Escala 6×1 expõe núcleo duro do bolsonarismo no Congresso e sinaliza agenda de eventual governo Bolsonaro II

Com apenas 22 votos contrários ao fim da jornada exaustiva, bancada do PL — especialmente a ala catarinense — revela a agenda ultraliberal que poderá orientar um eventual governo Flávio Bolsonaro em 2026

A aprovação, por ampla maioria, da PEC que extingue a escala de trabalho 6×1 na Câmara dos Deputados revelou muito mais do que um simples embate sobre jornada de trabalho. O placar político mostrou um isolamento significativo dos setores mais conservadores do Congresso diante de uma pauta de forte apelo social, especialmente entre trabalhadores submetidos a rotinas exaustivas e salários baixos. Segundo levantamento publicado pelo UOL Notícias, apenas 22 deputados votaram contra a proposta.66x

O dado mais emblemático, porém, está na composição dessa minoria. Metade dos votos contrários veio do Partido Liberal (PL), legenda do pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro. Mais impressionante ainda é o fato de que nove desses parlamentares pertencem à bancada de Santa Catarina, transformando a seção catarinense do PL numa espécie de núcleo duro do bolsonarismo no Congresso Nacional.

A postura da bancada catarinense não surge do acaso. Santa Catarina consolidou-se, nos últimos anos, como um dos principais laboratórios políticos do bolsonarismo, reunindo parlamentares alinhados às pautas mais radicais da extrema direita brasileira. O fortalecimento da influência da família Bolsonaro no estado, inclusive com a articulação em torno de candidaturas ligadas diretamente ao clã bolsonarista, reforça esse perfil ideológico.

No debate sobre o fim da escala 6×1, esse alinhamento apareceu de forma cristalina. Enquanto a maioria da Câmara reconheceu o desgaste físico e mental provocado por jornadas contínuas e a necessidade de modernização das relações de trabalho, a ala mais radical do PL optou por se posicionar contra uma medida percebida por amplos setores da sociedade como civilizatória. O episódio ajuda a iluminar aquilo que muitas vezes fica obscurecido pelo discurso eleitoral genérico: quais interesses concretos seriam priorizados em um eventual governo liderado por Flávio Bolsonaro.

A votação também desmonta parte da tentativa recente de setores do PL de suavizar sua imagem junto ao eleitorado trabalhador. Mesmo após ensaios discursivos em defesa de modelos alternativos de jornada, integrantes da base governista acusaram o partido de tentar inviabilizar o avanço da proposta por meio de alterações consideradas desfiguradoras da PEC original.

No fim, a fotografia política deixada pela votação é bastante reveladora: de um lado, uma maioria parlamentar pressionada pelas demandas sociais por melhores condições de trabalho; do outro, um núcleo ideológico minoritário que segue apostando numa agenda ultraliberal e profundamente alinhada aos interesses patronais mais conservadores. A poucos meses da consolidação das alianças para as eleições de 2026, o episódio funciona quase como uma antecipação prática do que estaria em jogo numa eventual vitória presidencial do bolsonarismo.

1º de maio: dia de luta pelo fim da escala 6 x 1

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As inovações tecnológicas trouxeram um aumento da riqueza social, que não foi apropriado pela classe trabalhadora | Crédito: divulgação

A luta pelo fim da escala 6×1 nos provoca a defender o direito ao tempo

Por Geraldo Márcio Alves dos Santos, Charles Moreira Cunha e Sania Barcelos Reis 

1º de maio de 2026: qual bandeira de luta dignificaria essa data? Trazemos e defendemos o fim da expropriadora escala que impõe seis dias de trabalho e apenas um dia de “descanso”. A pauta atual e quase generalizada sobre a jornada de trabalho cresce em tamanho e qualidade, e traz um mote que unifica, fortalece e conscientiza à luta milhares de trabalhadoras e trabalhadores de diferentes setores da economia brasileira.

Houve um tempo em que o galo, em seu canto da alvorada, anunciava a hora de começar a trabalhar. Já o fim da jornada diária poderia ser anunciado pelo crepúsculo, por outra referência da natureza, pelo fim de uma determinada tarefa ou pela completa exaustão humana.

Thompson, em “Tempo, disciplina de trabalho e o capitalismo industrial”, fala em como a difusão e imposição do relógio mecânico, a partir da Revolução Industrial, desfazem de antigos hábitos sobre a jornada de trabalho. Essa extorsão do tempo foi mais cruel com as mulheres, uma vez que, em uma sociedade patriarcal, recai sobre elas o trabalho doméstico e o cuidado com os filhos, transformando o único dia de folga em trabalho invisível e não remunerado.

Nas últimas décadas, o trabalho humano e as inovações tecnológicas trouxeram um extraordinário aumento quantitativo da riqueza social. No entanto, por coerência do próprio sistema econômico, político e social, não há um justo acesso aos bens e serviços que resultam dessa riqueza e, tampouco, uma diminuição das horas extensivas para o descanso ou para a fruição da vida e, quando muito, apenas uma flexibilização dos intervalos dessa jornada, ou as duplas jornadas e, com efeito, o crescimento dos chamados “bicos”, “entregadores por aplicativos”, “diaristas”, etc.

Essa equação injusta ficou mais complexa e perversa com a resignificação dos espaços-tempo de trabalho e de exploração. Há uma regulação do trabalho que continua capturando as relações entre tempo de trabalho, agora mediadas pelas tecnologias digitais, especialmente uma que se tornou muito íntima e praticamente insuprimível entre nós: o telefone celular.

Marx, ao explicar a maquinaria, diz que essa subverte a ferramenta do artesão, enquanto extensão de seu próprio corpo, e passou a ditar o ritmo do trabalho. Por isso, é importante refletir: o telefone celular, essa tecnologia de comunicação, controle e minerador de dados, é uma ferramenta de extensão da vontade humana, ou já dita o ritmo do nosso trabalho e de nossas vidas?

Entretanto, se isso já está dado, e como parcela da sociedade ideologicamente reproduz, se a CLT está derrotada, se o mundo do trabalho é radicalmente novo, então, como diria Carlinhos Jardel: “qual será a razão de tanto barulho contra o fim da escala 6×1?”.

A luta pelo fim dessa escala despertou a centralidade do trabalho em nossas vidas e nos provoca a defender o direito ao tempo ou tempos da fruição pelo tamanho da riqueza social das vidas de toda a classe social trabalhadora. E, neles, os tempos e espaços das vidas confluem todos os sentidos do trabalho, quais sejam, melhorar todas as vidas humanas no presente e no futuro. Nesse sentido, essa é a melhor bandeira social dos últimos tempos no Brasil. Por uma vida digna, diversa, democrática e justa, que venha o fim da escala 6×1.

Geraldo Márcio Alves dos Santos, Charles Moreira Cunha e Sania Barcelos Reis são membros do Coletivo da Experiência do Núcleo de Estudos sobre Trabalho e Educação, da Faculdade de Educação (FaE) da UFMG.


Fonte: Brasil de Fato