Produção científica brasileira cai pelo segundo ano consecutivo

Queda foi de 7,2% em 2023 comparada com 2022, segundo relatório da editora Elsevier e da Agência Bori

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Segundo o documento, os investimentos públicos federais em pesquisa e desenvolvimento no Brasil vêm diminuindo desde 2013 (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

Enrico Di Gregorio | Revista Pesquisa FAPESP 

A produção científica no Brasil caiu 7,2% em 2023 comparada a 2022, ano que havia registrado a primeira queda desde 1996. As informações são do relatório da editora científica Elsevier e da Agência Bori divulgado na terça-feira (30/07). É a primeira vez que a produção científica do Brasil, quantificada em 2023 em 69.656 artigos, cai por dois anos seguidos. Outros 34 países sofreram retração no mesmo setor, um aumento de 12 nações em relação ao ano anterior. Enquanto isso, 17 países tiveram alta na produção científica e apenas a Áustria não variou. A redução em massa impactou na produção científica mundial, que concentrou o maior número de países em decréscimo desde 1997. No total, o relatório avaliou 53 países que publicaram mais de 10 mil artigos científicos entre 2022 e 2023.

O Brasil seguia uma tendência de crescimento constante até 2021, quando registrou uma queda que não ocorria desde 1996. Os primeiros sinais dessa tendência apareceram em 2020, quando o ritmo de crescimento desacelerou. “A primeira hipótese para explicar essa queda é a falta de verbas. Sem dinheiro não se faz pesquisa”, diz o cientometrista Estêvão Gamba, cientista de dados da Agência Bori. “A segunda é a pandemia: houve um boom de publicações naquele período e depois veio uma queda.”

Para Dante Cid, vice-presidente de Relações Acadêmicas da Elsevier para a América Latina, a pandemia também teve outros efeitos. “A queda em um grande número de países a partir de 2022 nos leva a considerar que a pandemia pode ter impactado a continuidade de diversos projetos de pesquisa e, portanto, a publicação de seus resultados”, afirma.

Segundo o documento, os investimentos públicos federais em pesquisa e desenvolvimento (P&D) no Brasil vêm diminuindo desde 2013. No caso das instituições estaduais, a redução orçamentária foi registrada desde 2015. Em 2023, a quantidade de dinheiro público destinada para P&D foi 76% do aplicado em 2015. O menor valor foi em 2021, quando só foram investidos 71% do valor de 2015.

O filósofo Renato Janine Ribeiro, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), concorda com o impacto dos cortes. Para ele, o financiamento é o que está por trás da retração. “A ciência precisa de investimento constante, tanto em equipamentos, laboratórios, material de consumo quanto em recursos humanos. Há instituições que carecem de centenas ou até milhares de funcionários”, comenta Janine.

Nesse cenário, o Brasil foi o 14° colocado no ranking mundial de publicações científicas. Entre 2019 e 2023, o país publicou 376.220 artigos. As únicas áreas que registraram crescimento nesse período, contudo, foram as ciências sociais, com aumento de 11,6%, e humanidades, com uma alta de 82% em artigos publicados. De 2022 para 2023, todas as ciências registraram queda na produção. A área com maior diminuição foi ciências médicas, com 10% de retração.

O relatório também avaliou o número de artigos nas instituições de ensino e pesquisa que publicaram mais de mil artigos em 2022. Ao todo, foram 31 universidades e centros de pesquisa analisados, mas somente a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) registrou crescimento de 0,3%.

Das instituições que sofreram queda, as mais afetadas foram as universidades Federal de Lavras (Ufla), em Minas Gerais, Estadual de Maringá (UEM), no Paraná, e Federal do Espírito Santo (Ufes). É uma mudança em relação ao ano anterior, quando a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) estavam no fim da lista.

Em São Paulo, as universidades de São Paulo (USP), Estadual de São Paulo (Unesp), Estadual de Campinas (Unicamp) e Federal de São Paulo (Unifesp) figuram todas na lista de queda na produção científica. O cenário chama a atenção pela maior quantidade de verbas destinadas à pesquisa no Estado, por meio da FAPESP.

Para o geneticista Marcio de Castro, diretor científico da Fundação, o impacto da pandemia nas pesquisas é inegável, mas há outros fatores. “Acho que esse decréscimo reflete um cenário maior que afeta principalmente a pós-graduação”, diz ele, que foi pró-reitor de pós-graduação na USP. Castro explica que, nos últimos anos, houve um declínio significativo na relação candidatos-vaga nos programas de mestrado e doutorado em São Paulo. “Precisamos refletir sobre outras causas dessa baixa”, sugere.

Uma das razões é um formato definido por ele como “muito rígido e tradicional” nas pós-graduações, em que os jovens cientistas são formados somente para trabalhar na academia, sem muita abertura para uma formação destinada ao serviço público, empresas, organizações não governamentais e outros meios. “Na USP, dois terços dos jovens que terminam o mestrado não seguem para o doutorado. Vão fazer outras coisas”, explica Castro.

Outros países

No ranking mundial, Taiwan e Etiópia foram os países que tiveram as maiores reduções de produção científica, logo abaixo do Brasil. Em 2022, o país tinha sido o último da lista, enquanto o penúltimo foi a Ucrânia. “São dois anos seguidos no fim da lista”, constata Gamba. “Não podemos olhar para o aumento dos países em decréscimo e achar que é normal o Brasil estar nessa posição”, alerta.

No ano passado, a Ucrânia conseguiu reverter o quadro, apesar de estar em guerra, e ficou em 10° lugar na lista dos que tiveram aumento da produção científica. A lista foi liderada pelos Emirados Árabes Unidos, Iraque e Indonésia, com incremento de 15%. Em 2022, foi encabeçada pela China, seguida por Estados Unidos e Índia – naquele ano, a Índia cresceu 19%, e superou pela primeira vez o Reino Unido na lista anual de acréscimo.

De acordo com Gamba, a subida dos novos líderes também pode ser explicada pela pandemia. Enquanto em algumas nações, como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França e Alemanha, a elevada produção científica no período pré-pandemia teve um boom no período de alta da contaminação e depois uma queda, nos países onde a produção era baixa, a elevação impulsionada pela pandemia se manteve.

Um terceiro fator são os problemas econômicos, como baixo crescimento, alta inflacionária e endividamento externo, que afetam países de todos os continentes. “Não tem como esses problemas deixarem de impactar”, diz Gamba. Apesar do cenário de recessão, as perspectivas são positivas. “Calculamos que, com o distanciamento da pandemia e a redução nos cortes, a situação deva melhorar daqui a dois ou três anos no Brasil.” Isso não significa que não haverá desafios. “Vimos mudanças no orçamento para melhor, mas a carência ainda é muito grande”, finaliza Janine.

No relatório deste ano, “2023: ano de queda na produção científica de 35 países, inclusive o Brasil”, foi utilizada a ferramenta analítica Scival, da Elsevier, para coletar dados da base Scopus, que guarda informações de mais de 85 milhões de publicações editadas por mais de 7 mil editoras científicas no mundo.


Fonte: Agência Fapesp
 

Pescadores artesanais usam aplicativo para monitorar Baía de Guanabara

Tecnologia vai facilitar denúncias de vazamento de petróleo e gás

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O aplicativo faz o mapeamento de onde estão os pescadores artesanais da Baía de Guanabara e onde estão ocorrendo violações socioambientais. | Imagem: Reprodução

Por Redação Ciclo Vivo

A tecnologia vai ajudar pescadores artesanais a proteger a Baía da Guanabara, símbolo do Rio de Janeiro e fonte de subsistência para milhares de famílias. Por meio do aplicativo “De Olho na Guanabara”, pescadores de toda a baía terão, ao alcance das mãos, uma forma de denunciar irregularidades ambientais ligadas, sobretudo, à indústria de petróleo e gás na região.

O aplicativo, desenvolvido pela 350.org e pela Associação dos Homens e Mulheres do Mar da Baía de Guanabara (Rede Ahomar), foi lançado na última sexta-feira (26), em um evento na Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro, com a presença de lideranças das comunidades pesqueiras e representantes dos governos municipal e estadual e do Ministério Público.

Baía de Guanabara
A Baía de Guanabara é um dos cartões postais do Rio de Janeiro e um ecossistema ameaçado pela poluição. Foto: Lucas Campoi na Unsplash

Dezenas de derrames e irregularidades ambientais ligadas à produção e ao transporte de combustíveis fósseis foram registrados na baía nos últimos anos, de maneira dispersa, pelos pescadores artesanais que circulam pelo local. No entanto, a maioria sequer foi investigada, por questões como a dificuldade em precisar o ponto do vazamento e a ausência de um canal que reúna os vários órgãos que precisam ser informados das ocorrências.

A ideia é que, pelo celular, os pescadores, moradores e ambientalistas tenham uma ferramenta de registro e denúncia dos frequentes impactos ambientais na Baía da Guanabara provocados pelo setor de petróleo e gás na região. Será possível compartilhar com as autoridades competentes fotos e vídeos dos vazamentos, bem como identificar por georreferenciamento o local exato dos derrames e em tempo real.

A denúncia, após verificação da coordenadoria da Rede Ahomar, ficará registrada no mapa e em um passo seguinte, será encaminhada para os órgãos de fiscalização oficiais do governo brasileiro (IBAMA, ICMbio, Marinha, entre outros).

Como denunciar

Desde o lançamento do aplicativo em prol da proteção e preservação da Baía de Guanabara, algumas denúncias já foram aprovadas e podem ser vistas neste mapa – destacadas em laranja. Isso porque cada ponto publicado foi verificado antes de se tornar público.

aplicativo Baía de Guanabara
Imagem: Reprodução

Para aproveitar ao máximo a ferramenta, os pescadores estão recebendo treinamento e acompanhamento do uso do aplicativo pela Rede Ahomar. Para registrar as denúncias, é preciso ser membro das associações de pescadores artesanais da região, se inscrever no site e receber uma senha de acesso. É uma forma de garantir a credibilidade dos registros. Outro ponto importante é que os dados dos denunciantes são protegidos, de forma a impedir que sofram represálias.

Veja como saber mais sobre o projeto De Olho na Guanabara, acompanhar as denúncias e ajudar a propagar as irregularidades, de forma a preservar este importante patrimônio natural. 


Fonte: Ciclo Vivo

Temperaturas na Antártica sobem 10°C acima da média em onda de calor

As temperaturas relatadas no continente no meio do inverno chegam a 28 °C acima das expectativas em alguns dias de julho

degelo polo sulCientistas do clima dizem que os recentes aumentos de temperatura na Antártica confirmam o que os modelos preveem. Fotografia: Anadolu/Getty Images

Por Damien Gayle e Dharna Noor para o “The Guardian”

As temperaturas do solo em grandes áreas das camadas de gelo da Antártica subiram em média 10 °C acima do normal no mês passado, no que foi descrito como uma onda de calor quase recorde.

Enquanto as temperaturas permanecem abaixo de zero na massa terrestre polar, que fica envolta em escuridão nesta época do ano, nas profundezas do inverno do hemisfério sul, as temperaturas atingiram 28°C acima do esperado em alguns dias.

O globo vivenciou 12 meses de calor recorde, com temperaturas excedendo consistentemente o aumento de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, que tem sido apontado como o limite para evitar o pior do colapso climático.

Michael Dukes, diretor de previsão do MetDesk, disse que, embora as altas temperaturas diárias individuais tenham sido surpreendentes, muito mais significativo foi o aumento médio ao longo do mês.

Os modelos dos cientistas do clima há muito preveem que os efeitos mais significativos das mudanças climáticas antropogênicas ocorreriam nas regiões polares, “e este é um ótimo exemplo disso”, disse ele.

“Normalmente, você não pode olhar apenas para um mês para uma tendência climática, mas está bem alinhado com o que os modelos preveem”, Dukes acrescentou. “Na Antártica, geralmente, esse tipo de aquecimento no inverno e continuando nos meses de verão pode levar ao colapso das camadas de gelo.”

Um mapa fornecido mostra dados provisórios de calor sobre a Antártida em julho. Muitas partes do continente estavam 5-10 °C acima da média climática de 1991-2020

Um mapa fornecido mostra dados provisórios de calor sobre a Antártica em julho. Muitas partes do continente estavam 5-10C acima da média climática de 1991-2020. Fotografia: metdesk

“A Antártica como um todo aqueceu junto com o mundo nos últimos 50 anos, e para esse assunto 150 anos, então qualquer onda de calor está começando dessa linha de base elevada”, ele disse. “Mas é seguro dizer que a maioria do pico no último mês foi impulsionada pela onda de calor.”

A onda de calor é a segunda a atingir a região nos últimos dois anos, com a última, em março de 2022, levando a um pico de 39 °C e causando o colapso de uma parte da camada de gelo do tamanho de Roma.

O aumento das temperaturas na Antártica em julho ocorreu após um El Niño particularmente forte, o fenômeno climático que leva ao aquecimento em todo o mundo, e provavelmente também foi um efeito retardado disso, em combinação com o aumento geral nas temperaturas causado pelo colapso climático, disse Dukes.

Cientistas disseram que a causa próxima da onda de calor foi um vórtice polar enfraquecido, uma faixa de ar frio e baixa pressão que gira na estratosfera ao redor de cada polo. A interferência de ondas atmosféricas enfraqueceu o vórtice e levou ao aumento das temperaturas em altitudes elevadas este ano, disse Amy Butler, cientista atmosférica da National Oceanic and Atmospheric Administration, ao Washington Post .

Jamin Greenbaum, geofísico da Instituição Scripps de Oceanografia da Universidade da Califórnia em San Diego, disse que estava “certamente preocupado com o que o futuro reserva para esta região nos próximos anos”.

“A maioria das minhas expedições de campo foram para a Antártica Oriental, onde vi um derretimento crescente ao longo dos anos”, ele disse. “Embora eu esteja, é claro, alarmado ao ver esses relatos do vórtice polar enfraquecido causando a tremenda onda de calor lá, também não estou surpreso, considerando que isso é, infelizmente, um resultado esperado da mudança climática.”

Jonathan Overpeck, um cientista climático da Escola de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Universidade de Michigan, disse no X que a onda de calor foi um “sinal revelador de que as mudanças climáticas estão realmente começando a transformar o planeta”.

Edward Blanchard, um cientista atmosférico da Universidade de Washington, disse ao Post que foi um evento quase recorde. “É provável que ter menos gelo marinho e um Oceano Antártico mais quente ao redor do continente antártico ‘carregue os dados’ para um clima de inverno mais quente sobre a Antártica”, disse Blanchard.

“Desta perspectiva, pode ser um pouco ‘menos surpreendente’ ver grandes ondas de calor na Antártida este ano, em comparação com um ano ‘normal’ com condições médias de gelo marinho.”

Jonathan Wille, pesquisador que estuda ciências climáticas na ETH Zürich, uma universidade pública de pesquisa em Zurique, Suíça, disse que a onda de calor foi atribuída a um “evento de aquecimento estratosférico do sul” com duração de semanas na região.

“Eles são realmente raros na Antártica, então não estava muito claro como isso afetaria as condições de superfície no continente”, ele disse. “Tem sido interessante ver quão disseminados os efeitos têm sido.”

Embora ele tenha dito que “parece haver ondas de calor cada vez mais frequentes no continente”, ele disse que ainda não estava claro o quanto a crise climática foi um fator na criação deste evento em particular.

“Teremos que esperar pelos estudos de atribuição para descobrir”, ele disse. “É um cenário de ‘esperar para ver.” 


Fonte: The Guardian

MPRJ reúne-se com dirigentes da Uenf para tratar das investigações sobre supostas ingerência e manipulação no programa de bolsas em curso de Pós-Graduação

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Por ASCOM MPRJ 

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), por meio da 1ª Promotoria de Tutela Coletiva do Núcleo Campos dos Goytacazes, com a presença da titular Olívia Venâncio Rebouças, participou, na quarta-feira (31/07), de reunião com a reitora da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Rosana Rodrigues, o vice-reitor, Fábio Lopes Olivares, e o advogado Humberto Nobre, assessor jurídico da instituição de ensino superior. O objetivo da reunião foi o de apurar a notícia de ingerência e a manipulação, pelo professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem da Uenf quanto aos critérios para concessão e manutenção de bolsas..

Foi explicitado aos participantes que o Ministério Público, para efetivar uma investigação exitosa, precisa da colaboração da reitoria, até mesmo pelo dever administrativo de coibir atos ilegais praticados no âmbito da instituição. Os representantes da universidade demonstraram a intenção de colaborar com as investigações. Ao final da reunião, o MPRJ recomendou que a Reitoria proceda à análise, sob a sua autonomia universitária e diante dos documentos apresentados, acerca da pertinência de afastamento do investigado das funções de coordenação e chefia durante as investigações.

Foi recomendado ainda que a Uenf elabore documento contendo a listagem dos integrantes e Coordenadores da Comissão Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem; o elenco compilado dos requisitos de concessão de bolsas; a declaração de cumprimento dos termos da Resolução COLAC nº 34/2024 e demais normas de regência impostas pelas agências de fomento; a declaração de ausência de parentesco, afinidade ou amizade íntima com membros da Comissão sob investigação, convocando todos os bolsistas do Programa a assinarem tal documento em até 30 dias corridos a partir do ato convocatório; que, igualmente, sejam os membros da Comissão sob investigação convocados a firmar documento atestando absoluta isenção quanto aos bolsistas contemplados sob suas gestões, em qualquer Programa de Pós-Graduação da Uenf, notadamente se participaram da etapa (classificatória e eliminatória) de entrevista, dado o seu inerente subjetivismo.

Também foi recomendado à Reitoria que, no exercício de sua autonomia, afaste os membros das Comissões Coordenadoras dos Programas de Pós-Graduação da Uenf que apresentem incompatibilidades com o desempenho de tais funções, a exemplo de parentesco ou afinidade com bolsistas; abuso de poder; conduta incompatível com a esperada de um servidor público; falta de urbanidade no trato profissional (ainda que em redes sociais) e desprovimento de lisura na administração de recursos públicos. A Reitoria da Uenf tem o prazo de dez dias para se manifestar quanto às recomendações feitas. As investigações tramitam sob o número ICP 030/24 – MPRJ 2024.00550138 e denúncias podem ser endereçadas ao email protptcocgo@mprj.mp.br.


Fonte: MPRJ

Marina Silva lembra da Venezuela, mas esquece do seu próprio ministério

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Marina da Silva: com força para criticar eleições alheias e fraca demais para mudar o rumo do descalabro ambiental na Amazônia

A ministra do Meio Ambiente Marina Silva foi mais uma das vozes a se somar ao coro dos descontentes com o nível democrático das eleições da Venezuela. O curioso é que Marina Silva não tenha o mesmo nível de desenvoltura para cuidar das condições de trabalho dos agentes do IBAMA e do ICMBio que continuam atuando em condições péssimas, com salários defesados e planos de cargos ultrapassados.

A verdade é que Marina Silva se omite diariamente na luta pelas condições laborais daqueles que estão na linha de frente do combate contra o desmatamento e o garimpo ilegais na Amazônia, sem que esboce um mínimo de crítica ao tratamento que é dispensados aos servidores que estão na prática sob sua responsabilidade.

Sumida”, Marina Silva vira motivo de chacota na web

Aliás, não é preciso dizer que neste exato momento o Brasil passa por uma crise ambiental sem precedentes em função da ocorrência de milhares de focos de incêndio que castigam principalmente o Pantanal e a Amazônia, sem que se ouça qualquer manifestação que se aproxime ao nível de preocupação demonstrado com as eleições venezuelanas.

O fato inescapável é que a Marina Silva de hoje é uma sombra pálida daquela que entrou e saiu intacta durante o segundo governo Lula.  É que a Marina de ontem já teria saído do atual governo, mas a atual não só fica, como tem tempo para dar opinião sobre situações cuja clareza é igual a dos rios tomados pelos garimpos ilegais na Amazônia.

Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura

agua mole

Por Douglas Barreto da Mata

Podemos acusar a empresa concessionária de fornecimento de água e tratamento de esgoto de Campos dos Goytacazes de muitas coisas, menos de falta de engenhosidade para driblar qualquer subordinação às normas e regulamentos do contrato a qual está vinculada, junto com a municipalidade.  Aliás, se usassem 5% dessa engenhosidade e energia para melhorarem os seus processos administrativos, para cumprimento de suas obrigações, Campos dos Goytacazes estaria no paraíso.

A estratégia dos grupos concessionários, sem exceção, no Brasil e no resto do mundo, e em qualquer atividade econômica, seja conservação de estradas, gestão de rodoviárias, aeroportos, portos, ou, neste caso, seja de águas  esgoto é sempre a mesma.Ignoraram o poder concedente.

Veja o caso da concessão estadual de trens urbanos no Rio. Literalmente  derrubam esgoto in natura na cabeça do poder concedente, e estão na iminência de entregar a concessão de volta, sem os investimentos prometidos.  Cobram tarifas, e pronto, agora, depois de comida a carne, entregam os ossos para o Governo do Estado.

A concessão da BR 101 também não é lá muito diferente, e vez por outra tenta escapar às suas obrigações contratuais, quando ameaça devolver a concessão.

Estes grupos econômicos agem como se fossem donos dos serviços concedidos, e ao mesmo tempo, subtraem as atribuições dos entes legislativos, e subvertem as regras, subordinando-as aos seus interesses negociais. Vencem pelo cansaço, daí o título desse texto.

Prestação de contas da empresa do grupo Águas? Ninguém sabe, ninguém viu?

Outro caso famoso na cidade campista foi o rompimento do dique na Av XV de Novembro. Com a velocidade da luz, construíram a narrativa de que foi a força do leito do rio que levou a contenção.

Aqui, uma outra face dessa estratégia:  O controle da narrativa, facilitado por relações incestuosas com grupos de mídia locais.Como água mole em pedra dura, a mentira repetida também “fura” a pedra da verdade.

O fato é que, depois da apresentação da “certeza” de que foi a cheia do rio a causa do incidente, ninguém mais questionou se poderia ter sido o rompimento da adutora, que passava bem no local.

Nesses últimos dias, a crise hídrica se apresentou, e houve fundada suspeita sobre a qualidade da água fornecida.

A empresa, antes de todos, sem qualquer base científica, correu e desmentiu qualquer possibilidade de contaminação, antes mesmo de que fosse comprovada ou afastada essa circunstância.  Depois disse que poderia ser, depois desdisse, e assim, ficou tudo por isso mesmo.

Por último, a “do carvão ativado”.  Eu não sou engenheiro, nem especialista no assunto, mas me pareceu que aquela mancha de carvão exaurida dos tanques de filtragem deixa algumas dúvidas:

– Se houve aumento do uso do insumo na filtragem, algo errado havia, ou não?

Eu dei uma rápida olhada no pai digital dos burros, o Google, e olhem o que achei:  o carbono é um material extremamente poroso que atrai e retém uma grande variedade de contaminantes prejudiciais à saúde. O carvão ativado consiste em uma esponja porosa sólida e preta. É usado em filtros de água, medicamentos que removem seletivamente toxinas e processos de purificação química.

Uai, se estava tudo certo, sem toxinas, por que colocar carvão ativado até ter que exaurir e jogar o excesso no Rio Paraíba do Sul?  E mais, que coincidência fazer isso quando negavam que havia toxinas, não é?

Enfim, como confiar em uma empresa que não tem transparência para apresentar suas contas aos consumidores e aos órgãos fiscalizadores do contrato? Como acreditar em quem esconde os números que integram o cálculo da tarifa, quando eles nos dizem que a água é boa?

Dizem os antigos, quem faz um cesto, faz cem.

Relatos de uma breve viagem de 1.000 km ou mais por Minas Gerais

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No Museu Casa de Guimarães Rosa em Cordisburgo, o escritor que amava cachorros e gatos

Em 14 dias de um misto de recesso e férias na Uenf, tive a oportunidade de viajar por mais de 1.000 km apenas dentro do estado de Minas Gerais, em um trajeto que começou em Lima Duarte, passou por Cordisburgo, Felício dos Santos, Diamantina e Serro. Como geógrafo, afora destacar o desafio que é dirigir nas estradas de Minas Gerais, só posso dizer que quem nunca fez uma viagem desse tipo não tem ideia do que está perdendo (ver imagens abaixo).

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A trajetória que eu cumpri é muito legal porque ao longo do caminho sempre pode se deparar com uma paisagem deslumbrante  que se mistura com um mosaico de vegetações (da Mata Atlântica ao Cerrado), distintas formas de relevo, e uma rica cultura que aparece em uma culinária tão saborosa quanto diversa, e, principalmente, no encontro com pessoas que mostram bem porque Minas Gerais pode ser inesquecível.

É verdade que como um turista interno também pude observar os efeitos da seleção de determinados lugares como pontos de atração turística, o que tende a deslocar os segmentos mais pobres de seus locais tradicionais, e a transformação dos lugares em pontos de espetáculo com o consequente aumento do custo de vida.

Mas essa também foi uma viagem para aprender que existe muita resistência cultural e valorização do conhecimento genuinamente brasileiro, o que ficou evidente nas visitas que fiz ao Museu Casa de Guimarães Rosa em Cordisburgo e ao Museu Casa da Chica da Silva em Diamantina. Nos dois locais foi possível não apenas visualizar a história, mas conversar com jovens e idosos sedentos para compartilhar conhecimentos que iam além da versão pasteurizada que nos é entregue sobre esses dois personagens históricos.

Essa também foi uma viagem para rever amigos de outras viagens e lamentar não se ter tempo para poder usufruir mais tempo da acolhida e da hospitalidade generosa com quem aparece de tempos em tempos para bater um papo apressado.

Obviamente falar de uma viagem por um trecho de Minas Gerais é falar sobre uma culinária que é muito mais diversa do que nos acostumamos com os restaurantes de comida que se diz mineira.  Os sabores distintos servem para mostrar uma riqueza que fica cada vez menos evidente sob o peso de uma cultura pasteurizada para atender as demandas do capitalismo global.  O que dizer de um torresmo feito na hora ou de um pastel de angu com seus diferentes recheios?  Não foi à toa que na maioria dos dias dessa viagem nem percebi a presença de uma rede multinacional de comida ultraprocessada, nem sem senti falta para falar a verdade.

Finalmente, depois disso tudo, apenas uma certeza: voltar pelos mesmos caminhos, ou pelo menos parte deles, é algo para futuras viagens, pois ainda há muito o que se ver, conversas para retomar, e aromas e sabores para apreciar.

Os escritórios que investigam violência sexual nas universidades dos EUA operam a portas fechadas. Uma pesquisadora entrou dentro deles

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Por Alex Walters para o “The Chronicle of Higher Education” 

Há muito debate público sobre o Título IX , mas os escritórios do campus que investigam reclamações sob a lei tendem a trabalhar a portas fechadas. Um livro que será lançado em breve pretende abri-los.

Para On the Wrong Side: How Universities Protect Perpetrators and Betray Survivors of Sexual Violence (University of California Press), Nicole Bedera recebeu um nível incomum de acesso aos procedimentos do Título IX em uma grande universidade pública, que ela não nomeia. Bedera participou de reuniões, leu arquivos de casos e entrevistou os alunos e funcionários que relataram agressão sexual, aqueles que enfrentaram acusações e administradores encarregados de lidar com os casos.

Muitos dos reclamantes que Bedera apresenta não buscaram as investigações incrivelmente onerosas que ela detalha. Eles queriam acomodações para aulas ou moradia, mas acabaram em procedimentos complexos que foram projetados para proteger a instituição e tendiam a produzir resultados favoráveis ​​ao acusado, argumenta Bedera.

Isso é prejudicial para estudantes que se apresentam sobre violência sexual e esperam que suas faculdades tomem medidas, disse Bedera ao The Chronicle . Alguns estudantes vivenciam “traição institucional”, um termo sociológico que descreve como a falta de apoio de uma instituição viola a confiança. Estudantes que dizem ter sofrido traição institucional, escreve Bedera, “relatam sintomas traumáticos semelhantes aos das vítimas que foram estupradas duas vezes”.

As conclusões sombrias do livro são temperadas com uma apresentação esperançosa das reformas propostas. “A violência sexual no campus é um problema social persistente — mas não porque seja impossível de resolver”, escreve Bedera. Por exemplo, ela disse, as faculdades podem dar aos alunos que relatam agressão sexual mais agência em como as investigações do campus avançam. Embora seja um livro acadêmico, ela acredita que é acessível a administradores e alunos que passam por processos do Título IX.

Bedera conduziu o estudo para sua dissertação na Universidade de Michigan em Ann Arbor, onde obteve um Ph.D. em sociologia. O livro será lançado em outubro. Ela falou com o The Chronicle sobre sua experiência inserida em um escritório do Título IX, equívocos sobre violência sexual no campus e o papel dos professores em apoiar alunos que sofrem danos. A conversa foi editada para maior clareza e extensão.

Os casos que você analisa neste livro são diferentes dos cenários estereotipados — você chama isso de “estupro em festa” — que as pessoas imaginam quando ouvem sobre o Título IX e a violência sexual no campus. Quais são alguns equívocos que você gostaria de corrigir sobre essas questões?

Essa narrativa de estupro em festa universitária tem um bode expiatório muito conveniente com essa ideia de que, “Se você escolher beber, isso é o que pode acontecer com você.” Muitos de nós que passamos tempo em campi conversando com administradores de faculdades sobre violência sexual sabemos que a conversa rapidamente se transforma em, “Se ao menos pudéssemos fazer essas crianças beberem menos.” E isso realmente ignora a raiz do problema, que não é o álcool, mas a desigualdade, o sexismo e a misoginia.

Mas, de forma mais ampla, o Título IX não é apenas sobre violência. Uma das coisas que me surpreendeu foi o quanto do trabalho diário do escritório é sobre outras formas de discriminação sexual. Coisas como tratamento diferenciado entre homens e mulheres em cenários específicos, e apenas o tipo de assédio sexual comum. Acho que tanto foco nessa história sobre estupro em um cenário de festa faz com que todo o resto pareça não ser tão ruim, pelo menos como os administradores viam. Porque se eles pudessem estar respondendo a estupro ou violência de parceiro com risco de vida, qualquer outra coisa nesse continuum de dano parecia indigna de intervenção escolar para alguns.

Muitos dos casos no livro são focados em estudantes de pós-graduação e pesquisadores no local de trabalho. Como essas dinâmicas são diferentes de estudantes de graduação?

Ao entrevistar alunos de pós-graduação para este projeto, o grau em que a violência e a facilitação da violência pelo corpo docente foram aceitas realmente me impressionou. Poderia parecer que não havia nada que pudesse ser feito, que se você se apresentasse, poderia perder seu financiamento, ou seu laboratório, ou acesso a toda a educação que você está aqui para obter. Então, a realidade é que a violência que está afetando os alunos de pós-graduação é muito mais difícil de responder com o sistema do Título IX.

Na verdade, há pesquisas da última década ou mais que dizem que estudantes de pós-graduação podem estar em maior risco de violência sexual do que estudantes de graduação. Uma das coisas alarmantes dessa pesquisa é que os perpetradores geralmente são docentes, e isso é realmente difícil para as universidades confrontarem.

Você também argumenta que muitos dos casos no livro levantam questões interseccionais que vão além da discriminação de gênero. Isso é algo em que as pessoas deveriam pensar?

Quando falamos sobre violência sexual, violência sexual no campus em particular, há uma centralização em mulheres brancas e heterossexuais. Mas elas são, na verdade, a minoria das vítimas. [O pseudônimo] Western University é uma instituição predominantemente branca, mas o número de sobreviventes no meu estudo que são mulheres brancas heterossexuais é inferior a 20%.

Muito do que nos permite dormir à noite depois que a violência sexual acontece, e então nada acontece, é essa intersecção com racismo, homofobia e capacitismo. Essas instituições como um todo valorizam menos os alunos que foram vítimas, não apenas em seu gênero, mas em suas identidades como um todo.

Por que você acha que as pessoas não ouvem muito sobre o espectro mais amplo de casos do Título IX e quem está envolvido?

Quando os sobreviventes perderam a confiança na capacidade de suas instituições de ajudá-los, eles perderam a confiança em muitas instituições sociais. A maioria dos sobreviventes que entrevistei nunca tentou entrar com um processo ou ir à imprensa. Eles nem sonhariam com isso porque era difícil confiar em outras instituições.

Também há barreiras reais para se apresentar, e é aí que entra a questão da interseccionalidade. A ideia de que há alguém com uma agenda e recursos que pode conseguir um advogado ou encontrar um bom jornalista não se encaixava muito bem quando a vítima era uma mãe solteira de 35 anos que estava realmente focada em levar os filhos à escola.

Estabelecemos que o livro é uma leitura um tanto sombria, mas fiquei impressionado com a forma como cada seção termina com muita esperança. Você acha que um leitor é muito otimista ou ingênuo se terminar este livro sentindo que os desafios que cercam as respostas das faculdades à agressão sexual são solucionáveis?

Não. Quando eu saía do campo e estava falando sobre algumas descobertas, as pessoas me perguntavam: ‘Você está tão deprimida? Você sente que é impossível seguir em frente?’ Mas eu sentia o oposto.

O que me causa angústia é que as soluções são conhecidas. Sabemos o que temos que fazer para acabar com a violência de gênero. Até certo ponto, até mesmo as políticas que as escolas têm seriam um grande passo se elas realmente as seguissem. O problema é que não houve disposição para fazê-lo.

As soluções sobre as quais você fala no livro podem ser promulgadas em um campus individual se ele tiver a liderança certa? Ou é um problema político para legislaturas estaduais e regras federais?

É mais uma questão política do que para os campi. As universidades têm um interesse real em manter seu poder sobre o crime no campus, então seria ingênuo esperar que elas liderassem a mudança. Por exemplo, é benéfico para uma universidade poder decidir os resultados de um caso de má conduta sexual contra o professor mais prestigiado que traz muito dinheiro de bolsa e atenção para a escola.

O período estudado no livro coincide com as regras do Título IX da era Trump. Agora temos novas regulamentações da administração Biden. À medida que a eleição se aproxima, o que você está observando?

Independentemente do resultado da eleição, acho que precisa haver um esforço real para restaurar muitos dos direitos que Trump tirou dos sobreviventes. O governo Biden não foi longe o suficiente para restaurar esses direitos.

Uma coisa que me surpreendeu, ao falar sobre este livro e trabalhar neste projeto, é quantos sobreviventes ainda estão pensando sobre o que aconteceu com eles nos campi universitários. Este tipo de trauma, traição institucional, deixa uma marca para toda a vida da mesma forma que a violência em si deixa uma marca para toda a vida. Então, acho que há muito interesse em mudar as coisas e pode haver muita vontade política aí.

Há mais alguma coisa que você acha importante e que não mencionamos?

Sim. O que eu gostaria que os professores fizessem para melhorar as coisas para seus alunos?

Professores são meio que personagens secundários no livro. Não entrevistei nenhum, a menos que fossem parte de um caso. Dito isso, os sobreviventes que entrevistei falaram muito sobre professores. Eles controlavam muito de suas vidas.

Há uma suposição de que o corpo docente deve ser capaz de lidar com suas salas de aula como quiser, e isso é promissor e perigoso. É perigoso porque alguns estavam dificultando muito as coisas para as vítimas, denunciantes e testemunhas. Mas é promissor porque, com tão pouca supervisão, o corpo docente que quer fazer o certo pelos sobreviventes pode, com certeza.

Seria muito útil para os professores pensarem em oferecer não apenas uma acomodação padrão, mas ter uma discussão real sobre o que realmente será mais útil para a educação do aluno.


Fonte: The Chronicle of Higher Education

Monocultura devastadora: as consequências ecológicas do boom da soja na América Latina

197887Soja a perder de vista (colheita em plantação no Rio Grande do Sul, abril de 2024).

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt”

Dificilmente qualquer outra cultura mudou tanto o sul da América Latina nos últimos 40 anos como a soja. O seu cultivo em grande escala para exportação transformou paisagens ricas em espécies em estepes agrícolas desertas, salpicadas de silos de armazenamento de aço que se elevavam ao céu, as novas catedrais do norte do Brasil ao norte da Argentina.

Na década de 1950, os campos de soja ainda eram uma raridade na América do Sul. Hoje eles se espalham por 1,2 milhão de hectares no Uruguai e 1,6 milhão de hectares na Bolívia. No Paraguai são 3,6 milhões de hectares, na Argentina 15,5 milhões e no Brasil gigantescos 46 milhões de hectares. Nem mesmo a Amazônia foi poupada do boom da soja. O feijão asiático cobre hoje uma área de mais de quatro milhões de hectares na Amazônia brasileira e boliviana.

Desmatamento e agrotóxicos

O impacto ambiental mais visível do cultivo da soja é a perda de biodiversidade através do desmatamento direto e da conversão de terras. Isto afeta os ecossistemas florestais da América do Sul: Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Chaco, Chiquitânia, Pantanal, Caatinga e Pampas. De acordo com um estudo da Universidade de Maryland publicado em 2021, a perda florestal devido à conversão direta de terras para soja totalizou 3,4 milhões de hectares entre 2001 e 2016.

Ainda maior, mas mais difícil de quantificar, é a desflorestação indireta desencadeada pelo boom da soja. Apenas alguns produtores de soja limpam eles próprios a floresta. Em vez disso, compram ou assumem terras que já foram desmatadas a pequenos agricultores ou criadores de gado, que depois se deslocam e desmatam novas áreas. Grandes áreas do Cerrado eram anteriormente utilizadas para a pecuária extensiva, o que traz consequências menos danosas ao ecossistema do que o cultivo da soja, que é realizado com maquinário pesado e alto uso de agrotóxicos e fertilizantes.

O desmatamento também ocorre para a necessária expansão da infraestrutura. “A soja é ainda mais prejudicial do que outras monoculturas porque justifica projetos massivos de infraestrutura de transporte que desencadeiam uma cadeia de eventos que levam à destruição da natureza em vastas áreas, além das terras diretamente dedicadas ao cultivo da soja”, escreve o cientista Philip M. Fearnside. do Instituto de Pesquisas Amazônicos (INPA) em um estudo publicado em 2001 sobre as consequências da expansão da soja. O agronegócio necessita desta infra-estrutura para processar e transportar a colheita, bem como para fornecer pesticidas e fertilizantes artificiais. “Outros usos da terra, como a pecuária extensiva, também ocupam grandes áreas”, explica o pesquisador amazônico, “mas não têm peso político para incentivar o governo a construir hidrovias, linhas ferroviárias e uma ampla rede de estradas terrestres financiadas com recursos públicos. trazer dinheiro.”

Outras consequências ambientais incluem a erosão do solo, alterações no equilíbrio natural da água e uma redução de insectos, organismos que vivem no solo, peixes e crustáceos devido aos pesticidas utilizados, que são frequentemente prejudiciais para a fauna terrestre e para os seres humanos.

Os produtores de soja no Brasil aplicam em média 6,5 ​​quilogramas de  agrotóxicos por hectare, geralmente de avião: 69% deles são herbicidas, 16% inseticidas e 15% fungicidas. No entanto, o impacto ambiental desta carga tóxica ainda é em grande parte desconhecido, de acordo com o estudo de 2020 “A Pegada Tóxica da soja brasileira” da Universidade Chalmers da Suécia.

A soja não-OGM, que representa cerca de 10% da área plantada, recebeu tratamentos com vários herbicidas tóxicos diferentes, enquanto os campos de feijão geneticamente modificado receberam o controverso herbicida total glifosato. Quase todos os inseticidas pulverizados são tóxicos para as abelhas e organismos aquáticos. De acordo com o estudo sueco, a utilização de malatião, que é particularmente prejudicial para os organismos de água doce, aumentou significativamente durante o período de estudo de 2009 a 2018. Os fungicidas também são tóxicos para a fauna aquática. Além disso, podem resultar em mutações genéticas e danos aos fetos. Os pesquisadores já encontraram altas concentrações de toxinas agrícolas, especialmente glifosato, no sangue de animais selvagens e de pessoas na principal área de cultivo de soja, o Cerrado, no planalto central do Brasil.

Escassez aguda de água

Como esta região é a fonte mais importante do Brasil, os sistemas fluviais que ela alimenta, e em particular o Pantanal, também são afetados. Com as chuvas sazonais, a carga de  agrotóxicos e sedimentos provenientes das monoculturas atinge a maior planície aluvial tropical do mundo, cujas consequências ainda não foram estudadas.

Desde o início deste ano, o Pantanal está em chamas como nunca antes. Estes são os piores incêndios da história desta zona húmida rica em espécies. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) contou mais de 4.000 focos de incêndio de janeiro até o final de julho deste ano. A maioria dos incêndios são iniciados por seres humanos para obter pastagens ou terras agrícolas ou simplesmente para queimar lixo. Mas no Pantanal há uma escassez crescente de água a cada ano, razão pela qual os incêndios estão se espalhando mais amplamente e ficando fora de controle com mais frequência. O “mar da soja” também é parcialmente responsável por isto – e não apenas pelas alterações climáticas.

A erosão do solo causada pelas monoculturas assoreia os afluentes e o Pantanal. Os rios ficam mais rasos e mudam o ciclo da água, o nível da água cai. Segundo dados da rede científica Mapbiomas, em 1985 o Pantanal registrava uma superfície hídrica de 1,9 milhão de hectares há pelo menos seis meses. Em 2023 eram apenas 382 mil hectares. Um declínio de mais de 80 por cento. Durante um período semelhante, o estado do Rio Grande do Sul perdeu aproximadamente 3,5 milhões de hectares de vegetação natural, enquanto o cultivo de soja aumentou de 1,3 milhão de hectares para 6,3 milhões durante este período.


Fonte: JungeWelt 

O lobby mortal da indústria de agrotóxicos

Um novo estudo descobriu que a quantidade de agrotóxicos utilizada em propriedades rurais estava fortemente associada à incidência de câncer. Isso vem logo após um forte lobby da indústria de pesticidas para limitar sua responsabilidade nos processos judiciais relacionados aos impactos na saúde de seus produtos

danger pesticides

Um aviso colocado na borda de um campo de aipo para indicar que o campo não era seguro para entrada pouco depois da aplicação de pesticidas no Vale de Salinas, Califórnia, no dia 7 de julho de 2023. (Jack Clark / Design Pics Editorial / Universal Images Group via Getty Images)

Por Lois Parshley, Tradução Sofia Schurig, para a “Jacobina” 

Um novo estudo descobriu que a quantidade de agrotóxicos utilizada nas fazendas estava fortemente associada à incidência de muitos tipos de câncer — não apenas para os agricultores e suas famílias, mas para comunidades inteiras. Isso vem logo após lobby significativo da indústria de agrotóxicos na primavera para limitar sua responsabilidade por processos judiciais relacionados aos impactos na saúde de seus produtos.

A análise recém-lançada mostrou que “os agrotóxicos agrícolas podem aumentar seu risco para alguns tipos de câncer tanto quanto o tabagismo”, diz o coautor Isain Zapata, professor associado de pesquisa e estatísticas na Rocky Vista University, no Colorado. Por exemplo, viver em lugares com alto uso de pesticidas aumentou o risco de câncer de cólon e pâncreas em mais de 80%, resultados que surpreenderam até mesmo os pesquisadores.

“Na minha opinião, isso é loucura”, disse Zapata, acrescentando que eles não esperavam encontrar uma associação tão significativa.

A ideia para a pesquisa surgiu de um dos alunos de Zapata, um estudante de medicina que cresceu em uma fazenda. Os cientistas obtiveram dados sobre o uso de sessenta e nove pesticidas diferentes a partir de pesquisas conduzidas pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Eles então compararam esses dados com as taxas de incidência de câncer por condado em todo o país, utilizando bases de dados do Instituto Nacional de Saúde e dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças de 2015 a 2019.

Finalmente, ajustaram a análise para outros fatores que poderiam ter contribuído, incluindo disparidades socioeconômicas. Os resultados foram publicados na quinta-feira no jornal acadêmico Frontiers in Cancer Control and Society (Fronteiras no Controle do Câncer e na Sociedade).

Os pesquisadores afirmam que este estudo é a primeira avaliação abrangente do risco de câncer associado aos agrotóxicos em nível populacional. Zapata explicou que eles foram cuidadosos para não atribuir danos a compostos ou empresas específicas, pois na realidade as pessoas frequentemente estão expostas a múltiplos agrotóxicos, complexos “coquetéis” que podem ter impacto muito além do local onde foram aplicados originalmente. O vento pode levar resíduos dos campos ou a água da chuva pode carregar substâncias químicas para o lençol freático, ele explica.

“Pense nisso como o escapamento em uma cidade”, diz ele. “Você pode ser exposto a ele mesmo sem estar dirigindo.”

Os pesticidas são atualmente parte integrante do sistema agrícola industrializado do país: de acordo com o USDA, cerca de um bilhão de libras de agrotóxicos são usados a cada ano, em quase todos os estados do país.

A indústria argumenta que as regulamentações atuais de pesticidas são rigorosas e que o governo deveria “controlar as ervas daninhas, não a agricultura”. No entanto, trabalhadores rurais relataram lesões após serem pulverizados por aviões agrícolas ou hospitalizações após colherem produtos recém-tratados. Enquanto isso, produtos químicos associados à infertilidade são amplamente encontrados em alimentos como Cheerios.

“Trabalhadores rurais relataram lesões após serem pulverizados por aviões agrícolas ou hospitalizações após colherem produtos recém-tratados.” 

O novo estudo contribui para um longo debate científico sobre quão prejudiciais os pesticidas podem ser, um corpo de pesquisa que alguns cientistas afirmam ter sido prejudicado pela indústria, retardando a regulamentação. Leland Glenna, um professor que estuda os impactos sociais e ambientais da ciência e tecnologias agrícolas na Penn State, e que não esteve envolvido no estudo da Frontiers, disse que esse tipo de análise epidemiológica é crucial porque é “difícil contestar tendências populacionais amplas”.

Frequentemente, a toxicidade dos pesticidas é determinada em estudos controlados com animais, já que existem preocupações éticas com testes de produtos químicos em pessoas. Mas expor ratos de laboratório a pesticidas não necessariamente demonstra o que essas substâncias podem fazer com seres humanos que vivem e trabalham regularmente com elas.

Para complicar ainda mais, a Agência de Proteção Ambiental (Environmental Protection Agency – EPA), que monitora e aprova pesticidas, estuda apenas ingredientes ativos isoladamente. Eles ignoram outros ingredientes inertes que podem ainda conter substâncias nocivas como PFAS (conhecidos como “produtos químicos eternos”) e não examinam as formulações finais do produto — apesar de evidências substanciais de que a combinação de ingredientes pode torná-los mais tóxicos.

Veneno sob medida

Um dos pesticidas mais controversos em uso hoje é o glifosato, também conhecido pelo nome comercial Roundup. Sua fabricante original, a Monsanto, sediada no Missouri, foi adquirida pela empresa multinacional de biotecnologia Bayer em 2018, desenvolvendo interesse por herbicidas durante os anos 1960.

Eles foram um dos principais fabricantes do Agente Laranja, um desfolhante amplamente utilizado durante a Guerra do Vietnã para eliminar a cobertura vegetal para o Viet Cong, que o Exército dos EUA estava combatendo. (Cientistas levantaram preocupações sobre o Agente Laranja já em 1965; mais tarde foi comprovado que causava impactos severos à saúde, incluindo defeitos de nascimento e câncer. Um dos ingredientes do Agente Laranja, o 2,4-D, ainda é amplamente usado como herbicida nos Estados Unidos, incluindo em produtos comuns de cuidado com o gramado.)

Após a guerra, a Monsanto desenvolveu o Roundup, que foi promovido como uma alternativa mais segura a outros herbicidas. O glifosato mata as plantas inibindo uma enzima que as plantas usam para produzir energia. Embora os humanos não possuam essa enzima, algumas pesquisas descobriram que ela compartilha caminhos com as bactérias intestinais, perturbando nosso microbioma. Isso pode levar à inflamação e estresse oxidativo, danificando o DNA celular.

Com o tempo, esses danos podem se acumular, desencadeando mutações que causam câncer. Mesmo em níveis muito baixos de exposição, o glifosato pode perturbar o sistema endócrino, acelerando o crescimento de tumores.

Nos anos 1990, a Monsanto começou a vender sementes geneticamente modificadas para que os agricultores pudessem pulverizar o Roundup sobre as colheitas, e apenas as ervas daninhas morressem. Quanto à toxicidade de pesticidas, diz Lori Ann Burd, diretora do programa de saúde ambiental da organização sem fins lucrativos Center for Biological Diversity, o glifosato está longe de ser o pior. Mas ela acrescenta que o veneno está na quantidade da dose. “Desenvolvemos todo um sistema agrícola em torno das culturas resistentes ao Roundup”, diz Burd, “e por causa disso, usamos uma quantidade tão absurdamente grande que está causando danos enormes”.

O glifosato é agora o  agrotóxico mais usado nos EUA, com um mercado global de 10 bilhões de dólares. Ele foi detectado em níveis inseguros em águas pluviais e em mulheres grávidas sem exposição conhecida. E assim como o Agente Laranja, a Monsanto negou publicamente os riscos associados por muitos anos — mesmo que documentos internos da empresa mostrem que tinha razões para acreditar que o glifosato era perigoso desde pelo menos 1983.

Em um estudo de 2021, Glenna da Penn State descobriu que a Monsanto, agora de propriedade da Bayer, anteriormente tentou manipular o processo de revisão por pares científicos. Ele documentou os esforços da empresa usando e-mails internos divulgados durante um processo judicial, mostrando que a Monsanto usou autores fantasmas e conduziu campanhas para influenciar decisões editoriais em revistas acadêmicas, com o objetivo aparente de “manipular o processo regulatório para poder continuar vendendo um produto que a pesquisa da própria empresa indicava ser perigoso”.

“A Monsanto utilizou autores fantasmas e conduziu campanhas para influenciar decisões editoriais em revistas acadêmicas.” 

Em resposta a um pedido de comentário, Jessica Christiansen, chefe de comunicações de ciência da colheita da Bayer, escreveu em uma declaração por e-mail: “Nós apoiamos um sistema regulatório previsível e baseado na ciência e a certeza e disponibilidade que ele proporciona aos agricultores americanos”.

Glenna explicou que tanto o público quanto os reguladores tendem a confiar em estudos revisados por pares e desconfiar de pesquisas patrocinadas por empresas. Por isso, em um e-mail, um funcionário da Monsanto explicitamente diz que o objetivo de não listar pessoas da empresa como autores é “ajudar a aumentar a credibilidade”. Outros e-mails mostram interpretações seletivas de resultados de toxicidade e mais preocupação em evitar estudos de acompanhamento do que com a segurança pública.

A EPA baseou-se nesses tipos de estudos quando concluiu em 2016 que o glifosato “provavelmente não é carcinogênico para os humanos” e emitiu uma decisão de reaprovação do agrotóxico em 2020. Isso contradiz diretamente a pesquisa das principais autoridades globais na Organização Mundial da Saúde (OMS), que encontraram o glifosato como um provável carcinógeno em 2015. A EPA dependeu muito de estudos regulatórios não publicados, enquanto a organização de saúde internacional baseou-se principalmente em trabalhos revisados por pares.

Em 2022, o Tribunal de Apelações do Nono Circuito determinou que a decisão da EPA foi baseada em procedimentos defeituosos, observando que o próprio painel consultivo científico da agência havia criticado os critérios que ela utilizou. Eles exigiram que a EPA reavaliasse o pesticida; dois anos depois, isso ainda não foi feito.

Liberdade sem fiscalização

Essas revisões de registro de agrotóxico são rotineiramente atrasadas. Parte do problema, segundo Glenna, é que os reguladores precisam depender das indústrias para liberar informações toxicológicas porque estas são consideradas informações proprietárias. “[É] propriedade intelectual”, diz ele, “então cientistas de universidades ou financiados pelo público simplesmente não têm a capacidade de realizar essa pesquisa”.

Quando um agrotóxico é registrado pela primeira vez com os reguladores federais, a grande maioria das informações disponíveis sobre ele é científica e conduzida pela empresa que o fabricou. “A presunção nos EUA é a favor da segurança do produto químico”, diz Burd. Em outros lugares, como na União Europeia, “os produtos químicos não são considerados seguros por padrão; adotam uma abordagem muito mais precaucionária”.

Na verdade, dacordo com a legislação federal, a EPA só pode recusar o registro de um pesticida se seus riscos forem maiores do que os benefícios que ele proporciona, medidos pela produtividade ou qualidade das colheitas. Como resultado, cerca de um terço do uso de agrotóxicos nos EUA envolve produtos químicos proibidos na China, Brasil e União Europeia.

Há também uma porta giratória entre a agência e a indústria que regula. Alexandra Dunn, ex-administradora assistente do Escritório de Segurança Química e Prevenção da Poluição, por exemplo, agora lidera a CropLife America, o principal grupo de lobby da indústria de pesticidas. Ela é apenas a mais recente; desde 1974, todos os diretores do escritório passaram a trabalhar para empresas de agrotóxicos.

Esta influência da indústria dentro da agência é exacerbada pelo fato de que cerca de 40% do financiamento do Escritório de Segurança Química e Prevenção da Poluição da EPA vem de taxas de registro — pagas pelas próprias empresas.

“O Projeto 2025 deseja garantir que as regulamentações químicas dos EUA permaneçam ‘baseadas em risco, em vez de adotar abordagens precaucionárias baseadas em perigos’.”

Monsanto descreveu a maneira como aproveitou esse ambiente regulatório como “Liberdade para Operar”, um princípio operacional que definiu em e-mails internos da empresa como “as ações regulatórias, técnicas, de marketing e comunicação para estabelecer um ambiente mais favorável para garantir as autorizações de nossos produtos e tecnologias”.

Essas ações incluíram premiar funcionários por defender a empresa após a designação do Roundup como cancerígenos pela OMS, e manipular relatórios de exposição no local de trabalho de funcionários doentes.

Os reguladores podem em breve estar dando um passo adicional para trás. O Projeto 2025, um relatório de políticas conservadoras desenvolvido por interesses corporativos para moldar uma futura administração de Donald Trump, afirma que os programas da EPA “são constantemente pressionados para banir o uso de certos produtos químicos, geralmente baseados no medo como resultado de ciência mal caracterizada ou incompleta”. Ele deseja garantir que as regulamentações químicas dos EUA permaneçam “baseadas em risco, em vez de adotar abordagens precaucionárias baseadas em perigos”.

Em última análise, ele advoga que “[os] agricultores e o sistema alimentar devem estar livres de qualquer intervenção governamental desnecessária” e que os reguladores agrícolas deveriam priorizar “a liberdade pessoal, a propriedade privada e o Estado de Direito”.

Ameaça existencial

Embora a Bayer insista que o produto que herdou de sua fusão de 2018 com a Monsanto é seguro, enfrenta mais de 170.000 processos judiciais relacionados ao glifosato, mesmo após um acordo de $10 bilhões em 2020 com milhares de vítimas que afirmam que o pesticida causou suas doenças. Nesta primavera, a gigante de biotecnologia tem feito lobby no Congresso para restringir sua responsabilidade por processos judiciais relacionados à exposição ao glifosato, incluindo o trabalho para redigir uma linguagem sobre o assunto no próximo projeto de lei agrícola.

Segundo o Washington Post, os deputados Dusty Johnson (R-SD) e Jim Costa (D-CA) trabalharam em estreita colaboração com a empresa para redigir a medida que impede futuros pagamentos por processos judiciais relacionados ao glifosato, que foi posteriormente adicionada ao projeto de lei agrícola, responsável por definir a política agrícola do país a cada cinco anos e previsto para votação neste outono. O comitê de ação política da empresa também contribuiu para as campanhas de Johnson e Costa por várias eleições.

Durante um discurso em uma conferência nesta primavera, o CEO da Bayer, Bill Anderson, chamou a potencial responsabilidade legal pelos impactos à saúde de seus pesticidas de uma “ameaça existencial”. Agora, está considerando usar uma estratégia chamada Texas two-step“. Nesse movimento legal, uma empresa se divide em duas, sendo que uma metade mantém os ativos e a outra os passivos. Esta última então entra com pedido de falência, forçando as pessoas que buscam compensação a entrar na justiça de falências, o que frequentemente resulta em acordos adiados ou menores.

Além de seu lobby federal, a Bayer intensificou seus esforços de lobby estado por estado. Ela forneceu linguagem semelhante para projetos de lei apresentados este ano eMissouriFlóridaIdaho e Iowa, que protegeriam as empresas de pesticidas de futuros processos judiciais relacionados ao glifosato, em parte excluindo essas empresas dos requisitos estaduais de informação sobre seus potenciais perigos ou riscos.

Em sua declaração ao Lever, Christiansen da Bayer escreveu que o “apoio da empresa a legislações como essa, tanto em nível federal quanto estadual, ajuda a proteger a integridade do processo regulatório e garante que as conclusões minuciosas e baseadas cientificamente da EPA sejam a base para os rótulos de proteção de cultivos”.

Em Idaho, o vice-presidente de assuntos governamentais estaduais e locais da Bayer apresentou pessoalmente o projeto de lei que a empresa esperava aprovar em um comitê do Senado. Para angariar apoio ao projeto de lei, a empresa aumentou seus gastos no estado, gastando mais de US$8.000 e empregando pelo menos três pessoas. Ela veiculou anúncios em jornais locais proclamando: “Apoie os Agricultores de Idaho, Não Advogados de Julgamento”. A Bayer também criou uma coalizão multiestadual chamada Modern Ag Alliance, afirmando que oitocentos empregos em Idaho estão ligados à produção de glifosato, juntamente com quinhentos em Iowa.

As iniciativas legislativas foram derrotadas em Idaho e Flórida, mas passaram pelo Senado estadual em Iowa e ainda estão tramitando na casa legislativa de Missouri.

Essas táticas fazem parte do plano de cinco partes da empresa para lidar com sua responsabilidade, o qual está sendo usado para tranquilizar acionistas preocupados. Segundo documentos da empresa, o primeiro passo é “buscar uma decisão positiva da Suprema Corte dos EUA”.

Assim como em seus projetos de lei estaduais propostos, a empresa argumenta que, como a EPA até agora concluiu que o glifosato não causa câncer e não exige um rótulo de aviso, as leis estaduais de falha em avisar devem ser preteridas. Eles entraram com duas ações judiciais federais com esse objetivo, que atualmente estão em tramitação nos tribunais.

Burd diz que não está surpresa com as manobras da Bayer, mas “o que é decepcionante é que há tantos legisladores dispostos a apoiá-las”.

Embora o glifosato tenha um perfil alto, Zapata, da Rocky Vista University, diz que o problema final é muito mais complexo do que apenas um pesticida, ou mesmo uma empresa tão influente como a Bayer.

“O fato de não ouvirmos sobre outras coisas não significa que não seja um problema”, ele diz. É por isso que seu estudo recente tentou capturar o quadro geral de como, coletivamente, esses compostos estão de fato influenciando a saúde das pessoas.

Ele afirma que suas motivações são apolíticas — e que há muita responsabilidade a ser compartilhada. “Se queremos ir ao supermercado e comprar tomates baratos, provavelmente eles serão produzidos usando um sistema muito industrializado”, ele diz.

Ao mesmo tempo, ele reconhece que divulgar esse tipo de risco tem um valor econômico e ético. “Se você compra terra em uma área com alta capacidade agrícola, está assumindo também parte desse risco”, ele explica. E as pessoas que têm a capacidade de escolher viver em outro lugar, ou que têm recursos suficientes para não precisar trabalhar em empregos mal remunerados com maior exposição, estão simplesmente terceirizando esse perigo.

“Se você não mora naquele lugar, outra pessoa terá que morar”, diz Zapata.


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Sobre a autora:  Lois Parshley é uma jornalista investigativa premiada. Seu trabalho já foi publicado na New Yorker, no New York Times, na Harper’sNational Geographic e mais.


Fonte: Jacobina