Ritmo de adaptação de florestas tropicais é mais lento que o necessário para fazer frente à crise climática

Árvores de grande porte e madeira densa são as mais afetadas. Pesquisas publicadas recentemente nas revistas Science e Nature alertam para a possibilidade de empobrecimento radical dos biomas

Mata Atlântica: o Núcleo Santa Virgínia, localizado no Parque Estadual da Serra do Mar, município de São Luiz do Paraitinga (SP), é uma das áreas pesquisadas no estudo (foto: Carlos Alfredo Joly)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP 

A crise climática está afetando as florestas tropicais de maneira acelerada, enquanto os processos ecológicos que regem sua adaptação ocorrem em ritmo muito mais lento. Duas pesquisas recentes, publicadas nas revistas Science e Nature, investigaram como as florestas tropicais estão respondendo às mudanças climáticas e quais são as implicações disso para a biodiversidade e a ciclagem do carbono. Os estudos indicam que as florestas estão mudando, sim, mas não na velocidade necessária para acompanhar o ritmo do aquecimento global.

“O que estamos vendo é que as florestas tropicais das Américas estão tentando se adaptar às mudanças climáticas, mas de forma bem mais lenta do que esperaríamos”, diz Jesús Aguirre-Gutiérrez, professor da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e primeiro autor dos dois artigos.

Gutiérrez informa que a crise climática está levando as florestas tropicais a mudarem sua composição, com um aumento de espécies decíduas, aquelas que perdem as folhas na estação seca. “Essas espécies têm uma vantagem em períodos de menor precipitação e temperaturas elevadas, pois podem reduzir a perda de água nesse contexto. No entanto, mesmo essa adaptação não está ocorrendo com rapidez suficiente para acompanhar a transformação do clima.”

Os dados revelam que espécies de grande porte, que desempenham papel fundamental na estrutura da floresta e na captura de carbono, estão sendo substituídas por espécies menores e de menor densidade. “Observamos que as espécies que se regeneram com maior facilidade não são as de grande porte e de madeira mais densa, mas sim aquelas com maior plasticidade adaptativa. Isso reduz a capacidade de estocagem de carbono da floresta e pode afetar os modelos climáticos, já que a capacidade fotossintética será menor no futuro”, afirma Carlos Alfredo Joly, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e coautor dos dois artigos.

Monitoramento contínuo

Os estudos foram possíveis graças a décadas de monitoramento ecológico, utilizando parcelas permanentes de um hectare cada em diferentes regiões tropicais. As informações foram complementadas por imagens de satélite. “Os dados que utilizamos no artigo da Science vêm de parcelas distribuídas do México ao sul do Brasil”, conta Aguirre-Gutiérrez. “São 415 parcelas e foram necessários muitos anos para coletar essas informações. Agora, com imagens de satélite e modelagem, podemos expandir essa análise para outras regiões tropicais, como a África e a Ásia, onde os dados de campo são mais escassos.”

Essa abordagem permitiu mapear atributos funcionais das florestas tropicais, como a morfologia e a química das folhas, a estrutura da vegetação e a presença de espécies decíduas. “No estudo da Nature, utilizamos modelagem com dados do satélite Sentinel-2 da Agência Espacial Europeia, que nos permitiu criar mapas da distribuição desses atributos nos trópicos”, destaca Aguirre-Gutiérrez. “Isso nos dá uma visão detalhada de como as florestas estão mudando e nos ajuda a projetar cenários futuros.”

As pesquisas apontaram que as mudanças nas florestas tropicais podem levar à perda de biodiversidade e a um empobrecimento estrutural desses biomas. “Espécies de grande porte, como jatobás, ipês, perobas e jequitibás, estão desaparecendo porque não conseguem acompanhar as mudanças climáticas”, alerta Joly. “Na Amazônia, árvores icônicas como a castanheira-do-pará e as copaíbas também estão em risco. Além de seu valor próprio, como fontes de alimentos e medicamentos, essas espécies são fundamentais para a captura de carbono e a manutenção da biodiversidade.”

A transição para florestas dominadas por espécies mais adaptáveis pode ter implicações profundas. “Constatamos que as florestas estão se tornando mais suscetíveis à mortalidade em larga escala”, comenta Simone Aparecida Vieira, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam) da Unicamp e integrante da coordenação do Programa BIOTA-FAPESP. “Isso compromete funções ecossistêmicas essenciais, como a regulação do ciclo do carbono e da precipitação. O colapso florestal pode aumentar o carbono na atmosfera e reduzir a formação de chuvas, intensificando ainda mais a crise climática.”

Diante desse cenário, a conservação e a restauração das florestas tropicais tornam-se ainda mais urgentes. No entanto, simplesmente proteger áreas degradadas, apostando no processo de sucessão, pode não ser suficiente. “Se uma área degradada for protegida, as espécies nobres reaparecerão espontaneamente no processo natural de regeneração? A resposta curta é não”, afirma Joly. “Experimentos de restauração mostram que essas espécies apresentam uma taxa de mortalidade alta, mesmo quando plantadas. Elas crescem lentamente e são vulneráveis a eventos extremos.”

Além disso, a fragmentação das florestas dificulta a regeneração. “A perda de conectividade entre fragmentos florestais leva ao empobrecimento da biodiversidade”, explica o pesquisador. “Em áreas isoladas, a dispersão de sementes por animais como cutias, pacas e macacos fica comprometida, dificultando a regeneração de espécies vegetais importantes.”

Uma das soluções propostas é a regeneração natural assistida (assisted natural regeneration), que consiste no plantio de espécies adaptadas às novas condições climáticas. “Com os dados que temos, podemos identificar quais espécies nativas estão mais bem adaptadas ao clima atual e priorizar seu plantio”, sugere Aguirre-Gutiérrez. “Isso pode aumentar as chances de sucesso dos programas de reflorestamento.”

Apesar dos avanços tecnológicos no monitoramento das florestas, os pesquisadores enfatizam que o trabalho de campo continua sendo indispensável. “A gente tem de continuar investindo em trabalho de campo, colocando recursos para que pesquisadores no México, no Brasil e em outros países possam coletar dados”, destaca Aguirre-Gutiérrez. “Não podemos fazer tudo apenas com satélites. Precisamos de dados de campo para validar e aprimorar os modelos.”

As descobertas desses estudos reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas para a conservação das florestas tropicais, aliando ciência, tecnologia e principalmente ações concretas para mitigar os impactos das mudanças climáticas. “A ecologia tem mostrado cenários cada vez mais preocupantes”, conclui Vieira. “Se não agirmos agora, as florestas tropicais podem perder sua função ecológica antes que consigam se adaptar ao novo clima.”

Os estudos receberam apoio da FAPESP por meio de cinco projetos (03/12595-712/51509-812/51872-519/24049-5 e 22/14605-0).

O artigo Tropical forests in the Americas are changing too slowly to track climate change pode ser acessado em: www.science.org/doi/10.1126/science.adl5414.

E o estudo Canopy functional trait variation across Earth’s tropical forests está disponível em: www.nature.com/articles/s41586-025-08663-2.


Fonte: Agência Fapesp

Lerdeza e discursos vazios retardam a adaptação climática e agravarão os custos da elevação do mar no Brasil

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Com as evidências irrefutáveis de que nas próximas décadas teremos uma elevação importante no nível médio do mar seria de se esperar que os governantes brasileiros estivessem soando os alarmes de emergência.  Afinal, a previsão de que regiões inteiras estão destinadas a serem invadidas pelas águas oceânicas é algo que não se pode dar simplesmente de ombros, pois os custos econômicos e humanos prometem ser colossais.

Mas o que se vê é uma combinação de ignorância premeditada e a aplicação de fórmulas que são uma espécie de enxuga gelo debaixo de temperaturas equatoriais.  Isso, é preciso que se diga, é uma completa irresponsabilidade já que os estudos científicos estão trazendo informações que deveriam ser levados com a devida seriedade.

Agora, segundo o que foi divulgado por um veículo da mídia corporativa campista, o que teria declarado a Prefeitura Municipal de São João da Barras após a forte repercussão de um relatório da ONU que prevê que Atafona é um hotspot  no processo de intrusão de águas marinhas nas regiões costeiras do planeta:

“Dentro desse contexto, a orientação foi para a elaboração de um estudo de viabilidade técnica e econômica para que seja analisado o atual cenário para as possíveis soluções. O município já contratou a elaboração do termo de referência e está nas fases finais da elaboração do edital de licitação para a contratação deste estudo. Há um processo de aquisição de uma área em Atafona para construir casas populares para essas pessoas que foram atingidas”.

Atafona, distrito do RJ que vem sendo engolido pelo mar, serve de alerta  para erosão costeira - 13/11/2021 - Ambiente - Folha

O Distrito de Atafona vem sendo engolido pelo mar,  mas até agora nada foi feito para conter o processo

Essa resposta parece ser uma mistura da tática do enxugar gelo com a ideia tosca de que vai bastar mover casas de um ponto para outro para que os impactos da chegada das águas marinhas seja resolvido.  Além disso, falar a estas alturas na contratação de um estudo de viabilidade técnica e econômica para definir possíveis soluções é como aquele sujeito que fala em em comprar detectores de fumaça logo após a sua casa ser totalmente consumida por um incêndio.

Sem ter lido os programas de governo dos candidatos a prefeito de São João da Barra, a começar pelo da atual prefeita, Carla Caputi, eu sou capaz de prever que não há nenhuma menção de que será adotada a adoção de uma política pública voltada para preparar o município para a necessária adaptação ao irreversível processo de mudança climática que está ocorrendo na Terra neste momento, mas cujos efeitos mais drásticos serão sentidos nos próximos anos e décadas.

O mais lamentável é essa lerdeza em adotar medidas urgentes ainda custará muito dinheiro e vidas com o tipo de postura que se verifica nos governantes dos estados e municípios costeiros do Brasil.

Mas como não quero dizer que não dei dicas propositivas e apenas critiquei, republico abaixo os mapas contendo as previsões para as áreas que serão inundadas em São João da Barra com diferentes cenários de elevação do nível médio do mar. Como se pode inferir a partir desses mapas,  o problema da intrusão das águas marinhas está longe de estar restrito a Atafona.

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Acordo da COP28 ignora o financiamento para uma adaptação justa

fossil freeMembros de um movimento de ação climática protestam contra os combustíveis fósseis em Pittsburgh, EUA, em 2022. Durante as negociações da COP28, os países comprometeram menos de 200 milhões de dólares para o Fundo de Adaptação da ONU. Direitos autorais: Mark Dixon, (CC BY-ND 2.0 DEED).

[DUBAI] O pacto final nas negociações climáticas da COP28 da ONU, que apela a uma mudança global dos combustíveis fósseis, não consegue fornecer o financiamento necessário para permitir que os países mais pobres façam a transição para uma energia mais verde e se adaptem às alterações climáticas, dizem os observadores.

O texto acabou acordado nas negociações, conhecidas como COP28, na quarta-feira (13 de dezembro), fechando a cortina de duas semanas de negociações em Dubai, instando os países a “fazerem a transição para longe dos combustíveis fósseis” – uma novidade nas negociações climáticas da ONU.

No entanto, não chegou a um apelo há muito exigido pela “eliminação progressiva” do petróleo, do carvão e do gás, apoiado por mais de 100 nações.

“Não é suficiente fazermos referência à ciência e depois fazermos acordos que ignoram o que a ciência nos diz que precisamos de fazer.”

Anne Rasmussen, negociadora principal, Samoa

“É uma direção para o nosso objetivo, mas não é suficiente”, disse Fatima Yamin, conselheira sobre adaptação climática e desastres climáticos no Paquistão.

“Infelizmente, as decisões críticas sobre o financiamento da adaptação e a elevação do nível do fundo para perdas e danos não foram alcançadas.

“Sim, a ‘transição dos combustíveis fósseis’ é crítica, mas os países em desenvolvimento precisam de tecnologia e de fundos para se adaptarem, o que não será tão eficaz se as decisões sobre os fundos de adaptação não forem aceleradas.”

O acordo diz que os países precisam de apresentar um plano nacional de adaptação até 2030, mas não diz de onde deverá vir o dinheiro.

Um relatório da ONU divulgado em novembro descobriu que os países em desenvolvimento precisarão de até 18 vezes mais financiamento do que recebem atualmente para suportar os impactos da mudanças climáticas.

Durante as conversações, os países comprometeram menos de 200 milhões de dólares para o Fundo de Adaptação das Nações Unidas, que ajudará as comunidades vulneráveis ​​a modificar práticas face às alterações climáticas.

Rascunho do texto deslocado

Um projecto de texto divulgado na segunda-feira foi amplamente criticado pela sua linguagem fraca sobre a redução dos combustíveis fósseis. A Aliança dos Pequenos Estados Insulares descreveu-o como uma “certidão de óbito” para os seus habitantes.

O presidente da COP28, Sultan Al Jaber, que também é chefe da Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi, foi aplaudido de pé quando bateu o martelo sobre um acordo final na manhã de quarta-feira, apesar de evitar as palavras controversas “eliminação gradual”, contestadas por a Organização dos Países Exportadores de Petróleo.

“Pela primeira vez temos linguagem sobre combustíveis fósseis”, anunciou Al Jaber, sob aplausos.

Jauad El Kharraz, diretor executivo do Centro Regional de Energia Renovável e Eficiência Energética, disse que o acordo final foi uma “formulação de compromisso” entre aqueles que apoiam o fim total dos combustíveis fósseis e “as partes que se recusam a cortar os combustíveis fósseis em dos quais as suas economias dependem”.

“Isto pode ser considerado um passo que pode ser construído sobre uma assinatura do fim da era dos combustíveis fósseis”, disse ele.

Falta financiamento

Referindo-se à meta acordada nas conversações COP21 de 2015 em Paris para limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais, Kenzie Azmi, ativista do Greenpeace no Médio Oriente e Norte de África, disse: “É um passo mais próximo, mas não irá cumprir a ambição exigida pelo objetivo  de limitar o aquecimento a 1,5 Celsisus.

“As comunidades que estão na linha da frente da catástrofe climática precisam de mais do que isto.

“Eles precisam de ver um compromisso inabalável e resoluto com uma eliminação rápida, equitativa e bem financiada de todos os combustíveis fósseis, juntamente com um pacote financeiro abrangente para os países em desenvolvimento fazerem a transição para as energias renováveis ​​e lidarem com os crescentes impactos climáticos.”

Ela disse que o acordo carecia de meios suficientes para alcançar uma transição para a energia verde “de forma justa e rápida”.

“O novo texto não proporciona qualquer financiamento adicional sustentado para adaptação ou mitigação, o que é muito necessário para que possam fazer uma transição justa para longe dos combustíveis fósseis para lhes permitir lidar com os impactos climáticos, adaptar-se a eles e fazer a transição para longe dos combustíveis fósseis. combustíveis”, acrescentou ela.

Mohamed Adow, diretor da organização climática Power Shift Africa, sediada no Quênia, afirmou: “A transição pode ser rápida – o texto apela a uma transição para longe dos combustíveis fósseis nesta década crítica. Mas [isso] não é financiado nem justo.

“Ainda falta financiamento suficiente para ajudar os países em desenvolvimento a descarbonizarem-se.

“É preciso haver maior expectativa por parte dos produtores ricos de combustíveis fósseis de eliminarem gradualmente primeiro.”

“Também precisamos de muito mais apoio financeiro para ajudar as pessoas vulneráveis ​​a adaptarem-se aos impactos do colapso climático”, acrescentou.

A Aliança dos Pequenos Estados Insulares queixou-se de que a sua delegação não estava presente quando a decisão foi tomada. Afirmou que o texto não respondeu adequadamente à ciência climática.

“Não é suficiente fazermos referência à ciência e depois fazermos acordos que ignoram o que a ciência nos diz que precisamos de fazer”, disse a negociadora principal Anne Rasmussen, de Samoa.

“Esta não é uma abordagem que devamos ser solicitados a defender.”

Perdas e danos

A conferência começou com uma votação histórica para dar início ao Fundo para Perdas e Danos, acordado na COP27 do ano passado no Egipto. O fundo foi criado para pagar a destruição provocada pelas alterações climáticas em países vulneráveis.

No entanto, os países ricos comprometeram apenas 700 milhões de dólares – uma fracção dos 100 mil milhões de dólares ou mais pretendidos pelos países em desenvolvimento para responder às catástrofes climáticas.

“Embora tenhamos prometido 700 milhões de dólares para o Fundo de Perdas e Danos operacionalizado, não é suficiente para satisfazer o financiamento necessário para ajudar as comunidades vulneráveis ​​em todo o Sul global a financiar as catástrofes incorridas pelo impacto climático”, disse Azmi do Greepeace.

El Kharraz disse que outros resultados positivos para os países em desenvolvimento incluem compromissos para triplicar as energias renováveis, melhorar a resiliência dos sistemas alimentares e reduzir as emissões de metano.


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Este artigo foi produzido e escrito originalmente em inglês e publicado pela edição Global do SciDev.Net [Aqui!].

Porto do Açu: tese de doutorado defendida na Uenf revela que as promessas mirabolantes de um “futuro glorioso” não foram cumpridas

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Estou finalmente podendo disponibilizar para conhecimento e leitura a tese de doutoramento do meu ex-orientando e agora Doutor em Ecologia e Rccursos Naturais, José Luiz Pontes Silva Junior, que foi defendida no âmbito do Programa Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais (PGERN) da Universidade Estadual do Norte Fluminense.

O estudo intitulado “Megaestruturas portuárias e ausência de governança costeira na ruptura da resiliência socioecológica: o caso do Porto do Açu” representa um esforço de analisar de forma compreensiva os efeitos socioecológicos resultantes da implantação de um megaempreendimento portuário em uma região de alto interesse ecológico e habitado secularmente por agricultores familiares que ali estabeleceram sistemas agrícolas bastante adptados às condições ambientais existentes.

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Como orientador deste trabalho de doutoramento, considero que o mesmo produziu uma quantidade impressionante de dados, os quais foram analisados de forma objetiva com o uso de teorias científicas consolidadas e aceitas pela comunidade científica. Noto ainda que o agora doutor José Luiz Pontes Silva Junior realizou um exaustivo trabalho de campo no V Distrito de São João da Barra onde levantou uma gama impressionante de informações que agora estão sendo disponibilizadas na forma de uma tese de doutorado.

Dentre os resultados mais importantes deste trabalho, destaco que de forma bastante objetiva se chegou a diversas conclusões. A primeira delas é que como outros megaempreendimentos, o Porto do Açu tem prós e contras para a sua área hóspede (no caso o V Distrito de São João da Barra.. Entretanto, os resultados da pesquisa mostram benefícios propagados pelos gestores do Porto do Açu não condizem com a realidade. Na verdade, a pesquisa constatou que  uma amplitude dos impactos negativos socioambientais e  econômicos ocasionados no decorrer da construção e operação portuária é superior aos benefícios trazidos para o município e seus cidadãos, especialmente os agricultores familiares.

Há que  destacar ainda que  a perda de terras devido às desapropriações, a salinização das águas, a diminuição de renda e o aumento no arrendamento de terras foram identificadas como sendo as principais transformações socioecológicas dos agricultores familiares no período posterior ao Porto do Açu.

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Diante deste cenário, o estudo concluiu que o problema não é o Porto do Açu em si, mas a forma célere e sem o devido planejamento com que este megaempreendimento foi projetado, licenciado, autorizado e inserido no território sanjoanense. Além disso, a ausência de Governança Costeira neste recorte territorial teria influenciado negativamente no ordenamento territorial, na proteção dos recursos naturais e na qualidade de vida da população local.

Em outras palavras, nem todo o “Greenwashing” ou o “Corporate Washing” que tem sido executado para dar uma imagem positiva ao Porto do Açu consegue anular as evidências de que o empreendimento tem tido efeitos desastrosos para a população do V Distrito e para os ecossistemas naturais com as quais ela havia estabelecido mecanismos de co-existência.

Quem visualizar o arquivo contendo a tese de doutorado de José Luiz Pontes Silva Junior, basta clicar [Aqui!]. Quem desejar o arquivo completo, basta enviar uma mensagem para o endereço eletrônico do “Blog do Pedlowski” que eu farei o envio do mesmo.

Fêmeas de sabiás com ninhos em prédios são mais destemidas do que as que permanecem nas árvores

Indivíduos têm personalidades diferentes que podem interferir na adaptação ao ambiente urbano

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(Foto: Augusto Batisteli)

Fêmeas “destemidas” de uma espécie de sabiá – sabiá-barranco (Turdus leucomelas) – estão melhor preparadas para adaptação ao ambiente urbano que suas colegas medrosas, mostrou estudo desenvolvido no campus da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em São Carlos (SP). A pesquisa, conduzida por Augusto Florisvaldo Batisteli, hoje doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais (PPGERN) da UFSCar, investigou a personalidade das fêmeas por meio da diferença de comportamentos entre elas na escolha de locais para a construção de ninhos.

O experimento realizado, com orientação de Hugo Sarmento, docente no Departamento de Hidrobiologia (DHb), mostrou que as fêmeas com ninhos em árvores têm mais medo de situações desconhecidas do que aquelas com ninhos em construções humanas, como prédios, que se mostram mais destemidas.

Em etapa anterior da pesquisa, Batisteli havia identificado vantagens para o animal em fazer ninho em prédios, relacionadas, por exemplo, ao tempo de incubação, conforme divulgado no Portal da UFSCar. O pesquisador quis então entender se os indivíduos da espécie apresentavam diferenças de personalidade e se elas poderiam ter relação com a escolha do local para o ninho. Estudos de outros pesquisadores já indicavam, neste sentido, a predominância de certas personalidades animais em ambientes modificados pela ação humana, mas sem testar se isso interferia na sua habilidade de exploração dos recursos oferecidos por esses locais.

Para a análise da personalidade, o pesquisador fez testes de neofobia – que avaliam a aversão a situações desconhecidas. 

Quando o animal saía do ninho, Batisteli inseria um objeto desconhecido (cubo mágico ou uma pequena bolinha) próximo ao local. Depois, media o tempo que a fêmea demorava para voltar a incubar os ovos durante os testes.

Apenas as fêmeas de ninhos em árvores foram inibidas pela presença do objeto, demorando mais tempo para voltar ao ninho, na comparação com o momento no qual não havia nenhum objeto. “Elas demoravam 4 min e 42 segundos para voltar a incubar os ovos em uma situação neutra, e 8 minutos e 45 segundos para voltar quando havia um objeto estranho ao lado do ninho – uma diferença de 86%”, analisa o pesquisador. As fêmeas com ninhos em construções não foram inibidas pelos objetos estranhos próximos ao ninho – voltaram no tempo habitual, sendo indiferentes à intervenção.

Os achados mostram a espécie se adaptando ao ambiente urbano, mas é preciso olhar crítico para esta conclusão.

“Podemos ficar com a impressão de que, um dia, todas as espécies vão se adaptar facilmente às cidades, mas não é isso o que acontece. Algumas jamais conseguirão habitá-las, por necessitarem de locais estritamente florestais, sombreados, úmidos e brejosos”, exemplifica o biólogo. Para as que toleram as cidades, também há outro processo: desenvolver as adaptações. “Além disso, não sabemos onde essa adaptação vai parar e, principalmente, o que vai acontecer com o resto da espécie que não está adaptado. Outra questão envolve conflito com os humanos, caso a ave passe a explorar muito intensamente o ambiente, entrando nos prédios, por exemplo.” 

Para o pesquisador, a tese tem caráter inovador por dois principais fatores: estudar reprodução de aves que não usam apenas as florestas para o processo; e analisar a personalidade desses indivíduos. 

“Os biólogos passaram a olhar melhor as diferenças entre os indivíduos recentemente. O enfoque mais comum ainda é olhar para as populações, os grupos de indivíduos, como se fossem clones uns dos outros, mas não são”, situa. 

Segundo Batisteli, a Ciência evidencia padrões na Natureza, mas o mecanismo pelo qual os indivíduos levam ao surgimento desses padrões na espécie ainda é uma incógnita. “A população não decide; quem toma decisões é cada um dos indivíduos. Por isso, ainda estamos tentando entender como as decisões individuais levam a esses padrões populacionais”, conta.

Os estudos não param nestas descobertas. Agora, em seu pós-doutorado, realizado na Universidade Estadual Paulista (Unesp), com supervisão de Marco Aurélio Pizo Ferreira – docente no Departamento de Biodiversidade da Unesp – e financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estão de São Paulo (Fapesp), Batisteli investiga se os indivíduos já nascem com personalidade diferente ou se a adquirem mais tarde, após interação com o ambiente. 

Dados detalhados sobre a pesquisa de personalidade em sabiás-barrancos foram publicados em artigo, na revista científica Animal Behavior, que pode ser acessado neste link.

IPCC libera novo relatório e aponta para a incidência presente e futura dos efeitos das mudanças climáticas

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O Grupo de Trabalho II para o Sexto Relatório de Avaliação do IPCC lançou hoje um novo relatório onde são avaliados os impactos das mudanças climáticas, analisando os ecossistemas, a biodiversidade e as comunidades humanas nos níveis global e regional.  O relatório também analisa as vulnerabilidades e as capacidades e limites do mundo natural e das sociedades humanas para se adaptar às mudanças climáticas.

Abaixo são listados os principais pontos abordados neste relatório.

Impactos e riscos observados e projetados

Impactos e riscos observados e projetados As mudanças climáticas induzidas pelo homem, incluindo eventos extremos mais frequentes e intensos, causaram impactos adversos generalizados e perdas e danos relacionados à natureza e às pessoas, além da variabilidade climática natural. Alguns esforços de desenvolvimento e adaptação reduziram a vulnerabilidade. Em todos os setores e regiões, observa-se que as pessoas e sistemas mais vulneráveis ​​são afetados desproporcionalmente. O aumento do clima e dos extremos climáticos levou a alguns impactos irreversíveis, pois os sistemas naturais e humanos são levados além de sua capacidade de adaptação (alta confiança).

A vulnerabilidade dos ecossistemas e das pessoas às mudanças climáticas difere substancialmente entre e dentro das regiões (confiança muito alta), impulsionada por padrões de interseção de desenvolvimento socioeconômico, uso insustentável do oceano e da terra, desigualdade, marginalização, padrões históricos e contínuos de desigualdade, como colonialismo, e governança (alta confiança). Aproximadamente 3,3 a 3,6 bilhões de pessoas vivem em contextos altamente vulneráveis ​​às mudanças climáticas (alta confiança). Uma alta proporção de espécies é vulnerável às mudanças climáticas (alta confiança). A vulnerabilidade humana e do ecossistema são interdependentes (alta confiança). Os atuais padrões de desenvolvimento insustentável estão aumentando a exposição de ecossistemas e pessoas aos riscos climáticos (alta confiança).

O aquecimento global, atingindo 1,5°C no curto prazo, causaria aumentos inevitáveis ​​em vários perigos climáticos e apresentaria múltiplos riscos para os ecossistemas e os seres humanos (confiança muito alta). O nível de risco dependerá de tendências concorrentes de curto prazo em vulnerabilidade, exposição, nível de desenvolvimento socioeconômico e adaptação (alta confiança). Ações de curto prazo que limitam o aquecimento global a cerca de 1,5°C reduziriam substancialmente as perdas e danos projetados relacionados às mudanças climáticas em sistemas e ecossistemas humanos, em comparação com níveis mais altos de aquecimento, mas não podem eliminá-los todos (confiança muito alta).

Além de 2040 e dependendo do nível de aquecimento global, as mudanças climáticas levarão a inúmeros riscos para os sistemas naturais e humanos (alta confiança). Para 127 riscos-chave identificados, os impactos avaliados de médio e longo prazo são até várias vezes maiores do que os observados atualmente (alta confiança). A magnitude e a taxa de mudança climática e os riscos associados dependem fortemente de ações de mitigação e adaptação de curto prazo, e os impactos adversos projetados e as perdas e danos relacionados aumentam a cada incremento do aquecimento global (confiança muito alta).

Os impactos e riscos das mudanças climáticas estão se tornando cada vez mais complexos e mais difíceis de gerenciar. Múltiplos perigos climáticos ocorrerão simultaneamente e vários riscos climáticos e não climáticos irão interagir, resultando na composição do risco geral e dos riscos em cascata entre setores e regiões. Algumas respostas às mudanças climáticas resultam em novos impactos e riscos (alta confiança).

Se o aquecimento global exceder transitoriamente 1,5°C nas próximas décadas ou mais tarde (overshoot), muitos sistemas humanos e naturais enfrentarão riscos graves adicionais, em comparação com permanecer abaixo de 1,5°C (alta confiança). Dependendo da magnitude e duração do overshoot, alguns impactos causarão liberação de gases de efeito estufa adicionais (confiança média) e alguns serão irreversíveis, mesmo que o aquecimento global seja reduzido (confiança alta).  

Adaptação atual e seus benefícios

O progresso no planejamento e implementação da adaptação foi observado em todos os setores e regiões, gerando múltiplos benefícios (confiança muito alta). No entanto, o progresso da adaptação é distribuído de forma desigual com lacunas de adaptação observadas (alta confiança). Muitas iniciativas priorizam a redução imediata e de curto prazo dos riscos climáticos, o que reduz a oportunidade de adaptação transformacional (alta confiança).

Existem opções de adaptação viáveis ​​e eficazes que podem reduzir os riscos para as pessoas e a natureza. A viabilidade de implementar opções de adaptação no curto prazo difere entre setores e regiões (confiança muito alta). A eficácia da adaptação para reduzir o risco climático é documentada para contextos, setores e regiões específicos (alta confiança) e diminuirá com o aumento do aquecimento (alta confiança). Soluções integradas e multissetoriais que abordam as desigualdades sociais, diferenciam as respostas com base no risco climático e atravessam os sistemas, aumentam a viabilidade e a eficácia da adaptação em vários setores (alta confiança). 

Limites flexíveis para algumas adaptações humanas foram alcançados, mas podem ser superados abordando uma série de restrições, principalmente financeiras, de governança, institucionais e políticas (alta confiança). Limites rígidos para adaptação foram alcançados em alguns ecossistemas (alta confiança). Com o aumento do aquecimento global, as perdas e danos aumentarão e os sistemas humanos e naturais adicionais atingirão os limites de adaptação (alta confiança).

Há evidências crescentes de má adaptação em muitos setores e regiões desde o AR5. Respostas mal adaptadas às mudanças climáticas podem criar bloqueios de vulnerabilidade, exposição e riscos que são difíceis e caros de mudar e exacerbar as desigualdades existentes. A má adaptação pode ser evitada por meio de planejamento flexível, multissetorial, inclusivo e de longo prazo e implementação de ações de adaptação com benefícios para muitos setores e sistemas (alta confiança).

As condições favoráveis ​​são fundamentais para implementar, acelerar e sustentar a adaptação em sistemas e ecossistemas humanos. Estes incluem compromisso político e acompanhamento, estruturas institucionais, políticas e instrumentos com metas e prioridades claras, conhecimento aprimorado sobre impactos e soluções, mobilização e acesso a recursos financeiros adequados, monitoramento e avaliação e processos de governança inclusivos (alta confiança).

Desenvolvimento resiliente ao clima

Evidências de impactos observados, riscos projetados, níveis e tendências de vulnerabilidade e limites de adaptação demonstram que a ação mundial de desenvolvimento resiliente ao clima é mais urgente do que previamente avaliada no AR5. Respostas abrangentes, eficazes e inovadoras podem aproveitar as sinergias e reduzir os compromissos entre adaptação e mitigação para promover o desenvolvimento sustentável (confiança muito alta).

O desenvolvimento resiliente ao clima é viabilizado quando os governos, a sociedade civil e o setor privado fazem escolhas de desenvolvimento inclusivas que priorizam a redução de riscos, a equidade e a justiça, e quando os processos de tomada de decisão, finanças e ações são integrados em todos os níveis de governança, setores e prazos (confiança muito alta ). O desenvolvimento resiliente ao clima é facilitado pela cooperação internacional e por governos em todos os níveis que trabalham com comunidades, sociedade civil, órgãos educacionais, instituições científicas e outras, mídia, investidores e empresas; e desenvolvendo parcerias com grupos tradicionalmente marginalizados, incluindo mulheres, jovens, Povos Indígenas, comunidades locais e minorias étnicas (alta confiança). Essas parcerias são mais eficazes quando apoiadas por liderança política, instituições, recursos, incluindo finanças, bem como serviços climáticos, informações e ferramentas de apoio à decisão (alta confiança).

As interações entre a mudança da forma urbana, exposição e vulnerabilidade podem criar riscos e perdas induzidas pelas mudanças climáticas para cidades e assentamentos. No entanto, a tendência global de urbanização também oferece uma oportunidade crítica no curto prazo, para promover o desenvolvimento resiliente ao clima (alta confiança). O planejamento integrado e inclusivo e o investimento na tomada de decisões cotidianas sobre infraestrutura urbana, incluindo infraestruturas sociais, ecológicas e cinzas/físicas, podem aumentar significativamente a capacidade de adaptação dos assentamentos urbanos e rurais. Resultados equitativos contribuem para múltiplos benefícios para a saúde e bem-estar e serviços ecossistêmicos, inclusive para Povos Indígenas, comunidades marginalizadas e vulneráveis ​​(alta confiança). O desenvolvimento resiliente ao clima em áreas urbanas também apoia a capacidade de adaptação em mais locais rurais através da manutenção de cadeias de abastecimento periurbanas de bens e serviços e fluxos financeiros (confiança média). As cidades e assentamentos costeiros desempenham um papel especialmente importante no avanço do desenvolvimento resiliente ao clima (alta confiança).

A salvaguarda da biodiversidade e dos ecossistemas é fundamental para o desenvolvimento resiliente ao clima, à luz das ameaças que as alterações climáticas representam para eles e seus papéis na adaptação e mitigação (confiança muito alta). Análises recentes, com base em uma série de evidências, sugerem que a manutenção da resiliência da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos em escala global depende da conservação efetiva e equitativa de aproximadamente 30% a 50% das áreas terrestres, de água doce e oceânicas da Terra, incluindo atualmente ecossistemas quase naturais (alta confiança).

É inequívoco que as mudanças climáticas já perturbaram os sistemas humanos e naturais. As tendências de desenvolvimento passadas e atuais (emissões passadas, desenvolvimento e mudanças climáticas) não promoveram o desenvolvimento global resiliente ao clima (confiança muito alta). As escolhas e ações da sociedade implementadas na próxima década determinam até que ponto os caminhos de médio e longo prazo proporcionarão um desenvolvimento mais ou menos resiliente ao clima (alta confiança). É importante ressaltar que as perspectivas de desenvolvimento resiliente ao clima são cada vez mais limitadas se as emissões atuais de gases de efeito estufa não diminuirem rapidamente, especialmente se o aquecimento global de 1,5°C for excedido no curto prazo (alta confiança). Essas perspectivas são limitadas pelo desenvolvimento passado, emissões e mudanças climáticas, e possibilitadas por governança inclusiva, recursos humanos e tecnológicos adequados e apropriados, informações, capacidades e finanças (alta confiança).

O aquecimento global já está doendo, adaptar é preciso

A segunda parte do sexto relatório de status do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas está prestes a ser finalizada – trata-se de adaptação às mudanças

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Secas extremas – como as do oeste dos Estados Unidos – estão se tornando mais frequentes mesmo com o aquecimento atual. Foto: AFP/Josh Edelson

Por  Jorg Staude para o Neues Deutschland

Centenas de especialistas do grupo de trabalho dois do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estão sentados juntos virtualmente há uma semana, pesando sentença por sentença e ainda têm uma semana inteira de debates pela frente.

A cada seis anos, o IPCC apresenta um relatório abrangente resumindo o status da pesquisa sobre mudanças climáticas, nomeando suas consequências e formas de proteger o planeta. A segunda parte do sexto relatório de status do IPCC será publicada em 28 de fevereiro . Os especialistas do grupo de trabalho dois estão atualmente debruçados sobre isso, especialmente sobre a parte mais importante: o resumo para os políticos.

Em sua essência, a proteção climática é sempre sobre duas coisas, conhecidas como mitigação e adaptação . Mitigação – no significado latino original da palavra, significa apaziguar, mitigar ou aliviar algo. Em termos de clima, mitigação significa eliminar as causas das mudanças climáticas. Então, acima de tudo, reduzir as emissões de gases de efeito estufa, inicialmente para zero; e depois voltar a extrair gases de efeito estufa da atmosfera e assim gerar as chamadas emissões negativas.

Mas mesmo que consigamos limitar o aquecimento global a dois graus ou menos, as mudanças climáticas já terão consequências para a vida humana. É aqui que entra em jogo o segundo pilar da proteção climática: a adaptação . O ponto aqui é chegar a um acordo com as mudanças no clima ou se adaptar de tal maneira que os danos à civilização possam ser evitados na medida do possível ou as oportunidades que surgirem possam ser aproveitadas.

A segunda parte do sexto relatório do IPCC, que está em fase final de edição, trata principalmente dessas consequências das mudanças climáticas e das possibilidades de adaptação a elas. Boas notícias não estão em casa.

Conexão homem – clima – natureza

Como nenhum outro antes, o novo relatório mostrará “o quanto o mundo já mudou devido às mudanças climáticas e quais riscos climáticos catastróficos devemos esperar no futuro – dependendo da rapidez e do quanto reduzirmos as emissões de gases de efeito estufa”, disse ele. disse Hans-Otto Pörtner, um dos dois co-presidentes do grupo de trabalho dois, explicou recentemente o que pode ser esperado em uma entrevista coletiva do Consórcio Climático Alemão.

O novo relatório causará sensação, não apenas porque trata de impactos climáticos como calor, seca, precipitação extrema ou novos patógenos. Pörtner caracteriza a nova qualidade desta vez, os cientistas apresentariam as conexões entre humanos, clima e natureza “de uma maneira muito mais próxima e clara” do que antes.

Para o biólogo marinho do Alfred Wegener Institute for Polar and Marine Research, o “pensamento em silo” ainda domina o debate climático. O que ele quer dizer pode ser ilustrado pelas demandas que estão sendo feitas atualmente sobre o uso da terra, por exemplo.

Os operadores de energia eólica querem, com razão, mais espaço – mas também os conservacionistas para salvar a biodiversidade, ou o governo federal, que quer construir 400.000 novas casas todos os anos.

Para Pörtner, no entanto, também é uma espécie de “mentalidade de silo” quando hoje, por exemplo, 70% da terra arável global é usada para a produção de ração animal. “Precisamos de cerca de dez quilos de massa vegetal para produzir um quilo de carne animal”, calcula. Com uma mudança consistente na dieta , a humanidade não só faria algo diretamente para a proteção do clima, porque as emissões de metano e óxido nitroso da pecuária diminuiriam – ao mesmo tempo, muito espaço seria ganho para biodiversidade, espécies e proteção de terras e de curso também para a produção de alimentos que não são obrigados a fazer o desvio através do animal.

Para Pörtner, o armazenamento de dióxido de carbono ainda é visto demais do ponto de vista da tecnologia “silo”. A meta climática da UE – neutralidade climática até 2045 – já inclui uma porcentagem de CO2 que deve ser “embalada” em ecossistemas naturais.

Segundo Pörtner, tal abordagem pressupõe que os ecossistemas também possam gerenciar o armazenamento. “Mas já temos uma atenuação de importantes sistemas de armazenamento de CO2, como a floresta tropical e as florestas boreais”, alerta o biólogo. Esses são sinais de alerta. “Não há mais uma gaveta onde você pode colocar CO2, mas é preciso valorizar e cuidar dessa gaveta”, explica. Quando você sai do »silo«, você reconhece, como diz Pörtner, »dependências compulsivas« e »influências mútuas«. Em outras palavras: as pessoas, o clima e a natureza estão mais intimamente relacionados do que pensávamos – e certamente não agimos de acordo.

Atualmente, não há como nutrir e cuidar deles, reclama Josef Settele, chefe de pesquisa de conservação da natureza do Centro Helmholtz de Pesquisa Ambiental (UFZ) em Halle. As mudanças climáticas provocadas pelo homem estão ameaçando cada vez mais a natureza hoje, alerta ele.

A Settele não se concentra apenas na grande e visível destruição causada por secas, ondas de calor ou incêndios florestais. Mesmo atividades menores que foram atrasadas devido a mudanças de temperatura foram suficientes para desequilibrar a natureza. Como exemplo, ele cita os tempos de voo dos insetos polinizadores, que muitas vezes não coincidem mais com os tempos de floração atrasados ​​das plantas relacionados ao clima. Então os polinizadores voam muito cedo ou muito tarde.

Áreas protegidas ajudam o clima

Settele pede que 30 a 50% dos habitats continentais e dos oceanos do mundo sejam protegidos para impedir o declínio da biodiversidade. Este “não é um número utópico” se você incluir diferentes categorias de proteção . Não se trata apenas de reservas totais, mas também de paisagens culturais protegidas.

O cientista certamente está ciente de que essa demanda é uma afronta para muitos empresários – mas, como sugere Settele, provavelmente não há alternativa. “Quem ignora as conexões entre clima, natureza e a base da vida humana não comemorará nenhum sucesso na proteção do clima”, enfatiza o ecologista. »Qualquer coisa que impeça o declínio da biodiversidade também beneficia a proteção do clima.«

Mesmo em regiões urbanas, proteção climática e adaptação climática ainda são amplamente consideradas separadamente, confirma Daniela Jacob, diretora do Climate Service Center Germany, que coleta e processa os resultados da pesquisa climática para a Alemanha em nome do governo federal. Quando se trata de proteção climática, geralmente trata-se da “cidade de curtas distâncias”, da expansão do transporte público ou de edifícios energeticamente eficientes – e quando se trata de adaptação, trata-se de ondas de calor ou de lidar com chuvas fortes.

Jacob defende que se pense em ambos juntos, por exemplo, a infraestrutura “azul” das cidades, voltada para o equilíbrio hídrico, com a “verde”, voltada para árvores e espaços verdes.

É tudo sobre construção inteligente e verde , diz ela. Nas cidades, é concebível uma rede de espaços verdes e telhados verdes. O sombreamento natural pode enfraquecer o efeito do sol e, ao mesmo tempo, reduzir os requisitos de refrigeração doméstica e a quantidade de energia necessária para fazê-lo. De fato, os efeitos duplos e múltiplos da política climática na combinação de natureza e tecnologia já seriam possíveis hoje. Fachadas que protegem contra o calor também podem gerar eletricidade usando energia fotovoltaica de fachada. Poderia brotar verde sob sistemas de telhados fotovoltaicos.

O mesmo vale para as paisagens. Não apenas a energia eólica, mas também a energia fotovoltaica poderia continuar a abranger áreas agrícolas usadas ou – a última idéia – charnecas renaturalizadas. Um conceito fascinante: A maioria das antigas charnecas na Alemanha são agora usadas como pastagens – como pastagem ou como forragem para o gado. Uma mudança na dieta para menos carne e leite de vaca, como Hans-Otto Pörtner tem em mente, tornaria mais fácil tirar grande parte dos mouros de uso, remolhe –os e recuperá-los como armazenamento natural de CO2. Se os fotovoltaicos fossem adicionados no topo sem prejudicar a proteção da charneca, isso resultaria em um sumidouro de CO2 de técnica natural até então desconhecido.

Eco-puristas podem torcer o nariz aqui. Mas preservar a natureza como a conhecemos atualmente dificilmente será possível de qualquer maneira. »Os organismos são especializados para determinadas características climáticas e janelas de temperatura. Este é um ponto importante para o planejamento futuro das medidas de renaturação«, destaca Pörtner. »Simplesmente supondo que podemos restaurar algo histórico, em alguns casos não será suficiente.«

Especialistas em florestas na Alemanha, por exemplo, estão atualmente intrigados sobre quais árvores são adequadas para as condições climáticas que prevalecerão na Alemanha em 20 a 30 anos. Não se sabe exatamente o quanto o clima regional terá mudado até então, nem quais árvores podem ser adequadas para as novas condições. Para descobrir, seria preciso testar uma variedade de árvores por longos períodos de tempo – tempo que a humanidade e a natureza não têm mais se as mudanças climáticas mantiverem seu ímpeto atual.

A redução de CO2 continua crucial

Em todos os esforços para proteger a natureza e a biodiversidade – os especialistas em clima não deixam dúvidas sobre isso – a proteção climática clássica deve continuar a desempenhar o primeiro papel. Josef Settele: »Só teremos sucesso se reduzirmos massivamente o uso de combustíveis fósseis. Não há maneira de contornar isso. Compensar completamente as emissões não é possível.«

Também para Pörtner, a redução de CO2 é o pré-requisito decisivo para que haja um futuro. Para o especialista do IPCC, a interação de temperaturas alteradas e o orçamento global de CO2 ainda disponível resulta em um prazo apertado no qual uma política climática sensata ainda pode ser buscada e as sociedades podem se tornar resilientes e resistentes às mudanças climáticas. E para ele, a mensagem do próximo capítulo do relatório climático mundial é bastante clara: »A janela de tempo para um mundo resiliente ao clima está se fechando.«

Daniela Jacob também avisa. “Não podemos nos adaptar a tudo, especialmente se ultrapassarmos três graus de aumento da temperatura global. Então teremos até seis graus mais regionalmente – e então acabou.« Então não se trata mais de proteção e adaptação climática, mas sobre a pura sobrevivência da civilização.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].