Depois de semanas de “Greenwashing”, Anglo American adquire mineradora canadense Teck Resources

The great greenwashing myth being sold to Australians - The Australia  Institute

Para bom entendedor, meia palavra basta. Essa foi a reação de um espectador privilegiado das idas e vindas da mineradora Anglo American em Minas Gerais. Segundo esse espectador, após meses de intenso greenwashing que apresentam sua mineração predadora como “sustentável”, a Anglo American viu aprovada a sua fusão com a mineradora canadense Teck Resources.

A nova criatura corporativa se chamará será dona, no Brasil, do projeto Minas-Rio,  mega empreendimento de minério de ferro localizado em Conceição do Mato Dentro, na região central de Minas Gerais. A fusão foi aprovada por 99,17% dos acionistas da Anglo American e por mais de dois terços dos acionistas da Teck. A sede da nova empresa será em Vancouver, no Canadá.  

A Teck tem operações de cobre e zinco no Canadá, EUA, Chile e Peru. Depois de vender seu negócio de carvão metalúrgico, o cobre é agora sua maior commodity, seguida pelo zinco. 

Projeto Minas-Rio

O Minas-Rio é composto por uma mina e uma unidade de beneficiamento, localizadas em Conceição do Mato Dentro, um mineroduto e um terminal dedicado no Porto de Açu, no Rio de Janeiro. A Anglo American é dona da mina, da unidade de beneficiamento e do mineroduto, e de 50% do porto. A estimativa da companhia é de fechar o ano com uma produção da ordem de 23 a 25 milhões de toneladas de minério de Ferro.

Em dezembro de 2024, Anglo American anunciou a compra, por US$ 157 milhões, dos recursos de minério de ferro de alto teor localizados na Serra da Serpentina, que foi integrada ao Minas-Rio. O projeto continuará sendo operado pela empresa. A venda foi feita pela Vale, que passou a ter uma participação minoritária, de 15%, no Minas-Rio.


Com informações de “O Fator

Reciclagem ‘agrava problema dos microplásticos’

A Changing Markets Foundation revela que o poliéster reciclado gera 55% mais poluição por microplásticos.
Imagem do site da Patagonia. 
Por Brendan Montague para “The Ecologist”

Uma nova investigação revelou que a estratégia ambiental do setor da moda está agravando a poluição por microplásticos.

Mais de cem marcas afirmam que o poliéster reciclado proveniente de garrafas de plástico descartadas pode ajudar a reduzir a poluição e outros problemas ambientais. Adidas, H&M, Puma e Patagonia substituíram quase todo o poliéster virgem por poliéster reciclado em suas linhas de produção por motivos de sustentabilidade.

Mas uma nova pesquisa laboratorial , publicada hoje pela organização sem fins lucrativos Changing Markets Foundation , descobriu que o poliéster reciclado cria, em média, 55% mais partículas de poluição microplástica durante a lavagem do que o poliéster virgem, que é menos quebradiço. 

Organismos

Constatou-se também que as partículas eram quase 20% menores, o que as tornava mais capazes de se espalhar no ambiente e causar danos. 

Urska Trunk, gerente sênior de campanhas da Changing Markets Foundation, afirmou: “A indústria da moda vem vendendo poliéster reciclado como uma solução ecológica, mas nossas descobertas mostram que isso está agravando o problema da poluição por microplásticos. 

“Isso expõe o poliéster reciclado pelo que ele é: uma cortina de fumaça da sustentabilidade que encobre a crescente dependência da moda em relação aos materiais sintéticos.” 

“Ajustes de design mais inteligentes e correções pontuais apenas arranharão a superfície. Soluções reais significam desacelerar e eliminar gradualmente a produção de fibras sintéticas e interromper o desvio de garrafas plásticas para a fabricação de roupas descartáveis.”

Um único ciclo de lavagem pode liberar até 900.000 fibras de microplástico. Os microplásticos estão tão disseminados que são encontrados nos locais mais extremos e circulam em todos os ambientes: solo, ar, água e organismos vivos. Foram encontrados em diversos órgãos humanos e estão associados a um número crescente de problemas de saúde.

Vestuário

O poliéster reciclado é uma cortina de fumaça da sustentabilidade que encobre a crescente dependência da moda em relação aos materiais sintéticos. 

O estudo focou em um número relativamente pequeno de peças de roupa de cinco grandes marcas, e os resultados fornecem apenas uma indicação das prováveis ​​taxas de poluição. Camisetas, blusas, vestidos e shorts vendidos pela Adidas, H&M, Nike, Shein e Zara foram testados. 

O estudo é o primeiro a comparar marcas em relação à poluição por microplásticos, segundo a Changing Markets. As marcas estão entre as maiores produtoras e usuárias de tecidos sintéticos do mundo da moda, de acordo com uma pesquisa recente da Changing Markets . 

As roupas de poliéster da Nike foram consideradas as mais poluentes, tanto para tecido virgem quanto para tecido reciclado. O poliéster reciclado da marca liberou, em média, mais de 30.000 fibras por grama de amostra de roupa, quase quatro vezes a média da H&M e mais de sete vezes a média da Zara.

As roupas da Shein também se destacaram. Suas peças de poliéster reciclado liberam microplásticos em uma taxa semelhante à das roupas de poliéster virgem.

Superprodução

Mesmo antes das descobertas de hoje, ambientalistas já haviam concluído que a campanha da indústria da moda em prol do poliéster reciclado era, em grande parte, uma estratégia de marketing verde. 

Os sistemas de reciclagem de roupas de poliéster são considerados “ importantes ”, mas também “em desenvolvimento”, sendo capazes de processar apenas “cerca de dois por cento de todo o poliéster reciclado”. Em contrapartida, o setor de bebidas pode reutilizar repetidamente garrafas plásticas descartadas, mas agora precisa competir com as marcas de moda por elas. 

Entretanto, o uso de poliéster virgem na moda está crescendo tão rapidamente que a participação do poliéster reciclado no ano passado chegou a cair . O baixo custo dos tecidos sintéticos, agora produzidos em níveis recordes , impulsionou uma enorme superprodução, superconsumo e desperdício.

Um porta-voz da Puma disse: “Os resultados dos nossos testes de liberação de fibras em tecidos 100% poliéster reciclado e 100% poliéster virgem mostram que o poliéster reciclado não libera consistentemente mais ou menos microfibras do que o poliéster virgem.”

Um porta-voz da H&M disse ao The Ecologist : “Acreditamos que as microfibras precisam ser abordadas em várias etapas de nossa cadeia de valor, incluindo design, produção, uso e descarte, e é por isso que cooperamos com outras partes interessadas para encontrar soluções eficazes.”

O Ecologist entrou em contato com a Adidas e a Patagonia para obter um posicionamento.

Este autor

Brendan Montague é editor da revista The Ecologist.


Fonte: The Ecologist

TJMG derruba decisão do TCE e libera licenciamento de barragem da Anglo American em Conceição do Mato Dentro

Segundo a empresa, esse segundo alteamento da barragem é necessário para a continuidade das operações da Mina do Sapo

Moradores temem barragem da Anglo American e exigem reassentamento - Brasil  de FatoComunidades de Conceição do Mato Dentro protestam contra Anglo American em 2015| Crédito: Arquivo REAJA

 
Por Lucas Ragazzi para “O Fator”

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) determinou, na manhã dessa sexta-feira (5), a retomada imediata do licenciamento ambiental para o segundo alteamento da Barragem de Rejeitos do Sistema Minas-Rio, operado pela Anglo American, em Conceição do Mato Dentro. A decisão suspende a paralisação determinada em agosto pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG).

O desembargador Edilson Olímpio Fernandes concedeu liminar pedida pela mineradora contra o TCE-MG, que havia sustado o processo administrativo. A Corte de Contas alegava que a operação violava a Lei Estadual conhecida como Lei “Mar de Lama Nunca Mais”, criada após os desastres de Brumadinho e Mariana.

A Anglo American protocolou a ação depois que o conselheiro Agostinho Patrus, relator da representação no TCE, determinou a paralisação do processo. A ação apontava que a comunidade de São José do Arrudas, localizada na Zona de Autossalvamento da barragem, não tinha plano de reassentamento pactuado. A lei estadual veda a concessão de licenças ambientais para barragens quando há comunidades na Zona de Autossalvamento.

O TCE entendeu que a vedação alcança todas as fases do licenciamento, incluindo a Licença Prévia. O argumento foi referendado pelo Plenário do tribunal em agosto. A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) havia cumprido a determinação e suspenso o processo, que se encontrava em fase de instrução, aguardando parecer técnico da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam).

No recurso ao TJMG, a Anglo American sustentou que o TCE excedeu suas atribuições. A empresa argumentou que a Licença Prévia não autoriza obras ou intervenções – apenas avalia a viabilidade ambiental do projeto. A mineradora também afirmou que a decisão do tribunal de contas impedia a apresentação de esclarecimentos e documentos complementares, frustrando a manifestação final da Feam.

A liminar da Corte reconheceu que a sustação do processo impacta o planejamento operacional da Mina do Sapo e pode gerar prejuízos econômicos e sociais para a região. O desembargador citou julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) que estabeleceu a Licença Prévia como etapa fundamental para análise de impactos ambientais, sociais e econômicos de grandes empreendimentos.

A decisão do TJMG não descartou a necessidade de resolver a questão do reassentamento das comunidades. Ao contrário: o magistrado destacou que a discussão deve ocorrer na fase preliminar do licenciamento, mas ressaltou que a administração pública tem o dever de decidir em prazo razoável.

A Anglo American controla o Sistema Minas-Rio, que integra mina, beneficiamento de minério de ferro e transporte por duto até o porto do Açu, no Rio de Janeiro. Segundo a empresa, esse segundo alteamento da barragem é necessário para a continuidade das operações da Mina do Sapo, uma das principais unidades de produção da empresa no estado.


Fonte: O Fator

Os arautos do mercado no setor elétrico brasileiro e suas falácias neoliberais

“ Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores”, música de Geraldo Vandré

O setor elétrico brasileiro – tendências e desafios para os trabalhadores -  Eletricitários de São Paulo

Por Heitor Scalambrini Costa*

Uma das lendas que ainda persistem em nosso país é a ideia que o setor privado é naturalmente superior, ou mais eficiente, que o setor público. Para refutar tal colocação é necessário analisar a complexidade e os fatores que levam a esta assertiva. A primeira distinção consiste nos objetivos distintos que movem estes setores.

O setor privado visa primordialmente o lucro e a geração de valor (criação de riqueza) para os acionistas, enquanto o setor público o foco principal é o interesse social, a equidade e o atendimento das necessidades da população. ­­­

Comparar a eficiência de ambos sem considerar esses diferentes fins é, muitas vezes, incompleto e enganoso, e leva a situações em que setores como saúde, educação, saneamento, segurança pública, além de bens essenciais à vida, como água, energia são repassados ao controle privado.

No final da década de 80 do século passado com o objetivo propagandeado de ajudar países latino-americanos a retomarem o caminho do crescimento, um conjunto de ideias econômicas foram propostas para combater a crise da dívida e a hiperinflação na América Latina, como o controle fiscal, a abertura comercial e financeira, e a privatização. Tais recomendações de políticas neoliberais foram baseadas nos ideais do FMI, do Banco Mundial e do Departamento do Tesouro dos EUA.

O que ficou conhecido como o Consenso de Washington, o liberalismo econômico da época, defendia a mínima intervenção estatal na economia, com o mercado se autorregulando pela lei da oferta e da procura. Afirmavam que a liberdade individual e econômica levaria a mais investimentos e empregos, e a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Na comunidade europeia a política de liberalização do mercado levou a privatizações das empresas de energia elétrica. No entanto, não houve um modelo único e uniforme para todos os países do bloco, coexistindo empresas privatizadas e estatais. Todavia a tendência recente em alguns países tem sido a reestatização. O caso mais emblemático é o da França, que em 2022 o governo anunciou a reestatização da sua maior companhia elétrica, Électricité de France (EDF), justificando a necessidade de garantir a soberania energética do país, e enfrentar a crise energética

As reformas neoliberais da década de 1990 no Brasil estão inseridas no contexto das liberalizações promovidas em virtude do processo de globalização, em que a dinâmica do capitalismo – vinculada à expansão do capital financeiro – levou à redução dos estados nacionais. Nesse sentido, o setor elétrico brasileiro seguiu exemplarmente o processo de privatização, adotado como política de Estado durante as duas gestões do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), planejado levando em consideração apenas questões econômico-financeiras, relegando a segundo plano questões de atendimento à população. O resultado foi problemas para a cidadania e mesmo, dificuldades de abastecimento, além dos valores abusivos das tarifas cobradas, colocando em risco a situação financeira das famílias, principalmente aquelas de baixa renda, a maioria da população.

O liberalismo da política econômica aplicado ao setor elétrico propôs a reestruturação do setor, quebrando monopólios e introduzindo o que chamavam de concorrência, com a separação das atividades de geração, transmissão e distribuição de energia. O objetivo apregoado era de promover a eficiência econômica, à inovação, e como afirmavam os neoliberais, oferecer mais opções e estimular o protagonismo do consumidor. A liberalização, segundo seus defensores, buscava atingir ganhos de eficiência através da competição e do investimento de agentes privados, resultando na modicidade tarifária e na melhoria da qualidade dos serviços prestados.

Passados 30 anos desde o início da privatização, iniciado pelas distribuidoras, o fiasco e a decepção são evidentes e frustrantes para o consumidor. A eficiência, os investimentos prometidos, a concorrência e a inovação, resultando na diminuição de custos, e a redução das tarifas para o consumidor, não aconteceram. Ao contrário, as tarifas aumentaram e os serviços prestados despencaram. E coube ao consumidor simplesmente ser um mero observador, ao mesmo tempo arcar com os aumentos na tarifa bem superior à inflação. Foram enganados, ludibriados.

O processo de privatização resultou na demissão de pessoal das empresas, na queda nos investimentos, e da manutenção do sistema, com as despesas sendo superadas pela busca por lucros a curto prazo.  O “desmonte” do setor estatal ocorreu, com decisões que favoreceram interesses privados em detrimento da base técnica. A desnacionalização do setor e a perda do protagonismo estatal provocaram a perda da soberania energética e hídrica do país, especialmente em um contexto de mudanças climáticas, tecnológicas e de desafios no planejamento e na segurança do funcionamento do sistema.

A separação das atividades de geração, transmissão, distribuição e comercialização com diferentes agentes privados e públicos atuando, introduziu um desarranjo no sistema, rompendo com a integração vertical tradicional. E foram verificados problemas de coordenação e governança fragmentada, e pelos interesses específicos de cada atividade.  O que levou a problemas frequentes que afetaram diretamente o consumidor, quer pelo rebaixamento da qualidade dos serviços oferecidos, quer pelas escandalosas tarifas cobradas.

Os mensageiros das soluções de mercado no setor elétrico se locupletaram nestes 30 anos pós-privatização. A partir da lógica liberalizante/mercantil, o setor se compromete com o pagamento dos acionistas privados e de seus gerentes, as custas do bem-estar da sociedade brasileira e de nossa soberania. Enquanto a população contribui significativamente para a transferência de renda para as grandes corporações transnacionais, provocando o empobrecimento da população.

Ao longo deste período de mercantilização da energia elétrica, a atuação dos lobbies pulverizados, atuando na esfera do Ministério de Minas e Energia (MME) e no Congresso Nacional (CN) na defesa de vários interesses, muito deles antagônicos, cresceu intensamente, causando um desequilíbrio de poder entre o Estado, as empresas e o mercado. Particularmente pelos inúmeros lobbies atuando tanto no MME, como no CN, buscando benefícios pontuais, e contribuindo para a desorganização do arcabouço regulatório do setor e de sua governança.

A partir de 2025, começa a findar a vigência, estipulada em 30 anos, dos contratos de concessão dos serviços públicos de distribuição de energia elétrica. Entre 2025 e 2031, 20 contratos de distintas concessionárias chegam ao fim. E é prerrogativa do poder concedente, o MME, decidir se prorroga ou não essas concessões.

A decisão tomada pelo governo federal foi pela prorrogação por mais 30 anos, podendo mesmo ser solicitada a prorrogação contratual antecipada. Em 21 de junho de 2024, foi publicado o Decreto no 12.068, que estabeleceu mudanças pontuais, e definiu diretrizes similares às já existentes nos contratos de concessão inicial, que foram violados sistematicamente pelas concessionárias. Sem dúvida com a atual decisão governamental as distribuidoras de energia elétrica continuarão penalizando o povo brasileiro, seguindo como um dos principais algozes do consumidor, e da economia nacional.

Neste sentido é urgente e necessário a reestatização do setor elétrico, iniciando pela distribuição, e assim promover justiça, bem-estar social e o desenvolvimento sustentável. Nada custaria aos cofres do tesouro nacional, pois os contratos estariam finalizados, e não haveria nem prorrogação, nem nova licitação. Os bens reversíveis, envolvendo ativos como imóveis, equipamentos e a infraestrutura seriam devolvidos ao patrimônio do Estado, titular do serviço.

Setor elétrico. Reestatização Já!!!!


 *Heitor Scalambrini Costa é Professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco

Colapso elétrico em SP revela falta de adaptação e explicita os efeitos drásticos da privatização

Um quarto da cidade sem luz, milhares sem água e voos cancelados: como foi  o dia de caos em São Paulo

A mídia corporativa está noticiando a situação insólita que está ocorrendo na maior cidade brasileira, São Paulo, e em toda a sua região metropolitana.  Sofrendo com a ocorrência de fortes ventos causados pelo ciclone extropical que assola a região litorânea desde o Rio Grande do Sul, a cidade convive com a óbvia falta de adaptação com as mudanças climáticas e que se combina com a lerdeza de ações da concessionária Enel, empresa  cujo principal acionista é o estado italiano. Aliás, a Enel está se mostrando mais uma vez incapaz de restabelecer serviços em mais de um milhão de residências, o que significa que 20% da cidade está às escuras.

Temos diante de nós um quadro que é uma espécie de antessala do que poderá acontecer com as principais brasileiras que ainda não iniciaram nenhum esforço real de adaptação climática e que tiveram os principais serviços públicos entregues à empresas privadas, muitas delas estatais estrangeiras, que só aparecem por aqui para retirar lucros fabulosos.

O fato é que ainda vivemos uma negação objetiva dos problemas causados tanto pelas mudanças climáticas, o que é agravado pelo afastamento do Estado de serviços públicos essenciais. E, pior, enquanto se mantém a aplicação de políticas neoliberais que impedem o financiamento das medidas de adaptação climática que se tornam cada vez mais urgentes e necessárias.

Há ainda que se enfatizar que são as regiões mais pobres das grandes cidades que vão sofrer os efeitos mais drásticos dos eventos meterológicos extremos e que ficam desprovidas de serviços básicos após a ocorrência dos mesmos.

Rio Morto: Elementos potencialmente tóxicos acumulados em bananas cultivadas em solo com rejeitos de minério do desastre de Mariana excedem valores-limite da FAO

Chumbo presente na fruta é o principal motivo; trabalho também avaliou os riscos do consumo de cacau e mandioca plantados em Linhares (ES), área impactada pelo rompimento da barragem de Fundão (MG), há dez anos

Grupo de pesquisa alerta que o consumo contínuo de alimentos cultivados em solos contaminados pode significar risco carcinogênico pela acumulação a longo prazo no organismo de elementos potencialmente tóxicos (montagem de imagens de Pixabay e Wikimedia Commons)

Karina Ninni | Agência FAPESP  

Cientistas das áreas de geoquímica de solos, engenharia ambiental e saúde ligados à Universidade de São Paulo (USP), à Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e à Universidade de Santiago de Compostela (Espanha) avaliaram os riscos de consumo de banana, mandioca e polpa de cacau plantados em solos impactados pelos rejeitos de mineração de ferro no estuário do rio Doce, em Linhares (ES). A região vem recebendo o material desde o rompimento da barragem de rejeitos de Fundão (MG), em novembro de 2015.

Nos solos, as concentrações de cádmio, cromo, cobre, níquel e chumbo ocorrem associadas ao principal constituinte do rejeito – óxidos de ferro. A equipe também descobriu que há um possível risco à saúde associado ao consumo, por crianças de seis anos ou menos, das bananas plantadas em solos impactados pelos rejeitos. 

“Nosso grupo vem estudando os impactos do rompimento da barragem há anos. Obtivemos a primeira amostragem sete dias após o acidente e, imediatamente, compreendemos que existia um risco iminente de contaminação de plantas, solo, água e peixes. Mas persistia a pergunta: essa contaminação traz risco para a saúde humana?”, lembra Tiago Osório, agrônomo e professor no departamento de Ciência do Solo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP).

Em artigo publicado na Environmental Geochemistry and Health, o grupo se dedica a responder a essa pergunta, revelando como as plantas acessam os elementos potencialmente tóxicos (EPTs) associados ao rejeito, acumulando-os em suas partes comestíveis, e de que maneira esse material chega à cadeia trófica. O artigo é parte do doutorado de Amanda Duim pela Esalq. Além de já ter rendido sete publicações em revistas internacionais, a tese de Duim ganhou dois prêmios em 2025: o Prêmio USP de Tese, na área de Sustentabilidade, e o Prêmio Capes de Tese. Ela recebeu apoio da FAPESP por meio de bolsa de doutorado.

O suporte da FAPESP aos trabalhos do grupo estende-se a duas bolsas de pós-doutorado (20/12823-5 e 21/00221-3); dois auxílios à pesquisa (23/01493-2 e 22/12966-6); uma bolsa do programa de fixação de jovens doutores e uma bolsa de iniciação científica.

Concentração alta

Segundo Duim, primeira autora do artigo, o diferencial do trabalho é que a equipe correlacionou o risco à saúde humana com a transferência dos EPTs do solo para a planta. “O teor dos óxidos de ferro no solo, que são os principais constituintes do rejeito, está correlacionado ao teor deles na planta. Estudamos a passagem de constituintes do rejeito do solo para a água e da água para a planta, incluindo suas folhas e frutos.”

“Primeiro, é preciso saber quais elementos estão ali e em que quantidade, para entender a dinâmica bioquímica de sua liberação”, explica Osório.

Duim começou o doutorado em 2019 trabalhando com plantas de regiões alagadas para remediação de ambientes contaminados. “Avaliamos espécies cultivadas e nativas. No caso das últimas, queríamos saber como afetam a dissolução do óxido de ferro e, nesse processo, tentar entender se os EPTs associados a esse rejeito vão para dentro da planta, e de que maneira, já que diferentes espécies têm formas diversas de acumular EPTs”, detalha a pesquisadora. “A ideia era descobrir quais seriam as melhores nativas para remediação de ambientes contaminados e chegamos a mais de uma espécie que pode cumprir essa função, com resultados já publicados inclusive. No caso das espécies cultivadas, queríamos saber se os EPTs seriam transferidos para os frutos e partes comestíveis das plantas”, explica.

“Coletamos o solo e a planta, lavamos a planta, pesamos a biomassa fresca, secamos a planta, pesamos a biomassa seca e trituramos separadamente raízes, caule, folhas e frutos sem a casca. Só então analisamos todas as partes para saber o que havia em cada uma. Dissolvemos o ‘pó de planta’, transformando-o em solução com o uso de vários ácidos, e determinamos a concentração na solução. Convertemos o cálculo da concentração de material na solução e comparamos com o peso do material que foi diluído, conseguindo, assim, obter a concentração do EPT em miligramas por quilo de biomassa seca”, descreve Duim.

Na banana e na mandioca, todos os EPTs (exceto cromo) se acumularam mais nas partes subterrâneas, como raízes e tubérculos, do que nas partes aéreas. Já o cacau apresentou alto acúmulo de EPTs nas partes acima do solo (caules, folhas e frutos). Além disso, as concentrações de cobre e chumbo na polpa do fruto excederam os valores-limite estabelecidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Quando a equipe viu que havia nas plantas cultivadas uma concentração de EPTs acima do indicado, inclusive nas partes comestíveis, decidiu fazer uma análise de risco nos frutos e tubérculos.

Riscos à saúde

Os cientistas estimaram os riscos do consumo de frutos de banana, rizoma da mandioca e da polpa de cacau calculando o Quociente de Risco (QR), o Índice de Risco (IR) e o Índice de Risco Total (IRT) para crianças (menores de 6 anos) e adultos (maiores de 18 anos). O QR é a razão entre a ingestão média diária de uma substância química e sua dose de referência correspondente. Já o IRT é uma métrica fundamental para avaliar os potenciais riscos não cancerígenos à saúde ligados à exposição aos EPTs (para indicar baixa existência de risco, ele deve ser menor que 1).

“Esses elementos existem naturalmente no ambiente, estamos expostos a eles em uma concentração menor, mas no caso de um desastre como o de Mariana, quando se espera que a exposição aumente, é preciso redobrar a atenção”, conta Tamires Cherubin, doutora em ciências da saúde e também autora do trabalho. A metodologia geralmente utilizada é a de calcular o risco da biodisponibilidade desses elementos, tendo em vista que a exposição a determinadas concentrações pode causar danos importantes à saúde, como problemas renais, cardíacos, desconfortos gastrointestinais, danos pulmonares, quando a exposição é respiratória, e outros riscos mais agudos, como problemas na pele ou irritações na visão.

No cálculo da análise de risco entram fatores como o consumo das plantas cultivadas localmente pela população. Os pesquisadores inclusive estimaram quanto da alimentação das populações locais vinha de fora e quanto ingeriam dos alimentos ali cultivados, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Outros fatores são a duração da exposição (por quantos anos a pessoa consome o produto), o teor de consumo em relação à massa corporal do adulto e da criança e o tempo que leva para que o consumo resulte em algum efeito deletério.

“De acordo com as doses de referência de ingestão diária dos contaminantes chanceladas pela literatura, consideramos os limites de 0,05 mg/kg-1 para a presença de cádmio nas frutas e 0,1 mg/kg-1 nos tubérculos, 0,5 – 1,0 mg/kg-1 para a presença de cromo, 20,0 mg/kg-1 para cobre, 0,5 – 1,0 mg/kg-1 para níquel, 0,8 – 2,3 mg/kg-1 para chumbo e 50,0 mg/kg-1 para zinco”, detalha Cherubin.

Embora os IRTs para a maioria dos elementos analisados tenham ficado abaixo do nível de risco (menor que 1), indicando que o consumo desses alimentos cultivados no estuário do rio Doce não apresentava ameaça significativa para os adultos, o resultado para a banana em crianças excedeu o limiar 1, sugerindo potenciais impactos à saúde. O principal fator de risco foi a maior concentração de chumbo presente no fruto, que também apresentou teor de cádmio superior ao preconizado pela FAO. Segundo os cientistas, a exposição prolongada ao chumbo, mesmo em baixas doses, está associada a danos irreversíveis no desenvolvimento neurológico, incluindo reduções no QI, déficits de atenção e distúrbios comportamentais.

O grupo alerta que, a longo prazo, o consumo contínuo de alimentos cultivados em solos contaminados pode, em alguns casos, significar riscos cumulativos. “Com o passar do tempo de exposição, considerando a expectativa de vida do Brasil, de mais ou menos 75 anos, pode surgir o risco carcinogênico, uma vez que existe a possibilidade de ocorrerem danos diretos e indiretos ao DNA”, diz Cherubin. Essas mutações têm o potencial de resultar em maior incidência de cânceres de diversos tipos como os que afetam o sistema nervoso central, o trato gastrointestinal e o sistema hematológico. “Tudo depende da capacidade do organismo humano de absorver e metabolizar esses elementos que estão disponíveis no ambiente”, afirma a pesquisadora.

O artigo From tailings to tables: risk assessment of potentially toxic elements in edible crops cultivated in mine tailing impacted soils pode ser lido em: https://doi.org/10.1007/s10653-025-02770-9.


Fonte: Agência Fapesp

Brilho de carnaval, microplástico que polui

microplásticos de carnaval 1

Desfile de carnaval na praia do Flamengo. Crédito da imagem: Fernando Maia/ Riotur

Por Luiz Felipe Fernandes para a Scidev 

Entre os culpados está um elemento quase onipresente durante as festividades: o glitter, usado para dar brilho à maquiagem, fantasias e acessórios.

O glitter é composto por camadas de plástico (geralmente PET) revestidas com películas metálicas. É considerado um microplástico primário, o que significa que é produzido intencionalmente em tamanho microscópico. Por ser leve, dispersa-se facilmente pelo vento, pela água e pelo contato entre pessoas.

Os pesquisadores coletaram amostras de diferentes trechos de areia ao longo dos 1,7 quilômetros da praia do Flamengo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, antes, durante e logo após o Carnaval, que acontece em fevereiro ou março de cada ano. Oito meses após as festividades, eles fizeram uma quarta coleta.

Fragmentos de plástico — categoria que inclui glitter — representaram 66,3% dos microplásticos identificados. Fibras, com 26,2%, e grânulos, com 7,5%, compuseram o restante das partículas.

Imagens microscópicas de microplásticos encontrados na praia do Flamengo: a) glitter, b) fibras, c) grânulos, d) fibras emaranhadas.

O estudo também revelou que o acúmulo de microplásticos não se limita ao período festivo. Mesmo após o término do Carnaval, os níveis de partículas permanecem elevados por vários dias.

Ao longo da rua que margeia a praia do Flamengo, dezenas de desfiles de rua (também chamados de grupos de carnaval) acontecem. São grupos de pessoas fantasiadas que desfilam pelas ruas ao som de músicas carnavalescas. Alguns desses desfiles atraem mais de 100 mil pessoas e são considerados mega-desfiles.

Em 2024, ano em que a pesquisa foi realizada, houve 18 desfiles na praia do Flamengo, incluindo três mega-desfiles.

O governo do Rio de Janeiro estima que o carnaval da cidade atraiu oito milhões de pessoas naquele ano. Mais de 1.400 toneladas de resíduos sólidos foram coletadas, das quais mais da metade foram geradas apenas pelas festas de rua.

Além da areia

Mesmo sem uma análise direta da água , o estudo revela o impacto potencial do festival para além da arena.

“Os microplásticos depositados na areia podem ser facilmente transportados pelas marés, pelo vento e pelas correntes, atingindo a zona infralitoral [a área costeira submersa que permanece permanentemente coberta pela água] e, em seguida, o oceano adjacente”, disse Tatiana Cabrini, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e uma das autoras do estudo, ao SciDev.Net .

O pesquisador destaca que a praia do Flamengo, onde as amostras foram coletadas, fica na Baía de Guanabara, uma região já afetada por resíduos domésticos e industriais provenientes de 16 cidades da área.

Os microplásticos podem ser ingeridos por animais que vivem no fundo do mar ou por espécies filtradoras. Essas partículas podem reter substâncias tóxicas e metais pesados ​​em sua superfície.

“Esses efeitos incluem obstrução do trato digestivo, redução da capacidade de alimentação e alterações fisiológicas”, explica Cabrini.

A bióloga Luana Yoshida, que não participou do estudo, elogiou a pesquisa e destacou ao SciDev.Net o papel de grandes eventos na dispersão de partículas como o glitter.

“Uma vez introduzido indevidamente em corpos d’água — seja por falta de retenção no sistema de tratamento de esgoto ou diretamente como resultado de festividades como o Carnaval — e submerso, o glitter reflete a luz subaquática e reduz a radiação disponível para as plantas nesse ecossistema”, explicou Yoshida.

“Os microplásticos depositados na areia podem ser facilmente transportados pelas marés, pelo vento e pelas correntes marítimas, atingindo a zona infralitoral [a área costeira submersa que permanece permanentemente coberta pela água] e, em seguida, o oceano adjacente.”

Tatiana Cabrini, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio)

Os pesquisadores também observaram que, devido à sua natureza metálica e à sua capacidade de refletir a luz, o brilho reduz a luminosidade da água a ponto de prejudicar a fotossíntese e o crescimento de plantas aquáticas.

Um estudo no qual Yoshida participou descobriu que o glitter reduziu as taxas de fotossíntese em 30% na elódea ( Egeria densa ), uma planta aquática que serve de alimento e abrigo para outras espécies.

“Essas mudanças na produção primária podem gerar outros problemas para os organismos desse ecossistema”, afirma Yoshida, que atualmente é doutorando em Ecologia e Recursos Naturais na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Alternativas

Mas como mudar um costume tão profundamente enraizado na cultura brasileira?

Segundo Cabrini, surgiram alternativas que buscam reduzir o impacto ambiental, como o glitter feito de celulose regenerada, mica sintética, algas marinhas e gelatina vegetal, além do uso de corantes naturais, que são materiais que se degradam mais rapidamente.

“Idealmente, deveríamos reduzir o uso de glitter convencional e promover políticas de certificação ambiental, controles de marketing e educação para o consumo responsável durante o Carnaval”, acrescenta.

Yoshida concorda: “Embora o glitter seja muito atraente e faça parte do nosso dia a dia e das nossas celebrações há muito tempo, não é um item essencial. Então, por que não reduzir o seu uso ou investir em alternativas menos nocivas?”

O pesquisador destaca que, embora ainda seja necessário investigar os riscos que esses outros materiais representam para o meio ambiente, eles são menos agressivos porque substituem o plástico, que persiste no ecossistema por anos.

Proibição

O glitter já é proibido em alguns países. A Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA) incluiu-o em regulamentos que proíbem a adição intencional de microplásticos a produtos cuja libertação para o ambiente não pode ser controlada.

Na Califórnia, EUA, está sendo considerado um projeto que estenderia a proibição de microesferas de plástico a cosméticos que contenham glitter.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu recentemente um comunicado esclarecendo que nenhum pó decorativo (incluindo glitter) contendo polipropileno micronizado pode ser usado para decorar alimentos.

Além disso, um projeto de lei propõe proibir a fabricação, importação e venda de versões do produto em plástico e metal.


Fonte: SciDev.Net.

Relatório aponta que substâncias químicas sintéticas no sistema alimentar geram um custo de saúde de R$ 11 trilhões anuais

Cientistas emitem alerta urgente sobre substâncias químicas que comprovadamente causam câncer e infertilidade, além de prejudicarem o meio ambiente
Pastinacas, alface, aipo e tomates em embalagem plástica.
Os ftalatos e os bisfenóis são comumente usados ​​como aditivos plásticos, empregados em embalagens de alimentos e luvas descartáveis ​​utilizadas em seu preparo. Fotografia: Paul Weston/Alamy
Por Damien Gayle para “The Guardian” 

Cientistas emitiram um alerta urgente de que alguns dos produtos químicos sintéticos que sustentam o sistema alimentar atual estão impulsionando o aumento das taxas de câncer, distúrbios do neurodesenvolvimento e infertilidade, ao mesmo tempo que degradam os alicerces da agricultura global.

O impacto na saúde causado por ftalatos, bisfenóis, agrotóxicos e PFAS, os chamados “químicos eternos”, chega a US$ 2,2 trilhões por ano – aproximadamente o mesmo que os lucros das 100 maiores empresas de capital aberto do mundo, segundo relatório divulgado na quarta-feira .

A maior parte dos danos aos ecossistemas permanece sem preço definido, afirmam, mas mesmo uma contabilização restrita dos impactos ecológicos, levando em conta as perdas agrícolas e o cumprimento das normas de segurança da água para PFAS e agrotóxicos, implica um custo adicional de US$ 640 bilhões. Há também consequências potenciais para a demografia humana, com o relatório concluindo que, se a exposição a desreguladores endócrinos como bisfenóis e ftalatos persistir nos níveis atuais, poderá haver entre 200 milhões e 700 milhões de nascimentos a menos entre 2025 e 2100.

O relatório é fruto do trabalho de dezenas de cientistas de organizações como o Instituto de Saúde Preventiva , o Centro de Saúde Ambiental, a Chemsec e diversas universidades dos EUA e do Reino Unido, incluindo a Universidade de Sussex e a Universidade Duke. A equipe principal do projeto foi liderada pela Systemiq, uma empresa que investe em empreendimentos voltados para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e do Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas.

Os autores afirmaram que se concentraram nos quatro tipos de substâncias químicas examinadas porque “elas estão entre as mais prevalentes e mais bem estudadas em todo o mundo, com fortes evidências de danos à saúde humana e ecológica”.

Um dos membros da equipe, Philip Landrigan, pediatra e professor de saúde pública global no Boston College, classificou o relatório como um “alerta”. Ele afirmou: “O mundo precisa acordar e fazer algo a respeito da poluição química. Eu diria que o problema da poluição química é tão sério quanto o problema das mudanças climáticas.”

A exposição humana e dos ecossistemas a produtos químicos sintéticos aumentou drasticamente desde o fim da Segunda Guerra Mundial, com a produção química aumentando mais de 200 vezes desde a década de 1950 e mais de 350.000 produtos químicos sintéticos atualmente no mercado global.

Há três anos, pesquisadores do Centro de Resiliência de Estocolmo (SRC) concluíram que a poluição química havia cruzado um “limite planetário” , o ponto em que as alterações provocadas pelo homem na Terra a empurram para fora do ambiente estável dos últimos 10.000 anos, período em que a civilização humana moderna se desenvolveu.

Ao contrário dos produtos farmacêuticos, existem poucas medidas de segurança para testar a eficácia dos produtos químicos industriais antes de serem utilizados, e o monitoramento dos seus efeitos após a sua utilização é mínimo. Alguns demonstraram ser extremamente tóxicos para humanos, animais e ecossistemas, obrigando os governos a arcar com os custos.

Este relatório avalia o impacto de quatro famílias de substâncias químicas sintéticas endêmicas na produção global de alimentos. Os ftalatos e os bisfenóis são comumente usados ​​como aditivos plásticos, empregados em embalagens de alimentos e em luvas descartáveis ​​utilizadas no preparo de alimentos.

Os agrotóxicos são a base da agricultura industrial, com grandes fazendas de monocultura pulverizando milhares de litros de produtos químicos nas plantações para eliminar ervas daninhas e insetos, e muitas culturas sendo tratadas após a colheita para manter o frescor.

Os PFAS são utilizados em materiais que entram em contato com alimentos, como papel impermeável a gordura, embalagens de pipoca e caixas de sorvete, mas também se acumularam no meio ambiente a tal ponto que chegam aos alimentos por meio da contaminação do ar, do solo e da água.

Todas foram associadas a danos como disfunção endócrina (sistema hormonal), câncer, defeitos congênitos, deficiência intelectual e obesidade.

Landrigan afirmou que, durante sua longa carreira em saúde pública pediátrica, observou uma mudança nas condições que afetam as crianças. “A quantidade de doenças e mortes causadas por doenças infecciosas como sarampo, escarlatina e coqueluche diminuiu bastante”, disse ele. “Em contrapartida, houve um aumento incrível nas taxas de doenças não transmissíveis. E, claro, não há um único fator, mas as evidências são muito claras de que a exposição crescente a centenas, talvez até milhares, de substâncias químicas fabricadas é uma causa muito importante de doenças em crianças.”

Landrigan afirmou estar mais preocupado com “os produtos químicos que danificam o cérebro em desenvolvimento das crianças e, portanto, as tornam menos inteligentes, menos criativas e menos capazes de contribuir para a sociedade ao longo de toda a sua vida”.

“E a segunda classe de substâncias químicas que realmente me preocupa são as substâncias disruptoras endócrinas”, acrescentou. “O bisfenol seria o exemplo clássico, que entra no corpo das pessoas em todas as idades, danifica o fígado, altera o metabolismo do colesterol e resulta em aumento do colesterol sérico, aumento da obesidade, aumento do diabetes e, internamente, aumenta as taxas de doenças cardíacas e AVC.”

Questionado se o relatório poderia ter analisado outros grupos de substâncias químicas estudados, Landridge disse: “Eu diria que elas são apenas a ponta do iceberg. Estão entre o número muito pequeno de substâncias químicas, talvez 20 ou 30, para as quais realmente temos informações toxicológicas sólidas.”

“O que me assusta demais são os milhares de produtos químicos aos quais estamos expostos diariamente, sem sabermos nada sobre eles. E enquanto um deles não causar algo óbvio, como crianças nascendo com membros faltando, vamos continuar nos expondo sem pensar.”


Fonte: The Guardian

Rio Morto: Ativistas ambientais, pesquisadores e atingidos pelo desastre de Mariana apresentam demandas à justiça capixaba

Formalização de demanda ao Ministério Público e à Defensoria Pública relativa à repercussões do desastre do rompimento da barragem de Fundão no ES

 À
Excelentíssimos(as) Representantes do Ministério Público Federal – MPF
Excelentíssimos(as) Representantes do Ministério Público do Estado do Espírito Santo – MPES
Excelentíssimos(as) Representantes da Defensoria Pública da União – DPU
Excelentíssimos(as) Representantes da Defensoria Pública do Estado do Espírito Santo – DPES

Assunto: Solicitação de informações, transparência e inclusão das comunidades da foz do Rio Doce no processo de tomada de decisão sobre o manejo dos rejeitos de Fundão e acesso a estudos sobre contaminação de águas, sedimentos e alimentos.

Prezados(as),

Nós, organizações da sociedade civil, pesquisadores, comunidades tradicionais, pescadoras(es), quilombolas e demais moradores da região da foz do Rio Doce, dirigimo-nos a Vossas Excelências para expressar preocupação urgente e indignação crescente diante dos impactos que persistem após o rompimento da barragem de Fundão (2015) e, especialmente, da recente abertura de consulta pública visando à definição de Termo de Referência para estudos ambientais sobre o manejo dos rejeitos depositados na UHE Candonga.

Segundo nota oficial do IBAMA publicada em 21/01/2025, está aberta Consulta Pública para recebimento de subsídios técnicos ao Termo de Referência que orientará os estudos ambientais para o manejo dos rejeitos de Fundão retidos na Usina Hidrelétrica de Candonga, com prazo e procedimento definidos pelo órgão ambiental federal. (Fonte: IBAMA – “Consulta pública para subsídios ao Termo de Referência para estudos ambientais do manejo dos rejeitos depositados na UHE Candonga” – gov.br)
Link: https://www.gov.br/ibama/pt-br/assuntos/notas/2025/consulta-publica-subsidios-ao-termo-de-referencia-para-estudos-ambientais-do-manejo-dos-rejeitos-depositados-na-uhe-candonga

Tal informação causou espanto devido à ausência de comunicação e participação social e intensa preocupação entre as comunidades locais, uma vez que a situação dos rejeitos está diretamente relacionada à situação de presença de metais contaminantes ao longo da calha do Rio Doce o que implica diretamente na saúde e segurança alimentar de quem vive na foz, local que já enfrenta histórico de contaminação pós-desastre.

A apreensão é agravada pelo conteúdo do estudo divulgado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), que registrou elevada concentração de metais pesados em alimentos cultivados no estuário do Rio Doce, tais como mandioca, banana e cacau. De acordo com a pesquisa, foram identificados teores preocupantes de chumbo, cádmio, cobre, cromo e níquel, em níveis acima de padrões internacionais de segurança alimentar estabelecidos pela FAO e OMS. (Fonte: UFES – “Pesquisadores encontram elevada concentração de metais em alimentos cultivados no estuário”). Segundo observa-se “o estudo também reconhece que seria necessário ampliar a amostragem de áreas ao longo do Rio Doce para melhor compreender o potencial risco para a população atingida pelo desastre. Porém, os resultados oferecem um sinal de alerta, pois dependendo da quantidade de alimentos ricos em metais consumidos, assim como de fontes adicionais de contaminação (solo, ar e água), existe a possibilidade de risco para crianças.”
Link: https://www.ufes.br/conteudo/pesquisadores-encontram-elevada-concentracao-de-metais-em-alimentos-cultivados-no-estuario

Adicionalmente, reportagem investigativa independente publicada pela Mongabay Brasil (2025) reforça que, 10 anos após o rompimento de Mariana, famílias quilombolas do Rio Doce ainda convivem com água imprópria para consumo e pesca contaminada, afetando diretamente os modos de vida das comunidades de Degredo, Povoação e Regência. A matéria registra relatos de adoecimento, perda de sustento, insegurança alimentar e ausência de reparação efetiva. (Fonte: Mongabay Brasil – “Dez anos após Mariana, quilombolas do Rio Doce ainda sofrem com água contaminada”)
Link: https://brasil.mongabay.com/2025/11/dez-anos-apos-mariana-quilombolas-do-rio-doce-ainda-sofrem-com-agua-contaminada/?amp=1

Essas referências configuram um cenário crítico e epidemiologicamente sensível, indicando que qualquer decisão relacionada aos rejeitos de Candonga sem controle e participação social informada e qualificada pode aprofundar a injustiça socioambiental já instalada.

Nesse sentido, é absolutamente necessário que as Instituições de Justiça observem o risco que está colocado, inclusive às futuras gerações, garantindo que mesmo em tempos vindouros seja possível escrutinar o processo de tomada de decisão realizado hoje, atribuir responsabilidades e avaliar novos riscos em face às situações ainda desconhecidas.

Ressaltamos que o direito à proteção ambiental e à saúde no Brasil possui fundamento constitucional sólido e orientação expressa de responsabilidade intergeracional. O artigo 225 da Constituição Federal de 1988 estabelece que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, impondo ao poder público e à coletividade o dever de preservá-lo para as presentes e futuras gerações. De forma relacionada, está o artigo 196, que reconhece a saúde como direito universal e impõe políticas voltadas à redução de riscos ambientais. Tal fundamento é reforçado pela Política Nacional do Meio Ambiente (Lei nº 6.938/1981), que incorpora os princípios da prevenção e da reparação, responsabilizando o poluidor e estabelecendo instrumentos para controle da degradação; pela Lei da Ação Civil Pública (Lei nº 7.347/1985), que permite a tutela judicial de direitos difusos e coletivos, incluindo danos ambientais de caráter continuado; e pela Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei nº 9.433/1997), que reconhece a água como bem público finito a ser utilizado de forma sustentável entre gerações. Soma-se a isso a proteção prioritária conferida a crianças e adolescentes pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990), garantindo-lhes direito ao desenvolvimento saudável e reforçando o dever estatal de assegurar condições ambientais seguras. Em âmbito internacional, o Princípio 3 da Declaração do Rio/92 consagra o dever de atender equitativamente às necessidades das gerações presentes e futuras e a Convenção 169 da OIT (Decreto nº 5.051/2004) assegura a consulta prévia, livre e informada de povos e comunidades tradicionais diante de ações que afetem seus territórios e modos de vida. Conjunto normativo que, articulado, consolida a proteção ambiental e sanitária como direito fundamental intergeracional, sobretudo em contextos de risco tóxico contínuo como o da bacia e foz do Rio Doce.

Diante disso, requeremos:

  1. Acesso público integral e simplificado a todos os documentos referentes ao processo de manejo dos rejeitos na UHE Candonga, incluindo Termo de Referência preliminar, pareceres técnicos, estudos de risco, alternativas tecnológicas avaliadas e plano operacional.
  2. Disponibilização de todos os estudos ambientais, hidrológicos e toxicológicos existentes sobre contaminação na bacia do Rio Doce, com recorte específico para o estuário e costa capixaba, incluindo o estudo da UFES aqui citado e outros que estejam em posse de órgãos públicos e empresas responsáveis.
  3. Informação detalhada e atualizada sobre medidas adotadas e previstas pelos responsáveis pela reparação, especialmente monitoramento de metais na água, pescado e alimentos, ações de saúde pública e planos de mitigação.
  4. Inclusão formal das comunidades quilombolas de Degredo, e das localidades de Povoação e Regência, e suas ATIs, no processo decisório, com consultas públicas presenciais, linguagem acessível e respeito ao direito de participação social livre e informada, conforme princípios da Convenção 169 da OIT e legislação ambiental brasileira.
  5. Criação de mecanismo permanente de diálogo e transparência, com canal institucional de acompanhamento comunitário, audiências públicas, acesso a dados e relatórios periódicos.
  6. Disponibilização de um plano de comunicação e divulgação científica que permita que as comunidades possam acompanhar e compreender os aspectos técnico-científicos envolvidos na questão de manejo de rejeitos e outros relacionados a contaminação do rio, mar, ou ligados a qualquer repercussão potencial ou conhecida nos usos do rio e mar.

Reiteramos que o manejo dos rejeitos de Fundão sem transparência, ciência acessível e participação dos povos atingidos não é aceitável. A vida e a saúde das comunidades precisam ser tratadas como prioridade absoluta.

Solicitamos que respostas formais sejam enviadas aos autores e signatários desta representação.

Colocamo-nos à disposição para diálogo e cooperação institucional.

Atenciosamente,
Associações, coletivos, comunidades, pesquisadores e pessoas signatárias

Laboratório de pesquisa em política ambiental e justiça – LAPAJ/UFES (coordenação da Profa. Cristiana Losekann)

Associação de Surf de Regência –

Movimento dos Atingidos por barragens –

Rio Morto: artigo de revisão analisa literatura científica produzida sobre o rompimento da barragem de Bento Rodrigues

Um artigo publicado pela revista científica  Next Research  traz  os resultados de uma análise por um grupo de pesquisadores que atuam em diversas instituições brasileiras, e que priorizou um estudo de artigos revisados ​​por pares que abordavam os processos de recuperação ambiental nos anos subsequentes ao desastre que ocorreu em Mariana (MG) após ruptura da barragem de rejeitos da mineradora Samarco (Vale+ BHP) em novembro de 2015. 

Os artigos analisados tinham como foco a avaliação de parâmetros físico-químicos e indicadores biológicos. Além da literatura acadêmica, foram consultadas a legislação brasileira e relatórios oficiais para complementar os achados científicos. Por fim, os estudos selecionados foram utilizados para discutir os impactos observados e os potenciais efeitos a longo prazo do rompimento da barragem de Fundão, bem como para explorar alternativas para aprimorar a recuperação ambiental.

O artigo se concentra na avaliação dos resultados sobre parâmetros físico-químicos e indicadores biológicos em ecossistemas de água doce, estuarinos, marinhos e terrestres. Os resultados que surgem nesta revisão indicam a existência de uma contaminação persistente por metais-traço, degradação do solo, redução da biodiversidade, aumento da resistência antimicrobiana em microrganismos ambientais, bioacumulação em organismos aquáticos e potenciais riscos crônicos à saúde das comunidades locais ao longo da bacia do Rio Doce. Embora tenha sido observada recuperação parcial da qualidade da água e dos sedimentos, os artigos compilados apontam que muitos ecossistemas permanecem sob forte pressão decorrente do processo crônico de contaminação, uma década após o rompimento da barragem em Mariana (MG).

É importante frisar que as descobertas desta revisão fornecem uma base científica para orientar estratégias de restauração ambiental no âmbito do Acordo de Reparação do Rio Doce (2025), que destina R$100 bilhões ao longo de 20 anos para mitigar os impactos a longo prazo do desastre.

Os autores da presente revisão ressaltam a a necessidade de monitoramento integrado, regulamentações ambientais atualizadas e políticas públicas baseadas em evidências científicas.

Quem desejar baixar este artigo na íntegra, basta clicar [Aqui!].