Após protestos, Serviço Geológico dos EUA desiste de plano para limitar base de dados sobre agrotóxicos

O US Geological Survey continuará relatando o uso agrícola de cerca de 400 compostos

usgs pesticidesAviões pulverizam agrotóxicos  um campo agrícola em Iowa. CHARLES OMMANNEY/ THE WASHINGTON POST VIA GETTY IMAGES 

Por Virginia Gewin para a Science

Após protestos de centenas de cientistas , o Serviço Geológico dos EUA (USGS) está a abandonar os planos de reduzir os relatórios para uma base de dados amplamente utilizada que rastreia a utilização de aproximadamente 400 produtos químicos agrícolas nos Estados Unidos.

Os investigadores acolhem com satisfação a decisão da agência, anunciada esta semana, de reverter as medidas para reduzir o número de produtos químicos rastreados pela base de dados e de divulgar atualizações com menos frequência. “Provavelmente não foi fácil reverter uma decisão como esta, mas eles fizeram-no a seu favor”, diz Nathan Donley, cientista sênior do Centro para a Diversidade Biológica, uma organização sem fins lucrativos. Ele espera que a medida “chame a atenção de mais pesquisadores de que temos este incrível recurso científico ao nosso alcance”.

A controvérsia estava enraizada na decisão do USGS de reduzir o escopo da edição de 2019 de seus dados de estimativas e mapas de uso de agrotóxicos, que desde 1992 forneciam dados em nível de condado sobre o uso de produtos químicos para controlar fungos, ervas daninhas, insetos e outras pragas. A agência primeiro reduziu o número de produtos químicos rastreados para 72, depois disse que cessaria a divulgação anual de dados preliminares sobre o uso de pesticidas e, em vez disso, divulgaria os dados finais a cada 5 anos.

Em resposta, cerca de 250 cientistas e 120 organizações assinaram cartas apelando à agência para restaurar os relatórios completos, que foram citados em mais de 500 estudos revistos por pares. Em setembro de 2023, nove membros do Senado e da Câmara dos Deputados aderiram à campanha, enviando uma carta ao USGS expressando preocupação com os cortes.

Em 27 de fevereiro, o USGS inverteu discretamente o curso. Uma nota no site da agência afirma que ela retomará a publicação anual de dados preliminares para 400 compostos – e que os dados de 2018–22 serão publicados em 2025. A notícia foi relatada pela primeira vez por Undark .

Num comunicado, o USGS afirmou que, em meio aos custos crescentes de gestão e publicação dos dados, a agência simplificou os procedimentos e “determinou que será fiscalmente responsável pelo USGS reinstituir o desenvolvimento anual desta informação”. 

“É uma vitória para todos nós”, diz Alan Kolok, ecotoxicologista da Universidade de Idaho. Ele diz que os seus esforços para estudar os impactos da exposição aos  agrotóxicos na saúde teriam sido severamente afecados pelas alterações na base de dados.

Alguns pesquisadores ainda estão preocupados com um corte anterior no banco de dados que o USGS não conseguiu restaurar. Em 2015, a agência deixou de monitorar os agrotóxicos aplicados em sementes antes de estas serem plantadas – uma prática cada vez mais comum. Maggie Douglas, entomologista do Dickinson College, diz esperar que o USGS tome medidas para preencher essa “lacuna crucial”, restabelecendo a coleta de dados para esses compostos.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela revista “Science” [Aqui!].

Relatório conclui que a EPA não está fazendo seu trabalho corretamente na avaliação da coleira contra pulgas e carrapatos Seresto

gato coleira

Por Jonathan Hettinger para o “The New Lede”

A Agência de Proteção Ambiental (EPA) não revisou adequadamente a segurança da Seresto, uma coleira popular contra pulgas e carrapatos, que tem sido associada a mais de 3.000 mortes de animais de estimação, de acordo com o principal órgão de fiscalização da agência. 

O Escritório do Inspetor Geral (OIG) da EPA, um escritório independente da agência encarregado de responsabilizar a agência, publicou um relatório na quinta-feira pedindo à EPA que tome uma decisão adequada e baseada na ciência sobrea Seresto e melhore seus processos para fazendo determinações de segurança para produtos para animais de estimação.

O relatório concluiu que a agência não conduziu nem publicou avaliações de risco em animais como prometeu fazer, e continua a confiar em um estudo inadequado de segurança de animais domésticos de 1998. 

As coleiras Seresto funcionam liberando dois ingredientes ativos, os agrotóxicos flumetrina e imidaclopride. O EIG descobriu que a EPA não revisou adequadamente esses ingredientes ativos, inclusive numa nova análise no ano passado.

Mortes de animais de estimação  

Em uma audiência no Congresso em junho de 2022, a dona do animal de estimação Faye Hemsley, da Pensilvânia, relatou que seu cachorro, Tigger, começou a sofrer de problemas neurológicos, incluindo queda da cabeça e perda de energia, antes de morrer cinco dias depois dela colocar a coleira Seresto pela primeira vez nele. 

Thomas Maiorino, de Nova Jersey, também testemunhou na audiência que o cachorro de sua família, Rooney, sofreu problemas neurológicos e eventualmente uma convulsão, após usar a coleira Seresto. Eles finalmente decidiram sacrificar o cachorro. Muitos outros donos de animais de estimação relataram problemas neurológicos em seus animais, incluindo convulsões, bem como mortes de animais de estimação.

As coleiras foram objeto de mais de 105.354 relatórios de incidentes, incluindo 3.000 mortes de animais de estimação, mais do que qualquer outro produto regulamentado pela EPA na história, de acordo com o banco de dados de incidentes da EPA. De 2012 a 2022, a EPA recebeu mais de 100.000 relatórios de incidentes relacionados às coleiras, incluindo mais de 2.500 relatórios de mortes de animais de estimação e quase 900 relatórios de incidentes com pesticidas humanos relacionados às coleiras para animais de estimação Seresto.

“A resposta da EPA aos incidentes relatados com pesticidas envolvendo coleiras para animais de estimação Seresto não forneceu garantia de que as coleiras ainda possam ser usadas sem causar efeitos adversos excessivos ao meio ambiente, inclusive aos animais de estimação”, afirma o relatório do EIG.

A coleira tem estado sob forte escrutínio nos últimos anos, depois que o USA Today e o Investigate Midwest publicaram uma investigação destacando o grande número de relatos de incidentes sobre os efeitos negativos da Seresto. O Comitê de Supervisão e Reforma Governamental da Câmara dos Representantes dos EUA, que agora é o Comitê de Supervisão e Responsabilidade, Subcomitê de Política Econômica e do Consumidor, lançou uma investigação e posteriormente determinou que a EPA sabia há anos que a Seresto estava ligada a um grande número de mortes de animais de estimação, mas não tomou nenhuma atitude e recomendou que a EPA o retirasse do mercado.

O relatório do EIG recomenda que a EPA emita uma nova decisão sobre os produtos químicos, mas a agência discorda. Em resposta ao EIG, Michal Freedhoff, administrador assistente da EPA para o Gabinete de Segurança Química e Prevenção da Poluição, escreveu que a sua investigação de 2023 satisfez os requisitos da Lei Federal de Inseticidas, Fungicidas e Rodenticidas, que é a lei que regulamenta os agrotóxicos.

Freedhoff disse que faltam evidências que liguem os agrotóxicos nas coleiras às mortes dos animais de estimação.

“Em muitos dos incidentes relacionados com a morte, muitas vezes faltavam detalhes críticos do incidente, impedindo a Agência de determinar a causa da morte”, afirma a resposta de Freedhoff. 

“As únicas mortes relatadas que foram consideradas ‘provavelmente’ ou ‘definitivamente’ relacionadas ao uso do produto Seresto foram associadas ao estrangulamento mecânico ou trauma causado pela coleira, muitas vezes associado a uma falha do mecanismo de liberação. Além disso, a taxa de mortes relatada para Seresto foi semelhante à de outros produtos para animais de estimação analisados.”

Mas o EIG descobriu que a investigação da EPA de Julho de 2023 era fundamentalmente falha e disse que a agência precisa de melhorar as avaliações dos efeitos adversos para a saúde dos animais de estimação e atualizar as directrizes inadequadas de segurança animal para se alinharem com as normas internacionais.

Falta de rigor regulatório 

No geral, o EIG descobriu que houve pelo menos seis relatórios anteriores nos últimos 16 anos que concluíram que o sistema de notificação de incidentes com pesticidas da EPA era deficiente. O relatório afirma que o sistema de dados de incidentes não é confiável devido à subnotificação e à qualidade dos dados suspeitos, e a agência não possui um sistema ou metodologia padrão para avaliar incidentes envolvendo animais de estimação.

O relatório também concluiu que o Escritório de Programas de Pesticidas da EPA não tem escritório ou divisão de saúde de animais de estimação, nenhum defensor da segurança dos animais de estimação e falta de experiência veterinária. No ano passado, a EPA propôs transferir toda a regulamentação de produtos para animais de estimação para a Food and Drug Administration. 

O EIG também recomendou que a EPA implementasse procedimentos operacionais padrão sobre como realizar avaliações de risco nacionais, padrões mensuráveis ​​para determinar quando um produto apresenta efeitos adversos não razoáveis. O EIG também recomendou que a EPA implementasse melhores requisitos de dados, tanto para pré-aprovação como para notificação de incidentes.

“O registro do produto na EPA sinaliza ao público que este produto passou por um exame rigoroso e é considerado seguro para uso público”, disse o Inspetor Geral da EPA, Sean W. O’Donnell, em um comunicado à imprensa. “As revisões de registro devem ser conduzidas no mais alto padrão para salvaguardar a confiança do público e proteger a saúde humana, a saúde dos animais de estimação e o meio ambiente.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “The New Lede” [Aqui!].

Rio Araguaia está contaminado por agrotóxicos

Níveis de poluição estão acima dos aceitos na União Europeia e podem afetar pessoas e biodiversidade, alertam cientistas

boto araguaia

Descrito cientificamente apenas em 2014, o boto-do-araguaia (Inia araguaiensis) é uma das espécies à mercê dos venenos agrícolas que contaminam o manancial. Foto: Rio Cicica / Creative Commons

Por Aldem Bourscheit  para ((o))eco

O Rio Araguaia flui por aproximadamente 2.100 km desde a Serra do Caiapó, próxima ao Parque Nacional das Emas, em Goiás, depois avança por entre os estados do Mato Grosso, Tocantins e Pará até desaguar no Rio Tocantins. Esse, por sua vez, é conectado à Baía do Marajó, próxima à capital paraense.

Frente de desenvolvimento econômico convencional, a bacia do Araguaia é uma das regiões mais devastadas do Cerrado nos últimos anos, mostra um sistema de alerta para desmatamentos mantido por Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), MapBiomas e Universidade Federal de Goiás (UFG).

A eliminação da vegetação natural para ampliar as lavouras de soja e de outros itens exportados e consumidos no país compromete não só a quantidade de água, inclusive para o agronegócio, como também aumenta a poluição dos rios por agrotóxicos. 

Dito e feito, cientistas publicaram um estudo na revista Environmental Advances mostrando que as porções média e alta do Rio Araguaia têm níveis de atrazina, carbendazim, cianazina, imidacloprida, 2,4-D, clomazone, clorpirifós etil e imazalil acima dos aceitos na União Europeia. 

“Ficou evidente que a maioria das sub-bacias tinha concentrações de pesticidas na água que excediam os níveis de segurança para consumo humano”, destaca o trabalho, de pesquisadores das universidades Federal e Estadual de Mato Grosso, Federal de Goiás e Federal de Santa Maria (RS).

O Brasil tolera taxas bem maiores desses herbicidas, fungicidas e inseticidas em fontes de água potável, definidas em resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Ano passado e baseada em dados do Ministério da Saúde, a Repórter Brasil encontrou 27 agrotóxicos na água usada pela população de 210 municípios brasileiros.

Mas além das pessoas, a biodiversidade também pode pagar um alto preço pelo uso galopante de venenos agrícolas no país. “Os pesticidas amostrados foram associados a anomalias no desenvolvimento ontogenético, doenças e mortalidade de organismos”, ressalta o estudo. 

Um levantamento da FAO, sigla em Inglês da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, baseado em dados de 2021, mostrou que o Brasil já usa uma quantidade maior de agrotóxicos do que as dos Estados Unidos e da China somadas, noticiou o site Brasil de Fato. 

Naquele ano, lavouras brasileiras receberam 719,5 mil toneladas de venenos. No mesmo período, a China, que tem sete vezes mais habitantes que o Brasil, aplicou 244 mil toneladas, enquanto os Estados Unidos usaram 457 mil toneladas. Juntos, os dois países despejaram 701 mil toneladas de agrotóxicos, ou 97,5% do usado pelo Brasil.

Para reduzir os danos causados por agrotóxicos à biodiversidade e aos brasileiros, os pesquisadores sugerem no artigo na Environmental Advances revisar para baixo os limites aceitos desses venenos na água potável e melhorar o monitoramento da contaminação nas bacias hidrográficas nacionais.


Este texto foi originalmente publicado pelo jornal  ((o))eco [Aqui!].

Níveis alarmantes de Dicamba e 2,4-D estão presentes em mulheres grávidas em regiões agrícolas dos EUA, mostra estudo

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Por Johnathan Hettinger e Carey Gillam para o “The New Lede”

Mulheres grávidas em um importante estado agrícola dos EUA apresentam quantidades crescentes de um herbicida tóxico na urina, um aumento que acompanha o aumento do uso de produtos químicos na agricultura, de acordo com um novo estudo publicado sexta-feira.

O estudo , liderado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Indiana, mostrou que 70% das mulheres grávidas testadas em Indiana entre 2020 e 2022 tinham o herbicida dicamba na urina, acima dos 28% de uma análise semelhante para o período 2010-2012 que incluiu mulheres em Indiana, Illinois e Ohio.

 Notavelmente, o novo estudo descobriu que, juntamente com uma maior percentagem de mulheres que mostram a presença de dicamba nos seus corpos, as concentrações do produto químico que mata ervas daninhas aumentaram mais de quatro vezes.

O estudo também procurou a presença de ácido 2,4-dicloroacético, mais conhecido como 2,4-D, nas amostras de urina, descobrindo que 100% das mulheres tanto no estudo anterior como no novo tinham 2,4- D na urina, com aumentos detectáveis, mas não significativos, nos níveis de concentração.

As novas descobertas somam-se a um crescente corpo de literatura que documenta a exposição humana a produtos químicos utilizados na agricultura e a vários impactos conhecidos e potenciais na saúde. Muitos cientistas têm preocupações específicas sobre o impacto dos agrotóxicos em mulheres grávidas e nos seus filhos, mas afirmam que é necessária mais investigação – e mais escrutínio regulamentar.

“Estes são dois produtos químicos que nos preocupam devido ao seu uso crescente”, disse Paul Winchester, professor clínico de pediatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Indiana, que não esteve envolvido neste estudo. Winchester faz parte de um estudo relacionado de longo prazo sobre os resultados para mulheres e seus filhos expostos ao dicamba e ao 2,4-D.

Winchester chamou as descobertas de “preocupantes” e disse que há evidências crescentes de que esses produtos químicos podem ser prejudiciais aos fetos.

“O DNA fetal está sendo moldado por essas exposições”, disse ele. “O que estamos vendo em outros produtos químicos que tiveram percursos de estudo mais longos é que esta não é uma exposição benigna.”

A exposição ao dicamba tem sido associada ao aumento do risco de câncer de fígado e ducto biliar. Alguns estudos em animais sobre a exposição ao 2,4-D durante a gravidez encontraram baixos pesos corporais e mudanças de comportamento na prole, enquanto outros estudos descobriram que a exposição ao 2,4-D parece aumentar o risco de linfoma. 

Uso crescente

Vários estudos procuraram documentar a presença do popular herbicida glifosato em humanos, inclusive em mulheres grávidas. A exposição gestacional ao glifosato – o ingrediente principal do conhecido herbicida Roundup – está associada à redução do crescimento fetal e a outros problemas fetais, e o glifosato separadamente tem sido associado ao cancro e a outros problemas de saúde.

A Monsanto introduziu o glifosato na agricultura há décadas, seguido por culturas geneticamente modificadas criadas para resistir à pulverização de glifosato, permitindo aos agricultores matar as ervas daninhas nos seus campos sem danificar as culturas. Essa tecnologia OGM levou ao uso vertiginoso do herbicida a partir do final da década de 1990, mas o uso extensivo e repetido de glifosato em culturas tolerantes ao glifosato saiu pela culatra – desencadeando uma explosão de ervas daninhas resistentes ao produto. 

A Monsanto e outras empresas desenvolveram então culturas OGM tolerantes ao dicamba e culturas tolerantes ao 2,4-D que também poderiam ser pulverizadas directamente com esses produtos químicos. Como resultado, a dependência do dicamba e do 2,4-D aumentou 10 vezes em comparação com 2010, em grande parte devido a problemas de resistência às ervas daninhas e ao lançamento de novos tipos de culturas OGM. 

O estudo observa que a grande maioria das sementes de soja e algodão atualmente vendidas e cultivadas nos EUA são geneticamente modificadas para tolerar a pulverização com uma série de herbicidas, incluindo não apenas o glifosato, mas também o dicamba e o 2,4-D.

“Não há outra maneira de explicar um aumento de quatro vezes do dicamba na urina de mulheres grávidas no Centro-Oeste, a não ser implantando essas tecnologias”, disse Chuck Benbrook, coautor do estudo e perito em alguns casos de câncer. pacientes que processaram a Monsanto alegando que o Roundup causou suas doenças. “Esta é uma tecnologia que eles provavelmente nunca deveriam ter aprovado.” 

O dicamba tem volatilidade particular quando pulverizado em campos agrícolas e é capaz de viajar para longe de onde é pulverizado, portanto a exposição não ocorre necessariamente apenas na fazenda onde é pulverizado ou próximo a ele. Desde que foram introduzidas culturas tolerantes ao dicamba, o controverso herbicida foi documentado em culturas não alvo , em árvores localizadas a kms de distância dos campos de cultivo , e mesmo sob chuva .

Na semana passada, um tribunal federal no Arizona anulou os registos do dicamba , decidindo que a EPA violou a lei ao aprovar o dicamba ao não dar oportunidade adequada para comentários públicos. Foi a segunda vez que um tribunal federal proibiu o dicamba. Mas esta semana, a EPA disse que, apesar da decisão judicial, ainda permitirá que milhões de galões de dicamba sejam pulverizados nesta estação de cultivo.

“Este é o tipo de estudo em que não se pede mais estudos, estou dizendo que não deveria estar no corpo das pessoas”, disse Jennifer Sass, cientista sênior do NRDC. “Este é o tipo de estudo que diz que vocês precisam fazer algo a respeito – produtores, empresas e a EPA. Em nenhum lugar do rótulo do pesticida está escrito que ele deveria estar no seu corpo.”

Sass disse que há muitas incógnitas sobre os impactos do dicamba na saúde.

“Simplesmente não sabemos muito sobre dicamba. Não é uma lousa em branco, é um estado em branco”, disse Sass. “Simplesmente não sabemos muito sobre seus efeitos.”

A Bayer, que comprou a Monsanto em 2018, não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

Uma versão desta história foi co-publicada com o The Guardian.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “The New Lede” [Aqui!].

Big techs causam aumentam uso de agrotóxicos na agricultura brasileira

Corrida pela digitalização do setor aumenta risco de mais agrotóxico à mesa

toxico-pulverizacao-skydronestecnologiaDrone usado para pulverizar plantação com agrotóxico: especialistas temem que digitalização do agronegócio leve mais veneno à mesa dos brasileiros (Foto: Skydrones Tecnologia / Divulgação)

Por Liana Melo para o “Projeto Colabora”

É uma realidade incontornável o avanço das tecnologias digitais em todos os terrenos da vida humana. O celular virou praticamente uma extensão das nossas mãos. O mesmo vem ocorrendo no meio rural: um estudo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) diagnosticou que o setor agrícola passará por uma revolução digital sem precedentes nos próximos anos, que será, ao mesmo tempo, transformadora e disruptiva em todos os elos da cadeia agroalimentar.

“Essas informações, quando bem classificadas, fazem com que as empresas tenham ainda mais poder sobre a atuação delas no território. O mesmo lobby que defende que os agrotóxicos sejam liberados no Brasil é o mesmo que defende o avanço dessas tecnologias“. Joyce Souza,  Pesquisadora do Laboratório de Tecnologias Livres da Universidade Federal do ABC

É que as big techs estão em alta nas grandes propriedades rurais. Essas empresas estão apostando em plataformas de agricultura digitais conectadas aos serviços de armazenamento de dados em nuvem. A Microsoft se uniu a Azure e juntas criaram a Azure FarmBeat. Em parceria com à Google, a FAO também vem rastreando e fazendo análises aeroespaciais, por meio da tecnologia Earth Map, sobre o clima, meio-ambiente e agricultura.

Por ser líder mundial em exportação de soja, carne bovina e de frango, açúcar, café, celulose e suco de laranja, o agronegócio brasileiro não poderia ficar de fora dessa revolução digital: a agricultura 4.0, traduzida pela hiperconectividade do uso intensivo de tecnologias mais avançadas como blockchain, inteligência artificial e robótica.

O blockchain, por exemplo, vem sendo utilizado para rastrear as cadeias alimentares, antecipando a detecção de alimentos em más condições ou pragas na agricultura. Sistemas de monitoramento ininterrupto, durante os sete dias da semana, atrelado a sensores, vêm ajudando na tomada de decisões, como tempo de irrigação do solo. Robôs agrícolas, os agribots, estão sendo utilizados em diversos processos na pecuária e na agricultura, apresentando redução dos custos de produção, melhoria da qualidade dos produtos e aproveitamento de insumos como fertilizantes, água e solo.

“Não à toa, os discursos dominantes, como o agro é tech, o agro é pop, o agro é tudo, apresentam essas tecnologias digitais como a única e melhor alternativa para que o agronegócio cresça e mantenha sua vantagem competitiva em escala global”, analisa cientista social Joyce Souza, pesquisadora do Laboratório de Tecnologias Livres da Universidade Federal do ABC (UFABC) e autora do capítulo Quem se beneficia da agricultura 4.0?”, publicado no Atlas dos Agrotóxicos 2023 – Fatos e dados do uso dessas substâncias na agricultura, da Fundação Heinrich Böll.

As empresas do agronegócio, no entanto, têm vantagens competitivas em relação às big techs, por já atuarem nos territórios vendendo sementes, fertilizantes e agrotóxicos. Mas as gigantes da tecnologia estão de olho nas previsões de aumento da população mundial: 9,8 bilhões em 2050 contra 7,6 bilhões em 2018, o que, sem dúvida, aumentará a demanda global por alimentos.

Joyce alerta para os riscos intrínsecos no uso intensifico das tecnologias no agronegócio: “Essas informações, quando bem classificadas, fazem com que as empresas tenham ainda mais poder sobre a atuação delas no território. O mesmo lobby que defende que os agrotóxicos sejam liberados no Brasil é o mesmo que defende o avanço dessas tecnologias”.

Após adquirir a Monsanto, a Bayer se tornou proprietária da ClimateFieldView, que se autointitula a maior plataforma de agricultura digital do Brasil. A Basf desenvolveu a Xarvio Digital Farming Solutions. A Syngenta, após associar-se a Cropio, coleta dados, processa e analisa informações na plataforma CropWise. No site, informa que gerencia mais de 50 milhões de hectares no mundo. Juntas, essas empresas controlam 70% do mercado global de agrotóxicos.

“A qualidade, diversidade e a quantidade de dados coletados precisam aumentar significativamente e de forma ágil, não importando por quem, quando e como os dados coletados serão manuseados”, complementa Joyce, explicando que a agricultura de precisão, como vem sendo chamada, é uma nova realidade que veio para ficar.


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Este texto foi originalmente publicado pelo “Projeto Colabora” [Aqui!].

Brasil soma mais de 40.000 mil casos de intoxicação aguda por agrotóxicos em 10 anos

agrotoxicos

Por Xepa para a Mídia Ninja

O Brasil, desde 2021, lidera o ranking global de consumo de agrotóxicos, despejando 719,5 milhões de toneladas dessas substâncias anualmente, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Por trás desses números, surge uma preocupação mais urgente: os danos diretos à saúde humana. Em apenas três décadas, o aumento de 1.300% no uso dessas substâncias coloca o país como um dos maiores consumidores e importadores mundiais, expondo a população a riscos crescentes de intoxicação.

Um relatório da Friends of the Earth Europe revela que, a cada dois dias, uma pessoa perde a vida no Brasil devido à exposição a esses venenos, sendo uma em cada cinco vítimas crianças ou adolescentes com até 19 anos. Este é o preço trágico que o país paga por liderar esse preocupante ranking global.

A exposição aos agrotóxicos pode causar uma série de doenças, que vão de irritações na pele ao câncer, dependendo do produto, tempo de exposição e quantidade absorvida pelo organismo. As consequências mais graves são sentidas por pelo menos 20 mil pessoas por ano – número de registros de mortes por consumo de agrotóxicos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas notificou que mais de 40 mil casos de intoxicação aguda por agrotóxicos foram registrados no Brasil na última década. Os casos são mais recorrentes entre os trabalhadores rurais, que estão em contato direto com os produtos nocivos à saúde.

Mas nem sempre esses efeitos são percebidos a curto prazo. Um estudo feito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) chama os agrotóxicos de “veneno invisível”, isso porque os efeitos na saúde podem demorar anos para serem sentidos. De acordo com a professora do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, Eliane Novato, casos crônicos – que ocorrem após exposições repetidas a pequenas quantidades de agrotóxicos por um período prolongado – podem se manifestar somente em gerações seguintes.

De acordo com o relatório “Atlas dos Agrotóxicos”, publicada em 2023 pela Fundação Heinrich Böll, o Brasil se destaca como um dos maiores consumidores e importadores mundiais desses produtos, sendo responsável por 18% da aquisição mundial. Além disso, 87% dos fertilizantes utilizados na agricultura nacional são importados, conforme a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). O país permite níveis mais elevados de resíduos desses produtos em águas e alimentos, agravando ainda mais os impactos na saúde da população.

O envenenamento tem sua origem na venda desenfreada desses produtos para países do Sul Global, onde a falta de regulamentação torna essas nações alvos principais. O “Atlas dos Agrotóxicos” ressalta que a União Europeia (UE), o maior mercado de exportação de agrotóxicos global, investe crescentemente em processos e exporta produtos proibidos em seu próprio território devido aos seus efeitos nocivos à saúde humana e ao meio ambiente. No Brasil, infelizmente, tais malefícios são ignorados.

A relação direta entre o aumento do uso de agrotóxicos e a expansão das áreas cultivadas com organismos geneticamente modificados é inegável. O Brasil, como maior exportador mundial de soja, carne bovina, carne de frango e açúcar, além de segundo maior exportador de grãos, viu um aumento de 70% na área cultivada com cana-de-açúcar e 75,6% na área cultivada com soja entre 2005 e 2022. Essa expansão abrange proporções preocupantes, ultrapassando os territórios combinados da Alemanha e da Bélgica.

Diante desse cenário, é evidente a dependência crescente da agricultura nacional em relação aos agrotóxicos, enquanto soluções ecológicas para preservação da saúde humana são negligenciadas. A necessidade urgente de regulamentação é clara. Chega de expor a população a esses venenos prejudiciais à saúde.

Fonte: Brasil de Fato, FAO, Atlas dos Agrotóxicos e Friends of the Earth Europe, OMS, UFMG.


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Este texto foi originalmente publicado pela Midia Ninja [Aqui!].

Brasil usa mais agrotóxicos que Estados Unidos e China juntos

Agência da ONU indica que Brasil aplica mais de 720 mil toneladas de veneno contra pestes em lavouras

soja aspersão aérea

Intensificação da pulverização aérea com agrotóxicos é uma das preocupações nos territórios vizinhos às plantações – Alberto César Araújo/Amazônia Real

Por Vinicius Konchinski para o Brasil de Fato

O Brasil já usa mais agrotóxicos em suas lavouras do que a China e os Estados Unidos juntos. Isso é o que mostra um levantamento da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês).

Os dados divulgados pela FAO são referentes a 2021. Naquele ano, segundo a agência, foram aplicadas 719,5 mil toneladas de venenos contra pestes em lavouras nacionais. No mesmo ano, a China, que tem quase sete vezes mais habitantes que o Brasil, aplicou 244 mil toneladas. Já os EUA aplicaram 457 mil toneladas. Juntos, eles uasaram 701 mil toneladas.

De acordo com os dados da FAO, o Brasil é o país que mais usa agrotóxicos no mundo. É seguido justamente pelos EUA. A Indonésia, que usou 283 mil toneladas de veneno em suas lavouras – menos da metade do Brasil –, vem em terceiro lugar.


Dados da FAO mostram os países líderes em uso de agrotóxicos em lavouras no mundo / Reprodução/elaboração Gerson Teixeira (Abra)

O Brasil usa 10,9 kg de agrotóxicos para cada hectare de lavoura (10 mil m2). Já os EUA usam 2,85 kg/ha; a China, 1,9 kg/ha.

Em 2021, foram usados no Brasil 3,31 kg de agrotóxicos por pessoa. Nos EUA, foram 1,36 kg per capita; e na China, 0,17 kg per capita.

Modelo do agronegócio

Para Gerson Teixeira, engenheiro agrônomo e diretor da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra), dados como esse mostram como a agricultura nacional tem se tornado dependente dos agrotóxicos devido a escolhas de métodos de produção.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Teixeira explicou que o Brasil, décadas atrás, optou por um modelo de produção agropecuária voltado à exportação, principalmente de soja. Isso tornou o país o segundo maior exportador de produtos agrícolas do mundo, segundo a FAO, atrás só dos EUA.

Acontece que lavouras de soja são altamente dependentes do uso de fertilizantes e agrotóxicos, ressaltou Teixeira. Isso aumentou o consumo desse tipo de veneno no Brasil.

Em 1990, segundo a FAO, o Brasil consumia 51,1 mil toneladas de agrotóxicos por ano. Em 31 anos, essa quantidade aumentou 1.300%.

“A agricultura brasileira pensava que a soja transgênica reduziria a necessidade do veneno e dos fertilizantes”, afirmou Teixeira. “Na verdade, aumentou a dependência dos dois.”

Dados do Banco Mundial tabulados por Teixeira apontam que o Brasil também já é o segundo maior consumidor de fertilizantes do mundo quando considerados a quantidade de quilos aplicados por hectares de lavouras, ficando atrás da China.

Do total de fertilizantes utilizados na agricultura nacional, 87% é importado, de acordo com a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). Segundo a FAO, o Brasil é o maior importador de fertilizantes do mundo. Consome 18% das importações mundiais. Os EUA consomem 13% e a China, 5%.


Dados do Banco Mundial indicam quais países mais usam fertilizantes por área de lavoura / Reprodução/elaboração Gerson Teixeira (Abra)

O Brasil também é líder nas importações de agrotóxicos. Foram 283 mil toneladas importadas durante o ano de 2022, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).


Dados do Ibama mostram aumento da importação de agrotóxicos pelo Brasil desde 2008 / Reprodução/elaboração Gerson Teixeira (Abra)

Riscos à saúde

Por conta do uso crescente de agrotóxicos no país, a cada dois dias, uma pessoa morre por intoxicação por uso desse tipo de veneno no Brasil. Uma a cada cinco vítimas é criança ou adolescentes de até 19 anos. Esse dado consta num relatório publicado em 2022 pela rede ambientalista europeia Friends of the Earth Europe.

De acordo com a entidade, empresas agroquímicas europeias como a Bayer e a Basf trabalham conjuntamente com o agronegócio brasileiro para disseminar o uso de veneno no Brasil, desconsiderando os malefícios causados por eles à população.

Larissa Bombardi, professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), escreveu em seu livro Agrotóxicos e Colonialismo Químico (editora Elefante) que a Europa concentra um terço da produção de agrotóxicos no mundo. Autoridades europeias, porém, já proibiram o uso de 269 tipos de defensivos por conta dos danos causados por eles à saúde. Em países como Brasil, os banimentos não chegam a 30.

Entre os 10 mais vendidos por aqui, cinco são proibidos na União Europeia, ressaltou Bombardi. “Enquanto a área plantada no país cresceu 29% de 2010 a 2019, o uso de agrotóxicos cresceu 78%”, disse ela, em palestra feita em Curitiba, no ano passado.

“Essa forma de agricultura faz mal à população e ao planeta”, disse ela. “Só a reforma agrária com foco na agroecologia oferece uma solução.”

A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) participa da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e tem várias ações em parceria com a sociedade civil organizada e movimentos sociais para alertar para o perigo dos agrotóxicos e para buscar aumentar o controle e reduzir seu uso.

Edição: Nicolau Soares


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Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “Brasil de Fato” [Aqui!].

Mais veneno nos alimentos e na água dos brasileiros: uso de agrotóxicos cresceu 3,7% em 2023

Durante o segundo semestre de 2023 (H2), um total de 811 mil toneladas de agrotóxicos foi utilizado no controle de pragas

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Uma pesquisa recente encomendada pelo Sindiveg – Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Vegetal revelou que a área tratada com agrotóxicos no Brasil teve um aumento significativo de 3,7% em comparação com a safra anterior. Os resultados da pesquisa, realizada pela Kynetec Brasil, destacam a influência da expansão da área cultivada de soja e das condições climáticas favoráveis no Sul do país durante a safra 23/24.

De acordo com os dados levantados, durante o segundo semestre de 2023 (H2), um total de 811 mil toneladas de agrotóxicos foi utilizado no controle de pragas, doenças e plantas daninhas, considerando o número de aplicações necessárias por situação. Deste montante, 49% correspondem a herbicidas, 24% a fungicidas, 18% a inseticidas, 1% a tratamento de sementes e 8% a outros produtos. Esses números representam o tratamento de aproximadamente 1.25 bilhão de hectares, impulsionado pela expansão da área cultivada.

De acordo com a projeção, o aumento da área controlada com nematoides na cultura da soja deve ser 26,1% e de percevejos, 8,8%. A cultura de soja representa 55% do total da área e deverá refletir um aumento, com crescimento de 6,5% na safra 23/24. Neste caso, o uso de fungicidas premium apresentou aumento de 7,9%, enquanto o de fungicidas protetores 32%, ambos em uma área cultivada de 45 milhões de hectares, refletindo uma expansão de 4% em relação à safra passada (22/23)

A projeção desenvolvida pelo Sindiveg considera a metodologia PAT (produto por área tratada), que leva em conta o volume efetivamente utilizado pelo produtor rural e o número de aplicações de defensivos na área cultivada.


Fonte: Sindiveg

Veterinários são instados a cortar tratamentos contra pulgas com agrotóxicos para frear poluição dos rios

Donos de animais de estimação correm o risco de contaminar as mãos com neurotoxinas por pelo menos 28 dias após a aplicação, descobriram os cientistas

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Os veterinários geralmente recomendam tratamento regular contra pulgas. Mas isto pode ter implicações drásticas para a vida selvagem devido aos insecticidas contidos nos produtos. Fotografia: Antonio Gravante/Alamy

Por Helena Horton para o “The Guardian”

Os veterinários deveriam limitar o uso de tratamentos contra pulgas contendo agrotóxicos em cães e gatos, disseram cientistas, depois que um estudo revelou a grande quantidade de substâncias tóxicas contidas neles que acabam nos rios.

Os donos de animais de estimação que usam esses tratamentos contra pulgas correm o risco de contaminar as mãos com fipronil e imidaclopride, dois inseticidas, por pelo menos 28 dias após a aplicação do tratamento, de acordo com uma pesquisa da Universidade de Sussex e do Imperial College London.

Dave Goulson, professor de biologia em Sussex que supervisionou a pesquisa, disse: “Esses dois produtos químicos são inseticidas neurotóxicos extremamente potentes e é profundamente preocupante que sejam rotineiramente encontrados nas mãos dos donos de cães através do contato contínuo com seus animais de estimação. Os donos de animais de estimação também ficarão chateados ao saber que estão poluindo acidentalmente nossos rios ao usar esses produtos.”

Os veterinários geralmente recomendam tratamentos regulares contra pulgas, mesmo quando cães e gatos não têm a praga, para evitar que os insetos se abriguem em seus pelos. Mas os cientistas dizem que isto pode ter implicações drásticas para a vida selvagem, uma vez que os agrotóxicos contidos nos tratamentos contra pulgas podem prejudicar peixes e invertebrados que vivem nos cursos de água.

Goulson disse: “Eu diria que os veterinários deveriam parar de encorajar os donos de cães e gatos a usar esses tratamentos profilaticamente. Se um animal não tem pulgas, por que você o trataria contra pulgas? A maior parte do uso atualmente simplesmente não é necessária. Em segundo lugar, os veterinários poderiam encorajar os donos de animais de estimação a lavar regularmente a cama do cão ou do gato – é aqui que vivem as larvas das pulgas.”

Os inseticidas usados ​​nos produtos contra pulgas escorrem pelos ralos domésticos quando os donos dos animais de estimação lavam as mãos após aplicar o tratamento. As águas residuais provenientes de estações de tratamento de esgotos são uma das principais fontes de poluição por fipronil e imidaclopride nos rios, com concentrações que excedem os limites seguros para a vida selvagem . As diretrizes veterinárias aconselham que os donos de animais de estimação não devem tocar em seus animais até que o local de aplicação esteja seco, mas a pesquisa da Sussex-Imperial, publicada na revista Science of the Total Environment, mostra que a poluição dura toda a duração da ação do produto.

O fipronil e o imidaclopride são amplamente utilizados em tratamentos contra pulgas, que normalmente são aplicados na nuca do animal uma vez por mês, mas não são mais aprovados para uso na agricultura ao ar livre. O imidaclopride pertence a um grupo de pesticidas conhecidos como neonicotinóides.

Guy Woodward, professor de ecologia do Imperial College London e coautor da pesquisa, disse: “Apesar desses produtos químicos terem sido proibidos do uso agrícola ao ar livre por vários anos, ainda os encontramos nas águas doces do Reino Unido em níveis que podem prejudicar a vida aquática. . Este artigo mostra como os tratamentos contra pulgas e carrapatos domésticos, uma fonte de contaminação amplamente negligenciada, mas potencialmente significativa, podem estar poluindo nossos cursos de água.”

Anna Judson, presidente da Associação Veterinária Britânica, disse: “Os parasiticidas desempenham um papel importante na prevenção e tratamento de parasitas em animais, que se não forem tratados podem levar a maiores problemas de saúde e bem-estar tanto nos animais como nas pessoas, e encorajamos os veterinários a considerarem a riscos de exposição de um animal a pulgas ou carrapatos ao prescrever ou recomendar parasiticidas, como avaliar se um único gato doméstico precisa de tratamento.”

Goulson acrescentou que os inseticidas podem ser prejudiciais à saúde humana. “De forma mais ampla, os impactos ambientais dos parasiticidas para animais de estimação precisam ser sujeitos a avaliações de risco adequadas. Atualmente não o são, com base numa decisão tomada há muito tempo de que o uso de agrotóxicos em animais de estimação provavelmente seria trivial no grande esquema. Se estiverem em nossas mãos, essas neurotoxinas estarão em todas as nossas casas. Isso não parece saudável para mim.

“Um estudo suíço recente encontrou neonicotinóides no líquido cefalorraquidiano de 100% das crianças testadas. Os riscos para a saúde associados à exposição humana a longo prazo não foram estudados.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

No primeiro sinal de crise, entidades do “ogronegócio” correm atrás de favores do Estado

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Após anos de ganhos fabulosos às custas de graves danos ambientais em todos os biomas brasileiros (especial atenção para a Amazônia e o Cerrado) e de contínuas violações dos direitos dos seus trabalhadores, os representantes do “ogronegócio” estão batendo às portas do Estado brasileiro com o pires nas mãos atrás de ainda mais recursos públicos para seguirem tocando a sua boiada. A desculpa é que o setor agropecuário brasileiro teria sido fortemente penalizado pelas alterações causadas pelo “El Niño” e agora precisa de uma “ajudinha” para não quebrarem. 

Medidas de Emergência: Redução de 15% no Consumo Urbano e Turismo, e 25% na  Agricultura devido à Seca – Agro Verde Notícias

O curioso é que quando suas commodities estão bombando nos mercados globais, ninguém ouve dos representantes do “ogronegócio” qualquer alusão à necessária distribuição da riqueza que é obtida com altos custos sociais e ambientais.  Muito pelo contrário, o que se tem é a utilização dos lucros para demonstrar sinais inequívocos de que estão enriquecendo às custas da contaminação ambiental por agrotóxicos e pela destruição das florestas.

Mas é importante lembrar que o fenômeno “El Niño” não é o único responsável pelas oscilações no funcionamento do clima que estão em curso, mas, pelo contrário, as mudanças na sua frequência e intensidade decorrem do processo de mudanças climáticas do qual o “ogronegócio” é uma das principais causas. Claramente, o esforço aqui é ocultar a conexão entre os sistemas agrícolas e as mudanças climáticas para continuar a condição de “business as usual” que terá como consequência o agravamento das quebras de safra.  É que posando de vítima de fenômenos supostamente naturais, o latifúndio agro-exportador tentará manter seu modelo destrutivo intacto, com cada vez mais subsídios estatais.

A questão é que como não há objetivamente dentro das entidades ruralistas qualquer compromisso com uma mudança de percurso nas suas práticas anti-ambientais, a tendência é que haja um agravamento de problemas já sérios que decorrem da hegemonia da agricultura industrial, a começar pela escassez hídrica. Como está se avaliando que passaremos diretamente do “El Niño” para o “La Ninã,  existe a possibilidade  de uma grande crise hídrica no centro sul do Brasil. Como o “ogronegócio” consome em torno de 70% de toda a água usada no nosso país,  é muito provável que vejamos situações bem dramáticas por causa da falta de água nos próximos meses, inclusive nas grandes áreas metropolitanas brasileiras.

E aqui é que fica a pergunta: até quando dependeremos de um modelo agrícola que beneficia apenas uma minoria que enriquece destruindo florestas e nos envenenando com agrotóxicos? A hora é de exigir que nem mais um centavo seja colocado nesse setor e que se deixa a tal mão invísivel do mercado cuidar das coisas.