A filantropia como negócio ou, melhor, a pilantropia como a arte de tirar de quem já nada tem

Por Douglas Barreto da Mata

Desde que o mundo é mundo existem pessoas dedicadas à execução de golpes, usando como “isca” para atrair suas vítimas o falso exercício de algum tipo de caridade ou filantropia.  Com o advento das redes sociais esse fenômeno explodiu, e não raro vemos imagens de crianças e adultos enfermos, algumas até falecidos, sendo utilizadas para atrair doações de pessoas boas de coração.

A administração pública também não escapa a esse pessoal. O exemplo clássico e histórico desse tipo de ação criminosa tem nas entidades beneficentes, filantrópicas, ONGs, e outras do gênero, um terreno fértil para a consumação dessas fraudes com dinheiro público. Claro que há boas entidades, na verdade, elas são a maioria. Mas há aquelas dedicadas à subtração de verbas, geralmente, para enriquecimento ilícito de seus provedores, patronos e diretores.

Esse pessoal se aproveita das carências no setor público, e das dificuldades burocráticas para a gestão complexa da saúde pública, principalmente das redes secundárias e terciárias de atendimento de média e alta complexidade, e atacam os orçamentos, se colocando como uma saída eficiente (e mais barata) para o problema, sendo que a eficiência e a rapidez ficam restritas mesmo a dilapidação do erário.

São as chamadas redes complementares de saúde, mas que de tão poderosas, acabaram por substituir a rede pública, absorvendo quase todo dinheiro repassado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Diga-se, a contratualização de serviços de saúde é uma escolha política discricionário do prefeito ou governador, contra a qual só cabe um juízo político, apenas.

Porém, o problema é que alguns gestores destas entidades enxergam aí uma oportunidade para enriquecimento ilícito. Campos dos Goytacazes não é diferente, e por muito tempo a rede contratualizada assumiu quase todos os atendimentos de média e alta complexidade, por uma escolha dos administradores da coisa pública. Os valores repassados para o ano chegam a mais de 200  milhões de reais.Tais montantes, são maiores aos disponíveis para o município tocar sua rede primária de atendimento, incluídos aí as emergências e urgências, Unidades Básicas de Saúde (UBS), etc. Mesmo assim, de forma perene, os hospitais ligados a tais entidades vivem reclamando de falta de recursos e/ou atrasos nos repasses, ameaçando suspender atendimentos, e retendo salários de seus funcionários.

Se não fossem entidades filantrópicas, que têm por missão primeira a ajuda ao próximo, ficaríamos desconfiados de que o atraso em pagar os médicos, diante de tais valores, é alguma forma de chantagear o município, como naqueles casos das empresas de ônibus, que usam motoristas e cobradores como massa de manobra, para subir o preço das tarifas do serviço.  Não deve ser o caso. Ora, mas por certo tem alguma coisa errada, e parece que a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes  (PMCG) precisa repensar essa relação, já que o modelo, mesmo com tantos recursos, não deu certo.

Além de repensar, não seria demais fazer algumas perguntas, já que o setor hospitalar filantrópico da cidade tem um histórico conturbado de suspeitas de dupla cobrança (consulta “social” que é cobrada do SUS), de desvios de recursos, superfaturamento de compras, etc, que já ensejaram ações policiais e ministeriais, inclusive com intervenção.

 Por exemplo, será que as entidades aceitariam, já que alegam dívidas pela prefeitura, se submeter a uma criteriosa auditoria independente, feita pelo Ministério Público Federal (MPF), para confrontar os dados da regulação do município e aqueles cobrados pelas entidades? Aceitariam também uma olhada nas aquisições de equipamentos e serviços feitos com dinheiro público, sejam as emendas parlamentares ou repasses? É claro que precisamos ressaltar que há filantropia e pilantropia.

Mas a discussão sobre esse valor de 100 milhões, alegadamente, devidos pela municipalidade, pode servir para alimentar esse necessário debate. Servirá para subsidiar, por exemplo, essa ótima discussão  sobre a migração dos serviços de saúde para a rede própria da cidade, deixando apenas o complemento para as entidades privadas. Enfim, pode servir ainda para o MPF descobrir, junto com a polícia, se há lobo em pele de cordeiro, fiéis daquele estranho culto:  a desgraça alheia é a minha riqueza.

Opção pelo mercúrio em restaurações dentárias expõe descaso com a saúde pública e o ambiente

Altamente tóxico, o mercúrio está em 70% das obturações feitas no SUS. No estado de SP, que concentra metade dos procedimentos no Brasil, lideranças e movimentos sociais buscam reverter veto de Tarcísio de Freitas à lei que protege a população

Por Cida de Oliveira 

O mercúrio é um metal pesado considerado a substância mais tóxica já conhecida pela ciência moderna. Isso porque causa intoxicações, que dependendo do grau, provocam síndromes, como as neurológicas, muitas das quais graves, irreversíveis e letais. Altamente volátil, evapora mesmo à temperatura ambiente, permanecendo suspenso no ar, até ser inalado ou absorvido pela pele. Ao cair na circulação sanguínea, se deposita em órgãos onde fará estragos, como o sistema nervoso central, seu alvo principal.

Em gestantes, tem a capacidade de atravessar a barreira placentária, afetando diretamente tecidos fetais em desenvolvimento. Mas os bebês também podem ser intoxicados por meio do leite materno, como mostram estudos. A lista longa de problemas vai muito além, conforme pode ser conferida no final da reportagem. E há ainda os danos ao meio ambiente, com a contaminação de rios, do mar e de peixes, que traz mais doenças para quem deles se alimenta.

Por incrível que possa parecer, a substância responde por metade da composição do amálgama dentário, juntamente com uma liga de prata, estanho e cobre. A mistura, tóxica, está em 70% das obturações realizadas nos consultórios do serviço público de saúde do país. Dentro da boca de tanta gente, encurta o caminho dos vapores de mercúrio, que atravessam rapidamente as mucosas e o palato. 

Já entre a clientela da rede privada, que pode pagar e fazer escolhas, a massinha cinza caiu em desuso. Entraram em seu lugar materiais biocompatíveis, resistentes, seguros, estéticos e com custo equivalente, segundo profissionais. Ou seja, é possível restaurar os dentes com a mesma funcionalidade, melhor resultado estético e ainda proteger a saúde de pacientes, equipe odontológica e o meio ambiente como um todo sem gastar mais por isso.

Segundo dados do Datasus, foram realizadas 708,3 mil restaurações com mercúrio em consultórios públicos de todo o Brasil entre 2020 e 2023. A ampla maioria está no estado de São Paulo, com 351 mil (49% do total). O número é quase 3,5 vezes maior que a soma desses procedimentos nos estados vizinhos da região Sudeste. Nesses mesmos quatro anos, as restaurações com resinas nos consultórios privados paulistas chegam perto de 5 milhões, algo perto de 93% do total.

Negacionismo

Essa triste liderança paulista poderia ter sido revertida. E o estado de SP poderia tomar a dianteira no combate ao mercúrio na odontologia, tornando-se um exemplo. No entanto, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) desprezou essa chance ao vetar, em outubro passado, o  Projeto de Lei 1.475/2023, que disciplina a utilização do amálgama. De autoria do deputado Maurici (PT), a lei aprovada em julho de 2023, com votos até de integrantes da base governista, tem efeito imediato na proteção de gestantes, mulheres que estejam amamentando ou em idade reprodutiva. E também de crianças, adolescentes menores de 14 anos, pessoas com doenças neurológicas ou renais, além daquelas com histórico de intoxicação ou mesmo exposição prolongada à substância. O projeto, porém, é mais amplo. Determina um prazo de três anos para a abolição total dessas restaurações de massinha cinza.

Tarcísio desprezou apelos e argumentos de especialistas, pesquisadores, professores universitários, profissionais e ativistas brasileiros e estrangeiros que compõem a Campanha Mundial para uma Odontologia Livre de Mercúrio. E preferiu ouvir a voz apenas das entidades de classe do setor. Aliás, classe profissional que deve ser orientada pelos governos.

Em seu veto, o governador parece raso e confuso em seus argumentos. Cita erroneamente a resolução da Anvisa 171, de 2017, sobre revisão de alterações pós-registro e prazos para produtos já registrados, como se fosse a resolução 173, de 2017. E depois ele também menciona a resolução Anvisa 879 de 2024, que não contempla integralmente a Emenda das Crianças da Convenção de Minamata, como o PL/1475/2023 faz. E o veto também foi determinante para não disciplinar efetivamente o uso de amálgama dentário de mercúrio em São Paulo. Permanece, assim, a exposição continuada de profissionais e pacientes ao metal tóxico.

Tarcísio alega ainda que a “Secretaria da Saúde manifestou-se desfavoravelmente à propositura, assinalando que até o momento não há material no mercado com o custo, acesso, resistência e durabilidade comparáveis”. E que “o material (mercúrio) está caindo em desuso seja por suas características estéticas, ou por exigir maiores habilidades profissionais”. E mais: “que o Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), em evidente afronta ao princípio da precaução, observa que não há evidências científicas significativas que associem danos à saúde do paciente ou do profissional, se utilizado de acordo com as normas técnicas existentes, e que ainda fundamentam a possibilidade de continuidade da utilização do amálgama de prata”.

Entidades defendem metal tóxico

Após a decisão do governador, o conselho divulgou nota na qual afirma que, junto com a Associação Paulista dos Cirurgiões Dentistas (APCD) e a Associação Brasileira de Cirurgiões-Dentistas (ABCD), “elaborou um dossiê técnico com a participação de professores universitários, representantes do Poder Público e das Câmaras Técnicas e Comissões Temáticas do CROSP, o que foi determinante para fundamentar a justificativa do governo estadual”.

A redação procurou o conselho em busca de uma justificativa para o lobby negativo das entidades junto ao governo, que em vez disso deveria apoiar e proteger os profissionais e os pacientes, principalmente do SUS. Para isso pediu uma cópia do referido dossiê técnico, bem como uma explicação para a suposta segurança do mercúrio dentro da boca das pessoas, já que é reconhecido como altamente tóxico no meio ambiente. Entretanto não houve retorno até a conclusão da reportagem.

Segundo Jeffer Castelo Branco, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e integrante da Campanha Mundial para a Odontologia Livre de Mercúrio, o veto contraria a Convenção de Minamata. Isso porque o tratado internacional, do qual o Brasil é signatário, estabelece que os governos devem informar aos conselhos profissionais a importância da eliminação do amálgama dentário. “E o que temos visto no Brasil é o contrário. Em vez de os governos notificarem os conselhos, são eles que estão fazendo um lobby contrário junto aos governos para não eliminar o amálgama, colocando em risco os seus profissionais e aqueles que buscam serviços odontológicos. A gente gostaria de ter como parceiro o conselho profissional dos dentistas. É preciso que ele venha ao encontro da Convenção e faça o Brasil aprovar leis como a proposta por Maurici”, disse.

Diferentemente do negacionismo do governador Tarcísio, prevaleceu em Peruíbe, litoral sul do Estado, a preocupação com a saúde e o meio ambiente. Em 20 de novembro passado a Câmara dos Vereadores aprovou por unanimidade a Lei Ordinária nº 4587/2024, que restringe a utilização de amálgamas de mercúrio em procedimentos odontológicos. O projeto apresentado pelo então prefeito Luiz Maurício (PSDB), com indicação da vereadora Maria do Socorro Antunes Mendonça (PSD), é muito semelhante ao vetado por Tarcísio.

Além do prazo de três anos para a abolição total dos amálgamas de mercúrio, proíbe as empresas responsáveis pela sua destinação final ambientalmente adequada de comercializar o metal eventualmente recuperado. E as obriga de informar a quantidade, procedência e destinação de cada lote aos órgãos de vigilância sanitária. A lei pioneira no Brasil ainda determina que o poder público municipal estabeleça políticas e programas que favoreçam o uso de alternativas aos amálgamas em procedimentos odontológicos. E que promova juntamente com órgãos e entidades públicas e privadas o esclarecimento e conscientização dos profissionais e estudantes da área de odontologia sobre riscos e perigos do mercúrio, além da promoção de melhores práticas alternativas.

Mercúrio liberado na escovação

A cirurgiã-dentista Magda Siqueira, especialista com certificação internacional e especialista em ozonioterapia, integrou o grupo da Campanha Mundial para a Odontologia Livre de Mercúrio que esteve na Secretaria de Saúde após a aprovação da lei estadual. O objetivo era esclarecer os pontos da lei no sentido de obter apoio para a sanção junto ao governador Tarcísio. Mas segundo ela, durante a visita falou bastante sobre a toxicidade do mercúrio. Para seu espanto, as pessoas ali diziam desconhecer os riscos. “Mas sabiam que havia um parecer técnico de duas entidades dos dentistas em defesa do amálgama”, disse. “O desconhecimento está dentro dessas entidades técnicas também?”, questionou.

A especialista explicou que o perigo dessas obturações é grande. “Estudos apontam que há liberação constante de vapores de mercúrio durante a mastigação, a escovação dos dentes e a ingestão de bebidas quentes. Com isso há uma absorção sistêmica crônica”.

Na avaliação de Magda Siqueira, o uso contínuo no Brasil, especialmente em populações vulneráveis atendidas nos consultórios do SUS, com aval de gestores, contraria princípios constitucionais, a equidade e segurança em saúde pública. E fere diretamente a responsabilidade do Estado na proteção da integridade física, psíquica e ambiental do cidadão.

“O SUS tem a missão e o dever de garantir o cuidado integral, com a inclusão de materiais seguros e biocompatíveis, como resinas compostas, ionômero de vidro e cerâmicas, entre outros. O Brasil é signatário da Convenção de Minamata. É inaceitável que mesmo após 10 anos da assinatura não tenhamos políticas públicas e diretrizes efetivas para a transição segura e protetiva. E nem pessoas e gestores que olhem para esse detalhe”, criticou.

Para a especialista, o fim das obturações de mercúrio é uma questão crucial, tanto que em 2020 foi tema de alerta da agência dos Estados Unidos para medicamentos e alimentos (FDA). Sendo assim, é urgente incluir o mercúrio no currículo dos cursos de odontologia. “A formação acadêmica precisa refletir os avanços da ciência e os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. Professores têm responsabilidade ética de preparar seus alunos sobre os riscos do mercúrio dental e preparar essa nova geração para práticas éticas e seguras”, disse.

Mulheres e crianças: principais alvos

A assistente social Gleisy Xavier, conselheira tutela em Mauá, no ABC paulista, vê nas restaurações dentárias à base de mercúrio mais um componente da desigualdade social. “É cansativo vivenciar esse racismo institucional. Nós sabemos que o amálgama praticamente só é colocado na boca das mulheres, crianças, adolescentes e homens periféricos. Somos nós que estamos lá na ponta (do atendimento) e que vamos vivenciar isso que está sendo dito aqui. Essa é a verdade”, disse, durante participação na audiência pública na Alesp.

Ela reforçou as críticas a Tarcísio de Freitas. “E esse governo ainda persiste em marginalizar e discriminar a população pobre e preta. Não bastam as polícias nas favelas matando pretos, a gente ainda tem de ter isso em nossas bocas”, disse a conselheira, que defendeu a derrubada do veto e prometeu levar a grave questão para ser discutida em seu município. “São as nossas crianças e nossos adolescentes. Não dá mais para tolerar esse uso. Enquanto tiver mercúrio nas bocas pretas, a gente não vai poder discutir políticas de saúde bucal.”

A cirurgiã-dentista Martha Faissol, integrante da Academia Internacional de Medicina Oral e Toxicologia, aponta o risco elevado do uso de amálgamas de mercúrio para mulheres e crianças em geral. “Ao serem expostas no ambiente de trabalho, seja universidades ou nos serviços de saúde, milhares delas são alvos dos efeitos nocivos que comprometem a função ovariana, desregulam ciclos menstruais, favorecem a menopausa precoce e aumentam o risco de abortos espontâneos”, disse. Segundo ela, 58% dos profissionais da odontologia no Brasil são mulheres.

A especialista destacou que estudos recentes dão uma ideia da gravidade da situação. Mostram altos níveis de mercúrio no leite materno e uma correlação entre esses índices e o número de obturações; o pico de intoxicação em bebês logo após o nascimento, quando passam a receber leite da mãe contaminado; a presença de metal no organismo de mulheres acima do limite recomendado pela Organização da Saúde, mesmo entre aquelas com baixo consumo de peixes, uma outra fonte de exposição e intoxicação. “A bioacumulação de mercúrio favorece níveis letalmente elevados em gestantes, comprometendo diretamente o desenvolvimento neurológico de seus fetos e, posteriormente, prejudicando habilidades motoras, cognitivas e comportamentais. Dizer que esses riscos podem ser tolerados é, no mínimo, um desserviço que ameaça a saúde das futuras gerações”, disse.

Fragilidades no veto

Decorridos seis meses do veto de Tarcísio, a presidência da Assembleia Legislativa de São Paulo, que integra a base governista, ainda não pautou sessão para análise e possível derrubada. Por isso a Campanha Mundial para a Odontologia Livre de Mercúrio se articula nesse sentido. No último dia 23, especialistas, dentistas, estudiosos, lideranças de movimentos sociais e trabalhadores se reuniram em audiência pública no legislativo paulista. Juntos com o autor do projeto, deputado Maurici, discutiram o tema e propostas em defesa da promulgação. Entre elas, uma reunião com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e com a direção da Anvisa.

Os ativistas e especialistas também têm críticas quanto às resoluções da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, especialmente a 879, citada pelo governador. Em seu artigo 1º, o texto diz que “ficam proibidas em todo o território nacional a fabricação, a importação e a comercialização, assim como o uso em serviços de saúde, de mercúrio e do pó para liga de amálgama na forma não encapsulada indicados para uso em odontologia”.

No entanto a mudança não traz proteção, segundo a cirurgiã-dentista Raquel Cembranelli, que pesquisa o tema.  “Em 2019 a Anvisa seguiu a FDA e proibiu amálgamas abertas. Mas as cápsulas permitidas contêm o mesmo pozinho, o líquido, e o dentista também tem de agitar, usando um aparelho, de alta velocidade, que gera calor e mais vapor de mercúrio”, contou. Segundo ela, estudos mostram que a abertura de cada cápsula permite o vazamento de 400 microgramas de vapor de mercúrio. “Esse valor é quatro vezes maior que o pico máximo permitido de exposição ocupacional. Ou seja, a adoção das cápsulas não resolve nada; não é melhor que antes”, reclamou, referindo ao antigo preparo manual do amálgama.

“O mercúrio é um líquido volátil, que evapora em temperatura ambiente. E a cada 10º C que aquece, dobra sua volatização. Durante a remoção da massinha, a broca gira em alta velocidade, provocando calor que aumenta a vaporização. E há liberação da poeira de amálgama com partículas menores que um mícron, que é absorvida pela pele, pulmões. O consultório fica infestado de mícrons de mercúrio. Uma lambança sem fim”, afirmou.

Segundo ela, um estudo feito em Porto Rico mostra que essas partículas de mercúrio permanecem suspensas por 36 horas, em níveis acima do limite. “Ou seja, uma cápsula aberta na segunda-feira segue contaminando todos até na quarta. Como são usadas várias ao longo do dia, a pessoa que vai ao consultório fazer um orçamento sai de lá contaminada com o mercúrio que inalou”. E concluiu: “Não pode mercúrio na lâmpada, no termômetro, mas pode na boca do cidadão?”, questionou. Segundo ela, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos estima em uma tonelada a quantidade de mercúrio na boca dos americanos. “Não faz sentido. Há substitutos que não são mais caros e funcionam. Os dentistas são os profissionais mais expostos ao mercúrio”.

Outro pronto criticado na resolução 879 é o artigo 2º, que determina que “as notificações de produtos constituídos por liga de amálgama na forma encapsulada para uso odontológico deverão indicar, como advertência, que não são recomendados para uso em gestantes, lactantes e na dentição decídua (em indivíduos de até 15 anos de idade).  “Notificações? Isso é um produto tóxico. Tem de ter registro. Notificação é para produtos que não são perigosos. É o primeiro detalhe nessa resolução que eles falham e a gente precisa corrigir isso”, destaca Jeffer Castelo Branco.

Ele aponta outra incorreção no mesmo documento, quanto à interpretação inadequada da Convenção de Minamata. “A resolução falha também ao dizer que em crianças até os 15 anos, os únicos dentes que não podem receber amálgama são os de leite. A convenção diz que não pode em nenhum dos dentes até os 15 anos”. Segundo o pesquisador, “a resolução é caótica, está em desacordo com a convenção internacional e por isso precisa ser consertada.”

A reportagem procurou a assessoria da Agência Nacional de Vigilância, que não respondeu até o fechamento.

Expectativas

Na avaliação do deputado Maurici, o governador Tarcísio não discute o mérito do projeto em seu veto. “Ao contrário, destaca que a matéria tem alta relevância para a área de saúde. E alega que se contrapõem às normas da União, no caso específico, da Anvisa. No entanto, a Constituição Federal faculta aos Estados a criação de leis que complementem ou aprofundem as normas gerais da União, especialmente quando são mais restritivas”, disse o parlamentar.

Segundo lembrou, este foi o entendimento da Comissão de Constituição e Justiça da Alesp que aprovou parecer, ressaltando que, “no que atine à constitucionalidade da proposta, não há qualquer ofensa de cunho material ou formal que venha a impedir a regular tramitação da proposta”.

Maurici acredita na possibilidade de reverter a decisão. Isso porque há um precedente em tema semelhante. Em 2013, um Projeto de Lei similar, do ex-deputado Marcos Martins (PT), proibindo instrumentos contendo mercúrio, como aparelhos de pressão e termômetros, foi vetado pelo Poder Executivo. “Porém, ao reexaminar o projeto, as comissões de Constituição e Justiça e de Meio Ambiente recomendaram a sua aprovação, o que foi seguido pelo Plenário, convertendo em lei o Projeto na Lei nº 15.313/2014, que está vigente e não sofreu contestação de constitucionalidade por parte do Executivo”, lembrou. “Então, a perspectiva é que, ao examinar vetos do governador com base nos precedentes e no posicionamento favorável já fixado, o veto será derrubado em favor da saúde da população e da preservação ambiental.”

Amálgama: alvo da vez

A luta pelo fim do amálgama já dura décadas. Mas se acirrou com a assinatura da Convenção de Minamata. Ratificada por mais de 140 países, busca eliminar o metal tóxico dos produtos, serviços e processos em todo o mundo. Neste ano chega ao fim o prazo para eliminação de todas as indústrias de cloro e soda que utilizam células eletrolíticas de mercúrio. De acordo com Castelo Branco, o processo de descomissionamento dessas indústrias já começou. “Tivemos rios e populações ribeirinhas contaminadas. Agora é hora do amálgama dentário, setor que mais usa mercúrio no mundo”, destacou. Segundo ele, o amálgama responde por 341 toneladas do metal colocadas anualmente no planeta por causa do uso na odontologia.

As discussões para a Convenção de Minamata começaram em 2010, após a constatação que a quantidade de mercúrio na atmosfera havia sextuplicado em algumas partes do planeta. O acordo foi assinado em 2013, entrou em vigor em 2017 e o Brasil promulgou em 2018. Um acordo anterior, a Convenção de Estocolmo sobre poluentes persistentes, que já poderia ter incluído o mercúrio, foi assinado em 2001.

Segundo Castelo Branco, que preside a Associação de Combate aos Poluentes (ACPO), dentistas de várias regiões relatam dificuldades de dar destinação ao amálgama tóxico. Isso porque as cidades sequer contam com serviço adequado para essa finalidade. E há outro detalhe: o mercúrio cuspido pelos pacientes durante o tratamento ou remoção vai para o esgoto. “Alcança a rede pública e contamina córregos e rios, afetando toda a vida aquática, marinha, como a gente tem visto em vários estudos”, disse. “Há inúmeras pesquisas de qualidade que associam o mercúrio ao Alzheimer, Parkinson, Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), Transtorno do Espectro Autista, doenças do pulmão, fígado, rins, da pele. E o SUS, possivelmente, arcando com toda essa despesa, que vem da exposição ao mercúrio contido no amálgama.”

Saiba mais sobre as intoxicações causadas pelo mercúrio usado nas restaurações

A intoxicação pelo mercúrio, o mesmo que é usado nos amálgamas dentários pode ser aguda – desencadeada por grande quantidade de vapores de mercúrio em um curto período – ou crônica, devido ao acúmulo de partículas no organismo pela exposição prolongada e contínua.

Na intoxicação aguda as vias aéreas são afetadas, causando irritação brônquica, bronquite erosiva, pneumonia intersticial difusa com dor torácica, falta de ar, tosse, hemoptise (expectoração de sangue), cianose (coloração azulada em várias partes do corpo), taquipneia (alteração na respiração) e edema pulmonar, que podem levar à morte. Há também intoxicação nos rins, irritação de mucosa da boca, náuseas, diarreia, fadiga, fraqueza, letargia e câimbras abdominais. Por isso esses sintomas exigem atendimento imediato.

Já na intoxicação crônica pode haver sintomas isolados ou simultâneos. Eles são agrupados em:

Síndromes no sistema neurológico Geralmente aparece em toda pessoa intoxicada porque ao penetrar no Sistema Nervoso Central, o mercúrio se liga a proteínas e dificilmente se desprende delas. Por isso se propagam localmente e também no sistema periférico. Os problemas causados geralmente deixam sequelas. Os tremores são os sinais mais comuns e característicos da intoxicação. Mas há ainda cefaleia, insônia, nervosismo, vertigem, debilidade, mal estar, dores nas articulações e musculares, contrações musculares involuntárias, descoordenação motora, movimentos involuntários dos olhos, dismetria, dificuldade de realizar movimentos rápidos e alternados, de equilíbrio e de caminhar, nevralgia, parestesia, ardência nos pés, polineuropatia, visão borrada, hipertonia muscular com reflexos de postura exagerados, câimbras, paralisia flácida, voz monótona, arrastada e hesitante, com mudança de linguagem, gagueira e dificuldade de pronúncia, timidez. Há ainda encefalopatia difusa crônica, com redução das funções manifestada por mudança de personalidade, rigidez, movimentos involuntários, redução na função motora, incapacidade de se manifestar por gestos e sinais, marcha incerta e vacilante, ausência de reflexos, de recuperação do equilíbrio e fraqueza muscular. “Essas alterações neurológicas podem ser progressivas e piorarem após cessada a exposição. É o que a gente tem percebido no atendimento a trabalhadores expostos”.

Síndrome neuropsíquica ou eretismo psíquico (conjunto de alterações comportamentais) – “Pode começar com sintomas suaves, que vão se somando a outros até o embotamento intelectual, até a demência”, disse a médica Cecília Zavariz, que há décadas estuda o assunto. “Como o caso de pessoas que não podiam sair de casa sozinhas porque não sabiam voltar, se perdiam, não sabiam onde estavam e nem mesmo o seu endereço”, disse Cecília.

O quadro é caracterizado por sintomas como irritabilidade, ansiedade, mudanças de comportamento, apatia, perda da auto-estima e de memória, depressão, insônia, delírio, cefaléia, dores musculares e tremores. Pode haver também hipertensão arterial, problemas renais, imunológicos e alérgicos. Isso porque a síndrome pode acometer outros órgãos e sistemas, como o imunológico, enzimático, endócrino, visual e cardiovascular. Assim pode afetar a pele, fígado, pulmões e o ciclo reprodutivo, além de provocar abortos espontâneos, baixo peso ao nascer e anomalias congênitas.

Síndrome no sistema digestório (sabor metálico, sensibilidade, inflamação, edema e sangramento gengival, linha gengival azulada/acinzentada, necrose alveolar, halitose, afrouxamento e queda de dentes, irritação e ulceração de mucosa oral, palato, gengiva e língua, salivação excessiva, dor à mastigação e dificuldade para engolir, faringite, inflamação da língua, hipertrofia de glândulas salivares, saburra das vias digestivas, náuseas, vômitos, dor epigástrica, gastrite, duodenite, indigestão, diarreia, anorexia, emagrecimento, fadiga excessiva, fraqueza muscular, debilidade.

De acordo com Cecília, o diagnóstico é complicado porque não há exame específico e os sintomas variam de indivíduo para indivíduo e podem ser atribuídos a outras patologias. “O médico vai pensar em mil e uma doenças, e não na intoxicação crônica por mercúrio. Por isso é preciso uma anamnese muito profunda, esmiuçando o histórico laboral da exposição, além de avaliações oftalmológicas, psiquiátricas, neurológicas e neuropsicológicas para verificação de funções cognitivas (memória, atenção, concentração, raciocínio, abstração e linguagem), motoras (coordenação motora, rapidez de movimentos e precisão na execução de tarefas, capacidade/habilidades construtivas e visuoespaciais – usamos para controlar a possível distância entre dois objetos), além de estados afetivos. São feitas entrevistas psicológicas e aplicação de testes. A depressão é um dos sintomas mais comuns no exposto ao mercúrio.

Segundo ela, o prognostico é desfavorável quando a intoxicação atinge certa gravidade. Nos casos leves, pouco a pouco, ao longo de vários anos, o quadro pode reverter se a exposição ao mercúrio for interrompida. Pode também ocorrer um quadro intermitente, com período em que os sinais e sintomas se exacerbam, alternando-se com períodos de intoxicação latente. Alguns chegam a desaparecer temporariamente. Mas nos casos moderados e graves o quadro é irreversível e tende a piorar com o tempo.

“Em resumo, a intoxicação crônica pode ser ou se tornar grave, irreversível, incurável, incapacitante, penosa e ‘infelicitante’. O único caminho é a extinção do uso do mercúrio em quaisquer de suas formas químicas, pelo bem da saúde e do planeta. Cada grama lançada no ambiente causa o acúmulo de toneladas de problemas deste metal tóxico, que não se degrada e pode mudar para outra forma química ainda mais agressiva, o mercúrio orgânico”, disse a médica.

Outro pesquisador do tema, o dentista Rodrigo Venticinque alertou sobre outras situações problemáticas: como exemplo, alterações genéticas que podem afetar a capacidade do organismo em eliminar o mercúrio, além de outros metais pesados. É o caso da APOE4, uma variante da enzima CPOX4, que desempenha um papel importante na síntese da hemoglobina e na produção de energia das células. E ainda a glutationa GSTS, uma família de enzimas com papel crucial na desintoxicação celular, entre outras variantes.

Crédito da imagem: Reprodução/Youtube

Corporações da soja receberam R$ 4,7 bilhões em isenções fiscais no Mato Grosso entre 2019 e 2024, mostra relatório do TCE/MT

Uma das grandes fontes de sangria fiscal nos estados brasileiros são as políticas de isenção criadas supostamente para alavancar o processo de desenvolvimento econômico, sempre às custas da qualidade do serviço público que é usado como espantalho quando a coisa se trata de encontrar culpados pela falência financeira dos estados brasileiros.

Eis que agora me chegou uma matéria indicando que um relatório preliminar do Tribunal de Contas do Estado do Mato Grosso (TCE/MT) indicou que apenas entre  2019 e 2024, cinco grandes empresas que controlam o mercado da soja (i.e., Bunge, ADM, Cofco, Cargill e Fiagril) receberam 28% das isenções fiscais concedidas naquele período pelo governo matogrossense, com um custo astronômico aos cofres públicos de R$ 4,7 bilhões.

As principais beneficárias dessa farra fiscal teriam sido as corporações estadunidenses Bunge e ADM, que teriam sido seguida pela também estadunidense Cargill e pela chinesa Cofco, deixando em quinto lugar a brasileira Fiagril.

Segundo a lógica utilizada pelo conselheiro encarregado do relatório que utilizou o custo médio da construção de um hospital para dar parâmetros aos prejuízos econômicos causados pela farra fiscal em prol das corporações da soja, com esse valor seria possível construir em torno 15 hospitais públicos em Mato Grosso.

O interessante é que se levarmos em conta todas as evidências científicas levantadas pelo grupo de pesquisas do professor Wanderlei Antonio Pignati  da Universidade Federal do Mato Grosso sobre as consequências deletérias do uso intenso de agrotóxicos na monocultura da soja na saúde da população matogrossense, esses hospitais seriam mais do que benvindos. Só que não, visto que toda essa fortuna não foi aplicada em hospitais, mas no aumento da faixa de lucros bilionários das corporações que controlam a produção e o comércio da soja.

Há ainda que se lembrar que para beneficiar ainda mais as corporações da soja, a Assembleia Legislativa do Mato Grosso aprovou uma lei, chamado popularmente de “PL do Veneno Sem Limites“, que diminui a distância em que agrotóxicos podem ser utilizados em áreas urbanas, o que deverá aumentar exponencialmente o processo de contaminação.

Enquanto, as corporações da soja agradecem as benesses oferecidas na forma de isenções fiscais.

O enfraquecimento das promessas climáticas corporativas é um sintoma de perda de ímpeto

O recente recuo de empresas de alto nível em relação aos compromissos climáticos demonstra a fragilidade dos compromissos quando a atenção e a responsabilização se desviam

Manifestantes participam de uma apresentação convocada pelo grupo de teatro ativista "BP or not BP", em protesto contra o patrocínio da BP ao Museu Britânico. Fotografia: Justin Tallis/AFP via Getty Images

Manifestantes participam de uma apresentação convocada pelo grupo de teatro ativista “BP or not BP”, em protesto contra o patrocínio da BP ao Museu Britânico. Fotografia: Justin Tallis/AFP via Getty Images

Por Hannah Daly para o “The Irish Times”

Há alguns anos, o movimento climático global explodiu de otimismo. Milhões de jovens marcharam, empresas fizeram promessas climáticas ousadas e líderes políticos falaram com urgência sobre uma crise iminente que exigia ação imediata. Hoje, o vento deixou as velas desse movimento e a atenção se voltou para a turbulência geopolítica e econômica global.

Não é de se admirar que a fadiga e a sensação de desânimo tenham se instalado. O recente recuo de empresas de alto nível em relação aos compromissos climáticos mostra a fragilidade das promessas quando a atenção e a responsabilidade se desviam.

Em 2020, a BP , a gigante da energia, prometeu cortar a produção de petróleo e gás em 40 por cento até 2030. Sob a liderança do então presidente-executivo Bernard Looney, a empresa também prometeu ser uma produtora de energia líquida zero até 2050. No início de 2023, no entanto, esse compromisso havia encolhido para apenas 25 por cento e, em outubro de 2024, a meta foi abandonada completamente. Em vez de cortar a produção de combustíveis fósseis, a BP agora planeja expandir significativamente a produção de petróleo e gás, visando cerca de 2,4 milhões de barris de óleo equivalente por dia até 2030, e cortar os investimentos em energia renovável. Justificando essa “reinicialização” , o atual presidente-executivo Murray Auchincloss disse que sua fé na transição para a energia verde havia sido “equivocada” e que o petróleo e o gás seriam necessários por décadas.

A reversão da BP mostra como as empresas podem facilmente se afastar das promessas climáticas quando as pressões financeiras aumentam e a atenção pública diminui.

Outro exemplo vem do setor alimentício. A criação de gado para produção de carne exige vastas extensões de terra e é a principal causa do desmatamento global, além de ser uma grande emissora de metano proveniente da arrotação do gado. A conversão de terras para a produção de carne e exploração madeireira está causando tamanha pressão sobre a Amazônia que a grande floresta tropical corre o risco de cruzar um ponto crítico e irreversível, que a levaria a emitir, em vez de sequestrar, carbono e se tornar uma pastagem.

O valor para o acionista – o lucro – é a força dominante, não a responsabilidade ambiental. A solução é que os governos regulem e taxem fortemente para forçar as empresas poluidoras a se despoluir, mas a vontade política é escassa.

A JBS, maior produtora de carne do mundo, há muito tempo é associada à destruição da Amazônia. Em 2021, a gigante brasileira se comprometeu a eliminar o desmatamento de sua cadeia de fornecimento de carne bovina na Amazônia até o final de 2025. O compromisso ambicioso foi amplamente aplaudido na época. No entanto, uma investigação recente da Unearthed, do Guardian e da Repórter Brasil pinta um quadro diferente. Apesar dos investimentos em tecnologia e das alegações de avanços em sustentabilidade, os fornecedores da JBS rejeitam abertamente a meta como impossível, e a empresa tem discretamente moderado as expectativas. A lavagem ilegal de gado persiste; brechas continuam generalizadas. Em outras palavras, o que parecia um compromisso firme se tornou algo totalmente menos certo. Notavelmente, a JBS se comprometeu anteriormente em 2009 a combater o desmatamento até 2011, mas não cumpriu.

Tais declarações representam um recuo silencioso da responsabilização, uma transferência de responsabilidade que contradiz diretamente as promessas ousadas que inicialmente renderam à JBS elogios globais. Em 2024, a JBS enfrentou um processo por greenwashing, acusada pelo procurador-geral do Estado de Nova York de enganar os consumidores sobre seu compromisso com o clima, ao mesmo tempo em que continuava a impulsionar o desmatamento.

Esses exemplos da JBS e da BP representam uma tendência alarmante de retrocesso corporativo que prejudica a ação climática global. À medida que a atenção global se desvia do clima para outras questões urgentes, as promessas dos últimos anos correm o risco de se transformar em gestos vazios.

Essa erosão da responsabilidade corporativa é profundamente relevante porque cada promessa quebrada envia uma mensagem ao público e aos formuladores de políticas de que os compromissos climáticos são negociáveis, enfraquecendo ainda mais a ação e a ambição coletivas. Por exemplo, aqui na Irlanda, cumprir nosso próprio compromisso de reduzir as emissões de gases de efeito estufa exige mudanças nas práticas agrícolas e uma redução drástica no consumo de combustíveis fósseis – ambos prejudicados pelo enfraquecimento dos compromissos corporativos.

Brett Christophers, professor especializado em economia política, observou que promessas ambientais vazias são uma característica previsível do capitalismo, que é o princípio organizador predominante da nossa sociedade. O valor para o acionista – o lucro – é a força dominante, não a responsabilidade ambiental. A solução é que os governos regulem e taxem fortemente para forçar as empresas poluidoras a se despoluir, mas a vontade política é escassa.

Todo esse retrocesso corporativo ocorre em um cenário alarmante. A concentração atmosférica de dióxido de carbono é de 430 partes por milhão, 50% maior do que os níveis pré-industriais e o nível mais alto em milhões de anos. No ano passado, houve um aumento historicamente alto na concentração de dióxido de carbono, superando o recorde anterior em 27%. Isso é um presságio sombrio de que as mudanças climáticas podem estar se acelerando, à medida que as emissões das atividades humanas continuam aumentando e a capacidade dos ecossistemas de absorver o excesso de emissões pode estar diminuindo. Mesmo agora, com 1,5 grau de aquecimento, as mudanças climáticas estão causando impactos severos nos padrões de vida e criando choques econômicos em todo o mundo.

O tempo não está do nosso lado – simplesmente não há espaço para retrocessos. O verdadeiro progresso exige a redução das emissões, não promessas.

Por mais mais identidade de classe nas políticas ecológicas

O Partido de Esquerda fez um retorno nas eleições federais. Como ela pode se tornar mais forte?

A esquerda deveria tomar a iniciativa de tornar mais fácil e barato para as pessoas irem às compras, ao médico ou praticar esportes, diz Thomas Goes.

A esquerda deveria tomar a iniciativa de tornar mais fácil e barato para as pessoas irem às compras, ao médico ou praticar esportes, diz Thomas Goes. Foto: IMAGO/Funke Photo Services

Por Thomas Goes para o “Neues Deutschland” 

Para ter sucesso no futuro, a esquerda deve buscar políticas de classe ecológicas. Também faz parte do foco do trabalho da campanha. Dessa forma, o partido poderia mostrar que é importante proteger as pessoas do aquecimento global – na seguridade social. Além de aluguel e cuidados, possíveis tópicos seriam a reestruturação ecológica da indústria ou uma indústria energética sustentável e de propriedade pública que possa nos abastecer com segurança e de forma relativamente barata.

Segurança social e ecológica

A esquerda luta por uma vida boa e segura para os trabalhadores. Mas isso só é possível se também funcionar para proteger contra desastres ambientais e as consequências da crise climática. Se o aquecimento global continuar como está, não teremos mais garantia de alimentos suficientes e acessíveis. Condições toleráveis ​​de trabalho e de vida não estarão disponíveis durante ondas de calor, especialmente para muitas pessoas de baixa renda. O fornecimento de energia e a proteção contra enchentes repentinas também dependerão de conseguirmos deter o aquecimento global — ou pelo menos evitar o pior.

Uma política ecológica e de seguridade social de esquerda só terá sucesso se a esquerda enfrentar os bilionários e milionários, os aproveitadores do capitalismo fóssil. Somente se houver uma verdadeira reviravolta social, se a insegurança e a desigualdade social forem combatidas e a coesão for fortalecida, nossa sociedade se tornará verdadeiramente à prova de crises — porque somente dessa forma poderá ser construída a base política para uma política climática ambiciosa. Quando as pessoas têm medo, elas se apegam ao velho. E somente recuperando a riqueza que os super-ricos roubaram de nós poderemos tomar as medidas urgentemente necessárias. Sem luta de classes vinda de baixo não pode haver segurança social e ecológica. E sem combater o aquecimento global, não haverá futuro que valha a pena viver para as classes trabalhadoras.

Aliança de eleitores do Partido de Esquerda

O sucesso eleitoral nas eleições federais também mostra que a Esquerda deve defender mais fortemente seu clima social e suas políticas ambientais. Conseguiu construir uma nova coligação de eleitores composta por pessoas mais jovens, pessoas com qualificações mais elevadas e, especialmente, empregados sindicalizados e desempregados. Questões sociais são muito importantes para esses eleitores, mas preocupações com o clima/meio ambiente também preocupam grande parte dessa coalizão. Quando perguntados sobre qual foi o fator decisivo para sua eleição, 51% dos eleitores de esquerda citaram a seguridade social, com o clima e o meio ambiente em segundo lugar, com 18%.

Quando questionados sobre suas maiores preocupações, o panorama foi diferente: 82% estavam preocupados que as mudanças climáticas destruíssem nossos meios de subsistência. E: 41% dos novos eleitores conquistados vieram dos Verdes, 33% do SPD. Se a Esquerda quiser se tornar ainda mais forte, terá que continuar conquistando apoio de não eleitores, mas também do SPD e dos Verdes. Para 91% dos eleitores do Partido Verde, a política climática era – sem surpresa – muito importante, mas 76% dos eleitores do SPD também disseram isso. E 64% dos eleitores do Partido de Esquerda disseram que muito pouco estava sendo feito para proteger o clima. Isso também foi acreditado por 55% dos eleitores do SPD, 80% dos eleitores do Verde e até 24% do BSW.

A esquerda deve, portanto, continuar a trabalhar em sua aliança socialista-ecológica de base. Isso inclui os meios da classe trabalhadora “baixa” e média, onde o partido teve um bom desempenho nas últimas eleições. Aqui também há uma minoria muito grande para quem a política climática é importante. A coalizão eleitoral da esquerda também deve incluir pessoas de mentalidade progressista do centro social, cujos corações batem por justiça social e políticas climáticas eficazes. É provável que estes “socialistas climáticos” – aqueles das camadas média e baixa da classe trabalhadora e aqueles das camadas mais jovens da classe média – tenham constituído uma grande proporção dos eleitores do Partido de Esquerda em fevereiro. No futuro, você também poderá votar nos Verdes (de novo) se eles se moverem socialmente para a esquerda. Os Verdes da Baixa Saxônia já demonstraram isso na conferência do partido em março. Tão rápido quanto surgiu, desapareceu – esse é pelo menos o perigo para a Esquerda.

Consciência climática dos ambientes de classe

De acordo com a Fundação Bertelsmann, Die Linke teve um desempenho particularmente bom em cinco ambientes nas eleições federais: bom no ambiente tradicional da classe trabalhadora (8% para Die Linke), no ambiente precário (também 8%), no chamado ambiente expedito – ou seja, uma vanguarda predominantemente urbana e digitalmente conectada – (10%), mas muito bom no chamado ambiente neoecológico (17%) e no ambiente pós-material (15%). O meio precário é composto por membros de camadas mais baixas da classe trabalhadora, o meio tradicional da classe trabalhadora e o meio neoecológico são compostos por pessoas de classes baixa e média, enquanto o meio adaptativo (vida pragmática) e o meio pós-material pertencem à classe média alta. Um estudo representativo da Fundação Friedrich Ebert mostra como essas pessoas pensam sobre a crise ambiental, os problemas sociais e a política climática.

Para ser franco, há uma conscientização crítica sobre as mudanças climáticas em todos os lugares, mas em graus variados. Entre os trabalhadores precários e tradicionais, as preocupações sociais são particularmente altas, e a necessidade de políticas sociais é muito forte — enquanto um grande bloco também pensa em termos climáticos e sociais. Neoecologistas e pós-materialistas estão particularmente preocupados com o clima, mas também com a justiça social. Para 60% do meio precário, a inflação e as pensões eram questões particularmente importantes, mas quase 30% também mencionaram o clima. No meio tradicional da classe trabalhadora (como os precariamente empregados, predominantemente pessoas de meia-idade e mais velhas), a inflação foi particularmente importante para mais de 45% e as pensões para 55% — mas para quase 40%, o clima também foi importante. Entre os pós-materialistas, quase 50% citaram energia acessível, mas quase 70% citaram o clima. Entre os neoecologistas (predominantemente pessoas mais jovens), 50% viam a inflação como uma questão particularmente importante, mas 50% também viam o mesmo problema com o clima.

Para onde está indo a nova esquerda?

O Partido de Esquerda não é mais o que era no ano passado. Dos mais de 100.000 membros, metade se filiou nos últimos seis meses. Como essa nova esquerda se opõe à mudança política para a direita? Como ele lida com novos conflitos sociais? Perguntas que exploramos na série “Para onde vai a nova esquerda?”

Todos os entrevistados foram solicitados a indicar, em uma escala de 0 a 10, a importância que a questão do clima tinha para eles. Era importante a muito importante (8 a 10) para quase 40% dos trabalhadores precários, para cerca de 55% dos trabalhadores tradicionais, mas para quase 70% dos neoecologistas e para quase 90% dos pós-materialistas. Cerca de 60% dos trabalhadores precários e mais de 70% dos trabalhadores tradicionais acreditavam que “os políticos deveriam exercer uma pressão muito maior sobre a economia para alcançar métodos de produção favoráveis ​​ao clima”. E cerca de 55% em ambos os grupos concordaram “fortemente” e “um pouco” que as empresas estão fazendo muito pouco “para combater as mudanças climáticas”.

É claro que a conscientização climática é contraditória. Por exemplo, cerca de 70% em ambos os ambientes pensavam simultaneamente (mas cerca de 30% não) que havia questões mais importantes na Alemanha. Outros estudos também mostram que o medo da perda é particularmente alto entre as camadas média e baixa da classe trabalhadora e que há um sentimento generalizado de que não se pode confiar nos partidos estabelecidos para representar as preocupações das pessoas comuns.

Blocos de construção da política de classe ecológica

Se a esquerda quiser conquistar esses socialistas climáticos para sua aliança socialista-ecológica de base média, ela deve se basear nessas atitudes. Seis blocos de construção são particularmente importantes para isso. Primeiro, é preciso mostrar que são os bilionários e milionários os principais responsáveis ​​pela catástrofe ecológica. Eles não apenas vivem de forma extremamente imprudente com seus jatos particulares e iates de luxo, como também são os principais aproveitadores do capitalismo fóssil, que, com suas cadeias de suprimentos que abrangem o globo, explora impiedosamente tanto os recursos quanto as pessoas. Por que não fazer campanha por um imposto climático para milionários e bilionários, que poderia, por exemplo, ser usado para pagar o bilhete de nove euros?

Em segundo lugar, o poder do grande capital, do lobby e das elites políticas que abandonaram e esqueceram politicamente os trabalhadores deve ser duramente criticado. Quem quiser ganhar confiança na capacidade de sobreviver às crises do nosso tempo precisa primeiro romper com aqueles que constantemente decepcionam.

Em terceiro lugar, a política de classe ecológica da esquerda teria que tornar produtiva a tensão entre, de um lado, a urgência da luta contra o aquecimento global e, de outro, a necessidade de proteção social, especialmente em meios de classe baixa. Trata-se da promessa de segurança social e ecológica. O partido e o grupo parlamentar já têm muitas propostas na gaveta para isso. Mas infelizmente elas não fazem parte de uma narrativa política coerente que também seja apresentada em voz alta.

Uma política ecológica e de seguridade social de esquerda só terá sucesso se a esquerda enfrentar os aproveitadores do capitalismo fóssil.

Em quarto lugar, nesta narrativa, a questão da propriedade teria que ser estrategicamente levantada repetidas vezes. Trata-se de encontrar o elo mais fraco na cadeia de defesa capitalista. O fornecimento de energia é uma área adequada para isso, como os oponentes políticos reconheceram, tirando vantagem das preocupações financeiras das pessoas. Por que não dizer mais alto que energia barata e segura só estará disponível se as energias renováveis ​​forem amplamente expandidas por empresas públicas e os grandes monopolistas de energia forem nacionalizados?

A política de classe ecológica deve, portanto, estar diretamente ligada aos interesses e necessidades sociais e, em quinto lugar, também levar à organização de campanhas. Especialmente nas camadas mais baixas da classe trabalhadora, as pessoas dependem de ônibus e trens, por exemplo – geralmente caros nas cidades e frequentemente pouco desenvolvidos nas áreas rurais. Então por que não tomar a iniciativa de tornar mais fácil e barato para as pessoas irem às compras, ao médico, à academia ou visitar seus entes queridos? Amplie os serviços de ônibus e trens, reduza os preços das passagens e torne-os gratuitos o mais rápido possível. Ideias e experiências sobre este tema existem há muito tempo na Fundação Rosa Luxemburgo e no partido.

Sexto, a maneira como falamos sobre as coisas é crucial. Proteção climática – não se trata mais de proteger as pessoas do aquecimento global? E não desperta um sentimento diferente falar sobre essa proteção das pessoas em vez da necessária proteção do clima? Ou: É claro que é correto deixar claro que grandes partes da Terra estão se tornando inabitáveis ​​e que estamos ameaçados por guerras por água e recursos. Mas uma narrativa política deve se concentrar no que dá esperança, ou seja, no que podemos fazer de diferente – e como.

Os direitistas estão explorando deliberadamente a divisão entre as elites climáticas urbanas e o resto, cuja prosperidade é ameaçada por eles. A esquerda, por outro lado, deve abordar o conflito de classes diretamente e combinar interesses ecológicos e sociais. Resumindo: precisamos de uma nova narrativa climática bem pensada.

Thomas Goes é membro do comitê executivo estadual do Partido de Esquerda na Baixa Saxônia. Ele é sociólogo e mora em Göttingen.


Fonte: Neues Deutschland

Estudo sobre plantas do Ártico revela um ‘sinal de alerta precoce’ de perturbação das mudanças climáticas

O aquecimento da tundra sofreu mudanças inesperadas, aumentando o alarme sobre os ecossistemas frágeis e aqueles que dependem deles

uma planta roxa cresce em um ambiente frio

Saxifrage roxa, uma planta da tundra, na Ilha Ellesmere, Nunavut. Fotografia: Anne Bjorkman

Por Leyland Secco para o “The Guardian”

Cientistas que estudam as plantas do Ártico dizem que os ecossistemas que abrigam a vida em alguns dos cantos mais inóspitos do planeta estão mudando de maneiras inesperadas, em um “sinal de alerta precoce” para uma região afetada pelas mudanças climáticas .

Em quatro décadas, 54 pesquisadores monitoraram mais de 2.000 comunidades de plantas em 45 locais, do Alto Ártico canadense ao Alasca e à Escandinávia. Eles descobriram que mudanças drásticas nas temperaturas e nas estações de cultivo não produziram vencedores ou perdedores claros. Algumas regiões testemunharam grandes aumentos na população de arbustos e gramíneas e declínios na de plantas com flores – que têm dificuldade para crescer sob a sombra criada por plantas mais altas.

Essas descobertas, publicadas na Nature , preenchem lacunas importantes de conhecimento para equipes na linha de frente de um clima em mudança.

“A mudança climática está tão disseminada por todo o Ártico, e estamos vendo essa magnitude de aquecimento quatro vezes mais rápido do que no resto do planeta. Esperávamos ver tendências e trajetórias muito concretas. Porque em outros biomas, isso acontece”, disse a autora principal Mariana García Criado, pesquisadora de pós-doutorado em biodiversidade da tundra na Universidade de Edimburgo. “Mas o Ártico é um lugar especial e muitas vezes inesperado.”

Os pesquisadores descobriram maior riqueza de espécies em latitudes mais baixas e locais mais quentes, enquanto as espécies e áreas com maior crescimento — e perda — estavam em áreas com maior aumento de temperatura.

No Ártico ocidental do Canadá , por exemplo, Isla Myers-Smith e seu grupo de pesquisadores “Team Shrub” documentaram ecossistemas mudando rapidamente, onde a tundra está “ficando verde” a uma velocidade incrível, à medida que arbustos como o salgueiro avançam para o norte e crescem mais.

Os arbustos são altamente competitivos: crescem mais altos e ofuscam outras plantas, extraindo mais recursos no processo. À medida que se estabelecem, expulsam o algodoeiro, os musgos e os líquenes, que levam centenas – às vezes milhares – de anos para crescer. Temperaturas mais altas e estações de crescimento mais longas significam que essa tendência dificilmente diminuirá e, de forma mais ampla, em todo o Ártico, o número e a diversidade de plantas continuarão crescendo.

“Muitas vezes, quando pensamos nos impactos das mudanças climáticas no planeta, pensamos na perda de biodiversidade, mas na tundra com temperatura limitada, as mudanças climáticas são multifacetadas”, disse ela em um comunicado à imprensa.

Embora o aumento da biodiversidade possa parecer uma mudança benéfica para a região, especialistas alertam que essas mudanças têm um custo alto.

“Esses ecossistemas são tão frágeis que qualquer mudança na composição de espécies pode ter efeitos realmente fortes em todo o resto. As mudanças começam com as plantas, e se as plantas se movem, tudo acompanha”, disse García Criado, acrescentando que manadas de caribus estão entre as vítimas mais prováveis, já que áreas descampadas da tundra, favorecidas pelo líquen que eles gostam de comer, são substituídas por arbustos.

“Isso tem efeitos em cascata para os animais do Ártico que dependem dessas plantas, também para a segurança alimentar de todas as pessoas que vivem no Ártico, para as comunidades locais e indígenas, mas também para o funcionamento geral do ecossistema.”

Greg Henry, professor de geografia na Universidade da Colúmbia Britânica que ajudou a estabelecer o sistema de coleta de dados do estudo, disse que a pesquisa envolveu milhares de horas de trabalho de campo em locais remotos, com equipes “enfrentando condições climáticas extremas, nuvens de insetos picadores e até mesmo encontros ocasionais com ursos polares”.

Mas os pesquisadores não tinham dados suficientes para incluir musgos e líquens no estudo. Esses criptógamos são essenciais para o funcionamento do ecossistema, particularmente no Ártico, onde há uma rica diversidade de espécies.

García Criado disse que os resultados ressaltam a profunda incerteza na compreensão dos efeitos que as mudanças climáticas têm na vida — e a maneira como o Ártico frequentemente serve como um prenúncio de mudanças que estão por vir.

“Todas essas mudanças que estamos observando não se limitam ao Ártico. Podemos vê-las no Ártico, mas as consequências se espalham muito além dos limites da região”, disse ela. “Queremos entender essas mudanças. E então precisamos nos preparar para elas. Porque não é uma questão de se elas podem acontecer – é uma questão de quando.”


Fonte: The Guardian

Nova diretoria da Aduenf estabelece PCV como prioridade máxima. É hora de movimentar!

Após um longo intervalo, estou novamente na diretoria da Associação de Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Aduenf).  Essa não é a minha primeira jornada na diretoria da Aduenf, mas certamente possui elementos tão desafiadores quanto os que já presenciei em gestões anteriores.

A primeira coisa é que, graças a modificações feitas na estrutura das carreiras do serviço público, os professores, principalmente os que estão entrando na Uenf neste momento, se vê diante de uma profunda precarização de direitos e de condição laboral.  Além de não terem mais qualquer possibilidade de acesso a certos direitos (como os triênios), mesmo a obtenção daqueles que permanecem é dificultado pelo Estado, como é o caso do adicional por periculosidade.

Além disso, a tabela salarial praticada na Uenf é antiga, com a consequente desvalorização dos salários, que agora sequer possuem a possibilidade de terem alguma compensação que era garantida pela permanência no cargo. Como estamos em uma cidade no interior do estado do Rio de Janeiro que possui níveis altos de carestia, não há mais sequer a atração que havia quando a universidade foi criada em 1993 quando em Campos dos Goytacazes, os salários efetivamente valiam mais.

O resultado disso é que os poucos concursos que são autorizados pelo governo de Cláudio Castro geram poucos candidatos, ao contrário do que ocorre nas universidades federais. É que com as condições atuais, o cargo de professor da Uenf é simplesmente pouco atrativo para quem está em regiões mais desenvolvidas do Brasil.

Para piorar a proposta de um Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) está engavetada em algum lugar empoeirado no Palácio Guanabara que hoje é ocupado por um governador que claramente desdenha a importância das universidades estaduais. Cláudio Castro, o governador acidental, deixa isso claro ao ignorar a Uenf e sua importância estratégica para o desenvolvimento econômico e social do Rio de Janeiro nas poucas visitas que faz à nossa região.

A coisa não fica mais fácil com a presença de um deputado campista, Rodrigo Bacellar, na presidência da Alerj, já que até agora não se sabe de nada de prático que ele tenha feito para convencer seu aliado preferencial, o governador Castro, a se mexer em prol de uma demanda mais do que justa que é a aprovação de um novo PCV para a Uenf. E olha que Bacellar conhece bem (ou deveria conhecer) já que presidiu a extinta Fundação Estadual do Norte Fluminense (Fenorte) que fica instalada no prédio que hoje abriga a reitoria da Uenf.

No âmbito interno da universidade, a reitoria comandada por Rosana Rodrigues prefere investir no que a nova diretoria da Aduenf classifica de “bolsificação” que se traduz na distribuição de recursos via editais pouco claros em termos dos critérios de concessão, e na concessão de diversos tipos de “auxílios” que caem quando o professor se aposenta, causando uma perda salarial em torno de 30% na hora que o profissional mais precisa de recursos para sobreviver.  Lutar para que o PCV finalmente chegue na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro é coisa que a reitora parece achar que não é com sua administração. Com isso, a proposta aprovada pelo Conselho Universitário da Uenf em dezembro de 2020 permanece lacrado em paradeiro ignorado nos meandros da burocracia estadual.

Foi diante dessa situação desafiadora que eu aceitei compor a nova diretoria da Aduenf, pois estando relativamente próxima da minha aposentadoria que deverá ocorrer no início de 2029, me preocupa ver a universidade sendo precarizada em seu núcleo central de sustentação que são seus servidores, docentes ou não.

Mas para situações desafiadoras é sempre preciso ter foco e determinação, e é isso que me deixa animado em relação a estar novamente na diretoria da Aduenf. É que me parece claro que a maioria dos professores da Uenf entende perfeitamente a importância de se lutar contra a precarização das suas condições salariais e de trabalho, não apenas para aqueles que já estão, mas pelos que virão.

Tenho certeza que, como já ocorreu em muitas vezes no passado, a Aduenf saberá alcançar o tipo de protagonismo político que a presente situação demanda. Afinal, seguindo o que dizia meu no sentido de que “jacaré parado vira bolsa”, a hora é de se movimentar.

À medida que a agricultura regenerativa avança nos EUA, relatório da Amigos da Terra alerta para “Greenwashing”

Nestle, General Mills, PepsiCo and other food companies have pledged  support for regenerative agriculture. Is this a greenwashing campaign? -  Genetic Literacy Project

Por Carey Gillam para o “The New Lede” 

Anunciada como um tipo de sistema alimentar que funciona em harmonia com a natureza, a agricultura “regenerativa” está ganhando popularidade nas áreas rurais dos EUA, recebendo elogios em livros e filmes e como uma das metas do movimento Make America Healthy Again, associado ao novo Secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr.

Os defensores da agricultura regenerativa dizem que a prática pode mitigar as mudanças climáticas prejudiciais, reduzir a poluição da água e tornar os alimentos mais nutritivos, à medida que os agricultores se concentram em melhorar a saúde do solo, da água e dos ecossistemas.

Um número crescente de fazendas e ranchos nos EUA está obtendo a certificação para que os consumidores saibam que seus grãos, carne bovina, ovos e outros produtos são cultivados de forma regenerativa. Internacionalmente, a previsão é de que o mercado de agricultura regenerativa cresça dois dígitos entre 2023 e 2030.

Mas todo esse ímpeto vem com um lado negro e sujo, de acordo com um novo relatório que destaca o que está se tornando um debate cada vez mais controverso sobre os méritos da agricultura regenerativa.

O relatório divulgado na terça-feira afirma que programas regenerativos, que geralmente permitem o uso de herbicidas e outros produtos químicos, estão sendo usados ​​para praticar “greenwashing”, ou seja “maquiar de verde”, o uso rotineiro de vários agrotóxicos perigosos em campos agrícolas.

As corporações que vendem esses agrotóxicos estão ligadas ao movimento, incentivando financeiramente os agricultores a adotar práticas regenerativas, observa o relatório.

“Com bilhões de dólares — e o futuro do nosso sistema alimentar — em jogo, precisamos garantir que a prática da agricultura regenerativa seja robusta e protegida contra o greenwashing”, afirma o relatório de 29 de abril emitido pela Friends of the Earth (FOE), um grupo de defesa ambiental.

Citando dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), o relatório do FOE visa especificamente a produção de milho e soja, na qual os agricultores não cultivam o solo para erradicar ervas daninhas, como tradicionalmente é prática comum. Essas práticas de “plantio direto” são uma marca registrada da agricultura regenerativa, pois o preparo do solo pode ter múltiplos impactos ambientais negativos, incluindo a desorganização de microrganismos do solo considerados essenciais para a saúde das plantas.

Os hectares de plantio direto de milho e soja somam mais de 50 milhões, de acordo com o relatório da FOE. A “grande maioria (93%)” desses hectares depende de “agrotóxicos que prejudicam a saúde do solo e ameaçam a saúde humana”, afirma o relatório da FOE.

Aproximadamente um terço do uso anual total de pesticidas nos EUA pode ser atribuído exclusivamente ao milho e à soja cultivados em sistemas de plantio direto e mínimo, de acordo com a análise da FOE com base em dados do USDA. Estima-se que 61% do uso envolva pesticidas classificados como altamente perigosos para a saúde humana e/ou o meio ambiente, afirma o relatório.

A aposta da Bayer na regeneração

O novo relatório tem como alvo algumas das maiores empresas agroquímicas do mundo, incluindo a alemã Bayer, que comprou a gigante de sementes e produtos químicos Monsanto em 2018 e chama a agricultura regenerativa de sua “visão para o futuro da agricultura”.

“Produza Mais. Restaure a Natureza. Amplie a Agricultura Regenerativa ”, proclama a empresa em seu site.

O glifosato, ingrediente ativo dos herbicidas Roundup, introduzidos pela Monsanto na década de 1970, é o pesticida mais utilizado na produção de milho e soja em sistema de plantio direto. O herbicida foi classificado como um provável carcinogênico humano por especialistas em saúde mundial, e dezenas de milhares de pessoas processaram a Monsanto, alegando terem desenvolvido câncer devido ao uso dos produtos à base de glifosato da empresa.

Como parte de seu esforço pela regeneração, a Bayer oferece aos produtores recompensas pela adoção de determinadas práticas, incluindo a não lavragem do solo e o plantio de culturas de “cobertura” como forma de melhorar a saúde do solo. Os agricultores podem receber até US$ 12 por acre pela combinação de diversas “práticas de agricultura regenerativa”, promete a Bayer.

Para lidar com problemas de ervas daninhas em campos regenerativos, a Bayer recomenda uma combinação de estratégias, incluindo o “uso sustentável de herbicidas”.

Esse tipo de recomendação expõe a hipocrisia corporativa enraizada em práticas regenerativas de plantio direto, de acordo com a FOE.

“Empresas que fabricam agrotóxicos como Bayer e Syngenta capitalizaram o crescente interesse na saúde do solo promovendo o plantio direto convencional — que depende fortemente de seus pesticidas, sementes geneticamente modificadas e plataformas de agricultura digital — como regenerativo”, afirma o relatório da FOE.

Quando questionada sobre o relatório do FOE, a Bayer disse que produtos à base de glifosato, como o Roundup, são úteis para agricultores que estão implementando práticas agrícolas sustentáveis ​​e regenerativas.

“Ferramentas como o Roundup são essenciais, à medida que mais agricultores recorrem a práticas como o plantio de culturas de cobertura para reduzir a erosão, capturar umidade e sequestrar carbono no solo”, afirmou a empresa em um comunicado. “Produtos como o Roundup também permitem que os agricultores adotem medidas de plantio direto que ajudam a reduzir drasticamente a quantidade de carbono liberada pelo solo durante o preparo do solo.”

A Syngenta afirma que a agricultura regenerativa “pode sustentar a transformação dos nossos sistemas alimentares globais” e que “insumos químicos” podem ser úteis, embora em quantidades reduzidas.

Em março, a Syngenta anunciou uma parceria com a PepsiCo para “apoiar e impulsionar” os agricultores na transição para a agricultura regenerativa.

Regenerativo versus orgânico

O relatório surge em meio ao crescente rancor entre alguns na indústria orgânica estabelecida e o crescente movimento regenerativo, já que líderes de cada lado dizem que seus respectivos modelos são os melhores para fornecer alimentos saudáveis ​​e proteger a saúde ambiental e humana.

Em contraste com o movimento regenerativo relativamente jovem, a indústria orgânica opera dentro de uma estrutura estabelecida há mais de 30 anos, com supervisão por meio de um programa orgânico nacional dentro do USDA, com regras que geralmente proíbem pesticidas sintéticos e outros produtos químicos.

Os defensores dos produtos orgânicos concordam com o relatório da FOE, dizendo que certificar alguns produtos e marcas agrícolas como regenerativos é enganoso porque os agricultores que praticam a regeneração podem usar, e frequentemente usam, herbicidas químicos que são prejudiciais ao solo, às pessoas e ao meio ambiente.

Eles afirmam que descrever produtos como regenerativos se forem cultivados com produtos químicos dá aos consumidores uma falsa sensação de conforto em relação às práticas agrícolas utilizadas na produção de alimentos. E afirmam que, como a agricultura regenerativa não tem supervisão governamental nem padrões oficiais, a certificação privada pode ser facilmente corrompida.

“Os proponentes dos rótulos ‘regenerativos’ não orgânicos estão, na verdade, fazendo uma maquiagem verde na agricultura convencional e no uso de pesticidas tóxicos persistentes, bem como fertilizantes sintéticos de nitrogênio”, disse Gary Hirshberg, presidente da Organic Voices, um grupo de defesa da indústria orgânica.

“É científica e eticamente desonesto afirmar que se está regenerando o solo enquanto se usa produtos químicos sintéticos, que prejudicam os microrganismos do solo, e é ciência bem estabelecida que os sistemas de plantio direto na verdade exigem mais, e não menos, fertilizantes químicos e pesticidas”, disse Hirshberg.

Em contraste, acadêmicos e aqueles que buscam o crescimento de práticas regenerativas dizem que a saúde do solo está na raiz, literalmente, da saúde planetária e, mesmo que pesticidas sejam usados, eles podem ser usados ​​em níveis muito reduzidos em relação à agricultura convencional.

Eles dizem que os agricultores orgânicos geralmente cultivam seus campos para lidar com ervas daninhas, e essa prática é pior do que usar herbicidas.

“A ciência é muito clara sobre isso: há um benefício líquido maior em usar um herbicida para permitir o plantio direto do que evitá-lo completamente se  isso significar recorrer à lavoura”, disse Andrew Margenot, diretor associado do Centro de Sustentabilidade de Agroecossistemas da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign.

Os defensores das práticas regenerativas as veem como uma série de etapas que podem começar com plantio direto e uso de herbicidas e outros pesticidas, mas eventualmente se expandir para incluir uma série de táticas, como o uso de “culturas de cobertura” para aumentar a matéria orgânica do solo e limitar surtos de pragas, além da incorporação de gado e esterco animal em esforços de melhoria do solo.

O uso de todas as práticas regenerativas pode eventualmente eliminar a necessidade de produtos químicos ou reduzi-la drasticamente, dizem os proponentes.

A agricultura regenerativa envolve muito mais do que não cultivar o solo, disse Gabe Brown, um fazendeiro de Dakota do Norte, autor de um livro sobre os benefícios da regeneração e fundou uma empresa de certificação chamada Regenified para orientar agricultores e pecuaristas nessas práticas.

Embora Brown tenha dito que é um consumidor de alimentos orgânicos, ele acredita que os agricultores orgânicos que não usam produtos químicos, mas perturbam seus solos por meio do cultivo, também estão prejudicando o meio ambiente.

“Não se pode afirmar que o plantio direto, por si só, tornará uma fazenda regenerativa, assim como não se pode dizer que o orgânico, por si só, é regenerativo”, disse Brown. “Se um produtor orgânico arar com muita frequência, pode ser altamente degradante. Se um agricultor usa muitos sintéticos, pode ser degradante.”

Brown disse que o movimento orgânico “fracassou”, pois obter a certificação orgânica pode ser desafiador e custoso para muitos produtores. A regeneração oferece oportunidades para que mais agricultores cultivem alimentos mais saudáveis ​​e melhorem o meio ambiente, disse ele.

“O nível de interesse na agricultura regenerativa está realmente fazendo a diferença… é emocionante”, disse Brown.

Buscando mais fundos para orgânicos

Não cultivar o solo é um princípio fundamental das práticas regenerativas, mas o relatório do FOE afirma que os impactos do cultivo nem sempre são prejudiciais e que o uso rotineiro de pesticidas tem efeitos mais prejudiciais à saúde do solo do que o cultivo rotineiro.

Analisando apenas o milho e a soja convencionais de plantio direto, o relatório do FOE conclui que as “emissões equivalentes de CO2” associadas aos pesticidas e fertilizantes sintéticos usados ​​no cultivo dessas culturas são comparáveis ​​às emissões de 11,4 milhões de carros.

O relatório do FOE recomenda que, em vez de incentivar a agricultura sem plantio direto, que permite o uso de pesticidas, o Congresso aumente o financiamento para programas orgânicos, e os governos estaduais, locais e federais destinem mais recursos para pesquisas sobre tecnologias que possam erradicar ervas daninhas sem herbicidas químicos.

A FOE também pede:

  • Quaisquer definições de agricultura regenerativa promulgadas por governos federais, estaduais ou locais, certificações regenerativas públicas ou privadas, ou outras iniciativas regenerativas para centralizar e priorizar explicitamente a redução de agroquímicos se quiserem atingir seus objetivos declarados.
  • Os fabricantes e varejistas de alimentos devem definir metas mensuráveis ​​e com prazo determinado para eliminar gradualmente pesticidas tóxicos e fertilizantes sintéticos e fazer a transição para abordagens ecológicas e menos tóxicas em toda a sua cadeia de suprimentos de alimentos e bebidas.
  • O USDA aumentará os incentivos para fazendas que reduzirem drasticamente ou eliminarem o uso de pesticidas e fertilizantes sintéticos e aumentará a assistência técnica para estimular a adoção de práticas que reduzam os insumos agroquímicos.

“Dada a urgência das crises de saúde pública, biodiversidade e clima que enfrentamos, o crescente interesse na agricultura regenerativa deve ser aproveitado a serviço de abordagens robustas que realmente aumentem a saúde do solo e o sequestro de carbono, melhorem a qualidade do ar e da água, fortaleçam a resiliência dos agricultores e protejam a biodiversidade e o bem-estar humano”, afirma o relatório.


Fonte: The New Lede

Proteção Animal Mundial lança campanha “Vilões do Clima” em protesto contra a JBS

Alvo inicial é a JBS, que admitiu que não tem intenção de cumprir suas metas climáticas e, ainda assim, recebeu sinal verde para operar na Bolsa de Valores de Nova Iorque 

São Paulo, 29 de abril de 2025 – Um caminhão envelopado com imagens impactantes e mensagens que expõem a JBS como uma das vilãs do clima – campanha da Proteção Animal Mundial para expor empresas e entidades que colocam o planeta em risco por meio de suas atividades – passou por pontos estratégicos de São Paulo nos dias 28 e 29 de abril. A data foi escolhida para coincidir com a Assembleia Geral da JBS, realizada nesta terça-feira, na capital paulista.   

O caminhão circulou pelo centro histórico de São Paulo e por polos comerciais selecionados, alertando o cidadão comum e investidores sobre os impactos que a empresa tem gerado no meio ambiente.  

A ONG também passou com o veículo em frente ao BNDES, que via BNDESPar, é o maior acionista individual da JBS, com 20,81% das ações da companhia.  

“Boa parte dos recursos de um banco público vem dos impostos pagos pelos cidadãos. As pessoas têm o direito de se manifestar sobre o que o BNDES está chamando de desenvolvimento para o nosso país, ao escolher onde investir. Não queremos — e não podemos — financiar o desastre ambiental que é a pecuária industrial, nem apoiar sua maior representante, a JBS: uma empresa sem o controle total de sua cadeia produtiva, sem responsabilidade socioambiental e sem compromisso com o futuro”, explica Marina Lacôrte, gerente de sistemas alimentares da Proteção Animal Mundial.   

Marina relembra que, recentemente, um alto executivo declarou que as metas de reduzir emissões e zerar o desmatamento ilegal da empresa não passam de meras aspirações.  “A Procuradora-Geral do Estado de Nova York chegou a processar a JBS por greenwashing. Além disso, a Science Based Targets initiative (SBTi) — iniciativa global que valida metas climáticas empresariais — rebaixou o status da empresa para ‘compromisso removido’, por falta de evidências concretas. Esses fatos deixam claro que a JBS não demonstra sequer a intenção de se comprometer seriamente com a redução de suas emissões, muito menos de cumprir metas climáticas. Dar sinal verde para que a JBS opere na bolsa de Nova York é o oposto do que o mundo e a sociedade precisam. Sua expansão agravará ainda mais a crise climática, cujas consequências já estamos enfrentando”, avalia. 

Durante o protesto, a ONG colou cinco cartazes nos muros da empresa chamando a atenção sobre os efeitos nocivos da atividade da JBS no planeta. Em poucos minutos, funcionários retiraram o material. 

“Quero ver tirar o desmatamento de toda a sua cadeia de produção. Se fossem tão ágeis para resolver os problemas reais quanto foram para remover os cartazes, não precisariam apelar para greenwashing para tentar salvar a própria imagem”, afirma Marina.  

O veículo transitou também em frente às residências do Joesley Batista e seu pai. A ação foi finalizada com o caminhão circulando em frente à sede da JBS. 

Galões de agrotóxico viajam 300 km pelo rio Tocantins e são encontrados no Pará

Caminhão com mais de 25 mil litros de agrotóxicos caiu no rio após queda de ponte entre Maranhão e Tocantins, ocorrida em 22 de dezembro; falta de contenção e alta vazão do rio fizeram bombonas se deslocarem, mas apenas três pontos do rio são monitorados

A alta vazão do rio Tocantins, as águas turvas e a profundidade de mais de 40 metros dificultou o trabalho dos mergulhadores após desabamento de ponte. Buscas por galões de agrotóxicos estão suspensas desde janeiro (Foto: Divulgação/Marinha do Brasil)

Por Hélen Freitas/ Edição Diogo Junqueira para a Repórter Brasil 

Galões de agrotóxicos que caíram no rio Tocantins em dezembro, após o desmoronamento de uma ponte que ligava Maranhão e Tocantins, foram encontrados no Pará, a mais de 300 km do local do acidente. Algumas dessas substâncias são consideradas cancerígenas e podem causar riscos ao meio ambiente.

A informação consta em um documento do Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais) de fevereiro, obtido pela Repórter Brasil.

O desabamento da ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, entre Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO), completou quatro meses nesta semana. Ao todo 14 pessoas morreram, e três continuam desaparecidas. Os trabalhos de resgate foram suspensos em janeiro, após alta no nível do rio.

Três caminhões caíram da ponte na hora do acidente, carregados com milhares de litros de agrotóxicos e ácido sulfúrico. Um deles transportava mais de 25 mil litros de pesticidas à base de 2,4-D, picloram e acetamiprido, acondicionados em galões de 20 litros.

Segundo o órgão ambiental, algumas bombonas de agrotóxicos foram localizadas em Nova Ipixuna e Itupiranga, no Pará, “a partir de 10 de janeiro”, 19 dias após o acidente. Um jornalista local chegou a noticiar a descoberta na época.

Apesar de o Ibama e outros órgãos governamentais afirmarem que não foi identificada contaminação da água até o momento, moradores locais e especialistas ouvidos pela Repórter Brasil temem que mais galões tenham se espalhado e jamais sejam retirados do leito do rio Tocantins. 

“A gente nem sabe se a maioria das bombonas ainda continua embaixo da ponte, ou se já estão a quilômetros de distância. Isso é terrível”, afirma Fábio Kummrow, professor de toxicologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Bombona de agrotóxico percorreu mais de 300 km até chegar à comunidade Volta Redonda, em Nova Ipixuna, no Pará (Foto: Divulgação/Prefeitura de Itupiranga)Bombona de agrotóxico percorreu mais de 300 km até chegar à comunidade Volta Redonda, em Nova Ipixuna, no Pará (Foto: Divulgação/Prefeitura de Itupiranga)

O trabalho de retirada dos materiais teve início logo após o desabamento. Mas até 9 de janeiro, apenas 29 dos cerca de 1.300 galões haviam sido retirados pelas equipes do Ibama, da Marinha e do Corpo de Bombeiros do Tocantins. 

Com o aumento das chuvas, houve a necessidade de abertura das comportas da Usina Hidrelétrica Estreito, localizada três quilômetros acima do ponto do acidente. Isso levou o Ibama a suspender os trabalhos ainda em janeiro, pois a elevação do nível das águas tornou as condições de mergulho inseguras. 

À Repórter Brasil, o órgão ambiental disse que, por esses motivos, “não foi possível verificar a integridade das bombonas”. “Com o término de tal período [chuvoso], as atividades de mergulho deverão ser retomadas para verificação e recolhimento das que ainda se encontram no local”, diz a nota do Ibama.. Estima-se que sejam necessários 145 dias para a retirada dos galões. Não há previsão para o reinício dos trabalhos.

O Ibama foi questionado pela reportagem sobre a dispersão dos galões pelo rio Tocantins, mas não respondeu a essa pergunta até a publicação da reportagem.

Para Kummrow, deveria ter sido feito algum tipo de contenção para evitar que as bombonas se espalhassem. “Seria necessário um monitoramento a cada 50 km, por exemplo, porque todo o percurso do rio pode ter sido impactado. Não dá para ficar só ali onde aconteceu o acidente”, defende.

O professor explica que, apesar de as bombonas serem bem resistentes, o longo período embaixo da água, as colisões com pedras e outros sedimentos do rio podem ter aberto fissuras que permitem que pequenas quantidades estejam sendo despejadas, trazendo impactos ambientais.

O Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), órgão responsável pela ponte e que agora coordena o monitoramento da água, afirmou que não foram implantadas barreiras físicas de contenção devido a falta de viabilidade para a ação. “O rio Tocantins pode chegar a 48 metros de profundidade em alguns locais, com forte correnteza, o que impossibilitaria a instalação de equipamentos de contenção”. Leia a resposta completa.

(Mapa: Rodrigo Bento/Repórter Brasil)

Rio Tocantins é ‘elemento central’ na vida de comunidades

O rio Tocantins nasce em Goiás e flui mais de 2.400 km no sentido sul-norte, passando por Tocantins, Maranhão e Pará, onde recebe as águas do Araguaia, até desaguar na Baía de Marajó, próximo a Belém (PA). Ele é uma das principais fontes de água para os municípios ao longo do trajeto, além de ser usado na irrigação de lavouras, no sustento de comunidades pesqueiras e como opção de lazer para moradores. 

“Ele é muito mais do que um corpo d’água. É um elemento central em nossa vida cotidiana, economia e cultura”, afirma Conceição Amorim, coordenadora do Centro de Promoção da Cidadania e Defesa dos Direitos Humanos Padre Josimo, de Imperatriz (MA), cidade banhada pelo Tocantins.

Ela mostra indignação ao tratar da falta de informações dos órgãos públicos. “Eles não divulgam absolutamente nada! Não falam sobre estudos, sobre a situação da água, eles não dizem nada”, protesta Conceição. “Parece que já deram como certo que, por causa da profundidade do rio e da falta de estrutura e condições técnicas, infelizmente os galões vão acabar ficando lá no fundo mesmo”, declara.

Desde o acidente, ao menos cinco ações foram ajuizadas para cobrar explicações do Estado sobre o desabamento e exigir planos e prazos para a reconstrução. Uma delas foi movida pela organização de Imperatriz, que pede também o monitoramento contínuo do rio Tocantins, com adoção de medidas para conter os danos e mitigar a contaminação.

Análises de água não são divulgadas desde janeiro

Apesar dos pedidos da população, apenas dois testes de análise de água foram divulgados até o momento pelas autoridades. E um deles identificou o 2,4 D na água. Essa substância é utilizada na composição do “agente laranja”, usado pelo Exército norte-americano na guerra com o Vietnã para retirar a cobertura florestal e localizar soldados inimigos.

Em 24 de dezembro, dois dias após a queda do caminhão, o agrotóxico foi encontrado em uma amostra de água coletada em Porto Franco (MA), a 30 km abaixo do ponto do acidente. A ANA (Agência Nacional das Águas e Saneamento Básico), então responsável pelo monitoramento, afirmou à época que o valor detectado era “significativamente inferior à concentração máxima permitida pelo Ministério da Saúde” para os padrões de potabilidade da água. Disse também que a concentração encontrada é comum em rios que atravessam regiões agrícolas. 

Em comunicado conjunto no início de janeiro, emitido por ANA, Ibama e MMA (Ministério do Meio Ambiente), os órgãos afirmaram que uma nova amostra de água foi coletada no mesmo local, mas dessa vez a substância não foi detectada. Desde então, os resultados das análises não foram mais divulgados.

Em fevereiro, o Ibama repassou ao Dnit, órgão responsável pela ponte, a tarefa de monitorar a qualidade da água. Foi aplicado no caso o princípio do poluidor-pagador, pelo qual o responsável pelo dano ambiental custeia ações de reparação e prevenção.

Atualmente, estão sendo coletadas três amostras de água por mês: uma acima do local do acidente, outra abaixo e uma no ponto do acidente. Segundo o Dnit, a previsão é manter esse monitoramento até dezembro.

Cerca de 1.300 galões de agrotóxicos caíram no rio Tocantins após desabamento da ponte. Apenas 29 galões foram recolhidos até o momento (Foto: Divulgação/PM-TO)Cerca de 1.300 galões de agrotóxicos caíram no rio Tocantins após desabamento da ponte. Apenas 29 galões haviam sido recolhidos até 9 de janeiro, dias antes de os mergulhos serem suspensos (Foto: Divulgação/PM-TO)

Questionada pela Repórter Brasil, a ANA afirmou que “relatório elaborado pelo Dnit indica que não há alterações relevantes dos parâmetros de qualidade de água”. Já o Ibama declarou que “nenhuma alteração na qualidade da água foi identificada acima dos parâmetros previstos nas normas” desde o início do monitoramento. 

O Dnit, por sua vez, afirmou que todas as amostras coletadas desde fevereiro estão abaixo do limite de quantificação – valor mínimo que o equipamento de análise consegue medir de certa substância na água. “Mesmo que haja traços dessas substâncias no rio, suas concentrações não são relevantes ou preocupantes neste momento”, diz o Dnit (veja as respostas na íntegra).

No Brasil, o alerta para contaminação da água para consumo humano costuma ser acionado apenas quando os níveis de agrotóxicos detectados ultrapassam o valor máximo permitido por lei.

Repórter Brasilsolicitou à ANA e ao Dnit o acesso aos resultados das análises de agrotóxicos na água, mas os órgãos não enviaram os laudos.  

Especialistas apontam que há riscos do consumo contínuo de pequenas quantidades de agrotóxicos, mesmo quando estão dentro dos limites considerados seguros. O picloram, por exemplo, pode contaminar cursos d’água e afetar a biota aquática – seres vivos que habitam o ecossistema aquático. O 2,4-D é classificado como possivelmente cancerígeno pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, órgão da Organização Mundial da Saúde. Já o acetamiprido tem alta toxicidade para organismos aquáticos.

Logo após o acidente, a ANA chegou a dizer que a alta vazão do rio Tocantins ajudaria a diluir rapidamente os agrotóxicos, o que diminuiria os riscos para a população. Para Kummrow, da Unifesp, não é possível garantir essa afirmação sem que os resultados sejam divulgados à população.

“É muito fácil assumir que está chovendo, que a vazão está alta e que não há risco. É um discurso válido, mas sem dados numéricos, é um discurso vazio”, afirma. “Se está tudo normal, por que não divulgam os dados?”, questiona

NOTA DA REDAÇÃO: Este texto foi alterado às 16h de 25 de abril de 2025 para incluir novo posicionamento enviado pelo Dnit.


Fonte: Repórter Brasil