Circulação de águas do Atlântico pode enfraquecer de modo inédito até 2100 e impactar chuva na Amazônia

Combinando dados de pesquisa de campo com projeções de modelos climáticos, estudo reconstituiu a atividade da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico – um dos principais motores do clima terrestre – ao longo de todo o Holoceno. Cenários projetados para o futuro não têm precedentes nos últimos 6.500 anos

Equipe reuniu cientistas da Alemanha, da Suíça e do Brasil: efeitos mais graves podem ocorrer no norte da Amazônia, com redução drástica do regime de chuvas (imagem: CEN/Universität Hamburg)

Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP  

A Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico – conhecida pela sigla em inglês Amoc (Atlantic Meridional Overturning Circulation) – é um dos principais “motores” do clima terrestre. Ela funciona como uma esteira oceânica que transporta calor e nutrientes, conectando águas superficiais da porção tropical com águas profundas da região norte. Alterações nesse sistema sempre estiveram associadas a mudanças abruptas do clima global, como as que marcaram a última era glacial.

Um novo estudo mostra que, nos últimos 6.500 anos, a Amoc se manteve estável, após um período de oscilações durante o início do Holoceno. Mas que essa estabilidade se encontra agora ameaçada. Combinando dados de pesquisa de campo com projeções dos melhores modelos climáticos, o trabalho indica que as mudanças causadas pela ação humana podem levar a um enfraquecimento da circulação sem precedentes no período recente da história da Terra. O norte da Amazônia, justamente a parte mais preservada da floresta, pode ser fortemente afetado, com uma drástica redução do regime de chuvas.

Os resultados foram publicados no periódico Nature Communications.

A equipe internacional que realizou o estudo reuniu cientistas da Alemanha, da Suíça e do Brasil. Utilizando testemunhos de sedimentos marinhos coletados em diferentes pontos do Atlântico Norte e análises de elementos radioativos – tório-230 e protactínio-231 –, os pesquisadores reconstruíram quantitativamente a intensidade da Amoc ao longo de todo o Holoceno – os últimos 12 mil anos.

“Esses elementos radioativos são produzidos de forma constante na coluna d’água a partir do urânio. Como o tório se fixa rapidamente em partículas, enquanto o protactínio permanece mais tempo em circulação, a razão protactínio-tório registrada nos sedimentos fornece um ‘proxy’ da intensidade da circulação oceânica. Valores mais altos indicam enfraquecimento, e valores mais baixos, intensificação”, explica Cristiano Mazur Chiessi, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e coautor do estudo.


Representação esquemática da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico (seta em azul claro e vermelho), que transporta, perto da superfície, águas quentes do sul para o norte; e, em profundidades intermediárias, águas frias do norte para o sul. O desenho também mostra uma outra célula (seta em azul escuro), que transporta águas em grande profundidade (imagem: croqui de Cristiano Mazur Chiessi a partir de informações de Voigt et al., 2017)

Para transformar os dados de campo da razão protactínio-tório em valores de fluxo de água, a equipe utilizou o Bern3D, um modelo do sistema terrestre desenvolvido na Universidade de Berna, na Suíça, que simula oceanos, atmosfera e ciclos biogeoquímicos, permitindo converter registros de sedimentos em estimativas quantitativas da circulação oceânica. Isso permitiu estimar a intensidade da circulação em Sverdrups (Sv) – 1 Sv equivalente a 1 bilhão de litros por segundo.

Os resultados mostraram que, após o fim da última glaciação, a Amoc levou cerca de 2 mil anos para se recuperar do estado enfraquecido. Entre 9,2 mil e 8 mil anos atrás, sofreu novo declínio, associado ao aporte de água doce no Atlântico Norte decorrente do derretimento de geleiras e lagos glaciais, como o Lago Agassiz, no Canadá e nos EUA. Esse período incluiu o chamado “evento 8,2 ka”, registrado em testemunhos de gelo da Groenlândia como um dos episódios de resfriamento mais intensos do Holoceno. A partir de 6,5 mil anos atrás, no entanto, a circulação se estabilizou em torno de 18 Sv. E manteve essa intensidade até o presente.

“Reconstituímos o avanço das águas profundas do Atlântico Norte rumo ao Atlântico Sul ao longo de 11.500 anos. E, nos últimos 6.500 anos, não detectamos nenhuma oscilação maior, minimamente próxima daquilo que está projetado para 2100”, afirma Chiessi. “O cenário futuro é muito preocupante. E deve ser levado a sério tanto pelos governos quanto pela sociedade civil, incluída a comunidade científica.”

Segundo o pesquisador, o enfraquecimento projetado vai causar mudanças nas chuvas de todo o cinturão tropical do planeta, especialmente na América do Sul e na África, mas também afetando o sistema de monções da Índia e do Sudeste Asiático.

Impacto sobre a Amazônia

Um dos impactos mais importantes deverá ocorrer na Amazônia. “Projetamos uma marcante diminuição das chuvas no norte da Amazônia, justamente a região mais preservada da floresta. Esse efeito poderá ocorrer porque as chuvas equatoriais tenderão a se deslocar para o sul com o enfraquecimento da circulação do Atlântico. Com isso, o norte da Amazônia, abrangendo áreas do Brasil, da Colômbia, da Venezuela e das Guianas, poderá enfrentar reduções significativas na pluviosidade”, projeta Chiessi.

O pesquisador enfatiza que a gravidade desse cenário é ainda maior porque se trata da porção mais preservada da floresta. Diferentemente do sul e do leste amazônicos, onde o desmatamento e a degradação já avançaram fortemente, o norte tem funcionado como um “porto seguro” de biodiversidade. “É justamente nessa região, até agora menos impactada, que a mudança climática poderá impor uma vulnerabilidade nova e dramática”, observa.


Coleta de coluna sedimentar do fundo do Mar de Labrador, no Atlântico Norte, entre o Canadá e a Groenlândia. A coluna sedimentar coletada nesse local serviu como base para o artigo científico (foto: Stefan Mulitza)

Estudo anterior, publicado em 2024 por Thomas Kenji Akabane e colaboradores, entre eles o próprio Chiessi, já havia alertado para essa possibilidade. Por meio de registros de pólen e carvão microscópico em sedimentos marinhos, os cientistas mostraram nesse trabalho que enfraquecimentos passados da Amoc levaram à expansão de vegetação sazonal em detrimento das florestas úmidas do norte amazônico. E os modelos indicam que um enfraquecimento semelhante no futuro produziria impactos ainda maiores, uma vez que seriam agravados pelo desmatamento e pelas queimadas em outras partes da bacia.

Ponto de não retorno?O arrefecimento da Amoc poderá configurar um ponto de não retorno no sistema climático global. Se confirmadas as projeções, ocorrerá uma ruptura sem precedentes na circulação oceânica que sustenta o equilíbrio do clima do planeta. Há consenso entre os pesquisadores especializados de que o enfraquecimento constitui uma clara tendência. Mas os dados ainda não permitem saber se já está ocorrendo ou não. “Os monitoramentos diretos começaram apenas em 2004 e o oceano responde mais lentamente do que a atmosfera. Por isso, os registros são ainda insuficientes para uma resposta conclusiva. Porém, apesar dessa incerteza, a urgência de agir é inegociável. Ainda existe tempo, mas nossas ações precisam ser robustas, rápidas e conectadas, envolvendo governos e sociedade civil”, alerta Chiessi.

Como já foi dito em evento realizado na FAPESP, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que ocorrerá em novembro deste ano em Belém, no Pará, constitui uma janela de oportunidade que não pode ser desperdiçada (leia mais em: agencia.fapesp.br/54611 e agencia.fapesp.br/55727).

Os dois estudos contaram com apoio da FAPESP por meio dos projetos 18/15123-419/19948-0 21/13129-8.

O artigo Low variability of the Atlantic Meridional Overturning Circulation throughout the Holocene pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41467-025-61793-z.


Fonte: Agência Fapesp

Estamos perdendo a cabeça?

Um novo documento de posicionamento alerta contra a adoção acrítica da IA ​​no meio acadêmico

Por Kent Anderson para o “The Geyser” 

Vale a pena ler um recente documento de posicionamento de um grupo internacional composto por especialistas da Holanda, EUA, Alemanha e Dinamarca como um antídoto ao exagero em torno da Inteligência Artificial (IA) ​​— que parece estar perdendo força por muitos dos motivos explorados no trabalho, outro sinal de que “ o inverno da IA ” pode estar chegando.

O público-alvo do artigo é o meio acadêmico, incluindo cientistas e profissionais da ciência, um grupo que inclui editores científicos:

Neste documento de posicionamento, explicamos por que as universidades devem levar a sério seu papel de a) combater o marketing, o exagero e os danos da indústria de tecnologia; e b) proteger o ensino superior, o pensamento crítico, a expertise, a liberdade acadêmica e a integridade científica.

Tópicos pesados, mas esses são os dias em que vivemos.

Os autores sabem o que fazem e começam com uma citação surpreendentemente boa de 1985:

A cultura da IA ​​é imperialista e busca expandir o reino da máquina.

Sim, isso definitivamente ainda é verdade…

No entanto, os autores têm bastante munição própria:

IA sempre foi uma frase de marketing que corrói a integridade científica e a discussão acadêmica por natureza, deixando a porta aberta para pseudociência, exclusão e vigilância.

Eles lançam luz sobre os problemas de definição da expressão “inteligência artificial”, observando que um coração artificial bombearia sangue, fazendo a função que imita. A IA não faz isso. Eles também observam que o termo “inteligência” é vago e carregado de um histórico de eugenia, racismo e capacitismo, portanto, quando aceitamos as alegações antropomórficas da IA, estamos nos tornando suscetíveis a sermos enganados por um sistema que tem problemas em sua essência.

Termos como “frames falsos” e “software lixo” me fizeram querer comemorar lendo o artigo, já que este último foi um que usei outro dia para responder a um entusiasta de IA — afinal, IAs não conseguem somar de forma confiável, jogar xadrez sem quebrar as regras do próprio sistema de armazenamento e assim por diante. Um lixo completo.

Descrevendo a IA como uma “tecnologia colonizadora” — o que significa que ela busca dominar qualquer campo em que seja usada — os autores rejeitam a “degradação e o desmantelamento da expertise e a desumanização dos acadêmicos”, observando que os proponentes da IA ​​rejeitam tacitamente a “autodeterminação livre das forças da indústria”.

Quanto ao uso da IA ​​como uma muleta, eles escrevem: “Os LLMs não melhoram a capacidade de escrita de alguém, assim como pegar um táxi não melhora a capacidade de dirigir de alguém”.

  • Em uma nota relacionada, um autor gracejou sobre Bluesky: “Correlação não é cognição”.

Os autores também sabem que precisamos seguir em frente, então eles oferecem cinco princípios para um futuro melhor com a IA ainda viável, mas colocada em seu lugar:

  • Honestidade  não use IA secretamente e não faça afirmações sobre ela que você não pode provar
  • Escrupulosidade  usar a IA apenas de formas científicas bem especificadas e validadas
  • Transparência  tornar toda a IA de código aberto e computacionalmente reproduzível
  • Independência garantir que qualquer pesquisa seja imparcial em relação às agendas das empresas de IA
  • Responsabilidade  não use produtos de IA que prejudiquem animais, pessoas ou o meio ambiente

Com o ceticismo em relação à IA aumentando desde o lançamento do GPT-5 e como ele caiu com um estrondo apesar do enorme hype, é ótimo ler um artigo de posicionamento escrito por pessoas que tratam isso como tecnologia, uma tecnologia que deve ser avaliada a todo momento como uma tecnologia — e não como uma tecnologia particularmente boa, compatível, eficiente, inevitável ou segura.

Para a academia, a IA é parte de um ataque tecno-utópico a todo o sistema. Não é uma ótima tecnologia nova projetada para nos ajudar a evitar tarefas domésticas. Como escreve uma de suas fontes: “Quando você terceiriza o pensamento, terceiriza o aprendizado”.

Espero que este documento sirva como um alerta.


Fonte: The Geyser

Como espécies introduzidas pela ação humana desequilibram ecossistemas

Estudo do Laboratório de Ecologia e Conservação do Departamento de Engenharia Ambiental da UFPR aponta que animais inseridos no ambiente por ação humana têm mais chances de sobreviver do que os nativos, podendo levar a catástrofes ecológicas

Como espécies introduzidas pela ação humana desequilibram ecossistemas Estudo do Laboratório de Ecologia e Conservação do Departamento de Engenharia Ambiental da UFPR aponta que animais inseridos no ambiente por ação humana têm mais chances de sobreviver do que os nativos, podendo levar a catástrofes ecológicas

Florestas destruídas por castores na Patagônia Argentina, em Tierra del Fuego. Foto: denisbin/Flickr

Por Lívia Inácio para o Ciência UFPR 

Em 1946, o governo argentino introduziu dez pares de castores canadenses na Tierra del Fuego, província no extremo sul do país. A ideia era fomentar a produção de casacos de pele, mas a população desses animais cresceu acima do esperado, o que levou à destruição de florestas inteiras. Situações assim, em que espécies introduzidas pela ação humana (as chamadas espécies exóticas invasoras) desequilibram ambientes sem preparo para recebê-las, são comuns no mundo todo. E um estudo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que analisou pesquisas sobre o tema, concluiu que as espécies colocadas no novo ecossistema são mais eficazes em consumir recursos em comparação às nativas, causando desequilíbrio a longo prazo.

Essa hipótese já vinha sendo debatida por diversos autores, mas, pela primeira vez, foi testada com base em evidências quantitativas globais. A metanálise de estudos experimentais comparativos entre espécies nativas e exóticas foi conduzida pela bióloga Larissa Faria, doutoranda do Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR, orientada pelo professor Jean Vitule, do Departamento de Engenharia Ambiental.

O estudo, financiado pelo CNPq e Fulbright, contou ainda com a colaboração dos pesquisadores Jonathan Jeschke e James Dickey, associados à Freie Universität Berlin, da Alemanha; Ross Cuthbert e Jamie Dick, da Queen’s University Belfast, do Reino Unido; e Anthony Ricciardi, da McGill University, do Canadá.

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Para ser considerada invasora, uma espécie precisa estar aumentando sua população e causando algum impacto, explica Faria. Em alguns casos, a introdução delas é intencional para cultivo, pesca, caça esportiva ou ornamentação, mas há situações acidentais, como ocorre no vazamento de água de lastro de navios ou em escapes de cultivos. Em todas elas, existe interferência humana.

“As espécies invasoras representam risco pois são elementos novos em um ecossistema que evoluiu sem a presença delas. Isso causa um desequilíbrio ecológico, que pode ter impactos ambientais, sociais e econômicos”, diz a pesquisadora.

Faria exemplifica o fenômeno com a introdução da perca-do-Nilo no Lago Vitória, na África. O animal foi inserido para aumentar a produção pesqueira, mas, por ser um predador de grande porte, levou à devastação de diversas espécies nativas de peixes. Muitas foram extintas por serem vulneráveis a esse novo predador e não estarem preparadas para se defender dele.

Outro exemplo foi a introdução de javalis para corte de carne exótica no Brasil. Hoje, o animal está presente nos seis biomas brasileiros e em 2010 munícipios, causando impactos à saúde pública.

Domínio das espécies nativas é maior entre animais de água doce

O estudo da UFPR descobriu que as espécies nativas geralmente levam mais tempo para consumir suas presas e, consequentemente, consomem menos presas do que uma espécie exótica em um mesmo intervalo. Essa diferença na eficiência em consumir recursos pode explicar o impacto das espécies exóticas invasoras.

“O estudo mostra que as taxas máximas de consumo das espécies não nativas são, em média, 70% superiores do que as taxas das espécies análogas nativas”, diz o professor Vitule.

A pesquisa constatou também um desequilíbrio especialmente intenso entre moluscos, herbívoros e animais de água doce e há duas hipóteses para isso: a primeira tem a ver com o fato de que estudos com invertebrados e em ambientes de água doce são mais comuns porque podem ser realizados em pequenos aquários, sendo facilmente operacionalizados. Por isso, são necessários mais estudos em ecossistemas maiores, e com maior realismo, como em mesocosmos (sistemas experimentais projetados para simular um ecossistema sob condições controladas) e experimentos naturais.

Outra hipótese vem do fato de que ambientes aquáticos são isolados uns dos outros e, por isso, têm uma fauna específica que evoluiu adaptada às condições daquele local, com poucos mecanismos de defesa para lidar com ameaças externas.

“O que não sabemos ainda é se a superioridade das espécies exóticas pode ser explicada por algo intrínseco a elas ou se está mais relacionada a uma ingenuidade das presas que não conseguem escapar de maneira eficaz dos predadores até então desconhecidos”, diz Faria.

Ecólogos defendem maior fiscalização e divulgação do tema

Mas existe uma forma totalmente segura de inserir uma nova espécie em um ambiente? Segundo a pesquisadora, não. Isso porque é difícil prever os desdobramentos possíveis no novo local. Nesse sentido, ecólogos defendem a adaptação de espécies nativas para o cultivo intensivo em vez da inserção de novas espécies.

O problema é tão sério que o Brasil possui ao menos 85 instrumentos legais sobre esse tema na esfera federal, entre leis, decretos e instruções normativas, e legislações específicas de cada estado. Além disso, a introdução de espécies exóticas sem autorização é crime ambiental, de acordo com a Lei de Crimes Ambientais 9605/1998.

Apesar disso, especialistas pedem mais esforços em prol dessa pauta, como uma maior fiscalização e divulgação do tema. “Não adianta haver uma lei proibindo, se as pessoas não sabem o que é uma espécie exótica invasora e soltam o estoque excedente de tilápias do seu pesque-pague no riozinho mais próximo da sua propriedade, por exemplo”, diz Faria.

Nesse sentido, o estudo da UFPR pode contribuir com o desenvolvimento de novas políticas públicas e protocolos que previnam desastres ambientais decorrentes da introdução de espécies exóticas invasoras, segundo Vitule.

Os próximos passos envolvem aplicar ainda mais o método experimental comparativo para investigar os impactos de espécies exóticas invasoras, a influência das mudanças climáticas e múltiplas invasões nesses movimentos. Cientistas pretendem ainda aumentar a quantidade de estudos em diferentes tipos de habitat e com grupos taxonômicos variados, para trazer mais robustez às evidências obtidas.

“A metodologia que estudamos poderia ser aplicada em protocolos oficiais de avaliação de impacto de espécies exóticas invasoras no país, auxiliando na prevenção de novas introduções ou na erradicação rápida das espécies já introduzidas que forem avaliadas como mais problemáticas do ponto de vista do consumo de recursos”, diz Faria.

➕ Leia o artigo Non-native species have higher consumption rates than their native counterparts“, publicado no periódico Biological Reviews (aberto; em inglês)

➕ Leia o artigo “Biological invasions: a global assessment of geographic distributions, long-term trends, and data gaps“, também publicado na Biological Reviews (aberto; em inglês)

➕ Leia o capítulo “Invasive species policy in Brazil: a review and critical analysis, publicado no livro Environmental Conservation, da editora Cambridge University Press (fechado; em inglês)


Fonte: Ciência UFPR

Algo coerente aconteceu em Campos dos Goytacazes: em uma terra de exclusão, excluiu-se o “Grito dos Excluídos”

Manifestação do “Grito dos Excluídos” em Campos dos Goytacazes/2025:  reprimida como sempre é

O chamado “Grito dos Excluídos” é uma iniciativa que nasceu há exatos 30 anos como resultado de ações organizadas em prol dos pobres pela  Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ao longo dessas três décadas, organizações sociais do campo e da cidade se utilizam das celebrações do Dia da Independência para lembrar que somos uma sociedade extremamente desigual e demandar que mudam sejam feitas para gerar uma sociedade mais justa para a maioria dos brasileiros pobres.

Obviamente o “Grito dos Excluídos”  nunca foi bem visto pelos governantes que organizam os atos oficiais do 7 de Setembro que preferem cerimônias militarizadas nas quais os pobres são, quando muito, expectadores passivos de desfiles que reforçam aquilo que o “Grito” demanda que seja mudado.

Aqui em Campos dos Goytacazes, a recepção nunca foi boa.  Na última vez que participei, o “Grito” foi barrado nos portões do CEPOP e só pode entrar quando o desfile oficial já tinha sido encerrado e as arquibancadas esvaziadas rapidamente. E o resultado foi que não tinha mais ninguém para ver as faixas e ouvir os gritos do “Grito”.  Eis que ontem, além de se impedir a entrada do Grito, usou-se da violência que é ensaiada todos os anos no momento em que os ativistas e populares participando da manifestação tentam exercer o direito democrático de serem ouvidos. 

 Soube hoje que até sobrou denúncia de um ato de racismo para um dirigente do Partido dos Trabalhadores (PT) que foi preso e enviado para ser encarcerado na Casa de Custódia Dalton Crespo de Castro. Esse caso me parece um exemplo de como se pode punir o mensageiro, deixando a razão da mensagem intacta: foi denunciar a desigualdade e as injustiças sociais e demandar equidade, e acabou preso por racismo.  

Mas, convenhamos, em uma cidade que exala exclusão e injustiça social por todos os seus becos e avenidas, excluir o Grito dos Excluídos faz todo sentido. Impossível mesmo seria, pelo menos no governo Wladimir Garotinho, permitir que o Grito dos Excluídos abrisse as festividades da independência para que possamos começarmos a construir uma sociedade melhor para a maioria pobre que compõe a população brasileira.  Afinal, Wladimir, mesmo com o seu jeito “clean”, não esconde o lado que ocupa no espectro ideológico brasileiro.

Ah, sim, espero estar vivo e saudável o suficiente para participar do Grito dos Excluídos de 2026. É que as condições objetivas para a manutenção da realização do Grito certamente serão mantidas intactas por quem grita “Semiárido”, e reprime quem ousar gritar contras injustiças que castigam os pobres desta pobre cidade rica.

Observatório dos Agrotóxicos: governo Lula libera mais 42 agrotóxicos e mantém marcha do envenenamento

Nesta segunda-feira (08/9), o governo Lula liberou o registro de mais 42 agrotóxicos por meio do Ato No. 41 de 05 de setembro de 2025, mantendo firme a marcha do veneno como ferramenta de primeira hora para a manutenção de um modelo de agricultora fortemente dependente de venenos agrícolas. Todos esses produtos na condição de produto técnico que são a forma concentrada que depois é transformada em produtos formulados que são os que são aplicados nos campos agrícolas.

Como já tem sido acompanhado desde janeiro de 2019, este ato mantém as características de liberar registros de produtos pertencentes a empresas chinesas, confirmando a China como principal fornecedora de agrotóxicos para o Brasil. Essa não é um característica que ocorre ao acaso, na medida em que a China é hoje a principal compradora dos principais produtos da agricultura de exportação brasileira. Além disso, fica patente o padrão de troca desigual entre os produtos brasileiros e chineses, já que os preços das commodities brasileiras estão sujeitas a momentos de queda, enquanto os preços dos agrotóxicos possuem perfil de alta constante.

Por outro lado, está confirmada a opção por agrotóxicos genéricos, muitos proibidos nos países cujas empresas possuem as patentes dos produtos originais. Com isso, aumenta a exposição ambiental e humana a produtos conhecidos por serem causadores de danos sobre a cadeia biótica, alcançando os seres humanos. Um destaque negativo é a aprovação de registros do herbicida Diquat, desenvolvido originalmente pela sino-chinesa Syngenta, que tem sido associado a problemas neurológicos por ser neurotóxico.

Mais essa rodada de aprovações de registros apenas confirmam que o governo Lula não tem feito o esforço necessário para diminuir o uso de agrotóxicos pela agricultura brasileira, o que representa um abandono das promessas eleitorais em prol de um modelo de agricultura menos dependente de venenos.

Apenas um de 81 projetos para economia marítima brasileira beneficiou comunidades tradicionais

pesca artesanal e economia azulDe um montante de R$ 22 bi, apenas R$ 8 mil foram direcionados à pesca artesanal

A economia marítima brasileira, chamada de Economia Azul, é frequentemente apresentada como uma oportunidade para conciliar crescimento econômico e sustentabilidade. Porém, ela tem se desenvolvido de forma desigual, pois ignora os povos do mar e comunidades pesqueiras tradicionais, que são afastadas da distribuição dos benefícios oceânicos.

Publicado em 4 de setembro na revista Desenvolvimento e Meio Ambiente, o trabalho mostra que os investimentos nacionais priorizam o potencial de grandes empreendimentos econômicos e setores como petróleo e gás, indústria naval, portuária, transporte marítimo, turismo, biotecnologia marinha e mineração em mar profundo.

Os pesquisadores analisaram as interações entre a pesca artesanal e as políticas de Economia Azul no Brasil entre 2012 e 2020. Para isto, revisaram literatura acadêmica e relatórios técnicos, analisaram dados de cinco plataformas nacionais e internacionais sobre conflitos socioambientais e levantaram informações sobre investimentos de cinco bancos e agências internacionais. Dos 1.459 projetos identificados no Brasil no período, 81 foram classificados como ligados à Economia Azul – com investimentos de US$ 4 bi (cerca de R$ 22 bi). Porém, apenas um deles, com valor de US$ 1.500 (cerca de R$ 8 mil), foi diretamente voltado à pesca e aquicultura, indicando baixa prioridade para o setor.

O artigo identificou, no período, 133 casos de conflitos envolvendo pesca artesanal no país. Eles estão ligados a desenvolvimento costeiro, mudanças no uso do território (como degradação ambiental, especulação imobiliária e restrições de acesso) e atividades do setor energético, especialmente no Sudeste e Nordeste, como exploração de petróleo, energia eólica e usinas.

Iniciativas rotuladas como Economia Azul podem ser vistas como “projetos de morte” para essas comunidades, ameaçando seus territórios, causando degradação ambiental, perda de acesso a recursos e violação de direitos humanos, sem consulta prévia, livre e informada, conforme define uma das lideranças do setor da pesca entrevistadas pela pesquisa. A pesquisadora Deborah Prado, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e uma das autoras do artigo, comenta: “O que nos surpreendeu foi a clareza com que o cruzamento dos dados sobre conflitos e injustiças vivenciadas pelas comunidades a partir de uma série de base de dados revelou-se alinhado ao baixo investimento no setor, evidenciando um cenário mais crítico do que imaginávamos”.

Para fortalecer as comunidades pesqueiras e ribeirinhas e garantir uma Economia Azul mais justa — uma “Justiça Azul” –, os pesquisadores sugerem políticas que garantam a proteção dos territórios tradicionais de pesca, os “maretórios”, assegurando o acesso seguro ao espaço marinho e aos recursos; e a implementação de regulamentações e legislações específicas que considerem as particularidades e a diversidade da pesca artesanal. “Valorizar a cadeia produtiva do pescado artesanal significa fortalecer a resiliência dessas populações, preservar conhecimentos ecológicos tradicionais e contribuir para um modelo de Economia Azul mais inclusivo e sustentável”, explica Deborah Prado.

O grupo de pesquisa pretende dar continuidade aos estudos sobre o tema, visto que as análises do artigo abrangem dados até o ano de 2020.  As futuras pesquisas buscarão avaliar a participação social das comunidades pesqueiras nesse processo e como avançar em arranjos de governança costeira e marinha que sejam mais equitativos.


Fonte: Agência Bori

Os “patriotas” da Avenida Paulista enlameam a si mesmos. Depois ainda reclamam do azar

Como alguém que viveu vários anos nos EUA e ainda tenho lá um grande número de amigos e parceiros acadêmicos, tenho as melhores lembranças do aprendizado que eu consegui. Primeiro no Laboratório Nacional de Oak Ridge, passando pela Virginia Tech, e finalizando na Fairfield University.  Pude aprender e conhecer um pouco das profundezas da sociedade estadunidense, e as parcerias e camaradagens que tive serão sempre parte das minhas melhores memórias.  E sim, pude conhecer o que há de melhor, sem esquecer que ali também existem problemas sociais gravíssimos.

Por isso, mesmo sendo uma pessoa de esquerda a maior parte da minha vida, não sou um inimigo dos habitantes daquele país. É que eu sei que aquela é uma sociedade mais complexa do que os estereótipos nos fazem crer.  Eu sei também por experiência pessoal que existem por lá incontáveis lutadores sociais e defensores das mesmas causas que eu abracei e que me fazem agir todos os dias.  Sim, e que por lá as pessoas são capazes de exibiri extrema gentileza, camaradagem e compromisso por dias melhores para todos no planeta.

Pois bem, deixando as coisas claras, eu só posso lamentar por termos brasileiros que conseguem passar a vergonha de estender uma bandeira dos EUA no dia em que celebramos a independência do Brasil. É daqueles vexames que só gente muito alienada e complexada pode ser deixar passar.  A vantagem é que esses falsos patriotas nos mostraram hoje que deles não se pode esperar qualquer tipo de coerência e entendimento da realidade. É que ao segurar a bandeira dos EUA para defender as medidas arbitrárias do governo Trump contra a nossa soberania nacional, essas figuras trágicas e patéticas se colocam na nossa história como traidores da mesma exata estirpe de Joaquim Silvério dos Reis.

A verdade é que de patriotas como esses, o Brasil não precisa, e desejo que a história os coloque no seu devido lugar.

IA sinaliza centenas de periódicos científicos como potencialmente predatórios, revela estudo

Acompanhar a proliferação dos chamados “periódicos predatórios” tem sido uma tarefa árdua para os humanos, que optaram por usar IA para vasculhar uma lista de quase 15.200 periódicos de acesso aberto na internet, afirma Daniel Acuña, principal autor do estudo e professor associado do Departamento de Ciência da Computação da Universidade do Colorado em Boulder.

Acompanhar a proliferação dos chamados "periódicos predatórios" tem sido uma tarefa árdua para os humanos, então a equipe recorreu à IA para analisar uma lista de quase 15.200 periódicos de acesso aberto na internet, afirma Daniel Acuña, principal autor do estudo e professor associado do Departamento de Ciência da Computação da Universidade do Colorado em Boulder. Foto

Foto: Europa Press / Arquivo

Por La Jornada

Madri. Uma plataforma de inteligência artificial (IA) que busca periódicos científicos questionáveis ​​sinalizou mais de 1.400 como “potencialmente problemáticos” em uma lista de quase 15.200 periódicos de acesso aberto na internet.

O estudo, publicado na Science Advances e liderado pela Universidade do Colorado em Boulder, aborda uma tendência alarmante no mundo da pesquisa.

Daniel Acuña, principal autor do estudo e professor associado do Departamento de Ciência da Computação, recebe lembretes por e-mail várias vezes por semana: essas mensagens de spam vêm de pessoas que se passam por editores de periódicos científicos, geralmente aqueles dos quais Acuña nunca ouviu falar, oferecendo-se para publicar seus artigos por uma taxa alta.

Essas publicações são às vezes chamadas de periódicos “predatórios”. Elas têm como alvo cientistas, convencendo-os a pagar centenas ou até milhares de dólares para publicar suas pesquisas sem a devida verificação.

“Tem havido um esforço crescente entre cientistas e organizações para verificar esses periódicos”, disse Acuña. “Mas é como brincar de caça-toupeiras. Você pega um, e logo aparece outro, geralmente da mesma empresa. Eles simplesmente criam um novo site e dão um novo nome.”

A nova ferramenta de IA de seu grupo filtra automaticamente periódicos científicos, avaliando seus sites e outros dados online com base em certos critérios: os periódicos têm um conselho editorial com pesquisadores renomados? Seus sites contêm muitos erros gramaticais? Acuña enfatiza que a ferramenta não é perfeita. Em última análise, ele acredita que especialistas humanos, e não máquinas, devem tomar a decisão final sobre a reputação de um periódico.

Mas, em um momento em que figuras proeminentes questionam a legitimidade da ciência, conter a proliferação de publicações questionáveis ​​se tornou mais importante do que nunca, disse ele.

“Na ciência, você não começa do zero. Você constrói com base na pesquisa de outros”, disse Acuña. “Então, se a fundação daquela torre desabar, tudo desaba.”

Extorsão

Quando cientistas submetem um novo estudo a uma revista de prestígio, ele normalmente passa por uma prática chamada revisão por pares. Especialistas externos leem o estudo e avaliam sua qualidade — ou, pelo menos, esse é o objetivo.

Um número crescente de empresas tem tentado burlar esse processo para lucrar. Em 2009, Jeffrey Beall, bibliotecário da Universidade do Colorado, cunhou o termo “periódicos predatórios” para descrever essas publicações.

Eles geralmente têm como alvo pesquisadores de fora dos Estados Unidos e da Europa, como na China, Índia e Irã, países onde as instituições científicas podem ser jovens e a pressão e os incentivos para que os pesquisadores publiquem são altos.

“Eles dizem: ‘Se você pagar US$ 500 ou US$ 1.000, nós revisaremos seu artigo'”, explicou Acuña. “Na verdade, eles não oferecem nenhum serviço. Eles apenas pegam o PDF e publicam no site deles.”

Vários grupos têm tentado coibir essa prática. Entre eles está uma organização sem fins lucrativos chamada Directory of Open Access Journals (DOAJ). Desde 2003, voluntários sinalizaram milhares de periódicos como suspeitos com base em seis critérios. (Publicações respeitáveis, por exemplo, frequentemente incluem uma descrição detalhada de suas políticas de revisão por pares em seus sites.)

Mas acompanhar a proliferação dessas publicações tem sido uma tarefa assustadora para os humanos.

Para acelerar o processo, Acuña e seus colegas recorreram à IA. A equipe treinou o sistema com dados do DOAJ e, em seguida, pediu à IA que examinasse uma lista de quase 15.200 periódicos de acesso aberto na internet.

Dessas postagens, a IA sinalizou inicialmente mais de 1.400 como potencialmente problemáticas.

Acuña e seus colegas pediram a especialistas humanos que revisassem um subconjunto dos periódicos suspeitos. A IA cometeu erros, segundo os humanos, sinalizando aproximadamente 350 publicações como questionáveis ​​quando provavelmente eram legítimas. Isso ainda deixou mais de 1.000 periódicos que os pesquisadores identificaram como questionáveis. “Acredito que isso deveria ser usado para ajudar a pré-selecionar um grande número de periódicos”, explicou ele. “Mas a análise final deveria ser feita por profissionais humanos.”

Não é uma caixa preta

Acuña acrescentou que os pesquisadores não queriam que seu sistema fosse uma “caixa preta” como outras plataformas de IA.

“Com o ChatGPT, por exemplo, muitas vezes é difícil entender por que ele sugere algo”, disse Acuña. “Tentamos tornar o nosso o mais fácil de entender possível.”

A equipe descobriu, por exemplo, que periódicos questionáveis ​​publicaram um número anormalmente alto de artigos. Eles também incluíam autores com mais afiliações do que periódicos mais legítimos, e autores que citavam suas próprias pesquisas, em vez das de outros cientistas, com frequência anormalmente alta.


Fonte: La Jornada

Pesquisa mostra contaminação de águas subterrâneas por resíduos plásticos agrícolas

Pesquisa mostra contaminação de águas subterrâneas por resíduos plásticos agrícolas

Contaminação mostra urgência em substituir plástico por materiais biodegradáveis 

Apesar de invisíveis, micro e nanoplásticos estão presentes em sistemas de águas subterrâneas, fontes de quase metade da água potável consumida no mundo. Esses materiais são em grande parte provenientes de produtos para agricultura, como as coberturas plásticas (mulches), recipientes de agrotóxicos e sacos de fertilizantes. O tamanho das partículas faz com que elas atravessem as camadas de solo e contaminem os lençóis freáticos. É o que mostra artigo publicado na sexta (5) na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Os pesquisadores fizeram uma revisão de literatura a partir de mais de 50 artigos disponíveis nas bases de dados Web of Science e ScienceDirect e publicados entre 2019 e 2024. Eles usaram combinações de termos relacionadas ao assunto, priorizando artigos de periódicos com fatores de impacto mais altos para garantir a relevância e qualidade das fontes.

Os resultados mostram a quase onipresença dos resíduos plásticos nesses ambientes. Diante desse contexto, Victor R. Moreira, pesquisador da UFMG e um dos autores do estudo, atenta para a importância de substituir plástico por materiais biodegradáveis. “Observamos muitas vezes que as partículas menores predominam nas camadas mais profundas, inclusive nos aquíferos. Isso acaba sendo um desafio maior, porque é mais difícil de remover”, diz Moreira.

A revisão também indica que o estudo de microplásticos é mais frequente do que o de nanoplásticos, embora estas partículas microscópicas sejam mais predominantes em sistemas de água subterrânea. Essa presença se deve ao tamanho menor e, por efeito, maior mobilidade através das camadas do solo.

Na dinâmica de contaminação, os autores também apontam como fonte relevante os biossólidos, que são os resíduos orgânicos provenientes do tratamento do esgoto. Os biossólidos são materiais ricos em matéria orgânica e nutrientes e usados em atividades agrícolas como fertilizantes. “O processo de tratamento de esgoto remove contaminantes, mas muitos deles, incluindo microplásticos, acabam sendo agregados ao lodo por adsorção, e, portanto, reintroduzidos no solo ao aplicar os biossólidos”, explica Moreira.

Para compreender melhor os efeitos dessa contaminação, são necessários estudos temporais com foco na variabilidade sazonal dos micro e nanoplásticos nos sistemas subterrâneos de água, assim como a análise espacial em regiões com significativa produção agrícola, avaliam os pesquisadores. Além disso, próximos passos para investigar o impacto da contaminação envolvem estudos de laboratórios, que podem analisar a toxicidade dos micro e nanoplásticos e seu papel como carregador de agrotóxicos.


Fonte: Agência Bori

Relatório negacionista sobre mudanças climáticas do governo Trump é dissecado científicamente

Especialistas climáticos internacionais desmascararam amplamente o recente relatório do DOE, mas a ciência vencerá?

Paper Dissection | Program in the History of Science and Medicine

Por Bill McKibben para o “The New Yorker” 

Enquanto observo a Casa Branca de Trump e seu campo de destroços orbitando de excêntricos e charlatões, uma única cena de filme do passado continua voltando à minha mente. Em “Annie Hall”, esperando na fila de um cinema, o personagem de Woody Allen se irrita com um sujeito atrás dele, um acadêmico fanfarrão que pontifica para sua namorada sobre a cultura. Quando ele menciona o guru da mídia canadense Marshall McLuhan, Allen explode e então, em um delicioso espetáculo de vingança, apresenta o próprio McLuhan, que diz ao homem: “Eu ouvi o que você estava dizendo. Você não sabe nada do meu trabalho. Como você conseguiu dar um curso sobre qualquer coisa é totalmente incrível.” Allen então diz, para a câmera: “Rapaz, se a vida fosse assim.”

De vez em quando, é. Na terça-feira, oitenta e seis climatologistas entregaram uma resposta de quatrocentas páginas a um relatório do Departamento de Energia de julho, que tentava demonstrar que o aquecimento global não é um grande problema. Esse relatório era o equivalente científico de um terno sob medida. Dado que o presidente Trump havia declarado que as mudanças climáticas eram uma “farsa” e que o secretário de Energia, Christopher Wright, havia declarado anteriormente que eram um “efeito colateral da construção do mundo moderno”, é lógico que o departamento de Wright tenha escolhido para conduzir seu relatório exatamente cinco pesquisadores climáticos, todos notáveis ​​por carreiras nas quais se posicionaram visivelmente à margem do consenso científico esmagador de que o aquecimento global é um perigo grave e imediato. Esses cinco concluíram, devidamente, entre outras coisas, que “o aquecimento induzido pelo CO₂ pode ser menos prejudicial economicamente do que comumente se acredita, e políticas de mitigação excessivamente agressivas podem ser mais prejudiciais do que benéficas”.

O restante do aparato trumpiano então entrou em ação. Lee Zeldin, ex-congressista e candidato fracassado a governador por Nova York, que de alguma forma acabou como administrador da Agência de Proteção Ambiental (EPA) e que havia declarado que seu objetivo era cravar “um punhal direto no coração da religião das mudanças climáticas”, abraçou as descobertas e rapidamente as utilizou em seu esforço para anular a “constatação de perigo” na qual a EPA havia se baseado anteriormente para regular os gases de efeito estufa.

O relatório do DOE, no entanto, teve que ser aberto para comentários públicos, e assim um cientista climático da Universidade Texas A. & M., Andrew Dessler, usou a plataforma de mídia social Bluesky (que substituiu em grande parte o X para conversas científicas) para começar a montar uma equipe global de oitenta e seis pesquisadores de todas as disciplinas relevantes que, em questão de poucas semanas, submeteram as conclusões do relatório à revisão por pares. Seu “comentário” é duas vezes e meia maior que o relatório, e é quase dolorosamente hilário de ler. Por exemplo, os cinco céticos argumentaram que a “seca meteorológica” não estava aumentando nos Estados Unidos; como os pesquisadores apontam em sua resposta, isso é um absurdo escolhido a dedo. Em primeiro lugar, “seca meteorológica” é apenas uma medida de quanta chuva cai; as temperaturas mais altas associadas às mudanças climáticas têm aumentado a evaporação, o que seca mais dessa chuva. E, de qualquer forma, os opositores usaram todo o território continental dos EUA como base estatística para sua descoberta, o que não faz sentido: à medida que o aquecimento global aumenta a evaporação no oeste árido, também aumenta a precipitação no leste úmido, produzindo as chuvas torrenciais que causaram tantos danos em regiões como os Apalaches. Como o comentário ironicamente aponta, “fazer uma média em todo o território continental dos EUA corre o risco de desconsiderar essas tendências”. De fato, os autores observam, com todas as citações científicas, que “pesquisas indicaram que as secas recentes na região oeste dos EUA foram mais severas do que as secas dos últimos 1.000 anos ou mais: embora megassecas tenham ocorrido no registro paleoclimático, a megasseca no oeste dos EUA de 2000 a 2018 foi a pior desde meados do século XVI (Williams et al., 2020) e a de 2000 a 2021 foi a pior desde 800 (Williams et al., 2022), conforme definido usando anomalias de umidade do solo. Da mesma forma, as mudanças climáticas fizeram do período de 2012 a 2014 na Califórnia o período mais seco em 1.200 anos (Griffin e Anchukaitis, 2014; Williams et al., 2015)”.

O comentário tem seções como esta sobre todos os tópicos levantados pelo relatório do DOE; é uma blitzkrieg de estudos, observações e dados que deixa claro que os autores estavam a quilômetros de distância de sua área de atuação e ainda mais distantes da corrente principal. Mas, é claro, isso não necessariamente conta muito na situação atual, onde a realidade está se tornando uma história de “Escolha Sua Própria Aventura”. Na esteira das renúncias de quatro funcionários dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças na semana passada, alguns comentários do Secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., começaram a aparecer novamente nas redes sociais. Ele havia dito a Tucker Carlson que “confiar nos especialistas não é uma característica da ciência. Não é uma característica da democracia. É uma característica da religião e é uma característica do totalitarismo. Nas democracias, temos a obrigação — e é um dos fardos da cidadania — de fazer nossa própria pesquisa e tirar nossas próprias conclusões sobre as coisas”.

Isso claramente não é verdade em relação às vacinas — confiamos nos especialistas há um século, e tem funcionado muito bem, inclusive durante a pandemia de COVID , quando as vacinas salvaram milhões de vidas. E é claramente absurdo dizer isso sobre o aquecimento global: estamos planejando “fazer nossa própria pesquisa”, para escolher um tópico amplamente abordado na resposta de terça-feira dos oitenta e seis pesquisadores, sobre a “simetria hemisférica do albedo planetário”?

O empreendimento científico americano, fonte de tanta riqueza e prestígio nacional, está sendo desfeito diante de nossos olhos — bolsas de pesquisa estão sendo cortadas, satélites desconectados, relatórios inventados para atender às necessidades de indústrias e ideologias específicas. É tão triste quanto qualquer um dos outros efeitos sombrios da eleição passada. Mas o método científico talvez não se apague silenciosamente. Com centenas de anos de trabalho paciente por trás, com algumas instituições de ensino dispostas a proteger seus cientistas e com pesquisadores trabalhando arduamente em nações menos ignorantes, o desejo humano de saber e compreender continuará a produzir resultados. Muitas dessas descobertas serão contrárias aos interesses dos fanfarrões que, pelo menos temporariamente, controlam nossa nação e, portanto, podem ser suprimidas por enquanto. Mas, sejam ou não ouvidas, no final, a verdade virá à tona. Se não for na forma de políticas esclarecidas, será na forma de pandemias e incêndios florestais, de doenças não tratadas e da elevação do nível do mar. Porque a vida realmente é assim. ♦


Fonte: The New Yorker