Em Vitória (ES), Conexões Costeiras Sudeste faz ato no mar para marcar Dia Mundial dos Oceanos

Nadadores, caiaqueiros e lideranças comunitárias se mobilizaram em Vitória por um oceano sem petróleo e sem lixo

Por Redação Multimídia ESHOJE 

Neste domingo (8), Dia Mundial dos Oceanos, cerca de 30 nadadores e caiaqueiros participaram de um ato simbólico na Prainha da Ilha do Frade, em Vitória (ES). O grupo protestou contra o 5º Leilão de Petróleo marcado para o fim de junho, a possível perfuração de poços no litoral capixaba e também defendeu a regulamentação da profissão de salva-vidas.

A mobilização fez parte das atividades do projeto Conexões Costeiras Sudeste, que busca fortalecer o diálogo entre comunidades, ciência e políticas públicas em defesa dos ecossistemas marinhos e costeiros.

A coordenadora do projeto, professora Cristiana Losekann, ressaltou a importância da ação nesta data: “Queremos um mar sem petróleo, sem lixo. É importante marcar esse evento hoje porque, nesta segunda-feira, começa a Conferência Mundial dos Oceanos. Muitas decisões importantes sobre a proteção dos oceanos e dos países vão sair desse encontro”, destacou.

Entre os participantes do ato estava também Paulo Barone, presidente da associação de pescadores do Arquipélago de Paquetá (RJ), que fez um apelo: “Peço que respeitem os oceanos e parem de poluir o mar. Não a esse leilão!”, afirmou.

Oficinas debatem desafios costeiros e ambientais no Sudeste

No sábado (7), o projeto Conexões Costeiras Sudeste também promoveu o encerramento de seu ciclo de oficinas virtuais e presenciais. A atividade final aconteceu em Vila Velha e reuniu representantes de movimentos sociais e de órgãos públicos ligados à pauta ambiental.

Os debates abordaram temas como a contaminação de rios e mares, o avanço da exploração de petróleo e a perda de territórios litorâneos para a construção de grandes empreendimentos, como resorts.

Ao final do ciclo, os organizadores anunciaram a produção de um relatório no formato policy brief, com recomendações para jornalistas e tomadores de decisão. O documento será apresentado durante a COP30, que acontecerá em Belém (PA) em 2025.

“Vamos produzir um relatório com recomendações para que os jornalistas tenham uma compreensão mais ampla da COP30 — não apenas focada nas agendas governamentais, mas também nas pautas das comunidades”, explicou Cristiana Losekann.

“A ideia é que quem toma decisões políticas e institucionais possa considerar as perspectivas da sociedade civil sobre os rumos da política oceânica”, completou.


Fonte: ESHoje

Desenvolvimento baseado em exploração de recursos e em grandes obras aprofundou desigualdades na Amazônia

desenvolvimento Amazônia

Transformações como a construção de portos e estradas se intensificaram a partir dos anos 1940

 

 

 

Um artigo publicado na sexta (6) na revista Acta Amazonica mostra que o modelo atual de desenvolvimento da Amazônia, centrado na extração de recursos naturais e implementação de grandes projetos – como barragens, estradas ou mineração – intensifica desigualdades sociais, destruição ambiental e conflitos territoriais. Esses projetos ainda trazem impactos duradouros para os ecossistemas e as comunidades locais, com efeitos agravados por mudanças climáticas e políticas permissivas.

Conduzido por cientistas de instituições como Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Universidade Federal do Pará (UFPA) e Universidade da Califórnia (EUA), o artigo baseia-se em literatura acadêmica, relatórios técnicos e dados institucionais para apresentar os principais marcos históricos e políticos da Amazônia desde os anos 1940, considerando as políticas de desenvolvimento de cada época. Parte do conteúdo também foi derivado de levantamentos do Painel Científico para a Amazônia (SPA, na sigla em inglês), composto por 200 pesquisadores de diversos países.

A partir de políticas estatais voltadas à integração territorial e à modernização urbana-industrial, a Amazônia passou a abrigar grandes empreendimentos, como portos e estradas, que favoreceram interesses externos e desconsideraram a diversidade social e ecológica local. Nos anos 1990, com o avanço do neoliberalismo, observou-se o fortalecimento de mercados ilegais como grilagem, garimpo e tráfico de madeira e drogas.

O estudo revela que, diante dessas pressões, as populações locais têm buscado formas de resistência. Sobretudo na década de 80 e 90, movimentos indígenas se articularam com universidades, ONGs, ambientalistas e movimentos internacionais para garantir maior participação na formulação de constituições que contemplassem seus povos e que tivessem ficado de fora da Constituição de 1988. Dentre os resultados dessa luta, destaca-se o reconhecimento de territórios indígenas, quilombolas e de populações tradicionais e maior participação em fóruns de governança ambiental.

Segundo Philip Fearnside, pesquisador do INPA e um dos autores do artigo, o trabalho ajuda a romper com a visão simplista de que a Amazônia é um “vazio demográfico”. O bioma é descrito como um espaço complexo, feito de redes sociais, econômicas e culturais que foi moldado ativamente por seus habitantes – como ribeirinhos, quilombolas, indígenas e migrantes.

O pesquisador explica que, hoje,a maior parte da população da Amazônia vive em cidades. “Mas apesar desses grandes centros urbanos, existe ao mesmo tempo uma ligação forte com a população que está na área rural, inclusive com migração de população”, explica. “Essa ligação muitas vezes se dá no âmbito familiar, com mulheres e crianças na cidade para terem acesso a escola e saúde e os homens no campo. Há também aumento de ligações comerciais, com transporte de produtos do campo de cada vez mais longe para os mercados urbanos”, completa.

A pesquisa propõe que as experiências locais sejam valorizadas na formulação de políticas públicas. Os autores defendem alternativas que conciliem justiça ambiental e conservação, com base em saberes tradicionais e participação ativa das comunidades. A expectativa é que o trabalho ajude a repensar o modelo vigente de desenvolvimento, evitando que a Amazônia atinja pontos de não retorno ecológico e social.


Fonte: Agência Bori

Divulgação: Encontro anticapitalista pelo clima e pelo fim dos genocídios

O colapso ambiental produzido desde a Revolução Industrial pelo capitalismo já é uma realidade e as populações do planeta já sentem seus efeitos, especialmente os mais vulneráveis.

O capitalismo, por sua natureza necessariamente expansiva, é insustentável, incapaz sequer de reduzir a aceleração da destruição. Com a ascensão de Trump à presidência dos EUA, foram escancaradas políticas imperialistas de aumentar a destruição e saque dos bens naturais comuns em todo o globo e uma ruptura com o discurso de capitalismo verde.

O contraponto empresarial e de governos capitalistas a Trump é a verdadeira lenga-lenga ambiental. Estão mais preocupados em salvar o capitalismo do que as pessoas, a fauna e a flora. As empresas e as instituições burguesas, incluindo a ONU e suas COPs, investem em falsas soluções e na ilusão da possibilidade de um capitalismo verde e sustentável.

No Brasil, Lula e a esquerda da ordem, incapazes de qualquer vislumbre de superação do capitalismo, cumprem o destino de todos os reformistas diante do colapso ambiental e praticam o negacionismo sutil. Não negam que existe uma questão ambiental, mas relutam em falar em colapso e seus discursos não encontram eco na realidade das “políticas de desenvolvimento” apoiadas pelo governo.

Empenhado em favorecer o agronegócio latifundiário e a mineração, Lula viaja pelo mundo buscando acordos que permitam a expansão da exportação de grãos, gado e minério.

Para viabilizar tal expansão, investem em projetos altamente destrutivos – as “Rotas de Integração Sul-Americana”, que incluem a pavimentação da BR-319, a Ferrogrão e a hidrovia transpantaneira; a expansão da produção de petróleo, inclusive na Amazônia; a construção de novas hidrelétricas e de “fazendas” eólicas e solares.

Recentemente assistimos estarrecidos à aprovação pelo Senado da Lei Geral de Licenciamento Ambiental, que tem como objetivo destruir qualquer freio aos projetos do capital. Na contramão de proteger o meio ambiente, o Congresso está às vésperas de liberar a devastação. A destruição da legislação ambiental que agora se discute em âmbito federal já é realidade em muitos estados, inclusive estados governados por petistas há muitos anos, como Bahia e Piauí.

Diante deste cenário, a classe trabalhadora precisa entrar em campo com seu próprio programa pela sobrevivência, em defesa da vida e contra a desigualdade.

Por isso, no mês de novembro, em contraponto à COP 30 e suas falsas soluções, ocorrerá, na cidade do Rio de Janeiro, o Encontro Anticapitalista pelo Clima e pelo Fim dos Genocídios, com os seguintes objetivos:

1-  Denunciar o caráter insustentável do capitalismo, a impossibilidade de um capitalismo verde e sequer da redução do ritmo de destruição sem a superação deste modo de produção.

2- Denunciar as instituições capitalistas, empresas, Estados e organismos internacionais (ONU, COPs, G20 etc.) e suas falsas soluções.

3- Denunciar o negacionismo e o caráter destrutivo da política ambiental do Estado brasileiro, incluindo o governo Lula.

4- Promover o debate sobre o significado da ruptura com o capitalismo, bem como o programa, as táticas e as estratégias necessárias para este objetivo.

5- Colaborar para a articulação das lutas ambientais concretas travadas pelos trabalhadores e o povo.

6- Contribuir no desenvolvimento das lutas contra o imperialismo e na denúncia de todos os genocídios em curso, em particular apoiando a luta do povo palestino contra o estado colonialista e racista de Israel.

O encontro da militância e das organizações que não se iludem com o capitalismo, suas empresas e instituições é fundamental diante da necessidade de atuarmos concretamente pela superação deste modo de produção como condição para que a humanidade possa começar a responder adequadamente ao colapso ambiental.

Nossa iniciativa é ousada e está apenas começando a ser construída. Em busca de ampliar as adesões, a Comissão Organizadora está convocando uma plenária de apresentação para outros coletivos, organizações e militantes no dia 2 de julho às 18 horas na UERJ Maracanã (RAV 122).

Comissão Organizadora – MRT, Emancipação Socialista, PSTU, Coalizão pelo Clima, Marx Comenta, Geem e Cecip

Rodrigo Bacellar, nas eleições de 2026 qual vai ser a sua pílula: a azul ou a vermelha?

Blue Pill or Red Pill – música e letra de M501 | Spotify

Por Douglas Barreto da Mata

Em 2026, o Estado do Rio de Janeiro e seus personagens políticos vão enfrentar “escolhas” dignas daquela apresentada a Neo (Keanu Reeves), o herói da saga Matrix, ou seja, vamos de pílula azul ou de pílula vermelha? Um dos principais concorrentes, o Presidente da Assembleia Legislativo do estado do Rio de Janeiro (Alerj), o deputado estadual Rodrigo Bacellar está diante dessa “escolha de Sofia” (perdão por misturar as referências cinematográficas). No mundo da simbologia política, dos gestos, dos vídeos e fotos das redes sociais, são inequívocos o poder e influência do parlamentar estadual.

Ao mesmo tempo, no mundo chamado real, esse poder e capacidade de articulação nos bastidores da política são flagrantes. Ninguém chega à presidência da Alerj sem ter predicados, isso é óbvio, apesar de seus detratores argumentarem que a fraqueza evidente do governador Cláudio Castro, que chegou ao cargo sem um grupo, ou um projeto, tornaram a tarefa da captura do governo pelo deputado Bacellar bem mais fácil.

Poder ser, mas chegar onde chegou não foi pouca coisa. Porém, dar o salto para a cadeira de governador (re)eleito, para além das substituições ou renúncia do atual titular, em tática rumo às eleições, é algo bem mais complexo.

Aí eu recorro às pílulas azul e vermelha. No filme, a escolha é entre a versão da realidade e a realidade em si, embora a história do filme ainda traga outra questão filosófica, a saber, se a escolha é realmente livre, ou se ela é limitada pelas opções apresentadas, restringindo a imprevisibilidade do resultado a uma condição já determinada antes. É a eterna discussão do livre arbítrio, que atormenta a Humanidade, porque se Deus é Deus, e sabe de tudo, o passado, o presente, e o futuro, como dizer que há uma escolha livre se Ele já sabe o que vamos escolher?

Vamos deixar essa confusão de lado, porque o texto pretende ser simples, embora trate de tema igualmente complexo. Rodrigo Bacellar pode ter feito a pior escolha de sua vida. Ao se colocar como um pré candidato a governador, desde sua reeleição para a presidência da Alerj, pelo menos, ele incorre no risco de sepultar sua meteórica carreira. Não porque ele não reúna condições ou qualidades para o cargo, e esse julgamento é, em última instância, do eleitor, de seus aliados, e dele mesmo.

A questão não é essa. O problema é se colocar em rotas que o levam a quartos escuros sem portas de saída ou janelas. Parece ser o caso, principalmente porque ele, há muito tempo, não permitiu a si mesmo outra alternativa, que não fosse a declarada por seus atos e decisões. Não é muito saudável se apresentar como: ou sou candidato a governo do Estado ou não tenho outro caminho.

Em primeiro plano, há um fator real e inexorável: Eduardo Paes é o franco favorito nesta corrida, apesar de que haja sempre espaço para o imponderável em corridas eleitorais. Comparações são inúteis.Cada momento é um momento, e mesmo as derrotas de Paes nos pleitos anteriores devem ser consideradas em seus contextos. Essas condições não se repetem, embora sirvam como balizas para estudos e estratégias.

Porque se adotarmos a lógica dos partidários de Bacellar, de que Paes é um “cavalo paraguaio” quando concorre a governador, temos que lembrar que nenhum presidente da Alerj chegou ao Palácio Guanabara. Não de forma direta, pois o exemplo mais recente, Cabral era senador quando foi eleito.

Os obstáculos de Bacellar são outros. Qualquer pessoa honesta o suficiente para torcer por esse ou aquele, mas sem contaminar seu olhar, sabe dizer que nas cúpulas partidárias, que formam aquilo que se chama de campo da direita, PP, União, PL, MDB, há um consenso formado: Nenhum dos caciques quer a candidatura de Bacellar, e nesse grupo há os que admitem por falta de opção e os que não admitem de jeito algum. Nenhum, exceto Antônio Rueda.

Todos os movimentos recentes, as falas e cotoveladas apontam isso. Em dias próximos da maior manifestação evangélica do Estado, A Marcha Para Jesus, um dos líderes do segmento, Silas Malafaia verbalizou de forma direta: “Com ele eu não vou”. O pior: lá no calor do evento, o pastor Malafaia fez questão de agradecer a Castro e ao prefeito da cidade, Eduardo Paes. Bacellar não foi ao evento, assim como Paes também não foi, mas o nome de Bacellar foi ignorado, ao contrário do prefeito.

Os maledicentes dizem que Malafaia ampliou o vídeo de Wladimir Garotinho, que dias antes falou o mesmo. É claro que o prefeito Wladimir Garotinho não é “dono” do eleitorado em sua cidade, mas quem obteve 192.000 votos para reeleição a prefeito, não pode ser minimizado como um obstáculo. A cidade de Campos dos Goytacazes é conhecida por ser um pólo regional, e mais, foi a única cidade do interior que elegeu governadores, e que hoje tem um outro pretendente, que é presidente da Alerj.

Ora, então, mesmo que os amigos e aliados de Bacellar digam que a declaração do prefeito é pouco relevante, a verdade é o contrário, a cidade tem muito peso político, e irradia seus humores pelo interior. Depois a família Reis atacou em dois flancos, ao mesmo tempo que protagonizou um chamou-não chamei Wladimir para ser candidato a governador, abraçado aos pais dele, o patriarca Washington entrou em rota de colisão com o governador Castro, sobre a tarifa de trens.

Dirão os otimistas que esses movimentos são comuns, são próprios de “uma dança do acasalamento”, onde os gestos ríspidos são uma forma de aumentar o cacife de quem vai aderir, com o objetivo a tirar compromissos mais vantajosos de quem quer o apoio. Pode ser. Mas a diferença entre a escaramuça de aliança e a uma resistência consistente é a dose, o alcance e amplitude do movimento.

Quem olha o cenário tem a nítida impressão de que se houver uma candidatura de Bacellar, ela corre o risco de ter gasto toda sua força para se impor, para se colocar no “grid”, deixando o competidor sem combustível para corrida. Ainda que concorra, e ainda que ganhe, outros dizem que é muito esforço para governar por 4 anos, já que lhe seria vedada nova reeleição. Seria uma vitória de Pirro.

No entanto, essa chance de vitória é bem pequena, como dizem as projeções. O fato é que Bacellar, apesar de ter sido o homem mais forte do governo Castro, pode estar sendo utilizado por este último como ponta de lança para forçar uma vaga para o atual governador ao senado na chapa do PL, que tem vagas de menos e gente demais querendo. Por outro lado, o melhor que o PL tem a oferecer, o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro, parece não estar disponível a Bacellar. Salta aos olhos que o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu filho Flávio hesitem tanto em manifestar apoio a Bacellar.

Cautela? Como assim? Esse cuidado só se justifica caso eles considerem outra alternativa senão o Presidente da Alerj, certo? Caso contrário, qual seria o óbice a ungir Bacellar e fortalecer seu nome desde já, junto ao eleitorado cativo do ex-presidente, que não conhece Bacellar, como mostram as pesquisas, e que, ao mesmo tempo, rejeitam o atual governador e o seu governo, justamente o ponto de apoio e lançamento de Bacellar? Não é urgente reverter esse quadro com as bênçãos do ex-presidente? Por essas razões, é justo supor que Bacellar esteja sendo encaminhado para um ponto sem retorno, sem plano B.

Seja pela rejeição dos caciques aliados, seja pela indisposição dos Bolsonaro, seja pelos interesses cruzados de que diz lhe apoiar, ou pelo favoritismo do adversário, e seu arco de influência, que vai desde a centro esquerda, passando pelo centro, além de ser o preferido das organizações Globo, dos bancos, e de empresários chamados “tradicionais”, parece que, apesar do compreensível ufanismo bairrista de analistas locais, a candidatura de Bacellar pode ser descrita como um parto complicado.

A História tem poucos exemplos de candidaturas impostas, a ferro e fogo, que deram bons resultados. Geralmente, candidaturas bem sucedidas derivam de amplos consensos, de um “processo natural”, mesmo que haja focos de oposição aqui e ali. Se olharmos para a pré candidatura de Bacellar poderemos saber exatamente qual das alternativas acima ela se encaixa. Então, um outro pensamento que me ocorre quando penso em escolhas, em pílulas azuis ou vermelhas é: Às vezes, o desastre não é escolher entre um caminho ou outro, mas sim que essa opção nos leve a não termos mais saída alguma.

É preciso adequar nosso apetite àquilo que podemos mastigar, engolir, digerir, e, botar para fora depois.

Fogo e agricultura impulsionam a degradação do solo no sul da Amazônia

Estudo mostra que perdas de carbono e nitrogênio do solo persistem por quase uma década após queimadas e que a conversão para agricultura causa impactos ainda mais severos

Floresta degradada pela queima no chamado Arco do Desmatamento da Amazônia (foto: Mário Lucas Medeiros Naval/Cena-USP)

Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP

Incêndios florestais frequentes e expansão agrícola estão degradando a saúde dos solos do sul da Amazônia, com danos duradouros sobre os estoques de carbono (C) e nitrogênio (N) e sobre a funcionalidade geral do solo dos ecossistemas. É o que mostra um estudo realizado por pesquisadores brasileiros e estrangeiros na Estação de Pesquisa Tanguro, localizada na região de transição entre a Floresta Amazônica e o Cerrado, no Arco do Desmatamento Amazônico.

“Estamos falando de um fogo que não é natural. No Arco do Desmatamento, as queimadas recordes resultam da combinação da expansão agrícola e pecuária, degradação de florestas nativas vizinhas e secas prolongadas provocadas pelas mudanças climáticas – todas promovidas pela ação humana”, afirma o pesquisador Mário Lucas Medeiros Naval, primeiro autor do estudo. “Nosso trabalho mostra como essas queimadas sucessivas têm impacto de longo prazo na matéria orgânica e em outros atributos essenciais do solo e como isso se compara à agricultura da região”, comenta.

O estudo, publicado na revista Catena, analisou os efeitos da conversão da floresta para agricultura e da frequência de queimadas sobre a matéria orgânica do solo, além de diversos indicadores físico-químicos de saúde do solo. Foram comparados quatro cenários: floresta intacta, floresta queimada anualmente, a cada três anos e área convertida para agricultura, sob sistema de plantio direto e com rotação de culturas.

“Nossos resultados mostram uma diminuição nos estoques de carbono no solo de 17% com queimas anuais, 19% com queimas trianuais e 38% com a conversão agrícola”, diz Naval. “Mesmo quando a agricultura adota boas práticas, como rotação de culturas e plantas de cobertura, ainda assim gera perdas mais severas de carbono do solo do que o fogo que incide sobre florestas nativas.”

O pesquisador explica que a área estudada é uma floresta de transição, que se assemelha ao cerradão, com árvores de 20 metros de altura em média. “Ela não é tão alta como a floresta do centro da Amazônia, mas também não é cerrado stricto sensu. E é justamente nessa região que a fronteira agrícola tem avançado com mais força, principalmente com a soja”, afirma.

A pesquisa foi realizada em uma área experimental de 150 hectares, gerenciada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), dentro da reserva legal de uma propriedade privada, onde há a Estação de Pesquisa Tanguro. “Tivemos acesso a uma área grande, com 50 hectares para cada tipo de tratamento, o que nos permitiu uma amostragem representativa”, destaca o pesquisador.

“Um aspecto importante do estudo é que avaliamos os solos nove anos após a última queimada. Mesmo com o tempo de recuperação da floresta, os estoques de carbono e nitrogênio ainda estavam significativamente reduzidos”, acrescenta. Segundo Naval, as perdas de carbono e nitrogênio comprometem propriedades essenciais, dados os múltiplos benefícios da matéria orgânica para diversos indicadores de saúde do solo. “Por exemplo, nossos resultados evidenciam que, diminuindo os estoques de carbono, grande parte da capacidade de troca catiônica [CTC, uma das formas de mensurar a capacidade de retenção de nutrientes do solo] é perdida”, explica o pesquisador. Assim, o estudo também revelou impactos sobre outros indicadores físicos e químicos, evidenciando uma degradação mais ampla da saúde do solo.

A pesquisa demonstrou que a perda de carbono total – somando o carbono armazenado na biomassa acima do solo e o carbono armazenado no solo – chegou a 33% na queima anual e 48% na queima trianual. “Isso mostra que, do ponto de vista do ecossistema como um todo, as frequências de fogo têm impacto diferenciado, ainda que no solo a diferença estatística entre os dois regimes não tenha sido significativa”, explica.

“Ao contrário do Cerrado, onde o fogo é natural do ecossistema e exerce um papel ecológico, na Amazônia nós estamos falando de um elemento que é exógeno e induzido pela mudança no uso do solo, não de queimadas naturais. Queimar a Floresta Amazônica significa interferir em um ambiente não adaptado ao fogo”, resume Naval.

Os autores recomendam a adoção de políticas de contenção da fronteira agrícola, prevenção de incêndios florestais e implementação de sistemas agrícolas mais biodiversos, como as agroflorestas. Segundo eles, essas práticas armazenam grandes quantidades de carbono, essenciais para a estabilidade climática global, e preservam a saúde dos solos amazônicos.

“A busca por alternativas ao modelo convencional de produção agrícola é essencial não apenas para a preservação ambiental, ao evitar novas queimadas, mas também para garantir a segurança alimentar da população” esclarece o pesquisador Plínio Barbosa de Camargo, um dos coordenadores do estudo.

O trabalho integra o projeto internacional Amazon PyroCarbon, financiado pela FAPESP e pelo Natural Environment Research Council (NERC) e UK Research and Innovation (UKRI), ambos do Reino Unido. A iniciativa estuda os impactos do fogo em diferentes regiões da Amazônia e é coordenada por Camargo e Ted Feldpausch, da Universidade de Exeter. “Esse trabalho na Estação de Pesquisa Tanguro é apenas parte de uma iniciativa mais ampla que está mapeando como o fogo afeta os solos amazônicos em vários pontos do bioma”, diz Naval, atualmente mestrando no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena-USP). O financiamento do estudo também contou com bolsa de pós-doutorado fornecida ao segundo autor, Wanderlei Bieluczyk.

O artigo Impacts of repeated forest fires and agriculture on soil organic matter and health in southern Amazonia pode ser acessado em https://doi.org/10.1016/j.catena.2025.108924.


Fonte: Agência Fapesp

A viagem que levará Rodrigo Bacellar ao comando do Palácio Guanabara

Mais uma denúncia contra o Governo Castro. No Estado que paga menos de um salário mínimo para funcionários da Educação e não cumpre a Lei do Piso, o governador e seus secretários não têm moderação para gastar com luxos e viagens.

Ontem, enquanto se negava a receber os manifestantes da rede estadual no Palácio Guanabara, Cláudio Castro e seu governo organizavam mais uma viagem. O destino dessa vez será Lisboa, na abertura do verão europeu, onde acontecerá nos dias 3, 4 e 5 de julho, o XIII Fórum de Lisboa.

O Secretário de Casa Civil, Nicola Miccione, vai antes e volta depois. Viajará no dia 29/6 e retornará apenas em 8/7. As passagens de ida e volta custarão no total 29.088,48 (poderiam sair por menos da metade desse valor, não fossem em Classe Executiva). Além das passagens, Miccione pediu diárias para 8 dias, ao custo de 460,00 euros por dia, num total de 17.959,86 reais (cada diária custará aos cofres do Estado 2.993,31 reais).

O Secretário de Planejamento e Gestão, Adilson Maciel, também vai. Mas com o planejamento curioso: ele diz que vai para um certo Congresso de Administração de Lisboa, entre os dias 27/6 e 6/7, solicitou as diárias de 460 euros, e as passagens compradas são para a rota Rio-Paris-Lisboa, por absurdos 44.061,74 reais! Maciel só desembarcará em Lisboa no fim do dia 28/6, e, mais curioso ainda, é que só há um documento justificando a viagem: um convite para um jantar especial, dia 3 de julho, numa “noite de boa gastronomia e excelente convívio” (ver imagem abaixo).


Fonte: CCIRJ2024/36chapa

COP48

José Luís Vianna da Cruz

O Clima era agradável, temperatura amena, a reprodução/projeção holográfica de uma perfeita manhã tropical, ainda que o evento ocorresse num país do norte pós-derretimento das geleiras. A abóboda climatizada que envolvia os participantes, decorada com elementos hiper-realistas das antigas florestas tropicais, cuidava para que o astral fosse o melhor possível e as centelhas de esperança iluminassem as faces sorridentes dos presentes; o isolamento da paisagem real contribuiria para que os debates ocorressem sem contaminações externas – em seus vários sentidos.

De repente, hordas de imigrantes que vagam por essas plagas invadem o ambiente – em seus vários sentidos – quebrando o vidro que os separa do evento, cujo tema central neste ano é imigração e ambiente, e numa síntese perfeita, tomam de assalto a mesa do banquete matinal e, antes que o ar puro sufoque seus pulmões de humanos em processo Darwiniano de adaptação ao novo ambiente pós-florestas e pós-degelo, consomem todo o estoque disponível e retiram-se para o conforto do ambiente – em todos os diversos sentidos – ao qual vêm se adaptando há 3 gerações.

Tristemente, o mesmo não se pode dizer do destino da grande maioria dos participantes, que, em desespero com a invasão do ar contaminado, não tem tempo de se recolher aos seus veículo-bolha voadores, climatizados, em direção aos seus refúgios de vida/trabalho/lazer climatizados. Atropelam-se, mortalmente, nos corredores climatizados que os conduzem aos seus veículos climatizados ou simplesmente têm seus pulmões dilacerados pelo irrespirável ar da gente comum que vive fora das bolhas.

Rapidamente, os organizadores do evento, protegidos em uma bolha apartada da arena de debates, emitem um comunicado tranquilizador, no qual se pode ler, em alguns dos trechos mais importantes: “…a organização do evento comunica que, conforme previsto, já foram providenciados os avatares substitutos dos que faleceram ou estão impossibilitados de continuarem; a bolha substituta será montada em poucas horas; as forças policiais já localizaram e eliminaram os desordeiros…” finalmente, garante que todos as 861,7 metas da COP30 serão rediscutidas, renovando sua certeza de que o mundo saberá assumir suas reponsabilidades em relação à qualidade da vida e do ambiente…em todos os seus diversos e sempre atualizados sentidos…


José Luis Vianna da Cruz, 06/06/2025, 11:57, sob efeito de uma das novas, diversas e variadas viroses do período de extinção das geleiras e das florestas. Registre-se e arquive-se…

As muitas lições do episódio “Porto do Açu contra a cidade de Campos dos Goytacazes”

Por Douglas Barreto da Mata

Há vários ensinamentos embutidos na “guerra” da Estrada dos Ceramistas, quando uma obra estadual provocou o caos urbano na cidade de Campos dos Goytacazes.

O primeiro: em toda guerra, a primeira vítima é a verdade. A oposição ao Prefeito Wladimir Garotinho pode apontar vários defeitos em sua gestão ou em seu estilo pessoal de governar, menos dizer que ele toma decisões radicais ou de forma inadvertida.

O problema acerca do desvio do tráfego de carretas enormes, a maioria com direção ao Porto do Açu, e os estragos e transtornos causados por essa medida, já se arrasta há meses, e o Prefeito tentou várias soluções, sem que o governo do estado cumprisse seu papel:

Fazer a obra no tempo devido, e com a criação de alternativas de trânsito, seja com pare-e-siga, que dizem impossível (um caso inédito ou muito incomum na engenharia), ou abrindo desvios e variantes no percurso.

Sim, nenhuma obra de engenharia pode acontecer sem um plano ou estudo de impacto, em outras palavras, sem a precisa previsão de alternativas aos incômodos que irá causar, e como fazer para diminuir ao máximo o risco às pessoas, ao ambiente, e possíveis danos aos patrimônios públicos e/ou privados. Nada disso foi efetivado pelo governo do Estado.

O segundo ensinamento, pimenta no olho do outro é refresco.  Essa é a lógica da oposição campista, que está vinculada ao governo do Estado e ao presidente da Alerj. Já que são as ruas da cidade e as pessoas da cidade que estão em risco, por que não aproveitar e jogar a bomba no colo do prefeito?

Perfeito, é do jogo, alguns dirão e eu concordaria…mas todo jogo tem regras.

Parece que a oposição campista não conhece regra, nem limite, assim como a empresa que escolheram como bandeira.  Colocar o interesse do Porto do Açu acima do interesse da população, principalmente daquelas pessoas que moram à beira da estrada do Carvão, cujas casas já apresentariam danos estruturais, sem mencionar os riscos de incidentes, como atropelamentos, é uma prova de que vale tudo para desgastar a imagem do inimigo.

A desinformação também é disseminada sem freios. O Porto do Açu emprega muito pouca gente de Campos dos Goytacazes, e muito menos de SJB, e essa é uma das principais críticas dos analistas e cientistas locais.  Mesmo assim, ainda que esse número fosse grande, não se pode submeter uma cidade para atender uma suposta demanda por empregos.

Até porque, esse dilema é falso. Não existe ou é emprego ou libera a cidade para as carretas. A empresa está destruindo a cidade porque é mais barato, e porque o governo do Estado não fez o que deveria. Assim, a invasão da cidade por monstros de mais de 50 toneladas, sem que a empresa tenha buscado uma solução alternativa para o problema não é uma declaração de apreço pela cidade e seu povo.

Quando busca garantir o trânsito de seus caminhões pela cidade, a empresa diz em alto e bom som: Danem-se.  Toda aquela história de desenvolvimento verde ou socialmente responsável é só conversa fiada mesmo.

O terceiro aprendizado é que nenhuma atividade poderá submeter as comunidades aos seus interesses econômicos, por mais legítimos que sejam. Condutores de caminhões têm o direito ao exercício de seu trabalho, mas as ruas, estradas, enfim, o território nacional não é um lugar sem leis e autoridade.

A última lição é para prefeitos, governadores e até mesmo para presidentes. Deve haver um limite, uma barreira entre governos e empresas, e o nome dessa fronteira é autoridade e interesse público.  Não é fácil impor essas prerrogativas.

O Prefeito Wladimir deve se sentir como Davi para Golias, citando uma passagem bíblica para ele, evangélico, nessa questão contra um empreendimento que parece não enxergar barreiras. Que o digam as populações do V distrito de SJB que foram atingidas em cheio pelos efeitos colaterais da implantação do Porto do Açu.

Agora, chega a notícia que uma decisão do Tribunal de Contas do Estado (TCE) pode paralisar a obra na Estrada dos Ceramistas. Com a palavra, a justiça ou o bom senso.

A tempestade da Inteligência Artificial

O surgimento da IA ​​generativa fez explodir a demanda por energia, inclusive de combustíveis fósseis

Imagem de marketing do curso de inteligência artificial e computação visual da École Polytechnique.  Jérémy Barande / École Polytechnique / Institut Polytechnique de Paris / Creative Commons 2.0

Por James Meadway para o “The Ecologist” 

Em apenas alguns anos desde que a OpenAI lançou seu modelo principal com uma interface de linguagem natural e fácil de usar, o ChatGPT, a “inteligência artificial” (IA) passou do reino da ficção científica para a aparente realidade cotidiana. 

A IA parecia capaz de feitos robóticos inimagináveis ​​há alguns anos: escrever obras inteiramente novas em linguagem natural; compor músicas; gerar obras de arte instantâneas. Mas por trás dessa mudança no poder computacional há um impacto ambiental preocupante e ainda pouco reconhecido. Um novo briefing da Opportunity Green resume o caso .

Os data centers, a base de hardware da economia digital atual, consomem muitos recursos. Essa economia digital se baseia na coleta, armazenamento e transmissão de dados em uma escala inimaginável. 

Industrial

Mesmo antes da explosão da inteligência artificial após o lançamento do ChatGPT pela OpenAI no final de 2022, os volumes envolvidos eram impressionantes: o tráfego global da internet cresceu de 156 Gb transferidos a cada segundo em 2002 para 150.000 Gb por segundo em 2022. 

Essa imensa coleção de uns e zeros, o núcleo digital da economia de dados, por sua vez forneceu a matéria-prima para treinar os modelos de aprendizado de máquina (ML) atuais. 

A chave para suas operações é a escala – de vastos acervos de dados; bancos e bancos de chips de silício dedicados em data centers especializados; e redes de telecomunicações rápidas espalhadas pelo mundo. Mas a escala que torna possíveis as habilidades semimágicas da IA ​​também a transforma em um problema ambiental crescente. 

Sejam quais forem as afirmações ousadas feitas há vinte anos, no alvorecer da era da Internet, sobre a “economia sem peso” que viria ou como todos nós estaríamos “vivendo no ar rarefeito”, os dados, na realidade, têm uma presença física concreta. 

Ele é armazenado e processado em bancos de chips de silício dedicados, produzidos em volumes extraordinários por alguns dos processos industriais mais exigentes e tecnicamente sofisticados aos quais temos acesso. 

Explosivo

Os chips funcionam com eletricidade — em quantidades triviais para um único circuito integrado, como o do seu telefone ou laptop, mas que, nas grandes quantidades necessárias para processamento de dados em larga escala, se tornam extraordinárias. 

Os racks de servidores mais recentes, dedicados à IA, contêm 72 chips especializados da fabricante Nvidia. Os maiores data centers de “hiperescala”, usados ​​para tarefas de IA, teriam cerca de 5.000 desses racks . 

E como qualquer pessoa que use um laptop por qualquer período de tempo sabe, até mesmo um único chip esquenta durante a operação. Para resfriar os servidores, é preciso água – litros dela. Somando tudo isso, um único data center em hiperescala normalmente precisará de tanta água quanto uma cidade de 30.000 habitantes – e a quantidade equivalente de eletricidade. 

As novas e muito específicas demandas de energia do crescimento dos data centers levarão as redes nacionais de energia para mais perto do limite.

Financial Times relata que a Microsoft está abrindo uma dessas gigantes em algum lugar do mundo a cada três dias.

Mesmo assim, durante anos, o crescimento explosivo da economia digital teve um impacto surpreendentemente pequeno na demanda global por energia e nas emissões de carbono. Os ganhos de eficiência nos data centers — a espinha dorsal da internet — mantiveram o consumo de eletricidade sob controle. 

Consumo

Mas a ascensão da IA ​​generativa, impulsionada pelo lançamento do ChatGPT no final de 2022, rompeu esse equilíbrio. A IA eleva a demanda por dados e poder de processamento à estratosfera.

A versão mais recente do modelo GPT principal da OpenAI, o GPT-4, é construída em 1,3 trilhão de parâmetros , com cada parâmetro descrevendo a força de uma conexão entre diferentes caminhos no cérebro do software do modelo. 

Quanto mais dados novos puderem ser inseridos no modelo para treinamento, melhor — tantos dados que um artigo de pesquisa estimou que os modelos de aprendizado de máquina terão usado todos os dados da internet até 2028.

Hoje, a demanda insaciável por poder de computação está remodelando os sistemas energéticos nacionais. Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostram que data centers em todo o mundo já consomem tanta eletricidade quanto países inteiros como França ou Alemanha. A previsão é de que, até 2030, a demanda mundial de energia por data centers será igual ao consumo total de eletricidade da Índia. 

Em princípio, essa demanda crescente por eletricidade poderia ser atendida por energias renováveis, e muitas das grandes empresas de tecnologia, como o Google, têm metas de atingir 100% de consumo de energia renovável. 

Minas

Mas a realidade é muito mais sombria. Para continuar a expansão nesse ritmo alucinante, é necessária a instalação rápida de novos suprimentos. E a demanda por eletricidade em data centers é bem diferente da de residências, escritórios e fábricas, que normalmente apresentam picos e quedas ao longo do dia, quando as pessoas chegam em casa e ligam a TV, ou saem e apagam as luzes, ou quando as máquinas são ligadas e desligadas. 

A demanda do data center é constante e requer 24 horas de trabalho, com o mínimo de tempo de inatividade possível. Isso, por sua vez, cria a necessidade de um fornecimento contínuo e regular de eletricidade, para o qual as energias renováveis ​​nem sempre são as melhores atualmente.

O resultado é que a demanda por data centers está sendo cada vez mais atendida por combustíveis fósseis. Nos EUA, 60% da nova demanda de energia é suprida por gás natural, enquanto na Alemanha e na Polônia, usinas a carvão estão sendo mantidas em operação para alimentar o boom da IA. 

A Microsoft está expandindo as operações do data center perto de Hambach, uma das últimas minas de carvão profundas da Alemanha. A empresa se recusou a comentar sobre a fonte de energia do centro . 

Enquanto isso, o governo Trump, cético em relação ao clima nos EUA, admite abertamente que expandir a geração de energia a carvão é essencial para manter a vantagem do país nas operações de data center .

Usinas de energia

O resultado é que uma indústria que atualmente é responsável por cerca de 0,5% das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo estimativas conservadoras da Agência Internacional de Energia (AIE), deverá se tornar um dos contribuintes de crescimento mais rápido para as mudanças climáticas na próxima década. 

Mesmo que outras indústrias mais antigas reduzam suas emissões e um progresso real possa ser visto na mudança para a produção de energias renováveis, as demandas de energia dos data centers representam um risco significativo para as estratégias nacionais de descarbonização.

Até o momento, há pouca conscientização sobre isso por parte dos governos nacionais. Os data centers nem sequer constam no orçamento de carbono mais recente do Comitê de Mudanças Climáticas do Reino Unido – apesar do entusiasmo do governo britânico por sua rápida expansão. 

O trabalho da Beyond Fossil Fuels sugere que o crescimento dos data centers na Europa, seguindo as tendências atuais, adicionaria o equivalente a todo o sistema de energia de combustíveis fósseis da Alemanha aos GEE europeus até 2030. Mudar essa demanda para energias renováveis, por sua vez, reduziria o fornecimento para outras indústrias e ameaçaria os planos de descarbonização em outros setores. 

O problema energético é que os data centers, impulsionados pela IA, representaram uma nova fonte de demanda energética em rápido crescimento, com a qual as usinas de energia, os sistemas de rede e até mesmo as políticas de descarbonização não foram projetados para lidar. 

Lucros

As tensões já estão começando a aparecer: o primeiro “apagão de bytes” do mundo foi evitado por pouco na Virgínia no verão de 2024 , quando um raio derrubou um transformador perto de um conjunto de 20 data centers. 

Percebendo uma queda repentina de energia elétrica na rede principal, os data centers ligaram seus geradores de energia de reserva no local, causando um aumento repentino no fornecimento de energia para a rede principal, o que ameaçou causar apagões em todo o estado e fez com que os operadores da rede corressem para procedimentos de emergência. 

Como vimos com a dramática queda de energia em todo o país, na Espanha e em Portugal, os sistemas de rede nacionais, muitos construídos há décadas, já estão com problemas. 

As novas e específicas demandas de energia decorrentes do crescimento dos data centers os levarão para mais perto do limite. Combustíveis fósseis e, em alguns casos, energia nuclear, podem representar uma solução supostamente rápida para um problema complexo.

Os modelos de negócios das grandes empresas de tecnologia estão presos à expansão – a fonte de lucros da economia de dados, ao longo de décadas, tem sido expandir a quantidade de poder de computação disponível e então esperar que a demanda a preencha. 

Cepas

Para os operadores de IA, o crescimento drástico na escala de suas operações significa a possibilidade de criar novos mercados para novos produtos, mais rápido que seus concorrentes. 

Mas isso cria um problema familiar: mesmo que a eficiência do hardware de computação melhore rapidamente — e os modelos de ML estejam, em geral, se tornando mais eficientes — essa eficiência tende a significar apenas mais demanda pela saída dos modelos. 

Da mesma forma que aviões mais eficientes criaram mais demanda por voos, computadores mais eficientes também criaram mais demanda por computação — e, por trás dos servidores zumbindo, isso significa mais demanda de energia e mais emissões de gases de efeito estufa. 

Os benefícios dessas emissões e de todo esse processamento também não são imediatamente claros. É óbvio quem são os vencedores das Big Techs: as grandes corporações e seus proprietários, principalmente sediados nos EUA, que exercem poderes quase monopolistas sobre a economia digital e que geraram retornos tão incríveis. 

Mas os próprios centros de dados criam poucos empregos localmente, enquanto suas demandas por recursos — não apenas de eletricidade, mas, em todo o mundo, de água — impõem severas pressões aos habitantes locais. 

Descarbonização

A troca ecológica desigual das Big Techs ainda é pouco pesquisada, mas sua operação cria uma dinâmica semicolonial: os donos do sistema no centro, envolvidos em operações extrativas no resto do mundo, espremendo seus recursos escassos.

O artigo da Opportunity Green é apenas o começo da nossa pesquisa. Acreditamos que há uma necessidade urgente de um debate público mais bem informado sobre o papel da computação e seus impactos ambientais – com uma avaliação adequada dos potenciais benefícios e uma compreensão mais clara das desvantagens. 

O desafio aos sistemas de energia e aos planos de descarbonização, em particular, levantado pela expansão vertiginosa dos centros de dados, requer atenção urgente, em três grandes áreas:

  • Devem ser realizadas avaliações nacionais e supranacionais das trajetórias prováveis ​​de consumo de energia e das emissões subsequentes decorrentes da expansão de data centers, e esses cenários devem ser considerados em relação às estruturas nacionais e supranacionais de controle de emissões. As estimativas atuais sobre emissões de data centers estão sujeitas a ampla variação e poderiam ser refinadas de forma útil.
  • As mudanças legais, regulatórias e políticas necessárias para aproximar ao máximo as operações de data centers de 100% de energias renováveis, adotando uma abordagem que abrange todo o ciclo de vida, desde a construção até a operação, e incluindo o suporte ao armazenamento em baterias. Essas mudanças podem incluir a consideração da contribuição dos usuários de data centers (Big Techs) para o sistema tributário e a alocação de recursos para expansão/descarbonização da rede elétrica.
  • Por fim, desenvolver políticas para minimizar a coleta, o processamento e o armazenamento de dados, juntamente com uma hierarquia robusta de aplicações em data centers. Isso se baseará nas recomendações do relatório do Centro Nacional de Políticas de Engenharia sobre a minimização da pegada das operações de data centers. O problema da demanda e do propósito da expansão de data centers é indissociável da questão do seu impacto em termos de recursos e emissões, e deve ser enfrentado diretamente pelas políticas.

Fonte: The Ecologist

Açu, um porto desconectado, e sua vitória pirrica

Bahia.ba | Rio terá novo terminal em Porto do Açu

Como muitos motoristas que precisaram trafegar pelas principais avenidas da nossa cidade, tive momentos de congestionamento por causa da presença de caminhoneiros que resolveram protestar contra a decisão (correta ao meu ver) da Prefeitura Municipal de vedar a circulação de veículos de 4 eixos no perímetro urbano campista. O imbróglio acaba de ter um novo desdobramento já que a pedido dos controladores do Porto do Açu,  a juíza Helenice Rangel Gonzaga, da 3ª Vara Cível de Campos dos Goytacazes atendeu, na noite desta quarta-feira (4),  suspendeu a portaria do IMTT e autorizou a volta da circulação de caminhões de 4 eixos no perímetro urbano campista.

Essa vitória do Porto do Açu, me perdoem seus dirigentes e áulicos, é uma que se iguala à chamada “vitória de Pirro” (também conhecida como vitória pírrica)  que tem origem na história do rei Pirro do Épiro, que, após uma vitória contra os romanos na batalha de Ásculo em 279 a.C, declarou que outra vitória semelhante seria tão destrutiva quanto uma derrota. Assim, a expressão descreve uma vitória que é tão custosa que o vencedor é deixado numa situação quase tão desfavorável como se tivesse perdido, ou seja, uma vitória que gera perdas maiores que os benefícios. 

E eu explico por que cheguei à ideia de que o Porto do Açu acaba de obter uma vitória pírrica. É que ao usar a justiça para derrubar uma medida correta, já que o trânsito de caminhões pesados traz sérios atropelos à segurança da população, o Porto do Açu deixou evidente a conexão precária que possui por via terrestre com o resto do mundo.  E, pior, uma conexão precária que não possui nenhuma opção viável nem no curto ou no médio espaço de tempo, quiçá no longo.

Abro um parêntese para tornar pública uma conversa muito pedagógica que mantive ainda na manhã de hoje com o professor José Luiz Vianna da Cruz, um pesquisador a quem respeito pela perspicácia e profundida com que analisa os fatos atinentes ao processo de desenvolvimento regional.  Conversamos, entre outras coisas, sobre a falta de horizontes futuros claros para o Porto do Açu. Esclareço: é que apesar de todas as maquetes e tentativas de instalar uma projeto de longo prazo, o empreendimento criado por Eike Batista vem se comportando como uma espécie de metamorfose ambulante. Segundo José Luiz Vianna da Cruz, mesmo a tentativa de buscar uma saída via as chamadas energias alternativas está esbarrando na falta de interessados em parcerias que combinam alta de demanda por capital e incertezas quanto ao retorno.

Ponderei ainda com José Luiz Vianna da Cruz acerca do que eu considero um erro estratégico que é a inexistência de um estrutura portuária para a circulação de contêineres, já que essa é a forma que hoje hegemoniza o mercado marítimo mundial.  Vianna da Cruz ponderou que esse a “conteineirização” do Porto do Açu exigiria um forte investimento em uma estrutura de capital fixo, e sem garantia de retorno imediato ou futuro. Um dos gargalos para a “conteinerização” do Porto do Açu sendo justamente a falta de vias de acesso rodoviário ou ferroviário. Em um porto de contêineres, a presença de rodovias e ferrovias é central e estratégica para o escoamento eficiente das mercadorias. A interligação de modais de transporte, que se chama de intermodalidade ou multimodalidade, traz uma série de benefícios cruciais para a logística e a economia. No caso do Porto do Açu, não há sequer um vislumbre de que esses modais serão instalados, nem agora nem tão cedo.

O pior é que a atual dependência do Porto do Açu na exportação de petróleo extraído na camada Pré-sal coloca um limiar de, no máximo 30 anos, para que essa unidade portuária se viabilize no pós-petróleo. Mas, voltando ao elemento inicial que se refere à desconexão crônica a que o Porto do Açu enquanto enclave isolado está posto, esse horizonte pós-petróleo parece cheio de nuvens carregadas. Explicar esse gargalo a potenciais investidores certamente não será tarefa fácil, especialmente se forem chineses. É que a China já demonstrou de forma cabal como se instala portos conectados ao seu “hinterland” e aos mercados globais.