seus plantios (como se faz desde o período colonial), causando o aparecimento de imensas colunas de fumaça que ficaram bastante visíveis no céus da cidade (ver imagens abaixo).
O que ficou menos discreto, o particulado fino que é lançado junto com a fumaça, está hoje sendo depositado sobre a área urbana de Campos, como mostra o pará-brisa do meu veículo que ontem não estava nem próximo da situação calamitosa em que o encontrei nesta manhã de sábado (ver imagem abaixo).
Enquanto isso, apesar de existir uma lei estadual (a Lei Nº 5990 de 20 de junho de 2011) banindo essa prática ultrapassada, não vejo notícia de que órgãos ambientais ou a justiça estejam se mobilizando para fazer cessar as queimadas nos campos de cana. Com isso, o que deve estar certamente acontecendo é uma corrida à farmácias e postos de saúde por crianças e idosos que estão tendo um agravamento em doenças respiratórias.
O agravamento de doenças respiratórias é apenas a faceta mais óbvia dos acometimentos que recaem sobre a população com essas queimadas ilegais. É preciso que se lembre das evidências científicas acumuladas sobre a remobilização de compostos contendo mercúrio que estão presos nos solos da região após décadas da proibição do agrotóxico DDT que era o veneno por muitas décadas.
De tempos em tempos, ouve-se e ou se lê os clamores por uma espécie de volta ao passado de glórias das usinas de açúcar e álcool em Campos dos Goytacazes. Ao meu ver, o bom é que esses clamores nunca serão materializados, visto que a fronteira dinâmica da indústria sucro-alcooleira nacional se moveu defintivamente para outros estado como São Paulo, Goiás e Mato Grosso. Quem fala por aqui em voltar ao tempo das dezenas de usinas ou quer ser iludido ou quer iludir, com fins não necessariamente claros.
Eu digo que ainda bem que o setor sucro-alcooleiro fluminense é coisa do passado. Afinal, se com poucas usinas operando com capacidade ociosa nós já temos o grau de poluição atmosférica que estamos vendo nos últimos dias, imaginem o que aconteceria se tivessem de volta os tempos de ouro em que o cheiro vinhoto já era sentido em Casimiro de Abreu?
Aliás, falando em São Paulo e seu poderoso setor sucro-alcooleiro, ao menos 30 cidades decretaram situação de emergência por causa da queima descontrolada de campos de cana-de-açúcar que está impedindo a circulação de veículos em um número inédito de estradas paulistas (ver vídeo aqui).
A verdade é que temos que nos mover para longe das monoculturas de exportação que hoje estão literalmente colocando fogo no Brasil. Não temos literalmente que ver o futuro repetir o passado, pois está evidente que o passado nunca assim tão dourado como alguns insistem em pintar, sempre às custas dos cofres públicos e da saúde da maioria.
Não é novidade para ninguém, que teve a paciência de conviver comigo, mais de perto, que eu sou um cinéfilo. Entendo a essência do teatro, como real possibilidade do ator exercer seu ofício, mas sempre me apaixonou a 7ª arte, por sua complexidade construtiva, a necessidade de juntar um monte de gente e recursos para criação e narração de uma história.
Para mim, esse vetor principal do filme é a pergunta que Balian, o Barão de Ibelin (Orlando Bloom), faz a Saladin (Ghassan Massoud), às portas da muralha de Jerusalém, que estava prestes a ser dizimada pelos muçulmanos: “Quanto vale Jerusalém?” Ao que Saladin responde: “Jerusalém vale tudo, Jerusalém vale nada”.
Essa resposta, além de revelar a reconhecida sabedoria do líder islâmico, filosoficamente propõe, ali, naquele momento dramático, que as coisas valem o valor que damos por elas, e espicha um pouco mais o dilema, para perguntar também: o que somos capazes de fazer por aquilo que acreditamos?
Essa é a base de boa parte de nossas relações sociais, e…políticas. Motivação.
Uma lição, que deveria ser estudada com carinho pelos “petistas da feijoada”, de Campos dos Goytacazes, o pessoal do “sou PT, mas voto Feijó”, e que hoje se encastelou na campanha de Jefferson como cruzados em Jerusalém, mas sem a menor noção dos que os cerca, ao contrário do protagonista do filme.
No dia de hoje, a mídia nacional se debruça sobre a pergunta, que Guilherme Boulos terá que responder: Quanto vale São Paulo?
Sim, estabilizado, momentaneamente, no topo das intenções de voto na corrida paulista, mas sem chance de resolver no primeiro turno, o cruzado terá que conversar com Ricardo Nunes, atual prefeito, candidato à reeleição, e apadrinhado por ninguém menos que Jair Messias Bolsonaro.
Nem vou mencionar a tragédia de um segundo turno com Pablo Marçal, porque, sabemos, a direita e sua parcela mais extremada vão convergir contra o cruzado Boulos.
Porém, se esse quadro atual se consolidar, o que farão Lula e Boulos? Há hipóteses. Jair Bolsonaro, apesar de se comportar como um imbecil, de imbecil nada tem. É preciso não confundir o personagem com quem o interpreta. O ex-presidente sabe que existem chances reais de seu grupo não levar a prefeitura paulistana, o que mexe no tabuleiro de 2026, e etc.
Jair sabe da importância de SP, mas sabe que sem poder concorrer em 2026, seu grupo e seu capital políticos perigam minguar, inclusive com a chance de que outros aspirantes ao local que ele ocupa apareçam.
Ele já deu a entender que a “normalização” da tensão política, que é seu principal alimento, ameaça a diluição dos extremos no grande caldo de cultura e tesão nacional, o centro! Baixou decreto ex-presidencial proibindo o PL de se coligar com os vermelhos nessas eleições.
Jair precisa de anistia ou, melhor e mais, precisa de um amplo acordo político e jurídico (como se os dois fossem coisas separadas, rs) para ser colocado de novo no páreo. O cálculo dele, pode passar, eu imagino, por uma “liberação” de Nunes para negociar com Boulos, exigindo em troca que Lula trabalhe pelo consenso da sua anistia, seja lá com o argumento ele tenha que usar, já que nesse movimento, caberia a maior parte do prejuízo a Lula.
Lula, ele mesmo, já andou acenando com essa possibilidade, dizendo que o país precisa se pacificar, talvez, com a esperteza que só ele tem, a dos sobreviventes, de que teria que fazer essa jogada em algum tempo futuro, que parece ter chegado. Quem olhar mais de perto vai poder perceber que o “afastamento” de Bolsonaro dos dois pólos da direita em São Paulo é mais que má vontade, porque Ricardo Salles não foi declarado candidato, como ele desejava.
É, em parte, isso, no entanto, é mais. O truque está em se poupar do desgaste de explicar a sua base fiel de fanáticos que ele negociaria com Lula e Boulos, caso fosse um padrinho mais ativo de Nunes. Novamente, Jair vai “terceirizar” o prejuízo da conversa a Nunes, e se duvidar, vai até fazer alguma declaração (combinada) contra a conversa Nunes/Boulos, enquanto negocia por trás.
É um aprendizado, como já disse, para o pessoal do PT, da feijoada campista.
No fim, a realidade se impõe sobre as idiossincrasias, o que é ótimo, aliás. Na verdade, tudo isso que escrevi pode não passar de mera especulação, e é, na medida que mesmo que haja estas conversas, raramente um dos atores envolvidos a confirmaria.
A questão de fundo, ou central é: a necessidade de ter essa conversa, e a possibilidade que ela exista, não nessa ordem.
O pessoal daqui tenta justificar suas posições com sofismas, do tipo, Wladimir é Bolsonaro, ao mesmo tempo que mentem ao dizer que não há diferenças entre o prefeito e a delegada, enquanto, ingenuamente, tentam esconder o fato de que agem a mando dos padrinhos da moça, como, como linha auxiliar da extrema-direita.
Agora, o líder maior, Lula, pode ter que conversar com seu arqui-inimigo, e inacreditavelmente, trabalhar para que ele volte ao cenário eleitoral. Fica a dica: Inimigo, ou você aniquila de vez, ou se prepara para negociar com ele.
Quanto vale Jerusalém? Quanto vale São Paulo? Quanto vale o PT de Campos?
Emissões de incêndios florestais canadenses atingiram recorde em 2023
Por Dana Drugmand para o “The New Lede”
A temporada recorde de incêndios florestais no Canadá no ano passado foi diretamente ligada às mudanças climáticas causadas pelo homem, de acordo com um novo estudo, que alerta que a crise climática pode estar alimentando incêndios extremos décadas antes do esperado.
Esta é amaior avaliação específica da temporada de incêndios de 2023 no Canadá, que foi sem precedentes em seu escopo e intensidade, e se soma a um conjunto maior de evidências que mostram que as mudanças climáticas estão alimentando incêndios perigosos ao redor do mundo em um ritmo crescente.
“O que foi incomum foi a quantidade de atividade em todo o país”, disse Piyush Jain, um cientista pesquisador do Serviço Florestal Canadense do Natural Resources Canada e um dos principais autores do estudo , publicado esta semana no periódico Nature Communications . “Já vimos um ano que seria tão extremo quanto o que esperaríamos ver em 2050.”
Incêndios queimaram em grande parte do Canadá de abril a outubro de 2023, queimando uma área aproximadamente do tamanho de Illinois — sete vezes mais terra do que historicamente foi queimada durante a temporada de incêndios florestais do país, em média. A extensão da atividade de incêndios do ano passado, estendendo-se da Colúmbia Britânica até o leste da Nova Escócia em uma única temporada, não havia sido prevista até o final deste século sob as projeções climáticas atuais, de acordo com pesquisadores.
Os incêndios florestais no Canadá em junho passado também afetaram grandes cidades na Costa Leste dos EUA, deixando os céus em um laranja nebuloso e trazendo níveis alarmantes de poluição do ar para Nova York, Filadélfia e Washington, DC. Partículas tóxicas transportadas pela fumaça dos incêndios florestais aumentaram os riscos de morte prematura da Carolina do Norte à Califórnia e ameaçaram US$ 36 bilhões em perdas econômicas anuais nos EUA, descobriu um estudo.
As mudanças climáticasmais que dobraramas chances de condições climáticas extremas de incêndio que levaram aos incêndios de 2023, de acordo com um estudo de agosto de 2023. Outro estudo examinando a atividade global de incêndios florestais em 2023, publicado na semana passada, relatou que as mudanças climáticas aumentaram a chance de “clima de alto risco de incêndios” no ano passado no Canadá e aumentaram a área queimada em até 40%.
As descobertas do novo estudo da Nature Communications são consistentes com os resultados daquela pesquisa. As condições extremas que facilitaram os incêndios canadenses generalizados, como altas temperaturas e seca, são impactos que os cientistas dizem que derivam de um clima mais quente.
“A maior parte do que foi extremamente anômalo sobre o último verão no Canadá foi o tipo de coisa inequivocamente e fortemente ligada à mudança climática”, disse Daniel Swain, um cientista climático do Instituto de Meio Ambiente e Sustentabilidade da UCLA que não estava envolvido no estudo. Ele apontou para o calor recorde e uma métrica de secura chamada déficit de pressão de vapor, observando que esses indicadores de clima de incêndio estavam “completamente fora dos gráficos” em 2023. De maio a outubro de 2023, por exemplo, o Canadá viu temperaturas que estavam 2,2 °C (cerca de 4 °F) acima da média de 1991-2020 para aquela época.
“Isso realmente foi um exemplo claro da impressão digital das mudanças climáticas nos incêndios florestais”, disse Swain.
Um crescente corpo de pesquisa tem atribuído o agravamento dos incêndios florestais ao redor do mundo às mudanças climáticas causadas pelo homem. Um estudode 2023 apontou as mudanças climáticas como a força motriz por trás do aumento dos incêndios florestais na Califórnia ao longo do último meio século, enquanto uma análisepublicada pelo World Resource Institute este mês descobriu que os incêndios florestais ao redor do mundo estão se tornando mais disseminados, chamando a atenção para temperaturas mais altas causadas pelas mudanças climáticas que secam as paisagens.
“Impactos profundos na saúde”
O novo estudo explica que os incêndios florestais canadenses sem precedentes de 2023 tiveram “impactos profundos na sociedade e na saúde”, levando à evacuação de 232.000 pessoas no Canadá e resultando na morte de oito bombeiros e expondo milhões de pessoas na América do Norte à qualidade do ar perigosa.
“O dano cumulativo à saúde pública é realmente muito grande devido a esses enormes eventos de emissão de fumaça porque há milhões e milhões de pessoas respirando-a por dias, semanas, meses a fio, mesmo que vivam longe de onde os incêndios estão realmente queimando”, disse Swain.
A exposição a níveis elevados de material particulado (PM2,5) da fumaça de incêndios florestais pode desencadear doenças respiratórias, como asma, e podecausar ou agravar doenças dos pulmões, coração, cérebro/sistema nervoso, pele, intestino, rim, olhos, nariz e fígado.De acordo com o CDC , as visitas ao departamento de emergência relacionadas à asma foram 17 por cento maiores do que o esperado durante 19 dias de fumaça severa de incêndios florestais de abril a agosto de 2023.
A American Lung Association apontou a fumaça de incêndios florestais como uma fonte cada vez mais significativa de poluição do ar em seuRelatório do Estado do Ar de 2024, emitido no início deste ano. “Incêndios florestais no oeste dos Estados Unidos e Canadá continuam sendo o principal fator contribuinte para o número crescente de dias e lugares com níveis insalubres de poluição por partículas nos últimos anos”, afirma o relatório.
À medida que os incêndios florestais se tornam mais intensos e disseminados à medida que o clima esquenta, eles representam cada vez mais uma ameaça à qualidade do ar e à saúde pública, sugerem dados de pesquisa e observação. Os incêndios florestais são amplamente responsáveis pelo ressurgimento da poluição atmosférica extrema por material particulado, particularmente no oeste dos EUA, disse Swain e alertou que outras partes do país, muitas milhas a favor do vento dos incêndios florestais, continuam a enfrentar riscos.
“Há muitas pessoas que vivem a favor do vento, essencialmente a 1.600 ou 3.200 quilômetros a favor do vento, dessas enormes faixas de floresta boreal no Canadá que correm grande risco de incêndios cada vez mais graves em um clima mais quente”, disse Swain.
Embora não se espere que as condições extremas que produziram os incêndios florestais de 2023 ocorram todos os anos à medida que o clima esquenta, ainda não vimos o último desses tipos de incêndios florestais massivos, disse ele.
“Acho que isso vai ser algo episódico que vai acontecer.”
(Imagem em destaque: Céu alaranjado e nebuloso sobre Yellowknife, Canadá, durante um incêndio florestal em 2023. Foto de Luke Moore no Unsplash .)
Mapeamento conduzido na Unifesp revela a expressiva extensão de estruturas artificiais construídas na linha de costa e a ocupação de áreas vulneráveis a eventos climáticos
Molhe feito de rochas para proteção costeira (foto: Aline Martinez)
Por Agência FAPESP
Pesquisadores do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (IMar-Unifesp), em Santos, mapearam a linha costeira do Estado de São Paulo, revelando dados inéditos sobre a urbanização das zonas costeiras do Brasil.
O estudo foi conduzido durante o pós-doutorado de Aline Martinez, com apoio da FAPESP e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Os resultados foramdivulgados na revista Anthropocene Coasts e destacam a necessidade urgente de ações para uma gestão costeira sustentável e resiliente.
O grupo mapeou toda a linha da costa de São Paulo para quantificar a extensão de estruturas artificiais, como quebra-mares, espigões, cais de porto e píeres, bem como ocupações em zonas costeiras de baixa elevação próximas a praias e margens estuarinas. Essas áreas são altamente vulneráveis a eventos climáticos, sofrendo com o avanço do nível do mar, inundações e erosão.
Os pesquisadores da Unifesp revelaram que o litoral paulista tem 245 quilômetros (km) de estruturas artificiais na linha de costa, o que equivale a três vezes a distância entre as cidades de São Paulo e Santos. Infraestruturas de proteção costeira, como muros de contenção, muretas, quebra-mares e estruturas de atracamento de embarcações, representam 80% de todas as estruturas mapeadas, sendo que 63% delas estão na Baixada Santista, a região mais urbanizada.
“Embora essas estruturas sejam úteis para nossas atividades diárias, elas causam grandes impactos ambientais, como a perda de hábitats naturais e de biodiversidade, além de serviços ecossistêmicos essenciais,” explicou Martinez à Assessoria de Imprensa do IMar-Unifesp. “Essas infraestruturas também facilitam a bioinvasão, quando espécies de uma região se estabelecem em novas localidades, causando problemas ambientais e prejuízos econômicos”, completou.
Riscos das ocupações
O estudo também revelou que mais de 300 km da costa paulista têm ocupações humanas em áreas vulneráveis: 235 km perto de praias e 67 km próximos a manguezais e margens estuarinas. Isso significa que mais de 25% da linha costeira “mole” do Estado possui populações humanas e infraestrutura urbana em áreas altamente suscetíveis a riscos climáticos.
A pesquisa ainda mostra que 55% da extensão de praias do litoral de São Paulo possui áreas urbanizadas dentro de apenas 100 metros de distância da faixa de areia. Na Baixada Santista e no Litoral Norte, esta cifra sobe, respectivamente, para 81% e 74% das praias.
“Manguezais e vegetações como as restingas são nossa primeira linha de defesa contra o impacto das ondas e o avanço do mar. Com as mudanças climáticas, preservar essas vegetações é crucial para proteger cidades costeiras, pessoas e atividades econômicas”, afirmou o pós-doutorando André Pardal, coautor da pesquisa.
“Projeções indicam que praias podem recuar em torno de 100 metros até o fim do século devido ao aumento do nível do mar e à erosão. O intenso processo erosivo já observado em Ilha Comprida [Litoral Sul], por exemplo, pode se tornar comum em todo o litoral paulista nas próximas décadas”, acrescenta Pardal.
Segundo o orientador de Martinez, o professor da Unifesp Ronaldo Adriano Christofoletti, é necessário realizar planos e ações eficazes para preservar os manguezais e restingas remanescentes e restaurar áreas alteradas. “No contexto dos debates sobre a PEC [Proposta de Emenda à Constituição] das Praias, nosso estudo enfatiza a necessidade de fortalecer a preservação dos Terrenos de Marinha e seus acrescidos, em vez de facilitar suas ocupações,” disse Christofoletti.
Os resultados mostram que a urbanização costeira é uma fonte significativa de impacto ambiental e riscos costeiros em São Paulo e no Brasil. A pesquisa ressalta a importância de ações eficazes para mitigar esses impactos e promover um desenvolvimento costeiro sustentável. Em particular, o estudo alerta para as ameaças de alterações em leis que facilitem a ocupação de áreas costeiras altamente vulneráveis às mudanças climáticas.
O artigo Urbanisation on the coastline of the most populous and developed state of Brazil: the extent of coastal hardening and occupations in low-elevation zones pode ser lido em:https://link.springer.com/article/10.1007/s44218-024-00048-8.
Estranho fenômeno acometeu o candidato petista à prefeitura de Campos dos Goytacazes. Como se não bastasse ter dado eco ao discurso da extrema-direita, atacando o índice do IDEB 2023, quando a cidade alcançou 5.4, deslocando-se várias posições para cima no ranking estadual, o moço agora meteu-se em uma discussão meio sem sentido, justamente com seus pares da academia, que ousaram desafiar as teses do candidato sobre aprovação automática, e o peso desse vetor no total dos dados.
Sim, engraçado assistir o candidato cavando um buraco embaixo dos próprios pés, subtraindo de si mesmo o único local de fala que tem, ou seja, o meio acadêmico, já que no campo popular ele inexiste. Ora, vamos desenhar para gente burra entender: a variação do índice de aprovação, como disse o Professor da UCAM-Campos, Eduardo Shimoda, não teve um valor que alterasse significativamente a nota final apurada.
Ponto! Vamos encerrar esta questão dos números com alguns mais saborosos: Vejam os dados do ENEM e o IFF Norte Fluminense na gestão do rapaz. Catastróficos, eu sei, um desastre. Se formos usar a mesma régua torta do doutor engenheiro da computação, a gente pode sentenciar, é o porco falando do toucinho.
Porém, como eu sou um cara do bem, não tenho doutorado, mas tenho bom senso, eu sei que ele poderá alegar que foi o período Michel Temer/ Jair Bolsonaro, etc, etc, etc. Pode ser, quem sabe? Ou pode ser também uma boa dose de incompetência dele, não?
Se eu fosse um cara do mal, eu usaria a mesma lógica que ele utiliza, quando esconde que o governo Rafael Diniz (de que boa parte do PT e os aliados da deputada estadual desaparecida fizeram parte) dinamitou todas as Políticas Sociais, e aí, principalmente a Educação Pública, com escolas fechadas, salários atrasados, merenda ruim, etc.
Para não dizer que não falei de gente
O que importa, afinal, nesse debate, são as pessoas. Quando ataca um índice conseguido depois de uma pandemia, que fez com o que o Governo Federal fizesse a recomendação de aprovação automática, para que os alunos não ficassem ainda mais atrás das escolas privadas, dos ricos que podem pagar pelo ensino e pela recuperação de conteúdo, o “Professor Jefferson” diz a que veio: Danem-se os pobres! Que sejam punidos várias vezes, por serem pobres, inclusive com a reprovação.
Sabe o “professor” que a Escola não se encerra em notas, aprovações ou reprovações, IDEB ou colocações no ENEM, mas no processo vivo de aprendizado, que se adapta às circunstâncias, como o fato de que o atual governo encontrou terra arrasada no setor. Ainda assim, com todas as dificuldades, professores e todo pessoal administrativo, alunos e pais de alunos se uniram para alavancar o nível de aprendizagem.
Ao atacarem o índice, o PT e o Professor Jefferson atacam esse esforço, essa ideia de recuperação, esse movimento de valorização, e mesmo de propaganda, se assim quisermos, de dizer que o público é bom. Eu tinha evitado usar os dados do ENEM do IFF, até aqui. Porém, com tanta desonestidade intelectual, é preciso colocar certas coisas em seus lugares.
E não podemos nunca nos esquecer que “pau que dá em Chico, dá em Francisco”.
O crescente custo energético e ambiental do boom da inteligência artificial está alimentando preocupações. Mecanismos de política verde que já existem oferecem um caminho para uma solução
À medida que mais data centers surgem em comunidades rurais, a oposição local a eles tem crescido. Crédito: Brian Lawless/PA/Alamy
Por Sasha Luccioni , Boris Gamazaychikov , Sara Hooker , Régis Pierrard , Emma Strubell , Yacine Jernite e Carole-Jean Wu para a Nature
À medida que milhões de pessoas usam cada vez mais modelos de inteligência artificial generativa (IA) para tarefas que vão desdepesquisas na Webaté a criação de videoclipes , há uma urgência crescente em minimizar a pegada energética da tecnologia.
O preocupante custo ambiental da IA é óbvio mesmo neste estágio inicial de sua evolução. Um relatório publicado em 1ºde janeiro pela Agência Internacional de Energia estimou que o consumo de eletricidade dos data centers pode dobrar até 2026 e sugeriu que melhorias na eficiência serão cruciais para moderar esse aumento esperado.
No entanto, do jeito que as coisas estão, as demandas de energia da IA estão mantendo as antigas usinas de energia a carvão em serviço eaumentando significativamente as emissões das empresasque fornecem o poder de computação para essa tecnologia. Dado que o consenso claro entre os cientistas do clima é que o mundo enfrenta um momento de “agora ou nunca” para evitar mudanças planetárias irreversíveis 2 , reguladores, formuladores de políticas e empresas de IA devem abordar o problema imediatamente.
Para começar, estruturas de políticas que incentivam a eficiência energética ou de combustível em outros setores econômicos podem ser modificadas e aplicadas a aplicações alimentadas por IA. Esforços para monitorar e comparar os requisitos de energia da IA — e as emissões de carbono associadas — devem ser estendidos além da comunidade de pesquisa. Dar ao público uma maneira simples de tomar decisões informadas eliminaria a divisão que agora existe entre os desenvolvedores e os usuários de modelos de IA, e poderia eventualmente provar ser um divisor de águas.
Este é o objetivo de uma iniciativa chamada projeto AI Energy Star, que descrevemos aqui e recomendamos como um modelo que os governos e a comunidade de código aberto podem adotar. O projeto é inspirado nasclassificações Energy Starda Agência de Proteção Ambiental dos EUA . Elas fornecem aos consumidores uma medida transparente e direta do consumo de energia associado a produtos que vão de máquinas de lavar a carros. O programa ajudou a atingir mais de 4 bilhões de toneladas de reduções de gases de efeito estufa nos últimos 30 anos, o equivalente a tirar quase 30 milhões de carros movidos a gasolina das ruas por ano.
O objetivo do projeto AI Energy Star é semelhante: ajudar desenvolvedores e usuários de modelos de IA a levar em conta o consumo de energia. Ao testar uma gama suficientemente diversa de modelos de IA para um conjunto de casos de uso populares, podemos estabelecer uma faixa esperada de consumo de energia e, em seguida, classificar os modelos dependendo de onde eles se encontram nessa faixa, com aqueles que consomem menos energia recebendo a classificação mais alta. Este sistema simples pode ajudar os usuários a escolher os modelos mais apropriados para seu caso de uso rapidamente. Espera-se que uma maior transparência também incentive os desenvolvedores de modelos a considerar o uso de energia como um parâmetro importante, resultando em uma redução em toda a indústria nas emissões de gases de efeito estufa.
Ferramentas para quantificar o uso de energia da IA podem melhorar a eficiência e a sustentabilidade. Crédito: Getty
Nosso benchmarking inicial foca em um conjunto de modelos de código aberto hospedados no Hugging Face, um repositório líder para modelos de IA. Embora alguns dos chatbots amplamente usados lançados pelo Google e OpenAI ainda não façam parte do nosso conjunto de testes, esperamos que empresas privadas participem do benchmarking de seus modelos proprietários à medida que o interesse do consumidor no tópico cresce.
A avaliação
Um único modelo de IA pode ser usado para uma variedade de tarefas — variando de resumo a reconhecimento de fala — então nós selecionamos um conjunto de dados para refletir esses diversos casos de uso. Por exemplo, para detecção de objetos, nós recorremos aoCOCO 2017e ao Visual Genome— ambos conjuntos de dados de avaliação estabelecidos usados para pesquisa e desenvolvimento de modelos de IA — assim como o conjunto de dados Plastic in River , composto de exemplos anotados de objetos plásticos flutuantes em cursos d’água.
Nós decidimos por dez maneiras populares nas quais a maioria dos consumidores usa modelos de IA, por exemplo, como um chatbot de resposta a perguntas ou para geração de imagens. Então, extraímos uma amostra representativa do conjunto de dados de avaliação específica da tarefa. Nosso objetivo era medir a quantidade de energia consumida para responder a 1.000 consultas. O pacote de código abertoCodeCarbon foi usado para rastrear a energia necessária para calcular as respostas. Os experimentos foram realizados executando o código em unidades de processamento gráfico NVIDIA de última geração, refletindo configurações de implantação baseadas em nuvem usando hardware especializado, bem como nas unidades de processamento central de computadores disponíveis comercialmente.
Em nosso conjunto inicial de experimentos, avaliamos mais de 200 modelos de código aberto da plataforma Hugging Face, escolhendo os 20 mais populares (por número de downloads) para cada tarefa. Nossas descobertas iniciais mostram que tarefas envolvendo classificação e geração de imagens geralmente resultam em emissões de carbono milhares de vezes maiores do que aquelas envolvendo apenas texto (veja ‘Pegada energética da IA’). Indústrias criativas que consideram a adoção em larga escala da IA, como a produção de filmes, devem tomar nota.
Fonte: Análise não publicada por S. Luccioni et al. / Projeto AI Energy Star
Dentro do nosso conjunto de amostra, o modelo de perguntas e respostas mais eficiente usou aproximadamente 0,1 watt-hora (aproximadamente a energia necessária para alimentar uma lâmpada incandescente de 25 W por 5 minutos) para processar 1.000 perguntas. O modelo de geração de imagens menos eficiente, por outro lado, exigiu até 1.600 Wh para criar 1.000 imagens de alta definição — essa é a energia necessária para carregar totalmente um smartphone aproximadamente 70 vezes , totalizando uma diferença de 16.000 vezes. À medida que milhões de pessoas integram modelos de IA em seu fluxo de trabalho, as tarefas em que eles os implantam serão cada vez mais importantes.
Em geral, tarefas supervisionadas como responder perguntas ou classificar textos — nas quais os modelos recebem um conjunto de opções para escolher ou um documento que contém a resposta — são muito mais eficientes em termos de energia do que tarefas generativas que dependem dos padrões aprendidos dos dados de treinamento para produzir uma resposta do zero 3. Além disso, tarefas de sumarização e classificação de texto usam relativamente pouca energia, embora deva ser observado que quase todos os casos de uso que envolvem grandes modelos de linguagem são mais intensivos em energia do que uma pesquisa no Google (consultar um chatbot de IA uma vez usa cerca de dez vezes a energia necessária para processar uma solicitação de pesquisa na web).
Essas classificações podem ser usadas por desenvolvedores para escolher arquiteturas de modelos mais eficientes para otimizar o uso de energia. Isso já é possível, como mostrado por nossos testes ainda não publicados em modelos de tamanhos semelhantes (determinados com base no número de conexões na rede neural). Para uma tarefa específica, como geração de texto, um modelo de linguagem chamado OLMo-7B, criado pelo Allen Institute em Seattle, Washington, consumiu 43 Wh para gerar 1.000 respostas de texto, enquanto o Gemma-7B do Google e um chamado Yi-6B LLM, da empresa 01.AI, sediada em Pequim, usaram 53 Wh e 147 Wh, respectivamente.
Com uma gama de opções já existentes, classificações por estrelas baseadas em classificações como a nossa podem levar os desenvolvedores de modelos a reduzir sua pegada energética. Da nossa parte, lançaremos um site de classificação de estrelas de IA Energy Star, juntamente com uma plataforma de testes centralizada que pode ser usada para comparar e referenciar modelos conforme eles forem lançados. Os limites de energia para cada classificação por estrelas mudarão se a indústria se mover na direção certa. É por isso que pretendemos atualizar as classificações rotineiramente e oferecer aos usuários e organizações uma métrica útil, além do desempenho, para avaliar quais modelos de IA são os mais adequados.
As recomendações
Para atingir um progresso significativo, é essencial que todos os stakeholders tomem medidas proativas para garantir o crescimento sustentável da IA. As recomendações a seguir fornecem algumas orientações específicas para a variedade de players envolvidos.
Envolva os desenvolvedores. Pesquisadores e desenvolvedores de IA estão no centro da inovação neste campo. Ao considerar a sustentabilidade durante todo o ciclo de desenvolvimento e implantação, eles podem reduzir significativamente o impacto ambiental da IA desde o início. Para tornar uma prática padrão medir e compartilhar publicamente o uso de energia dos modelos (por exemplo, em um “cartão de modelo” que define informações como dados de treinamento, avaliações de desempenho e metadados), é essencial envolver os desenvolvedores.
Impulsione o mercado em direção à sustentabilidade.Empresas e desenvolvedores de produtos desempenham um papel crucial na implantação e uso comercial de tecnologias de IA. Seja criando um produto autônomo, aprimorando software existente ou adotando IA para processos comerciais internos, esses grupos geralmente são tomadores de decisão importantes na cadeia de valor de IA. Ao exigir modelos de eficiência energética e definir padrões de aquisição, eles podem impulsionar o mercado em direção a soluções sustentáveis. Por exemplo, eles podem definir expectativas básicas (como exigir que os modelos alcancem pelo menos duas estrelas de acordo com o esquema AI Energy Star) ou apoiar a legislação de IA sustentável.
Divulgue o consumo de energia. Usuários de IA estão na linha de frente, interagindo com produtos de IA em várias aplicações. Uma preferência por soluções de eficiência energética pode enviar um sinal de mercado poderoso, encorajando desenvolvedores e empresas a priorizar a sustentabilidade. Usuários podem empurrar a indústria na direção certa ao optar por modelos que divulguem publicamente o consumo de energia. Eles também podem usar produtos de IA de forma mais consciente, evitando o uso desnecessário e desperdiçável.
Fortalecer a regulamentação e a governança. Os formuladores de políticas têm autoridade para tratar a sustentabilidade como um critério obrigatório no desenvolvimento e na implantação de IA. Com exemplos recentes de legislação que pede transparência do impacto da IA na União Europeia e nosEstados Unidos, os formuladores de políticas já estão se movendo em direção a uma maior responsabilização. Isso pode ser inicialmente voluntário, mas eventualmente os governos podem regular a implantação do sistema de IA com base na eficiência dos modelos subjacentes.
Os reguladores podem adotar uma visão panorâmica, e sua contribuição será crucial para criar padrões globais. Também pode ser importante estabelecer autoridades independentes para rastrear mudanças no consumo de energia da IA ao longo do tempo.
Fazendo um balanço
Claramente, muito mais precisa ser feito para colocar um regime regulatório adequado em prática antes que a adoção em massa da IA se torne uma realidade (vejago.nature.com/4dfp1wb). O projeto AI Energy Star é um pequeno começo e pode ser refinado ainda mais. Atualmente, não contabilizamos as despesas gerais de energia gastas em armazenamento e rede de modelos, bem como o resfriamento do data center, que pode ser medido apenas com acesso direto às instalações da nuvem. Isso significa que nossos resultados representam o limite inferior do consumo geral de energia dos modelos de IA, que provavelmente dobrará 4 se a despesa geral associada for levada em consideração.
Como o uso de energia se traduz em emissões de carbono também dependerá de onde os modelos são finalmente implantados e da mistura de energia disponível naquela cidade ou vila. O maior desafio, no entanto, continuará sendo a impenetrabilidade do que está acontecendo no ecossistema de modelos proprietários. Os reguladores governamentais estão começando a exigir acesso a modelos de IA, especialmente para garantir a segurança. Maior transparência é urgentemente necessária porque os modelos proprietários são amplamente implantados em configurações voltadas para o usuário.
O mundo está agora em um ponto de inflexão fundamental. As decisões que estão sendo tomadas hoje repercutirão por décadas, à medida que a tecnologia de IA evolui junto com um clima planetário cada vez mais instável. Esperamos que o projeto Energy Star sirva como um ponto de partida valioso para enviar uma forte demanda de sustentabilidade por toda a cadeia de valor de IA.
Isenção de responsabilidade: todos os experimentos e processamento de dados foram realizados pela Hugging Face, e a Hugging Face hospeda todos os dados relacionados a esta pesquisa.
Referências
Agência Internacional de Energia. Eletricidade 2024 (IEA, 2024).
IPCC. Mudanças Climáticas 2022: Mitigação das Mudanças Climáticas. Contribuição do Grupo de Trabalho III para o Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (eds Shukla, PR et al. ) (Cambridge Univ. Press, 2023).
Luccioni, AS, Jernite, Y. & Strubell, E. em Proc. Conferência ACM 2024. Justiça, conta. Transpar. 85–99 (ACM, 2024).
Luccioni, AS, Viguier, S. & Ligozat, AR J. Machin. Aprender. Res. 24 , 253 (2023).
Pesquisadores da Universidade Federal do Acre (UFAC) têm se mantido ocupados com a demarcação de incêndios em áreas agrícolas e florestais na Amazônia, e lograram identificar uma grande concentração de casos na região sul da bacia em áreas dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia (ver imagem abaixo).
Ainda que a delimitação da parte sul da Amazônia como o principal foco de avanço da franja de desmatamento (e degradação florestal), um fato que chama a atenção é o quantidade de focos de queimadas e incêndios florestais (n=1458), com tamanhos que variam entre 0,54 ha a 7.000 ha. Além disso, na área mapeada no sul do Amazonas, a estimativa é que a área afetada por queimadas tenha atingido 168.768,81 ha, o que é sem dúvida nenhuma uma área bastante significativa.
Como a área estudada pelos pesquisadores da UFAC coincide em grande parte com a chamada BR-319 cujo asfaltamento é uma das prioridades do governo Lula, o que está sendo verificado em 2024 pode ser apenas um prenúncio pálido do que virá nos próximos anos.
A consequência disso será ampla, a começar pelo processo de emissão de gases de efeito estufa, perda de serviços ambientais e de biodiversidade. E tudo isso para alimentar a demanda de commodities agrícolas por parte, principalmente, da China e da União Europeia.
Enquanto isso, o presidente Lula e sua ministra do Meio Ambiente, a acreana Marina Silva, ficam encando vento para ver se vendem quente. O fato é que estamos diante de um desastre de grandes proporções em desenvolvimento.
Vinte e quatro amostras de cérebro coletadas no início de 2024 mediram em média cerca de 0,5% de plástico em peso
Um pedaço retangular azul de microplástico encontrado em Tacoma, Washington, em 19 de maio de 2010.Fotografia: Ted S Warren/AP
Douglas Principal para o “The Guardian”
Um crescente conjunto de evidências científicas mostra que microplásticos estão se acumulando em órgãos humanos essenciais, incluindo o cérebro, levando pesquisadores a pedir ações mais urgentes para controlar a poluição plástica.
Estudos detectaram pequenos fragmentos e partículas de plástico em pulmões humanos , placentas, órgãos reprodutivos, fígados, rins, articulações dos joelhos e cotovelos, vasos sanguíneos e medula óssea.
Dadas as descobertas da pesquisa, “agora é imperativo declarar uma emergência global” para lidar com a poluição plástica, disse Sedat Gündoğdu , que estuda microplásticos na Universidade Cukurova, na Turquia.
Os seres humanos são expostos a microplásticos — definidos como fragmentos menores que 5 mm de diâmetro — e aos produtos químicos usados para fazer plásticos devido à poluição generalizada de plástico no ar, na água e até mesmo nos alimentos.
Os riscos à saúde dos microplásticos dentro do corpo humano ainda não são bem conhecidos. Estudos recentes estão apenas começando a sugerir que eles podem aumentar o risco de várias condições, comoestresse oxidativo, que pode levar a danos celulares e inflamação, bem como doenças cardiovasculares .
Atualmente, não há padrões governamentais para partículas de plástico em alimentos ou água nos Estados Unidos. A Agência de Proteção Ambiental estátrabalhando na elaboração de diretrizespara medi-las e tem concedido subsídios desde 2018 para desenvolver novas maneiras de detectá-las e quantificá-las rapidamente.
Encontrar microplásticos em mais e mais órgãos humanos “levanta muitas preocupações”, dado o que sabemos sobre os efeitos na saúde em animais, estudos de células humanas em laboratório e estudos epidemiológicos emergentes, disse Bethanie Carney Almroth , ecotoxicologista da Universidade de Gotemburgo, na Suécia. “É assustador, eu diria.”
“Bastante alarmante”
Em um dos estudos mais recentes a surgir – um artigo pré-impresso ainda em revisão por pares e publicadoon-line pelos Institutos Nacionais de Saúde– os pesquisadores descobriram um acúmulo particularmente preocupante de microplásticos em amostras de cérebro.
Um exame dos fígados, rins e cérebros de corpos autopsiados descobriu que todos continham microplásticos, mas as 91 amostras de cérebro continham em média cerca de 10 a 20 vezes mais do que os outros órgãos. Os resultados foram um choque, de acordo com o autor principal do estudo, Matthew Campen , toxicologista e professor de ciências farmacêuticas na Universidade do Novo México.
Os pesquisadores descobriram que 24 das amostras de cérebro, coletadas no início de 2024, continham em média cerca de 0,5% de plástico em peso.
“É bem alarmante”, disse Campen. “Há muito mais plástico em nossos cérebros do que eu jamais imaginaria ou me sentiria confortável.”
O estudo descreve o cérebro como “um dos tecidos mais poluídos por plástico já amostrados”.
Partículas de microplástico na poeira atmosférica. Fotografia: Janice Brahney/Proceedings of the National Academy of Sciences
O estudo cerebral pré-impresso liderado por Campen também sugeriu uma ligação preocupante. No estudo, os pesquisadores analisaram 12 amostras de cérebro de pessoas que morreram com demência, incluindo doença de Alzheimer. Esses cérebros continham até 10 vezes mais plástico em peso do que amostras saudáveis.
“Não sei quanto mais plástico nosso cérebro pode enfiar sem causar problemas”, disse Campen.
O artigo também descobriu que a quantidade de microplásticos em amostras de cérebro de 2024 era cerca de 50% maior do que o total em amostras que datam de 2016, sugerindo que a concentração de microplásticos encontrados em cérebros humanos está aumentando em uma taxa semelhante à encontrada no ambiente. A maioria dos órgãos veio do Office of the Medical Investigator em Albuquerque, Novo México, que investiga mortes prematuras ou violentas.
“Você pode traçar uma linha – ela está aumentando ao longo do tempo. É consistente com o que você está vendo no ambiente”, disse Campen.
Muitos outros artigos encontraram microplásticos nos cérebros de outras espécies animais, então não é totalmente surpreendente que o mesmo possa ser verdade para humanos, disse Almroth, da Universidade de Gotemburgo, que não estava envolvido no artigo.
Quando se trata dessas partículas insidiosas, “a barreira hematoencefálica não é tão protetora quanto gostaríamos de pensar”, disse Almroth, referindo-se à série de membranas que impedem que muitos produtos químicos e patógenos cheguem ao sistema nervoso central.
Explosão de pesquisas
Somando-se às preocupações sobre o acúmulo no corpo humano, o Journal of Hazardous Materials publicou um estudo no mês passado que encontrou microplásticos em todas as 16 amostras de medula óssea examinadas, o primeiro artigo do tipo. Todas as amostras continham poliestireno, usado para fazer amendoins de embalagem e eletrônicos, e quase todas continham polietileno, usado em embalagens transparentes de alimentos, garrafas de detergente e outros produtos domésticos comuns.
Outroartigo recenteanalisando 45 pacientes submetidos a cirurgia de quadril ou joelho em Pequim, na China, encontrou microplásticos no revestimento membranoso de cada articulação do quadril ou joelho examinada.
Um estudo publicado em 15 de maio no periódico Toxicological Sciences encontrou microplásticos em todos os 23 testículos humanos e 47 caninos estudados, descobrindo que amostras de pessoas tinham uma concentração quase três vezes maior do que aquelas de cães. Uma quantidade maior de certos tipos de partículas de plástico – incluindo polietileno, o principal componente de garrafas plásticas de água – correlacionou-se com pesos testiculares mais baixos em cães.
‘Não há lugar intocado, do fundo do mar à atmosfera e ao cérebro humano.’ Fotografia: David Kelly/David Kelly/Universidade de Queensland
Outro artigo, publicadoem 19 de junho no International Journal of Impotence Research, detectou partículas de plástico nos pênis de quatro em cada cinco homens que receberam implantes penianos para tratar disfunção erétil.
“Os potenciais efeitos à saúde são preocupantes, especialmente considerando as consequências desconhecidas a longo prazo do acúmulo de microplásticos em tecidos sensíveis, como os órgãos reprodutivos”, disse Ranjith Ramasamy, principal autor do estudo e pesquisador médico e urologista da Universidade de Miami.
Enquanto isso, um grupo chinêspublicou um estudoem maio mostrando pequenas quantidades de microplásticos no sêmen de todos os 40 participantes. Umartigo italiano de alguns meses antes relatou resultados semelhantes.
Um punhado de estudos também encontrou contaminação em placentas humanas. Umestudo que apareceuna edição de maio da Toxicological Sciences relatou a descoberta de micro e nanoplásticos em todas as 62 amostras de placenta, embora a concentração tenha variado amplamente.
Na Itália, pesquisadores acompanharam 312 pacientes que tiveram depósitos de gordura, ou placas, removidos de suas artérias carótidas. Quase seis em cada 10 tinham microplásticos, e essas pessoas se saíram pior do que aquelas que não tinham: nos 34 meses seguintes, elas tinham 2,1 vezes mais probabilidade de sofrer um ataque cardíaco ou derrame, ou morrer.
‘Nenhum lugar deixado intocado’
A Food and Drug Administration afirmaem uma declaraçãoem seu site que “as evidências científicas atuais não demonstram que os níveis de microplásticos ou nanoplásticos detectados em alimentos representam um risco à saúde humana”.
Ainda assim, os pesquisadores dizem que os indivíduos devem tentar reduzir sua exposição evitando o uso de plástico no preparo de alimentos, especialmente no micro-ondas; bebendo água da torneira em vez de água engarrafada; e tentando evitar o acúmulo de poeira, que é contaminada com plásticos. Alguns pesquisadores aconselham comer menos carne, especialmente produtos processados.
Leonardo Trasande, pesquisador médico da Universidade de Nova York, disse que muito permanece desconhecido sobre os impactos do acúmulo de microplásticos em humanos. Os impactos negativos à saúde de produtos químicos usados em plásticos, como ftalatos, são mais bem estabelecidos, ele disse. Um estudo do qual ele foi coautor descobriu que a exposição a ftalatosaumentou o risco de doenças cardiovasculares e morte nos Estados Unidos, causando US$ 39 bilhões ou mais em perda de produtividade por ano.
Partículas de microplástico podem ser contaminadas com e transportar tais produtos químicos para o corpo. “Os micro e nanoplásticos podem ser sistemas de entrega eficazes para produtos químicos tóxicos”, disse Trasande.
O American Chemistry Council, que representa fabricantes de plástico e produtos químicos, não respondeu diretamente a perguntas sobre os estudos recentes que encontraram microplásticos em órgãos humanos. Kimberly Wise White, vice-presidente do grupo, observou que “a indústria global de plásticos se dedica a avançar a compreensão científica dos microplásticos”.
A Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente concordouhá dois anosem começar a trabalhar em prol de um tratado global para acabar com a poluição por plástico, um processo que estáem andamento .
Váriosrelatos de notícias na semana passada sugerem que o governo Biden sinalizou que a delegação dos EUA envolvida nas discussões apoiará medidas para reduzir a produção global de plásticos, o que os pesquisadores dizem ser fundamental para lidar com o problema.
“Não há nenhum lugar intocado, do fundo do mar à atmosfera e ao cérebro humano”, disse Almroth.
Esta história é co-publicada com oNew Lede , um projeto de jornalismo do Environmental Working Group.