Terrorismo de barragens: como a Vale e outras mineradoras usaram o medo para remover comunidades e avançar sobre seus territórios

Tese do professor Daniel Neri mostra como mineradoras, em conluio com o velho Estado, manipulam alertas de risco para aprofundar a exploração e ampliar o controle sobre territórios ricos em minérios

Estrutura de Contenção a Jusante (ECJ) de Barão de Cocais, em 2020, e a comunidade de Tabuleiro, removida em fevereiro de 2019.: Foto de Júlia Pontes, National Geographic Society/Fonte: Neri (2023)

Por Henrique Santana para o ” A Nova Democracia” 

Os desastres-crimes ocorridos em Mariana (2015) e Brumadinho (2019) marcaram a história recente do Brasil como dois dos mais trágicos rompimentos de barragens de rejeitos de mineração.

Em Mariana, o rompimento da Barragem de Fundão, operada pela Samarco – uma joint venture da Vale e da BHP – despejou 50 milhões de metros cúbicos de rejeitos sobre a Bacia do Rio Doce, matando 19 pessoas e afetando milhares ao longo de centenas de quilômetros, até o litoral do Espírito Santo.

Quatro anos depois, em janeiro de 2019, o desastre-crime ocorreu novamente. O colapso da barragem da Mina Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, lançou cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos sobre o Rio Paraopeba. O impacto foi ainda mais devastador, com 272 mortes confirmadas, além de danos ambientais e sociais cujas consequências ainda persistem.

Mas, para além dos rompimentos, emergiu um novo tipo de violência: o uso do medo como instrumento de dominação territorial. Trata-se do que o professor Daniel Neri, em sua tese de doutorado defendida no Instituto de Geociências da Unicamp em 2023, denomina terrorismo de barragens — uma estratégia de acumulação por despossessão, pela qual o pânico é mobilizado para viabilizar a remoção de comunidades inteiras e a apropriação dos territórios pelas mineradoras.

O caso de Barão de Cocais

Duas semanas após a catástrofe de Brumadinho, em 8 de fevereiro de 2019, às duas da madrugada, viaturas da PM, agentes da Defesa Civil e funcionários da Vale bateram às portas dos moradores dos povoados de Socorro, Piteira, Tabuleiro e Vila do Gongo, em Barão de Cocais (MG). A ordem era direta e aterrorizante: “Esta é uma situação real de emergência de rompimento de barragem. Abandonem imediatamente suas residências.”

O pânico se espalhou. Famílias deixaram suas casas às pressas, algumas de carro, outras em ônibus fretados pela própria mineradora. O medo era alimentado pela memória recente da tragédia em Brumadinho. No entanto, como apontam os estudos do professor Daniel Neri, o episódio em Barão de Cocais não passava de uma manobra bem articulada. “Desde o primeiro minuto, o alerta foi questionado por moradores que conheciam bem a situação da barragem, que estava seca”, relatou Daniel Neri em entrevista ao AND. “Algumas famílias resistiram, mas foram removidas à força pela Polícia Militar semanas depois.”

A barragem Sul Superior, alvo do alerta, foi construída pelo método de alteamento a montante – o mesmo utilizado nas estruturas que se romperam em Mariana e Brumadinho. Trata-se do método mais barato e rápido.

Como apontado pela pesquisa de Neri, a Vale mantinha, desde 2017, um “Ranking de Barragens em Situação Inaceitável”, que listava as dez estruturas mais propensas a rompimento. A barragem B1 de Brumadinho, que se rompeu em janeiro de 2019, constava na lista. Já a barragem Sul Superior – que foi utilizada para justificar a remoção em Barão de Cocais – não aparecia entre as ameaças reais. Em setembro de 2018, a barragem ainda tinha laudo de estabilidade emitido. Subitamente, após o rompimento em Brumadinho, o laudo foi negado, sem qualquer evidência técnica robusta.

Após a negativa da empresa Walm em emitir a Declaração de Condição de Estabilidade (DCE) da barragem Sul Superior, inicia-se a manobra: a Vale comunica à Agência Nacional de Mineração (ANM) que acionaria o nível 1 do PAEBM (Plano de Ação de Emergência de Barragens de Mineração). Entretanto, o próprio PAEBM da barragem indicava que o nível 1 não exige retirada da população. Ainda assim, toda uma estrutura logística de evacuação já estava montada: ônibus, cadeiras de rodas para idosos, lanches, rotas de fuga. Como explica Neri, “essa estrutura de remoção  estava toda planejada, contrariando o discurso de emergência que usaram para tocar a sirene de madrugada.”

Horas depois, a ANM eleva o risco para o nível 2, justificando a evacuação da zona de autossalvamento.

No mesmo dia da evacuação, a Vale comunicou à Superintendência de Projetos Prioritários (SUPPRI), da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento (SEMAD), o início da obra “emergencial” de uma Estrutura de Contenção em Concreto Rolado – CCR. A autorização para esse tipo de intervenção, sem necessidade de licenciamento ambiental, só viria meses depois, com o decreto estadual nº 47.749, de 11 de novembro de 2019. “Por que correram para fazer o muro — que já era de interesse da empresa — e não para corrigir a barragem?”, questiona Neri.

Com a desocupação forçada de Tabuleiro, a estrutura deixou de ser apenas uma contenção e virou um passadiço logístico para conectar minas como a do Baú à planta de Gongo Soco. Essa ligação estratégica viabiliza o Projeto Apolo, um empreendimento da Vale na Bacia do Rio Santa Bárbara, área de grande importância hídrica e ambiental, mas também cobiçada pelo capital minerário.

“A evacuação das comunidades era necessária para essa expansão. Com o território desocupado e a flexibilização do licenciamento, a empresa pôde avançar com suas obras”, denuncia Neri.

Despossessão sistemática

Barão de Cocais não foi um caso isolado. A mesma estratégia foi aplicada em outras regiões de Minas Gerais. No mesmo dia 8 de fevereiro de 2019, a ArcelorMittal promoveu a evacuação de moradores da Comunidade de Pinheiros, em Itatiaiuçu, alegando negativa da DCE da barragem de Serra Azul. A empresa declarou que os testes foram “reavaliados” após Brumadinho, mas não apresentou nenhuma nova evidência técnica.

No distrito de São Sebastião das Águas Claras (conhecido como Macacos), em Nova Lima, em 16 de fevereiro de 2019, sirenes também soaram, evacuando a população próxima às barragens B3/B4, da Vale. As estruturas tinham DCE em dia e não figuravam no “ranking de risco” da empresa. Dias depois, a Vale requereu nova obra emergencial: outro muro de contenção. Três anos mais tarde, essa estrutura alagou o distrito. A suspeita é que a mineradora queira forçar a desvalorização das terras para ampliar a Mina Mar Azul.

Em Ouro Preto, no distrito de Antônio Pereira, 473 pessoas foram removidas após a elevação súbita do risco da barragem Doutor, da Vale. Com isso, a empresa construiu, sem o devido processo de licenciamento ambiental, um vertedouro e uma estrada para servir de rota alternativa à rodovia MG 129.

Nota-se um padrão: a mineradora recebe ou força a negativa de uma DCE, comunica um suposto risco, aciona níveis elevados de emergência e promove a evacuação em tempo recorde. Pouco depois, inicia obras que exigiriam licenciamento, mas que, sob a roupagem de “emergenciais”, são conduzidas sem fiscalização ou consulta pública. As decisões são tomadas em conselhos e câmaras técnicas com forte influência do setor minerário. “Trata-se de uma aliança entre Estado e capital”, afirma Neri.

A resistência

Apesar da força do capital minerário, a resistência popular não está derrotada. Daniel Neri destaca que as reações populares ainda são “localizadas e contraditórias”, mas que existe espaço para a luta organizada.

Um exemplo recente foi a vitória da população de Ouro Preto que barrou o pedido de anuência da mineradora Leão de Ferro, interessada em explorar uma mina confrontante com a região do Monumento Natural da Gruta da Lapa.

Vitórias como essa mostram que, mesmo diante do terrorismo das mineradoras e da conivência das instituições, a força das massas organizadas é capaz de frear os avanços do capital.


Fonte: A Nova Democracia

Aposta arriscada: BP abandona discurso verde, justamente no momento em que preços do petróleo caem

Na sua assembleia geral anual desta semana, a empresa enfrentará não só o investidor ativista que a persegue, mas também uma economia global que está sendo transformada por Donald Trump

Jovens empilham-se em uma escultura colorida, com blocos com slogans como "fatos falsos" e "conflito armado".

Ativistas da Extinction Rebellion protestam em frente à sede da BP em Londres esta semana. Fotografia: Ben Whitley/PA 

Por Jillian Ambrose para o “The Guardian”

Após o “dia da libertação” de Donald Trump na quarta-feira da semana passada, a BP perdeu quase um quarto de seu valor de mercado em uma derrocada ainda mais profunda do que a sofrida pela gigante do petróleo após o desastre da Deepwater Horizon. O colapso dos preços globais do petróleo após a ofensiva tarifária do presidente dos EUA pode ter eliminado bilhões de dólares de seu valor de mercado – mas Trump não é o único problema da BP.

A empresa petrolífera se reunirá com acionistas esta semana pela primeira vez desde que cedeu à pressão dos investidores para abandonar suas ambições de energia verde em favor de um retorno aos combustíveis fósseis, e seu presidente, Helge Lund, concordou em deixar o conselho .

Os dois recuos foram considerados a única defesa contra o avanço de um fundo de investidores ativistas agressivos que poderia significar a dissolução da empresa de 115 anos, que vem perdendo valor há anos.

A Elliott Asset Management, um temido fundo de hedge de Nova York, famoso por abalar empresas retardatárias, adquiriu uma participação substancial na BP no início deste ano. A empresa estaria em negociações com investidores importantes sobre o futuro da empresa após seu plano malfadado de se tornar uma empresa de energia verde.

A renúncia de Lund não poupará o conselho do constrangimento de uma discussão com os acionistas, muitos dos quais provavelmente protestarão votando contra a recondução do presidente, mesmo que ele já tenha decidido sair.

O conselho também pode ficar aliviado ao saber que seu maior inimigo ativista climático, o grupo de campanha de acionistas Follow This, decidiu não apresentar uma resolução pedindo maiores cortes de emissões na próxima reunião anual de acionistas em meio ao crescente antagonismo dos investidores em relação a questões ESG (ambientais, sociais e de governança).

A BP estabeleceu o plano para reduzir sua produção de combustíveis fósseis sob o comando do ex-presidente-executivo Bernard Looney no final de 2020, um ano antes de seus rivais do setor começarem a obter lucros extraordinários com a agitação dos mercados globais de petróleo e gás.

Ao mesmo tempo, o plano da BP de investir em projetos de energia de baixo carbono, incluindo dois gigantescos parques eólicos offshore em águas do Reino Unido, foi prejudicado pelo alto custo dos empréstimos e pelos gargalos na cadeia de suprimentos pós-pandemia, que elevaram os custos em todo o setor.

Após a saída humilhante de Looney da empresa no final de 2023, seu sucessor, o ex-diretor financeiro Murray Auchincloss, começou a diluir os planos verdes. Ele estabeleceu uma “redefinição fundamental” da estratégia da BP, culpando o otimismo “descabido” da empresa na transição verde.

Mas a reviravolta da BP para os combustíveis fósseis pode já estar fracassando. A petrolífera informou aos investidores na sexta-feira que seus resultados do primeiro trimestre do ano incluiriam números de produção de gás abaixo do esperado e um resultado comercial “fraco”.

De forma preocupante, a empresa revelou que a dívida líquida aumentou em US$ 4 bilhões (£ 3 bilhões) nos primeiros três meses do ano, à medida que os temores sobre a incerteza financeira global atingiram o auge.

A BP é considerada mais exposta às consequências das tarifas de Trump , que fizeram os preços de mercado do petróleo despencarem de quase US$ 75 o barril para menos de US$ 60 pela primeira vez em quase quatro anos, devido a temores de que uma guerra comercial levaria a economia global à recessão e reduziria o apetite mundial por petróleo bruto.

A empresa parece já ter sido mais afetada pela liquidação do que suas rivais nos EUA e na Europa. Desde o início do ano, suas ações despencaram quase 17%, enquanto a Shell perdeu pouco mais de 8% e as rivais americanas ExxonMobil e Chevron perderam cerca de 7% cada.

Analistas de ações do banco de investimentos UBS rebaixaram sua visão da empresa de “comprar” para “neutra” após alertarem que a queda nos preços do petróleo e do gás poderia reduzir os lucros da BP nos próximos anos em até um quinto.

A redefinição estratégica da BP “foi um primeiro passo importante para restaurar a confiança dos investidores, em nossa opinião”, disse Joshua Stone, analista de ações do UBS. “Os próximos passos, incluindo a redução da dívida líquida e a reposição da base de reservas, sempre levariam mais tempo para serem alcançados, mas o nível de incerteza financeira no mercado dificulta, em nossa opinião, a concretização, especialmente no que se refere à capacidade da BP de aumentar os lucros e vender ativos.”


Fonte: The Guardian

De que tipo de professor titular precisa a Uenf?


Por Carlos Eduardo de Rezende

O perfil desejado para um Professor Titular em uma instituição de ensino superior comprometida com a excelência no ensino e na pesquisa deveria refletir uma trajetória acadêmica sólida, um compromisso contínuo com a produção de conhecimento e uma postura ética e institucional exemplar. É de se esperar que o docente possua uma ampla produção científica de qualidade, demonstrada por publicações em periódicos qualificados, livros e capítulos de impacto. Experiência em pós-doutorado é desejável, mas não obrigatória, colaborações internacionais e participação em redes de pesquisa são diferenciais valorizados, por fortalecerem a inserção do pesquisador no cenário científico nacional e internacional.

Na área da pesquisa, é essencial que o Professor Titular atue como liderança acadêmica, sendo capaz de idealizar, coordenar e executar projetos de relevância, com captação de recursos e capacidade de articulação interdisciplinar. A formação de recursos humanos qualificados é parte central dessa atuação, o que inclui a orientação de estudantes de iniciação científica, mestrado e doutorado, e, a supervisão de pós-doutorandos, promovendo um ambiente de pesquisa crítico, inovador e socialmente comprometido. Sua produção intelectual deve trazer contribuições relevantes que dialoguem com os desafios contemporâneos, contribuindo para o avanço científico e, sempre que possível, gerando impactos sociais, ambientais, culturais ou tecnológicos.

No campo do ensino, há que existir um compromisso contínuo com a qualidade da formação na graduação e na pós-graduação. O docente deve demonstrar atuar na sala de aula e ser capaz de despertar o pensamento crítico e promover a autonomia dos estudantes. Além disso, deve colaborar ativamente na construção e atualização dos currículos, articulando ensino, pesquisa e extensão, e contribuindo para uma formação cidadã, democrática e inclusiva.

A atuação em extensão universitária também é fundamental para este perfil. O Professor Titular deve desenvolver ações que aproximem a universidade da sociedade, promovendo a popularização do conhecimento, a transformação social e o fortalecimento do compromisso público da instituição. Projetos de extensão que dialoguem com comunidades locais ou regionais e que promovam inclusão, sustentabilidade e justiça social são especialmente valorizados.

Espera-se, ainda, uma postura ética, colaborativa e institucional. O docente deve contribuir ativamente para a vida universitária, participando de colegiados, comissões e núcleos institucionais, demonstrando compromisso com a gestão democrática, a transparência e a equidade. Sua conduta deve respeitar a liturgia acadêmica, promovendo ambientes de trabalho pautados pelo diálogo e pela valorização da diversidade.

Por fim, é essencial que o Professor Titular tenha uma visão estratégica sobre o papel da universidade pública e demonstre espírito público em sua atuação. Deve ser capaz de pensar e propor caminhos para o fortalecimento da instituição, articulando seu trabalho com os grandes desafios da sociedade contemporânea.  É de se esperar que atue como formador de novas lideranças acadêmicas, contribuindo para a renovação do corpo docente e para a consolidação de uma universidade crítica, inclusiva e socialmente referenciada.

Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais da Uenf e pesquisador 1A do CNPq.

No Norte Fluminense,a soja é sonho para poucos, mas poderá ser pesadelo para muitos

Tenho acompanhado anúncios publicitários disfarçados de matérias jornalísticas dando conta do que se pode chamar de chegada da soja no Norte Fluminense. A produção é ainda residual, mas existe o incentivo para dar algum tipo de uso para as estruturas subutilizadas do Porto do Açu. Além disso, em face das pressões por reforma agrária em terras improdutivas, que são maioria por estas bandas, a ideia de plantar soja acaba sendo uma espécie de saída de oportunidade.  

Por essas e outras é que a soja se tornou uma espécie de sonho para latifundiários e autoridades municipais. Mas o que é um sonho para poucos poderá se tornar um pesadelo para a maioria. É que quem vende a ideia de que a soja pode prosperar por aqui, esquece oportunamente de dizer que esta monocultura só é viável com muito agrotóxico sendo aplicado ao longo de todo o processo, desde antes do plantio até a estocagem dos grãos.

Não é à toa que a soja sozinha é responsável pelo consumo de mais de 50% de todos os agrotóxicos consumidos no Brasil, incluindo produtos altamente tóxicos e perigosos para o meio ambiente, a começar pelos herbicidas Glifosato e Diquat. Como esta região já tem uma alta memória em seus solos e recursos aquáticos de agrotóxicos utilizados em outra monocultura, a da cana de açúçar, a expansão da soja significará ainda mais resíduos de produtos altamente venenosos na água que chega na torneira dos campistas, bem como na poeira que invade as casas quando venta forte na região.

Uma pesquisa publicada recentemente com os resultados de coletas feitas em residências na Europa encontrou resíduos de nada menos do que 197 agrotóxicos diferentes, a maioria deles oriunda de campos cultivados com esses venenos agrícolas. O estudo mostrou que esses resíduos chegaram na forma de poeira trazida pelos ventos ou até por animais domésticos que retornavam de seus passeios em áreas públicas.

De minha parte, considero que diferente dos anúncios publicitários em prol da soja e da monocultura de árvores, o que se precisa por aqui é de uma ampla reforma agrária que impulsione a produção de alimentos saudáveis, especialmente em um momento de altas incertezas sobre o comércio mundial que está causando a elevação contínua da cesta básica.

Além disso, é preciso que se cobra a imediata imposição de um mecanismo de licenciamento ambiental que estabeleça limites claros para as distâncias permitidas dos cultivos de soja em relação à áreas residênciais e corpos hídricos.  Do contrário, o que teremos pela frente será um cenário de ampliação do processo de contaminação ambiental e de adoecimento da população em fase da exposição às dezenas de agrotóxicos que são utilizados nos plantios de soja.

Cinzas de queimadas reduzem seres vivos e comida em ambientes aquáticos, sugere estudo

Experimento com mosquito que serve de bioindicador leva cientistas de três universidades federais a apontar impactos negativos dos incêndios florestais ainda pouco considerados em políticas públicas

Animais apresentaram deformações físicas e malformações que reduzem expectativa de vida. Na foto, mosquito adulto da espécie Chironomus sancticaroli. Foto: Ronnilda Araújo/Acervo Pessoal

Por Bruna Soares para o “Ciência UFPR” 

Incêndios florestais, além de devastarem quilômetros de áreas de vegetação, têm efeitos profundos e subestimados sobre os ambientes aquáticos. Isso é o que sugere uma pesquisa conduzida no Laboratório de Morfologia e Fisiologia de Culicidae e Chironomidae (Lamfic2) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) ao indicar que as cinzas originadas de incêndios florestais causam danos significativos a uma espécie de mosquito não picador usada como indicador de impactos ambientais sobre organismos aquáticos.

Ao verificar as consequências de cinzas de baixa a moderada intensidade, que são as mais comuns e com menos compostos químicos, a pesquisa demostrou que larvas de mosquitos não picadores da espécie Chironomus sancticaroli expostas as cinzas sofreram redução da capacidade de transporte de oxigênio e aumentaram sua capacidade de detoxificação aos metais. Além disso as cinzas foram capazes de aumentar o estresse oxidativo, ou seja, uma dificuldade de compensar danos sofridos em nível celular, o que expõe o ser vivo a doenças e complicações de desenvolvimento.

Além dos problemas biológicos, as larvas apresentaram retrocessos morfológicos, isto é, deformações corporais. Exibiram redução no tamanho corporal, sugerindo impactos do ambiente com cinzas no crescimento e no desenvolvimento da espécie.

Outros organismos aquáticos também foram afetados, incluindo girinos, peixes e minicrustáceos Daphnia magna. Esses animais apresentaram alterações comportamentais e celulares ao serem expostos às cinzas. Com isso, os resultados apontam que os incêndios florestais e a poluição por cinzas não afetam apenas uma espécie, mas toda a cadeia alimentar aquática.

Publicados na revista Journal of Hazardous Material, os resultados estão na tese de doutorado da pesquisadora Ronnilda Maria Gonçalves Araujo e são parte de um projeto mais amplo sobre os efeitos das cinzas pós-incêndio florestal sobre a natureza. Além da UFPR, o projeto conta com cientistas de outras duas instituições, as universidades federais de Santa Catarina (UFSC) e do Mato Grosso (UFMT).

Para Mário Antônio Navarro da Silva, professor do Departamento de Zoologia e coordenador do Lamfic2, o estudo avança ao expor impactos frequentemente ignorados das queimadas sobre os ecossistemas aquáticos.

“Os efeitos adversos sobre a biota aquática são profundos e afetam não só os organismos diretamente expostos, mas toda a cadeia trófica, que eventualmente pode impactar o consumo humano”, alerta Navarro.

Poluentes entram na cadeia alimentar e chegam aos seres humanos

Uma das dificuldades dos estudos de impacto de cinzas de queimadas sobre corpos d’água é definir a composição dessas cinzas. Isso porque as cinzas de incêndios florestais podem modificar de diferentes formas os parâmetros da água, como pH (medida de acidez), turbidez (grau de “sujeira” visível na água) e concentração de oxigênio. Para medir o melhor possível a situação, as amostras precisam ser coletadas rapidamente em relação ao incêndio.

As alterações causadas pelas cinzas comprometem a qualidade da água, tornando-a imprópria para consumo humano e afetando a saúde de outros organismos aquáticos. Quando a água contaminada por cinzas contém metais pesados e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs), conhecidos pela ligação com mutações genéticas e câncer, o risco à saúde humana se torna maior.

No caso, as amostras de cinzas foram recolhidas do Parque Nacional de São Joaquim, em Urubici (SC), em uma região montanhosa de Mata Atlântica. Nesse parque, as queimadas são de baixa intensidade, com impactos menos significativos para a fauna e a flora, e facilidade de contenção.

A análise de cientistas do Grupo de Química Ambiental da UFPR mostrou que as cinzas das pastagens contêm micro e nanopartículas com alta solubilidade — ou seja, se integram à água — e são ricas em metais e HPAs, poluentes de difícil degradação.

O experimento indicou que adicionar essas cinzas à água aumentou o pH — ou seja, mudou o ambiente deixando a água menos ácida — e os sólidos totais. Ao mesmo tempo, diminuiu os níveis de oxigênio dissolvido, um elemento essencial para a existência de fauna aquática.

Esses contaminantes também são capazes de se transferir para a cadeia alimentar, porque afeta seres que estão na base dessa cadeia. É o caso do Chironomus sancticaroli, que desempenha papel fundamental nos ciclos da natureza pelos quais matéria orgânica se transforma em nutrientes dentro d’água.

Como presas de peixes e outros animais, esses organismos contaminados podem resultar na bioacumulação de metais pesados e compostos tóxicos em níveis tróficos superiores, chegando eventualmente ao consumo humano.

Ensinamentos sobre políticas públicas e colaborações científicas

Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação de Biodiversidade da UFMT, Ronnilda Araujo avalia que o controle rigoroso de queimadas é necessário para minimizar os impactos da poluição por cinzas nos ecossistemas aquáticos, devido à vulnerabilidade deles.

Quando incêndios são seguidos por ventos e chuvas intensos, as cinzas são transportadas para os corpos d’água, aumentando a contaminação e os riscos para a fauna local e para as comunidades humanas que dependem desses recursos.

“É essencial que as políticas públicas se concentrem não apenas na prevenção de incêndios, mas também no monitoramento e no controle das cinzas após os incêndios. A preservação da saúde dos ecossistemas aquáticos é fundamental para garantir a sustentabilidade desses ambientes”.

A pesquisa sugere ainda que as queimas controladas, uma estratégia de prevenção a incêndios pela redução da vegetação seca, seja aplicada o mais distante possível de ambientes aquáticos, a fim de minimizar os impactos sobre a biodiversidade e a saúde pública.

Responsável por reunir a equipe de cientistas, a pesquisadora é orientada na UFMT pelo professor Bruno Renaly Souza Figueiredo, do Departamento de Ecologia e Zoologia da UFSC, coordenador de projetos de pesquisa sobre poluição de ambientes aquáticos por cinzas.

Em estudos anteriores, o grupo da UFSC indicou que a contaminação por cinzas impactar a cadeia alimentar ligada a rios e mares de duas formas: via bioacumulação e redução do estoque de pescado.

“Os organismos contaminados pelas cinzas podem transferir compostos tóxicos para animais maiores, como peixes, que, ao serem consumidos pelo ser humano, podem levar à intoxicação”, alerta Figueiredo.

A inserção da UFPR nessa dinâmica expande horizontes de atuação, propiciando ainda a interconexão de linhas de pesquisa já tradicionais na instituição, como a zoologia e a química ambiental.

“Colaborações não só aumentam a visibilidade, mas também favorecem a integração entre diferentes áreas do conhecimento e contribuem para o avanço das pesquisas interdisciplinares sobre as questões ambientais”, acredita Navarro.

Edição: Camille Bropp


Fonte: Ciência UFPR

Suderj informa: não vai ter “répi endi” na terra dos Goytacazes

Douglas Barreto da Mata

Dias desses assisti uma reportagem-propaganda do grupo Globo, em um de seus noticiosos. Na oportunidade, o grupo de mídia promovia o seu acervo cinematográfico, no caso concreto, o lançamento do Auto da Compadecida 2 (horrível, por sinal, um desserviço à memória de Suassuna, e da própria maravilhosa representação do primeiro filme).

A matéria tecia loas ao “poder transformador” do cinema, e mostrava cidades-locações, como Pacatuba e Cabaceiras. Pacatuba, no Ceará, foi o cenário das sequências de Cine Roliúdi 1 e 2, dentre outros, enquanto a paraibana Cabaceiras foi locação do Auto da Compadecida, quando recebeu o nome fictício de Taperoá. Deu tristeza e vergonha alheia. A tentativa da empresa de mídia Globo, e sua subsidiária cinematográfica, a Globo filmes, em descrever supostos benefícios e legados para o “desenvolvimento” daquelas cidades foi constrangedor. Porém, não se poderia esperar nada diferente, afinal, é da Globo que falamos.

O que dá desespero mesmo, não é assistir aquela pobre gente se pendurando em retalhos e memórias de uma grandeza que nunca houve, ou disputando nacos de um brilho que nunca existiu, a não ser pela convivência figurante e fugaz com uma indústria (do entretenimento) tão exógena quanto uma nave alienígena.

Não ficou nada em Cabaceiras ou Pacatuba, além de adereços que servem a uma subsistência de sub sub sub celebridades dos pobres (ainda mais pobres), que um dia foram tocados (de longe) pelo sonho de desenvolvimento de alguma atividade econômica que os livrasse daquela pobreza endêmica.  É mais ou menos o enredo e roteiro que estão a contar na planície goytacá, ou na “Campos dos Goytacazes, cidade de cinema”.

Eu nem vou mencionar a cafonice provinciana intelectual da classe média e certa parte da elite local, sempre ávidas por auto reconhecimento de virtudes culturais e civilizatórios que nunca cultivaram, não porque não falem “javanês”, mas pela conhecida selvageria das suas relações sócio-econômicas, que nos rendeu o título de uma das cidades mais conservadoras do país, terra da TFP, ou das usinas onde queimaram corpos de presos políticos da ditadura de 1964.

Não vamos perder tempo com isso, e de certa forma, vai ser divertido ver o “vendedor de monotrilho” destruindo o que resta de auto estima desse pessoal (ver episódio dos Simpsons, temporada 4, episódio 12, onde um forasteiro “engana” os moradores de Springfield, com promessa de grandeza, com a instalação de uma traquitana).

Vamos falar de história e seus contingentes. O cinema, como atividade econômica e, claro, como um produto histórico, não brota do chão ou é um “triunfo da vontade”(ver Mein Kampf, de Adolf,  sim aquele mesmo).

Não é um ato de abnegados e iluminados desbravadores, que chegam com miçangas e espelhos cinematográficos para a troca “civilizatória” com os bugres da terra, que por encanto começarão a prosperar com essa relação e seu legado. Bem, no caso dos índios e portugueses não deu muito certo.

Todo processo histórico de formação de uma atividade econômica, ainda que vinculada ao campo “cultural” ou do entretenimento, requer uma série de condições materiais específicas e próprias, ao mesmo tempo que obedece regras gerais, dinâmicas as quais chamamos de relações desenvolvimento dialético, para então se estabelecerem, com mais ou menos vigor, como um fenômeno perene. Sendo mais amplo ainda, é justamente esse o entrave que nos condenou ao nosso subdesenvolvimento como país. O entrave da história.

Há vários teóricos e teorias disponíveis sobre isso, e com mais ou menos acerto, todas as que merecem respeito concordam que não há espaço para voluntarismo, apesar de reconhecerem que é o agir humano que transforma a realidade, ao passo que é transformado por ela.

A ideia de que um festival de cinema vá dotar a cidade da condição e capacidade de receber algum tipo de reconhecimento ou atração de investimentos, para permitir a comunidade local ocupar-se nesse ramo econômico, desencadeando a virtuosa cadeia produtiva de emprego e renda, além do inestimado e incalculável patrimônio imaterial que o cinema proporciona, é uma tolice que, se não for tolice, é uma tentativa de levar que nos resta de pau-brasil, em troca de algumas plumas e bijuterias.

Não nego que seja atraente esse “sonho de grandeza”, a gente quase quer acreditar nessa chance de sermos “alguém”, sem cumprirmos os requisitos necessários, as danadas das condições materiais históricas.

Queremos o milagre, como não?  Não queríamos que o Senhor X, o Barão de SJB, o messias do porto, e agora arauto da supercana e ex presidiário, Eike Batista tivesse nos libertado de nossa pobreza? Claro que sim. Não queríamos uma Brigitte Bardot a fazer aqui o que fez no vilarejo de pescadores, não por coincidência, meca da elite caipira do chuvisco? Sim, queremos. Não queremos que o quiprocopolla do cinema da Uenf não transforme essa terra árida em um oásis de planos sequências de felicidade e prosperidade pela arte? Óbvio. Mas eu sinto dizer: não é desta vez, e não é com esse tipo de “santo”. E nem com santo algum.

O porto deu no que deu, gente desterrada de suas casas e ancestralidades, terra salgada e erodida no Açu, e muita pobreza, eis que SJB ainda ostenta índices criminosos de desenvolvimento humano.

Búzios virou lugar de argentino classe média baixa mal educada, um enclave de mega especulação imobiliária e desastre ambiental, onde os pescadores continuam em condições ainda piores, já que perderam as belezas naturais, e não conseguem acompanhar os preços inflados dos bens e serviços oferecidos ao turista.

O que será então de nossa cidade do cinema? Não, não vai haver “répi endi” na terra dos Goytacazes.

Inauguração da nova sede da UFF em Campos: uma conquista que merece celebração

Recebi o convite acima da professora Ana Maria Almeida da Costa, diretora do campus da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Campos dos Goytacazes, e não posso deixar de constatar que essa é uma importante conquista não apenas para a comunidade universitária da instituição, mas também para a cidade de Campos dos Goytacazes.

O fato inegável é que a inauguração das novas instalações representará um passo importante para a consolidação do campus da UFF em nossa cidade, possibilitando que haja as condições necessárias para o desenvolvimento pleno das capacidades acumuladas em seu corpo docente que até hoje exerciam suas atividades de ensino, pesquisa e extensão que não eram as ideais.

Para a cidade de Campos dos Goytacazes, a elevação das condições de funcionamento da UFF é uma oportunidade de ouro para que o conhecimento gerado em uma instituição altamente qualificada possa ser assimilada na forma de políticas públicas que colaborem para a resolução dos grandes desafios sociais e ambientais que pairam sobre o nosso horizonte, especialmente no tocante à miséria absoluta em que uma parte significativa dos campistas ainda vive.

Como professor de outra instituição pública,a Uenf, tive a oportunidade de contribuir pontualmente com a consolidação do Departamento de Geografia da UFF-Campos como membro de várias bancas de concursos públicos realizados para formar o seu corpo docente. Alguns dos aprovados naqueles concursos são hoje parceiros nas variadas atividades que compõe a vida universitária.  Por isso, desejo que a nova casa da UFF-Campos seja o que eles tanto esperaram e lutaram para que se tornasse realidade.

Muito sucesso à UFF-Campos e que sua comunidade universitária possa trilhar um brilhante caminho a partir dessa inauguração. 

 

Consumo de alimentos ultraprocessados aumenta a chance de doenças crônicas em mulheres

Mulheres com refeições baseadas em alimentos naturais e minimamente processados tiveram 28% menor chance de apresentar obesidade 

Mulheres brasileiras que consomem mais alimentos ultraprocessados – como refrigerantes, biscoitos recheados e salgadinhos de pacote – e menos alimentos in natura e minimamente processados – que são mais saudáveis – têm maior chance de apresentarem doenças crônicas e uma percepção negativa da própria saúde. É o que aponta um estudo publicado na sexta (11) na Revista Epidemiologia e Serviços de Saúde por pesquisadores das universidades Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

A pesquisa analisou dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde, coletados entre 2018 e 2021. Foram entrevistadas 102.057 mulheres, nas capitais dos estados e no Distrito Federal, que responderam sobre seus hábitos alimentares e doenças crônicas. Os pesquisadores, então, avaliaram se a alimentação das respondentes seguia a Regra de Ouro do Guia Alimentar para a População Brasileira. A publicação do Ministério da Saúde define que os alimentos in natura ou minimamente processados – e as preparações culinárias feitas com esses alimentos – devem ser a base de todas as refeições, enquanto produtos ultraprocessados devem ser evitados.

As mulheres com alta adesão à Regra de Ouro do Guia – ou seja, que têm uma alimentação mais saudável – mostraram 28% menor chance de apresentar obesidade, 15% menor chance de apresentar hipertensão, 31% menor chance de apresentar depressão e 45% menor chance de uma autoavaliação negativa de saúde quando comparadas às mulheres com baixa adesão – e que possuem, portanto, uma alimentação com maior participação de ultraprocessados. Já as mulheres com adesão moderada à Regra de Ouro do Guia mostraram 14% menor chance de apresentar obesidade e 28% menor chance de relatar uma percepção negativa da própria saúde em comparação com as mulheres com baixa adesão.

O trabalho também identificou diferenças socioeconômicas e demográficas entre os perfis alimentares. O grupo com alimentação menos saudável é composto, majoritariamente, por mulheres com menos de 35 anos, com nove a 11 anos de escolaridade, que autodeclararam cor da pele preta ou parda e sem presença de companheiro. Por outro lado, a maior adesão Regra de Ouro do Guia foi verificada em mulheres acima de 50 anos, com nível superior de escolaridade e com companheiro.

Taciana Maia de Sousa, professora da UERJ e uma das autoras do trabalho, ressalta a importância de pesquisas que olhem para a alimentação das mulheres. “Apesar de as mulheres serem frequentemente associadas a comportamentos mais saudáveis, as disparidades socioeconômicas de gênero impactam negativamente a sua capacidade de acessar alimentos mais saudáveis devido aos menores níveis de renda dessa população”, complementa. Sousa acrescenta que essa desigualdade agrava o risco de insegurança alimentar em famílias chefiadas por mulheres – que, hoje, representam mais da metade dos lares brasileiros.

Entre 2017 e 2021, o Brasil presenciou aumento na prevalência combinada de obesidade, diabetes e hipertensão entre mulheres, de 5,5% para 9,6%. “A redução do consumo de refeições tradicionais, incluindo o feijão, está diretamente ligada ao menor consumo de refeições em casa e ao aumento na ingestão de ultraprocessados e de refeições prontas”, exemplifica a autora. Segundo Sousa, a tendência está relacionada a mudanças no estilo de vida, como o aumento da carga de trabalho. Ela também cita a crise econômica enfrentada pelo país na última década, bem como a crise climática, que, combinadas, refletem no aumento do preço dos alimentos saudáveis, reduzindo o acesso a esses itens.

A fim de minimizar a presença de doenças crônicas em mulheres brasileiras, a professora defende ações que incentivem a adesão a uma alimentação mais saudável. “Políticas fiscais que reduzam impostos sobre alimentos in natura e minimamente processados, ao mesmo tempo em que aumentem a tributação sobre ultraprocessados e promovam a segurança alimentar são essenciais”, sugere. Sousa também destaca a importância de medidas mais amplas. “É necessário investir na infraestrutura urbana e nas condições de transporte, por exemplo, pois o longo tempo de deslocamento nas cidades reduz o tempo disponível para planejar e preparar refeições, favorecendo o consumo de ultraprocessados”, conclui.


Fonte: Agência Bori

‘Coquetel tóxico’: estudo encontra quase 200 agrotóxicos em casas europeias

Mais de 40% dos agrotóxicos encontrados na poeira estão associados a efeitos tóxicos, incluindo câncer e distúrbios hormonais

Uma rua estreita e sinuosa com edifícios amarelos em Florença.

O número de agrotóxicos em cada casa variou de 25 a 121. Fotografia: Roland Barat/Alamy

Por Helena Horton para o “The Guardian”

Quase 200 agrotóxicos foram encontrados por um estudo que examina a poeira em casas por toda a Europa , enquanto os cientistas dizem que os reguladores precisam levar em conta os “coquetéis tóxicos” de produtos químicos ao proibir ou restringir o uso destes insumos agrícolas.

Cientistas afirmam que suas pesquisas corroboram a ideia de que os órgãos reguladores devem avaliar os riscos representados pelos agrotóxicos quando reagem com outros produtos químicos, bem como individualmente. Eles afirmam que isso deve se aplicar tanto às substâncias já em uso quanto às que ainda não foram aprovadas.

Em descobertas preliminares do maior estudo desse tipo, cientistas que examinaram a poeira doméstica de casas em 10 países europeus em 2021 detectaram 197 agrotóxicos no total.

Mais de 40% dos agrotóxicos encontrados na poeira foram associados a efeitos altamente tóxicos, incluindo câncer e distúrbios do sistema hormonal em humanos.

O número de agrotóxicos em cada casa variou entre 25 e 121, e os níveis desses produtos tendiam a ser maiores nas casas dos agricultores.

O professor Paul Scheepers, do Instituto Radboud de Ciências Biológicas e Ambientais, disse: “Temos muitos estudos epidemiológicos mostrando que doenças estão associadas a misturas de agrotóxicos”.

Ele disse que os agrotóxicos presentes na poeira chegaram às casas das pessoas por meio dos sapatos, além de cães e gatos. “Se não tirarmos os sapatos na porta de casa, absorvemos muita sujeira de fora. Animais de estimação também são uma fonte”, disse Scheepers.

Há muitos estudos que indicam que os animais coletam certas contaminações, incluindo agrotóxicos, de ambientes externos. Outro grupo são os produtos de consumo que trazemos para casa, quaisquer agrotóxicos que compramos em lojas por determinados motivos, e uma fonte importante são os tratamentos contra pulgas e carrapatos para animais de estimação.

Embora as concentrações de cada agrotóxico na poeira fossem pequenas, as misturas de dezenas de produtos químicos poderiam ter um impacto na saúde, além de aumentar a exposição aos que também eram frequentemente encontrados em concentrações mais altas em frutas, vegetais e flores.

O estudo descobriu que o DDT permaneceu no meio ambiente apesar do produto ter sido proibido em alguns países em 1972.

Scheepers disse que aqueles que autorizam o uso de produtos devem levar em conta a persistência ambiental e que, mesmo que produtos como Pfas fossem proibidos agora, eles provavelmente permaneceriam no meio ambiente.

Os PFAs são conhecidos como “produtos químicos eternos” porque não se decompõem no meio ambiente. OS PFAs são usados ​​em uma ampla gama de produtos de consumo e processos industriais, e alguns têm sido associados a doenças graves em humanos e animais, incluindo câncer.

Scheepers disse: “Produtos como o DDT, que foram proibidos por muito tempo, são tão persistentes que se acumulam no meio ambiente, então estão constantemente circulando. Agora temos também o problema com o Pfas, que é exatamente uma repetição disso.

“Talvez os reguladores possam considerar a persistência dos produtos químicos – digamos que estabilidade química significa persistência no ambiente e também acumulação na cadeia alimentar; é provável que no futuro descubramos problemas semelhantes com outros produtos químicos persistentes.”

Os pesquisadores disseram que seu estudo revelou quais misturas de agrotóxicos foram encontradas no ambiente, para que os reguladores pudessem testá-las, bem como as combinações produzidas para uso comercial que eles já testaram.

A descoberta do DDT também significa que avaliações de risco de produtos mais novos podem precisar considerar interações com os mais antigos, eles disseram.


Fonte: The Guardian

Milhares de sistemas de água dos EUA contém níveis perigosos de produtos químicos cancerígenos

Por Carey Gillam para o “The New Lede” 

Milhões de pessoas nos Estados Unidos podem estar bebendo água contaminada com níveis perigosos de substâncias criadas quando as concessionárias de serviços públicos desinfetam água contaminada com esterco animal e outros poluentes, de acordo com um relatório divulgado na quinta-feira.

Uma análise dos resultados dos testes de sistemas de água comunitários em 49 estados descobriu que quase 6.000 desses sistemas, atendendo 122 milhões de pessoas, registraram um nível inseguro de produtos químicos conhecidos como trihalometanos pelo menos uma vez durante os testes de 2019 a 2023.

Os produtos químicos são subprodutos criados quando o cloro ou outros desinfetantes usados ​​em sistemas de água interagem com matéria orgânica, como folhas em decomposição, vegetação, resíduos humanos ou animais e outras substâncias. Um ou mais desses produtos químicos – clorofórmio, bromodiclorometano, dibromoclorometano e bromofórmio – têm sido associados a vários riscos à saúde humana, incluindo câncer. Como resultado, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) estabeleceu um nível médio anual máximo permitido de 80 partes por bilhão (ppb) para o que a agência chama de “trihalometanos totais” ou TTHMs. A regra, que se aplica a sistemas públicos de água, está em vigor há mais de duas décadas.

Os sistemas de água do Texas apresentaram a maior prevalência de sistemas de água com níveis inseguros de TTHMs, com mais de 700 desses sistemas atendendo mais de 8,6 milhões de pessoas relatando contaminantes acima dos 80 ppb da EPA, de acordo com o relatório emitido em 10 de abril pelo Environmental Working Group (EWG).

Nova York, Oklahoma, Califórnia e Illinois seguiram o Texas, com centenas de sistemas de água em cada um desses estados apresentando níveis de TTHM acima do permitido durante o período de teste, segundo o relatório do EWG. Mais de 64,5 milhões de pessoas são atendidas por 3.170 sistemas nos dez estados que apresentaram o maior número de violações.

“O esterco das fazendas industriais está poluindo nossos suprimentos de água, e quando as concessionárias tentam tornar essa água segura para beber, elas involuntariamente criam outro risco à saúde pública que aumenta o risco de câncer e defeitos congênitos”, disse Anne Schechinger, diretora do EWG para o Centro-Oeste, em uma declaração que acompanha a divulgação do relatório.

O relatório do EWG estabelece uma conexão entre os altos níveis de TTHMs e as operações pecuárias em larga escala, às vezes chamadas de operações de alimentação animal concentrada, ou CAFOs. Seis dos 10 estados que possuíam sistemas onde os testes mostraram contaminação igual ou superior ao “nível máximo de contaminante” (MCL) da EPA de 80 ppb pelo menos uma vez entre 2019 e 2023 estão entre os estados com maior número de bovinos, aves e/ou suínos, de acordo com dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) .

Muitos sistemas comunitários de água dependem de reservatórios e outras águas superficiais para abastecimento de água potável, que são frequentemente contaminadas com escoamento de campos agrícolas, incluindo pesticidas e esterco animal.

Embora o relatório tenha se concentrado em sistemas de água com níveis acima do MCL da EPA, evidências científicas dos últimos anos indicaram que o THM na água potável em níveis abaixo dos limites regulatórios atuais ainda aumenta os riscos de certos tipos de câncer. As pessoas também podem estar em risco por inalação durante o banho, de acordo com pesquisas .

Vários estudos relacionaram a exposição a TTHM a cânceres de bexiga e colorretal, e algumas pesquisas também descobriram que problemas durante a gravidez, incluindo natimortos, podem estar relacionados ao consumo de água contendo TTHMs durante a gravidez.

A diretriz de saúde do EWG para TTHMS na água potável é de 0,15 ppb, representando um risco de câncer ao longo da vida de um em um milhão, conforme mostrado pela pesquisa do EWG.

Não há razão para acreditar que os níveis inseguros tenham sido mitigados desde 2023, o período final para os testes abrangidos pelo relatório do EWG. As violações continuam.

Em fevereiro, autoridades municipais de Battle Creek, Michigan, encontraram níveis excessivamente altos de TTHM no sistema de água da cidade.

Em novembro, a cidade de San Angelo, Texas, foi notificada de que sua água excedeu os níveis permitidos pela EPA para TTHMs.

E em dezembro, a Comissão de Qualidade Ambiental do Texas notificou a Base Aérea de Goodfellow que a água potável da comunidade também excedia os níveis seguros.

“Algumas pessoas que bebem água contendo trihalometanos acima do MCL ao longo de muitos anos podem ter problemas no fígado, rins ou sistema nervoso central e podem ter um risco maior de desenvolver câncer”, alertou a agência estadual.


Fonte: The New Lede