Uma nova pesquisa revisada por pares encontrou uma média de sete pesticidas em cada uma das 10 borboletas testadas
Borboletas-monarcas descansam em uma planta no Santuário de Borboletas El Rosario, no estado de Michoacán, México, em 2022. Fotografia: Agência Anadolu/Getty Images
Por Tom Perkins para o “The Guardian”
Uma mortandade em massa de borboletas-monarcas em 2024 no sul da Califórnia foi provavelmente causada pela exposição a agrotóxicos, de acordo com uma nova pesquisa revisada por pares, acrescentando evidências difíceis de obter à teoria de que os pesticidas estão, em parte, por trás do declínio dramático no número de monarcas nas últimas décadas.
Pesquisadores descobriram centenas de borboletas que haviam morrido ou estavam morrendo em janeiro de 2024 perto de um local de hibernação, onde insetos passam os meses de inverno. As borboletas foram encontradas se contorcendo ou mortas em pilhas, sinais comuns de envenenamento por agrotóxicos neurotóxicos, escreveram os pesquisadores.
Testes em 10 insetos revelaram uma média de sete agrotóxicos em cada um, e em níveis que os pesquisadores suspeitam serem letais. Comprovar que agrotóxicos matam borboletas na natureza é um desafio, pois é difícil encontrá-los e testá-los logo após sua morte. Embora o tamanho da amostra seja limitado, escreveram os autores, as descobertas fornecem “insights significativos” sobre a mortandade e o declínio populacional em geral.
“O incidente nos deu uma rara oportunidade de documentar diretamente a exposição a agrotóxicos e seus impactos sobre as monarcas no mundo real”, disse Staci Cibotti, principal autora do estudo e entomologista e especialista em programas de pesticidas da Xerces Society for Invertebrate Conservation.
Ela acrescentou: “Embora estudos laboratoriais e modelos populacionais tenham demonstrado que os agrotóxicos são prejudiciais às monarcas, pode ser difícil capturar os impactos desses venenos agrícolas em campo sobre as populações selvagens. Este estudo ajuda a preencher essa lacuna.”
Cerca de 90% da população de borboletas monarcas em algumas regiões dos EUA foi extinta nas últimas décadas, e evidências apontam pesticidas, crise climática e perda de habitat como os causadores disso.
As borboletas foram encontradas próximas ao Santuário de Monarcas de Pacific Grove, um dos cerca de 400 locais de inverno ao longo da costa da Califórnia, pontos cruciais nos ciclos migratórios e reprodutivos das monarcas. O Xerces contabilizou cerca de 6.600 borboletas hibernando em Pacific Grove em novembro de 2023.
Embora uma investigação conduzida por uma autoridade agrícola estadual não tenha determinado a origem da mortandade, resíduos de agrotóxicos em plantações, gramados e flores ornamentais representam um risco de envenenamento para larvas de monarcas e para adultos que se alimentam de néctar. O escoamento de agrotóxicos em fontes de água rasas perto de onde um grande número de borboletas bebem coletivamente representa um risco para o tipo de mortandade em massa em Pacific Grove.
Todas as borboletas apresentaram altos níveis dos mesmos três piretroides, uma classe de agrotóxicos amplamente utilizada na Califórnia em terras agrícolas e residenciais. As aplicações residenciais não foram relatadas, e Cibotti afirmou que a presença dos mesmos tipos de piretroides em todas as amostras indica uma exposição residencial próxima à fonte.
Sabe-se que alguns dos níveis de piretroides encontrados nas monarcas são letais, e os pesquisadores suspeitam que os níveis combinados de vários agrotóxicos também provavelmente contribuíram. Combinações de pesticidas podem ter um efeito sinérgico que os torna ainda mais tóxicos.
A solução, disse Cibotti, é menos agrotóxicos.
“Esses eventos de aglomeração ocorrem durante fases especialmente sensíveis do ciclo migratório, portanto, reduzir a exposição a agrotóxicos durante esses períodos é essencial não apenas para evitar perdas imediatas, mas também para melhorar as chances da população se recuperar na primavera seguinte e apoiar sua recuperação a longo prazo”, disse Cibotti.
O prefeito de Maricá, Washington Quaquá (PT), e o governador Cláudio Castro (PL), no anúncio de que as obras do Porto de Maricá começam ainda neste semestre: parecer técnico do Inea, no entanto, é pelo indeferimento da licença – Foto: Bernardo Gomes/Prefeitura de Maricá
“Diante das evidências apresentadas, conclui-se que a implantação do Terminal Portuário de Maricá acarretará impactos ambientais severos e irreversíveis sobre a fauna e flora local, em especial sobre espécies ameaçadas de extinção e altamente dependentes da integridade ecológica dos ecossistemas de restinga úmida e floresta paludosa. A supressão desses ambientes compromete diretamente a biodiversidade regional”, diz o parecer técnico assinado por Flavia Cristina de Assis Barbosa.
O laudo lista 25 espécies ameaçadas — entre elas, nove na categoria “Em Perigo (EN)”, consideradas em risco muito alto de extinção na natureza. A maioria das espécies destacadas é vegetal, mas há também lagartos e roedores. Destaca ainda que, no local onde será instalado o Porto de Maricá, “a vegetação exerce função de proteção de mananciais ou de prevenção e controle de erosão”. E cita a legislação municipal, estadual e até a federal, como art. 30 da Lei Federal nº 11.428/2006, segundo a qual “é vedada a supressão de vegetação primária do Bioma Mata Atlântica, para fins de loteamento ou edificação”.
“Mediante as considerações acima, este parecer técnico opina pelo indeferimento quanto à emissão da Autorização de Supressão de Vegetação e da Autorização Ambiental para manejo de Fauna Silvestre, ao empreendimento Terminais Ponta Negra”, conclui o estudo.
Anúncio das obras do Porto de Maricá reuniu empresários do setor
No dia 4 de junho, Quaquá e Castro anunciaram que as obras de construção do Terminal de Ponta Negra (TPN), também conhecido como Porto de Jaconé ou Porto de Maricá, começam neste segundo semestre.
“São 15 anos de luta e essa parceria com o governo do estado foi fundamental nesse grande implemento econômico para o Rio de Janeiro, para o Brasil e para Maricá”, agradeceu Quaquá.
Na ocasião, Castro disse que estava tudo adiantado.
“Conseguimos avançar com todos os licenciamentos nessa grande parceria com a Prefeitura de Maricá. Você aproveita uma bênção natural, que é o petróleo, e o transforma em desenvolvimento, em empreendimentos e emprego para a população. Não tenho dúvidas de que Maricá está no caminho”.
Quaquá, Castro e empresários, no anúncio de que as obras do Porto de Maricá começam ainda neste semestre, no início de junho – Foto: Bernardo Gomes/Prefeitura de Maricá
O anúncio foi feito durante reunião no Palácio Guanabara, em Laranjeiras, sede do governo do estado, e contou com a presença de empresários do setor portuário. Com investimento estimado em R$ 1,5 bilhão, o Porto deMaricá — um projeto da prefeitura em parceria com a iniciativa privada — deve ser um dos maiores terminais portuários do Brasil e deverá gerar cerca de 13 mil empregos diretos e indiretos.
Pelos planos, a estrutura será integrada a uma ampla plataforma logística voltada à exportação, com foco em sustentabilidade e inovação. A área também será transformada em uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE), o que deve atrair novas indústrias e impulsionar o desenvolvimento da região.
Uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que em abril negou o último recurso contrário ao empreendimento, liberou o caminho para o início das obras do Porto de Maricá.
Segundo processo disciplinar ainda em curso na universidade, Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso selecionou trabalhadores rurais, indicou laboratórios responsáveis pela coleta de amostras de urina de pessoas expostas a agrotóxicos e cuidou até do envio do material à Unicamp
Por Hélen Freitas/ Edição de Juliano Barros para a “Repórter Brasil”
Um processo disciplinar aberto para investigar a conduta de um professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revela como uma importante entidade do agronegócio do Mato Grosso, principal polo produtor de grãos do país, atuou na realização de estudos científicos sobre os impactos causados pelo próprio setor.
Documentos obtidos com exclusividade pela Repórter Brasil detalham como a Aprosoja-MT (Associação dos Produtores de Soja e Milho) participou diretamente de etapas cruciais de pesquisas sobre a exposição de trabalhadores rurais a dois agrotóxicos bastante populares: o glifosato e o paraquate.
Os estudos foram iniciados em 2016, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reavaliava a venda no mercado brasileiro dos dois herbicidas, amplamente usados no controle de plantas daninhas em lavouras. Na época, ambos figuravam entre os dez agrotóxicos mais utilizados no país.
Além de financiar o projeto, a Aprosoja-MT acompanhou de perto todas as etapas das pesquisas. Depoimentos e documentos consultados pela reportagem revelam como a associação selecionou trabalhadores rurais para o estudo, indicou laboratórios responsáveis pela coleta de amostras de urina em campo e cuidou até da logística para envio do material à Unicamp.
Em 2019, a Anvisa decidiu manter o glifosato em circulação, mas impôs mudanças na rotulagem e na classificação toxicológica, além de exigir novas medidas de segurança para o manuseio do herbicida.
Um ano antes, a Iarc (Agência Internacional de Pesquisa em Câncer), órgão da Organização Mundial da Saúde, já havia classificado o glifosato como “provavelmente cancerígeno” para humanos. A substância também é associada ao desenvolvimento de doenças como depressão, Alzheimer e Parkinson.
Já o paraquate teve destino diferente. Em 2017, a Anvisa deu início ao processo de banimento do herbicida devido a riscos à saúde, incluindo possível relação com doenças neurodegenerativas, como o Parkinson. A decisão previa um período de transição, em que o agrotóxico ainda poderia ser utilizado, até a proibição definitivaa partir de 22 de setembro de 2020. Desde então, o registro do paraquate está cancelado no Brasil.
Foi durante o período de transição que associações do agronegócio organizaram umaforça-tarefa para tentar reverter a decisão da Anvisa, argumentando que novas pesquisas poderiam comprovar a segurança do paraquate.
O principal estudo utilizado para embasar esse movimento era justamente o conduzido na Unicamp. No entanto, após denúncia da Repórter Brasilsobre conflito de interesses, a pesquisa foi suspensa pelo Comitê de Ética da universidade, em julho de 2020.
Cinco anos depois, a Repórter Brasil enfim teve acesso aos documentos do processo disciplinar, ainda em curso na universidade, sobre a conduta do professor Paulo César Pires Rosa. Atual coordenador da graduação em Farmácia, ele participou das pesquisas orientando uma aluna sobre os impactos do glifosato e do paraquate na saúde de trabalhadores rurais.
Procurada, a assessoria de imprensa da Aprosoja-MT não se posicionou até o fechamento desta reportagem.
Antônio Galvan (à esq.), ex-presidente da Aprosoja-MT, foi investigado por envolvimento na tentativa de golpe em 8 janeiro de 2023 (Foto: Divulgação/Aprosoja)
Unicamp analisa se atuação de professor em instituto de pesquisa foi irregular
A rigor, o processo disciplinar tem como objetivo avaliar se o professor Paulo César Pires Rosa teria quebrado seu contrato de dedicação exclusiva à Unicamp, ao prestar serviços ao Inpes (Instituto de Pesquisas e Educação em Saúde), entidade criada por um docente aposentado da universidade. O Inpes foi o responsável por angariar os recursos para o estudo sobre a presença de paraquate no organismo de trabalhadores rurais do Mato Grosso.
Em 2023, após três anos de investigação, uma comissão da Unicamp concluiu que Rosa teria atuado sem autorização como diretor científico do Inpes, entre 2018 e 2020. Além de uma suspensão de 15 dias, o parecer do órgão recomendou a devolução aos cofres da universidade de parte do salário recebido pelo docente no período. Segundo cálculos feito pela reportagem, o valor pode chegar a R$ 200 mil.
Ainda de acordo com o relatório da comissão, a Faculdade de Ciências Farmacêuticas recebeu uma proposta de convênio para realização dos estudos, com financiamento da Aprosoja-MT e intermediação do Inpes. O projeto chegou a ser aprovado pela Comissão de Pesquisa e Extensão, mas acabou vetado pela Comissão de Governança. Por essa razão, nunca foi efetivamente formalizado. Mesmo assim, a pesquisa seguiu em frente, até ser barrada em julho de 2020, após matéria da Repórter Brasil.
Durante a apuração, Rosa também foi investigado por uma possível utilização indevida da infraestrutura da universidade para as pesquisas sobre os agrotóxicos. A comissão, no entanto, concluiu que não havia provas de uso irregular dos laboratórios, nem de pagamentos diretos da Aprosoja-MT ao professor.
As amostras de urina coletadas dos trabalhadores rurais do Mato Grosso permanecem lacradas e armazenadas nas dependências da universidade, de acordo com a assessoria de imprensa da Unicamp. “Não há nenhuma possibilidade de retomada da pesquisa”, informou por telefone um coordenador de comunicação da universidade.
Atualmente, o caso está sob análise do Conselho Universitário, instância máxima da instituição. Durantereunião do órgãorealizada em abril deste ano e disponível no Youtube, Fernanda Silvado, procuradora-chefe da Unicamp, disse haver “um claro conflito de interesses na pesquisa”. Em sua avaliação, a Aprosoja-MT era “financiadora e interessada na pesquisa, e ela também escolhia os trabalhadores, os laboratórios que faziam as análises clínicas das amostras”.
Ao longo do processo disciplinar, Rosa sempre negou quaisquer irregularidades. Por Whatsapp, o professor afirmou à reportagem que não era o responsável pelos estudos, embora tenha atuado para captar com entidades públicas de fomento à pesquisa cerca de R$ 67 mil em bolsas de mestrado e doutorado, dentre outros recursos, segundo relatório de atividades encaminhado por ele próprio à universidade.
“As pesquisas não foram sobre [sic] minha coordenação, era do prof Ângelo”, informou Rosa na troca de mensagens por Whatsapp, em referência a Ângelo Trapé, médico, ex-professor da Unicamp e fundador do Inpes — o instituto responsável pela intermediação da pesquisa sobre o paraquate, em 2018.
Pesquisa com trabalhadores rurais que aplicam paraquate na soja foi suspensa pela Unicamp após revelações de conflito de interesse (Foto: Pedro Biondi/Repórter Brasil)
Procurada, a assessoria de imprensa da reitoria da Unicamp afirmou que “o ex-professor Ângelo Trapé se aposentou em 2017 e, desde então, não possui vínculo formal com a universidade”. Trapé não respondeu ao pedido de entrevista.
Rosa inicialmente respondeu à reportagem por Whatsapp, mas depois preferiu não conceder entrevista. Seus advogados, no entanto, enviaram uma nota.
“Como o processo disciplinar ainda está em andamento, entendemos que não é o momento adequado para manifestação em matéria jornalística, a fim de não comprometer a imparcialidade dos julgadores e publicizar uma situação que está sendo devidamente apurada pelos órgãos competentes, a Universidade”, diz o texto. Os advogados ainda afirmaram que vão solicitar apuração pelos órgãos competentes sobre os documentos obtidos pela Repórter Brasil. “Entendemos que houve o vazamento de informações que são consideradas sigilosas, e protegidas pela Lei Geral de Proteção de Dados”, prossegue o texto. Leia a resposta na íntegra.
Aprosoja-MT escolheu laboratórios; amostras já haviam sido coletadas
Em um dos depoimentos que aparecem nos autos do processo acessado pela reportagem, uma estudante de doutorado, orientanda do professor Rosa, afirma que os trabalhadores rurais participantes da pesquisa teriam sido selecionados pela Aprosoja e pelo Inpes.
“Quando a depoente e o indiciado [Rosa] chegaram ao Mato Grosso, os laboratórios já estavam definidos e já havia amostras coletadas previamente”, diz um trecho do relatório final da comissão responsável pela apuração do caso.
Durante audiência no Comitê de Ética da Unicamp, Ângelo Trapé confirmou que a escolha dos trabalhadores partiu, de fato, da Aprosoja-MT. Segundo o fundador do Inpes, a associação dos produtores rurais também indicou fazendas e participou diretamente do recrutamento dos participantes.
“No projeto submetido ao CEP [Comitê de Ética em Pesquisa] da Pós-Graduação constava que seria o indiciado e a aluna quem selecionariam os participantes, mas que, posteriormente, constatou-se uma participação da Aprosoja nessa seleção”, diz um trecho da ata do depoimento de Trapé. Ele também relatou que o envio das análises à Unicamp foi feito pela própria associação. A conclusão do comitê foi a de que as práticas configuravam “conflito de interesses”.
Os autos do processo disciplinar também trazem a defesa de Rosa. “Embora a Aprosoja tenha participado da escolha dos trabalhadores e laboratórios envolvidos nos estudos, não houve sequer uma ingerência sobre o trabalho realizado, e isso não restou comprovado nos autos deste procedimento”, afirmou o professor em recurso apresentado à universidade.
Autos do processo disciplinar revelam que os trabalhadores rurais participantes da pesquisa teriam sido selecionados pela Aprosoja e pelo Inpes (Foto: Vitor Dutra Kaosnoff/Pixabay)
Segundo Rosa, os trabalhadores teriam sido indicados com base em critérios técnicos, como o contato efetivo com o herbicida paraquate. Já os laboratórios teriam sido selecionados levando em conta os locais onde as coletas foram realizadas.
Em fevereiro de 2018, no mestrado sobre impactos do glifosato defendido por uma aluna do professor Rosa, a estudante demonstra gratidão não só a seu orientador, mas também ao fundador do Inpes e à própria entidade do agronegócio.
“Agradeço à Associação dos Produtores Rurais de Soja e Milho (Aprosoja) do estado do Mato Grosso, pela parceria, apoio financeiro e contribuição na seleção e na realização das coletas das amostras dos voluntários incluídos neste estudo”, escreveu.
Em agosto de 2018, Rosa detalhou em umevento da Aprosojacomo se deu a participação da associação dos produtores. “A Aprosoja arcou com os custos de reagentes e materiais para analisar essas amostras. E o sindicato rural indicou os trabalhadores, segundo os nossos critérios de inclusão e exclusão”, relatou o professor.
Na época, o processo de reavaliação do glifosato pela Anvisa estava na reta final. Uma decisão judicial chegou a suspender o registro de produtos à base da substância no país. Dois meses depois, amedida foi derrubadae o uso do herbicida voltou a ser permitido.
Em nota, a Anvisa nega que pesquisas financiadas pela entidade ruralista tenham influenciado no resultado do processo. “Nenhum resultado de reavaliação de ingredientes ativos de agrotóxicos pode ser atribuído a um único estudo ou uma única fonte de dados. Trata-se de uma análise complexa e sistematizada”, afirma o texto. Leia a resposta completa.
O presidente dos EUA parece estar usando tarifas como arma para punir o Brasil pelo julgamento de golpe contra seu aliado Bolsonaro
Donald Trump organiza uma sessão de fotos com o então presidente brasileiro Jair Bolsonaro no resort Mar-a-Lago em Palm Beach, Flórida, em 7 de março de 2020. Fotografia: Tom Brenner/Reuters
Por Tom Phillips, no Rio de Janeiro, para o “The Guardian”
Desde o início de julho, Trump lançou um ataque extraordinário às instituições brasileiras, aplicando tarifas de 50% sobre importações do país sul-americano e sanções a um juiz da Suprema Corte — em parte como retaliação ao que ele chamou de perseguição política ao seu aliado, Jair Bolsonaro, que está sendo julgado por supostamente planejar um golpe fracassado.
“Raramente desde o fim da Guerra Fria os Estados Unidos interferiram tão profundamente em um país latino-americano”,declaroua revista Economist na semana passada.
“Eu sinto pelos brasileiros”, disse Steven Levitsky, cientista político da Universidade de Harvard que coescreveu How Democracies Die, um livro best-seller sobre erosão democrática.
“Esta é uma força política muito autoritária que está causando enormes danos às instituições democráticas e aos direitos do meu país – e eu gostaria que parasse por aí. É doloroso ver o governo [dos EUA] também causar danos às instituições democráticas de outros países.”
Os EUA têm um histórico ignominioso de interferência nos assuntos latino-americanos, por meio de golpes e intervenções militares apoiados pela CIA. Mas Levitsky disse nunca ter visto a política comercial ser instrumentalizada dessa forma: “Os brasileiros trabalham há gerações para construir o sistema mais forte e democrático que já tiveram, e esse tipo de ataque imprudente e casual às instituições democráticas me dói.”
A iniciativa de Trump para ajudar Bolsonaro a escapar da Justiça por seu suposto golpe de 2022 , pressionando o governo brasileiro e o Supremo Tribunal Federal (STF), entusiasmou os apoiadores do ex-presidente. Eles veem Trump como a melhor chance de Bolsonaro evitar a prisão quando o STF anunciar seu veredito nas próximas semanas.
Mas a intromissão de Trump enfureceu milhões de brasileiros de todo o espectro político, que estão horrorizados com o que eles chamam de uma manobra estrangeira intolerável para subverter sua democracia, 40 anos depois de ela ter sido restaurada após duas décadas de ditadura.
“Antigamente, eles enviavam os fuzileiros navais. Agora, eles impõem tarifas”, disse Rubens Ricupero, ex-ministro das Finanças e embaixador em Washington, que previu que o comportamento de Trump provocaria uma onda de nacionalismo antiamericano.
Marcelo Rubens Paiva, autor e ativista pró-democracia cujo pai foi assassinado pela ditadura brasileira de 1964-85, chamou a interferência “completamente indizível” de Trump de fruto de “um homem que se sente Napoleão e quer que o mundo inteiro se ajoelhe diante dele”.
Observadores estão divididos sobre o que está motivando o ataque de Trump às instituições e ao governo democraticamente eleito do Brasil, que a Casa Brancadeclarouesta semana uma ameaça à “segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos”.
Alguns suspeitam que ele espera expandir o eixo de direita pró-Trump na América Latina — atualmente liderado pelo argentino Javier Milei e por Nayib Bukele, de El Salvador — revitalizando a carreira política em declínio de Bolsonaro e, talvez, retornando o populista de extrema direita ao poder nas eleições presidenciais do ano que vem.
Levitsky viu uma explicação mais simples. A ofensiva de Trump foi produto de um presidente que agiu como um “ditador mesquinho clássico do século XX”, como Rafael Trujillo, da República Dominicana, ou Anastasio Somoza, da Nicarágua .
“Trump aborda a governança exatamente da mesma maneira. O tesouro era para eles. A política comercial era para eles. A política externa era para eles. O exército era a segurança pessoal deles. É assim que Trump encara a governança. Ele usa instrumentos de política para seus próprios fins pessoais e políticos”, disse Levitsky.
Não há estratégia econômica aqui. Claramente, não há estratégia de política externa aqui. Mas a família de Bolsonaro se infiltrou no círculo íntimo de Trump e o convenceu de que a situação de Bolsonaro é semelhante à sua em 2020 [depois que ele perdeu a eleição para Joe Biden].
“Trump acredita – falsamente – que foi submetido a uma caça às bruxas e foi convencido pelos filhos de Bolsonaro de que Bolsonaro, assim como ele, também está sujeito a uma caça às bruxas. E ele está usandoa política externa dos EUA– tragicamente, pateticamente – para perseguir esses caprichos pessoais”, disse Levitsky.
Especialistas duvidam que Trump tenha sucesso. Bolsonaro,já proibidode concorrer às eleições até 2030, deverá receber uma sentença pesada quando o julgamento do golpe for concluído. Bolsonaro nega as acusações, mas admitiu estar considerando “maneiras alternativas” de impedir que o vencedor das eleições de 2022, Luiz Inácio Lula da Silva, tome posse.
Paiva acreditava que Trump queria que Bolsonaro garantisse o mesmo tipo de impunidade que desfrutou após tentar anular o resultado das eleições de 2020. Mas a estratégia parecia estar dando errado.
Os primeiros sinais sugerem queo presidente Lula se anima com o cabo de guerra com Trump, enquanto a família Bolsonaro , a quem muitos culpam por convencer Trump a atacar a economia e as instituições brasileiras, sofre uma reação pública negativa. Em editorial recente, o jornal conservador Estado de São Paulo declarou: “O nome de Bolsonaro já foi inscrito no panteão dos maiores traidores que esta nação já viu”.
“Acho que Bolsonaro enterrou sua carreira política”, disse Paiva.
A fazenda foi destinada ao Incra para o assentamento de 100 famílias
A cessão da área é uma forma de pagamento de uma dívida de mais de R$ 208 milhões da Usina Sapucaia com a União – Divulgação/MST RJ
Por Redação do Brasil de Fato
A Justiça Federal destinou a fazenda Santa Luzia, em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, para o assentamento de cerca de 100 famílias de agricultores. A fazenda foi destinada ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) após a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) pedir a área como forma de pagamento de uma dívida de mais de R$ 208 milhões da Usina Sapucaia com a União.
A empresa do ramo de açúcar e álcool acumula uma dívida de R$ 6,9 milhões em multas trabalhistas, R$ 92 milhões em dívidas previdenciárias e outros R$ 6,1 milhões em Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), além de R$ 102 milhões em débitos tributários.
Para João Grognet, procurador-geral adjunto da Dívida Ativa da União e do FGTS, a decisão representa um precedente jurídico importante ao garantir a recuperação de ativos. “É a transação tributária em seu aspecto social mais intenso, encurtando os caminhos dos tributos e apoiando a produção agrícola familiar.” O procurador afirmou que se trata de “um passo crucial para o desenvolvimento e a justiça social no país”.
“Nós estamos aqui para reivindicar que todo o processo seja finalizado, já que as benfeitorias já foram feitas, os levantamentos, então falta realizar o depósito e essa terra, terra de devedor, ela vai ser então destinada para reforma agrária”, disse Eró Silva, da direção nacional do MST no Rio de Janeiro, na época.
Ainda cabe recurso, mas, caso a defesa não se manifeste, o Incra e a PGFN podem dar início ao processo de transferência das terras que somam 1.104 hectares.
Um boom de plantação de eucalipto no Cerrado brasileiro está secando terras e nascentes de água, dificultando a agricultura de subsistência, disseram autoridades locais e agricultores à Mongabay.
Adilso Cruz, um fazendeiro de 46 anos do assentamento Alecrim, no Mato Grosso do Sul, relata que a escassez de água começou por volta de 2013, coincidindo com o crescimento das plantações de eucalipto na região, e piorou desde então.
“Os riachos que costumavam funcionar o ano todo começaram a fluir menos, secando e depois levando muito tempo para encher novamente”, diz Cruz. “A grama está sofrendo porque a água está desaparecendo da camada superficial do solo.”
“Eu tinha 70 cabeças de gado. Agora tenho 42, e vou precisar vender mais”, acrescenta. À medida que fazendeiros vendiam suas terras para plantações de eucalipto, também vendiam seus rebanhos, fazendo com que o preço do gado despencasse. “Eu estimo uma queda de cerca de 45% na renda”, relata Cruz.
Umestudoliderado por Valticinez Santiago, vice-secretário de Meio Ambiente de Selvíria, um município com alta produção de eucalipto, descobriu que as nascentes localizadas a 50 metros das plantações, o mínimo legal, secaram ou foram severamente degradadas. Santiago relatou à Mongabay que eles usaram imagens de satélite para mapear 400 nascentes cercadas por fazendas de eucalipto e agora recomendam expandir a zona de amortecimento para 500 metros, para proteger melhor as fontes de água.
A extensão das fazendas de eucalipto no Mato Grosso do Sul quadruplicou em 15 anos, passando de pouco mais de 375 mil hectares em 2010 para1,6 milhãode hectares em maio de 2025.
Mapa: Andrés Alegría/Mongabay.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silvaassinou uma leiem maio de 2024 que elimina a necessidade de licenças ambientais para o eucalipto. Na prática, relata Santiago à Mongabay, as autoridades não podem mais acessar terras privadas para avaliar os impactos ambientais sem um mandado, o que é difícil de obter sem evidências no local.
Cerca de 90% das fazendas são de propriedade de grandes bancos de investimento.
Empresas como Apple, Meta e Microsoft investiram milhões em eucalipto para compensar suas emissões de carbono. No entanto, críticos dizem que o eucalipto não é eficaz no sequestro de carbono, pois as árvores são colhidas a cada seis anos e transformadas em celulose para papelão e papel higiênico, o que significa que qualquer carbono armazenado é facilmente liberado na atmosfera.
Cruz conta que cerca de metade das famílias já deixou seu assentamento. Os que restam estão lutando para sobreviver e muitas vezes precisam de trabalho extra com as empresas de eucalipto.
“Muitas pessoas aqui acabam fornecendo mão de obra para as mesmas pessoas que estão tirando sua capacidade de produzir alimentos e ter liberdade financeira”, diz Cruz. “Esta terra era algo pelo qual lutamos. Foi um sonho. Mas muitos estão vendo esse sonho desmoronar e se sentem forçados a se resignar”.
Imagem do banner: Vista aérea de toras de eucalipto. Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil
Em países de baixa renda, salários não acompanharam o forte aumento nos preços globais dos alimentos. Foto: afp/LUIS ROBAYO
Por Hermannus Pfeiffer para o “Neues Deutschland”
Os alimentos estão se tornando cada vez mais caros . E não apenas na Alemanha. O aumento contínuo dos preços globais dos alimentos está tendo impactos profundos nanutrição e na segurança alimentar, especialmente em países de baixa renda. As famílias no Sul global gastam uma parcela muito maior de sua renda com alimentos do que as famílias neste país, por exemplo. Portanto, a inflação está afetando-as de forma particularmente dura, de acordo com o Relatório Mundial sobre Alimentos, publicado em Roma no início desta semana pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
O novo relatório “Estado da Segurança Alimentar e Nutricional” (SOFI) concentra-se nos aumentos de preços nos últimos anos. Desde 2020, a inflação dos alimentos tem superado consistentemente a inflação geral. A FAO atribui isso à maior volatilidade nos mercados agrícolas e à pressão contínua sobre os mercados agrícolas e alimentares causada por guerras e desastres naturais.
Em cinco anos, os preços dos alimentos em todo o mundo aumentaram mais de 35%, enquanto os preços médios aumentaram apenas 25%.
Em janeiro de 2023, a inflação dos alimentos atingiu seu nível mais alto até então, 13,6%, superando a inflação geral em 5,1 pontos percentuais. Embora ambos os indicadores tenham começado a cair em meados de 2023, permaneceram elevados. Somente em 2024 a taxa de inflação dos alimentos retornou aos níveis pré-pandêmicos, de 2% a 3% ao ano. No entanto, os efeitos permanecem persistentes: em cinco anos, os preços globais dos alimentos subiram mais de 35%, enquanto os preços médios aumentaram apenas 25%. Muitas rendas em países de baixa renda não conseguiram acompanhar a inflação.
Além dos preços, é a disponibilidade local de alimentos que causa a fome. Apesar do crescimento populacional global, a proporção de pessoas subnutridas caiu de 12% para 7,5% em duas décadas (era mais de 35% na década de 1960), mas a pandemia do coronavírus interrompeu essa tendência positiva. Essa tendência agora parece ter desacelerado, mas continua. Após subir para 9,3%, a proporção daqueles que passam pelo menos um pouco de fome caiu em 2022 e 2023, e também no ano passado: a FAO estima a proporção em prováveis 8,2%.
O relatório de 234 páginas da FAO demonstra, em letras miúdas, que é necessário um certo grau de cautela na interpretação dos números e dados. Estima-se, de forma bastante vaga, que o número de pessoas que passarão fome em 2024 seja de “638 a 720 milhões” (7,8 a 8,8% da população mundial). Além disso, segundo a FAO, mais de dois bilhões de pessoas não tinham acesso regular a alimentos suficientes.
Iniciativas como a Action Contre la Faim temem que os números possam disparar novamente este ano, ameaçando uma nova crise humanitária. Grandes países doadores, como EUA, Alemanha e França, cortaram drasticamente seus orçamentos para ajuda internacional. E enquanto a situação nos países asiáticos está melhorando, a fome está piorando em regiões em conflito, como o Oriente Médio e a África. Cerca de metade de todas as pessoas com fome vivem na África. Uma em cada cinco pessoas lá é considerada desnutrida. Em muitos países, três formas de desnutrição ocorrem simultaneamente: além da desnutrição, há obesidade e deficiências de micronutrientes. A distribuição “injusta” de alimentos é, portanto, também um problema regional e global.
Há previsões cautelosamente otimistas para o futuro. A Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicaram recentemente um relatório sobre o futuro dos mercados agrícolas. Segundo o relatório, a produção global de calorias provenientes de carne e peixe aumentará 6% até 2034. Isso se deve principalmente ao aumento do consumo de carne em países de renda média. A produção global de todos os produtos agrícolas aumentará 14% no mesmo período. Isso se deve aos ganhos de eficiência na produção em países emergentes.
Ganhos de produtividade tendem a levar à redução dos preços dos produtos agrícolas. Mas isso também tem uma desvantagem: os pequenos agricultores, em particular, sofrem com a pressão de preços associada. Eles estão mais expostos à volatilidade dos preços de mercado e não têm capital para financiar investimentos que poderiam aumentar a produção.
O Instituto Potsdam de Pesquisa Climática aponta para outro aspecto: os bilhões de dólares em “custos ocultos”. Os custos vão desde a alimentação pouco saudável de muitas pessoas até os danos ambientais causados pela agricultura, por exemplo, pela contaminação química do solo.
Economistas da Universidade de Melbourne também apontam para o “estresse hídrico”. Em importantes regiões agrícolas, do sudoeste dos Estados Unidos à Índia, Rússia e China, grandes áreas já são irrigadas artificialmente. Mais de dois terços do consumo global de água são atribuídos à irrigação agrícola. Devido à crescente escassez de água, dependendo do cenário, poderá ser produzida uma quantidade significativamente menor de alimentos em 2050 do que hoje. Ao mesmo tempo, espera-se que a população global cresça significativamente.
.A degradação florestal explodiu na Amazônia em 2024
Serraria clandestina na região de Porto Velho, no estado brasileiro de Rondônia, em 6 de fevereiro
Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt”
A história de sucesso “Menos Desmatamento no Brasil!” recebeu ampla cobertura da mídia em maio passado, inclusive na Alemanha. Tanto o governo brasileiro quanto a Mapbiomas, rede de pesquisa que monitora os ecossistemas do país, confirmaram uma queda significativa no desmatamento na Amazônia no ano passado. De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), 30,6% menos floresta tropical foi destruída em 2024 do que em 2023, enquanto a Mapbiomas calculou uma redução de 16,8% em seu relatório anual de desmatamento (RAD). No entanto, dados sobre perda florestal do renomado World Resources Institute (WRI), também publicados em maio, indicam exatamente o oposto: a floresta amazônica brasileira registrou sua maior perda florestal em 2024 desde o recorde de 2016. Cerca de 110% a mais de desmatamento do que em 2023. A região amazônica perdeu 2,82 milhões de hectares de floresta tropical primária no ano passado, em comparação com “apenas” 1,14 milhão de hectares perdidos em 2023, de acordo com o WRI.
O INPE, por outro lado, estima 628.800 hectares de destruição da floresta tropical em 2024, em comparação com 906.400 hectares no ano anterior. Os menores números de desmatamento foram calculados pelo Mapbiomas, uma rede não governamental de universidades, organizações ambientais e empresas de tecnologia. Segundo o relatório, a área desmatada na Amazônia caiu de 454.230 hectares em 2023 para 377.708 hectares no ano passado.
Então, quem está certo? Os números do WRI são do Laboratório Global de Análise e Descoberta de Terras da Universidade de Maryland (UMD). Tanto o INPE quanto o Mapbiomas, assim como a UMD, coletaram os dados de desmatamento usando imagens de satélite, mas com diferentes métodos de análise e limitações do sistema.
A base de dados varia
O INPE avalia os dados usando seu sistema de monitoramento florestal Prodes. Este sistema registra cortes rasos maiores que 6,25 hectares. Os pesquisadores da UMD, por outro lado, consideram o desmatamento tão pequeno quanto 0,09 hectares e também registramperdas devido ao fogo , que o Prodes não inclui. No ano passado, de acordo com o WRI, 60% da destruição florestal foi causada pelo fogo. Devido a uma seca intensa e prolongada na Amazônia, os incêndios, que geralmente são iniciados por humanos, destruíram mais área florestal do que em outros anos. E quando mais área queima, menos floresta tem que ser desmatada com motosserras para expandir pastagens de gado ou campos de soja.
Outra diferença importante é o período de avaliação. Enquanto o Prodes considera os doze meses entre agosto e julho, os dados da UMD referem-se ao ano civil, ou seja, de janeiro a dezembro de 2024.
Por fim, o Mapbiomas combina dados de desmatamento de sistemas independentes de monitoramento, como o SAD (Sistema de Alerta de Desmatamento) do Instituto Amazonas para a Humanidade e o Meio Ambiente (Imazon), com dados de sistemas do INPE, como o Prodes, e se concentra exclusivamente no corte raso e na remoção completa da vegetação natural. O Mapbiomas não inclui perdas devido a incêndios florestais ou exploração madeireira seletiva em suas estatísticas de desmatamento, razão pela qual os números são significativamente menores. “Como o Mapbiomas não contabiliza a crescente perda florestal devido a incêndios no Brasil, uma proporção crescente da mudança florestal geral não é adequadamente representada”, resume a plataforma online do WRI, Global Forest Watch (GFW).
Os danos florestais são maiores
Para avaliar se a proteção florestal na região amazônica está de fato melhorando ou piorando, precisamos de dados sobre degradação florestal, além de estatísticas de desmatamento. Florestas danificadas, por exemplo, devido à exploração madeireira seletiva e estradas florestais, têm uma cobertura vegetal mais rala, são mais suscetíveis à seca e pegam fogo com mais facilidade. Por outro lado, iniciar incêndios em florestas tropicais intactas e úmidas não é uma tarefa fácil.
De acordo com o instituto de pesquisa Imazon em Belém do Pará, houve um aumento explosivo na degradação florestal na região amazônica em 2024. Segundo o relatório, 3,64 milhões de hectares de floresta tropical foram degradados, cerca de seis vezes mais do que em 2023. De acordo com o Imazon, os danos florestais registrados no ano passado pelo sistema de monitoramento do SAD foram os maiores desde que o instituto começou a monitorar florestas em 2009, superando em muito o recorde anterior estabelecido em 2017, quando 1,15 milhão de hectares de floresta amazônica foram degradados.
Segundo o Imazon, o aumento da degradação florestal na região amazônica está diretamente ligado ao aumento dos incêndios florestais no ano passado. A seca e a exploração madeireira também contribuíram para esse processo de degradação.
O Rio da Prata e a cidade de Buenos Aires, Argentina. Um relatório alertou sobre a contaminação dos rios do mundo por ingredientes farmacêuticos ativos (IFAs), especialmente em países em desenvolvimento. Copyright: Dan DeLuca/Flickr , (CC BY 2.0) .
Por Pablo Corso para o “SciDev”
A poluição farmacêutica nos rios do mundo está ameaçando a saúde ambiental e humana e o alcance das metas da ONU sobre qualidade da água, sendo os países em desenvolvimento os mais afetados, alerta um estudo global.
Ingredientes farmacêuticos ativos (IFAs) podem estar contribuindo para a resistência antimicrobiana em microrganismos e podem ter efeitos desconhecidos de longo prazo na saúde humana, além de prejudicar a vida aquática, de acordo com o relatório publicado emProceedings of the National Academy of Sciences .
Os APIs — os produtos químicos usados para fabricar medicamentos — podem atingir o ambiente natural durante sua fabricação, uso e descarte, de acordo com o estudo.
“Os primeiros resultados sugerem que algumas das misturas mais poluídas são extremamente tóxicas para plantas e invertebrados.”
Alistair Boxall, Departamento de Meio Ambiente e Geografia, Universidade de York, Reino Unido
Os pesquisadores dizem que monitoraram 1.052 locais de amostragem ao longo de 258 rios em 104 países, representando a “impressão digital farmacêutica” de 471 milhões de pessoas ligadas a essas áreas.
As maiores concentrações cumulativas de APIs foram observadas na África Subsaariana, no Sul da Ásia e na América do Sul, com os locais mais contaminados encontrados em países de baixa e média renda, onde a infraestrutura de gerenciamento de águas residuais geralmente é precária, diz o relatório.
Concentrações de pelo menos um IFA em 25,7% dos locais de amostragem foram maiores do que as consideradas seguras para organismos aquáticos, revela o estudo. As substâncias mais frequentemente detectadas foram o antiepiléptico carbamazepina e o anti-hiperglicêmico metformina.
Embora os riscos de consumir esses produtos químicos individualmente sejam baixos, as pessoas podem ser expostas a uma mistura complexa de produtos farmacêuticos ao longo da vida, disse o coautor Alistair Boxall, professor de ciências ambientais na Universidade de York, no Reino Unido.
“Alguns dos fármacos que detectamos agem pelo mesmo mecanismo de ação, então acreditamos que os efeitos deles se somam”, disse ele ao SciDev.Net . “Os efeitos combinados de fármacos com diferentes modos de ação são mais difíceis de avaliar”.
Após a publicação do artigo, os autores começaram a realizar estudos para esclarecer essa questão. “Os primeiros resultados sugerem que algumas das misturas mais poluídas são extremamente tóxicas para plantas e invertebrados”, disse Boxall.
Observações no local revelaram altas concentrações de API em locais que recebem insumos da indústria farmacêutica, como Lagos, Nigéria, ou descarga de esgoto não tratado, como Túnis, Tunísia, e aqueles que recebem emissões de caminhões extratores de esgoto e despejo de resíduos, como em Nairóbi, Quênia.
As maiores concentrações médias foram detectadas em Lahore, Paquistão (70,8 microgramas por litro), La Paz, Bolívia (68,9 µg/L) e Adis Abeba, Etiópia (51,3 µg/L).
“Alguns dos locais mais poluídos estavam associados ao despejo de resíduos”, disse Boxall. “Suspeitamos que eles recebam resíduos ilegalmente da Europa e da América do Norte. Precisamos acabar com essas práticas.”
“A indústria também é uma grande contribuidora, por isso precisamos incentivar a indústria a tratar melhor seus lançamentos.”
Marcos Cipponeri, presidente da Cap-Net , entidade de organizações especializadas em recursos hídricos da Argentina, também destacou os sistemas de tratamento de águas residuais.
O Rio da Prata, na América do Sul, “é tanto um receptor de esgoto quanto uma fonte de água potável”, disse ele. “E a maioria das estações de tratamento de Buenos Aires [província que abriga 17 milhões de pessoas na Argentina] não opera adequadamente”.
Cipponeri também destacou a conexão entre as mudanças climáticas e a presença de contaminantes.
“À medida que a temperatura média aumenta, há menos chuva e neve para abastecer os rios. Sua capacidade de diluição é enfraquecida, levando a uma maior concentração de poluentes”, explicou Cipponeri, que não participou do estudo.
Os compostos com maior porcentagem de locais excedendo as concentrações seguras foram sulfametoxazol (na África), ciprofloxacino (Ásia), propranolol (Europa), enrofloxacino (Oceania), propranolol e sulfametoxazol (América do Norte), claritromicina, enrofloxacino e metronidazol (América do Sul).
“O sulfametoxazol e o propanol afetarão a ecologia dos rios, enquanto a ciprofloxacina, a enrofloxacina, a claritromicina e o metronidazol selecionarão a resistência antimicrobiana [RAM] e possivelmente afetarão a produção primária por meio de seus efeitos sobre bactérias e cianobactérias no ambiente”, disse Boxall.
A resistência antimicrobiana ocorre quando bactérias, vírus, fungos e parasitas não respondem mais aos medicamentos que antes os matavam, devido a alterações genéticas e adaptação. “A falta de água limpa e saneamento básico, além da prevenção e controle inadequados de infecções, promovem a disseminação de micróbios, alguns dos quais podem ser resistentes ao tratamento antimicrobiano”,afirma a Organização Mundial da Saúde.
“A AMR Industry Alliance [uma coalizão de empresas de biotecnologia e farmacêuticas] está trabalhando para incentivar a indústria a tratar melhor seus lançamentos, mas ainda há um longo caminho a percorrer”, acrescentou Boxall.
“Não precisamos apenas de uma regulamentação mais rigorosa, mas também de começar a introduzir abordagens de tratamento de baixo custo e baixa manutenção que possam ser aplicadas numa escala muito local”, recomendou.
Estações de tratamento de esgoto de baixa complexidade, como lagoas de estabilização, são simples de operar e podem purificar esgoto se bem gerenciadas, diz Cipponeri.
“Mas eles só são úteis para residências isoladas. Em larga escala, seus compostos derivados de nitrato ainda são contaminantes”, alertou. “Em áreas urbanas, uma rede de esgoto deve ser sempre a primeira opção.”
Os pesquisadores alertam que a poluição do API pode colocar em risco a realização doObjetivo de Desenvolvimento Sustentável 6.3 das Nações Unidas, que visa “melhorar a qualidade da água reduzindo a poluição, eliminando o despejo e minimizando a liberação de produtos químicos e materiais perigosos”.
À medida que avançamos para 2030, o monitoramento ambiental deve envolver esforços inclusivos e interconectados, sugerem. “Somente por meio da colaboração global seremos capazes de gerar os dados de monitoramento necessários para tomar decisões informadas sobre abordagens de mitigação”, conclui o estudo.
Nos dias 29 e 30 de julho, iniciativa percorreu territórios de Fundo e Fecho de Pasto para ouvir relatos de criminalização, conflitos fundiários e violações de direitos das populações atingidas
Foto: Camila Carlos / MAB
Entre os dias 29 e 30 de julho aconteceu, em Correntina, a Caravana em Defesa das Populações de Fundo e Fecho de Pasto e atingidas por barragens na região Oeste da Bahia. A ação é organizada pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a Frente Parlamentar Ambientalista e o Coletivo de Fundo e Fecho de Pasto da Bacia do Rio Corrente, com apoio da Associação de Advogados/as de Trabalhadores/as Rurais (AATR). A atividade tem como propósito ouvir as comunidades atingidas, denunciar a violência e a criminalização nos territórios e cobrar do poder público ações concretas pela regularização fundiária, defesa dos territórios tradicionais e proteção das lideranças locais.
De acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), Correntina lidera o número de conflitos no campo na Bahia, com 132 registros entre 1985 e 2023. Segundo Temoteo Gomes, da coordenação nacional do MAB na Bahia, a caravana tem “o sentido de denunciar toda essa criminalização, que vem sendo praticada contra as comunidades fecheiras e atingidas, esse é o principal objetivo”, afirma o dirigente.
Diferentes órgãos do Estado e da Justiça acompanham a Caravana, dentre eles o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), Ministério Público do Estado da Bahia (MPBA), o Departamento de mediação e conciliação de conflitos agrários do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), o Núcleo Agrário do MPBA, entre outros.
Temoteo, explica que um dos objetivos centrais da caravana é “a gente pressionar o Estado para que o reconhecimento das áreas de Fundo de Fecho e Pasto sejam realizadas. É um momento de denúncia, mas também de reafirmação da luta das comunidades de Fundo de Fecho de Pasto, que vai continuar”, conclui.
Entenda o caso: Solange, Vanderlei e a criminalização da luta pelo reconhecimento e soberania dos territórios Fecheiros
Após 60 dias de prisão injusta, o casal Solange e Vanderlei tiveram uma decisão favorável ao pedido de Habeas Corpus apresentado à 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça da Bahia. Militantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o casal, que reside na comunidade tradicional de Fundo e Fecho de Pasto de Brejo Verde, em Correntina (BA), foi detido de forma arbitrária no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, em 16 de maio, e agora respondem em liberdade. O MAB, entretanto, pede o arquivamento da denúncia.
A prisão de Solange e Vanderlei foi amplamente denunciada como uma violação de direitos e um ataque à organização popular. O casal está sendo criminalizado por conta da luta em defesa dos direitos territoriais e ambientais de povos tradicionais. O MAB, ao celebrar a soltura do casal, reafirmou a necessidade de uma resposta imediata do Estado brasileiro para conter a escalada de violência e criminalização no Oeste da Bahia, que culminou na prisão dos militantes do Movimento.