Observatório dos Agrotóxicos: governo Bolsonaro bate recorde tóxico com mais 51 aprovações em 2021, totalizando 1.558 venenos liberados em 36 meses

agrotoxico-presidente

Os leitores do Blog do Pedlowski devem ter notado que o ano de 2021 foi bastante ativo nas publicações ligadas ao “Observatório dos Agrotóxicos” que foi criado logo no início de 2019 para documentar a promessa eleitoral (cumprida, é preciso que se diga) de acelerar a liberação de venenos agrícolas para atender a insaciável demanda do latifúndio agro-exportador de commodities.  

Como resultado da política de licenciamento “fast food” adotada pelo governo Bolsonaro, o Brasil se viu inundado por uma verdadeira tsunami de venenos agrícolas, a maioria proveniente de empresas chinesas e europeias, e com um número significativo deles banidos pela União Europeia em função de sua alta periculosidade para o meio ambiente e também para a saúde humana. 

Pois bem, como não podia ser diferente, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), comandado pela ministra Tereza Cristina (DEM/MS), fez publicar hoje (31/12) o Ato Nº 55, de 23 de Dezembro de 2021 que traz a liberação de mais 51 agrotóxicos. Com isso, o governo Bolsonaro quebra o seu próprio recorde tóxico dos seus primeiros dois anos de mandato, alcançando um total de 1.558 agrotóxicos liberados em 36 meses de mandato.

É preciso que se diga que a imensa maioria dos agrotóxicos aprovados se destina para uso em poucas culturas agrícolas, todas elas voltadas para a exportação. No caso da soja e do milho, por exemplo, o objetivo é principalmente alimentar os rebanhos de animais na União Europeia e na China (principal parceiro comercial brasileiro).  Enquanto isso, ficamos imersos em um processo de agravamento da contaminação ambiental e também da população brasileira.

Como ainda não tive tempo para cria a planilha de dados para o Ato Nº 55, de 23 de Dezembro de 2021  (o que impede a atualização da base de dados com todos os agrotóxicos liberados pela dupla Jair Bolsonaro/Teresa Cristina), farei isso nos primeiros dias de 2022.

Mas uma coisa é certa: o combate a um modelo agrícola fortemente dependente de venenos agrícolas e da devastação dos biomas da Amazônia e do Cerrado deverá ser uma prioridade para aqueles que desejam viver em uma sociedade onde o ato de se alimentar não seja uma espécie de suicídio cotidiano. E a construção desse modelo agrícola alternativo de base ecológica só será possível com a derrota desse modelo viciado em venenos mortais e que não tem como prioridade saciar a fome, seja no Brasil ou no resto do mundo.

Dia mundial de luta contra os agrotóxicos: uma luta pela saúde, meio ambiente e direitos humanos – Artigo de Karen Friedrich

alimentos sadios mstMST é um dos grandes produtores de alimentos livres de agrotóxicos no Brasil

Por Karen Friedrich*

Na madrugada do dia 3 de dezembro de 1984, na cidade de Bhopal, na Índia, uma explosão numa fábrica de agrotóxicos matou cerca de 25 mil pessoas, deixando sequelas graves em outras milhares. A fábrica da Union Carbide, hoje subsidiária da Dow Chemical, foi instalada no final da década de 1960, na área densamente povoada e pobre. Os agrotóxicos são substâncias desenvolvidas primeiramente como armas químicas, utilizadas nas grandes guerras, e, depois, para aniquilar seres vivos nas lavouras, que só se tornam pragas por conta do desequilíbrio ecológico causado pelo próprio modelo de agricultura que devasta, desmata, incendeia e extingue.

Ainda hoje, no Brasil, os agrotóxicos continuam matando silenciosamente milhares de pessoas. Trabalhadores rurais e moradores dos arredores de grandes plantações do agronegócio são os mais atingidos. Pulverizados por aviões, máquinas ou manualmente, esses venenos percorrem quilômetros, contaminando água, solo, criações de abelhas, plantações orgânicas da vizinhança e tudo o mais. Escolas rurais, assentamentos da reforma agrária, reservas indígenas e territórios de povos e comunidades tradicionais, que secularmente lutam por sua sobrevivência contra os interesses de grupos econômicos poderosos, também têm sido alvo de chuvas de veneno.

Os danos causados pelo uso de agrotóxicos não se restringem a essas regiões. Estudos recentes comprovaram que há agrotóxicos até em parques nacionais, distantes de áreas de plantio. A expansão das terras destinadas ao plantio de soja e outras commodities, em áreas de Cerrado e Floresta Amazônica, inclui uso de agrotóxicos herbicidas (desfolhantes), para desmatar com mais eficiência.

Os escassos dados de monitoramento dessas substâncias em água (que deveria ser) potável e nos alimentos, incluindo industrializados, também são assustadores: dezenas de tipos de agrotóxicos podem ser encontrados em itens base da nossa alimentação, em níveis e diversidade que seriam proibitivos em países da Europa, por exemplo.

Mesmo num modelo de agricultura químico-dependente, o Brasil poderia adotar condutas menos danosas, iniciando por reconhecer as incertezas dos estudos toxicológicos e ambientais apresentados pelas próprias empresas para determinar se um agrotóxico pode ou não ser permitido no país. A realidade brasileira, no entanto, torna algumas medidas inalcançáveis, incluindo o uso de EPI (equipamentos de proteção individual); o controle pleno do destino do produto aplicado; fiscalização do uso e comercialização; monitoramento de água e alimentos in natura e industrializados.

O contexto atual já mostra que o modelo de agricultura hegemônico no país deve ser repensado. O Brasil entrou novamente no mapa da fome, apesar dos recordes sucessivos de lucro no setor do agronegócio. O país também bateu recorde de liberação de agrotóxicos formulados com moléculas antigas, proibidas em outros países e muito tóxicas para as pessoas e o meio ambiente. Mais de 60% do volume comercializado por aqui é de agrotóxicos comprovadamente cancerígenos e desreguladores hormonais.

Prevenir ou reduzir os danos dessas substâncias exige superar muitos obstáculos, postos principalmente para atender aos interesses econômicos e políticos de uma minoria poderosa, que atua capturando ideologicamente atores estratégicos dentro dessa temática. E que também se dedicam para destruir as poucas conquistas alcançadas nos últimos anos, como as leis municipais e a lei do estado do Ceará vigentes que proíbem a pulverização aérea de agrotóxicos, ameaçadas por setores do agronegócio com ações em pauta no STF (Supremo Tribunal Federal) via ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade, n. 6137/2019).

Ainda estamos longe de fazer valer a Lei de Agrotóxicos (lei n. 7802/89), que apresenta algumas lacunas, mas que propôs avanços importantes. A proposta de revisão desta lei, conhecida como Pacote do Veneno, está pronta para votação no Congresso Nacional, com dispositivos considerados preocupantes pelas principais instituições de pesquisa e controle social do país.

Em outubro de 2021, foi assinado o decreto presidencial n. 10.833, que fragiliza ainda mais o cenário apresentado acima, pois altera a regulamentação da lei de agrotóxicos, dando menor transparência aos processos, enviesando as ações para os interesses econômicos e permitindo o registro de substâncias ainda mais tóxicas. Se alguém ainda acredita que os danos causados pelos agrotóxicos são “aceitáveis” e que alguns podem adoecer ou morrer para alimentar o mundo, engana-se.

A maior parte dos alimentos que consumimos vem da agricultura familiar, que por conta da diversidade do modelo produtivo, é menos suscetível à incidência de pragas agrícolas, favorecendo a produção sem veneno e com menor nocividade. De fato, a agricultura familiar (em especial a agroecológica e orgânica) é incomparável ao tipo de produção característica do agronegócio. A primeira produz grande diversidade de alimentos e a segunda recebe muito mais incentivo do Estado brasileiro, incluindo desoneração de uma série de impostos, que totalizam alguns bilhões por ano no país, como demonstra relatório produzido pela Abrasco.

Essas questões, são algumas das que tornam fundamental a luta contra os agrotóxicos, celebrada em 3 de dezembro. As mais importantes instituições de pesquisa em saúde e meio ambiente do país têm alertado sobre os desmontes da regulação de agrotóxicos, o sucateamento dos órgãos de fiscalização e controle, as doenças e mortes causadas pelos agrotóxicos. Mas também apontam a urgência para se investir na produção de alimentos de forma social, sanitária e ambientalmente sustentável. Assim como a história mostra que o desastre de Bhopal poderia ter sido evitado, é urgente e necessário lutar para evitar mais mortes e doenças causadas pelos agrotóxicos.

*Karen Friedrich é biomédica, toxicologista, mestre e doutora em saúde pública. Membro do grupo temático saúde e ambiente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva). Artigo originalmente publicado no Nexo, em 2 de dezembro de 2021, a convite da Cátedra J. Castro/USP (Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis).

blue compass

Este texto foi inicialmente publicado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) [Aqui!].

Hoje é dia de Festival Cultural pela vida e contra os agrotóxicos; veja a programação completa da Jornada  

Ação terá transmissão online e com intervenções ao vivo. Os artistas Gregório Duvivier, Projeto Estado de Emergência, grupo Mandicuera de fandango caiçara estão entre as participações confirmadas

festival cultural

Por Comunicação da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida 

Está chegando o Festival Cultural Pela Vida e Contra os Agrotóxicos, neste 3 de dezembro, Dia Internacional de Luta Contra os Agrotóxicos. Será um encontro para denunciar os malefícios trazidos pelo veneno, e também  anunciar a agroecologia como saída para garantir alimentos saudáveis e vida no planeta. 

A atividade começa às 18h, de forma virtual, com apresentações artísticas, receitas agroecológicas, e depoimentos, além de intervenções presenciais de rua. A ação integra a Jornada de Lutas Contra os Agrotóxicos, que ocorre em todo o Brasil entre os dias 27 de novembro e 11 de dezembro. >> Confira a programação completa da Jornada logo abaixo. 

Entre as participações confirmadas então do ator e humorista Gregório Duvivier; do Projeto Estado de Emergência, de Mato Grosso; do grupo Mandicuera de fandango caiçara; do litoral paranaense; e Ana Chã, integrante do Setor de Cultura do MST e do grupo musical As Cantadeiras. 

Convidamos todas, todos e todes e se somarem com a gente! Divulgue e participe! 

Origem da data

No dia 3 de dezembro de 1984, a cidade de Bhopal, na Índia, viveu uma tragédia que marcou para sempre a história. Mais de 27 toneladas do gás isocianato de metila vazaram de uma fábrica de agrotóxicos, matando 2,2 mil pessoas na hora e atingindo cerca de 600 mil ao longo dos anos seguintes. Os agrotóxicos seguem matando e adoecendo pessoas, animais e a biodiversidade em todo o mundo. E no Brasil, o problema é ainda mais grave no governo Bolsonaro. 

Confira a programação completa do Festival e da Jornada: 

FESTIVAL NACIONAL CONTRA OS AGROTÓXICOS

03/12 – Apresentações artísticas, intervenções, receitas, depoimentos.
Confira as participações já confirmadas:

– Gregório Duvivier, ator, humorista, roteirista e escritor. 

– Kleber Mendonça, diretor, produtor, roteirista e crítico de cinema.

– Ana Chã, integrante do Setor de Cultura do MST e do grupo musical “As Cantadeiras”. 

– Projeto Estado de Emergência, do Mato Grosso, formado por Ahgave, Pacha Ana e DJ Taba. 

– Grupo Mandicuera, fandango caiçara do litoral paranaense.  

– Gilson Saraiva, Físico, Matemático, Músico, Cantor e Compositor.

– Eugênio Leandro, compositor e escritor, nasceu em Fortaleza, mas criado em Limoeiro do Norte, onde vivenciou a arte popular do Vale do Jaguaribe.

– Receitas agroecológicas da Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (Copavi), de Paranacity (PR) @copavioficial e a da baixada pantaneira.

Nesta sexta-feira, 03 de dezembro, às 18h no horário de Brasília.

Transmissão ao vivo pelos canais da Campanha:

Facebookhttps://www.facebook.com/contraosagrotoxicos 

Youtube: https://www.youtube.com/contraosagrotoxicos  

SEMINÁRIOS REGIONAIS 

29/11 – Seminário Centro-oeste (via zoom)

Tema: “O uso de Agrotóxicos contra os povos tradicionais, contaminação da água e racismo ambiental na região centro-oeste”

Horário: das 15h às 17h 

01/12 – Seminário Região Sul (via zoom)

Tema: O Impacto do uso de Agrotóxico na Saúde e no Meio Ambiente

Horário: das 9h às 12h 

Link para inscrição: https://forms.gle/G4VkPbS8y6EAEZHN9 

06/12 – Seminário Região Nordeste (via zoom)

Tema: Agrotóxicos e Transgênicos: outros caminhos são possíveis

Horário: 9h30 a 12h (horário de Brasília) 

Link para inscrição: https://forms.gle/uCAxVVCMQkrBe5U47 

10/12 – Seminário Região Amazônica (via zoom)

Tema: a confirmar

Horário: 17h (horário de Brasília)

LANÇAMENTOS DE DOSSIÊS CONTRA O PACOTE DO VENENO

27/11 – Belo Horizonte 

Horário: 19h 

Local: Armazém do Campo Belo Horizonte. Av. Augusto de Lima, 2136, Barro Preto. 

04/12 – São Luís (MA)

Local: Salão Cultural da Terra,  Maria Firmina dos Reis, Rua Rio Brando 420, Centro. 

Horário: 8h  

04/12 – Piraquara (PR) 

Local: Feira Agroecológica de Piraquara, na Praça Afonso Marcos Favretto, Rua Wagner Luiz Boscardin, n. 08, bairro Laranjeiras.

Horário: 13h 

10/12 – Cascavel (PR) 

Local: Câmara de Vereadores de Cascavel, Rua Pernambuco, 1843, Centro. 

Horário: 19h 

11/12 – Brasília (DF)

Local: Feira da Ponta Norte, CLN 216, Asa Norte, Brasília

Horário: 9h 

Agroindústria é falsa solução para a fome, afirmam especialistas

Webdossiê “Sistemas Alimentares: fome, corporações e alternativa”, organizado pela ONG FASE, reúne 9 especialistas em diferentes áreas para mostrar que monoculturas industrializadas agravam a situação da fome no país em vez de solucionar

Caravana-internacional-MATOPIBA_Foto-Rosilene-Miliotti-_-FASE-scaled

Técnicos do Fórum Econômico de Davos e da ONU afirmaram, na Cúpula Mundial dos Sistemas Alimentares, que o sistema alimentar do mundo está “quebrado”. Para eles, a capacidade do planeta em render frutos que alimentem toda a população humana está ameaçada; e apenas a agroindústria poderia resolver a crise. Mas será que as monoculturas são, de fato, o “celeiro do mundo”? Hoje, 70% da população global serve suas refeições com frutos da agricultura familiar e camponesa; e apenas 30% da população mundial é alimentada pela cadeia alimentar industrial. E você? Sabe de onde vem sua comida? A ONG FASE reuniu 9 especialistas para fazer o dossiê “Sistemas Alimentares: fome, corporações e alternativa”, onde são apontadas soluções alternativas à agroindústria. São profissionais de diferentes áreas; de nutrição e engenharia agrônoma até economia e antropologia.

O documento, disponível online a partir deste sábado (16), Dia Mundial de Combate à Fome,  no site sistemasalimentares.fase.org.br é um compilado de 9 artigos acompanhados de vídeos e entrevistas. Ele é dividido em quatro temas: “Fome é política”; “Políticas de abastecimento e compras públicas”; “Soberania Alimentar no campo-cidade”; e “Comer é um ato político”. O dossiê busca aprofundar o debate sobre as cadeias de produção de alimentos e as políticas de abastecimento, numa tentativa de explicar como como estes, entre muitos aspectos, influenciam na soberania e segurança alimentar da nação.

Falsas soluções

Seriam as monoculturas e os alimentos fortificados a solução mais efetiva para a questão da fome? A antropóloga Maria Emília Lisboa Pacheco afirma que não:

“As receitas tecnológicas que se apresentam não levam em conta os fatores ecológicos, socioeconômicos, culturais e os direitos humanos de um mundo onde cresce a fome, que já atinge cerca de 800 milhões de pessoas, onde cresce a obesidade e desnutrição, e onde acentuam-se as mudanças climáticas, caracterizando um cenário que vem sendo denominado de sindemia global.”

Maria Emília é representante do Fórum Brasileiro de Soberania, Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN) e assessora do Programa Direito à Segurança Alimentar, Agroecologia e Economia Solidária da FASE.

Já sobre sobre os alimentos ditos “enriquecidos”, ela explica porque são um tiro no pé:

“Os riscos se expressam em possíveis efeitos tóxicos com a ingestão excessiva de nutrientes,  impactos na cultura alimentar, erosão genética  e interferência  na autonomia dos agricultores, guardiões da diversidade de sementes.”

Direito à alimentação de qualidade

A antropóloga explica, também, haver uma artificialização dos alimentos, fazendo com que eles se tornem produtos ultraprocessados que, segundo ela, não seriam comidas, mas sim fórmulas industriais:

“Atualmente cresce o seu consumo. Esses produtos não são propriamente alimentos, mas, sim, formulações industriais feitas inteiramente ou majoritariamente de substâncias extraídas de alimentos (óleos, gorduras, açúcar, amido, proteínas), derivados de constituintes de alimentos (gorduras hidrogenadas, amido modificado) ou sintetizadas em laboratórios com base em matérias orgânica como petróleo  e carvão (corantes,  aromatizantes realçadores de sabor e vários tipos de ativos. Buscam dotar os produtos de propriedades sensoriais atraentes, com impactos na saúde, na cultura alimentar e na vida social, como nos ensina o Guia Alimentar para a população brasileira, tantas vezes contestado pelas empresas”.

Portanto, o que o dossiê mostra é que o direito à alimentação é um direito humano e deve ser feito com acesso ao que popularmente se conhece como “comida de verdade”. Ou seja, alimentos de origem natural, produzidos de forma sustentável.

Política da fome

Já o ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), Francisco Menezes, atual assessor de políticas da ActionAid, afirma que a fome no Brasil é um problema crônico e político. Ele conta que a situação de insegurança alimentar é agravada conforme avançamos na análise interseccional de gênero, raça e territorial. Estão em maior risco os lares chefiados por mulheres negras ou pardas e de baixa escolaridade. O acesso à alimentação de qualidade também é reduzido entre essas famílias.

Mesmo quando o Brasil saiu do Mapa da Fome, em 2014, mantiveram-se situações de fome entre indígenas, quilombolas e povos tradicionais. Segundo Menezes, faltou ao Brasil a democratização do acesso à terra e uma política nacional de abastecimento, cuja ausência provoca reflexo direto no preço dos alimentos atingindo desproporcionalmente a população mais pobre.

“Se o empobrecimento se acelerou com a pandemia, outro fator que intensificou a insegurança alimentar e a fome foi a elevação dos preços de alimentos básicos, impactando justamente aqueles mais pobres, em que a aquisição de alimentos pesa consideravelmente. Em 2020, o componente da alimentação na inflação foi três vezes maior do que o índice médio, por conta da elevação dos preços do arroz, feijão, óleos vegetais, carnes e até ovos, entre outros. Resultado da ausência de uma política de abastecimento voltada para a maior parte da população penalizando justamente aqueles mais vulneráveis”, afirma 

Soluções reais

Há, no entanto, outras estratégias de combate à fome para além da monocultura industrial. Os sistemas alimentares territoriais são construídos com técnicas baseadas nas experiências dos povos tradicionais e de agricultores familiares. Desta forma, se busca uma cadeia de produção mais justa e socialmente responsável, com foco no papel das mulheres e em tecnologias sociais. Quem produz alimentos diversificados protege a biodiversidade, a saúde e a natureza.

No centro destes princípios estão o Direito Humano à Alimentação e Nutrição Adequadas, a soberania alimentar, a agroecologia e os valores de justiça social e alimentar e da democracia.

Saiba mais: O que são sistemas alimentares?

Sistemas alimentares são o conjunto dos processos produtivos relacionados à alimentação. É todo o caminho que a comida percorre, desde a semeadura até a hora da refeição. Quando esses sistemas sofrem desequilíbrios, como a oferta massiva de alimentos superprocessados, as pessoas passam a se alimentar de forma não saudável. Consequentemente, a saúde da população é afetada, e isso acaba se tornando um problema global.

Saiba mais: O que é agroecologia?

Agroecologia-espírito-santo

Agroecologia é uma forma de agricultura sustentável que agrega conhecimentos formais, vindos das faculdades de agronomia, com os conhecimentos ancestrais de agricultores familiares e comunidades tradicionais. Seus métodos buscam superar os danos causados pela prática da monocultura, dos transgênicos, dos fertilizantes industriais e dos agrotóxicos.

A agroecologia tem uma perspectiva emancipatória.  Cada vez mais, ela se situa no campo do debate e das práticas com o objetivo da transformação dos sistemas alimentares em conexão com a natureza. Combinada com a perspectiva da soberania alimentar apresenta-se como alternativa hoje e para o futuro.

Na sua dimensão social, defende as relações de igualdade, reconhecendo que as mulheres historicamente são as guardiãs da biodiversidade e dos bens comuns. Posiciona-se contra o racismo e reconhece que uma sociedade pluriétnica, com diferentes formas de apropriação e uso da terra e dos bens da natureza, é um componente fundamental da democracia e do enfrentamento dos grandes desafios na relação entre sociedade e natureza.

Ervas daninhas são necessárias para uma boa saúde das colheitas

A diversidade de plantas daninhas representa uma esperança para a preservação da biodiversidade em ambientes agrícolas, sem impactar a produtividade

weedingAgricultores retiram as ervas daninhas e transplanta as colheitas na Amber Waves Farm em Amagansett, Nova York, EUA, 11 de julho de 2019. REUTERS / Lindsay Morris

Por Aline Nippert para o Le Monde

As ervas daninhas têm nomes errados. “As ervas daninhas são vistas como as principais pragas da agricultura”, observa Sabrina Gaba, diretora de pesquisas do Instituto Nacional de Pesquisas da Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente (Inrae). Essas plantas selvagens competem com as safras pelo acesso aos recursos (luz, nutrientes no solo) e, portanto, são quase sistematicamente eliminadas. “Em geral, espalhando herbicidas”, explica a pesquisadora.

No entanto, a pesquisa em agroecologia – um campo de pesquisa que reúne ecologia científica e agronomia – demonstra, semente por semente, os papéis essenciais que papoulas, mirtilos, gerânios e outros indesejáveis ​​desempenham em certas áreas de cultivo: são o lar de insetos auxiliares e polinizadores, bem como microrganismos essenciais para a fertilidade do solo. “O objetivo final da agroecologia é, entre outras coisas, dispensar o uso de agrotóxicos”, diz Fabrice Le Bellec, diretor de pesquisas do Centro de Pesquisas Agronômicas para o Desenvolvimento (Cirad).

Na França, a agroecologia está em alta desde a implementação do plano Ecophyto I. Estabelecido em 2008 no final do Grenelle de l’environnement, deveria ter possibilitado reduzir pela metade o uso de pesticidas em dez anos. . Uma meta longe de ser alcançada: o uso de agrotóxicos aumentou 25% entre 2010 e 2020 na França . “Esse plano, no entanto, contribuiu para o financiamento de pesquisas para apoiar os produtores na transição agroecológica” , enfatiza Le Bellec. Desde então, dois novos planos (Ecophyto II em 2015, depois Ecophyto II + em 2019) foram lançados, postergando o prazo de redução do uso de agrotóxicos em 50% até 2025.

Evidência científica

“Uma mudança de paradigma está em andamento! “ Enthuses Paolo Barberi, professor de agronomia da Escola Superior Santa Ana de Pisa, referindo-se ao reconhecimento do papel das ervas daninhas na agricultura.

O projeto Disco-Weed (Cesab-FRB), liderado por Sabrina Gaba e concluído em 2019, contribui para esta reversão axiológica. “  Mostramos que essa flora silvestre pode ser mantida sem perder em termos de produtividade”, resume o piloto do programa. “  A força dessas publicações é que elas baseiam suas análises em dezenas de fazendas. Os dados são sólidos ” , garante o especialista italiano.

Entre os estudos recentes da Disco-Weed, o publicado na Frontiers in Sustainable Food Systems confirma os benefícios das mal chamadas “ervas daninhas”. Quanto mais diversificadas e abundantes forem as espécies de ervas daninhas em uma parcela agrícola, maior será o número de funções ecológicas – polinização, controle de pragas, fertilidade do solo -. “Por isso, fornecem serviços essenciais para o bom funcionamento de todos os ecossistemas, inclusive os agrícolas”, destaca o autor principal.

Deixe as ervas daninhas crescerem, é esse o segredo de fazer sem pesticidas? “  Não é tão simples. As ervas daninhas cumprem uma dupla função: são necessárias para a sobrevivência das lavouras, mas competem com as plantas cultivadas pelo acesso aos recursos, explica Sabrina Gaba. Trata-se de encontrar o equilíbrio certo. “

Rumo ao aumento da renda

É neste ponto que o estudo é o mais inovador: o aumento do número de funções ecológicas (que dependem da abundância e diversidade de plantas daninhas) não conduz à queda da produtividade. Por outro lado, o rendimento diminui à medida que aumenta a quantidade de ervas daninhas.

O espaço de manobra, portanto, está na diversificação das espécies. Resultados “encorajadores”, segundo Fabrice Le Bellec: “A renda dos agricultores – que depende de sua produção, mas também de seu orçamento em insumos químicos – é um grande problema na transição agroecológica. “

Para chegar a essas conclusões, os cientistas analisaram dados de 78 campos de trigo e 45 campos de colza, todos sob cultivo intensivo, e 61 prados coletados em 2016 no departamento de Deux-Sèvres, dentro ” um espaço dedicado à observação científica e à experimentação supervisionada pelo CNRS (área de oficinas de Plaine e Val de Sèvre ). “Para quantificar a capacidade de controle de pragas, dispersamos pulgões nas áreas estudadas”, explica a pesquisadora. Depois de um tempo, contamos o número de pragas restantes, o que nos permitiu estimar o potencial de regulação biológica. “

Área de refúgio

Resta ver como promover a diversidade de ervas daninhas em campos cultivados convencionais. Outro estudo da Disco Weed foi publicado em 8 de julho na revista Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences , fornece algumas respostas.

“Queríamos saber como as ervas daninhas se desenvolvem nas lavouras” , resume Bérenger Bourgeois, principal autor do artigo. As ervas daninhas estudadas são sobreviventes: “  Os habitats são zerados todos os anos, o solo é arado, os herbicidas são pulverizados e a competição com as plantas é intensa”, acrescenta Sabrina Gaba.

O artigo destaca, em escala de paisagem, uma correlação positiva entre a diversidade de espécies de plantas daninhas no campo estudado (convencional) e o número de parcelas orgânicas no entorno. “Parcelas rotuladas orgânicas representam um reservatório de ervas daninhas ”, comenta o principal signatário do estudo. As suas sementes são então difundidas à escala da paisagem e permitem preservar uma boa diversidade de ervas daninhas, não só no campo orgânico, mas em toda a área. “Os resultados não me surpreendem, comenta Paolo Barberi. Questionar as práticas agrícolas é essencial para proteger a vida nos campos de cultivo. “

A equipe de pesquisadores também confirma a importância das bordas das parcelas, muitas vezes gramíneas, na dispersão das ervas daninhas para o campo aberto e insiste no seu papel na manutenção da biodiversidade. “É uma área de refúgio para polinizadores”, diz Bérenger  Bourgeois. “Observamos uma dispersão em duas etapas , sintetiza Sabrina Gaba. Primeiro, as sementes chegam à borda da parcela. Em seguida, eles se dispersam para o interior do campo, a uma distância moderada. “

“Protegendo a biodiversidade”

“Esses resultados provam que os defensores do ‘compartilhamento de terras’ têm razão, que mostram que, no nível da paisagem, apenas mosaicos heterogêneos – misturando diferentes tipos de culturas e parcelas na agricultura orgânica com elementos semi-naturais como prados ou sebes – ajude a proteger a biodiversidade ”, contextualiza Paolo Barberi.

Pelo contrário, os defensores da “economia fundiária” defendem uma separação estrita entre as zonas destinadas à protecção da fauna e da flora (não cultivadas) e as terras destinadas à produção agrícola. “Este é um debate crucial sobre a questão da conservação da biodiversidade na agricultura”, insiste o Sr. Barberi.

Juntamente com as práticas agrícolas, as políticas de planejamento do uso da terra também têm um papel a desempenhar na reabilitação de ervas daninhas não amadas. “Você sabe o que dizem na indústria sobre ‘ervas daninhas’? ri Fabrice Le Bellec. Estas são as plantas cuja virtude ainda não descobrimos. “

fecho

Este artigo foi escrito originalmente em francês e publicado pelo Le Monde [Aqui!  ].

Carta da III Jornada de Agroecologia da Bahia

 jornada

 

Pelos caminhos da América, no centro do continente, marcham punhados de gente, com a vitória da mão.  Nos  mandam sonhos, cantigas, em nome da liberdade, com o fuzil da verdade, combatem firme o dragão.

Pelos caminhos da América há um índio tocando flauta, recusando a velha pauta, que o sistema lhe impôs. No violão um menino e um negro tocam tambores, Há sobre a mesa umas flores, pra festa que vem depois.                   Zé Vicente  – “Pelos Caminhos da América”

Eles e Elas, mas de mil e duzentas, chegaram de todas as partes chocalhando seus maracás, tocando seus tambores e atabaques, percutindo seus berimbaus e caxixis, dedilhando seus violões e soprando suas flautas e gaitas, dedilhando seus acordeons. Chegaram com ginga, com cores, com alegria, trouxeram suas sementes sagradas e seus saberes ancestrais e nos seus alforjes, sonhos e esperanças de um novo mundo possível para TOD@S.  O local do “Grande encontro” foi no assentamento Terra Vista no município de Arataca no sul da Bahia na primeira semana de dezembro de 2014, e teve como tema: “Sementes, ciência e tecnologia agroecológica, para mudar a realidade das comunidades no campo e na cidade”.

 Foram 05 dias (03 a 07/12) intensos de partilhas, reflexões, práticas, celebrações e uma mística que envolvia a tod@s. As oficinas temáticas e práticas, os mini-cursos, as mesas redondas, os momentos lúdicos, as conversas ao pé da fogueira e nos diversos “cantos” do assentamento. A feira troca-troca, nos banhos no Rio Aliança. Levaram-nos as seguintes constatações:

 – A certeza que a caminhada realizada desde a I Jornada no final de 2012, que consolidou a Teia de Agroecologia dos Povos da Cabruca e da Mata Atlântica, deve continuar. E a TEIA deve continuar atuando de forma permanente enquanto uma rede que reconstrói a solidariedade entre as comunidades tradicionais, movimentos do campo e da cidade, e deve continuar dando um sentido mais amplo à agroecologia, tão distorcida pelo excesso acadêmico e teórico e tão pouca prática. Devemos desconstruir o tecnicismo perigoso, para defender uma agroecologia que une os povos e saberes para garantir saúde para nossos alimentos, solos e águas, saúde para as nossas relações sociais, para nossa identidade cultural, espiritualidade e ancestralidade. E como vimos muito fortemente nesta III Jornada, nos comprometemos na luta pela preservação e garantia de nossas sementes – “Patrimônio genético dos povos e da humanidade”.

– Assim como na II Jornada, percebemos e reafirmamos o compromisso de que não temos como consolidar uma saúde de boa qualidade e diferenciada e autonomia, que representa na verdade novas formas de vida, política e militância, sem garantir nossos territórios e a vida de nosso povo e nossas lideranças.  A agroecologia então,  é também uma forma de enfrentamento desse sistema e a Teia se propõe a ter ações solidárias diretas de defesa de nossos povos. Assim, nossa luta segue o caminho irrestrito de defesa da garantia da terra e por uma soberania dos povos que sabemos que só pode ser feita a partir de nosso suor.

– Exigimos a democratização da terra rural e urbana, com reforma agrária de verdade e já, a desintruzão e regularizações imediatas das terras indígenas e quilombolas e a reforma do solo urbano. Repudiamos veemente os ataques dos ruralistas contra os direitos dos povos do campo duramente conquistados, ataques estes com a conivência do Estado Brasileiro. Dizemos NÂO as Propostas de Emendas Constitucionais-(PECs), Projetos de Leis-(PLs) e Portarias Ministeriais que atacam e tentam tirar direitos já conquistados. Todos esses instrumentos buscam inviabilizar e impedir o reconhecimento e a demarcação das terras dos povos tradicionais, reabrir e rever procedimentos de demarcação de terras indígenas já finalizados; e facilitar a invasão, exploração e mercantilização dos territórios sagrados dos povos das florestas e suas riquezas. Tudo isto contrários aos princípios que vimos nesta III Jornada. Portanto continuaremos numa luta constante contra todos estes instrumentos jurídicos e legislativos que tentam deslegitimar as lutas e retirar os direitos constitucionais destas populações.

– Recachamos as propostas do  REDD+ e os ‘serviços ambientais’, no contexto da ‘economia verde’,  e contrários aos princípios agroecológicos, e deve continuar sendo uma parte central da nossa luta contra o capitalismo e as indústrias extrativas. Reafirmamos o compromisso de nos organizarmos pela defesa dos nossos territórios, pela defesa das populações que vivem, dependem e são parte das florestas, pela defesa da autonomia sobre o controle de seus territórios, pela defesa da Mãe Terra. Basta de projetos extrativos, Não aos serviços ambientais, Lutar contra REDD+ também é combater o capitalismo! Não à criminalização dos povos que defendem seus territórios!  Queremos um basta imediato no processo de criminalização das lutas e das lideranças; Reafirmamos que “Lutar não é crime”.

– Exigimos que os governos municipais, estaduais e o governo federal cumpram com suas obrigações constitucionais e garantam os nossos direitos.  Que possamos ter políticas públicas de verdade que atendam as nossas necessidades e respeitem as nossas especificidades. Isto não é um favor é um direito.

– Invocamos a proteção dos nossos encantados, o seres de luz para continuarmos lutando contra os projetos de morte, que em nome de um tal de “progresso”, ou conhecidos como agronegócio e hidro negócios  atacam e agridem nossas comunidades, desrespeitam nossas identidades culturais, ferem a Mãe natureza e automaticamente ferem seus filhos. Lutaremos sempre por uma educação descolonial e libertadora que nos leve a concretizarmos o nosso Bem Viver.

– Percebemos a necessidade e nos comprometemos em aperfeiçoar a pratica da agroecologia nos nossos territórios, articulando os saberes ancestrais com os novos conhecimentos científicos, usado as novas tecnologias para o empoderamento popular, o manejo e uso da agroecologia e biodiversidade em SAF’s, inserção de SAF em ações de desenvolvimento centradas na agricultura familiar e nas diversas produções dos povos e comunidades tradicionais, planejamento da propriedade rural, permacultura, cacau orgânico e de qualidade, Ampliação dos nossos “bancos de sementes e viveiros de mudas”, caminhos sustentáveis e viáveis para todos, formação cultural para o fortalecimento de identidade, saberes ancestrais, soberania alimentar e saúde familiar entre muitos outros temas trabalhados nas diversas oficinas e reflexões coletivas.

– Nos comprometemos em continuar a nossa jornada unidos, partilhando os nossos “saberes”, construindo coletivamente nossos “sonhos”, protegendo as nossas sementes, organizando em mutirão as nossas lutas, exigindo com responsabilidade e de forma propositiva os nossos direitos, transformando os nossos espaços em territórios sagrados semeando “sementes de esperança” para colhermos “frutos de vida e plenitude”, retirando e impedindo o uso de “venenos e agrotóxicos” não só da terra, mas de nossa convivência para podermos saborear num futuro bem próximo um “chocolate amargo-doce”, resultado de uma corrente de diferentes elos unidos e entrelaçados por um único ideal: VIDA PLENA PARA TODAS AS CRIATURAS.

Como nos diz o eterno poeta Gozaguinha, na sua canção – Semente do amanhã:  “Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs/ Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar! /Fé na vida Fé no homem, fé no que virá! / nós podemos tudo, Nós podemos mais. VAMOS LÁ FAZER O QUE SERÁ.

 É preciso resistir para EXISTIR.

 Assentamento Terra Vista, 07 de dezembro de 2014.