1º de maio: dia de luta pelo fim da escala 6 x 1

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As inovações tecnológicas trouxeram um aumento da riqueza social, que não foi apropriado pela classe trabalhadora | Crédito: divulgação

A luta pelo fim da escala 6×1 nos provoca a defender o direito ao tempo

Por Geraldo Márcio Alves dos Santos, Charles Moreira Cunha e Sania Barcelos Reis 

1º de maio de 2026: qual bandeira de luta dignificaria essa data? Trazemos e defendemos o fim da expropriadora escala que impõe seis dias de trabalho e apenas um dia de “descanso”. A pauta atual e quase generalizada sobre a jornada de trabalho cresce em tamanho e qualidade, e traz um mote que unifica, fortalece e conscientiza à luta milhares de trabalhadoras e trabalhadores de diferentes setores da economia brasileira.

Houve um tempo em que o galo, em seu canto da alvorada, anunciava a hora de começar a trabalhar. Já o fim da jornada diária poderia ser anunciado pelo crepúsculo, por outra referência da natureza, pelo fim de uma determinada tarefa ou pela completa exaustão humana.

Thompson, em “Tempo, disciplina de trabalho e o capitalismo industrial”, fala em como a difusão e imposição do relógio mecânico, a partir da Revolução Industrial, desfazem de antigos hábitos sobre a jornada de trabalho. Essa extorsão do tempo foi mais cruel com as mulheres, uma vez que, em uma sociedade patriarcal, recai sobre elas o trabalho doméstico e o cuidado com os filhos, transformando o único dia de folga em trabalho invisível e não remunerado.

Nas últimas décadas, o trabalho humano e as inovações tecnológicas trouxeram um extraordinário aumento quantitativo da riqueza social. No entanto, por coerência do próprio sistema econômico, político e social, não há um justo acesso aos bens e serviços que resultam dessa riqueza e, tampouco, uma diminuição das horas extensivas para o descanso ou para a fruição da vida e, quando muito, apenas uma flexibilização dos intervalos dessa jornada, ou as duplas jornadas e, com efeito, o crescimento dos chamados “bicos”, “entregadores por aplicativos”, “diaristas”, etc.

Essa equação injusta ficou mais complexa e perversa com a resignificação dos espaços-tempo de trabalho e de exploração. Há uma regulação do trabalho que continua capturando as relações entre tempo de trabalho, agora mediadas pelas tecnologias digitais, especialmente uma que se tornou muito íntima e praticamente insuprimível entre nós: o telefone celular.

Marx, ao explicar a maquinaria, diz que essa subverte a ferramenta do artesão, enquanto extensão de seu próprio corpo, e passou a ditar o ritmo do trabalho. Por isso, é importante refletir: o telefone celular, essa tecnologia de comunicação, controle e minerador de dados, é uma ferramenta de extensão da vontade humana, ou já dita o ritmo do nosso trabalho e de nossas vidas?

Entretanto, se isso já está dado, e como parcela da sociedade ideologicamente reproduz, se a CLT está derrotada, se o mundo do trabalho é radicalmente novo, então, como diria Carlinhos Jardel: “qual será a razão de tanto barulho contra o fim da escala 6×1?”.

A luta pelo fim dessa escala despertou a centralidade do trabalho em nossas vidas e nos provoca a defender o direito ao tempo ou tempos da fruição pelo tamanho da riqueza social das vidas de toda a classe social trabalhadora. E, neles, os tempos e espaços das vidas confluem todos os sentidos do trabalho, quais sejam, melhorar todas as vidas humanas no presente e no futuro. Nesse sentido, essa é a melhor bandeira social dos últimos tempos no Brasil. Por uma vida digna, diversa, democrática e justa, que venha o fim da escala 6×1.

Geraldo Márcio Alves dos Santos, Charles Moreira Cunha e Sania Barcelos Reis são membros do Coletivo da Experiência do Núcleo de Estudos sobre Trabalho e Educação, da Faculdade de Educação (FaE) da UFMG.


Fonte: Brasil de Fato

UENF em luta: O significado do 1º de Maio no Rio de Janeiro

O 1º de Maio, mais do que uma data comemorativa, permanece como um marco histórico de  luta e afirmação coletiva. No Brasil — e de forma particularmente aguda no estado do Rio de Janeiro — o dia de hoje ganha contornos ainda mais urgentes: não se trata apenas de celebrar o trabalho ou os trabalhadores, mas de defender as condições mínimas para que se possa trabalhar com dignidade.

A imagem que inspira este texto traduz com força essa realidade. O campus Leonel Brizola, visto de cima, deixa de ser apenas um espaço físico e passa a simbolizar um território em disputa. Ali, onde deveriam florescer ensino, pesquisa e extensão, também é marcado pela resistência. A universidade pública, gratuita e de qualidade não é um dado garantido — é uma construção permanente, sustentada pelo trabalho cotidiano de professores, servidores técnicos e estudantes. 

No Rio de Janeiro, essa luta assume um peso particular. Décadas de instabilidade fiscal, má gestão, escândalos de corrupção e políticas de austeridade corroeram as bases do serviço público. As universidades estaduais, como a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, tornaram-se alvos recorrentes de corrosão salarial, cortes orçamentários e desvalorização institucional. O resultado é um cenário em que produzir conhecimento, formar profissionais e manter projetos de impacto social exige não apenas competência, mas resistência.

É nesse contexto que o 1º de Maio se reinventa como dia de denúncia e mobilização. As palavras de ordem que ecoam — por recomposição salarial, pela adoção do novo PCV, por investimento, por respeito à educação — não são retóricas vazias. Elas expressam a necessidade concreta de recompor condições de trabalho e de existência. Falar em valorização docente é, em última instância, falar sobre o futuro da própria sociedade.

 Defender a universidade pública no Rio de Janeiro hoje é também enfrentar um ambiente mais amplo de precarização social, marcado pela violência cotidiana e pela erosão da confiança nas instituições políticas. Nesse cenário, as universidades estaduais (Uenf e Uerj) se mantém como um espaços capazes de produzir conhecimento crítico, formar cidadania e oferecer alternativas para o desenvolvimento social.

Por isso, o 1º de Maio, neste contexto, não pode ser reduzido a uma celebração vazia. Ele é, antes de tudo, um chamado  à organização, à solidariedade e à ação coletiva. Um lembrete de que direitos não são concessões, mas conquistas — e que, como tal, precisam ser defendidos continuamente.

Celebrar o Dia do Trabalhador, portanto, é reafirmar um compromisso: com a educação pública e gratuita de qualidade, com os trabalhadores da educação e com a construção de um futuro que não seja refém do atraso, da negligência e da desigualdade. É preciso reconhecer que, enquanto houver luta, haverá também a possibilidade de transformação.