Alerta a Wladimir Garotinho: eucalipto adora água e gera desertos verdes

Mudanças na esfera familiar: notas sobre eucalipto e mulheres em Mato  Grosso do Sul | Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Das duas uma: ou o prefeito Wladimir Garotinho está mal informado sobre as consequências nefastas da monocultura de eucalipto ou ele não se importa.  Mas independente da resposta, eu precisa levar em conta que não para combinar o discurso de que é preciso reclassificar o clima regional para “sem-árido” e ficar apoiando em público a transformação de parte do território campista em um deserto verde.  A conta simplesmente não fecha. 

Por outro lado, já me chegaram notícias do aumento de casos de intoxicação por contato com agrotóxicos na região próxima do Distrito de Travessão onde estão sendo implantados alguns desses empreendimentos de monoculturas de árvores.  

Esse aumento de casos, principalmente de trabalhadores rurais que manejam equipamentos que aplicam agrotóxicos nos plantios de eucalipto, será seguido pelo aumento de casos por ingestão crônica de agrotóxicos, visto que parte dos venenos utilizados nos plantios em grande escala de árvores migra rapidamente para os corpos aquáticos.

Por outro lado, conflitos sociais têm aparecido nas novas fronteiras do deserto verde que estão aparecendo no Brasil, visto que há um deslocamento inevitável de comunidades que ocorre na medida em que os plantios de eucalipto avançam no território.

Assim, se o prefeito Wladimir Garotinho considera uma boa transformar parte de município em um deserto verde e com grande potencial de contaminação, há que se dizer que essa é uma péssima ideia.  Assim, nem tudo o que “acontece” é desejável ou necessário.

Finalmente, acho interessante que se prepare melhor as unidades hospitalares existentes no município para que identifique e trate os contaminados pelo trabalho nos eucaliptais. 

El País mostra resistência de agricultores familiares aos impactos socioambientais do Porto do Açu

O Sr. Walter e sua neta Kevem no Acampamento de Resistência contra o megaprojeto do porto do Açu, no Brasil.

A infraestrutura, em operação desde 2014, afeta agricultores e pescadores artesanais da região, que foram deslocados para sua construção. Também levou à redução das áreas de pesca, ao aumento da erosão e à destruição dos ecossistemas costeiros.

Por Pablo Vergara de São João da Barra (Brasil) para o El País

Os chamados “Povos da Areia”, que por 150 anos habitaram a Restinga, um ecossistema costeiro com características arenosas e salinas no litoral leste do Brasil, praticam uma agricultura enraizada em conhecimentos ancestrais com técnicas agrícolas adaptadas aos solos arenosos. É um modo de vida ameaçado pela expansão do Porto do Açu, maior complexo portuário e industrial privado da América Latina, localizado ao norte do Rio de Janeiro, no município de São João da Barra. Na fotografia, tirada em dezembro de 2024, uma casa no Bairro V de Água Preta, em São João da Barra. Pablo Vergara

Os impactos sociais e ambientais da construção do porto do Açu afetaram severamente os agricultores e pescadores artesanais da região. Mais de 400 agricultores foram expropriados diretamente sem indenização justa, conforme documentado por vários veículos de comunicação brasileiros nos últimos anos, levando à violência e agitação social. A Defensoria Pública informa que apenas 10% dos afetados receberam indenização. O processo está em litígio desde 2010, quando as desapropriações começaram. Este jornal entrou em contato com a assessoria de imprensa da PRUMO Logística, empresa que coordena as operações no porto do Açu, mas não obteve resposta. Nesta imagem, tirada em dezembro de 2024, Sadir Toledo Almeida, 102, e sua filha Leia, 63, de Água Preta, São João da Barra, que sofreram os impactos do megaporto. Pablo Vergara 

Retrato de família da família Toledo-Almeida, moradores do bairro Água Preta V, em São João da Barra, em imagem de setembro de 2023. Esta família foi expropriada de suas terras depois que o porto foi construído e colocado em operação. O deslocamento forçado teve consequências graves, arrancando-os de suas terras, plantações e herança cultural.

Retrato de família da família Toledo-Almeida, moradores do bairro Água Preta V, em São João da Barra, em imagem de setembro de 2023. Esta família foi expropriada de suas terras depois que o porto foi construído e colocado em operação. O deslocamento forçado teve consequências graves, arrancando-os de suas terras, plantações e herança cultural. Pablo Vergara


Fonte: El País

Vozes Silenciadas – Energias Renováveis: como a mídia encobre as injustiças sociais na transição energética

Por Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social

2023 foi o ano mais quente da história do planeta, segundo dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM). No Brasil, a média das temperaturas do ano ficou em 24,92°C, ou seja, 0,69°C acima da média histórica de 1991-2020, que é de 24,23°C.[1] A chamada crise climática é estruturada e acelerada por um modelo socioeconômico capitalista, baseado no racismo ambiental, na apropriação privada, na mercantilização e na exploração desmedida da água, do solo e dos demais bens comuns. Suas raízes históricas remontam ao colonialismo e às relações de poder e opressão do Norte sobre o Sul Global.

Baixe aqui a publicação.

Fato é que, nos últimos anos, o tema tomou conta da agenda da população brasileira, sendo assunto constante nas redes sociais, na mídia tradicional e na vida cotidiana. Seja em decorrência de eventos ambientais adversos e trágicos, como secas, enchentes e queimadas, seja por força de declarações de figuras públicas, expressões e categorias como “crise climática”, “energias verdes”, “energias renováveis” e “transição energética” circulam cada vez mais no debate público.

Nesse contexto, o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, a partir do diálogo com movimentos sociais, pesquisadoras/es, ativistas e grupos diretamente impactados pelos conflitos decorrentes dessa conjuntura – dentre eles pescadoras/es, agricultoras/es e Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs) – se lançou ao desafio de analisar a cobertura de veículos jornalísticos da mídia com alcance nacional e local acerca dos empreendimentos em solo brasileiro vinculados às ditas “energias limpas”.

A pesquisa faz parte da série Vozes Silenciadas, em que o Intervozes analisa a cobertura da mídia sobre temas que impactam os direitos da população brasileira. Este é o sétimo volume da série, que já tematizou: a criminalização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em 2011; as jornadas de manifestações de junho de 2013; a reforma da previdência do governo Bolsonaro (2019); a tragédia provocada pelo crime de derramamento de petróleo na costa brasileira (2020); os direitos sexuais e reprodutivos, com foco no aborto (2023); e as leis de cotas para acesso ao ensino superior no país (2024). Todos os volumes da série estão disponíveis gratuitamente no site do Intervozes.[2]

Próximo de sediar a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 30), em 2025, e assumindo compromissos internacionais e um papel estratégico na economia global como sede do G20, o Brasil vem se colocando como protagonista na chamada transição energética, imprimindo ritmo acelerado à implantação de megaprojetos de energia renovável e lançando as bases de políticas de compromisso que alegam enfrentar a chamada crise climática.

Tais políticas, entretanto, têm se mostrado insuficientes no enfrentamento das raízes profundas de um cenário de injustiça socioambiental marcante, atuando mais como esforços retóricos e sinalização ao mercado (numa estratégia de greenwashing) do que, propriamente, apresentando soluções justas, eficazes e que respeitem os biomas e a autonomia dos povos sobre seus territórios.

Nós, do Intervozes, esperamos que este olhar sobre como as mídias corporativa e pública têm se colocado no debate como ator estratégico que é, ajude no fortalecimento da luta de quem, a partir dos territórios, nos presta valiosas lições de como habitar muitos mundos em coerência e em defesa da biodiversidade e do bem viver.

Que esta pesquisa alimente discussões e buscas de soluções a partir de perspectivas diversas e críticas, fortalecendo as lutas no Brasil, na América Latina e mundo afora, ajudando a transformar as angústias necessárias em férteis esperançares.

Boa leitura!

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Fonte: Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social

Eventos extremos como inundação no rio Juruá se tornam 2,5 vezes mais prováveis com mudanças climáticas

Inundação do Rio Juruá em 2021 afetou mais de 43 mil pessoas, e as perdas econômicas foram estimadas em 16,7 milhões de dólares. Foto: Marcos Vicentti/Secom / Agência de Notícias do Acre

Eventos extremos como as inundações de 2021 na bacia do rio Juruá, no Oeste da Amazônia, se tornam 2,5 vezes mais prováveis devido às mudanças climáticas na comparação com um cenário sem interferência humana. A constatação é de artigo da parceria de Ciência para Serviços Climáticos Brasil (CSSP-Brasil), que envolve cientistas de instituições nacionais, como o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e estrangeiras, como a Universidade de Viena (Áustria) e a Universidade de Oxford (Reino Unido). O estudo foi publicado na revista científica International Journal of Disaster Risk Reduction nesta quinta (29).

O trabalho constatou, ainda, que as ações humanas aumentaram os riscos associados ao evento. 61% da probabilidade total de ocorrência da inundação de 2021 pode ser atribuída diretamente às mudanças climáticas — levando um evento que naturalmente se repetiria em 107 anos a acontecer em 42 anos. Na ocasião, mais de 43 mil pessoas sofreram impactos diretos, e as perdas econômicas foram estimadas em 16,7 milhões de dólares – sendo que 10 milhões podem ser atribuídos às mudanças climáticas, segundo o artigo.

Para avaliar o impacto ambiental, os pesquisadores utilizaram dados do Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos, do Instituto Nacional de Meteorologia, do Cemaden e do conjunto de dados Climate Hazards Group InfraRed Precipitation with Station data (CHIRPS), que mapeia a precipitação ao longo do tempo com base em informações de satélites e de pluviômetros. Para a estimativa do impacto socioeconômico, os cientistas usaram dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, plataforma do Sistema Nacional e Proteção e Defesa Civil que reúne informações sobre riscos e desastres nos municípios brasileiros.

No caso das inundações do rio Juruá – que atravessa os estados do Acre e do Amazonas – , a precipitação entre os meses de dezembro de 2020 a março de 2021 foi 48% maior do que a média para o período. As cheias também afetaram 25 km² de área urbana e 1.150 km² de áreas de pastagem, prejudicando a mobilidade da população afetada e contaminando solos agrícolas utilizados para subsistência.

Porém, os dados subestimam o real impacto, como destaca a coautora Renata Pacheco Quevedo: “Ao considerar a realidade brasileira, principalmente de uma região de extrema relevância estratégica e ambiental como a Amazônia, o estudo evidenciou gargalos relacionados à coleta, padronização e integração dos dados sobre impactos”. As lacunas limitam a compreensão completa dos danos causados, como gastos relacionados a hospitalizações e tratamentos de condições como ansiedade e depressão. “Esses gastos não previstos acabam afetando todo o sistema de saúde; portanto, considerar impactos socioeconômicos a longo prazo ajuda a garantir respostas mais eficazes e medidas preventivas mais precisas”, avalia a autora.

Mesmo com a abordagem mais conservadora, a magnitude das consequências surpreendeu os cientistas — especialmente devido aos impactos severos sobre 22 municípios cobertos parcialmente ou totalmente pela bacia, incluindo comunidades ribeirinhas altamente dependentes das dinâmicas de água para suas atividades econômicas. “Os resultados nos fizeram refletir sobre a urgência de aproximar a ciência da tomada de decisões políticas, independentemente de ideologias, partidos ou religiões. Sem uma ação coordenada e baseada em evidências, esses impactos continuarão a ser socializados, contribuindo para o empobrecimento do país como um todo”, concluem as autoras Renata Quevedo e Liana Anderson.


Fonte: Agência Bori

Projeto Rede Soa Sirene lança documentário e podcast com participação de comunidades vulneráveis à mineração

Moradores de Tejuco, Marinhos e Ribeirão, em Brumadinho (MG), compartilham suas vivências em produções inéditas de comunicação popular

Já estão no ar o curta Escuta Pra Cê Vê e dois episódios de podcast produzidos por moradores dos territórios de Tejuco, Marinhos e Ribeirão, em Brumadinho (MG). As obras foram criadas a partir de vivências coletivas promovidas pelo projeto Rede Soa Sirene: Comunicação Popular em Comunidades Vulneráveis à Mineração, realizado com recursos do Convênio nº 930113/2022, oriundo da Emenda nº 39160013, disponibilizada pela deputada federal Áurea Carolina.

Com foco na escuta, na memória e na valorização das identidades locais, o projeto promoveu oficinas de formação em podcast com crianças, adolescentes, jovens e adultos das comunidades. Durante os encontros, os participantes vivenciaram práticas de captação sonora, entrevistas e construção de roteiros, partindo de temas levantados coletivamente. O resultado são produções que ampliam vozes, fortalecem vínculos comunitários e reforçam a potência da comunicação popular.

“O Projeto Rede Soa Sirene é fundamental porque fortalece o direito à comunicação em territórios historicamente silenciados, oferecendo ferramentas para que moradores de comunidades vulneráveis à mineração possam contar suas próprias histórias, do seu jeito, com sua voz. Mais do que ensinar técnicas de gravação ou edição, o projeto promove escuta, pertencimento e autonomia, mostrando que comunicar também é uma forma de existir, resistir e transformar realidades.”, comenta Thamira Bastos, coordenadora geral do Projeto. 

“Escuta Pra Cê Vê”: um filme para sentir com os ouvidos

O curta-metragem Escuta Pra Cê Vê convida o público a uma experiência sensorial que desloca o olhar e privilegia a escuta. Com ambientação sonora detalhada, o documentário conduz a narrativa por meio de sons do cotidiano — conversas, risos, passos e ruídos urbanos — provocando o espectador a imaginar as cenas com base no que ouve.

Mais do que uma proposta artística, o filme é um gesto de inclusão. Ao priorizar o som, torna-se acessível a pessoas com deficiência visual e propõe a todos uma nova forma de se relacionar com o audiovisual. As vozes dos moradores ganham protagonismo e revelam histórias, afetos e memórias que muitas vezes não encontram espaço nas mídias tradicionais.

Também é possível encontrar as versões com acessibilidade no canal do Coletivo (Canal Coletivo MICA)

Podcast e oficinas: criar, escutar e comunicar

As oficinas de podcast realizadas nas duas comunidades foram espaços de encontro e criação coletiva. Com participação ativa de moradores de diversas faixas etárias, as atividades incentivaram o uso da comunicação como ferramenta de expressão, autonomia e resistência. Os participantes experimentaram diferentes linguagens sonoras e criaram conteúdos a partir de suas próprias vivências, fortalecendo o sentimento de pertencimento e a construção de narrativas locais.

Como parte do projeto, foi elaborada uma apostila com orientações práticas para a criação e divulgação de podcasts em plataformas digitais. O material foi distribuído em versão impressa durante as oficinas e agora também está disponível online (acesse aqui), ampliando o acesso à metodologia e incentivando novas iniciativas comunitárias.

Os episódios do podcast estão disponíveis gratuitamente no Spotify: https://open.spotify.com/show/2Cqf7KJzKIfnj6vx8pXnd6 

Sobre o Coletivo MICA

Desde 2015, o Coletivo MICA atua com foco na educação social, comunicação popular e valorização de identidades e culturas. Seu principal objetivo é contribuir para a emancipação humana por meio de ações ligadas à arte, à cultura e à comunicação social. Entre suas frentes de atuação, destacam-se o fomento a valores identitários e culturais — incluindo o patrimônio histórico, artístico, material e imaterial — e a consolidação da cidadania, dos direitos humanos e da democracia.

Ao longo desses anos, o MICA tem promovido iniciativas em comunidades periféricas de Minas Gerais, com ênfase na defesa do Direito à Comunicação, um direito humano fundamental historicamente negado a grande parte da população. A proposta do coletivo é abrir espaços de escuta e criação para pessoas que, muitas vezes, têm suas vozes silenciadas por fatores como idade, crença, cor, gênero ou classe social. Ao incentivar a produção de conteúdo a partir das próprias vivências, o MICA reafirma a potência da comunicação popular como ferramenta de expressão, transformação e pertencimento.

Em 2024, o grupo desenvolveu mais uma importante iniciativa: o projeto Rede Soa Sirene: Comunicação Popular em Comunidades Vulneráveis à Mineração, realizado no âmbito do Termo de Fomento nº 930113/2022. Nesta edição, o projeto chegou aos territórios de Tejuco e Marinhos, em Brumadinho (MG), onde foram realizadas duas oficinas de podcast voltadas para crianças, adolescentes, jovens e adultos moradores das comunidades. Os encontros propuseram vivências práticas com experimentações sonoras, entrevistas e gravações feitas pelos próprios participantes, a partir de temas e reflexões construídos coletivamente.

Agrotóxicos, antibióticos, medicamentos para animais: o coquetel químico que está vazando nos rios do Reino Unido

Um estudo dos rios de Yorkshire está ajudando os cientistas a entender o impacto que os poluentes diários têm nas vias navegáveis ​​– e os resultados são preocupantes

Um homem agachado na margem de um rio que corre por uma área arborizada.

O professor Alistair Boxall, às margens do Rio Foss. Ele lidera a pesquisa sobre os efeitos de produtos químicos nos rios de Yorkshire.

Por Phoebe Weston para o “The Guardian”

Os rios transportam mais do que apenas água pelas paisagens britânicas. Um coquetel oculto de substâncias químicas vaza das terras agrícolas, passa despercebido pelas estações de tratamento de esgoto e escoa das estradas para os rios do país. Normalmente, essas substâncias químicas fluem por ecossistemas não reportados, reestruturando-os silenciosamente, mas agora, cientistas britânicos estão mapeando o que está lá dentro – e os danos que pode estar causando.

Percorrendo o centro da Grã-Bretanha, há um rio cuja composição química os cientistas conhecem melhor do que qualquer outro. O Foss serpenteia pelas plantações florestais de North Yorkshire, terras aráveis ​​fragmentadas e pequenos vilarejos, antes de descer para a cidade de York , passando por estradas e estacionamentos, e jardins substituindo terras agrícolas. Ao longo de seus 32 km de extensão, as impressões digitais químicas da vida moderna se acumulam. 

Um homem está em um laboratório segurando um frasco de vidro marrom com uma tampa branca.

O professor Alistair Boxall em seu laboratório na Universidade de York, onde analisa amostras de água do Rio Foss da cidade.

“O Foss é o rio que mais compreendemos”, afirma o professor Alistair Boxall, da Universidade de York, que lidera a pesquisa nos rios de Yorkshire. Ele lidera o projeto de pesquisa Ecomix , que estuda 10 rios da região, desenvolvendo maneiras de examinar esses produtos químicos com mais profundidade do que nunca. “Este é o pulso químico da água de Yorkshire”, afirma, e as descobertas com a água daqui provavelmente serão replicadas em todo o país. “As pessoas ficam surpresas. Geralmente pensam em plásticos e esgoto. As pessoas não fazem a conexão entre os produtos químicos que usamos e o meio ambiente.”

A história que esses rios contam é preocupante, diz Boxall. Entre os milhares de produtos químicos detectados estava o aditivo para pneus 6PPD-quinona, que tem sido associado à mortandade em massa de salmões nos EUA. Em áreas urbanas de Sheffield, Leeds e Wakefield, ele foi encontrado em cerca de três quartos das amostras. Fungicidas e herbicidas estavam entre os produtos químicos mais detectados.

Cerca de 500 agrotóxicos – incluindo inseticidas, fungicidas e herbicidas – estão aprovados para uso na Europa, e 600 receberam sinal verde para uso veterinário em gado e animais de estimação. Pesquisas mostram que os níveis de anti-histamínicos na água aumentam quando a rinite alérgica está grave – um dos muitos fármacos que acabam nos rios após serem jogados no vaso sanitário.

O monitoramento do Foss começou em Stillington Mill, no quintal de um antigo diretor de escola. Ele é um dos voluntários que tornaram esta pesquisa possível – seja coletando amostras ou permitindo que o monitoramento fosse feito em suas terras. 

Um riacho corre até uma ponte perto da qual é possível ver uma casa e um carro amarelo.

A pesquisa foi possível graças a voluntários que coletaram amostras ou permitiram o monitoramento em suas terras.

Este local fica a cerca de 16 quilômetros da nascente do Foss. Campos de trigo e colza se estendem até a água, vindos do outro lado do rio. Três mil substâncias químicas foram detectadas aqui (das quais 40% provavelmente ocorrem naturalmente). Na análise direcionada, os cientistas identificaram 40 substâncias químicas, incluindo medicamentos para gado, produtos farmacêuticos, filtros UV, fungicidas e herbicidas.

No total, eles procuraram 52 produtos químicos (excluindo metais) e encontraram 44 nos três locais de amostragem no Foss. Eles escolheram se concentrar nesses produtos químicos porque são conhecidos por sua toxicidade e potencial dano aos organismos aquáticos.

Ao chegar ao centro da cidade de York – a cerca de 16 quilômetros de distância –, 1.000 produtos químicos adicionais foram adicionados ao rio, incluindo produtos químicos domésticos, como antibióticos e cosméticos, à medida que o rio passa das áreas agrícolas para vilas e cidades. Nos arredores de York, em New Earswick, Boxall documentou o segundo nível mais alto de paracetamol na água já medido na Europa, após uma falha no sistema de esgoto. O nível era 1.000 vezes maior que o normal. 

Um rio banhado pelo sol passa por prédios e por baixo de uma ponte.

Quando o Foss chega ao centro da cidade de York, na foto, 4.000 produtos químicos foram adicionados à sua água.

No laboratório

No laboratório de Boxall, um conjunto de criaturas que ele chama de “pequenos bichinhos” vive em aquários – uma pequena coleção de animais que inclui mexilhões-pato, mexilhões-cisne, caracóis-carneiros, vermes-de-sangue e sanguessugas, coletados nos lagos ao redor do campus. Essas são espécies comumente encontradas em rios do Reino Unido. Doze culturas de cianobactérias – algas verde-azuladas – são sifonadas, cada uma com um tom de verde ligeiramente diferente. “As algas são a base da cadeia alimentar”, diz ele. Aqui, os invertebrados e as algas são expostos a diferentes substâncias químicas, e os cientistas monitoram os efeitos.

Este é o outro foco da pesquisa da Ecomix : trabalhar para entender os efeitos que os produtos químicos estão tendo na ecologia dos rios britânicos. Uma em cada 10 espécies de água doce e de zonas úmidas na Inglaterra está ameaçada de extinção. Boxall acredita que a poluição química pode ser tão prejudicial para os ecossistemas fluviais quanto os vazamentos de esgoto, que frequentemente aparecem nas manchetes.

Amostras de garrafas com água verde e amarela.

O estudo resultou na coleta de 20.000 amostras de 19 locais.

Pesquisadores descobriram que a poluição química faz uma contribuição “significativa” para o declínio de peixes e outros organismos aquáticos, algo que muitas vezes passa despercebido pelos reguladores.

Mais de 350.000 produtos químicos estão registrados para produção e uso, com cerca de 2.000 novos adicionados a cada ano. Eles provavelmente estão tendo uma série de efeitos negativos desconhecidos na ecologia de nossos rios – alterando o comportamento e a fisiologia dos organismos. Os produtos químicos demonstraram ter um impacto diverso nos peixes, incluindo sua reprodução, interações sociais e comportamento alimentar. Estudos sugerem que o ibuprofeno pode afetar a eclosão dos peixes , o anti-inflamatório diclofenaco afeta o fígado dos peixes e os antidepressivos têm sido associados a uma série de mudanças comportamentais Salmões expostos a medicamentos ansiolíticos demonstraram correr mais riscos, e alguns tratamentos contra pulgas, como o imidacloprido, são tóxicos para invertebrados como efêmeras e libélulas.

“Você tem efetivamente uma situação em que alguns produtos químicos estão atingindo a base da cadeia alimentar, outros estão atingindo os invertebrados e outros produtos químicos estão atingindo os peixes”, diz Boxall.

O estudo da Ecomix é muito mais abrangente do que a modelagem química da Agência Ambiental, que se concentra principalmente em “amostras aleatórias” ou, na melhor das hipóteses, em monitoramento mensal. O estudo da Boxall analisou 19 locais em 10 rios ao longo de um ano de monitoramento contínuo, durante o qual 20.000 amostras foram coletadas.

Um homem está em um laboratório segurando um frasco de amostra.

O estudo Ecomix da Boxall monitorou 10 rios ao longo de um ano.

“A Agência Ambiental não tem recursos suficientes para lidar com essa questão”, disse Rob Collins, do Rivers Trust, que não participou da pesquisa. Ele acrescentou que o controle desses produtos químicos na fonte era fundamental: “Enfrentar esse problema é um desafio social – todos nós estamos envolvidos. Também precisamos de uma regulamentação governamental muito mais rigorosa com produtos químicos mais perigosos.”

“Uma vez que esses produtos químicos entram no meio ambiente, é muito difícil fazer qualquer coisa a respeito. Por exemplo, os Pfas – conhecidos como ‘produtos químicos eternos’ – podem persistir no meio ambiente por mais de 1.000 anos.”

Cientistas cidadãos

Richard Hunt foi um dos doze cientistas cidadãos que tornaram esta pesquisa possível. Os resultados foram “preocupantes”, disse Hunt, que coletou uma amostra semanal no centro de York. O local onde ele estava foi um dos que apresentou o maior nível de produtos químicos – como esperado em uma área urbana. Filtros UV, retardantes de chama, vermífugos, DEET e cocaína estavam entre os elementos presentes na água. “Fiquei pasmo com a quantidade de produtos químicos”, diz Hunt. “Se as pessoas fossem instruídas sobre como poderiam ajudar, elas ajudariam.”

O Santo Graal para lidar com a poluição química é um sistema de monitoramento constante, com relatórios em tempo real, diz Boxall. Ter atualizações em tempo real alertaria as autoridades sobre possíveis problemas de poluição, permitindo que respondessem mais rapidamente, embora a equipe da Agência Ambiental tenha sido instruída a ignorar eventos de poluição de baixo impacto, pois o órgão não dispõe de recursos para investigar.

Um homem agachado ao lado de um rio com uma ponte e edifícios ao fundo. Richard Hunt coleta amostras de água do Foss no Merchant Adventurers’ Hall, no centro de York. As amostras são então analisadas na Universidade de York.

“Os produtos químicos são importantes para a sociedade”, diz Boxall. “Nós nos beneficiamos deles, mas precisamos reduzir seus danos ambientais.”

Hunt ressalta que a riqueza de sua cidade vinha de seus dois rios – o Ouse e seu afluente, o Foss. Entender quais produtos químicos fluem por eles e descobrir o que podemos fazer para limpá-los seria pagar uma dívida de gratidão. “York não seria tão saudável e próspera se não fossem os rios. Precisamos ter mais respeito por eles.”


Fonte: The Guardian

Sangue, suor e agrotóxicos: relatório no Reino Unido aponta presença de agrotóxicos em produtos menstruais

Por Pesticide Action Network UK 

Agrotóxicos em produtos menstruais

Produtos menstruais podem conter agrotóxicos e outras substâncias nocivas, como metais pesados ​​e PFAS (substâncias químicas permanentes). Metade da população mundial menstrua, com mulheres, meninas usando, em média, 11.000 produtos menstruais descartáveis ​​ao longo da vida. Apesar do uso prolífico desses produtos, os potenciais impactos à saúde dos produtos químicos que eles podem conter permanecem em grande parte desconhecidos.

O Reino Unido carece de uma estrutura regulatória robusta para garantir que os produtos menstruais sejam seguros para uso. Como isso afeta os consumidores e os produtores de algodão em todo o mundo, visto que o algodão é um ingrediente principal tanto em produtos menstruais descartáveis ​​(DUOs) de uso único quanto em reutilizáveis?

Nosso relatório Sangue, Suor e Agrotóxicos , publicado em colaboração com a Wen (Rede Ambiental de Mulheres), analisa mais detalhadamente os produtos químicos tóxicos presentes em produtos menstruais.

Testando absorventes internos do Reino Unido

Em 2024, realizamos nossos próprios testes em caixas de absorventes internos de lojas e supermercados do Reino Unido. Testamos apenas 15 caixas de absorventes internos de lojas e supermercados do Reino Unido para detectar traços de agrotóxicos. Apesar dos testes em uma escala muito pequena, encontramos glifosato em absorventes internos contidos em uma das caixas em níveis 40 vezes maiores do que o permitido na água potável. O glifosato é o herbicida mais usado no mundo. Em 2015, a Organização Mundial da Saúde (OMS) o declarou um “provável carcinógeno”, o que significa que está ligado ao câncer. Há também evidências crescentes que conectam o glifosato a outras condições graves de saúde, como o Parkinson .

Dada a preocupação global com o impacto do glifosato na saúde humana, encontrá-lo em absorventes internos é particularmente alarmante. Ao contrário da ingestão por meio de alimentos ou água, os produtos químicos absorvidos pela vagina entram diretamente na corrente sanguínea, ignorando os sistemas de desintoxicação do corpo e, portanto, representando um risco significativo à saúde.

Uma amostra de tampões continha glifosato em 40 vezes o nível permitido na água potável

Outros produtos químicos em produtos menstruais

Embora relativamente pouca pesquisa tenha sido realizada, estudos anteriores demonstraram que produtos menstruais também podem conter uma variedade de outros produtos químicos. Entre eles, estão ftalatos, dioxinas, compostos orgânicos voláteis (COVs), substâncias perfluoroalquílicas e polifluoroalquílicas (conhecidas como “PFAS” ou “produtos químicos eternos”) e metais pesados, como chumbo e arsênio. Esses produtos químicos têm sido associados ao aumento do risco de doenças reprodutivas e hormonais, como endometriose, infertilidade e câncer.

O que precisa mudar?

O Governo do Reino Unido deve introduzir uma regulamentação rigorosa para produtos menstruais, com um sistema de testes em vigor para garantir que estejam livres de resíduos químicos. O Governo deve exigir que os fabricantes divulguem todos os ingredientes e aditivos presentes em produtos menstruais para que as consumidoras possam tomar decisões informadas.

Considerando que os jovens são particularmente vulneráveis ​​aos impactos dos produtos químicos na saúde, o relatório também pede que o programa gratuito de produtos menstruais do governo do Reino Unido nas escolas troque imediatamente a distribuição de absorventes internos e externos tradicionais por seus equivalentes orgânicos e reutilizáveis ​​sustentáveis, como calcinhas menstruais e coletores vaginais.

As questões relacionadas à menstruação não podem ser abordadas isoladamente: é por isso que nos juntamos a Wen em seu apelo por uma Lei de Saúde Menstrual, Dignidade e Sustentabilidade para enfrentar os desafios ambientais, sociais e de saúde relacionados ao acesso e à segurança dos produtos menstruais.

A cadeia de abastecimento do algodão

Muitos produtos menstruais, como absorventes internos e externos, começam sua vida como uma planta de algodão. A maior parte do algodão do mundo é cultivada em fazendas convencionais (com apenas cerca de 1% do algodão global sendo cultivado organicamente) e é frequentemente chamada de “a cultura mais suja” do mundo .

Aproximadamente 300 pesticidas são utilizados na produção de algodão em todo o mundo, sendo cerca de um terço deles classificados como Agrotóxicos Altamente Perigosos (PAPs) , incluindo o glifosato. Os PAPs podem ter impactos prejudiciais à saúde humana. Embora alguns sejam extremamente tóxicos, ameaçando a saúde de quem os utiliza, outros têm sido associados ao desenvolvimento de doenças crônicas, como o câncer. Muitos dos PAPs utilizados na produção de algodão representam um grande risco ao meio ambiente, prejudicando polinizadores e outros animais selvagens ou contaminando a água e o solo em regiões onde o algodão é cultivado.

Os produtores de algodão estão sendo expostos a agrotóxicos em níveis preocupantes. Os agricultores do hemisfério sul, em particular, frequentemente trabalham em ambientes com pouco ou nenhum equipamento de proteção. Muitas produtoras de algodão são mulheres, que enfrentam os riscos à saúde de trabalhar com pesticidas tanto na fazenda quanto em casa diariamente.

Tomar medidas para eliminar agrotóxicos e outros produtos químicos nocivos dos produtos menstruais seria uma grande vitória. Não apenas para nós que dependemos desses produtos, mas também para as comunidades e o ambiente natural onde o algodão é produzido.


Fonte: Pesticide Action Network UK

Cientistas alertam que temperaturas globais podem quebrar recorde de calor nos próximos cinco anos

Os dados também mostram uma probabilidade pequena, mas “chocante”, de um ano 2°C mais quente do que a era pré-industrial antes de 2030

Um reservatório afetado pela seca nos arredores de Sanaa, Iêmen.

O aumento das temperaturas aumentará o risco de secas extremas como a que atualmente afeta o Iêmen. Fotografia: Yahya Arhab/EPA

Por Jonathan Watts para o “The Guardian”

Há 80% de chance de que as temperaturas globais quebrem pelo menos um recorde anual de calor nos próximos cinco anos, aumentando o risco de secas extremas, inundações e incêndios florestais, mostrou um novo relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) .

Pela primeira vez, os dados também indicaram uma pequena probabilidade de que, antes de 2030, o mundo possa vivenciar um ano 2°C mais quente do que a era pré-industrial, uma possibilidade que os cientistas descreveram como “chocante”.

Após os 10 anos mais quentes já registrados, a mais recente atualização climática global de médio prazo destaca a crescente ameaça à saúde humana, às economias nacionais e às paisagens naturais, a menos que as pessoas parem de queimar petróleo, gás, carvão e árvores.

A atualização, que sintetiza observações meteorológicas de curto prazo e projeções climáticas de longo prazo, disse que há 70% de chance de que o aquecimento médio de cinco anos para 2025-2029 seja mais de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.

Isso colocaria o mundo perigosamente perto de quebrar a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris, um tratado internacional sobre mudanças climáticas, embora essa meta seja baseada em uma média de 20 anos.

O relatório também relatou uma probabilidade de 86% de que 1,5°C seria ultrapassado em pelo menos um dos próximos cinco anos, acima dos 40% do relatório de 2020.

Em 2024, o limite de 1,5°C foi ultrapassado anualmente pela primeira vez — um resultado considerado implausível em qualquer uma das previsões quinquenais anteriores a 2014. O ano passado foi o mais quente no registro observacional de 175 anos.

Ressaltando o quão rápido o mundo está se aquecendo, até mesmo 2°C está aparecendo como uma possibilidade estatística na última atualização, que foi compilada por 220 membros do conjunto a partir de modelos contribuídos por 15 institutos diferentes, incluindo o Met Office do Reino Unido, o Barcelona Supercomputing Centre, o Canadian Centre for Climate Modelling and Analysis e o Deutscher Wetterdienst.

A probabilidade de 2°C antes de 2030 é pequena — cerca de 1% — e exigiria uma convergência de vários fatores de aquecimento, como um forte El Niño e uma Oscilação Ártica positiva, mas anteriormente era considerada impossível em um período de cinco anos.

“É chocante que 2°C seja plausível”, disse Adam Scaife, do Met Office, que desempenhou um papel fundamental na compilação dos dados. “A previsão é de apenas 1% nos próximos cinco anos, mas a probabilidade aumentará à medida que o clima esquentar.”

Os impactos não serão distribuídos igualmente. Prevê-se que os invernos árticos esquentem 3,5 vezes mais rápido do que a média global, em parte devido ao derretimento do gelo marinho, o que significa que a neve cai diretamente no oceano em vez de formar uma camada na superfície para refletir o calor do sol de volta para o espaço. Prevê-se que a floresta amazônica sofrerá mais secas, enquanto o sul da Ásia, o Sahel e o norte da Europa, incluindo o Reino Unido, verão mais chuvas.

Leon Hermanson, do Met Office, que liderou a produção do relatório, disse que 2025 provavelmente será um dos três anos mais quentes já registrados.

Chris Hewitt, diretor de serviços climáticos da OMM, descreveu um “quadro preocupante” para as ondas de calor e a saúde humana. No entanto, ele afirmou que ainda não é tarde demais para limitar o aquecimento se as emissões de combustíveis fósseis forem reduzidas.

“Precisamos tomar medidas climáticas”, disse ele. “1,5°C não é inevitável.”


Fonte: The Guardian

Eleições 2026 para o governo do Rio de Janeiro: cenário bem mais indefinido do que anunciam os oráculos de bancada

Por Douglas Barreto da Mata

]Tem muita gente dizendo que Wladimir Garotinho está “variando” das ideias, quanto se coloca entre o rochedo e o mar, isto é, no meio da disputa entre o prefeito carioca, Eduardo Paes, e o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar.

Eu acrescentaria nesse jogo o “tubarão” Washington Reis, patriarca de um dos clãs mais poderosos do Estado. Pode ser que sim, pode ser que não.  Dizem alguns que o “limite é uma fronteira criada só pela mente”, citando o rapper Mano Brown.

O fato é que analisando por um ângulo específico, a partir do que disseram as pesquisas de opinião divulgadas hoje, pelo Instituto Paraná, há muita coisa a ser definida, apesar dos números apontarem um favoritismo esmagador do prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, em relação ao presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar.

Se o presidente da Alerj receber o apoio de Jair Bolsonaro e família, as coisas vão se alterar, mas talvez não como espera o deputado estadual. Explico.  Não é novidade para ninguém que alguns quadros importantes, dentre eles o pastor Silas Malafaia, só para citar um nome, resistem em apoiar o deputado.

Quem se der ao trabalho de ler uma parte das hostes digitais do bolsonarismo, acerca da sucessão fluminense, vai ler cobras e lagartos dos bolsonaristas de carteirinha sobre o deputado Rodrigo Bacellar.  A história recente mostrou que o movimento bolsonarista tem oscilado, e não parece sempre caminhar na mesma direção, e o caso mais proeminente foi o “apoio” ao prefeito paulista, que concorreu à reeleição.

Essa dubiedade no “apoio” quase custou o cargo ao prefeito Nunes.  Boa parte desses eventos tem a ver com o próprio destino de Jair Bolsonaro, tornado inelegível, o que altera significativamente as estratégias eleitorais, afinal, o bolsonarismo enfrenta um paradoxo:  se o bolsonarismo derrotar Lula em 2026, com Tarcísio ou outro nome, como ficará Jair Bolsonaro?  Tarcísio presidente significa 08 anos, em tese, com outra configuração de poder, apesar da suposta lealdade entre ambos.

Então, eleições em estados-chave, como os do sudeste, devem ser acompanhadas com lupa pelo campo da direita. Apesar do foco sempre ter sido o Senado, para os pretendidos enfrentamentos com o STF, a questão é que as máquinas estaduais controlam cargos, recursos e muito mais importante, as polícias estaduais, que estão no eixo central do debate político, já que a agenda da segurança pública foi alçada a preocupação principal do eleitor.

No Rio de Janeiro, talvez mais que em São Paulo, o uso da segurança como bandeira política é essencial aos bolsonaristas. Então, a eleição de governador com um candidato que patina em 10%, e pior, em um cenário atual onde um pouco mais de 80% não têm candidato a governador, não é exagero dizer que o novo governador pode ainda não ter aparecido nas sondagens.

Outros lembram que Paes tem um péssimo histórico de derrotas que o assemelham ao Celso Russomano, que ficou conhecido como “cavalo paraguaio paulista”, pois sempre largava disparado na frente, e “morria na praia”.  Essa eleição fluminense, enfim, pode ter dois candidatos, um de direita e outro de centro que vão tentar, sem sucesso, angariar votos bolsonaristas.

A rejeição de Rodrigo Bacellar e de Eduardo Paes nessa faixa de eleitorado bolsonarista pode abrir campo para um terceiro candidato, justamente aquele que Washington Reis afirmou que não convidou, mas que parece que o ex-prefeito de Caxias não tira da cabeça como opção para a inelegibilidade dele próprio, Washington Reis: o prefeito de Campos dos Goytacazes, Wladimir Garotinho. O prefeito campista é assumidamente de direita, é evangélico, e transita com facilidade no terreiro de Eduardo Paes, mais ao centro, e não tem, como Paes vínculo com Lula, que no Rio tira mais votos que dá.

Ao mesmo tempo, Rodrigo Bacellar é detestado por boa parte dos bolsonaristas, como já dissemos, e pior, carregará uma parte da rejeição do governador que lhe apoia, e que lhe entregará um governo mal avaliado. Parece certo que haverá um montante enorme de “votos perdidos”. Talvez essa seja a brecha que setores do PL, Washington Reis e outras forças tenham enxergado para embaralhar o jogo. Adicionando nessa mistura, o ótimo resultado de Clarissa Garotinho para o senado, que dá ao irmão mais musculatura para articular sua entrada no páreo.

Assim, o que pode ter começado como uma “brincadeira”, ou tenha parecido “maluquice”, tem uma chance razoável de se tornar real. Afinal, a diferença entre a “loucura” e uma vitória espetacular não é apenas o resultado, mas antes, a ousadia da tentativa.

O ataque à Marina Silva no Senado Federal foi um exercício de acobertamento de responsabilidades no PL da Devastação

A ministra do Meio Ambiente, Maria Silva, respondeu com altivez à tentativa de linchamento político que sofreu no Senado Federal

As cenas virulentas cometidas hoje em audiência pública no Senado Federal contra a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, não são apenas atos misóginos (o são, é verdade), mas a coisa vai muito além. O que foi feito hoje foi uma ação para conter a reação popular que está ocorrendo contra a versão piorada do PL do Licenciamento Ambiental (mais corretamente conhecido como o PL da Devastação) que foi aprovada no Senado Federal após acordo com o próprio governo Lula.

Ao longo do Lula III, Marina Silva vem sendo o alvo de várias ações combinadas entre o governo Lula e a oposição (de direita e de extrema-direita) no sentido de enfraquecer a legislação ambiental brasileira. Temos casos emblemáticos como o do PL do Veneno que destroçou a legislação dos agrotóxicos, a Lei 14.876/2024 que isentou os plantios de eucalipto (independente de tamanho) do processo de licenciamento ambiental, o debate em torno das licenças ambientais para a Petrobras explorar petróleo na foz do Rio Amazonas, e agora o PL de Devastação. Em todos esses casos, Marina Silva foi deixada no sereno por Lula e seus ministros prediletos, Carlos Fávaro (Agricultura) e Alexandre Silveira (Minas e Energia).

Ao mesmo tempo, o orçamento do Ministério do Meio Ambiente vem sendo asfixiado pelo chamado “Novo Teto de Gastos”, o que cria dificuldades operacionais sérias para as ações do Ibama e do ICMBio, já que sem dinheiro é difícil levar a cabo as delicadas operações de fiscalização e repressão às atividades ilegais na Amazônia, principalmente.

O curioso é que hoje o ataque a Marina Silva contou com o apoio também de senadores da chamada “base” do governo Lula no Senado Federal, e o silêncio cúmplice dos senadores do próprio PT.  Coube a uma senadora do PSD do Maranhão, Eliziane Gama, fazer a defesa mais enfática de Marina Silva.

Mas no frigir dos ovos, o que está em jogo? Na prática, isso parece indicar que já foi tomada uma deciaão de se livrar de Marina Silva, obrigando-a a renunciar ao seu cargo. Contraditoriamente, se isso ocorrer, quem perderá o seu principal selo de legitimidade internacional será o governo Lula, já que o resto do ministério é composto por um ilustre bando de desconhecidos que nada interferem na dinâmica da política brasileira.

E, pasmem, estando o Brasil às vesperas da realização da COP-30, este ataque virulento à Marina Silva representa um tremendo tiro no pé. É que se ela sair, quem vai segurar a onda durante a COP30? Ao presidente Lula não caberá esse papel, pois ele teria que aparecer no final da conferência para ser carregado em triunfo pelos acordos que de lá vierem a sair. Acontece que sem Marina Silva, a chance de que se tenha algo para apresentar como vitória será muito próximo de zero. 

Curiosamente, a única que tem algo a ganhar se decidir sair do governo será a própria Marina Silva. Talvez por isso mesmo ela tenha se sentido confortável o suficiente para pegar suas coisas e se mandar do circo de horrores que foi montado para constrangê-la.  Como sempre, o tiro parece ter saído pela culatra.