Aumento de morte de crianças por leucemia é associada à expansão da soja no Brasil

Agrotóxicos: uso na soja aumentou morte de crianças por leucemia

Aplicação de agrotóxicos levou à morte adicional de 123 crianças em 11 anos na Amazônia e no Cerrado, revela pesquisa

Por Giovana Girardi para a Agência Pública

Em meio à discussão no Congresso de um projeto de lei para flexibilizar o acesso aos agrotóxicos no país, amplamente defendido pela bancada ruralista, um estudo divulgado nesta segunda-feira (30) associa o aumento de casos de leucemia infantil no Brasil à expansão do cultivo da soja e ao grande uso de pesticidas nas plantações do grão.

Eles encontraram pelo menos 123 mortes adicionais de crianças com menos de 10 anos entre 2008 e 2019 relacionadas indiretamente ao uso de  agrotóxicos no cultivo de soja no Cerrado e na Amazônia.

O trabalho fez uma análise populacional, considerando 15 anos de dados de saúde, cruzando informações de câncer infantil com o avanço da soja pelos dois biomas. 

O grupo de pesquisadores norte-americanos, liderados por Marin Skidmore, da Universidade de Illinois, aponta no artigo que a área de soja no Cerrado triplicou de 5 milhões de hectares para 15 milhões de hectares entre 2000 e 2019. Na Amazônia, cresceu 20 vezes: de 0,25 milhão para 5 milhões de hectares. Já o uso de agrotóxicos nessas duas regiões – que foram as analisadas no trabalho – cresceu entre 3 e 10 vezes no mesmo período.

Este aumento, revelam, se refletiu nos casos da doença. De acordo com os cálculos dos cientistas, a cada 10 pontos percentuais de aumento na produção de soja, houve 4 mortes adicionais de crianças de menos de 5 anos e de 2,1 abaixo de 10 anos por 100 mil habitantes.

“Os resultados sugerem que cerca de metade das mortes pediátricas por leucemia no período podem ser ligadas à intensificação agrícola da soja e à exposição aos agrotóxicos”, afirmou Skidmore em comunicado à imprensa. O trabalho foi publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS)

soja cerrado

Aplicação de agrotóxicos levou à morte adicional de 123 crianças em 11 anos na Amazônia e no Cerrado

Os cientistas indicaram também que o contato com os produtos químicos deve ter se dado via fornecimento de água, em geral em localidades onde a produção de soja fica à montante na bacia hidrográfica. Eles chegaram a essa conclusão ao procurar evidências de aplicação de pesticidas rio acima. Os casos de leucemia estavam à jusante da mesma bacia. “Isso indica que o escoamento de agrotóxicos para as águas superficiais é um método provável de exposição”, explicou Skidmore.

Ou seja, as crianças que desenvolveram leucemia não moravam necessariamente nas áreas onde se dá a produção da soja – o que revela o amplo alcance dos agrotóxicos. Skidmore aponta que a área rural da região avaliada no trabalho tinha, de acordo com dados de 2006, cerca de 50% das casas com poços ou cisternas, mas a outra metade dependia do escoamento na superfície como fonte de água. “Se a água na superfície está acostumada, os pesticidas usados rio acima podem alcançar as crianças rio abaixo”, disse.

O artigo retrata o Brasil como o país que se tornou, nos últimos anos, tanto o líder mundial na produção de soja quanto de consumo de agrotóxicos perigosos. Segundo a análise, aplicamos, por hectare, 2,3 vezes mais agrotóxicos que os Estados Unidos e 3 vezes mais que a China, que são o primeiro e o terceiro colocado em volume total de agrotóxicos. O estudo relata ainda que o uso no cultivo de soja cresceu após a aprovação, em 2004, de variantes transgênicas do grão.

Um fator capaz de amenizar a mortalidade foi a presença de hospitais próximos às áreas de contaminação. De acordo com a pesquisa, as mortes de crianças por leucemia relacionadas com a expansão da soja se deram em regiões que ficavam a mais de 100 quilômetros de um centro de tratamento. A doença é tratável, mas depende de um atendimento oncológico especializado, o que não é amplamente oferecido no interior do Brasil, em especial na Amazônia, por exemplo.

“Nós certamente não estamos advogando por uma interrupção total do uso dos agrotóxicos”, diz a pesquisadora, reconhecendo que tiveram uma importância para a expansão da produção de soja. “São tecnologias importantes e válidas, mas precisam ser adotadas com segurança. [Os resultados] são um forte aviso de que o uso seguro de agrotóxicos é o melhor tanto para a produtividade agrícola quanto para as comunidades”, afirma. 

O recado final do artigo é mais duro: “Este trabalho sublinha a importância de considerar as implicações à saúde humana da intensificação da agricultura”.

Durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), mais de 14 mil pessoas foram intoxicadas por agrotóxicos no Brasil, segundo levantamento inédito feito pela Agência Pública e Repórter Brasil, com dados de 2019 a março de 2022.

Nos últimos anos, vários estudos vêm revelando a relação entre o uso intenso de agrotóxicos com diversos problemas de saúde e ao ambiente. A presença de substâncias cancerígenas nos agrotóxicos é bem conhecida, mas a relação direta de causa e efeito com o câncer é mais difícil de estabelecer.  

Levantamento recente feito pelo InfoAmazonia com a Fiocruz observou que mulheres, crianças e adolescentes de municípios do Mato Grosso que têm pelo menos 5% da área ocupada por soja têm risco entre 26% e 33% mais chances de desenvolver e morrer por leucemia e linfoma.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Pública [Aqui!].

ASCEMA Nacional se posiciona contra inclusão da PM no Sisnama

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A Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente e do PECMA (ASCEMA Nacional) declara sua posição contrária ao Projeto de Lei (PL) 3045/2022 que propõe a inclusão da Polícia Militar no Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama).

O senador Nelsinho Trad (PSD/MS) apresentou a emenda 33 a esse projeto, visando instituir a Lei Orgânica Nacional das Polícias Militares e dos Corpos de Bombeiros Militares dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios. O PL está na pauta do Plenário do Senado para amanhã (31/10), após ter sido aprovado com urgência na semana passada.

A ASCEMA Nacional expressa sua preocupação não apenas em relação à questão do Sisnama/Conama, mas destaca um movimento mais amplo, unindo diversas organizações contra o PL como um todo. Alertamos para o retrocesso que esse projeto representa, acarretando inúmeros problemas, especialmente no que diz respeito à governança ambiental.

O PL em questão traz implicações sérias, como a possibilidade de as Polícias Militares receberem financiamento da área ambiental, o que poderia comprometer a atuação de órgãos como o Ibama, ICMBio e Funai. A título de comparação, o orçamento destinado à segurança pública em 2022 foi de R$124,8 bilhões, enquanto o empregado na gestão ambiental foi de R$ 2,7 bilhões – equivalente a 2% do utilizado na segurança pública, apesar das instituições envolvidas na proteção ambiental atuarem em todo o território nacional e necessitarem de efetivo, infraestrutura e recursos financeiros.Há, ainda, o risco de limitar a atuação dos servidores do Meio Ambiente na fiscalização, além de abordar a educação ambiental numa perspectiva policial, o que é preocupante.

A ASCEMA Nacional destaca ainda a preocupação do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania com dispositivos presentes na redação do PL 3045/2023, que podem potencializar violações de direitos humanos. Além disso, setores do governo expressaram preocupação com trechos que podem restringir a participação de mulheres nas forças de segurança e retirar competências do Ibama, impactando a estrutura do Meio Ambiente.

Diante disso, a ASCEMA Nacional se coloca veementemente contrária à inclusão da Polícia Militar no Sisnama, considerando os impactos negativos que isso acarretaria para a preservação ambiental e para a sociedade como um todo, tendo em vista que os órgãos que atualmente têm essa atribuição precisam de fortalecimento, haja vista que mesmo com as condições precárias atualmente enfrentadas, têm apresentado bons resultados. Convidamos a sociedade e demais organizações a se unirem a nós nessa luta em prol de um ambiente equilibrado e protegido.

Qualidade do ar no Cerrado está comprometida pelo excesso de agrotóxico

Estudo identificou a morte de líquens pela exposição ao glifosato em uma Área de Preservação Permanente em Caiapônia, Goiás

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Por Adriana Amâncio para a Mongbay

Respirar ar puro no Cerrado tem sido cada vez mais difícil. É o que indica um estudo recente, elaborado pelo Instituto Federal Goiano. A pesquisa constatou uma relação entre a morte de líquens e a exposição ao glifosato, um tipo de herbicida usado para impedir o crescimento de plantas espontâneas.

Os líquens são organismos formados por fungos e algas que se relacionam entre si. “Na prática, isso indica a má qualidade do ar. Em florestas tropicais, como é o nosso caso, a presença dos líquens indica boas condições atmosféricas. Por outro lado, a sua ausência indica que as condições do ar não estão adequadas”, resume Luciana Vitorino, doutora em Microbiologia, pesquisadora do Instituto Federal Goiano e uma das autoras do estudo.

As amostras analisadas foram recolhidas de uma Área de Preservação Permanente (APA) localizada no município de Caiapônia, distante 335 km de Goiânia, capital de Goiás. A APA está localizada dentro de uma propriedade privada de monocultivo de cana-de-açúcar em larga escala.

Foram recolhidos dos troncos das árvores líquens das espécies Parmotrema tinctorum e Usnea barbata (conhecida como  barba-de-velho). Essas amostras estavam no centro da APA, portanto, em tese, não haviam sofrido exposição direta  ao glifosato. Nas análises, porém, foi constatado que houve redução de células vivas e aumento de células mortas nos líquens barba-de-velho – ambos os resultados proporcionais ao tempo de exposição e à concentração do herbicida.

Segundo Luciana Vitorino, o interesse em realizar esse estudo mais aprofundado surgiu após ser encontrado cádmio, um dos metais pesados presentes no glifosato, em líquens localizados nas bordas de quatro Áreas de Preservação Permanente do município de Rio Verde, em Goiás. O levantamento feito em 2017 envolveu áreas de conservação localizadas em propriedades privadas de cultivo de commodities.

Em 2018, a preocupação dos pesquisadores aumentou. Foram encontrados líquens com metais pesados provenientes do glifosato também no Parque Nacional das Emas. Levando-se em conta que esse parque é uma Unidade de Conservação de Proteção Integral, ou seja, com restrição de atividade econômica, deveria ser improvável encontrar resíduos de glifosato nestes organismos vivos.

Foi então que os pesquisadores suspeitaram de contaminação por efeito de deriva. Esse é o nome dado ao efeito que leva os agrotóxicos, por meio das águas subterrâneas e de correntes de ar, para outras áreas além do alvo da pulverização. A pulverização via aérea, a mais comum adotada em Goiás, favorece a dispersão desse agrotóxico.

“Esses estudos anteriores serviram para comprovar que havia contaminação de líquens em áreas de conservação. Já o estudo atual mostrou, de forma mais efetiva, como os líquens eram afetados”, explica Vitorino.

O município de Caiapônia foi escolhido por ser tratar de uma área bastante preservada. O ideal, detalha Luciana, era obter líquens que nunca haviam tido contato com o glifosato para observar bem a sua reação aos estímulos realizados nas análises in vitro. 

Biomarcadores de poluição por glifosato em amostras de líquens. Imagem: reprodução

A pesquisa também identificou que o glifosato compromete o processo de fotossíntese dos líquens. A fotossíntese é um processo essencial para a sobrevivência. É por meio dele que a luz solar é convertida em energia química, fornecendo alimento e oxigênio ao organismo. A figura acima mostra o resultado do teste de fluorescência.

Neste caso, a exposição dos líquens a uma luz específica mostra como está a saúde das algas que compõem os organismos, parte responsável pela fotossíntese. Observe que, na última fileira, as algas praticamente desaparecem. “Isso mostra que o glifosato compromete a capacidade de fotossíntese dos líquens”, esmiúça Luciana.

De acordo com Luciana Vitorino, a diferença entre os líquens e os outros bioindicadores está na sensibilidade e na resposta imediata. “Com esse estudo, não queremos dizer que outras espécies não estejam sendo atingidas [pelo glifosato], mas os líquens têm uma resposta mais rápida, algo que pode demorar a aparecer em outras espécies”, pondera. Ela observa que o estudo confirma a dispersão do produto para áreas de conservação e que a pulverização aérea tem um papel contundente nesse caso.

Dados do Ibama apontam que o glifosato é o agrotóxico mais vendido no Brasil, com quase 220 toneladas por ano. Apenas no estado de Goiás, onde está localizado o município de Caiapônia, local de onde as amostras foram extraídas, são comercializadas quase 20 toneladas anuais do produto, ainda segundo o Ibama. O glifosato é também o pesticida mais consumido no globo terrestre. 

Seriema (Cariama cristata) no Parque Nacional das Emas, sudoeste de Goiás. Foto: Fernando Nanzer, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Cerrado: 70% do consumo de agrotóxicos no Brasil

Na avaliação do médico e doutor em Saúde Pública, Wanderlei Pignati, a chegada dos transgênicos foi determinante para que a quantidade de glifosato, assim como de outros agrotóxicos usados no Cerrado aumentasse de maneira exponencial. “Foi criado um tipo de soja resistente ao glifosato, a soja Roundup Ready, ou seja, o glifosato pode ser aplicado direto na soja. Ele mata as ervas espontâneas, mas não mata a soja”, explica. Além dela, outras espécies foram modificadas geneticamente para se tornarem resistentes a diversos outros tipos de agrotóxicos.

O Cerrado é responsável por 73,5% de todo o volume de agrotóxicos comercializados em todo Brasil. Esse alto volume de consumo deve-se ao fato de o bioma abrigar milhares de hectares de monocultivo de commodities, sendo, portanto, a maior fronteira agrícola do agronegócio brasileiro. Esse dado é revelado em um artigo publicado na revista “Desenvolvimento e Meio Ambiente”, da Universidade Federal Rural do Paraná (UFPR). 

Líquen do gênero Parmotrema no Parque Estadual Matas do Segredo, Mato Grosso do Sul. Esses organismos são formados por fungos e algas, que interagem entre si, e apresentam resposta rápida sobre a má qualidade do ar. Foto: Fábio Júnio Santos Fonseca, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

A má qualidade do ar não é a única consequência do excesso de uso de agrotóxicos que deve preocupar. Pesquisas apontam que tanto o glifosato quanto outras substâncias que vão na composição dos herbicidas são provavelmente cancerígenas.

Um exemplo é o produto Mata Mato, um herbicida que leva na sua composição, além do glifosato, polioxietileno amina (poea), nitroglifosato e formaldeído. “Enquanto o glifosato é provavelmente cancerígeno, as outras substâncias são comprovadamente cancerígenas”, explica Pignati.

Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), órgão ligado à Organização Mundial de Saúde (OMS) classificou o glifosato como “provavelmente cancerígeno”. Um parecer técnico da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), lançado em 2019, cobra a proibição do registro de produtos à base de glifosato com base no provável potencial cancerígeno do produto.

O parecer defende que seja adotado o princípio da precaução, “critério basilar nos processos de avaliação de nocividades para a saúde humana e para o ambiente, indicando ser mister evitar a exposição diante de limitações e ou incertezas quanto aos perigos relacionados à exposição a determinados agentes”, diz um trecho da nota.

Pignati explica que a Resolução número 441 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determina as quantidades nas quais essas substâncias podem ser administradas. O polioxietileno amina não pode exceder 20% da quantidade de produtos à base de glifosato; o nitrogenifosato, 0,001 grama por quilo de glifosato; e o formaldeído, 1 grama por quilo de glifosato. “Será que essas quantidades estão sendo respeitadas na produção do produto? É importante sabermos”, questiona Pignati.

O glifosato está com os dias contados?

Em dezembro deste ano, termina a licença para o uso do glifosato na produção de herbicidas na União Europeia. No último dia 13 de outubro, a Comissão Europeia decidiu prorrogar a licença do produto até 2033, porém, essa aprovação não alcançou o quórum de no mínimo 15 países, o que representa 66% dos membros suficientes para  validar a decisão. Com isso, a proposta será encaminhada ao Comitê de Apelação, que deve realizar a votação final na primeira quinzena de novembro.

Dentre os países integrantes, a Alemanha, local de origem do produto, já se posicionou contrária à renovação da licença. Áustria e Luxemburgo devem acompanhar o voto da Alemanha, porém, Itália, Suécia e Portugal são favoráveis a extensão. Já Bélgica e Holanda anunciaram que devem se abster.

Na queda de braço, de um lado estão as empresas que temem pela perda dos lucros que somam cifras imensuráveis, que contam com países como o Brasil, um dos maiores consumidores do glifosato do mundo. Do outro, órgãos de pesquisa, médicos e ambientalistas que consideram as evidências sobre o potencial cancerígeno do produto mais do que suficiente para proibir seu uso. Havendo a proibição do glifosato, produtores brasileiros, caso queiram ter os seus produtos aceitos na União Europeia, teriam que encontrar uma solução ambientalmente sustentável para cultivá-los.

Imagem do banner: pulverização aérea no município de Santo Inácio, Paraná. Foto:  Edmarjr, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons


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Este texto foi originalmente publicado pela Mongbay Notícias Ambientais [Aqui!].

Projeto da Uerj estuda tartarugas como indicadores de poluição na Baía de Guanabara

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Pesquisa do Laboratório de Genética Marinha (LGMar), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), examina a poluição na Baía de Guanabara através da observação de tartarugas-verdes na região. No mês de agosto, um artigo com os resultados do trabalho realizado em 2022 foi publicado em um periódico científico. O estudo identificou bactérias também patogênicas humanas nas amostras, ou seja, que podem causar doenças em seu hospedeiro. 

Ainda no segundo semestre de 2023, a equipe realizou a segunda edição da campanha “Caminhos das tartarugas cariocas”, coletando e analisando 84 animais nas águas da Marina da Glória e da Fortaleza de São João, zona sul do Rio de Janeiro, e no Clube Naval de Charitas, em Niterói. No momento, os pesquisadores examinam esses dados para, posteriormente, divulgar novas conclusões.

Tartarugas como biomonitores

Na literatura científica, biomonitores geralmente são organismos tolerantes à contaminação ambiental, que respondem simultaneamente a diferentes agentes poluentes, refletindo, assim, o nível de degradação do ecossistema.

De acordo com os pesquisadores, a tartaruga-verde (Chelonia mydas) é a espécie mais abundante no litoral brasileiro, é longeva e passa a maior parte da vida em ambientes costeiros, exposta a bactérias resistentes a antibióticos, oriundas do escoadouro humano, o que a torna um bom indicador de poluição marinha.

Durante a ação, a equipe, composta por alunos de Biologia e Oceanografia, além de servidores técnicos da Universidade, utilizou uma rede com malha apropriada para capturar as tartarugas. Em seguida, elas foram medidas, examinadas e tiveram amostras de seu tecido recolhidas para estudos genéticos e microbiológicos.

O perigo da resistência antimicrobiana

Segundo Gisele Lobo Hajdu, coordenadora do projeto e professora do Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes (Ibrag), da Uerj, a investigação surgiu da necessidade de estudar a resistência antimicrobiana (RAM), que ocorre quando microrganismos são expostos a antibióticos, utilizados para tratar as infecções, em particular, as de origem bacteriana. Como consequência, os medicamentos se tornam ineficazes e surgem as superbactérias.

A resistência antimicrobiana é um problema de saúde pública há algum tempo. O uso sem controle de antibióticos na criação de animais para consumo humano é uma das maiores fontes de resistência microbiana. A RAM pode causar mortes e dificultar o controle de doenças infecciosas, ameaçando a saúde e a economia, devido aos altos custos com o tratamento por essas infecções. “Dada a troca frequente de bactérias e genes de resistência aos antimicrobianos entre espécies e ambientes, é crucial compreender e identificar as ligações entre os organismos humano, animal e ambiental”, explica a bióloga.

Trabalho durante o ano

As amostras são trabalhadas ao longo do ano, identificando os vários contaminantes presentes no tecido, sangue e fluidos dos animais. Além do trabalho de coleta, os alunos da Uerj promovem atividades de conscientização a respeito da poluição dos mares, com exposições, feiras de ciências e mutirões de limpeza das praias.

O projeto conta com a participação de pesquisadores das universidades Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Federal Fluminense (UFF), Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da ONG Caminho Marinho.

2º SP Food Film Festival traz cinema, gastronomia, degustações, debates

de 09 a 19/11,na Cinemateca Brasileira e online para todo Brasil

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A 2ª edição do São Paulo Food Film Festival acontece de 09 a 19 de novembro, na Cinemateca Brasileira, com mais de 30 filmes, entre clássicos da ficção e documentários contemporâneos ligados à alimentação e aos sistemas agroalimentares, exposição fotográfica, debates, aulas show e degustações de pratos inesquecíveis do cinema, após algumas das exibições presenciais. Um recorte da programação estará disponível online para todo Brasil, com 16 títulos na plataforma da SpcinePlay. Toda programação é gratuita!

Clássicos como “Morango e Chocolate”, que completou 30 anos, dirigido por Juan Carlos Tabio e Tomás Gutiérrez Alea, virá acompanhado de uma degustação de sorvete de morango com chocolate. “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, de Pedro Almodóvar, que completa 35 anos, com um delicioso gazpacho após a sessão, entre outros.

Para o público infantil, “A Dama e o Vagabundo”, “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, e “A Princesa e o Sapo”, todos com degustação após a sessão! A programação traz também filmes com temas urgentes e necessários, como “Os Catadores e Eu” de Agnès Varda sobre o desperdício e a fome; “O Poço”, de Galder Gazteli-Urrutia, que se passa em uma prisão vertical.

Entre as estreias, o documentário “Blind Ambition”, onde quatro refugiados do Zimbabwe se tornam os melhores sommeliers de vinho da África do Sul (com direito a degustação de vinhos após a sessão); “Solo Comum”, documentário que discute os sistemas alimentares contemporâneos e modelos alternativos de agricultura regenerativa; “Em Busca da Estrela” com degustação de pizza; “Lambic” com degustação de cervejas, “Viciados em Pimenta” com degustação de deliciosas samosas com pimenta e “Volte Sempre”, que conta a história de Masamoto Ueda e seu lendário ramen.

Encontros, aulas show e debates

Cinco encontros com diferentes Chefs de Cozinha e especialistas, que após a exibição de alguns episódios do documentário “História da Alimentação no Brasil”, série dirigida por Eugenio Puppo. As convidadas para ministrar as aulas são: Aline Guedes, Patty Durães, a líder indígena Jerá Guarani, Angelita Gonzaga e Graziela Tavares.

A programação conta ainda com um importante ciclo de debates abordando quatro temas contemporâneos relevantes ligados ao alimento: Cozinhas Solidárias; Consumo de Ultraprocessados; Uso de Agrotóxicos e Educação Alimentar e Nutricional, que partem de uma cuidadosa seleção de filmes e documentários em encontros online com convidados especialistas serão transmitidos ao vivo no canal do Youtube do Festival, com exceção do debate sobre as Cozinhas Solidárias que será presencial, na própria Cinemateca.

Exposição fotográfica

O festival traz uma exposição original do fotógrafo Paulo Vitale. Dentre os Chefs retratados estão Eudes Assis, Helena Rizzo, Iêda de Matos, Telma Shiraishi, Claude Troisgros, entre muitos outros.

Sessão de abertura

A sessão de abertura acontece no dia 08/11, com o filme chinês “Comer Beber Viver”, do premiado diretor Ang Lee, que em 2024, completa 30 anos.

Segue abaixo release com a programação completa e fotos anexadas.

Aqui o link com fotos e trailers:

https://docs.google.com/spreadsheets/d/1e0kOWIvdFYpnCaM4ftX6YLzF2WiGTRrvuh8bnFQL3Vc/edit?usp=sharing

Presença de diesel na água mata espécie de planta do mangue ainda na germinação, mostra experimento

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Propágulo de Avicennia germinans sendo coletado na árvore-mãe para o experimento

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As sondagens para a possível exploração de petróleo e gás na bacia do Pará-Maranhão e na foz do rio Amazonas têm se intensificado na última década, aumentando o risco de vazamentos de derivados do petróleo nestas regiões. Pesquisadores da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) testaram em laboratório os efeitos da presença do óleo diesel na germinação de plantas de mangue e concluíram que a Laguncularia racemosa, conhecida como mangue-branco, sofre intensos efeitos do contaminante. As conclusões estão publicadas na edição de 27 de outubro da revista “Acta Amazônica”.

Em experimento, os especialistas observaram que o contato com crescentes volumes de óleo diesel na água matou 80% dos propágulos da L. racemosa, que são estruturas que se desprendem de uma planta adulta e funcionam como sementes. A velocidade de germinação também diminuiu à medida que a quantidade do contaminante aumentou. Outra espécie estudada, a Avicennia germinans, não apresentou mortalidade significativa no mesmo contexto.

Os propágulos das duas espécies foram mergulhados em uma emulsificação do óleo em água de mangue com diferentes percentuais de óleo diesel e comparados com uma amostra de controle, sem o óleo. Após o tempo característico de germinação de cada espécie, foi verificada a taxa de propágulos germinados, indicador do impacto da contaminação.

Segundo Josélia Martins, primeira autora do artigo, o diferencial da pesquisa é mostrar o efeito da poluição por óleo diesel no processo de germinação dos propágulos enquanto estão imersos nas águas de estuário. “O conhecimento do que ocorre na fase de germinação dos propágulos é muito importante, pois é uma fase primordial. Sem ela, as demais não são possíveis.”

“O que nos surpreendeu foi a ausência de resposta significativa da espécie Avicennia germinans durante a germinação em contato com o óleo diesel nos volumes utilizados neste estudo, ao contrário do que ocorreu com a Laguncularia racemosa. Esse resultado denota maior resiliência da outra espécie”, comenta Martins.

Os pesquisadores apontam que o conhecimento de que uma ou mais espécies de mangue não consegue germinar adequadamente na presença de óleo emulsificado na água estuarina pode auxiliar na formulação de políticas públicas de conservação e restauração do manguezal, ecossistema importante para manter a qualidade da zona costeira para a população e animais. Os resultados também podem orientar profissionais em situações de desastres com derramamento de óleo. Neste caso, saber quais espécies são mais afetadas pode mudar a forma de atuação dos especialistas durante os esforços para a limpeza e conservação da área atingida.

O próximo passo do grupo de pesquisadores será plantar os propágulos das duas espécies que obtiveram sucesso na germinação enquanto mergulhados em água e óleo diesel e acompanhar o seu desenvolvimento. Com esse processo, eles vão poder observar os efeitos do óleo durante o crescimento das plantas. “Também queremos dar continuidade aos estudos com outros tipos de derivados de petróleo, como o óleo diesel marítimo e o óleo bunker”, conclui Martins.

 

DOI: https://doi.org/10.1590/1809-4392202202342

Findadas as eleições na Uenf, como ficou o imbróglio da reforma do Solar do Colégio?

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Em algum lugar do passado, Bruno Dauaire, Raúl Palacio e Wladimir Garotinho seguram a planta do Solar do Colégio, sede do Arquivo Público Municipal

Ao longo de 2023 uma das muitas causas de vergonha interna em quem ainda alguma restante dentro da comunidade universitária da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) foi o imbróglio relativo à reforma do Solar do Colégio que abriga o Arquivo Municipal de Campos dos Goytacazes. Foram dezenas de matérias jornalísticas e ameaças por parte do prefeito Wladimir Garotinho por causa do ritmo de tartaruga de pata quebrada com que o ainda reitor da Uenf, prof. Raúl Palacio, tratou o uso de R$ 20 milhões destinados pela Alerj para a realização da obra.

O batom na cueca foi tão grande que durante as eleições para a reitoria da Uenf, a atual reitora em exercício e futura reitora, profa Rosana Rodrigues, finalmente deu o ar da graça nas carcomidas instalações do Arquivo Municipal para prometer que com ela as coisas seriam diferentes.

Agora, passadas e vencidas as eleições, o ainda reitor Raúl Palacio resolveu fazer uma espécie de tour de despedida às custas da viúva com visitas em universidades no Chile e Colômbia, deixando a administração nas mãos de Rosana Rodrigues.

Pois bem, e sobre as obras que deveriam ocorrer antes das próximas chuvas de verão? Ninguém fala, ninguém viu. O problema é que ninguém mais fala no assunto, incluindo aí o prefeito Wladimir Garotinho, o seu grande amigo Bruno Dauaire, e os próceres do prefeito na mídia corporativa local.

A única conclusão que posso chegar é que tudo foi resolvido e só nos esqueceram de nos avisar. O problema é que fazer e não avisar não tem sido a prática da reitoria da Uenf nos últimos anos. Dai que….

Conferência climática da ONU (COP28) ocorre em modo de crise

Decisões fundamentais poderão ser tomadas em reunião ministerial na próxima semana

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Região costeira frequentemente inundada em Bangladesh: Na verdade, há solo fértil aqui, mas é engolido pelo mar. Foto: Imagem/ZUMA/Kazi Salahuddin
Por Christian Mihatsch e Chiang Mai para o Neues Deutschland

As negociações climáticas da ONU (Cop28), que tiveram lugar no Dubai em Dezembro, estão em crise antes mesmo de começarem. É por isso que a reunião final a nível ministerial antes da Cop28, na próxima semana, em Abu Dhabi, será particularmente importante. A razão da crise é o planeado fundo para perdas e danos, que se destina a ajudar os países pobres caso sejam atingidos por uma catástrofe natural amplificada pela crise climática. A criação deste fundo foi decidida no ano passado, o que foi aclamado como o maior sucesso da conferência de Sharm el-Sheikh. Este ano, um comitê deveria ter negociado como o fundo funcionaria. Foram organizadas três reuniões para este fim, mas não foi possível chegar a acordo, mesmo numa quarta reunião convocada de emergência.

Os países industrializados, como os EUA e os países da União Europeia (UE), querem que o fundo de emergência fique sob a égide do Banco Mundial. Isso significa que pode ser usado mais rapidamente. Os países em desenvolvimento, por outro lado, consideram o Banco Mundial inadequado por várias razões: A taxa de gestão de 17% ao ano que o Banco Mundial pretende cobrar pelo fundo é claramente demasiado elevada, como afirmou Diann Black-Layne, representante de Antígua e Barbuda, disse criticando em uma das reuniões preparatórias. Além disso, o Banco Mundial concede principalmente empréstimos, razão pela qual tem muito pouca experiência com ajuda não reembolsável. Além disso, o Banco Mundial não pode apoiar directamente quaisquer organizações locais nos países afectados. E, finalmente, o Banco Mundial é antidemocrático porque o peso dos votos dos países é medido pela sua participação no capital da instituição multilateral.

Nesta situação, Sultan al-Jaber, presidente eleito da Cop28, apelou aos membros da comissão no último dia da reunião: “Não deixem esta tarefa para outra pessoa. Por favor, vamos terminar isso.” Mas isso também não ajudou e a reunião terminou na semana passada sem nenhum resultado.

Agora, os ministros do ambiente e dos Negócios Estrangeiros terão de encontrar uma forma, na próxima semana, de pelo menos resolver a disputa sobre o Banco Mundial. Porque essa disputa deveria ser a mais fácil de resolver. Depois, há várias questões muito mais difíceis: quanto dinheiro o fundo deve receber? Quem paga o fundo, apenas os países industrializados ou os países em desenvolvimento ou talvez até o transporte marítimo internacional , que é considerado um dos maiores poluidores? E por último: quem tem direito ao apoio do fundo? Em todas estas questões, os países desenvolvidos e em desenvolvimento têm posições diametralmente diferentes. Os países industrializados, por exemplo, querem que apenas os “países mais vulneráveis” recebam apoio do fundo. Os países em desenvolvimento, por outro lado, afirmam que não existe uma definição de “países vulneráveis” e querem que todos os países em desenvolvimento possam candidatar-se ao fundo.

Para termos tempo suficiente para as questões mais difíceis durante as negociações climáticas da ONU, seria bom que pelo menos a questão do Banco Mundial pudesse ser esclarecida antes da conferência. Se isso terá sucesso, veremos na próxima semana. Só então os ministros poderão definir a direcção e então – numa quinta reunião de emergência do comité preparatório – esta direcção poderá então ser elaborada em detalhe pelos diplomatas.

Se isso não acontecer, a Cop28 será difícil, segundo diversas organizações ambientalistas. Jan Kowalzig, da organização de desenvolvimento Oxfam, disse: “Se os pontos controversos permanecerem sem solução mesmo após a próxima reunião do comité, o sucesso da Cop28 será mais difícil de alcançar.” Christoph Bals, da organização ambiental Germanwatch, diz porque é que isto acontece: “Isso poderia ter uma consequência muito infeliz para a dinâmica da Cop.” Porque os cerca de 100 países mais vulneráveis ​​juntar-se-iam então à aliança com o G77 e a China porque se prometeriam protecção contra os países industrializados, pensa Bals. “Isso reduz as chances de surgirem as alianças construtivas necessárias que levarão o policial ao sucesso além da área de perdas e danos.”

Estas alianças serão cruciais numa segunda questão financeira que envolve muito mais dinheiro do que o fundo de perdas e danos: a nova meta de 100 bilhões de dólares. Em 2009, os países industrializados comprometeram-se a apoiar os países em desenvolvimento com 100 bilhões de dólares anuais até 2025. O que acontecerá a seguir deverá ser decidido o mais tardar no próximo ano. E então surgem novamente as mesmas questões: quem paga e quem recebe o dinheiro da ajuda climática? m comparação, a disputa com o Banco Mundial é apenas um exercício de aquecimento.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo “Neues Deutschland” [Aqui!].

Falhas na política de regulação de agrotóxicos na África constituem um risco para a saúde humana

É necessária uma legislação mais forte para conter o influxo de produtos pesticidas ilegais em África, afirma o especialista em riscos químicos Fredrick Otieno

Fumigation1Um  agricultor pulverizando agrotóxicos em suas plantações. A África está utilizando mais agrotóxicos, mas não existem leis, regras e políticas suficientes para proteger os agricultores dos efeitos nocivos, afirma o especialista químico. Direitos autorais: Chris Quintana/IRRI Photo , CC BY-NC-SA 2.0 DEED) .

Por Stephanie Achieng’ para a SciDev

[NAIROBI] África está utilizando mais agrotóxicos, mas não existem leis, regras e políticas suficientes para proteger os agricultores dos efeitos nocivos, diz Fredrick Otieno, gestor de riscos químicos e planejador ambiental do Centro para Justiça e Desenvolvimento Ambiental em Nairobi.  

“Embora muitos países tenham melhorado os seus quadros regulamentares sobre agrotóxicos no passado recente, em linha com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Código de Conduta da Organização Mundial de Saúde sobre a Gestão de Pesticidas, a sua legislação não aborda adequadamente os riscos colocados. , especialmente para Pesticidas Altamente Perigosos (PAPs)”, diz Otieno.

Os PAPs são agrotóxicos que causam danos graves e por vezes irreversíveis ao ambiente e à saúde humana . Resultam em milhões de casos de envenenamento não intencional todos os anos, muitas vezes em países de rendimentos mais baixos, segundo a FAO, sendo as mulheres e as crianças que trabalham em ambientes agrícolas as mais afetadas.

“É necessário reforçar os esforços de fiscalização do mercado para garantir que os pesticidas ilegais (não registados e contrafeitos) sejam identificados e que as pessoas que os vendem sejam processadas.”

Frederick Otieno, Centro para o Desenvolvimento Ambiental e da Justiça, Quênia

O registo de produtos agrícolas de controlo de pragas deveria ser exigido por lei e os agricultores deveriam poder obter licenças para trazer pesticidas registados para um país, diz Otieno, acrescentando que qualquer pessoa que desrespeite as regras deve ser penalizada.

Mas nem sempre é esse o caso.

A fiscalização do mercado para reduzir as importações e a utilização ilegais em África é muitas vezes inexistente devido aos recursos limitados e as vendas e utilização ilegais de produtos químicos são comuns.

Para enfrentar este desafio,  as agências governamentais devem trabalhar em conjunto nos postos de fronteira e dentro dos países para garantir que os registos de pesticidas permanecem válidos, diz Otieno.

“Os agrotóxicos não devem manter seu registro indefinidamente”, explica Otieno.

“A lei deveria prever revisões periódicas dos produtos registrados para controle de pragas. Isto garante que os agrotóxicos que são problemáticos nas condições locais de utilização possam ser identificados e cancelados ou a sua utilização restringida.”

Uma revisão regular dos produtos químicos ainda é um desafio em África. O Código Internacional de Conduta sobre Gestão de Agrotóxicos recomenda que as leis sobre pesticidas permitam a revisão dos produtos aprovados para controlo de pragas. Se surgirem novas informações sobre como estes produtos afectam a saúde das pessoas e o ambiente, a lei deverá permitir o cancelamento do seu registo.

Informando os agricultores

Muitos agricultores da África Subsariana obtêm agrotóxicos através de programas e subsídios governamentais, mas nem todos têm ao seu alcance informações para avaliar quais os produtos químicos que são seguros.

“Para ajudar os agricultores a saber quais agrotóxicos estão registrados, é fundamental que uma lista atualizada destes produtos esteja disponível publicamente e acessível gratuitamente aos agricultores”, diz Otieno.

Ele acrescenta que os agricultores e outros utilizadores de agrotóxicos precisam de saber como verificar se um determinado produto está listado. Alguns países utilizam códigos para verificação de produtos.

“Todos os vendedores de agrotóxicos devem ser licenciados e um programa de fiscalização deve ser desenvolvido e implementado”, acrescenta Otieno.

“É necessário reforçar os esforços de fiscalização do mercado para garantir que os agrotóxicos ilegais – não registrados e contrafeitos – sejam identificados e as pessoas que os vendem sejam processadas.”

O governo deveria trabalhar para se livrar gradualmente dos agrotóxicos altamente perigosos porque os agricultores, especialmente os pequenos agricultores, não conseguem proteger-se dos riscos que eles trazem.

Otieno aconselha que os programas de serviços de pulverização devem ser financiados pelos governos para garantir que apenas trabalhadores qualificados comprem e utilizem agrotóxicos. “Isso reduzirá o uso e a venda ilegais de agrotóxicos”, diz ele.

Rotulagem de agrotóxicos

O Sistema Globalmente Harmonizado de classificação e rotulagem de produtos químicos estabelece padrões sobre como os agrotóxicos devem ser rotulados, para garantir que sejam utilizados corretamente.

“A maioria dos rótulos contém informações sobre como usá-los e o que fazer se você se machucar com eles”, diz Otieno.

No entanto, na maioria das vezes os rótulos não fornecem informações sobre os riscos e efeitos potencialmente nocivos dos produtos – conhecimento que é crucial para os agricultores que compram e utilizam agrotóxicos.

Otieno diz que as advertências na maioria dos rótulos dos agrotóxicos não são suficientes para manter as pessoas protegidas dos danos que causam. Ele deseja que todos os produtos cumpram as diretrizes globais de rotulagem.

Reavaliação do produto

O Código de Conduta sobre Gestão de Agrotóxicos afirma que reavaliar os produtos é uma boa forma de reduzir os danos que eles podem causar quando são utilizados.

“Quando são identificados riscos para a saúde ou para o ambiente de um agrotóxico que já está registrado,  eles devem ser colocados sob revisão sempre que a lei assim o preveja, ou a autoridade responsável pelo seu registro pode ser solicitada a reavaliar esses produtos por qualquer pessoa ou organização, ”, afirma o código.

Em alguns países africanos, a lei já estabelece que os agrotóxicos registrados podem ser revistos se surgirem novas informações que eram desconhecidas no momento do registo.

No entanto, estes países raramente têm orçamento para reavaliar os produtos de controlo de pragas registrados quando surgem novas informações sobre riscos para a saúde e ambientais.

“Sou da opinião que a informação deve ser comunicada à autoridade responsável pelo registo e gestão de agrotóxicos ou qualquer outro organismo que possa ser determinado através da utilização das informações de contacto constantes do rótulo do produto pesticida num país”, diz Otieno.

“Se a informação for comunicada apenas ao fabricante, por vezes pode ser ocultada e não divulgada ao público ou à autoridade competente.”

Regulamentação mais forte

Para fortalecer os quadros regulamentares, as leis, regras e outras leis relacionadas com agrotóxicos devem estar alinhadas com o Código Internacional de Conduta sobre Gestão de Agrotóxicos, e estas leis devem ser revistas regularmente, acredita Otieno.

Ele quer que todos os governos proíbam a importação, distribuição, venda e compra de agrotóxicos altamente perigosos e revisem regularmente os produtos registrados para evitar danos às pessoas, aos animais e ao ambiente.”  

Este artigo é apoiado pelo  PlantwisePlus , um  programa global liderado pelo CABI para ajudar os países a prever, prevenir e preparar-se para ameaças à saúde das plantas – garantindo assim que os agricultores reduzam as perdas nas colheitas e produzam a quantidade de alimentos necessária e também melhorem a qualidade dos alimentos cultivados. , face a um clima em mudança. 

Esta peça foi produzida pelo departamento de inglês da África Subsaariana do SciDev.Net.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela SciDev [Aqui!].

Indústria automobilística dos EUA – vale a pena fazer greve

O sindicato UAW obteve um importante sucesso parcial na disputa trabalhista na indústria automobilística dos EUA

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Membros do UAW em um comício fora da fábrica da Ford em Louisville, Kentucky. Foto: Rede IMAGO / USA TODAY
Por Julian Hitschler para o “Neues Deutschland”

“Lutamos por concessões que ninguém imaginaria serem possíveis”, disse o presidente do sindicato automobilístico norte-americano United Auto Workers (UAW), Shawn Fain, sobre o acordo preliminar para um novo contrato coletivo com a Ford. Ele tem razão, porque o acordo pode ser impressionante: dentro do período de contrato de três anos, os salários regulares aumentarão num total de 25%. A oferta original da Ford era de 9%. Além disso, há um reajuste inflacionário, que foi abolido após a crise financeira de 2008. A sua reintegração é uma das muitas concessões que o UAW conseguiu obter.

No entanto, as melhorias para os trabalhadores que não fazem parte da força de trabalho permanente são absolutamente revolucionárias: os salários iniciais deverão aumentar 68%. Para os trabalhadores temporários, os salários mais que duplicarão. No entanto, o UAW não conseguiu fazer com que o sistema de escala móvel, que coloca os funcionários com menos experiência profissional numa posição significativamente pior, fosse abolido em toda a empresa. No entanto, em certas empresas deve ser descontinuado.

O sucesso do UAW mostra que vale a pena lutar pelos trabalhadores, especialmente numa altura em que o aumento dos lucros empresariais está impulsionando o aumento da inflação. “Lucros recordes significam acordos recordes”, como enfatizou repetidamente o UAW. Com o acordo agora alcançado, após semanas de greves contínuas em que a liderança sindical fechou estratégica e cuidadosamente fábricas individuais, os trabalhadores da Ford estão recuperando uma parte considerável dos salários e, portanto, aumentando também a pressão sobre as empresas automóveis  GM e Stellantis cujos trabalhadores ainda estão em greve. Este sucesso, semelhante aos acordos de negociação colectiva do grupo hospitalar Kaiser Permanente ou do prestador de serviços logísticos UPS, mostra que os sindicatos dos EUA estão novamente prontos para desafiar seriamente as empresas.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal Neues Deustchland [Aqui!].