Alvisseras notícias: Wladimir Garotinho corrige erro e recria secretaria de Meio Ambiente e adiciona Sustentabilidade

Wladimir Garotinho | O pôr do sol da nossa cidade é um PETÁCULO mesmo🌅❤️  Tão bonito que até peguei o cavaquinho só pra lançar o enigma do dia:  alguém arrisca... | Instagram

Quando é para dar boa notícia, a gente dá.  Graças a um colega pesquisador da UFF-Campos, hoje fui informado que no dia 02 de junho o Diário Oficial do Município trouxe a excelente notícia da recriação da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e que agora abarcará também o tema da Sustentabilidade, tendo como secretário o ex-vereador Jorge Rangel (ver imagem abaixo).

Como os leitores deste blog sabem, venho criticando o prefeito Wladimir Garotinho desde que ele tomou posse do seu primeiro mandato por ter cometido a impropriedade de extinguir, em vez de fortalecer, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente.

Agora, apesar de ainda não constar do organograma da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes, o maior município do estado do Rio de Janeiro, onde existem engatilhados vários problemas graves do ponto de vista socioambiental, poderá a ter uma secretaria própria para avançar o processo de adaptação climática.

Como estou terminando a orientação de mais uma dissertação que confirma o atraso crônico na adoção dos chamados Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e da ausência objetiva de ações mínimas em prol da adaptação climática no plano municipal, posso dizer que melhor do que recriar a secretaria, o prefeito Wladimir Garotinho deveria oferecer o devido suporte orçamentário para as ações urgentes que precisam ser tomadas.

A polêmica do PIX foi muito útil para esconder a crise climática que se abateu sobre o Brasil

Ruas da cidade de Florianópolis (SC) foram inundadas após chuvas intensas

Toda a polêmica desatada pela decisão do governo federal de apertar minimamente o monitoramento das transações via PIX foi muito útil em vários sentidos. Um deles que creio ser merecedora de atenção foi que todas as milhões de visualizações de vídeos contendo fake news sobre a portaria do PIX caíram com um lençol de silêncio sobre a manifestação da crise climática em diferentes partes do território brasileiro.

Enquanto o governo Lula se enrolava para explicar o que nem precisaria ser explicado, pelo menos 4 estados brasileiros sofreram com eventos meteorológicos extremos: Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais e Santa Catarina. Nesses 4 estados o rastro de destruição causado por chuvas particularmente intensas deveria ter soado o alarme climático, mas até agora a repercussão tem sido inexplicavelmente abaixo daquilo que ocorreu em torno dos vídeos do PIX.

O fato é que está se tornando cada vez mais evidente que vivemos o princípio de um processo de intensificação de eventos meterológicos extremos, e que está pegando a maioria das cidades brasileiras totalmente despreparadas para fazer frente a essa situação extrema. De quebra, o fato de que inexiste qualquer esforço para reservar recursos orçamentários para dar conta de todos os problemas que estão se desenvolvendo torna a situação ainda mais complexa.

E o exemplo ruim vem de cima. Há que se lembrar que mesmo confrontado com evidências de que a crise climática está se agraando, o governo Lula decidiu reduzir em R$ 200 milhões o orçamento voltado para gerenciar e reduzir riscos de desastres ambientais. A verba reservada para o programa voltado a essas medidas prevê o repasse de R$ 1,7 bilhão em 2025, contra R$ 1,9 bilhão em 2024.  É o ajuste fiscal falando mais alto do que a necessidade de responder aos efeitos trazidos por grandes eventos meteorológicos.

Mas a realide nos estados e municípios não é nada diferente, o que causa um grau altíssimo de despreparo para fazer frente aos danos catastróficos trazidos pelos eventos extremos. Ao assistir cenas do que ocorreu nos últimos dias nas áreas mais atingidas, fica evidente o despreparo das estruturas governamentais para responder de forma eficiente ao avanço das águas. 

E quando a coisa se refere ao processo de adaptação climática, a coisa vai na mesma direção, pois o país do PIX continua ignorando a necessidade de que sejam tomadas decisões estruturais e estruturantes para responder ao agravamento dos problemas climáticos.  E com isso, a tendência de que passemos a ver cenários cada vez mais dramáticos.

Que ninguém se engane: a crise climática está aqui para ficar e vai se agravar.  Assim, urge dar a devida importância política às demandas por adaptação, especialmente para os segmentos mais pobres da população que são as vítimas preferenciais da inação governamental também na área climática.

A ciência climática deve desbloquear soluções em uma época de grandes desafios

À medida que 1,5 grau Celsius de aquecimento é alcançado, a ciência climática deve olhar para o futuro, escreve Aditi Mukherji, diretora da Plataforma de Ação de Impacto para Adaptação e Mitigação das Mudanças Climáticas do CGIAR e autora do IPCC

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Instalando sensores climáticos iButton em campos agrícolas na Tanzânia. Novas pesquisas devem preencher lacunas de evidências para reduzir emissões agrícolas e melhorar sistemas alimentares, diz Aditi Mukherji. Copyright: J.van de Gevel / Bioversity International (CC BY-NC-ND 2.0)

Por Aditi Mukherji para a SciDev

[NAIROBI] Quando os principais cientistas climáticos do mundo publicarem seu próximo relatório em 2028-29, o mundo provavelmente já terá ultrapassado 1,5 grau Celsius a mais de temperatura do que na era pré-industrial por alguns anos, e o prazo para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU estará no horizonte.

O limite estabelecido pelo Acordo de Paris de 2015 para reduzir os impactos das mudanças climáticas foi ultrapassado pela primeira vez em 2024, confirmou o serviço de mudanças climáticas da UE, Copernicus, na semana passada (10 de janeiro).

Então, conforme a próxima avaliação da ciência climática do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) começa, é vital que respondamos às perguntas que nos servirão no futuro. Navegar pelos desafios de amanhã requer ciência com visão de futuro hoje e nos próximos meses.

No centro da nossa missão de limitar as mudanças climáticas estão as comunidades e os setores mais vulneráveis ​​aos seus impactos, especialmente a agricultura e os pequenos agricultores, que desempenham um papel fundamental na alimentação do mundo, mas estão particularmente expostos aos efeitos das mudanças climáticas.

O próximo ciclo da ciência climática deve, portanto, preencher as lacunas em evidências e soluções que reduzam as emissões de gases de efeito estufa da agricultura e, ao mesmo tempo, garantir que a agricultura permaneça viável em um mundo mais quente e menos previsível.

Sabemos que os sistemas alimentares são um grande contribuidor para as mudanças climáticas, respondendo por cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa. O setor claramente precisa fazer a transição para meios mais sustentáveis ​​de produção, consumo e descarte de alimentos para dar suporte às reduções globais de emissões.

No entanto, os sistemas alimentares também são vulneráveis ​​aos impactos das mudanças climáticas. As perdas agrícolas por desastres relacionados ao clima totalizaram US$ 3,8 trilhões nos últimos 30 anos, com as maiores perdas relativas nos países mais pobres. Um aumento de 2 graus Celsius nas temperaturas piorará a já séria insegurança alimentar de longo prazo em muitos países, colocando até 80 milhões de pessoas em risco de fome até 2050.

Perguntas candentes

Este próximo ciclo de avaliações do IPCC deve responder a pelo menos três questões principais relacionadas aos sistemas agroalimentares e às mudanças climáticas para ajudar o mundo a passar da compreensão da crise climática para o enfrentamento dela com a máxima urgência.

A primeira questão para os cientistas do clima é como fazer melhor uso das tecnologias existentes que ajudam os agricultores a combater e lidar com as mudanças climáticas — e aumentar sua adoção e uso.

Inovações para ajudar os agricultores a se adaptarem a novas condições, como serviços digitais de informação climática e culturas resilientes ao clima, já existem, juntamente com desenvolvimentos como bombas de irrigação movidas a energia solar e forragens de baixa emissão, ou rações, que reduzem a pegada de carbono da agricultura. Mas elas não estão chegando aos agricultores na escala necessária para fazer a diferença.

Como canalizar de forma mais eficaz o financiamento, os recursos e o apoio climático dos países mais ricos para implementar essas inovações em países de baixa e média renda é uma questão científica.

Da mesma forma, também precisamos avaliar quais ferramentas e tecnologias permitirão que os agricultores se adaptem a condições mais quentes no futuro. Ciclos de pesquisa anteriores do IPCC mostraram que a capacidade de se adaptar às mudanças climáticas se torna cada vez mais difícil à medida que as temperaturas continuam a subir. Os cientistas precisam investigar quais adaptações de cultivo, gado ou pesca permanecerão viáveis ​​a 1,5 graus Celsius ou mais.

A segunda questão para os cientistas do clima é como tornar as tecnologias de baixa emissão acessíveis e econômicas.

Para que os agricultores tenham a melhor chance de se adaptar e evitar perdas futuras, é crucial que as temperaturas globais se estabilizem e isso exige que as emissões diminuam, incluindo as da agricultura.

No entanto, diferentemente do setor energético, que se beneficiou da pesquisa e inovação em fontes renováveis ​​como a energia solar, o setor agrícola ficou para trás em investimentos em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de baixa emissão.

Precisamos urgentemente identificar campos de pesquisa emergentes e promissores, bem como as políticas, infraestrutura e governança necessárias para tornar as tecnologias limpas acessíveis e amplamente disponíveis.

Por fim, os cientistas precisam abordar a questão de como acelerar a remoção de dióxido de carbono para complementar as reduções de emissões.

À medida que as temperaturas aumentam, a capacidade natural da terra e dos oceanos de sequestrar carbono enfraquece, intensificando a necessidade de remoção de dióxido de carbono (CDR) liderada pelo homem. No entanto, intervenções como o reflorestamento podem reduzir as terras agrícolas, particularmente em países de baixa renda, representando riscos à segurança alimentar. Os cientistas do clima devem mapear os impactos tanto das temperaturas mais altas quanto dos esforços de CDR em larga escala nos sistemas alimentares e meios de subsistência para traçar um curso que não coloque em risco a segurança alimentar .

Ciência voltada para o futuro

As decisões moldadas pelos relatórios do IPCC definirão como o mundo enfrentará os desafios sem precedentes de um planeta em rápido aquecimento, especialmente à medida que nos aproximamos do final desta década crucial.

Como autores do relatório do IPCC, nosso papel vai além de fornecer insights; devemos fornecer ciência acionável, baseada em evidências e voltada para o futuro para capacitar os governos a agir de forma decisiva e eficaz. Isso inclui equipar inovadores e formuladores de políticas para aproveitar o financiamento climático, adaptar soluções aos contextos locais e se preparar para futuros aumentos de temperatura.

Acima de tudo, não podemos esquecer a justiça climática como princípio orientador desta transição verde. Garantir que os mais vulneráveis ​​— muitas vezes também os menos responsáveis ​​— permaneçam na frente e no centro dos nossos planos pode ajudar a alcançar um futuro inclusivo, onde ninguém seja deixado para trás.

Este artigo foi produzido pela Global Desk do SciDev.Net.

Aditi Mukherji é diretora da Plataforma de Ação de Impacto para Adaptação e Mitigação das Mudanças Climáticas do CGIAR e colaboradora de relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).


Fonte: SciDev

Em prol da adaptação climática, estudantes e professores de Políticas Sociais da UENF realizam plantio de árvores no Assentamento Zumbi dos Palmares

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Dando consequência a uma proposta surgida durante a XI Jornada do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Uenf (PPGPS/Uenf) que ocorreu nos dias 08 e 09 de outubro, um grupo de estudantes e professores esteve na manhã deste sábado (14/12) no Assentamento Zumbi dos Palmares para realizar um plantio de mudas de árvores do bioma da Mata Atlântica.  Essa ação ocorreu em parceria com a direção do IFF Bom Jesus de Itabapoana, que cedeu as mudas plantadas, e com a Comissão Pastoral da Terra  (CPT) que organizou o plantio na área de entorno da agrovila do Núcleo IV do Zumbi dos Palmares.

Segundo a coordenadora do PPGPS/UENF, professora Joseane de Souza, atividades desta natureza são importantes porque articulam ensino, pesquisa e extensão na pós graduação, e contribuem para o fortalecimento das relações entre os membros da comunidade acadêmica,  e deles com segmentos da sociedade que participam do esforço em prol de uma adaptação climática justa.

É importante frisar que durante a XI Jornada do PPGPS/Uenf, duas mesas debateram a questão das mudanças climáticas e a necessidade do desenvolvimento de ações que permitam criar uma ponte entre os estudos científicos e busca de um modelo de desenvolvimento econômico que possa apontar saídas socialmente justas para os desafios criados pelas mudanças climáticas.

Nesse sentido, o plantio realizado nesta manhã serviu para não só para dar materialidade aos debates realizados na XI Jornada do PPGPS/Uenf, mas também para criar redes de colaboração envolvendo instituições públicas de ensino e organizações sociais com uma longa trajetória de intervenção social, como é o caso da CPT.

Campos, um município que flerta com a crise climática

20240924solimoesgreenpeace1Protesto do Greenpeace Brasil no leito seco do Rio Solimões: seca extrema leva rios na Amazônia e Pantanal a mínimas extremas (Foto: Nilmar Lage / Greenpeace)

Há poucos meses um professor da Universidade Nacional de Brasília (UNB) veio a Campos dos Goytacazes para participar de uma banca examinadora na Uenf e me confessou sua surpresa com a completa inexistência de matas ciliares ao longo dos corpos hídricos sobre os quais ele sobrevoou antes de aterrisar no Aeroporto Bartolomeu de Lizandro. Segundo esse professor que é um estudioso dos chamados serviços ecossistêmicos, a falta de matas ciliares seria um péssimo prenúncio para a capacidade de adaptação às oscilações climáticas que estão ocorrendo como parte do “novo anormal climático”.

Disse a esse pesquisador que o que ele tinha visto era apenas a ponta de um iceberg de um longo histórico de destruição ambiental que ocorreu para a implantação de diferentes monoculturas na região Norte Fluminense, sendo a cana de açúcar a mais persistente.

Graças à monocultura da cana não apenas tivemos ao longo do Século XX a quase completa destruição das florestas de Mata Atlântica, mas também o avanço sobre importantes corpos hídricos que foram drenados para que os latifundiários locais pudessem ter mais terra, sendo a Lagoa Feia o maior exemplo disso.

Se olharmos também para a situação periclitante do Rio Paraíba do Sul que continua sendo represado e drenado de grandes quantidades de água antes de chegar em nosso município, o que temos é uma espécie de um grande acidente ambiental em desenvolvimento diante dos nossos olhos.  Ao se permitir o represamento continuado do Paraíba do Sul em combinação com a quase completa remoção das florestas naturais e matas ciliares, o que está se plantando é uma grande crise hídrica que poderá deixar Campos dos Goytacazes pendurada na broxa, na medida em que poderemos virar uma cidade construída ao longo de um leito de rio seco, ao menos em partes do ano.

Enquanto o problema que se coloca diante de nós tem uma escala de grande tragédia socioambiental, as respostas até aqui são, no mínimo, inexistentes.  O chamado comitê de bacia do Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana não passa de uma sigla quando se trata de enfrentar as causas da crise hídrica que se desenvolve diante de nossos olhos, enquanto órgãos ambientais como o Inea e o Ibama seguem o mesmo caminho de omissão.

Para piorar o que já é ruim, os municípios desta região, com Campos no leme, não possuem nada próximo do que se poderia chamar de um plano de adaptação climática que comece a proteger os nossos rios e lagoas. É como se todos os prefeitos, a começar por Wladimir Garotinho, achassem que tudo que está por vir de ruim se dará por obra divina.  Wladimir Garotinho, inclusive, conseguiu o feito de fechar a secretaria municipal de Meio Ambiente, justamente em um momento em que a crise climática se torna cada vez mais óbvia e com efeitos ambientais drásticos. 

Apesar da crise climática e suas consequências sobre a disponibilidade de água terem sido ilustres ausentes das eleições municipais recentemente realizadas, o fato inescapável é que precisamos começar a trilhar um caminho diferente de forma urgente. Em uma uma mesa de debate realizada durante a XI Jornada de Políticas Sociais realizada nos dias 8 e 9 de outubro, um dos palestrantes sugeriu que o prefeito de Campos fizesse uma espécie de “Plano Marshall” do reflorestamento, de modo a amenizar a crise climática e seus efeitos sobre a disponibilidade de água e a temperatura. Para o palestrante, com esse plano de reflorestamento, o prefeito conseguiria não apenas gerar um grande número de empregos, mas também abriria um novo horizonte ambiental para Campos dos Goytacazes.

O fato é que sem uma ação compreensiva e urgente para iniciar o processo de adaptação climática, a nossa região terá tempos muito difíceis pela frente, na medida em a transformação recente dos leitos dos principais rios amazônicos em planícies arenosas pode ser um prenúncio do que ainda por ocorrer com o Paraíba do Sul. E a questão inescapável para os campistas: se o Paraíba do Sul secar, de onde virá a água que mata a nossa sede de cada dia?

Estará Campos preparada para a próxima grande inundação? Tudo indica que não!

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Enquanto assistia a cenas estarrecedoras de cidades inteiras sendo engolidas pelas águas dos rios no RS, me coloquei a pensar o que acontecerá aqui em Campos dos Goytacazes se tivermos uma combinação semelhantes de fortes chuvas nas bacias do Paraíba do Sul e do Muriaé nos próximos anos.  Como já se ensaiou em anos recentes com a elevação do nível dos rios e a entrada de suas águas em partes da cidade, também pudemos ver diferentes prefeitos ostentando impecavelmente limpos jalecos da Defesa Civil como se fossem uma criança indo pela primeira a um desfile de Sete de Setembro.

Mas e o orçamento destinado à Defesa Civil? E os investimentos na manutenção de diques e barragens? E a limpeza de canais com a necessária recomposição das matas ciliares? E, mais ainda, os planos para iniciar o urgente processo de adaptação climática, começando por Santo Eduardo?

Cerca de 90% da população de Santo Eduardo foi atingida pelas fortes chuvas  Folha1 - Geral

Quem assiste hoje de forma aliviada e condescendente às cenas que mostram a desgraça do povo pobre do Rio Grande do Sul deveria estar tomado com o mesmo de alarde e urgência daqueles que hoje estão com água até o pescoço ou abrigados em ginásios de esportes sabendo que não terão mais casas para onde voltar quando as enchentes finalmente retrocederem porque elas foram levadas pelas águas?

Uma coisa é certa: a desgraça dos gaúchos não é algo natural, mas foi produzido por um sistema que despreza os conhecimentos científicos e os alertas sobre a necessidade de se mudar as formas de usar a paisagem natural e de se investir na conservação ou construção de estruturas de adaptação climática.

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05/09/2023, Enchente do Rio Taquari na cidade de Lajeado (RS). Foto: marcelocaumors/Instagram

E sim, quem hoje acha que está fora de perigo precisa saber que esse é um sentimento ilusório e que nas próximas chuvas o Rio Grande do Sul poderá ser aqui.

Adaptação climática não é gestão de desastres

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Por Ima Vieira para “Liberal Amazon”

Quando abordamos as mudanças climáticas, inevitavelmente nos deparamos com dois conceitos interligados: mitigação e adaptação. Mitigação das mudanças climáticas implica em evitar e reduzir as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera prevenindo assim, o aumento das temperaturas do planeta para níveis mais extremos. 

Por sua vez, adaptação às mudanças climáticas requer a modificação de comportamentos, sistemas e até mesmo, estilos de vida visando proteger nossas famílias, economias e o ambiente em que vivemos dos impactos adversos das alterações climáticas. 

Em um mundo em aquecimento, a experiência de um clima diferente não exige necessariamente uma mudança geográfica; o clima está se transformando em nosso próprio ambiente. Na Amazônia por exemplo, já tiveram aumentos extremos de temperatura de mais de 3° C em relação a década de 1960 na parte noroeste do bioma (nos estados de Amazonas e Roraima) e no interior do Pará.

As mudanças climáticas impactam a segurança alimentar, a disponibilidade de água e localização para construção de moradias. Além disso, nos deparamos com desafios emergentes, como a necessidade de combater temporadas de incêndios florestais mais prolongadas e intensas, gerenciar potenciais surtos de doenças até então inexistentes e incentivar o desenvolvimento urbano longe de áreas onde gostamos de viver, como nas áreas costeiras e nas margens dos rios.

As soluções de adaptação variam de lugar para lugar, sendo difíceis de prever e envolvem múltiplos compromissos. Compreender os riscos locais e elaborar estratégias para gerenciá-los devem ser os primeiros passos seguidos da implementação de sistemas de resposta aos impactos imediatos. 

A adaptação climática não se resume à gestão de desastres, mas sim a um investimento significativo na prevenção dos efeitos das mudanças climáticas nos territórios. Desde 2017, a cidade de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, vem realizando um trabalho preventivo; o que a tem poupado dos problemas ainda maiores com as fortes chuvas que tanto têm afetado o estado, como acompanhamos nos noticiários.

Na Amazônia, o desafio da adaptação climática assume proporções urgentes e complexas. As secas e enchentes extremas e os incêndios florestais são efeitos da crise climática e demandam respostas coordenadas em diversos níveis da federação por meio de políticas públicas abrangentes. 

Isso inclui desde a integração de iniciativas de monitoramento e prevenção de desastres, até a organização e capacitação de especialistas em crises (defesa civil, brigadistas, bombeiros e outros) e contratação de equipamentos nos municípios. Além disso, é crucial estabelecer estruturas nos municípios com maior propensão a serem afetados, atribuindo-lhes responsabilidades específicas e condições para implementação de medidas preventivas e, neste caso, os governos precisam desenvolver novas estratégias de gestão, especialmente no que diz respeito às finanças públicas.

Mas qual é a capacidade institucional dos municípios brasileiros, especialmente aqueles da Amazônia, para implementar programas de adaptação? Os municípios enfrentam outras necessidades urgentes de desenvolvimento o que os torna ainda mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos. Isso ressalta a necessidade de incluir os planos de adaptação no planejamento municipal. É crucial incorporar essas discussões nos debates das eleições municipais no Brasil com urgência! Não podemos permanecer à mercê de tragédias iminentes sem que medidas sejam tomadas de forma planejada e preventiva.


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Fonte: Liberal Amazon

Entrevista sobre a catástrofe climática no RS no metacast “Subversiva”

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Ontem tive a oportunidade de participar do  metacast “Subversiva” que é produzido pela jornalista Marina Valente a partir de Fortaleza, capital do Ceará.  O tema da entrevista/conversa foi a catástrofe climática que se abate neste momento sobre o estado do Rio Grande do Sul. 

Ao longo da entrevista, pudemos conversar não apenas sobre os mecanismos climáticos que explicam a ocorrência de chuvas extremas, mas também dos problemas que causam a falta de respostas mais efetivas aos problemas que esses eventos disparam.

Coloco abaixo a entrevista para quem desejar saber mais do que foi abordado ao longo de pouco de mais uma hora de conversa.

À espera do pico do El Niño

temperatura

As altas temperaturas dos últimos dias deveriam estar despertando um senso de urgência em todos os governantes brasileiros, mas a maioria deles parece estar entretida com outras coisas.  Já as pessoas que não governam, mas são governadas por eles, tenta sobreviver do jeito que dá, especialmente aqueles que compõe a imensa maioria pobre da população brasileira que não dispõe das condições financeiras para sequer ventilar suas casas.

A questão que esses dias quentes atualizam é a da necessidade de que comecemos um urgente processo de adaptação climática nas nossas cidades, pois a situação ainda vai piorar muito em face da indisposição de se controlar a emissão de combustíveis fósseis que estão na raiz dos problemas climáticos que estamos atravessando.

Tenho me interessado pela questão da adaptação climática, pois já está apontado pela comunidade científica que uma das facetas da crise climática é que ela será sentida de forma diferenciada e se abaterá mais pesadamente sobre os pobres. Basta pensar na capacidade de pagar as contas de eletricidade e água que vão encarecer ainda mais no futuro, ou no espaço reduzido que os pobres têm comparativamente aos ricos dentro de suas casas.  Com casas menores e densamente povoadas, os efeitos das alterações climáticas serão muito mais sentidas pelos pobres.

Mas o que significa adaptação climática?

Mas falando em adaptação climática, o que significaria em um país de características tropicais como o Brasil se tornar mais adaptado? A primeira coisa seria considerar a necessidade de inserir ferramentas de ajuste climático nos chamados planos diretores para que o principal instrumento de gestão municipal possa refletir as demandas de adaptação a um clima em transição para mais quente.

Muitos não conhecem, mas existe uma iniciativa chamada “Programas Cidades Sustentáveis” (PCS) que se apresenta, entre outras coisas, como uma ferramenta para gerir alternativas de adaptação. Ao verificar quantos municípios brasileiros já aderiram, verifiquei que dentre os 5.568 existentes, apenas 290 já se tornaram signatários (ou seja, apenas 5,3%), e 145 concentrados na região Sul (exatos 50%). 

Ainda que se possa considerar que o PCS seja apenas uma das muitas iniciativas do gênero, essa baixa adesão me parece refletir bem o estado da arte da compreensão da maioria dos governantes brasileiros sobre a necessidade de começarmos a internalizar nos planos diretores municipais as prioridades que a mudança climática está impondo de forma inexorável.

Campos dos Goytacazes: um exemplo que combina extrema segregação social, problemas climáticos e despreparo para a adaptação

Agora pensando em Campos dos Goytacazes, cidade onde vivo há quase 26 anos, o que chama a atenção é o fato de que apesar de se ter um prefeito “jovem” no comando do executivo municipal, há uma completa ignorância sobre os problemas que já estão por aqui.

Assim é que a simples análise do atual Plano Diretor Municipal apontará que não há qualquer menção à adaptação climática. Não bastasse isso, o que se assiste nas ruas é a remoção tresloucada das poucas árvores existentes nos espaços públicos, a aplicação de camadas asfálticas escuras, e a imposição de um modelo de cidade segregada que coloca os mais pobres isolados em áreas desprovidas de elementos essenciais como água e esgoto, enquanto que os ricos se isolam em condominados de alto luxo nos quais o governo municipal destina a infraestrutura que é negada aos pobres.

Há ainda que se considerar que sendo a água um dos elementos mais afetados pelo aquecimento global,  uma concessionária privada continua exercendo um controle férreo sobre quem recebe ou não o líquido precioso para suprir necessidades básicas.  Aí já se sabe como fica a situação, pois os mais pobres são aqueles que ficam na ponta de lança de formas draconianas de distribuição e de cobrança.

Não se pode esquecer que um dos primeiros atos do prefeito Wladimir Garotinho foi extinguir a secretária municipal de Meio Ambiente, tornando um mero apêndice de um hipertrofiada secretária municpal de Planejamento Urbano, Mobilidade e Meio Ambiente. Não surpreende então que não haja atual qualquer vislumbre de que estamos evoluindo em termos de planejamento urbano, mobilidade ou, pior ainda, meio ambiente.

Assim, é que chegamos a uma condição em pleno século XXI em que o município de Campos dos Goytacazes continua completamente estagnado no tocante a um ajuste cada vez mais urgente na forma de tratar a questão ambiental.

E o pico do El Niño ainda vai chegar….

Sendo habitante de Campos dos Goytacazes ou de qualquer um dos 5.278 em que os prefeitos continuam alienados da necessidade de adotar políticas de ajuste climático, uma coisa é certa: o atual ciclo de altíssimas temperaturas só deverá se encerrar no primeiro trimestre de 2024, e pior ainda está por vir porque o atual episódio do El Niño ainda nem chegou ao seu pico. 

Assim, ainda que não parece, a questão climática precisa ser pautada de forma direta e inexorável por todos os que se preocupam com a capacidade de nossas cidades de estarem minimamente adaptadas para os impactos mais duros das mudanças climáticas que deixaram definitivamente o domínio do debate teórico dos cientístas para se tornar um elemento central no planejamento urbano.

 

Impactos climáticos: as lutas e conflitos para se adaptar

Lidar com os efeitos da mudança climática está se tornando uma questão cada vez mais central – e abriga um potencial infinito de conflito

267851Deslizamento de terra na Noruega após fortes tempestades. Foto: AP/Cornelius Poppe

Por Deixe Thiele para o “Neues Deutschland”

Na diplomacia climática internacional, as questões de adaptação à crise climática têm sido uma vertente central das negociações. O semáforo acaba de submeter uma lei de adaptação climática ao Bundestag. Sem surpresa, concentra-se em aspectos técnicos, por exemplo, prescrevendo a consideração de impactos climáticos na construção pública e no planejamento de infraestrutura – sem critérios rígidos. No entanto, metas mensuráveis ​​devem seguir.

Lidar com a crise climática, sem dúvida, requer genialidade da engenharia. E, de fato, a adaptação há muito é planejada silenciosamente, onde quer que as consequências das mudanças climáticas possam ser reconhecidas com sobriedade, longe de debates públicos e armadilhas políticas – em empresas, empresas de infraestrutura e administrações municipais, na agricultura, nas forças armadas.

Mas os canteiros de obras muito mais profundos serão sociais. É preciso adequar o modo de vida e de produção – para maior resiliência, diferentes ritmos de trabalho, gerenciamento de desastres como tarefa permanente . Mas como? Todo ajuste concebível significa conflito: sobre a distribuição de recursos, condições de trabalho, co-determinação, privilégios. Mas quando se trata das condições em que ocorrem os ajustes, o modo dominante continua sendo o da repressão e da destematização. Cada vez mais agressivo, como no campo liberal-conservador, ou gentil e meio envergonhado, como no espectro de centro-esquerda.

Discutidas abertamente ou não, as lutas para se conformar estão se tornando os conflitos políticos centrais deste século. Eles intervirão em todas as áreas da vida, sobreporão todas as linhas políticas de conflito, serão negociados em todos os lugares. Um abastecimento de água cada vez mais escasso é distribuído de forma justa ou apropriado pelas corporações? A sesta do meio-dia é travada para proteger a saúde nos países cada vez mais quentes da Europa Central , contra toda a tradição protestante? Como o regime europeu de fronteiras reage aos chamados refugiados climáticos? Quem paga pela proteção civil, quem paga pela reconstrução após o próximo desastre? Quem arca com os custos nos países dramaticamente afetados do Sul Global, que quase nada contribuem para a crise climática?

Graças ao desenvolvimento dinâmico da crise climática, as lutas de adaptação estão se tornando um fenômeno permanente. Se o estado da luta contra o aquecimento global pode ser lido de forma bastante objetiva a partir dos valores de CO2 e temperatura, as complexas lutas de adaptação tornam-se mais confusas e menos “perdidas” ou “ganhas” em sua totalidade.

Há muito tempo estamos no meio disso: em todas as lutas culturais contemporâneas e tendências de fascização, as questões de assimilação desempenham um papel importante – às vezes mais, às vezes menos explicitamente. Isso talvez seja mais vívido nas fronteiras externas da UE. O acordo sobre uma restrição drástica do direito de asilo também deve ser entendido como uma preparação para um mundo em que cada vez mais pessoas fugirão. A narrativa dos “refugiados climáticos” é muito simplista, ignorando os conflitos locais e as relações econômicas globais desiguais, mas: As catástrofes climáticas sem dúvida aumentam a dinâmica do deslocamento. Aqueles que agora declaram que não há alternativa à execução duma hipoteca também sabem disso.

Para a justiça climática, as lutas de adaptação são, em última análise, mais decisivas do que as de redução de emissões: um clima instável significa um caos duradouro, mas no final depende de como a sociedade lida com isso. Um mundo de dois graus pode significar realidades de vida coletiva completamente diferentes. Existe o modelo autoritário “Fortaleza Europa” – e existe um modelo solidário de segurança local de abastecimento e forte infraestrutura pública com fronteiras abertas. O drama do século 21 acontecerá entre esses pólos.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland [Aqui!].