Super El Niño, austeridade fiscal e a crise da adaptação climática: por que o litoral brasileiro continua caminhando para um desastre anunciado

Embora a ciência já disponha de informações suficientes para antecipar grande parte dos impactos do fortalecimento do El Niño, a ausência de planejamento territorial, a destruição dos ecossistemas costeiros e a persistência das políticas de austeridade mantêm o Brasil perigosamente vulnerável a uma sucessão de desastres que já deixaram de ser imprevisíveis

Os modelos climáticos produzidos pelos principais centros internacionais de monitoramento convergem para um diagnóstico preocupante: o atual episódio de El Niño deverá permanecer ativo ao longo dos próximos meses e poderá atingir grande intensidade até o final de 2026. Trata-se de um cenário que merece atenção especial porque ocorre em um contexto marcado pelo aquecimento excepcional do Atlântico Tropical e do Atlântico Sul, resultado do avanço das mudanças climáticas induzidas pelas emissões de gases de efeito estufa. A interação entre esses diferentes fatores aumenta significativamente a probabilidade de ocorrência de eventos extremos em diversas regiões brasileiras.

No entanto, limitar a discussão aos aspectos meteorológicos seria um equívoco. O problema central não reside apenas na intensidade que o El Niño poderá alcançar, mas na elevada vulnerabilidade construída ao longo de décadas de ocupação desordenada do território, degradação ambiental e sucessivos adiamentos das políticas públicas de adaptação climática. O fenômeno climático funciona como um poderoso multiplicador de riscos, incidindo sobre uma costa que já se encontra profundamente fragilizada por decisões políticas e econômicas que reduziram sua capacidade natural de enfrentar eventos extremos.  Essa constatação é particularmente importante quando se observa o litoral brasileiro. Ainda prevalece entre grande parte da população a percepção de que os efeitos do El Niño se resumem ao aumento ou à redução das chuvas. Embora essa seja uma das manifestações mais conhecidas do fenômeno, seus impactos sobre as zonas costeiras são muito mais complexos e potencialmente mais destrutivos.

Ao alterar a circulação atmosférica sobre a América do Sul, o El Niño modifica a frequência e a intensidade da atuação de frentes frias, ciclones extratropicais e sistemas de ventos persistentes. Quando esses processos coincidem com marés elevadas e com um oceano mais aquecido, cria-se um ambiente extremamente favorável à ocorrência de ressacas, alagamentos costeiros, erosão acelerada das praias e danos à infraestrutura instalada junto à linha de costa.

Por outro lado, existe ainda um mecanismo pouco conhecido fora dos círculos especializados, mas decisivo para compreender o agravamento da erosão costeira. Ventos persistentes transferem maior quantidade de energia para a superfície do oceano, elevando a altura, o período e a força das ondas que alcançam o litoral. Como consequência, aumenta a velocidade da coluna d’água na zona de arrebentação, intensificam-se as correntes longitudinais ao longo das praias e tornam-se mais vigorosas as chamadas correntes de retorno (rip currents), responsáveis pelo transporte de grandes volumes de areia para áreas mais profundas.

O resultado desse conjunto de processos é uma remoção acelerada dos sedimentos que naturalmente protegem as praias. À medida que o estoque sedimentar diminui, a faixa de areia se estreita, a linha de costa recua e cresce a exposição de dunas, calçadões, rodovias, edificações e outras infraestruturas construídas em áreas extremamente vulneráveis. O problema fica ainda mais grave porque a erosão apresenta caráter cumulativo: cada ressaca intensa reduz a capacidade natural da praia de dissipar a energia das ondas seguintes. Em consequência, tempestades de intensidade moderada podem provocar danos muito superiores aos observados anteriormente, simplesmente porque a costa já perdeu parte de seus mecanismos naturais de proteção.

Entretanto, os impactos do fortalecimento do El Niño não se restringem às regiões sujeitas ao excesso de chuvas e às ressacas. Em áreas onde o fenômeno tende a reduzir as precipitações e elevar as temperaturas, como porções da Amazônia e do Nordeste brasileiro, a diminuição das vazões fluviais favorece a intrusão de água salgada em estuários, lagoas costeiras e aquíferos, altera o equilíbrio ecológico de manguezais e compromete atividades fundamentais como a pesca artesanal, além do abastecimento de água de inúmeras comunidades.

Esse quadro torna-se ainda mais preocupante porque hoje não é mais possível interpretar os impactos costeiros exclusivamente a partir das oscilações do Oceano Pacífico. O aquecimento persistente do Atlântico Tropical e do Atlântico Sul adiciona calor e umidade à atmosfera, potencializando tempestades, alterando padrões de circulação dos ventos e intensificando a energia das ondas que alcançam o litoral brasileiro. Em outras palavras, os impactos que deverão ser observados ao longo dos próximos meses resultarão da interação entre a variabilidade climática natural representada pelo El Niño e um sistema climático já profundamente alterado pelo aquecimento global.

Mas reduzir essa discussão aos processos físicos significaria ignorar um aspecto ainda mais importante: a vulnerabilidade costeira brasileira é, antes de tudo, uma construção social e política. Embora eventos extremos façam parte da dinâmica natural do sistema climático, sua transformação em desastres depende diretamente das formas de ocupação do território. Nas últimas décadas, o litoral brasileiro passou por um intenso processo de expansão imobiliária, impulsionado por grandes empreendimentos turísticos, resorts, condomínios fechados, complexos residenciais de alto padrão e obras de infraestrutura voltadas à valorização econômica da faixa costeira. Em muitos casos, essa expansão ocorreu precisamente sobre os ambientes que desempenham papel fundamental na proteção natural da costa.

Dunas, restingas, manguezais, praias, áreas úmidas e remanescentes de Mata Atlântica não constituem obstáculos ao desenvolvimento, como frequentemente sugerem setores interessados na flexibilização da legislação ambiental. Ao contrário, esses ecossistemas representam uma verdadeira infraestrutura natural de adaptação às mudanças climáticas.  As dunas armazenam e redistribuem sedimentos, permitindo que as praias recuperem parte do material perdido durante ressacas. A vegetação de restinga estabiliza a areia e reduz a erosão provocada pelo vento. Os manguezais dissipam parte da energia das ondas e das marés, diminuindo a intensidade das inundações costeiras. Já a Mata Atlântica desempenha papel essencial na estabilização de encostas e na regulação hidrológica das bacias que deságuam no litoral.

Quando esses ecossistemas são substituídos por concreto, asfalto e grandes empreendimentos imobiliários, perde-se justamente a primeira linha de defesa contra eventos extremos. O resultado é um aumento expressivo da exposição ao risco, acompanhado da necessidade crescente de obras de engenharia cada vez mais caras e, muitas vezes, incapazes de reproduzir os serviços ambientais anteriormente prestados pelos ecossistemas naturais. Não por acaso, muitas das áreas hoje classificadas como críticas para erosão costeira coincidem exatamente com trechos que sofreram intensa ocupação urbana ou turística nas últimas décadas.

Esse processo revela uma contradição que precisa ser enfrentada. Grande parte das políticas públicas continua tratando o litoral prioritariamente como espaço de valorização imobiliária e expansão econômica, quando deveria reconhecê-lo como um território estratégico para a adaptação climática. Ao flexibilizar normas ambientais, reduzir áreas protegidas ou permitir a ocupação de ambientes ecologicamente frágeis, o próprio Estado contribui para ampliar riscos que posteriormente serão apresentados como simples consequências de fenômenos naturais.

Sob essa perspectiva, o El Niño deixa de ser apenas um evento climático extraordinário para revelar problemas estruturais acumulados ao longo de décadas de planejamento territorial inadequado. Os desastres que poderão ocorrer nos próximos meses não decorrerão exclusivamente da intensidade do fenômeno atmosférico, mas da combinação entre mudanças climáticas, degradação ambiental e escolhas políticas que aumentaram progressivamente a vulnerabilidade das zonas costeiras brasileiras. É justamente nessa dimensão política da adaptação climática que reside um dos maiores desafios enfrentados pelo Brasil.

O maior déficit brasileiro: transformar conhecimento científico em políticas públicas

Se o Brasil dispõe hoje de um conhecimento científico suficientemente robusto para antecipar boa parte dos impactos de um episódio intenso de El Niño, por que o país continua tão vulnerável aos desastres climáticos? A resposta não está na ciência, mas na política. Instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a Marinha do Brasil, além das universidades e centros estaduais de pesquisa, produzem regularmente previsões meteorológicas, modelos climáticos, mapas de suscetibilidade e sistemas de alerta reconhecidos internacionalmente por sua qualidade técnica. O país, portanto, não sofre de falta de informação ou de insuficiência de capacidade científica. O verdadeiro problema reside na enorme distância que separa o conhecimento produzido por essas instituições das decisões efetivamente adotadas pelos diferentes níveis de governo. Enquanto a capacidade científica brasileira avançou significativamente nas últimas décadas, a capacidade política de incorporar esse conhecimento ao planejamento territorial permaneceu praticamente estagnada.

Essa desconexão manifesta-se de forma particularmente evidente nas zonas costeiras. Há décadas o Brasil dispõe de um instrumento legal destinado justamente a orientar o planejamento dessas áreas: o Plano Municipal de Gerenciamento Costeiro (PMGC), previsto no âmbito do Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro (PNGC). Em princípio, cada município costeiro deveria possuir um diagnóstico detalhado das áreas sujeitas à erosão, às inundações, às ressacas e à elevação do nível do mar, estabelecendo critérios claros para o uso e a ocupação do território, para o licenciamento ambiental e para a prevenção de desastres. Na prática, entretanto, esse instrumento permanece quase inexistente. Levantamentos realizados por órgãos públicos e pesquisadores indicam que menos de quinze municípios brasileiros possuem Planos Municipais de Gerenciamento Costeiro efetivamente estruturados e institucionalizados. Algumas avaliações realizadas ao longo da presente década apontavam um cenário ainda mais preocupante, indicando que apenas nove municípios haviam concluído todas as etapas necessárias para sua implementação. Trata-se de um quadro extremamente preocupante quando se considera que o Brasil possui 443 municípios inseridos na zona costeira, dos quais 279 confrontam diretamente o Oceano Atlântico.

A consequência dessa omissão é que a imensa maioria das cidades costeiras brasileiras continua enfrentando riscos crescentes sem qualquer planejamento territorial especificamente voltado para as mudanças climáticas. Empreendimentos continuam sendo licenciados em áreas naturalmente suscetíveis à erosão; condomínios avançam sobre dunas e restingas; bairros inteiros permanecem vulneráveis às inundações; e obras de drenagem seguem sendo concebidas para responder ao clima do passado, ignorando completamente as novas condições impostas pelo aquecimento global. Não surpreende, portanto, que danos materiais e perdas humanas aumentem mesmo em episódios que poderiam produzir consequências muito menores caso existisse um planejamento territorial consistente. Essa realidade revela uma inversão de prioridades que precisa ser urgentemente corrigida: o Brasil continua investindo muito mais na reconstrução posterior aos desastres do que na prevenção de seus impactos.

Uma estratégia muito mais eficiente, econômica e ambientalmente adequada consiste em recuperar e conservar os ecossistemas que funcionam como infraestrutura natural de adaptação climática. Manguezais, restingas, dunas, praias e áreas úmidas desempenham funções que dificilmente podem ser reproduzidas por grandes obras de engenharia. Esses ambientes dissipam parte da energia das ondas, estabilizam sedimentos, armazenam água, reduzem processos erosivos e funcionam como barreiras naturais contra ressacas e inundações. Ao contrário do que frequentemente se afirma, conservar esses ecossistemas não representa obstáculo ao desenvolvimento. Trata-se, na verdade, de um investimento estratégico capaz de reduzir futuros prejuízos econômicos, ambientais e sociais. O problema é que essa perspectiva frequentemente entra em conflito com interesses associados à especulação imobiliária, à expansão do turismo de alto padrão e à implantação de grandes empreendimentos sobre áreas ambientalmente frágeis. Em consequência, decisões voltadas para ganhos imediatos acabam comprometendo a capacidade adaptativa do litoral durante décadas.

Entretanto, mesmo que houvesse consenso político sobre a necessidade de fortalecer a adaptação climática, persistiria um obstáculo cuja importância costuma receber muito menos atenção do que merece: o financiamento público. Nas últimas décadas, sucessivos programas de ajuste fiscal reduziram significativamente a capacidade de investimento do Estado brasileiro justamente nas áreas responsáveis pelo planejamento territorial, pela gestão ambiental, pela prevenção de desastres e pela adaptação às mudanças climáticas. Essa escolha possui consequências extremamente concretas. Elaborar Planos Municipais de Gerenciamento Costeiro, monitorar continuamente a evolução da linha de costa, recuperar ecossistemas degradados, ampliar redes de drenagem, fortalecer as Defesas Civis, modernizar sistemas de alerta, capacitar equipes técnicas e preparar os serviços públicos de saúde e assistência social exige recursos permanentes. Não se trata de ações pontuais, mas de políticas públicas contínuas que dependem de financiamento estável. Sem orçamento adequado, planos permanecem restritos ao papel e acabam incapazes de proteger a população diante de riscos que já são amplamente conhecidos.

Essa talvez seja uma das maiores contradições da política climática brasileira. Ao mesmo tempo em que os impactos das mudanças climáticas se tornam progressivamente mais evidentes, continuam prevalecendo concepções econômicas que tratam investimentos em prevenção como despesas passíveis de adiamento sempre que surgem pressões por contenção dos gastos públicos. Essa lógica ignora um princípio elementar da gestão de riscos: cada real economizado hoje em prevenção tende a transformar-se em múltiplos reais gastos amanhã na reconstrução de infraestrutura, no atendimento às populações atingidas, na recuperação das atividades econômicas e na reparação de danos ambientais frequentemente irreversíveis. A adaptação climática precisa deixar de ser tratada como um gasto para ser reconhecida como um investimento estratégico na proteção do território nacional.

Essa mudança torna-se ainda mais urgente diante do fortalecimento do atual episódio de El Niño. Os eventos registrados recentemente na Região Sul, caracterizados por chuvas intensas, tempestades severas, ventos destrutivos e episódios de granizo, demonstram que o país já atravessa um período de elevada instabilidade atmosférica. Embora não seja correto atribuir cada episódio extremo exclusivamente ao El Niño, esses acontecimentos funcionam como um importante sinal de alerta para aquilo que poderá ocorrer caso o fenômeno alcance a intensidade atualmente projetada pelos modelos climáticos. Ao mesmo tempo, as projeções indicam elevada probabilidade de secas severas em partes da Amazônia e do Nordeste, ampliando os riscos de incêndios florestais, comprometimento do abastecimento de água, redução da produção agrícola, dificuldades para a pesca artesanal e agravamento da insegurança alimentar.

Essa diversidade de impactos evidencia uma característica frequentemente negligenciada nas políticas públicas brasileiras: a geografia dos riscos climáticos é profundamente desigual. Enquanto determinadas regiões enfrentarão excesso de água, outras conviverão com escassez hídrica extrema. Enquanto algumas cidades precisarão reforçar sistemas de drenagem e proteção costeira, outras dependerão prioritariamente da gestão de reservatórios, da proteção de mananciais e do combate aos incêndios. Não existe, portanto, uma única política de adaptação capaz de responder adequadamente a todos esses desafios. Cada território exige estratégias específicas, mas essas respostas precisam integrar uma política nacional coerente, baseada na cooperação entre União, estados, municípios, universidades e instituições científicas.

Infelizmente, o Brasil ainda permanece excessivamente preso a uma cultura política marcada pela improvisação. Recursos continuam sendo liberados principalmente após a ocorrência das tragédias; obras emergenciais substituem planejamento permanente; reconstrução recebe prioridade sobre prevenção; e os alertas produzidos pela comunidade científica frequentemente deixam de produzir consequências práticas na administração pública. Essa lógica precisa ser definitivamente superada. Os sinais emitidos pela ciência são suficientemente claros, os instrumentos legais para o planejamento territorial já existem e o conhecimento técnico necessário encontra-se amplamente disponível. O que continua faltando é vontade política para transformar a adaptação climática em uma prioridade permanente de Estado.

Caso essa mudança não ocorra, será cada vez mais difícil atribuir as futuras tragédias exclusivamente à intensidade dos fenômenos naturais. Em larga medida, elas representarão o resultado de escolhas políticas conscientes: a opção por manter políticas de austeridade que limitam investimentos públicos, por flexibilizar a proteção dos ecossistemas costeiros e por permitir que interesses imediatos da especulação imobiliária prevaleçam sobre a segurança ambiental da população. O Brasil dispõe de todas as condições técnicas para reduzir significativamente sua vulnerabilidade aos eventos extremos que tendem a se intensificar nas próximas décadas. O desafio já não é compreender os riscos, mas decidir enfrentá-los. Persistir adiando essa decisão significará aceitar que a geografia dos desastres continue sendo produzida menos pela força da natureza do que pela incapacidade do Estado brasileiro de transformar conhecimento científico em políticas públicas consistentes de adaptação climática.

O tempo da prevenção é agora

Diante desse cenário, torna-se inevitável perguntar se o Brasil está efetivamente preparado para enfrentar as consequências de um episódio de El Niño de grande intensidade. A resposta exige uma distinção importante. Do ponto de vista científico, o país dispõe de instituições altamente qualificadas e de capacidade técnica suficiente para antecipar grande parte dos impactos que poderão ocorrer nos próximos meses. O INPE, o INMET, o Cemaden, a Marinha do Brasil, as universidades e diversos centros estaduais de pesquisa produzem previsões, boletins, sistemas de monitoramento e cenários prospectivos que permitem identificar com razoável antecedência as regiões mais suscetíveis aos diferentes tipos de eventos extremos. Em outras palavras, o Brasil não enfrenta um déficit de conhecimento científico.

Entretanto, possuir informação qualificada está longe de significar que o país esteja preparado para responder aos riscos anunciados. O maior problema continua sendo a enorme distância entre as previsões produzidas pela comunidade científica e sua incorporação pelas diferentes esferas de governo. Em muitos casos, os alertas são conhecidos com antecedência, mas permanecem sem consequências práticas. Áreas de risco continuam sendo ocupadas; empreendimentos seguem sendo licenciados em ecossistemas costeiros frágeis; sistemas de drenagem permanecem insuficientes; estruturas de contenção deixam de receber manutenção adequada; e os órgãos responsáveis pela prevenção convivem com limitações orçamentárias e institucionais que reduzem significativamente sua capacidade de atuação.

As inundações que atingiram o Rio Grande do Sul entre 2023 e 2024 constituem um exemplo eloquente dessa desconexão entre ciência e política. Os eventos meteorológicos foram extraordinários, mas seus efeitos foram amplificados por deficiências acumuladas durante muitos anos na manutenção da infraestrutura, no planejamento territorial e na preparação dos sistemas de resposta. O desastre revelou que eventos extremos podem superar rapidamente estruturas degradadas e políticas públicas insuficientes, especialmente quando se combinam à fragmentação das responsabilidades entre União, estados e municípios e à recorrente tendência de liberar recursos apenas depois da ocorrência das catástrofes. Trata-se de uma lógica que, além de produzir perdas humanas e materiais muito maiores, acaba transferindo os custos mais elevados justamente para as populações socialmente mais vulneráveis.

Por essa razão, o fortalecimento do atual episódio de El Niño deveria ser interpretado como uma oportunidade para substituir a cultura da reação pela cultura da prevenção. A ciência já oferece informações suficientes para indicar que o país atravessa um período de elevado risco climático, cujos efeitos serão distintos conforme as características ambientais, sociais e econômicas de cada região. Isso significa que União, estados e municípios não podem aguardar a ocorrência de novos desastres para começar a agir. O momento exige a elaboração imediata de planos de contingência capazes de responder aos diferentes cenários projetados pelos modelos climáticos.

Nas regiões Sul, Sudeste e em grande parte da costa brasileira, esses planos precisam contemplar a possibilidade de chuvas intensas, ventos de grande velocidade, tempestades de granizo, ressacas, erosão costeira, alagamentos urbanos, inundações, deslizamentos de encostas e interrupção de serviços essenciais. Para que sejam efetivos, deverão definir responsabilidades institucionais, aperfeiçoar os sistemas de monitoramento e alerta, estabelecer rotas de evacuação, estruturar locais de acolhimento temporário e fortalecer a coordenação entre Defesa Civil, órgãos ambientais, universidades, serviços de saúde e assistência social. Não basta produzir boletins meteorológicos; é indispensável que a informação científica seja convertida em protocolos operacionais capazes de reduzir a exposição da população aos riscos.

Ao mesmo tempo, os modelos climáticos indicam elevada probabilidade de secas severas em partes da Amazônia e da região Nordeste. Nesses territórios, os planos de contingência precisarão seguir uma lógica distinta, priorizando a gestão dos recursos hídricos, a proteção de reservatórios e mananciais, o abastecimento de água para populações urbanas e rurais, a preparação dos serviços de saúde para enfrentar ondas de calor, o monitoramento da qualidade do ar e o fortalecimento das estruturas de prevenção e combate aos incêndios florestais. A redução das vazões dos rios poderá ainda comprometer o transporte, o abastecimento de alimentos, a produção agrícola, a pesca artesanal, a geração de energia e o acesso à água potável em inúmeras comunidades, exigindo políticas específicas de apoio aos agricultores familiares, pescadores artesanais, povos indígenas, comunidades quilombolas e demais populações tradicionais, que normalmente figuram entre as primeiras vítimas das crises climáticas e dispõem de menor capacidade econômica e institucional para enfrentá-las.

Esse conjunto de desafios confirma uma ideia que deveria orientar toda a política brasileira de adaptação: os riscos climáticos distribuem-se de maneira profundamente desigual pelo território nacional. O país poderá conviver simultaneamente com excesso de água em algumas regiões e escassez hídrica extrema em outras, exigindo respostas diferenciadas para problemas igualmente distintos. Não existe, portanto, um modelo único de adaptação capaz de atender à diversidade ambiental e social brasileira. Cada território necessita de medidas compatíveis com suas características específicas, mas essas iniciativas precisam integrar uma estratégia nacional coerente, apoiada na cooperação entre os diferentes níveis de governo e sustentada pelo conhecimento produzido pelas instituições científicas.

Entretanto, nenhuma dessas iniciativas produzirá resultados concretos se continuar faltando aquilo que, historicamente, tem impedido a consolidação de uma política consistente de adaptação climática: recursos públicos. As diferentes esferas de governo precisam instituir imediatamente dotações orçamentárias específicas para prevenção de desastres, adaptação climática e resposta antecipada aos eventos extremos. Investimentos em monitoramento, sistemas de alerta, drenagem urbana, recuperação de manguezais, restingas e dunas, proteção de mananciais, armazenamento de água, combate aos incêndios, fortalecimento da Defesa Civil, saúde pública e assistência social não podem continuar submetidos à lógica dos cortes permanentes ou às restrições impostas pelas políticas de austeridade fiscal. Sem financiamento estável, planos de contingência permanecerão como documentos formais incapazes de alterar a realidade.

É precisamente nesse ponto que a discussão sobre o El Niño ultrapassa os limites da meteorologia para ingressar definitivamente no terreno das escolhas políticas. Persistir tratando a adaptação climática como uma despesa secundária equivale a aceitar, de forma consciente, que os prejuízos humanos, econômicos e ambientais continuarão crescendo à medida que os eventos extremos se intensificarem. A aparente economia produzida pelos cortes orçamentários transforma-se, inevitavelmente, em custos muito mais elevados na reconstrução de cidades, na recuperação de infraestruturas destruídas, na assistência às populações atingidas e na compensação de perdas que, em muitos casos, jamais poderão ser plenamente reparadas.

A pior resposta que o Brasil poderia oferecer diante do fortalecimento do atual episódio de El Niño seria continuar tratando cada desastre como um acontecimento isolado e imprevisível. Os modelos climáticos hoje disponíveis permitem antecipar grande parte dos riscos que deverão atingir o território nacional. Se as diferentes esferas de governo insistirem em ignorar esses alertas, dificilmente poderão alegar desconhecimento diante dos danos futuros. As tragédias que vierem a ocorrer resultarão não apenas da intensidade dos fenômenos naturais, mas também da incapacidade — ou da falta de vontade política — de transformar conhecimento científico em ação preventiva.

Em última análise, o desafio colocado pelo fortalecimento do El Niño transcende o próprio fenômeno climático. O que está em jogo é a capacidade do Estado brasileiro de abandonar o negacionismo climático tácito que ainda orienta parcela significativa das políticas públicas e reconhecer que adaptação deixou de ser uma agenda para o futuro. Ela constitui uma necessidade imediata e uma responsabilidade permanente de Estado. Enquanto essa mudança não ocorrer, o país continuará repetindo um ciclo perverso: produzir previsões científicas cada vez mais precisas e, ao mesmo tempo, fracassar sistematicamente em prevenir os impactos que elas anunciam.

Romper com o negacionismo climático tácito

Há um aspecto que atravessa toda essa discussão e que precisa ser enfrentado de maneira explícita. O Brasil não sofre apenas com os impactos crescentes das mudanças climáticas, mas também com um negacionismo climático que raramente se manifesta por meio da negação aberta das evidências científicas, mas que se expressa de forma muito mais sutil e igualmente nociva: a recusa em transformar o conhecimento disponível em políticas públicas permanentes de adaptação.

Nas últimas décadas, tornou-se relativamente comum ouvir autoridades reconhecerem a gravidade da crise climática em discursos, conferências internacionais e documentos oficiais. Entretanto, esse reconhecimento raramente se converte em decisões compatíveis com a dimensão do problema.  Empreendimento continuam sendo aprovados s em áreas ambientalmente frágeis; seguem sendo flexibilizadas normas de proteção dos ecossistemas costeiros; os investimentos em prevenção permanecem insuficientes; e políticas de ajuste fiscal continuam limitando justamente os órgãos responsáveis pelo planejamento territorial, pela gestão ambiental e pela redução dos riscos de desastres. Em outras palavras, admite-se a existência da crise climática, mas age-se como se seus efeitos pudessem ser enfrentados futuramente ou por meio de respostas emergenciais.

Essa postura representa uma forma particularmente perversa de negacionismo. Ao contrário da negação explícita da ciência, ela reconhece formalmente o problema, mas esvazia sua importância prática ao adiar continuamente as medidas necessárias para reduzir a vulnerabilidade da sociedade. Trata-se de um negacionismo que se manifesta nos orçamentos públicos, nas prioridades de investimento, na ausência de planejamento territorial e na incapacidade de integrar a produção científica às decisões governamentais. É justamente por isso que seus efeitos costumam ser menos visíveis no debate público, embora sejam profundamente perceptíveis quando eventos extremos atingem a população.

A adaptação climática precisa deixar de ocupar uma posição secundária na agenda nacional para tornar-se uma política estruturante do desenvolvimento brasileiro. Isso significa incorporar os riscos climáticos ao planejamento urbano, ao ordenamento territorial, à política habitacional, à gestão costeira, à proteção dos recursos hídricos, à infraestrutura, à agricultura, à saúde pública e à educação. Significa, igualmente, reconhecer que a conservação de manguezais, restingas, dunas, florestas e áreas úmidas não constitui apenas uma política ambiental, mas um componente essencial da infraestrutura necessária para reduzir perdas humanas, econômicas e ecológicas diante da intensificação dos eventos extremos.

Essa transformação exige também recuperar a capacidade de planejamento do Estado brasileiro. A prevenção de desastres não pode continuar dependente de programas temporários ou de iniciativas fragmentadas entre diferentes níveis de governo. É indispensável construir uma política nacional de adaptação climática dotada de financiamento estável, metas claras, responsabilidades definidas e mecanismos permanentes de coordenação entre União, estados e municípios. Nesse processo, as universidades públicas, os institutos de pesquisa e os órgãos técnicos precisam deixar de ser consultados apenas em momentos de crise e passar a ocupar posição central na formulação e no acompanhamento das políticas públicas.

Ao mesmo tempo, torna-se imprescindível reconhecer que a adaptação climática possui uma dimensão profundamente social. Os impactos do fortalecimento do El Niño e das mudanças climáticas não atingirão toda a população de maneira uniforme. Agricultores familiares, pescadores artesanais, povos indígenas, comunidades quilombolas, moradores das periferias urbanas e populações residentes em áreas costeiras ou sujeitas a inundações e deslizamentos tendem a suportar uma parcela desproporcional dos prejuízos. A construção de uma política de adaptação, portanto, deve partir do reconhecimento dessa geografia desigual dos riscos e priorizar justamente os territórios e grupos sociais historicamente mais vulnerabilizados.

O fortalecimento do atual episódio de El Niño oferece ao Brasil uma oportunidade que não pode ser desperdiçada. Os modelos climáticos permitem antecipar grande parte dos riscos; as instituições científicas dispõem de competência reconhecida internacionalmente; e o país possui instrumentos legais capazes de orientar políticas de prevenção e adaptação. O que permanece ausente é a decisão política de mobilizar esses recursos de maneira articulada e contínua. Enquanto essa decisão continuar sendo adiada, o Brasil permanecerá preso a um ciclo perverso no qual previsões cada vez mais precisas convivem com uma incapacidade igualmente crescente de evitar desastres anunciados.

Em última análise, o desafio colocado pelo El Niño transcende o próprio fenômeno climático. Ele expõe os limites de um modelo de desenvolvimento que continua subordinando o planejamento territorial, a proteção ambiental e a segurança das populações aos imperativos da expansão imobiliária, do crescimento econômico de curto prazo e das políticas permanentes de austeridade fiscal. Romper com essa lógica deixou de ser apenas uma necessidade ambiental; tornou-se uma condição indispensável para reduzir a vulnerabilidade do território brasileiro diante de um clima em rápida transformação.

Se o Brasil pretende enfrentar de forma consequente os desafios colocados pelo atual ciclo do El Niño e pelos eventos extremos que tendem a se tornar cada vez mais frequentes nas próximas décadas, será necessário abandonar definitivamente o negacionismo climático tácito que ainda permeia as diferentes esferas de governo. A adaptação climática precisa ser elevada à condição de política de Estado, sustentada por planejamento de longo prazo, financiamento público adequado e compromisso efetivo com a redução das desigualdades socioambientais. Somente assim será possível interromper o ciclo recorrente de tragédias anunciadas que continua marcando a relação do Brasil com os desastres climáticos e construir uma sociedade efetivamente preparada para enfrentar os desafios de um planeta em acelerada transformação.

Paulo Artaxo alerta: Brasil ainda não construiu uma cultura de adaptação ao novo clima

Docente da USP  defende planejamento de longo prazo, investimentos em prevenção e políticas públicas capazes de enfrentar uma crise climática que já amplia eventos extremos e aprofunda as desigualdades socioambientais no país

Em entrevista publicada pela jornalista Vanessa Oliveira no jornal Valor Econômico, o físico e professor da USP, Paulo Artaxo, faz um diagnóstico que deveria orientar o planejamento público em todas as escalas de governo: o Brasil ainda está muito atrasado na construção de uma estratégia consistente para enfrentar os impactos de um clima que já não corresponde aos padrões do passado. A mensagem central da reportagem é clara: não basta reagir às tragédias quando elas acontecem; é preciso criar uma cultura permanente de prevenção, adaptação e planejamento.

Essa avaliação ganha ainda mais relevância porque os eventos extremos deixaram de ser exceções. Secas prolongadas, ondas de calor, tempestades intensas, enchentes e incêndios florestais passam a ocorrer com maior frequência e intensidade, impondo custos humanos, econômicos e ambientais crescentes. A insistência em tratar esses episódios como acontecimentos isolados impede que sejam enfrentados como parte de uma transformação climática estrutural.

No caso brasileiro, entretanto, o problema é ainda mais complexo. Não existe um único “novo clima”, mas diferentes expressões regionais da crise climática. Enquanto o Sul enfrenta chuvas excepcionais e inundações recorrentes, partes da Amazônia e do Nordeste convivem com secas severas, redução da disponibilidade hídrica e aumento do risco de incêndios. Nas zonas costeiras, tempestades, erosão marinha e elevação do nível do mar ampliam a vulnerabilidade de municípios que, em sua grande maioria, sequer dispõem de instrumentos adequados de planejamento territorial e gerenciamento costeiro.

Há também uma dimensão social que frequentemente permanece invisível. Os impactos climáticos distribuem-se de maneira profundamente desigual. Populações de baixa renda, moradores de periferias urbanas, comunidades tradicionais, agricultores familiares, pescadores artesanais e povos indígenas costumam sofrer os efeitos mais severos, justamente porque dispõem de menor infraestrutura, menor proteção estatal e menor capacidade de recuperação após os desastres. Adaptar o país ao novo clima significa, portanto, enfrentar simultaneamente as desigualdades socioespaciais que amplificam esses riscos.

Outro aspecto importante da entrevista é a defesa de que adaptação não deve ser entendida como uma política emergencial, mas como uma política permanente de Estado. Isso exige planejamento territorial, fortalecimento da ciência, investimentos contínuos em monitoramento meteorológico, sistemas de alerta precoce, infraestrutura resiliente e políticas públicas capazes de reduzir vulnerabilidades antes que os desastres ocorram. Sem isso, continuará prevalecendo o modelo de reconstrução após cada tragédia, normalmente mais caro e menos eficiente do que a prevenção.

A advertência de Paulo Artaxo merece ser levada muito além do debate científico. Construir uma cultura de enfrentamento ao novo clima significa reconhecer que a emergência climática já está reorganizando o território brasileiro.  A persistência de uma lógica da improvisação, de cortes orçamentários e da ausência de planejamento significará transformar eventos extremos em crises humanitárias cada vez mais frequentes. A adaptação climática deixou de ser uma escolha política: tornou-se uma condição indispensável para proteger vidas, economias locais e ecossistemas em um país que já experimenta, diariamente, os efeitos das mudanças em curso.

Quando o mar avança, o Brasil responde despejando areia

Enquanto bilhões podem ser consumidos por obras temporárias de engorda de praias, cidades costeiras seguem sem investimentos à altura dos desafios impostos pelas mudanças climáticas

Uma reportagem publicada pelo O Estado de S. Paulo, assinada pelo jornalista José Maria Tomazela, chama atenção para um problema que tende a se agravar nas próximas décadas: cerca de 40% das praias brasileiras já sofrem com processos erosivos, enquanto cresce a aposta em obras de engorda artificial como principal resposta ao avanço do mar.

A própria matéria deixa claro aquilo que especialistas em geomorfologia costeira vêm afirmando há anos: a engorda de praias não representa uma solução definitiva. Trata-se de uma intervenção temporária, extremamente cara e que exige repetição periódica. Em muitos casos, a areia adicionada acaba sendo novamente removida pelas ondas e correntes, obrigando novas aplicações e multiplicando os custos públicos.

O problema é que essa estratégia continua tratando a erosão como um fenômeno isolado, quando ela é apenas uma das manifestações de uma crise muito maior. A combinação entre mudanças climáticas, elevação do nível médio do mar, intensificação de eventos extremos e décadas de ocupação inadequada do litoral altera profundamente a dinâmica costeira. Nenhuma quantidade de areia conseguirá reverter processos físicos que tendem a se intensificar ao longo deste século.

Há ainda um aspecto pouco discutido. Grande parte das obras de engorda visa proteger empreendimentos imobiliários de alto valor econômico, áreas turísticas e infraestrutura instalada junto à linha de costa. Em outras palavras, frequentemente se socializam os custos para preservar ativos privados altamente valorizados. Isso não significa que determinadas intervenções emergenciais não possam ser necessárias, mas elas não deveriam ser confundidas com uma política consistente de adaptação climática.

Nesse sentido, talvez a principal reflexão provocada pela reportagem seja outra: quanto dinheiro continuará sendo destinado a obras que precisam ser refeitas continuamente, enquanto cidades brasileiras permanecem despreparadas para enfrentar os impactos das mudanças climáticas?

Os recursos públicos empregados em sucessivas engordas de praias seriam muito mais bem utilizados em um amplo programa de adaptação climática das cidades brasileiras, especialmente das cidades litorâneas, que já sofrem — e sofrerão cada vez mais — com a elevação do nível do mar, tempestades mais intensas, inundações costeiras, salinização de aquíferos, perda de infraestrutura e deslocamento de populações. Isso inclui planejamento urbano, restauração de ecossistemas costeiros, proteção de manguezais e restingas, revisão do uso e ocupação do solo, sistemas de drenagem resilientes e, em situações inevitáveis, programas de retirada planejada de ocupações em áreas de alto risco.

Persistir na lógica de reconstruir praias indefinidamente equivale a insistir em enxugar gelo diante de um oceano em transformação. O desafio colocado pelas mudanças climáticas exige abandonar soluções paliativas e investir em políticas públicas capazes de aumentar a resiliência das cidades e das populações costeiras.

El Niño se fortalece enquanto Brasil segue despreparado para enfrentar eventos extremos

NOAA alerta para um El Niño potencialmente muito forte enquanto milhares de municípios brasileiros seguem sem infraestrutura, planejamento e protocolos capazes de enfrentar enchentes, deslizamentos e outros eventos extremos intensificados pelas mudanças climáticas

Reportagens publicadas pela Folha de S.Paulo nesta sexta-feira, 12 de junho de 2026, assinadas por Clayton Castelani, Jéssica Maes e Philippe Watanabe, traçam um quadro preocupante: ao mesmo tempo em que cresce a probabilidade de um El Niño de grande intensidade, o Brasil continua apresentando baixíssima capacidade de adaptação a enchentes, deslizamentos e demais eventos climáticos extremos.

Segundo a reportagem de Clayton Castelani, aproximadamente 3,6 mil municípios brasileiros apresentam baixa capacidade de adaptação aos efeitos das chuvas intensas. Um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que avaliou 5.570 cidades, mostra que apenas uma pequena parcela possui elevada capacidade institucional para enfrentar enchentes e deslizamentos. O levantamento considera fatores como infraestrutura, políticas públicas, recursos financeiros e capacidade administrativa, revelando que grande parte da população permanece altamente vulnerável.

A segunda reportagem, de Jéssica Maes, argumenta que a adaptação climática depende muito menos de obras caras do que de planejamento e organização institucional. Especialistas defendem a criação e atualização permanente de protocolos de emergência, sistemas de alerta, rotas de fuga bem sinalizadas, centros públicos de resfriamento durante ondas de calor e planos de contingência conhecidos pela população. O texto ressalta que essas medidas possuem custo relativamente baixo quando comparadas aos enormes prejuízos econômicos e sociais provocados por desastres climáticos, que já se multiplicam em diversas regiões do país.

Complementando esse diagnóstico, Philippe Watanabe informa que a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) elevou para 84% a probabilidade de desenvolvimento do fenômeno entre setembro e dezembro de 2026. Além disso, existe uma possibilidade significativa de que o evento alcance a categoria de El Niño muito forte entre novembro e janeiro, podendo estabelecer novos recordes históricos de temperatura do oceano Pacífico.

A reportagem destaca que o aquecimento observado na região Niño 3.4 já ultrapassa valores compatíveis com um El Niño moderado e pode superar a marca de 2°C acima da média, patamar característico dos episódios mais intensos já registrados. Caso essa projeção se confirme, os impactos poderão incluir secas severas em algumas regiões do planeta, enchentes em outras, redução da produção agrícola, aumento do risco de incêndios florestais e maior ocorrência de eventos climáticos extremos.

Para o Brasil, as consequências podem variar regionalmente. A Amazônia e parte do Norte tendem a enfrentar redução das chuvas e aumento do risco de queimadas, enquanto o Sul pode registrar precipitações acima da média e enchentes mais frequentes. Ao mesmo tempo, o aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa atua como um fator de amplificação desses fenômenos, tornando os eventos associados ao El Niño ainda mais intensos.

Em conjunto, as três reportagens da Folha de S.Paulo oferecem uma mensagem clara: o problema não é apenas a possibilidade de um El Niño muito forte, mas a enorme distância entre os riscos climáticos conhecidos pela ciência e a capacidade efetiva do Estado brasileiro de proteger sua população. Em um cenário de mudanças climáticas aceleradas, investir em adaptação, planejamento e prevenção deixa de ser uma opção para se tornar uma necessidade urgente de política pública.

Neoliberalismo está na raiz da produção continuada de desastres climáticos urbanos

A informação divulgada pelo jornal O Globo de que o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (PL), reduziu de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões a verba destinada à prevenção de impactos das chuvas entre 2023 e 2025 repercutiu de forma explosiva diante da situação trágica enfrentada por diversas cidades da Zona da Mata mineira após eventos meteorológicos extremos.

Por mais controversa que seja a gestão de Romeu Zema e sua orientação fiscal, ele não constitui um caso isolado no uso da tesoura orçamentária que retira recursos da prevenção e, sobretudo, da adaptação climática urbana. Em 2022, quando chuvas extremas provocaram mais de 100 mortes em Petrópolis (RJ), verificou-se que havia mais recursos destinados a eventos artísticos do que a ações preventivas. O problema, portanto, transcende indivíduos e revela uma lógica política mais ampla.

A prevalência de políticas fiscais de perfil neoliberal tende a enquadrar investimentos em prevenção e adaptação climática como despesas secundárias ou indesejáveis. O resultado é que justamente as áreas que exigiriam ampliação de financiamento — diante das evidências de um novo padrão de chuvas intensas, com volumes concentrados em curtos intervalos e alto potencial destrutivo em áreas urbanas vulneráveis — permanecem subfinanciadas. A recorrência dos desastres não decorre apenas da força dos eventos, mas da sistemática despriorização orçamentária da adaptação.

As políticas de estabilização fiscal implementadas à custa do investimento urbano estão, assim, na raiz da ampliação dos desastres observados no Brasil e no mundo nos últimos anos. A magnitude crescente dos eventos extremos expõe a inadequação de orçamentos comprimidos e estruturas precárias de prevenção. A resposta posterior, frequentemente marcada por gestos simbólicos e visitas oficiais, não substitui a ausência de planejamento estrutural.

O Brasil não está apenas atrasado na agenda de adaptação climática; encontra-se estruturalmente despreparado do ponto de vista orçamentário. Estados e municípios, em sua maioria, carecem de sistemas mínimos de monitoramento e de capacidade de resposta rápida. Soma-se a isso o fato de que a prometida “Autoridade Climática Nacional”, anunciada no programa eleitoral do então candidato Lula, não se concretizou, em grande medida por ausência de previsão orçamentária no âmbito federal. O descompasso entre discurso e financiamento reforça a vulnerabilidade institucional.

Enquanto persistir a adesão a políticas que comprimem o investimento público estratégico, as cidades brasileiras permanecerão expostas a um padrão climático cada vez mais instável. O que se observa em Juiz de Fora e Ubá tende a se repetir — possivelmente de forma mais intensa — nos próximos meses e anos. Não se trata de exercício de previsão alarmista, mas da constatação empírica de duas tendências convergentes: a intensificação dos eventos extremos e a insuficiência estrutural das políticas de adaptação.

Dilúvio, adaptação climática negligenciada e neoliberalismo: quem paga o preço são os pobres

Ao longo desta terça-feira, ficou mais claro o tamanho da tragédia que se abateu sobre as cidades de Juiz de Fora e Ubá, ambas localizadas na Zona da Mata de Minas Gerais. Afora o número incerto de mortos, as imagens evidenciaram um processo de destruição de grande magnitude nas duas cidades. Fatores naturais, como relevo e orientação geográfica, contribuíram para exponencializar os problemas decorrentes de grandes volumes de precipitação em curtos períodos de tempo. 

Mas o que se viu em termos de destruição é apenas uma pequena amostra do que deverá ocorrer em grandes partes do território brasileiro nos próximos anos e décadas, caso medidas urgentes de adaptação urbana não sejam adotadas para tornar as cidades minimamente ajustadas ao novo padrão climático, caracterizado por eventos meteorológicos cada vez mais extremos, como o observado ontem em Juiz de Fora e Ubá.

O problema é que o Brasil vive hoje sob uma combinação mortífera que mistura negacionismo climático com regras orçamentárias de viés neoliberal. Essa combinação é particularmente grave na medida em que, em todos os níveis de governo (federal, estadual e municipal), há um desprezo pelo conhecimento científico e uma adesão aos cânones neoliberais que implicam pouca ou nenhuma destinação de recursos para pesquisa científica e adaptação climática.

Se essa combinação não for drasticamente revertida, os próximos anos e décadas serão dramáticos nas cidades brasileiras, sobretudo nas regiões habitadas pelos segmentos mais pobres da população. Isso porque, no momento de melhorar a infraestrutura urbana — mesmo nas formas ultrapassadas que continuam sendo adotadas —, são as áreas mais ricas as principais beneficiadas. Para agravar a situação, aos mais pobres são destinadas as áreas rejeitadas pela especulação imobiliária.

É preciso, mais do que nunca, retomar a discussão sobre a reforma do solo urbano, de modo a democratizar o acesso à terra — condição básica para que as cidades deixem de ser tão segregadas. É fundamental alterar a estrutura da propriedade urbana, pois somente assim será possível iniciar a formulação e a execução de políticas de adaptação que sejam justas para todos, e não restritas aos segmentos que hoje hegemonizam os escassos recursos destinados ao aprimoramento das estruturas urbanas.

Diante desse quadro, não se trata apenas de reconhecer a gravidade dos eventos recentes, mas de romper com a inércia política que os transforma em rotina. É imperativo recolocar o planejamento urbano, a ciência e a justiça socioespacial no centro das decisões públicas, com investimentos consistentes em adaptação climática, revisão das prioridades orçamentárias e enfrentamento direto das desigualdades no acesso à terra. Sem isso, cada nova tragédia deixará de ser exceção para se consolidar como regra — não por fatalidade natural, mas por escolha política.

Dançando enquanto o colapso não vem: Hegemonia do modelo agroquímico mineral causa atraso na adaptação climática no Brasil

Solidariedade real e radical entre os povos para enfrentar o colapso  climático - Brasil de Fato

As últimas semanas têm sido marcadas pela ocorrência de eventos tão extremos como díspares. As cenas de grandes tempestades, grandes oscilações de temperatura, e destruição de bens e propriedades têm ocupado parcelas cada vez mais maiores dos noticiários. Somado à confirmação de um novo normal climático, o que se vê é a discrepância já existente na capacidade de adaptação a essa situação, com países do capitalismo dependente ficando cada vez mais para trás na aplicação de medidas que representem algum tipo de esforço de preparação para as situações extremas que estão se tornando cada vez mais frequentes.

Um aspecto que sempre é negligenciado é que não falta ciência e cientistas para informar melhor a tomada de decisões. Uma voz que alerta frequentemente para os problemas climáticos é o físico Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo, que sendo um dos maiores experts em mudanças climáticas no Brasil sempre se manifesta sobre a necessidade de preparar nossas cidades para o novo normal climático. Um dos elementos que Artaxo destaca é o fato de que a adaptação terá de ser ajustada localmente, na medida em que os extremos climáticos se manifestarão de forma diferenciada, dependendo de fatores locacionais.  Em outras palavras, não haverá uma receita única para o processo de adaptação.

Como venho me interessando há algum tempo pela questão da adaptação climática ao nível das cidades, usando a cidade de Campos dos Goytacazes como ponto privilegiado de observação, o que posso dizer é que ainda não há o mínimo interesse por partes dos governantes em discutir seriamente a necessidade de preparação para o aprofundamento dos problemas associados ao clima.  Em Campos dos Goytacazes, inexistem medidas de mudança na paisagem urbana. Aliás, pelo contrário. O que se tem é a persistência de práticas de remoção da parca vegetação urbana existente, como ficou claro recentemente com a remoção de dezenas de árvores de grande porte, apenas para tornar a marca de um supermercado mais visível. Além disso, não temos ainda nenhuma medida para ajustar materiais de construção que possam ser mais afeitos aos extremos de temperatura que estão se tornando uma das marcas do padrão climático.  Para colar a cereja no bolo, ainda inexiste orçamento para instalar as estruturas que deveriam apoiar e viabilizar as decisões de governo em momentos de ocorrência de eventos meteorológicos extremos.

O problema é que Campos dos Goytacazes não é uma exceção insólita, mas uma espécie de vanguarda do atraso. A verdade é que a maioria, senão a totalidade, das cidades brasileiras não deu ainda os passos iniciais para a adaptação climática que poderia evitar o colapso das cidades com locais viáveis para a existência humana.  Um dos fatos essenciais para isso é a hegemonia das forças políticas que controlam e se beneficiam do modelo agroquímico e mineral que ditam os investimentos públicos no Brasil. Essas forças determinam grandes investimentos na produção de commodities agrícolas e minerais de exportação, bem como a instalação de infraestruturas de escoamento (chamam isso de logística) do que é produzido a partir deste modelo. E nunca é demais dizer que esse modelo contribui diretamente para a crise climática, o que explica porque a hegemonia desse modelo inibe qualquer discussão séria sobre adaptação. 

Como é a classe trabalhadora quem sofre e sofrerá cada vez mais os efeitos da crise climática, já que seus membros estarão expostos a um agravamento das temperaturas enquanto trabalham e terão de voltar para locais de moradia que serão os mais atingidos pelos extremos meteorológicos, é necessário colocar essa discussão no centro do debate político. No caso brasileiro, me parece evidente que não serão as forças políticas que apoiam o modelo agroquímico e mineral que farão isso. Esta tarefa terá que ser abraçada pelos segmentos de esquerda que não se limitam a gerenciar o capitalismo dentro dos limites aceitos por quem realmente controla o status quo agroquímico mineral.  O problema é se essas forças de esquerda vão acordar antes que o colapso se torne inevitável.

Aqui um um aviso é importante: o tempo para a tomada de posições está se esgotando.

Campos dos Goytacazes é um lugar ainda longe da necessária adaptação climática, mostra estudo na Uenf

Chuva causou alagamento na Rua Antônio de Castro com a Zuza Mota, em  Campos, no RJ

Venho estudando e orientando estudos referentes ao processo de adaptação às consequências trazidas pelas mudanças climáticas que estão ocorrendo em função da emissão de gases poluentes que resultou no aquecimento da atmosfera da Terra.  Um dos focos desses estudos são os esforços realizados (ou melhor, não realizados) para dotar governos locais dos instrumentos necessários para preparar as cidades para as drásticas mudanças que estão ocorrendo por causa do aquecimento.

Pois bem, hoje venho divulgar a dissertação intitulada “Potencialidades e entraves para realizar o processo de adaptação climática em Campos dos Goytacazes/RJ” que foi defendida com êxito pela minha orientanda Débora Silva Rodrigues no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Uenf.  O estudo empregou uma série de técnicas de coleta de dados com o objetivo de obter as perspectivas existentes na população, pesquisadores e agentes de governo sobre a existência (ou não) de uma crise climática, e dos passos necessários para fazer frente ao processo. Além disso, foi feita a análise de documentos legais que deveriam versar sobre os esforços para conduzir o processo de adaptação (um deles o Plano Diretor Municipal). Além disso, também foram analisados os programas dos 3 candidatos a prefeito nas eleições municipais de 2022 (i.e., Delegada Madeleine, Professor Jeferson e Wladimir Garotinho). Finalmente, uma busca foi feita para verificar a existência de ações judiciais voltadas para a questão ambiental em Campos dos Goytacazes.

Os resultados da pesquisa mostraram a existência de um ,descompasso entre a percepção da população, os discursos das autoridades governamentais, a atuação das instituições de controle e os dispositivos legais existentes. Além disso,  a pesquisa verificou uma atuação periférica e desatualizada dos órgãos de controle que, aliada à baixa apropriação dos dispositivos legais, evidencia um déficit institucional relevante, que compromete a governança climática local.  Um fato interessante que a pesquisa evidenciou é que a população demonstrou ser capaz de reconhecer os impactos recorrentes da crise climática e perceber que os efeitos são mais intensos entre os grupos socialmente fragilizados. No entanto, o conhecimento sobre as medidas adaptativas adotadas pelo poder público é limitado, assim como a percepção sobre a relevância dessas estratégias.

Um dos dados que evidenciam a discrepância dos impactos das mudanças climáticas , pode ser verificado a partir de um mapa que foi construído a partir das respostas dadas pela população sobre o período que duram os alagamentos que ocorrem em seus locais de moradia na cidade de Campos dos Goytacazes quando chuvas intensas ocorrem. O que foi evidenciado é que os períodos de alagamento variam em diferentes pontos da área urbana, mas também dna rural (ver imagem abaixo)

Mapa dos bairros na área urbana do Município de Campos dos Goytacazes indicados pelos respondentes com situação de alagamento.

A principal conclusão do estudo é que os obstáculos enfrentados pela cidade de Campos dos Goytacazes para a construção de uma agenda efetiva de adaptação climática não se limitam a aspectos técnicos ou financeiros, mas estão enraizados em condicionantes políticos, estruturais e institucionais.  Na prática, o que estudo mostrou é que não há efetivamente uma política municipal de adaptação climátic, em que pese, por exemplo, todo o alarde que foi feito em torno do veto presidencial à chamada PL do Semiárido. 

Quem desejar ler a dissertação “Potencialidades e entraves para realizar o processo de adaptação climática em Campos dos Goytacazes/RJ”, basta clicar [Aqui!].

Adaptação climática na Amazônia deve priorizar segurança alimentar da população com espécies resilientes

A adaptação à nova realidade deve incluir a valorização da natureza e dos conhecimentos tradicionais

Na Amazônia, impactos das mudanças climáticas como alterações na temperatura e no regime de chuvas, comprometem a biodiversidade e, por consequência, a vida das populações que dependem diretamente da floresta para sua sobrevivência. A adaptação à nova realidade deve incluir a valorização da natureza e dos conhecimentos tradicionais, a restauração florestal em larga escala e a proteção das águas – essenciais tanto para a produção agrícola como para o transporte na região, dependente das rotas fluviais. Também estão entre as medidas necessárias a proteção e restauração de serviços ecossistêmicos como a polinização e a dispersão de sementes, com a formação de bancos de sementes e redes de coletores, por exemplo, além da identificação de espécies alimentares resilientes às mudanças climáticas – e de sua diversidade genética.

É o que propõe o policy brief “Estratégias de Adaptação Climática Visando o Bem-Estar das Populações Amazônidas”lançado na sexta (29) e elaborado por pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável (ITV) em parceria com autores de instituições como Universidade de São Paulo (USP) e Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais (INPE). A partir da literatura científica, o material reúne um conjunto de recomendações e ações para políticas públicas que garantam segurança alimentar e hídrica especialmente a povos indígenas, comunidades ribeirinhas e quilombolas, além de moradores das áreas rurais e urbanas.

A pesquisadora do ITV Tereza Cristina Giannini, coordenadora da publicação, explica que a iniciativa multidisciplinar reúne cientistas que trabalham com bioeconomia e sustentabilidade de cadeias alimentares na Amazônia e faz parte de projetos em andamento vinculados ao ITV e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A principal motivação foi a constatação, em estudos prévios da equipe, de cenários negativos do impacto das mudanças climáticas sobre cerca de 200 espécies de plantas consumidas por povos nativos da Amazônia, como a castanha-do-pará.

A equipe também busca responder à indicação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) de priorizar a adaptação às mudanças climáticas, já que alguns impactos ambientais são irreversíveis, indo além de esforços voltados somente à mitigação – ou seja, à tentativa de redução dos efeitos das mudanças climáticas. “Às vezes, acredita-se que a mudança climática é unidirecional, mas não é. É um mosaico de impactos muito amplos e que envolve as comunidades humanas de um jeito complexo”, pontua Giannini.

Os projetos de pesquisa seguem adiante e têm como próximos passos a criação de uma cartilha sobre “plantas do futuro”, com foco em espécies potencialmente resilientes e pouco conhecidas; análise do impacto das mudanças climáticas em polinizadores agrícolas, especialmente os envolvidos na produção de cacau, açaí e castanha-do-pará; o mapeamento da vulnerabilidade alimentar de povos indígenas, identificando áreas onde essas populações podem ser mais afetadas por mudança de clima e vulnerabilidade alimentar; e a finalização de um trabalho sobre o genoma do cacau, buscando adaptações às mudanças climáticas para indicar possíveis melhorias genéticas e áreas de preservação.

“O policy brief foi uma grande síntese do conhecimento multifacetário que existe sobre impacto da mudança climática no que diz respeito à alimentação. Essa talvez tenha sido a maior contribuição: ter tantos pontos de vista diferentes e igualmente capacitados, engajados em expor a complexidade do tema e traçar caminhos possíveis”, conclui Giannini.


Fonte: Agência Bori

Em Campos, o estranho caso de uma prefeitura em guerra contra árvores

No último domingo saudei a recriação da Secretaria Municipal de Meio Ambiente pelo prefeito Wladimir Garotinho. Achei, talvez em uma tola ilusão, que finalmente chegaríamos a um modelo de governabilidade minimamente ajustado às necessidades crescentes de adaptação ao processo de mudanças climáticas que assola o planeta neste momento.

Eis que hoje me chegaram imagens de podas drásticas realizadas em árvores existentes na sede da PMCG e, pasmemos todos, nos próprios da recriada Secretaria Municipal de Meio Ambiente ( ver imagens abaixo).

Àrvores completamente mutiladas no entorno da sede da Secretaria Municipal do Meio Ambiente

Árvores mutiladas por podas drásticas na sede da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes

A explicação dada a quem ousou perguntar o porquê de podas tão drásticas que claramente comprometem a saúde das árvores mutiladas. A resposta seria o combate à famigerada “Erva de Passarinho” (que são plantas arbustivas hemiparasitas das famílias Loranthaceae Santalaceae, pertencentes à Ordem das Santalales). Essas plantas são Nativa em todos os continentes do mundo, e parasitam diversas espécies de árvores de grande porte.

Pois bem, vejam abaixo uma das árvores que sofreram poda drástica na sede da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, e me digam se para fazer tamanha mutilação, já que as ervas de passarinho estavam localizadas em galhos inferiores e a poda foi para lá de drástica. Me parece claramente que não.

Árvore mostrada acima na Secretaria Municipal de Meio Ambiente antes de sofrer a poda drástica

A questão aqui é que existem soluções menos drásticas para a remoção das infestações de “Erva de Passarinho” que incluem a simples remoção manual ou apenas a retirada do galho infestado. A solução de podar toda a árvore não apenas é drástica, como vai muito além do que seria necessário, comprometendo a vida útil desses instrumentos fundamentais para a regulação climática urbana. Pelo jeito o que vale é o bordão “pode vir quente que estou fervendo”.

O pior é que se o governo municipal que deveria dar o exemplo no esforço de proteger o nosso limitado estoque de vegetação, o que dirá da população em geral?  Ao realizar essas podas drásticas, o que o governo municipal está dando é uma espécie de licença para podar drasticamente e do jeito que for. Eu digo isso porque se olhar atentamente as árvores podadas sequer a aplicação da calda bordalesa foi realizada, deixando as árvores em condições propiciais para a infestação por fungos e bactérias.  Tudo isso em nome de uma guerra às árvores em uma cidade em que chove pouco e as temperaturas médias são de um tropical “caliente”.

Finalmente, uma pergunta inocente: para onde é levada toda a madeira obtida com essas podas drásticas? É que eu lembro de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado pelo prefeito Arnaldo Vianna junto ao Ministério Público Estadual para não apenas diminuir a prática das podas drásticas, mas também para impedir a comercialização da madeira obtida com elas. Aliás, depois de mais de 20 anos desde que aquele TAC foi assinado, eu me pergunto sobre quem acompanha o seu cumprimento.  Pelo jeito, ninguém.