Novo relatório mostra que plantio direto aumenta uso de agrotóxicos e prejudica os solos

História do Plantio Direto no Brasil - Sensix Blog

Por Sustainable Pulse

Um novo relatório da Friends of the Earth refuta que a agricultura industrial de plantio direto seja “regenerativa”. Com base em uma análise inédita de dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), o relatório conclui que a maioria dos sistemas de plantio direto depende tanto de herbicidas para controlar ervas daninhas que um terço do uso anual total de agrotóxicos nos EUA (um termo que inclui herbicidas, inseticidas e fungicidas) pode ser atribuído apenas à produção de milho e soja transgênicos de plantio direto e mínimo.

A agricultura intensiva no uso de produtos químicos predomina nos EUA não por culpa dos agricultores, mas porque é isso que as políticas públicas e os mercados apoiam. Os agricultores adotaram amplamente o plantio direto para minimizar a erosão do solo e agora precisam de apoio para também reduzir o uso de agrotóxicos.

O relatório constata que a grande maioria (93%) da área cultivada com as duas principais culturas de plantio direto e mínimo, milho e soja, utiliza altos níveis de herbicidas, com consequências devastadoras para a vida do solo e a saúde humana. Esses produtos químicos, disseminados por quase 40 milhões de hectares em todo o país, predominantemente nas regiões do Coração da Terra e das Grandes Planícies, têm sido associados a câncer, defeitos congênitos, infertilidade, neurotoxicidade, perturbação do microbioma intestinal, desregulação endócrina e muito mais. A maioria (61%) do uso é de produtos químicos classificados como altamente perigosos. O glifosato, o principal ingrediente do herbicida Roundup, amplamente criticado e associado ao câncer, é o herbicida mais utilizado no plantio direto de milho e soja.

O custo do plantio direto com uso intensivo de agrotóxicos vai além dos impactos à nossa saúde: ele também destrói o solo onde nossos alimentos são cultivados. Os pesticidas amplamente utilizados no plantio direto industrial devastam a saúde do solo, prejudicando o microbioma e invertebrados  como minhocas e besouros, bem como polinizadores essenciais e outros animais selvagens. Solos saudáveis ​​e vivos aumentam a resiliência dos agricultores a secas e inundações, conservam água e extraem mais carbono da atmosfera. O solo devastado por agrotóxicos, por outro lado, ameaça os recursos necessários para um sistema alimentar saudável.

O relatório desmascara a falsa suposição de que o plantio direto industrial é uma solução climática, resumindo extensas pesquisas científicas que demonstram não haver uma relação clara entre o plantio direto industrial e o sequestro de carbono no solo. E as emissões de gases de efeito estufa associadas aos pesticidas e fertilizantes sintéticos à base de combustíveis fósseis usados ​​no plantio direto e mínimo de milho e soja são equivalentes às de 11,4 milhões de carros nas ruas ao longo de um ano inteiro — aproximadamente o número de carros nos 9 estados com maior índice de plantio direto combinados.

“À medida que a agricultura regenerativa ganha destaque nas discussões nacionais sobre como tornar os Estados Unidos mais saudáveis, é crucial que promovamos uma agricultura verdadeiramente regenerativa”, disse a Dra. Kendra Klein, Diretora Adjunta de Ciência da Friends of the Earth. “O plantio direto, impregnado de agrotóxicos que ameaçam a saúde de nossas crianças, destroem o solo e agravam as mudanças climáticas, está nos levando na direção errada.”

A ascensão do plantio direto industrial está ligada à tentativa da indústria química de aprofundar a dependência dos agricultores em relação aos seus produtos tóxicos. Empresas químicas como a Imperial Chemical Industries e a Chevron realizaram experimentos com plantio direto e ajudaram a disseminar o conceito de plantio direto industrial na década de 1970, reconhecendo-o como uma oportunidade para expandir o mercado para seus herbicidas.

“As grandes empresas alimentícias que investem em agricultura regenerativa precisam evitar o plantio direto industrial esverdeado e, em vez disso, apoiar a transição para uma agricultura legítima e regenerativa que protegerá e melhorará a saúde do solo, a saúde humana — e seus lucros futuros”, disse Sarah Starman, ativista sênior de alimentos e agricultura da Friends of the Earth.

A agricultura verdadeiramente regenerativa não pode ser reduzida a práticas isoladas; ela atua em todo o sistema agrícola. Um princípio fundamental da agricultura verdadeiramente regenerativa é a redução drástica de agroquímicos nocivos. Pesquisas mostram que a redução do uso de pesticidas e fertilizantes sintéticos na agricultura convencional não só é possível, como também pode aumentar a produtividade, promovendo insetos benéficos e solos saudáveis, e aumentar a lucratividade, reduzindo os custos dos insumos agrícolas.

Principais descobertas

  • Pelo menos 93% das áreas de milho e soja com plantio direto e plantio mínimo nos EUA usam herbicidas sintéticos, representando uma área do tamanho da Califórnia (99,5 milhões de acres).
  • O uso de herbicidas no plantio direto industrial de milho e soja pode estar associado a 33% do uso anual total de agrotóxicos nos EUA — 129 milhões de um total de 386 milhões de kilos de agrotóxicos.
  • A maior parte do uso (61%) é de herbicidas classificados como altamente perigosos para a saúde humana e/ou o meio ambiente — 78,5 milhões de kilos.
  • Estima-se que o glifosato seja responsável por cerca de 40% do uso total de herbicidas em milho e soja de plantio direto.
  • Pelo menos 11,8 milhões de kilos de herbicidas adicionais são usados ​​anualmente devido ao manejo de plantio direto ou mínimo em milho e soja.
  • Pelo menos 89% dos hectares industriais de milho e soja com plantio direto ou mínimo dependem de sementes geneticamente modificadas para serem tolerantes a herbicidas.
  • Revestimentos de sementes neonicotinoides são usados ​​em até 100% da área de milho convencional sem plantio direto.
  • Insumos baseados em combustíveis fósseis para cultivo industrial de milho e soja com plantio direto ou mínimo, na forma de pesticidas e fertilizantes sintéticos, podem ser associados a ~49,3 milhões de toneladas métricas de emissões equivalentes de CO2.
  • A produção industrial sem plantio direto não aumenta o carbono do solo e, em alguns casos, pode reduzi-lo.

Fonte: Sustainable Pulse

O que aconteceria se a floresta amazônica secasse? Um experimento de décadas tem algumas respostas

What would happen if the Amazon rainforest dried out? This decades-long  experiment has some answers

Por Fabiano Maisonnave para a Associated Press

Floresta Nacional de Caxiuanã— A uma curta caminhada sob a densa cobertura vegetal da Amazônia, a floresta se abre abruptamente. Troncos caídos apodrecem, as árvores ficam mais esparsas e a temperatura sobe nos pontos onde a luz solar atinge o solo. É assim que se apresentam 24 anos de seca severa na maior floresta tropical do mundo.

Mas este pedaço de floresta degradada, do tamanho de um campo de futebol, é um experimento científico. Lançado em 2000 por cientistas brasileiros e britânicos, o Esecaflor — abreviação de “Projeto de Estudo da Seca Florestal” em português — propôs-se a simular um futuro em que as mudanças climáticas poderiam esgotar as chuvas na Amazônia. É o projeto do gênero mais antigo do mundo e se tornou fonte de dezenas de artigos acadêmicos em áreas que vão da meteorologia à ecologia e fisiologia.

Entender como a seca pode afetar a Amazônia, uma área duas vezes maior que a Índia e que abrange vários países da América do Sul, tem implicações que vão muito além da região. A floresta tropical armazena uma quantidade enorme de dióxido de carbono, um gás de efeito estufa que é o principal responsável pelas mudanças climáticas. De acordo com um estudo , a Amazônia armazena o equivalente a dois anos de emissões globais de carbono, provenientes principalmente da queima de carvão, petróleo e gasolina. Quando as árvores são cortadas ou murcham e morrem devido à seca, elas liberam na atmosfera o carbono que estavam armazenando, o que acelera o aquecimento global.

Criando condições de seca e observando os resultados

O pesquisador da Universidade de Exeter, Mateus Cardoso Silva, trabalha na floresta do projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

O pesquisador da Universidade de Exeter, Mateus Cardoso Silva, trabalha na floresta do projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

Para simular o estresse causado pela seca, o projeto, localizado na Floresta Nacional de Caxiuanã , instalou cerca de 6.000 painéis retangulares de plástico transparente em um hectare (2,5 acres), desviando cerca de 50% da chuva do solo da floresta. Eles foram instalados a 1 metro acima do solo (3,3 pés) nas laterais e a 4 metros (13,1 pés) acima do solo no centro. A água foi canalizada para calhas e canalizada através de valas cavadas ao redor do perímetro do terreno.

Ao lado, uma parcela idêntica foi deixada intocada para servir de controle. Em ambas as áreas, instrumentos foram fixados em árvores, colocados no solo e enterrados para medir a umidade do solo, a temperatura do ar, o crescimento das árvores, o fluxo de seiva e o desenvolvimento das raízes, entre outros dados. Duas torres metálicas ficam acima de cada parcela.

A cobertura esparsa de árvores é visível na área do projeto Esecaflor, criado para simular uma seca na Floresta Nacional de Caxiuana, no estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

A cobertura esparsa de árvores é visível na área do projeto Esecaflor, criado para simular uma seca na Floresta Nacional de Caxiuana, no estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

A densidade florestal natural é visível na área de controle do projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

A densidade florestal natural é visível na área de controle do projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

Em cada torre, radares da NASA medem a quantidade de água presente nas plantas, o que ajuda os pesquisadores a entender o estresse geral da floresta. Os dados são enviados ao Laboratório de Propulsão a Jato da agência espacial, na Califórnia, onde são processados.

“A floresta inicialmente parecia resistente à seca”, disse Lucy Rowland, professora de ecologia na Universidade de Exeter.

No entanto, isso começou a mudar cerca de 8 anos depois. “Observamos um declínio realmente grande na biomassa, grandes perdas e mortalidade das árvores maiores”, disse Rowland.

Isso resultou na perda de aproximadamente 40% do peso total da vegetação e do carbono armazenado nela. As principais descobertas foram detalhadas em um estudo publicado em maio na revista Nature Ecology & Evolution. O estudo mostra que, durante os anos de perda de vegetação, a floresta tropical passou de um sumidouro de carbono, ou seja, um armazenador de dióxido de carbono, a um emissor de carbono, antes de finalmente se estabilizar.

Houve uma boa notícia: a seca que durou décadas não transformou a floresta tropical em uma savana, ou grande planície gramada, como estudos anteriores baseados em modelos haviam previsto.

Os próximos passos incluem a medição da recuperação florestal

João de Athaydes, meteorologista, mostra parte dos painéis plásticos instalados para simular o estresse causado pela seca, no projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (AP Photo/Jorge Saenz)

João de Athaydes, meteorologista, mostra parte dos painéis plásticos instalados para simular o estresse causado pela seca, no projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (AP Photo/Jorge Saenz)

Em novembro, a maioria das 6.000 coberturas plásticas transparentes foi removida, e agora os cientistas estão observando como a floresta muda. Atualmente, não há uma data para o término do projeto.

“A floresta já se adaptou. Agora queremos entender o que acontece a seguir”, disse o meteorologista João de Athaydes, vice-coordenador do Esecaflor, professor da Universidade Federal do Pará e coautor do estudo da Nature. “A ideia é ver se a floresta consegue se regenerar e retornar ao estado inicial de quando iniciamos o projeto.”

Durante uma visita em abril, Athaydes guiou jornalistas da Associated Press pelo local, que abrigava muitos pesquisadores. A área era tão remota que a maioria dos pesquisadores havia enfrentado uma viagem de barco de um dia inteiro partindo da cidade de Belém, que sediará as próximas negociações climáticas anuais da ONU ainda este ano. Durante os dias em campo, os cientistas se hospedaram na Base Científica Ferreira Penna do Museu Emílio Goeldi, a algumas centenas de metros dos lotes.

O pesquisador João Paulo analisa a umidade das folhas de uma árvore como parte do projeto Esecaflor na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

O pesquisador João Paulo analisa a umidade das folhas de uma árvore como parte do projeto Esecaflor na Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

O pesquisador João Paulo analisa a umidade das folhas de uma árvore como parte do projeto Esecaflor na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

O pesquisador João Paulo analisa a umidade das folhas de uma árvore como parte do projeto Esecaflor na Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

Quatro equipes estavam trabalhando. Uma coletou amostras de solo para medir o crescimento das raízes na camada superior. Outra coletou dados meteorológicos e monitorou a temperatura e a umidade do solo. Uma terceira mediu a umidade da vegetação e o fluxo de seiva. A quarta se concentrou na fisiologia vegetal.

“Sabemos muito pouco sobre como a seca influencia os processos do solo”, disse a ecologista Rachel Selman, pesquisadora da Universidade de Edimburgo e uma das coautoras do estudo da Nature, durante um intervalo.

A simulação de seca da Esecaflor traça alguns paralelos com os últimos dois anos, quando grande parte da floresta amazônica, sob a influência do El Niño e o impacto das mudanças climáticas, sofreu seus períodos de seca mais severos já registrados. As consequências devastadoras variaram da morte de dezenas de botos devido ao aquecimento e ao recuo das águas a vastos incêndios florestais em áreas de vegetação nativa.

O pesquisador Ari Miranda Gomes coleta seiva de uma árvore no projeto Esecaflor, onde cientistas simulam a seca para entender como a floresta tropical pode responder a um futuro mais seco, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

O pesquisador Ari Miranda Gomes coleta seiva de uma árvore no projeto Esecaflor, onde cientistas simulam a seca para entender como a floresta tropical pode responder a um futuro mais seco, na Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

Rowland explicou que o recente El Niño trouxe impactos intensos e de curto prazo para a Amazônia, não apenas pela redução das chuvas, mas também por picos de temperatura e déficit de pressão de vapor, uma medida do quão seco o ar está. Em contraste, o experimento Esecaflor se concentrou apenas na manipulação da umidade do solo para estudar os efeitos de mudanças de longo prazo na precipitação.

“Mas, em ambos os casos, estamos vendo uma perda da capacidade da floresta de absorver carbono”, disse ela. “Em vez disso, o carbono está sendo liberado de volta para a atmosfera, juntamente com a perda da cobertura florestal.”

Ambientalistas caminham pela Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, perto do projeto Esecaflor, onde cientistas simulam a seca para entender como a floresta tropical pode responder a um futuro mais seco no sábado, 22 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

Ambientalistas caminham pela Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, perto do projeto Esecaflor, onde cientistas simulam a seca para entender como a floresta tropical pode responder a um futuro mais seco no sábado, 22 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)


Fonte: Associated Press

Alerta a Wladimir Garotinho: eucalipto adora água e gera desertos verdes

Mudanças na esfera familiar: notas sobre eucalipto e mulheres em Mato  Grosso do Sul | Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Das duas uma: ou o prefeito Wladimir Garotinho está mal informado sobre as consequências nefastas da monocultura de eucalipto ou ele não se importa.  Mas independente da resposta, eu precisa levar em conta que não para combinar o discurso de que é preciso reclassificar o clima regional para “sem-árido” e ficar apoiando em público a transformação de parte do território campista em um deserto verde.  A conta simplesmente não fecha. 

Por outro lado, já me chegaram notícias do aumento de casos de intoxicação por contato com agrotóxicos na região próxima do Distrito de Travessão onde estão sendo implantados alguns desses empreendimentos de monoculturas de árvores.  

Esse aumento de casos, principalmente de trabalhadores rurais que manejam equipamentos que aplicam agrotóxicos nos plantios de eucalipto, será seguido pelo aumento de casos por ingestão crônica de agrotóxicos, visto que parte dos venenos utilizados nos plantios em grande escala de árvores migra rapidamente para os corpos aquáticos.

Por outro lado, conflitos sociais têm aparecido nas novas fronteiras do deserto verde que estão aparecendo no Brasil, visto que há um deslocamento inevitável de comunidades que ocorre na medida em que os plantios de eucalipto avançam no território.

Assim, se o prefeito Wladimir Garotinho considera uma boa transformar parte de município em um deserto verde e com grande potencial de contaminação, há que se dizer que essa é uma péssima ideia.  Assim, nem tudo o que “acontece” é desejável ou necessário.

Finalmente, acho interessante que se prepare melhor as unidades hospitalares existentes no município para que identifique e trate os contaminados pelo trabalho nos eucaliptais. 

El País mostra resistência de agricultores familiares aos impactos socioambientais do Porto do Açu

O Sr. Walter e sua neta Kevem no Acampamento de Resistência contra o megaprojeto do porto do Açu, no Brasil.

A infraestrutura, em operação desde 2014, afeta agricultores e pescadores artesanais da região, que foram deslocados para sua construção. Também levou à redução das áreas de pesca, ao aumento da erosão e à destruição dos ecossistemas costeiros.

Por Pablo Vergara de São João da Barra (Brasil) para o El País

Os chamados “Povos da Areia”, que por 150 anos habitaram a Restinga, um ecossistema costeiro com características arenosas e salinas no litoral leste do Brasil, praticam uma agricultura enraizada em conhecimentos ancestrais com técnicas agrícolas adaptadas aos solos arenosos. É um modo de vida ameaçado pela expansão do Porto do Açu, maior complexo portuário e industrial privado da América Latina, localizado ao norte do Rio de Janeiro, no município de São João da Barra. Na fotografia, tirada em dezembro de 2024, uma casa no Bairro V de Água Preta, em São João da Barra. Pablo Vergara

Os impactos sociais e ambientais da construção do porto do Açu afetaram severamente os agricultores e pescadores artesanais da região. Mais de 400 agricultores foram expropriados diretamente sem indenização justa, conforme documentado por vários veículos de comunicação brasileiros nos últimos anos, levando à violência e agitação social. A Defensoria Pública informa que apenas 10% dos afetados receberam indenização. O processo está em litígio desde 2010, quando as desapropriações começaram. Este jornal entrou em contato com a assessoria de imprensa da PRUMO Logística, empresa que coordena as operações no porto do Açu, mas não obteve resposta. Nesta imagem, tirada em dezembro de 2024, Sadir Toledo Almeida, 102, e sua filha Leia, 63, de Água Preta, São João da Barra, que sofreram os impactos do megaporto. Pablo Vergara 

Retrato de família da família Toledo-Almeida, moradores do bairro Água Preta V, em São João da Barra, em imagem de setembro de 2023. Esta família foi expropriada de suas terras depois que o porto foi construído e colocado em operação. O deslocamento forçado teve consequências graves, arrancando-os de suas terras, plantações e herança cultural.

Retrato de família da família Toledo-Almeida, moradores do bairro Água Preta V, em São João da Barra, em imagem de setembro de 2023. Esta família foi expropriada de suas terras depois que o porto foi construído e colocado em operação. O deslocamento forçado teve consequências graves, arrancando-os de suas terras, plantações e herança cultural. Pablo Vergara


Fonte: El País

Vozes Silenciadas – Energias Renováveis: como a mídia encobre as injustiças sociais na transição energética

Por Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social

2023 foi o ano mais quente da história do planeta, segundo dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM). No Brasil, a média das temperaturas do ano ficou em 24,92°C, ou seja, 0,69°C acima da média histórica de 1991-2020, que é de 24,23°C.[1] A chamada crise climática é estruturada e acelerada por um modelo socioeconômico capitalista, baseado no racismo ambiental, na apropriação privada, na mercantilização e na exploração desmedida da água, do solo e dos demais bens comuns. Suas raízes históricas remontam ao colonialismo e às relações de poder e opressão do Norte sobre o Sul Global.

Baixe aqui a publicação.

Fato é que, nos últimos anos, o tema tomou conta da agenda da população brasileira, sendo assunto constante nas redes sociais, na mídia tradicional e na vida cotidiana. Seja em decorrência de eventos ambientais adversos e trágicos, como secas, enchentes e queimadas, seja por força de declarações de figuras públicas, expressões e categorias como “crise climática”, “energias verdes”, “energias renováveis” e “transição energética” circulam cada vez mais no debate público.

Nesse contexto, o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, a partir do diálogo com movimentos sociais, pesquisadoras/es, ativistas e grupos diretamente impactados pelos conflitos decorrentes dessa conjuntura – dentre eles pescadoras/es, agricultoras/es e Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs) – se lançou ao desafio de analisar a cobertura de veículos jornalísticos da mídia com alcance nacional e local acerca dos empreendimentos em solo brasileiro vinculados às ditas “energias limpas”.

A pesquisa faz parte da série Vozes Silenciadas, em que o Intervozes analisa a cobertura da mídia sobre temas que impactam os direitos da população brasileira. Este é o sétimo volume da série, que já tematizou: a criminalização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em 2011; as jornadas de manifestações de junho de 2013; a reforma da previdência do governo Bolsonaro (2019); a tragédia provocada pelo crime de derramamento de petróleo na costa brasileira (2020); os direitos sexuais e reprodutivos, com foco no aborto (2023); e as leis de cotas para acesso ao ensino superior no país (2024). Todos os volumes da série estão disponíveis gratuitamente no site do Intervozes.[2]

Próximo de sediar a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 30), em 2025, e assumindo compromissos internacionais e um papel estratégico na economia global como sede do G20, o Brasil vem se colocando como protagonista na chamada transição energética, imprimindo ritmo acelerado à implantação de megaprojetos de energia renovável e lançando as bases de políticas de compromisso que alegam enfrentar a chamada crise climática.

Tais políticas, entretanto, têm se mostrado insuficientes no enfrentamento das raízes profundas de um cenário de injustiça socioambiental marcante, atuando mais como esforços retóricos e sinalização ao mercado (numa estratégia de greenwashing) do que, propriamente, apresentando soluções justas, eficazes e que respeitem os biomas e a autonomia dos povos sobre seus territórios.

Nós, do Intervozes, esperamos que este olhar sobre como as mídias corporativa e pública têm se colocado no debate como ator estratégico que é, ajude no fortalecimento da luta de quem, a partir dos territórios, nos presta valiosas lições de como habitar muitos mundos em coerência e em defesa da biodiversidade e do bem viver.

Que esta pesquisa alimente discussões e buscas de soluções a partir de perspectivas diversas e críticas, fortalecendo as lutas no Brasil, na América Latina e mundo afora, ajudando a transformar as angústias necessárias em férteis esperançares.

Boa leitura!

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Fonte: Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social

Eventos extremos como inundação no rio Juruá se tornam 2,5 vezes mais prováveis com mudanças climáticas

Inundação do Rio Juruá em 2021 afetou mais de 43 mil pessoas, e as perdas econômicas foram estimadas em 16,7 milhões de dólares. Foto: Marcos Vicentti/Secom / Agência de Notícias do Acre

Eventos extremos como as inundações de 2021 na bacia do rio Juruá, no Oeste da Amazônia, se tornam 2,5 vezes mais prováveis devido às mudanças climáticas na comparação com um cenário sem interferência humana. A constatação é de artigo da parceria de Ciência para Serviços Climáticos Brasil (CSSP-Brasil), que envolve cientistas de instituições nacionais, como o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e estrangeiras, como a Universidade de Viena (Áustria) e a Universidade de Oxford (Reino Unido). O estudo foi publicado na revista científica International Journal of Disaster Risk Reduction nesta quinta (29).

O trabalho constatou, ainda, que as ações humanas aumentaram os riscos associados ao evento. 61% da probabilidade total de ocorrência da inundação de 2021 pode ser atribuída diretamente às mudanças climáticas — levando um evento que naturalmente se repetiria em 107 anos a acontecer em 42 anos. Na ocasião, mais de 43 mil pessoas sofreram impactos diretos, e as perdas econômicas foram estimadas em 16,7 milhões de dólares – sendo que 10 milhões podem ser atribuídos às mudanças climáticas, segundo o artigo.

Para avaliar o impacto ambiental, os pesquisadores utilizaram dados do Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos, do Instituto Nacional de Meteorologia, do Cemaden e do conjunto de dados Climate Hazards Group InfraRed Precipitation with Station data (CHIRPS), que mapeia a precipitação ao longo do tempo com base em informações de satélites e de pluviômetros. Para a estimativa do impacto socioeconômico, os cientistas usaram dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, plataforma do Sistema Nacional e Proteção e Defesa Civil que reúne informações sobre riscos e desastres nos municípios brasileiros.

No caso das inundações do rio Juruá – que atravessa os estados do Acre e do Amazonas – , a precipitação entre os meses de dezembro de 2020 a março de 2021 foi 48% maior do que a média para o período. As cheias também afetaram 25 km² de área urbana e 1.150 km² de áreas de pastagem, prejudicando a mobilidade da população afetada e contaminando solos agrícolas utilizados para subsistência.

Porém, os dados subestimam o real impacto, como destaca a coautora Renata Pacheco Quevedo: “Ao considerar a realidade brasileira, principalmente de uma região de extrema relevância estratégica e ambiental como a Amazônia, o estudo evidenciou gargalos relacionados à coleta, padronização e integração dos dados sobre impactos”. As lacunas limitam a compreensão completa dos danos causados, como gastos relacionados a hospitalizações e tratamentos de condições como ansiedade e depressão. “Esses gastos não previstos acabam afetando todo o sistema de saúde; portanto, considerar impactos socioeconômicos a longo prazo ajuda a garantir respostas mais eficazes e medidas preventivas mais precisas”, avalia a autora.

Mesmo com a abordagem mais conservadora, a magnitude das consequências surpreendeu os cientistas — especialmente devido aos impactos severos sobre 22 municípios cobertos parcialmente ou totalmente pela bacia, incluindo comunidades ribeirinhas altamente dependentes das dinâmicas de água para suas atividades econômicas. “Os resultados nos fizeram refletir sobre a urgência de aproximar a ciência da tomada de decisões políticas, independentemente de ideologias, partidos ou religiões. Sem uma ação coordenada e baseada em evidências, esses impactos continuarão a ser socializados, contribuindo para o empobrecimento do país como um todo”, concluem as autoras Renata Quevedo e Liana Anderson.


Fonte: Agência Bori

Projeto Rede Soa Sirene lança documentário e podcast com participação de comunidades vulneráveis à mineração

Moradores de Tejuco, Marinhos e Ribeirão, em Brumadinho (MG), compartilham suas vivências em produções inéditas de comunicação popular

Já estão no ar o curta Escuta Pra Cê Vê e dois episódios de podcast produzidos por moradores dos territórios de Tejuco, Marinhos e Ribeirão, em Brumadinho (MG). As obras foram criadas a partir de vivências coletivas promovidas pelo projeto Rede Soa Sirene: Comunicação Popular em Comunidades Vulneráveis à Mineração, realizado com recursos do Convênio nº 930113/2022, oriundo da Emenda nº 39160013, disponibilizada pela deputada federal Áurea Carolina.

Com foco na escuta, na memória e na valorização das identidades locais, o projeto promoveu oficinas de formação em podcast com crianças, adolescentes, jovens e adultos das comunidades. Durante os encontros, os participantes vivenciaram práticas de captação sonora, entrevistas e construção de roteiros, partindo de temas levantados coletivamente. O resultado são produções que ampliam vozes, fortalecem vínculos comunitários e reforçam a potência da comunicação popular.

“O Projeto Rede Soa Sirene é fundamental porque fortalece o direito à comunicação em territórios historicamente silenciados, oferecendo ferramentas para que moradores de comunidades vulneráveis à mineração possam contar suas próprias histórias, do seu jeito, com sua voz. Mais do que ensinar técnicas de gravação ou edição, o projeto promove escuta, pertencimento e autonomia, mostrando que comunicar também é uma forma de existir, resistir e transformar realidades.”, comenta Thamira Bastos, coordenadora geral do Projeto. 

“Escuta Pra Cê Vê”: um filme para sentir com os ouvidos

O curta-metragem Escuta Pra Cê Vê convida o público a uma experiência sensorial que desloca o olhar e privilegia a escuta. Com ambientação sonora detalhada, o documentário conduz a narrativa por meio de sons do cotidiano — conversas, risos, passos e ruídos urbanos — provocando o espectador a imaginar as cenas com base no que ouve.

Mais do que uma proposta artística, o filme é um gesto de inclusão. Ao priorizar o som, torna-se acessível a pessoas com deficiência visual e propõe a todos uma nova forma de se relacionar com o audiovisual. As vozes dos moradores ganham protagonismo e revelam histórias, afetos e memórias que muitas vezes não encontram espaço nas mídias tradicionais.

Também é possível encontrar as versões com acessibilidade no canal do Coletivo (Canal Coletivo MICA)

Podcast e oficinas: criar, escutar e comunicar

As oficinas de podcast realizadas nas duas comunidades foram espaços de encontro e criação coletiva. Com participação ativa de moradores de diversas faixas etárias, as atividades incentivaram o uso da comunicação como ferramenta de expressão, autonomia e resistência. Os participantes experimentaram diferentes linguagens sonoras e criaram conteúdos a partir de suas próprias vivências, fortalecendo o sentimento de pertencimento e a construção de narrativas locais.

Como parte do projeto, foi elaborada uma apostila com orientações práticas para a criação e divulgação de podcasts em plataformas digitais. O material foi distribuído em versão impressa durante as oficinas e agora também está disponível online (acesse aqui), ampliando o acesso à metodologia e incentivando novas iniciativas comunitárias.

Os episódios do podcast estão disponíveis gratuitamente no Spotify: https://open.spotify.com/show/2Cqf7KJzKIfnj6vx8pXnd6 

Sobre o Coletivo MICA

Desde 2015, o Coletivo MICA atua com foco na educação social, comunicação popular e valorização de identidades e culturas. Seu principal objetivo é contribuir para a emancipação humana por meio de ações ligadas à arte, à cultura e à comunicação social. Entre suas frentes de atuação, destacam-se o fomento a valores identitários e culturais — incluindo o patrimônio histórico, artístico, material e imaterial — e a consolidação da cidadania, dos direitos humanos e da democracia.

Ao longo desses anos, o MICA tem promovido iniciativas em comunidades periféricas de Minas Gerais, com ênfase na defesa do Direito à Comunicação, um direito humano fundamental historicamente negado a grande parte da população. A proposta do coletivo é abrir espaços de escuta e criação para pessoas que, muitas vezes, têm suas vozes silenciadas por fatores como idade, crença, cor, gênero ou classe social. Ao incentivar a produção de conteúdo a partir das próprias vivências, o MICA reafirma a potência da comunicação popular como ferramenta de expressão, transformação e pertencimento.

Em 2024, o grupo desenvolveu mais uma importante iniciativa: o projeto Rede Soa Sirene: Comunicação Popular em Comunidades Vulneráveis à Mineração, realizado no âmbito do Termo de Fomento nº 930113/2022. Nesta edição, o projeto chegou aos territórios de Tejuco e Marinhos, em Brumadinho (MG), onde foram realizadas duas oficinas de podcast voltadas para crianças, adolescentes, jovens e adultos moradores das comunidades. Os encontros propuseram vivências práticas com experimentações sonoras, entrevistas e gravações feitas pelos próprios participantes, a partir de temas e reflexões construídos coletivamente.

Agrotóxicos, antibióticos, medicamentos para animais: o coquetel químico que está vazando nos rios do Reino Unido

Um estudo dos rios de Yorkshire está ajudando os cientistas a entender o impacto que os poluentes diários têm nas vias navegáveis ​​– e os resultados são preocupantes

Um homem agachado na margem de um rio que corre por uma área arborizada.

O professor Alistair Boxall, às margens do Rio Foss. Ele lidera a pesquisa sobre os efeitos de produtos químicos nos rios de Yorkshire.

Por Phoebe Weston para o “The Guardian”

Os rios transportam mais do que apenas água pelas paisagens britânicas. Um coquetel oculto de substâncias químicas vaza das terras agrícolas, passa despercebido pelas estações de tratamento de esgoto e escoa das estradas para os rios do país. Normalmente, essas substâncias químicas fluem por ecossistemas não reportados, reestruturando-os silenciosamente, mas agora, cientistas britânicos estão mapeando o que está lá dentro – e os danos que pode estar causando.

Percorrendo o centro da Grã-Bretanha, há um rio cuja composição química os cientistas conhecem melhor do que qualquer outro. O Foss serpenteia pelas plantações florestais de North Yorkshire, terras aráveis ​​fragmentadas e pequenos vilarejos, antes de descer para a cidade de York , passando por estradas e estacionamentos, e jardins substituindo terras agrícolas. Ao longo de seus 32 km de extensão, as impressões digitais químicas da vida moderna se acumulam. 

Um homem está em um laboratório segurando um frasco de vidro marrom com uma tampa branca.

O professor Alistair Boxall em seu laboratório na Universidade de York, onde analisa amostras de água do Rio Foss da cidade.

“O Foss é o rio que mais compreendemos”, afirma o professor Alistair Boxall, da Universidade de York, que lidera a pesquisa nos rios de Yorkshire. Ele lidera o projeto de pesquisa Ecomix , que estuda 10 rios da região, desenvolvendo maneiras de examinar esses produtos químicos com mais profundidade do que nunca. “Este é o pulso químico da água de Yorkshire”, afirma, e as descobertas com a água daqui provavelmente serão replicadas em todo o país. “As pessoas ficam surpresas. Geralmente pensam em plásticos e esgoto. As pessoas não fazem a conexão entre os produtos químicos que usamos e o meio ambiente.”

A história que esses rios contam é preocupante, diz Boxall. Entre os milhares de produtos químicos detectados estava o aditivo para pneus 6PPD-quinona, que tem sido associado à mortandade em massa de salmões nos EUA. Em áreas urbanas de Sheffield, Leeds e Wakefield, ele foi encontrado em cerca de três quartos das amostras. Fungicidas e herbicidas estavam entre os produtos químicos mais detectados.

Cerca de 500 agrotóxicos – incluindo inseticidas, fungicidas e herbicidas – estão aprovados para uso na Europa, e 600 receberam sinal verde para uso veterinário em gado e animais de estimação. Pesquisas mostram que os níveis de anti-histamínicos na água aumentam quando a rinite alérgica está grave – um dos muitos fármacos que acabam nos rios após serem jogados no vaso sanitário.

O monitoramento do Foss começou em Stillington Mill, no quintal de um antigo diretor de escola. Ele é um dos voluntários que tornaram esta pesquisa possível – seja coletando amostras ou permitindo que o monitoramento fosse feito em suas terras. 

Um riacho corre até uma ponte perto da qual é possível ver uma casa e um carro amarelo.

A pesquisa foi possível graças a voluntários que coletaram amostras ou permitiram o monitoramento em suas terras.

Este local fica a cerca de 16 quilômetros da nascente do Foss. Campos de trigo e colza se estendem até a água, vindos do outro lado do rio. Três mil substâncias químicas foram detectadas aqui (das quais 40% provavelmente ocorrem naturalmente). Na análise direcionada, os cientistas identificaram 40 substâncias químicas, incluindo medicamentos para gado, produtos farmacêuticos, filtros UV, fungicidas e herbicidas.

No total, eles procuraram 52 produtos químicos (excluindo metais) e encontraram 44 nos três locais de amostragem no Foss. Eles escolheram se concentrar nesses produtos químicos porque são conhecidos por sua toxicidade e potencial dano aos organismos aquáticos.

Ao chegar ao centro da cidade de York – a cerca de 16 quilômetros de distância –, 1.000 produtos químicos adicionais foram adicionados ao rio, incluindo produtos químicos domésticos, como antibióticos e cosméticos, à medida que o rio passa das áreas agrícolas para vilas e cidades. Nos arredores de York, em New Earswick, Boxall documentou o segundo nível mais alto de paracetamol na água já medido na Europa, após uma falha no sistema de esgoto. O nível era 1.000 vezes maior que o normal. 

Um rio banhado pelo sol passa por prédios e por baixo de uma ponte.

Quando o Foss chega ao centro da cidade de York, na foto, 4.000 produtos químicos foram adicionados à sua água.

No laboratório

No laboratório de Boxall, um conjunto de criaturas que ele chama de “pequenos bichinhos” vive em aquários – uma pequena coleção de animais que inclui mexilhões-pato, mexilhões-cisne, caracóis-carneiros, vermes-de-sangue e sanguessugas, coletados nos lagos ao redor do campus. Essas são espécies comumente encontradas em rios do Reino Unido. Doze culturas de cianobactérias – algas verde-azuladas – são sifonadas, cada uma com um tom de verde ligeiramente diferente. “As algas são a base da cadeia alimentar”, diz ele. Aqui, os invertebrados e as algas são expostos a diferentes substâncias químicas, e os cientistas monitoram os efeitos.

Este é o outro foco da pesquisa da Ecomix : trabalhar para entender os efeitos que os produtos químicos estão tendo na ecologia dos rios britânicos. Uma em cada 10 espécies de água doce e de zonas úmidas na Inglaterra está ameaçada de extinção. Boxall acredita que a poluição química pode ser tão prejudicial para os ecossistemas fluviais quanto os vazamentos de esgoto, que frequentemente aparecem nas manchetes.

Amostras de garrafas com água verde e amarela.

O estudo resultou na coleta de 20.000 amostras de 19 locais.

Pesquisadores descobriram que a poluição química faz uma contribuição “significativa” para o declínio de peixes e outros organismos aquáticos, algo que muitas vezes passa despercebido pelos reguladores.

Mais de 350.000 produtos químicos estão registrados para produção e uso, com cerca de 2.000 novos adicionados a cada ano. Eles provavelmente estão tendo uma série de efeitos negativos desconhecidos na ecologia de nossos rios – alterando o comportamento e a fisiologia dos organismos. Os produtos químicos demonstraram ter um impacto diverso nos peixes, incluindo sua reprodução, interações sociais e comportamento alimentar. Estudos sugerem que o ibuprofeno pode afetar a eclosão dos peixes , o anti-inflamatório diclofenaco afeta o fígado dos peixes e os antidepressivos têm sido associados a uma série de mudanças comportamentais Salmões expostos a medicamentos ansiolíticos demonstraram correr mais riscos, e alguns tratamentos contra pulgas, como o imidacloprido, são tóxicos para invertebrados como efêmeras e libélulas.

“Você tem efetivamente uma situação em que alguns produtos químicos estão atingindo a base da cadeia alimentar, outros estão atingindo os invertebrados e outros produtos químicos estão atingindo os peixes”, diz Boxall.

O estudo da Ecomix é muito mais abrangente do que a modelagem química da Agência Ambiental, que se concentra principalmente em “amostras aleatórias” ou, na melhor das hipóteses, em monitoramento mensal. O estudo da Boxall analisou 19 locais em 10 rios ao longo de um ano de monitoramento contínuo, durante o qual 20.000 amostras foram coletadas.

Um homem está em um laboratório segurando um frasco de amostra.

O estudo Ecomix da Boxall monitorou 10 rios ao longo de um ano.

“A Agência Ambiental não tem recursos suficientes para lidar com essa questão”, disse Rob Collins, do Rivers Trust, que não participou da pesquisa. Ele acrescentou que o controle desses produtos químicos na fonte era fundamental: “Enfrentar esse problema é um desafio social – todos nós estamos envolvidos. Também precisamos de uma regulamentação governamental muito mais rigorosa com produtos químicos mais perigosos.”

“Uma vez que esses produtos químicos entram no meio ambiente, é muito difícil fazer qualquer coisa a respeito. Por exemplo, os Pfas – conhecidos como ‘produtos químicos eternos’ – podem persistir no meio ambiente por mais de 1.000 anos.”

Cientistas cidadãos

Richard Hunt foi um dos doze cientistas cidadãos que tornaram esta pesquisa possível. Os resultados foram “preocupantes”, disse Hunt, que coletou uma amostra semanal no centro de York. O local onde ele estava foi um dos que apresentou o maior nível de produtos químicos – como esperado em uma área urbana. Filtros UV, retardantes de chama, vermífugos, DEET e cocaína estavam entre os elementos presentes na água. “Fiquei pasmo com a quantidade de produtos químicos”, diz Hunt. “Se as pessoas fossem instruídas sobre como poderiam ajudar, elas ajudariam.”

O Santo Graal para lidar com a poluição química é um sistema de monitoramento constante, com relatórios em tempo real, diz Boxall. Ter atualizações em tempo real alertaria as autoridades sobre possíveis problemas de poluição, permitindo que respondessem mais rapidamente, embora a equipe da Agência Ambiental tenha sido instruída a ignorar eventos de poluição de baixo impacto, pois o órgão não dispõe de recursos para investigar.

Um homem agachado ao lado de um rio com uma ponte e edifícios ao fundo. Richard Hunt coleta amostras de água do Foss no Merchant Adventurers’ Hall, no centro de York. As amostras são então analisadas na Universidade de York.

“Os produtos químicos são importantes para a sociedade”, diz Boxall. “Nós nos beneficiamos deles, mas precisamos reduzir seus danos ambientais.”

Hunt ressalta que a riqueza de sua cidade vinha de seus dois rios – o Ouse e seu afluente, o Foss. Entender quais produtos químicos fluem por eles e descobrir o que podemos fazer para limpá-los seria pagar uma dívida de gratidão. “York não seria tão saudável e próspera se não fossem os rios. Precisamos ter mais respeito por eles.”


Fonte: The Guardian

Sangue, suor e agrotóxicos: relatório no Reino Unido aponta presença de agrotóxicos em produtos menstruais

Por Pesticide Action Network UK 

Agrotóxicos em produtos menstruais

Produtos menstruais podem conter agrotóxicos e outras substâncias nocivas, como metais pesados ​​e PFAS (substâncias químicas permanentes). Metade da população mundial menstrua, com mulheres, meninas usando, em média, 11.000 produtos menstruais descartáveis ​​ao longo da vida. Apesar do uso prolífico desses produtos, os potenciais impactos à saúde dos produtos químicos que eles podem conter permanecem em grande parte desconhecidos.

O Reino Unido carece de uma estrutura regulatória robusta para garantir que os produtos menstruais sejam seguros para uso. Como isso afeta os consumidores e os produtores de algodão em todo o mundo, visto que o algodão é um ingrediente principal tanto em produtos menstruais descartáveis ​​(DUOs) de uso único quanto em reutilizáveis?

Nosso relatório Sangue, Suor e Agrotóxicos , publicado em colaboração com a Wen (Rede Ambiental de Mulheres), analisa mais detalhadamente os produtos químicos tóxicos presentes em produtos menstruais.

Testando absorventes internos do Reino Unido

Em 2024, realizamos nossos próprios testes em caixas de absorventes internos de lojas e supermercados do Reino Unido. Testamos apenas 15 caixas de absorventes internos de lojas e supermercados do Reino Unido para detectar traços de agrotóxicos. Apesar dos testes em uma escala muito pequena, encontramos glifosato em absorventes internos contidos em uma das caixas em níveis 40 vezes maiores do que o permitido na água potável. O glifosato é o herbicida mais usado no mundo. Em 2015, a Organização Mundial da Saúde (OMS) o declarou um “provável carcinógeno”, o que significa que está ligado ao câncer. Há também evidências crescentes que conectam o glifosato a outras condições graves de saúde, como o Parkinson .

Dada a preocupação global com o impacto do glifosato na saúde humana, encontrá-lo em absorventes internos é particularmente alarmante. Ao contrário da ingestão por meio de alimentos ou água, os produtos químicos absorvidos pela vagina entram diretamente na corrente sanguínea, ignorando os sistemas de desintoxicação do corpo e, portanto, representando um risco significativo à saúde.

Uma amostra de tampões continha glifosato em 40 vezes o nível permitido na água potável

Outros produtos químicos em produtos menstruais

Embora relativamente pouca pesquisa tenha sido realizada, estudos anteriores demonstraram que produtos menstruais também podem conter uma variedade de outros produtos químicos. Entre eles, estão ftalatos, dioxinas, compostos orgânicos voláteis (COVs), substâncias perfluoroalquílicas e polifluoroalquílicas (conhecidas como “PFAS” ou “produtos químicos eternos”) e metais pesados, como chumbo e arsênio. Esses produtos químicos têm sido associados ao aumento do risco de doenças reprodutivas e hormonais, como endometriose, infertilidade e câncer.

O que precisa mudar?

O Governo do Reino Unido deve introduzir uma regulamentação rigorosa para produtos menstruais, com um sistema de testes em vigor para garantir que estejam livres de resíduos químicos. O Governo deve exigir que os fabricantes divulguem todos os ingredientes e aditivos presentes em produtos menstruais para que as consumidoras possam tomar decisões informadas.

Considerando que os jovens são particularmente vulneráveis ​​aos impactos dos produtos químicos na saúde, o relatório também pede que o programa gratuito de produtos menstruais do governo do Reino Unido nas escolas troque imediatamente a distribuição de absorventes internos e externos tradicionais por seus equivalentes orgânicos e reutilizáveis ​​sustentáveis, como calcinhas menstruais e coletores vaginais.

As questões relacionadas à menstruação não podem ser abordadas isoladamente: é por isso que nos juntamos a Wen em seu apelo por uma Lei de Saúde Menstrual, Dignidade e Sustentabilidade para enfrentar os desafios ambientais, sociais e de saúde relacionados ao acesso e à segurança dos produtos menstruais.

A cadeia de abastecimento do algodão

Muitos produtos menstruais, como absorventes internos e externos, começam sua vida como uma planta de algodão. A maior parte do algodão do mundo é cultivada em fazendas convencionais (com apenas cerca de 1% do algodão global sendo cultivado organicamente) e é frequentemente chamada de “a cultura mais suja” do mundo .

Aproximadamente 300 pesticidas são utilizados na produção de algodão em todo o mundo, sendo cerca de um terço deles classificados como Agrotóxicos Altamente Perigosos (PAPs) , incluindo o glifosato. Os PAPs podem ter impactos prejudiciais à saúde humana. Embora alguns sejam extremamente tóxicos, ameaçando a saúde de quem os utiliza, outros têm sido associados ao desenvolvimento de doenças crônicas, como o câncer. Muitos dos PAPs utilizados na produção de algodão representam um grande risco ao meio ambiente, prejudicando polinizadores e outros animais selvagens ou contaminando a água e o solo em regiões onde o algodão é cultivado.

Os produtores de algodão estão sendo expostos a agrotóxicos em níveis preocupantes. Os agricultores do hemisfério sul, em particular, frequentemente trabalham em ambientes com pouco ou nenhum equipamento de proteção. Muitas produtoras de algodão são mulheres, que enfrentam os riscos à saúde de trabalhar com pesticidas tanto na fazenda quanto em casa diariamente.

Tomar medidas para eliminar agrotóxicos e outros produtos químicos nocivos dos produtos menstruais seria uma grande vitória. Não apenas para nós que dependemos desses produtos, mas também para as comunidades e o ambiente natural onde o algodão é produzido.


Fonte: Pesticide Action Network UK

Cientistas alertam que temperaturas globais podem quebrar recorde de calor nos próximos cinco anos

Os dados também mostram uma probabilidade pequena, mas “chocante”, de um ano 2°C mais quente do que a era pré-industrial antes de 2030

Um reservatório afetado pela seca nos arredores de Sanaa, Iêmen.

O aumento das temperaturas aumentará o risco de secas extremas como a que atualmente afeta o Iêmen. Fotografia: Yahya Arhab/EPA

Por Jonathan Watts para o “The Guardian”

Há 80% de chance de que as temperaturas globais quebrem pelo menos um recorde anual de calor nos próximos cinco anos, aumentando o risco de secas extremas, inundações e incêndios florestais, mostrou um novo relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) .

Pela primeira vez, os dados também indicaram uma pequena probabilidade de que, antes de 2030, o mundo possa vivenciar um ano 2°C mais quente do que a era pré-industrial, uma possibilidade que os cientistas descreveram como “chocante”.

Após os 10 anos mais quentes já registrados, a mais recente atualização climática global de médio prazo destaca a crescente ameaça à saúde humana, às economias nacionais e às paisagens naturais, a menos que as pessoas parem de queimar petróleo, gás, carvão e árvores.

A atualização, que sintetiza observações meteorológicas de curto prazo e projeções climáticas de longo prazo, disse que há 70% de chance de que o aquecimento médio de cinco anos para 2025-2029 seja mais de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.

Isso colocaria o mundo perigosamente perto de quebrar a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris, um tratado internacional sobre mudanças climáticas, embora essa meta seja baseada em uma média de 20 anos.

O relatório também relatou uma probabilidade de 86% de que 1,5°C seria ultrapassado em pelo menos um dos próximos cinco anos, acima dos 40% do relatório de 2020.

Em 2024, o limite de 1,5°C foi ultrapassado anualmente pela primeira vez — um resultado considerado implausível em qualquer uma das previsões quinquenais anteriores a 2014. O ano passado foi o mais quente no registro observacional de 175 anos.

Ressaltando o quão rápido o mundo está se aquecendo, até mesmo 2°C está aparecendo como uma possibilidade estatística na última atualização, que foi compilada por 220 membros do conjunto a partir de modelos contribuídos por 15 institutos diferentes, incluindo o Met Office do Reino Unido, o Barcelona Supercomputing Centre, o Canadian Centre for Climate Modelling and Analysis e o Deutscher Wetterdienst.

A probabilidade de 2°C antes de 2030 é pequena — cerca de 1% — e exigiria uma convergência de vários fatores de aquecimento, como um forte El Niño e uma Oscilação Ártica positiva, mas anteriormente era considerada impossível em um período de cinco anos.

“É chocante que 2°C seja plausível”, disse Adam Scaife, do Met Office, que desempenhou um papel fundamental na compilação dos dados. “A previsão é de apenas 1% nos próximos cinco anos, mas a probabilidade aumentará à medida que o clima esquentar.”

Os impactos não serão distribuídos igualmente. Prevê-se que os invernos árticos esquentem 3,5 vezes mais rápido do que a média global, em parte devido ao derretimento do gelo marinho, o que significa que a neve cai diretamente no oceano em vez de formar uma camada na superfície para refletir o calor do sol de volta para o espaço. Prevê-se que a floresta amazônica sofrerá mais secas, enquanto o sul da Ásia, o Sahel e o norte da Europa, incluindo o Reino Unido, verão mais chuvas.

Leon Hermanson, do Met Office, que liderou a produção do relatório, disse que 2025 provavelmente será um dos três anos mais quentes já registrados.

Chris Hewitt, diretor de serviços climáticos da OMM, descreveu um “quadro preocupante” para as ondas de calor e a saúde humana. No entanto, ele afirmou que ainda não é tarde demais para limitar o aquecimento se as emissões de combustíveis fósseis forem reduzidas.

“Precisamos tomar medidas climáticas”, disse ele. “1,5°C não é inevitável.”


Fonte: The Guardian