Modelo ancorado em grandes monoculturas tornou agricultura brasileira viciada em agrotóxicos.
A notificação recebida recentemente pelo governo Bolsonaro de que a Rússia irá suspender a compra de soja brasileira deveria ter soado um alarme estridente na mídia corporativa brasileira e, principalmente, nos altos escalões do agronegócio brasileiro. É que, como já declarei em postagem anterior, se a Rússia está seguindo este caminho, outros parceiros comerciais o seguirão, incluindo a China.
Entretanto, não acredito que essa sinalização russa será levada a sério, até que a seja concretizada. É que o mês de janeiro passou e ficará marcado pela liberação de mais substâncias tóxicas para serem usadas na agricultura, incluindo um agrotóxico à base de Sulfoxaflor, princípio ativo que tem sido associado ao extermínio de espécies não-alvo, incluindo as abelhas, que desempenham papel fundamental na polinização de diversas espécies. O Sulfoxaflor é tão polêmico que chegou a ter seu registro cancelado nos Estados Unidos, mas a licença foi recuperada depois, com restrições (ou seja, só pode ser usado em condições muito controlados. Apesar dos ativos presentes em outros 27 agrotóxicos já eram liberados no Brasil, partes deles estão proibidos no exterior devido à alta toxicidade.
A verdade dura e crua é que o agronegócio brasileiro, que se suporta em grandes monoculturas de soja, cana de açúcar, milho e algodão, está crônica e agudamente viciado e dependente de agrotóxicos, muitos deles já banidos em outras partes do mundo. Um exemplo de substância banida por sua alta periculosidade à saúde humana (sendo considerado um mutagênico) e ambiental é o Paraquat (também vendido com o nome de Gramaxon). No caso da China, maior produtor desta substância, o Paraquat foi banido de uso em lavouras chinesas desde 2016, e teve sua venda banida pelo governo chinês para o resto do mundo a partir de 2020.
Enquanto isso no Brasil, o banimento do uso do Paraquat só deverá ocorrer em 2020(coincidentemente o mesmo ano em que a China deverá parar de produzir a substância ativa do agrotóxico). Isso se os esforços da bancada ruralista para derrubar este banimento não forem exitosos.
Mas os casos do Glifosato, do Sulfoxaflor e do Paraquat são apenas ilustrativos de uma ampla dependência do uso de venenos agrícolas por parte do agronegócio brasileiro. Como mostrou recentemente uma reporagem da Agência de Jornalismo Investigativo Pública, apenas em 2018 o governo “de facto” de Michel Temer aprovou o registro de 450 agrotóxicos, um recorde histórico, e destes apenas 52 são de baixa toxicidade (ver figura abaixo).
Além das consequências negativas para o meio ambiente e para a população do Brasil, essa condição de viciados em veneno tenderá a criar um cordão de isolamento sanitário contra as commodities agrícolas brasileiras em todo o mundo.
E que ninguém se surpreenda, se apesar dessa possibilidade, o agronegócio e seus representantes dentro do congresso nacional e do governo Bolsonaro (a começar pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS) continuarem a ampliar o registro de venenos agrícolas, incluindo os que já foram banidos em outras partes do mundo. É que como a prioridade que parece guiar os representantes do agronegócio é com as escalas de curto e médio prazo, eles tenderão a prosseguir com essa marcha do envenamento, a despeito dos avisos e alertas que venham da comunidade científica e até dos principais parceiros comerciais brasileiros.
Desta forma, há que se ampliar não apenas o conhecimento público da situação de envenamento coletivo via um modelo dependente em venenos agrícolas, mas também das formas de criação de mecanismos de apoio a modelos alternativos de produção de alimentos que são menos dependentes em venenos e fertilizantes sintéticos. Essa me parece será uma das principais batalhas a serem desenvolvidas no Brasil nos próximos anos.
Apesar da cortina de fumaça que foi levantada com o tratamento indigno dado a apoiadores e jornalistas que estiveram na posse do presidente Jair Bolsonaro, já sabemos que os ecossistemas florestais, quilombolas e índios são as primeiras vítimas dos retrocessos planejados nos bastidores dos novos dirigentes que assumiram o poder no dia de ontem.
Isto fica evidente nas notícias de que o Ministério da Agricultura, comandado pela rainha dos venenos, Tereza Cristina (DEM/MS) ficará à cargo das demarcações de terras de quilombolas e comunidades indígenas e, de quebra, com o Serviço Florestal Brasileiro [1 & 2]. Esses encargos se encontravam antes quase que totalmente sob o guarda-chuva dos ministérios da Justiça e do Meio Ambiente.
As consequências mais prováveis dessa concentração de “galinhas dentro de um ninho de raposas” será o aumento dos ataques à quilombolas e povos originários (alvos claros do desgosto pessoal de Jair Bolsonaro) e a liberalização ainda maior do processo de degradação dos biomas do Cerrado e da Amazônia para onde se movem com avidez os interesses do latifúndio agro-exportador e das grandes mineradoras.
Mas, convenhamos, nada disso é inesperado. A questão é que graças à sua forma de ganhar a eleição presidencial, Jair Bolsonaro não precisou nem explicar como faria o que fará. De fato, Bolsonaro recebeu um cheque em branco de seus eleitores (muitos deles fazendo isso de forma consentida e alegre), o qual ele passa agora a sacar de forma frugal (tal qual o seu ex assessor Fabrício Queiróz costumava fazer nos dias que se sucediam ao depósito dos salários dos assessores do ex deputado estadual e agora senador Flávio Bolsonaro).
Como da oposição institucional pouco se pode esperar em termos de reação concreta ao início dos retrocessos idealizados pelo governo Bolsonaro, cumprirá aos atingidos organizarem o processo de reação. O Brasil, com isso, deverá entrar em uma nova e forte espiral de violência, mas também de reorganização dos movimentos sociais. É que diante do tamanho dos ataques que estão se iniciando, os principais interessados em conter o retrocesso não terão outro caminho a não ser o da reação.
E não esqueçamos de que fora do Brasil, o crédito do governo Bolsonaro já é quase nenhum, vide o baixíssimo comparecimento de dirigentes estrangeiros à sua posse. Com o início dos retrocessos começando por quilombolas, indígenas e ecossistemas florestais, imaginem o que deverá se seguir. Eu me arrisco a dizer que o Brasil passará em breve à condição de pária ambiental sobre o qual barreiras sanitárias e políticas deverão ser impostas como forma de punição por esses retrocessos. Assim, o agro-negócio que ri agora, deverá chorar. A ver!
A edição desta sexta-feira (12) do jornal Libération traz uma matéria sobre o desmatamento da Floresta Amazônica, em prol das plantações de soja e da criação de gado. “No Brasil, a floresta paga o preço das mudanças políticas” diz a manchete.
Libération explica que, desde a destituição de Dilma Rousseff, os conservadores favoráveis ao lobby agroalimentar defendem uma legislação perigosa para a Amazônia. “Tratados com indiferença, os povos indígenas tentam barrar a catástrofe”, escreve o jornal.
Sobre o assunto, Libération entrevistou o pesquisador Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa). Segundo ele, “as forças políticas conservadoras se alinham para acabar com as proteções ambientais e sociais básicas”, o que expõe boa parte da floresta amazônica a danos gravíssimos.
De acordo com Fearnside, o desmatamento da Amazônia deu um grave salto em 2016: 29% em relação à 2015 – um número que compreende apenas o desflorestamento legal. O cientista alerta que, se as ações ilegais forem consideradas, o desmatamento no local destruiu uma superfície do tamanho da França em apenas um ano. Além das plantações de soja e da criação de gado, a construção de barragens hidrelétricas, de estradas e portos contribuem para a devastação.
Segundo o pesquisador do Inpa, o cenário só tende a piorar. “Há cada vez mais investimentos. Os projetos de infraestrutura em andamento encorajam a especulação sobre as terras. O valor delas sobe enormemente a cada vez que uma nova estrada é construída na região”, salienta Fearnside, em entrevista ao jornal Libération.
O diário destaca que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) confirma a tendência citada pelo cientista. De acordo com a instituição, o Brasil é o país que mais destruiu suas florestas no período entre 2010 e 2015. Cerca de 0,2% da área verde brasileira é destruída por ano, lembrando que o Brasil é o segundo país com o maior número de florestas, 12% da área verde do mundo, ficando atrás apenas da Rússia.
Conservadores no poder
Libération explica que não há mistério sobre esse aumento desenfreado do desmatamento: o aumento do preço da soja e da carne tornou mais rentável a exploração das terras. “Mas é sobretudo a chegada dos conservadores ao poder, há um ano, que custa caro para a a Amazônia”, salienta a matéria. Com a queda de Dilma Rousseff e a chegada ao poder de Michel Temer, o bloco ruralista, que representa os interesses do agrobusiness, ganhou espaço e controla atualmente 40% do Congresso.
“Sob pretexto de tornar a economia brasileira mais competitiva, os ruralistas estão fazendo passar um arsenal de leis e emendas na Constituição para minar as proteções ambientais e invadir as terras indígenas”, ressalta Libération. O texto mais recente aprovado pelo Congresso permite a abertura de mais de um milhão de hectares de florestas, até hoje protegidos, para a exploração.
Diante da situação calamitosa, dezenas de Ongs de proteção ao meio ambiente lançaram nesta semana o movimento “Resistir” para pressionar os governantes brasileiros. Mas, para ambientalistas, é preciso ir além e criar uma forte mobilização da população, já abatida por anos de crise política e econômica no Brasil.
NOTA PÚBLICA DO MST SOBRE A OPERAÇÃO CARNE FRACA E A CORRUPÇÃO NO MINISTÉRIO DA AGRICULTURA
1. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra manifesta ao povo brasileiro o seu posicionamento diante das denúncias envolvendo o Agronegócio e o modelo de produção agropecuário movidos apenas pela lógica do lucro máximo e imediato.
A irracional e crescente degradação ambiental, a exploração intensiva de força de trabalho assalariada, a monopolização do território e despovoamento do interior do país, além dos crimes contra os povos indígenas, quilombolas, pescadores e camponeses, caracteriza o modelo de agronegócio, cujo mercado capitalista impulsiona ou desacelera a produção em face da demanda global.
2. A produção agropecuária baseada na monocultura extensiva e no uso intensivo de agrotóxicos, destrói a biodiversidade, contamina os solos e as águas, alteram as condições climáticas e envenenam os alimentos da população brasileira.
Para garantir e ampliar seus privilégios o agronegócio financia as eleições da bancada dos parlamentares mais reacionários, a “ bancada do boi”, responsável pelo retrocesso na legislação dos direitos sociais, trabalhistas e de preservação ambiental.
3. O golpe em curso no país, resultante de um conluio entre a Polícia Federal, Ministério Público, Poder Judiciário e meios de comunicação de massa, liderados pela Globo, atenta brutalmente contra os direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores, e dos bens naturais, entregando essa riqueza para o mercado e as empresas transnacionais, num forte ataque à soberania popular.
4. As denúncias da operação da Polícia Federal denominada Carne Fraca servem como argumento para reafirmar as contradições do Modelo do Agronegócio, principalmente em relação à saúde humana e à destruição ambiental. Defendemos que as empresas envolvidas sejam punidas e responsabilizadas.
5. Denunciamos que mais uma vez a conta está sendo paga pelas trabalhadoras e trabalhadores da agroindústria da carne, expostos à precarização imposta pelas empresas, e que agora com as denúncias sofrem com as demissões em massa.
6. Denunciamos o conluio entre a mídia e o governo golpista para escamotear o processo de corrupção entre as empresas do agronegócio e os fiscais do Ministério da Agricultura (MAPA). Exigimos que que seja investigada a apropriação privada desse Ministério pelo Agronegócio!
7. Reafirmamos nosso projeto de Reforma Agrária Popular, a produção de alimentos saudáveis, o respeito à diversidade dos povos e a defesa dos bens naturais. Combateremos sem tréguas o modelo de produção do agronegócio e seguimos na defesa de um modelo de desenvolvimento para o campo, baseado na cooperação agrícola, agroecologia e na soberania popular.
8. Com a força crescente do apoio popular, seguimos denunciando que o Agronegócio mata, envenena e sequestra o Estado Brasileiro! Nenhum Direito à Menos! Fora Temer! Diretas Já!
A ilegalidade está na pesquisa, experimentação, produção, embalagem, rotulagem, transporte, armazenamento, comercialização, publicidade e utilização desses produtos. Outdoors anunciando todo tipo de agrotóxico – o que é ilegal – é comum nas estradas brasileiras, conforme o MP do RS
Por Cida de Oliveira, da RBA
A Constituição e a Lei Federal 7.802/89, que disciplina a pesquisa, a experimentação, produção, embalagem, rotulagem, transporte, armazenamento, comercialização, publicidade, utilização, fiscalização e controle dos agrotóxicos são desrespeitadas pela agricultura nacional. A denúncia é do promotor de Justiça do Ministério Público do Rio Grande do Sul em Catuípe, Nilton Kasctin dos Santos. Com formação em Direito e especialização em Direito Comunitário pela Escola Superior do Ministério Público, o ex-delegado da Polícia Federal trocou a PF pela defesa do meio ambiente e atua também como conferencista e articulista em diversas publicações.
De acordo com o promotor, a desobediência já começa com a prescrição de venenos por agrônomos ou técnicos agrícolas que nem sequer examinaram a lavoura para conhecer suas características e necessidades. Tal procedimento consta do artigo 15º da Lei 7.802/89 (Lei dos Agrotóxicos). A pena prevista é de dois a quatro anos de reclusão para quem descumprir.
“É comum esses profissionais assinarem receituários sem ter visitado e diagnosticado a lavoura. Como um médico examina o paciente para identificar a doença e receitar o remédio, o agrônomo deve examinar a lavoura. Só então poderá decidir se há necessidade do uso de veneno e qual o tipo”, compara.
Porém, isso normalmente não ocorre. “O agricultor vai direto à ‘farmácia’ (revenda), já decidido a comprar o veneno que será aplicado da forma e no momento que bem entender. Às vezes, quem entrega a receita já assinada é o balconista da loja de agrotóxico. Assim, a receita, que deveria ser o principal instrumento para controlar a circulação desses produtos, não passa de uma farsa.”
Propaganda irregular
Outro grande problema é a publicidade dos venenos. A Constituição Federal estabelece, em seu artigo 220, parágrafo 4º, que a propaganda comercial de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos e terapias estará sujeita a restrições legais. Tais restrições foram estabelecidas também pelas leis federais 9.294/96 – sobre as restrições ao uso e à propaganda de produtos fumígeros, bebidas alcoólicas, medicamentos, terapias e defensivos agrícolas – e ainda pelo Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078/90).
Santos entende que a legislação é cumprida à risca quando se trata de medicamentos, bebidas alcoólicas e tabaco. Mas em relação aos agrotóxicos, não há obediência a qualquer dispositivo legal. A propaganda é completamente livre. Está na televisão, no rádio, nos jornais, na internet, e até mesmo em cartazes, placas, faixas e outdoors.
Outro Outdoors anunciando todo tipo de agrotóxico
“Só para exemplificar, as margens das estradas do Brasil inteiro estão tomadas de placas com anúncios de agrotóxicos e sementes transgênicas. Até no espaço público, reservado à colocação de sinais de trânsito eles podem ser vistos. E toda forma de propaganda mencionada, da maneira como veiculada no Brasil, constitui crime contra as relações de consumo, na medida em que caracteriza publicidade enganosa (arts. 66 e 67 do CDC)”, afirma.
Para o promotor, a culpa não é apenas das empresas interessadas, mas também das autoridades, que nada fazem para coibir anunciantes e punir os que atuam livremente, com conhecimento das autoridades, que nada fazem. “O que é lamentável. A propaganda irregular de agrotóxico precisa ser vista como algo grave, uma vez que influencia toda a coletividade a banalizar o perigo dos venenos, a não ver problema em encher de agrotóxico a terra, o ar, a água e nossa mesa.”
Enquanto isso, conforme conta, a ampla maioria dos plantadores de soja, trigo, arroz, aveia, milho, feijão, uva, melancia, abacaxi, verduras e demais alimentos segue aplicando de forma ilegal os mais variados tipos de venenos perigosos. “Fazem quando querem, como querem e na quantidade que querem, sem serem incomodados por quem quer que seja no sentido de pelo menos cumprir a legislação vigente”.
Alienação
Para o promotor, a sociedade brasileira está em grande parte alienada em relação aos agrotóxicos – o que se deve principalmente à fragilidade do sistema educacional, sem compromisso com o desenvolvimento de uma consciência mais crítica.
“Nem as tais campanhas de ‘conscientização’ da população e dos agricultores sobre o perigo dos agrotóxicos funcionam mais. É lógico, uma nação que figura no 88º lugar no ranking mundial da educação é incapaz de qualquer processo de transformação para melhor; a tendência é piorar”, lamenta.
“Desses raros processos e inquéritos, 99% foram abertos pelo próprio do Ministério Público, Polícia Ambiental ou alguma organização. A sociedade brasileira está completamente alheia a esse grave problema que é de todos”.
Para ele, isso justifica as pouquíssimas denúncias envolvendo agrotóxicos, em geral relacionadas apenas a prejuízo financeiro. Ou seja, as pessoas só vão à polícia ou ao Ministério Público denunciar quando o veneno da lavoura do vizinho danificou sua plantação, seus animais, ou quando alguém da família sofreu intoxicação aguda.
Num cenário assim tão favorável, a indústria e o comércio de agrotóxicos nem precisam se esforçar no assédio aos produtores. Isso porque, conforme o promotor, o agronegócio já é absolutamente dependente do poder econômico das megacorporações transnacionais detentoras das marcas de sementes, adubos e venenos agrícolas.
Todos os produtores rurais brasileiros, diz, trabalham como num sistema integrado de produção a exemplo do que ocorre com criadores de frango e suínos para os grandes frigoríficos.
Na prática, trabalham para essas empresas multinacionais já que nenhum produtor possui insumos próprios (se guardar a semente, ela não nasce, é estéril), nem podem adquirir semente, adubo químico ou veneno de outro eventual fornecedor.
“Todos dependem absolutamente da Monsanto, Bayer, Basf, Syngenta, FMC, Du Pont, Dow e mais duas ou três. A curto ou a médio prazo nada pode ser feito para minar esse quadro sombrio de dependência econômica e tecnológica do Brasil em relação a esse aspecto do capital internacional. Isso equivale a dizer que não só nossa segurança alimentar desapareceu por completo, como também nossa soberania nacional vem se debilitando progressivamente. E de forma acelerada”.
Cruéis, os testes de agrotóxicos torturam animais, mas são incapazes de mensurar seu real perigo à saúde humana e ao meio ambiente
Feitos em animais com metabolismo e sistema imunológico diferente dos seres humanos, e que não representam a complexidade dos ecossistemas, os testes não conseguem identificar o real espectro de ação dos venenos.
O Teste Draize consiste em aplicar a substância química nos olhos ou na pele (raspada) de animais para medir a toxicidade. Principalmente coelhos (porque têm olhos grandes e salientes), são amarrados em um instrumento fixo, ficando apenas com a cabeça para fora. O veneno a ser testado é pingado de quando em quando dentro dos olhos (mantidos abertos com grampos ou fitas adesivas).
Por estar preso e não poder fechar os olhos ou coçar o local da agressão, o animal apenas grita de dor, chegando até mesmo a fraturar o pescoço na tentativa de escapar. O procedimento dura vários dias, até que o olho vire uma crosta infecciosa, acompanhada de cegueira completa. “Tudo para ‘saber’ o grau de toxicidade da substância a ser lançada no mercado. Ora, desse jeito até mesmo água potável causaria danos no olho”, diz o promotor de Justiça do Ministério Público do Rio Grande do Sul em Catuípe, Nilton Kasctin dos Santos.
Pelo método LD50, o agrotóxico é ministrado (via oral ou venosa) aos poucos a um grupo de animais (cães, macacos, coelhos, ratos etc.), até que morram 50%. Todo o grupo, normalmente em torno de 200 indivíduos, sofre longo processo de tortura, definhando lentamente até a morte. Essa forma cruel de experiência científica foi inventada em 1927, e até hoje é utilizada em larga escala pela indústria química.
De acordo com Santos, os testes de laboratório são feitos com um tipo de agrotóxico por vez, não levando em conta que nas plantações são aplicados vários tipos de venenos diferentes, misturados ou uns após os outros, em intervalos curtos ou médios, de maneira que resíduos de vários tipos de venenos interagem entre si e com o solo, com o ar, com a água e no corpo dos organismos vivos. Portanto, é completamente impossível identificar em laboratório as consequências da ação conjunta de diferentes tipos de agrotóxicos para o meio ambiente e a saúde humana.
Esses testes em animais são concluídos em períodos extremamente curtos, impossibilitando qualquer certeza sobre efeitos crônicos derivados de exposições ou contatos prolongados com agrotóxicos. Observe-se que a cada evento de ataque intenso de pragas ou doenças aparecem no mercado, de uma hora para outra, dezenas de agrotóxicos novos.
“As conclusões dessas experiências não apontam antídotos para casos de intoxicação acidental. Os testes são realizados pelo próprio fabricante do veneno, cujo interesse único e exclusivo é lucrar com a venda do produto”, diz o promotor.
Ele destaca ainda que essas experiências sacrificam dos animais sem trazer utilidade para a proteção da saúde humana. A literatura científica na área de toxicologia mostra que os resultados de testes Draize nunca são utilizados por médicos, que se orientam a partir de experiências de casos reais com seres humanos.
Esses testes são realizados para defender os interesses econômicos do fabricante. “A lei não obriga a utilização de animais para testes científicos. Mas essa metodologia ultrapassada, inventada há quase um século, é a maneira mais eficaz de o fabricante e o comerciante serem inocentados em processos judiciais por intoxicação humana ou dano ambiental. É só provar que o veneno foi testado antes da colocação no mercado, que a Justiça sempre julga em favor das empresas que fabricam e comercializam o agrotóxico. A ‘culpa’ passa a ser de quem aplica o veneno”, diz Santos.
Como a levada dos países pobres e emergentes não supõe demanda crescente a taxas aceleradas, o comércio de alimentos, fibras e energias renováveis pouco deverá aumentar a participação
Por Rui Daher
IBGE
Os estoques de soja (foto), trigo e milho passarão com excedentes maiores em relação aos anos pós-crise internacional e adversidades climáticas nos EUA e Argentina
Os agricultores do oeste paranaense, de onde acabo de voltar, não perdem tempo. Nem poderiam. Para produzir parte dos grãos que deverá se somar aos quase 200 milhões de toneladas da safra brasileira 2014/15, eles já estão com um lado do traseiro na cabine de uma colhedeira de trigo e o outro lado numa plantadeira de soja. Olhos na internet e no céu, à espera das primeiras chuvas.
Entre Cascavel, Toledo, Palotina, vi soja sendo semeada sobre a palhada de trigo colhido naquele dia. Até o final de setembro, mesmo os mais prudentes farão da dúvida certeza irreversível.
Os narizes, levemente arrebitados ou aduncos, germânicos e itálicos, permanecerão apontados para os odores e humores da Bolsa de Chicago, temerosos de que a enorme safra norte-americana traga-lhes ao paladar um gosto travoso, que não é nem de umbu nem de cajá, mas de preços em amargo jiló mesmo.
Palpite: não há dúvida de que irá diminuir o docinho de anos recentes, mas não a ponto de transformar-se em catalonha selvagem.
Os estoques mundiais de soja, trigo e milho, como escrito aqui meses atrás, passarão com excedentes maiores em relação aos anos pós-crise internacional e adversidades climáticas nos EUA e Argentina. Nem mesmo o apetite chinês será capaz dessa ingestão, o que trará para cá pelo menos dois anos de azia.
Pronto, pensarão os leitores mais afoitos e de boa memória: “O cara mudou de ideia, não iria tratar das exportações do agronegócio brasileiro?”
Até vou. Deixarei para colunas à frente a tarefa de subir o morro e pôr a vista assim do alto nas tendências para a agricultura brasileira que começa um novo plantio.
Sim, usei a lupa em “Intercâmbio Comercial do Agronegócio” (MAPA, edição 2013), e confesso não ter encontrado grandes novidades. Apenas fiquei atônito com nossa falta de habilidade em fazer crescer as divisas trazidas ao País. Bastava incluir em nossa pauta de exportações vídeos com as centenas de candidatos a representantes políticos que aparecem na TV. A rubrica:entretenimento tropical.
Vamos aos números: é pequena a participação em valores dos produtos agropecuários no comércio mundial. Elefantes físicos, formigas monetárias.
Em 2012, 7,4%. Há mais de uma década não sai da faixa entre 6,5 e 7,5%.
Mesmo com nove bilhões de bocas para alimentar em 2050 e a garantia da FAO de que o número de famintos no planeta tenha caído de um bilhão para 850 milhões, não creio em mudanças drásticas nesse perfil nas próximas décadas.
Ainda são muitos os deficientes nutricionais, vários os governos e camadas da sociedade que se lixam para isso, e milhões os habitantes que saltam dos cereais para os brinquedos eletrônicos sem passar pelas proteínas.
Como a levada dos países pobres e emergentes não supõe demanda crescente a taxas aceleradas, o comércio de alimentos, fibras e energias renováveis pouco deverá aumentar a participação nas exportações mundiais.
Até aí, estamos olhando para o planeta. Nela, no entanto, há pouco mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados de chão que dependem muito desse comércio. Em 2012, mais de um terço das exportações brasileiras vieram do agronegócio.
De 2002 até aí quintuplicamos o valor das exportações agrícolas, para US$ 83,4 bilhões. Gradativamente, fomos invertendo a posição de nossos parceiros.
A partir de 2006, enquanto os países desenvolvidos traquinavam com seus brinquedinhos financeiros, acabando por se machucarem, a participação das exportações agropecuárias brasileiras para esses países caiu de 46,7% para 33,0%, enquanto para os países emergentes saía de 49,7% para 63,4%.
Com produtos 85% concentrados nos complexos de soja, carnes, sucroalcooleiro, dos cereais, e no velho e bom café.
É justamente neste momento que chega o amigo Hector, ferrenho admirador de latinoamerica, que em tom quase bolivariano pergunta: “y el Mercosur”?
Pois é, a participação das exportações do agronegócio brasileiro para o Mercosul caiu de 1,8 para 1,6%.
“No puede”.
“Queria o quê, Héctor? Soja, milho, trigo, boi pra Argentina? Toma lá um cafezinho”.
De novidade mesmo, para as Estampas Eucalol, sugeriria o gosto marroquino. Em 2011, o Brasil exportou duas toneladas de cachaça para o Marrocos. No ano seguinte, nada. Ou não gostaram ou foram buscar no Paraguai.
A política se reduziu a propaganda e se tornou um produto a ser vendido. Não estamos mais só na economia do livre mercado.Agora estamos numa sociedade mercantilizada e numa política subserviente aos mercados, totalmente mercantilizada
Por Cândido Grzybowski
Estamos mergulhados na conjuntura eleitoral, com propaganda em rádio e televisão, cabos eleitorais nas ruas, adesivos por toda parte. Mas debate político acalorado, que é bom, nada. O maior fato político e eleitoral neste começo foi a morte em acidente aéreo do Eduardo Campos e a ascensão de Marina Silva a candidata presidencial travestida de PSB, pois o que ela queria e quer é viabilizar seu projeto consubstanciado na Rede Solidariedade.
Dentro de um mês e pouco, pelo voto, deveremos decidir sobre os rumos para o país. Mas a campanha eleitoral não é sobre caminhos possíveis, que supostamente candidatas e candidatos para a Presidência, o Senado, o Congresso Nacional, os Governos Estaduais e as Assembleias Legislativas deveriam estar propondo e defendendo. Pelo contrário, estamos submetidos a um bombardeio de propaganda eleitoral feita para não pensar e sim para nos convencer o quanto de benefícios nos pode propiciar esta ou aquela candidatura. A política se reduziu a propaganda e se tornou um produto a ser vendido. Não estamos mais só na economia do livre mercado.Agora estamos numa sociedade mercantilizada e numa política subserviente aos mercados, totalmente mercantilizada.
Torna-se necessário esclarecer este meu argumento. O espaço da política, mesmo mercantilizado, é e continua sendo, por excelência, o locus da construção do comum e do coletivo possível, num contexto histórico dado, tendo a força propulsora a incontornável igualdade e diversidade de que somos como membros de uma mesma humanidade.A mercantilização, por força do poder de certos interesses e classes, subordina a política, a privatiza, mas seu impacto continua sendo sobre o coletivo, sobre a sociedade como um todo. Portanto, mesmo numa conjuntura de submissão e subserviência da política à economia, no espaço da política se decidem em disputa questões sobre as contradições e as possibilidades do comum e do coletivo apontarem o rumo a ser perseguido e acabarem prevalecendo democraticamente.Ou seja, sempre existe espaço a ser disputado, por menor que seja. Não dá para abandonar a arena da disputa democrática.O impossível pode se tornar possível na volta da esquina.
Com tal visão estratégica, avaliemos o momento eleitoral criado no Brasil de 2014, a 50 dias do primeiro turno. Não temos condições de mudar no imediato o quadro eleitoral, com estas campanhas que nos “vendem” candidatos. Mas o momento é de pensar na sociedade que estamos construindo. Podemos sempre definir um conjunto de ideias do que fazer e demandar aos candidatos e às candidatas que respondam a elas, ao menos àqueles mais próximos, dispostos a ouvir a cidadania ativa (coisa rara!). Listo algumas das questões que são, no aqui e agora, definidoras do rumo que estamos buscando com nosso voto, talvez sem o saber, para o Brasil, um país gigante com impacto no mundo todo.
Começo pelo que me parece o mais intolerável e injusto: a questão indígena. Continuamos o extermínio, mesmo tendo feito uma louvável trégua com as conquistas da Constituição de 1988. É uma questão que está no centro do poder, com uma perspectiva de flexibilizar, de negar direitos. As insurgências indígenas dos últimos anos testemunham a nova investida de interesses privados sobre seus territórios. Está na pauta do Congresso uma agenda de mudança constitucional tanto sobre a demarcação de terras, como sobre exploração mineral nos territórios já definidos e até sobre o tal direito de consulta prévia, como na construção de grandes hidrelétricas na Amazônia. Você conhece algum candidato ou candidata que fale de tal questão nesta conjuntura eleitoral? Será que temos o direito de decidir sobre o destino dos indígenas que sobreviveram à conquista e colonização? Vamos continuar colonizando o Brasil em nome do desenvolvimento?
Aliás, a mineração extrapola a questão indígena. O novo código mineral pode tornar irreversível um processo de entrega à exploração predatória privada de amplas áreas do território, um bem comum que nos cabe zelar pela sua integridade. Por que comprometer o futuro de novas gerações e, mais, do Planeta com este afã de fazer dinheiro rápido aqui e agora, com um extrativismo insustentável de uma perspectiva socioambiental? Cadê o debate sobre esta questão que já está na pauta do Congresso? Não deveria ser uma questão de amplo debate e de decisão direta pela cidadania como um todo?
Nesta linha a gente pode agregar o modelo energético. Que debate estamos tendo sobre, literalmente, tão quente questão? O Pré-Sal, depois daquela caça ao possível tesouro sobre a distribuição dos royalties, nem mais conversamos. Será que vale a pena para nós e a humanidade extrair petróleo do fundo do mar, com alto risco, acima de nossas necessidades atuais, simplesmente para fazer excedente comercial e com isto contribuir substancialmente para a mudança climática? Energia é negócio ou necessidade vital? O que é prioridade? Precisamos de energia e o quanto mais renovável melhor. Caminhamos neste rumo ou de ré? Esta questão vale até para a energia renovável das hidrelétricas. Quanto, no atual modelo, ela é renovável e quanto é destrutiva de uma perspectiva socioambiental? Onde está o debate sobre a nossa matriz energética nesta conjuntura eleitoral?
Uma questão associada é a da água. Com a crise de abastecimento em São Paulo, com impactos possíveis no Rio, a ficha caiu e começamos a ver que esta é uma questão séria. Mas quem traz proposta para o debate nestas eleições? Parece até o contrário, pois os candidatos tudo fazem para impedir que a questão da água – um bem comum indispensável à vida, a qualquer forma de vida – seja convertido em tema quente, já que eles nada fizeram e nada fazem. Simplesmente esperam que volte a chuva e tudo fique normal. Aliás, esta é atitude de absolutamente todos e todas que disputam eleições no tocante à dramática perspectiva de mudança climática. Continuamos pensando que moramos “…num país tropical, abençoado por Deus…”, uma exceção no Planeta e que aqui não teremos os desastres anunciados de aquecimento global. Acompanhando a campanha eleitoral, mesmo com a ambientalista Marina disputando, o que se nota é uma declarada opção por disputar formas de fazer mais e melhor do mesmo desenvolvimento destruidor da natureza e gerador de desigualdades sociais.
Aqui entra o tema presente, mas escamoteado, do agronegócio. Todos sabem que temos um modelo de agricultura insustentável, com uso intensivo de venenos, transgênicos, contaminações e destruições de biodiversidade, agricultura predadora do meio ambiente. Mas é um dos itens principais na geração de excedentes comerciais nas nossas transações internacionais. Será que vale a pena uma tal bomba? Não estamos contaminando nossas próprias vidas? O silêncio na campanha eleitoral sobre o tema é revelador do quanto a tal “governabilidade” é estruturalmente dependente da “bancada ruralista”. Não é que os ruralistas são muita gente, pelo contrário a estatisticamente pequena classe de donos do agronegócio tem grande poder de financiar campanhas eleitorais de subservientes a seus interesses. O agronegócio modernizado, de algum modo, continua sendo “dono” do país do atraso.
Isto nos remete a um dos temas mais ausentes na campanha eleitoral: a refundação da própria política. Estamos diante de mais uma eleição ignorando totalmente o difuso sentimento no seio da sociedade civil brasileira, já majoritário, de descrédito na política como ela é hoje. Questiona-se toda forma de representação, pela usurpação do mandato delegado pelo voto e a tendência dos políticos de se sentirem “donos” dos cargos a que foram eleitos. Na verdade, eles são mais fiéis e devedores de seus financiadores de campanha do que da cidadania que os elege, em última análise. Este foi o recado mais amplo dado pela grande onda de mobilizações de junho de 2013. Será que não está em questão o sentido mesmo da democracia? Como não destruir a sofrida conquista de espaços democráticos? Como ampliá-los ao invés de reduzi-los, como apontam e revelam as iniciativas parlamentares de criminalização das manifestações e de oposição frontal à proposta de uma política de participação social? Por que os e as disputantes de cargos e mandatos não enfrentam tais questões? Afinal, o futuro da democracia no Brasil depende de uma profunda refundação da política como bem comum, sem “direitos garantidos” como nossos políticos eleitos se consideram.
Mas é no mais prosaico para qualquer eleição – o como prover direitos iguais de cidadania – que as contradições da conjuntura eleitoral se revelam com radical intensidade. Os direitos mais básicos, como transporte, saúde, educação, segurança, direito à diversidade e tantos outros, até entram na campanha. Mas nunca como direitos e sim como favores a serem garantidos pelo ou pela disputante de representação, se a vencer. A campanha eleitoral da maioria dos deputados federais, estaduais e senadores, mas também de quase a totalidade de governadores, é sobre possíveis benefícios que sua vitória garantiria neste campo de violações claras de direitos iguais para toda a cidadania.
Muito mais poderia ser destacado aqui. Na campanha presidencial, por exemplo, parece que não fazemos parte de um mundo interdependente.Temos responsabilidade pelo que se passa no mundo, sem dúvida. Mas isto não quer dizer que chegou a nossa vez de partilhar o poder de dominar o mundo. Até parece que existe um consenso entre candidatas e candidatos de que o Brasil tem o “direito a ter mais direitos” na geopolítica mundial.Será este o Brasil que o mundo precisa? Por que não o contrário, brasileiros e brasileiras construir um Brasil como força instituinte e constituinte de um mundo solidário, sem imperialismos e nem guerras, com igualdade na diversidade, lugar comum de todas e todos?
A gente não pode desistir, mas está difícil discutir tais questões na confusa conjuntura eleitoral comandada por uma lógica de “venda” de imagem de boa mocinha ou bom mocinho, provedores de favores, ignorando direitos.
Cândido Grzybowski é sociólogo e diretor do Ibase.