Decisão histórica garante que cidade argentina com número recorde de casos de câncer se torne uma zona livre de agrotóxicos

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Os produtores agrícolas de Sastre, no Conselho Deliberativo, manifestaram-se contra a decisão de ampliar a zona de prevenção para 1000 metros

Por Patrícia Chaina para o Página 12

Quando Ainalén Viñuela acordou numa manhã de 2018 e viu pela sua janela o temível “mosquito” – nome coloquial para este tipo de máquina agrícola – fumigando um campo a menos de 100 metros da sua casa, ela sabia que “alguma coisa tinha que mudar em Sastre”, a pequena cidade de Santa Fé onde ele mora. Foi difícil, houve hostilidade dos produtores agrícolas e apenas 50 vizinhos aderiram à luta. Mas esta semana a Suprema Corte de Justiça (CSJ) de Santa Fé decidiu a favor dos moradores autoconvocados de Sastre : delimitou uma zona de exclusão de 1.000 metros no entorno da cidade, para aplicação de agrotóxicos

Com esta decisão histórica, Sastre y Ortiz, nome oficial da cidade localizada no centro-oeste da província, não será mais “uma cidade fumigada ” . E se torna a primeira cidade de Santa Fé a conseguir essa distância preventiva e a segunda do país; a primeira é Pergamino, na província de Buenos Aires.

O mosquito fumigador

A decisão do CSJ retoma decisão do Tribunal de Justiça de Rafaela de 2021, e contempla o alarmante nível de casos de pessoas com câncer nesta cidade de 7 mil habitantes . Sastre faz parte do núcleo de produção extensiva de soja, milho e trigo.

Embora os vizinhos estivessem se organizando desde 2014, a reclamação judicial teve seu epicentro em 2018, quando Ainalén decidiu levar o assunto ao Conselho Deliberativo. “Ela organizou o recolhimento de assinaturas para levar ao município ”, lembra Ruth Oitana, mãe de dois filhos e cujo marido tinha linfoma. E passaram a ir ao Deliberativo todas as quintas-feiras . Eles procuraram expandir a zona de exclusão ao redor da cidade “que mal chegava a 100 metros”. 

Os produtores rurais aliados ao município só concordaram em estender a restrição para 200 e depois para 400 metros. Quando os vereadores tentaram levá-la para 500 metros de distância, “eles ficaram furiosos”. “Houve sessões com mais de 50 caminhões 4×4 em frente ao município”, lembram os moradores de Sastre.E a hostilidade contra aqueles que reclamaram tornou-se manifesta. Mas os vizinhos não cederam. Fizeram “mapeamento de casa em casa colocando um ponto vermelho” onde havia caso de câncer. “Foi chocante ver o mapa cheio de pontos vermelhos”, lembram.

A Universidade Nacional de Rosário validou a amostra. Em 2017, foi realizada uma série de “acampamentos de saúde” em oito cidades rurais da província. Sastre acabou sendo o local com maior índice de casos de câncer na região. Mas quando os vizinhos quiseram reportar os resultados na Deliberativa, a Prefeitura se opôs.

Eles o compartilharam na Biblioteca Popular da cidade. “Em questão de minutos tudo estava organizado”, lembram. E confirmaram a tragédia: entre as substâncias tóxicas que mais ameaçam a saúde humana, destacou-se o infelizmente famoso “glifosato ”. É amplamente utilizado na área para capina. Permanece durante anos na água e no solo . Ele se expande no meio ambiente. “Mas quando começaram a vender disseram que era inofensivo”, lembra o jornalista alfaiate Luis Blanco. No entanto, os casos de câncer estavam se multiplicando.

Little Zoe, o caso que despertou a consciência

Em outubro de 2018 , Zoe Giraudo, de dois anos, apresentou linfoma cujas possíveis causas eram fatores ambientais. Ela morava em frente aos campos “por onde o mosquito fumigador havia passado em fevereiro”, descreve Ruth. Em novembro “os pais de Zoe foram recebidos pelo Procurador-Geral do CSJ de Santa Fé, que ficou com o caso”, lembra esta mãe. Foi assim que nasceu a reivindicação judicial na forma de uma “proteção ambiental coletiva”, explica.

A hostilidade cresceu. Os produtores identificaram os signatários da proteção. Aqueles que tinham “relacionamento com Muni” foram demitidos. Ainda há ações trabalhistas”, ressaltam. Ainalén estava prestes a perder o emprego. Mas ele continuou lutando: “Não queria esperar ter a doença para começar a reclamar”, declarou então.

O amparo foi apresentado e o juiz Daniel Zoso emitiu medida cautelar para 400 metros. Mas em janeiro os produtores entraram como interessados ​​no caso e “desistiram da medida cautelar”. “A cidade fica desprotegida, em plena feira judicial”, diz Luis. O caso volta a zero e segue para a Vara Cível e Comercial de Rafaela.

Houve uma mudança aí. O juiz Duilio Hail “nos ouviu”, dizem“Ele perguntou onde morávamos”, diz Ruth, “onde ficam os clubes, o hospital, a casa de repouso da cidade, as escolas. O público ficou muito emocionado, catártico, choramos.” O juiz Hail proferiu a pena de 1.000 metros aconselhada pelo promotor Carlos Stegmayer de Rafaela, que atuou em outro caso emblemático, em San Jorge. Lá foi estabelecida uma distância de proteção de 800 metros para dois bairros.

“Para nós foi uma bênção que isso tenha acontecido, porque esse promotor trabalhava para o povo”, agradece Ruth. O Tribunal de Apelações ratificou a sentença. Em seguida, a Câmara Municipal de Sastre recorreu ao CSJ provincial, reclamando . E esta semana foi notificado com a decisão que renova o ânimo dos vizinhos. “Esta semana celebramos em Sastre”, dizem. Devido à decisão do Supremo Tribunal de Santa Fé, “pela nossa saúde e a dos nossos filhos”, afirmam. 


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Este texto escrito orginalmente em espanhol foi publicado pelo Página 12 [Aqui! ].

Doenças neurológicas ligadas a uso de agrotóxicos crescem 600% em cidade paraense

Em 10 anos, conflitos entre sojicultores e camponeses expostos ao veneno se agravaram na região do planalto santareno

Agrotóxicos no conflito: “Os olhos coçavam, via tudo embaçado”

Por Leandro Barbosa para a Agência Pública

Ao redor da casa de Francisco Rodrigues, 43 anos, e sua esposa, Márcia Guerreiro, 50 anos, sobrou apenas um naco de floresta, que serve de moradia para alguns macacos que “gritam” em busca de comida. “É como se eles exigissem [o alimento]. O homem destruiu, que dê um jeito de resolver”, conta o agricultor que hoje vive rodeado pela soja, na comunidade Fé em Deus, no km 55 da Rodovia Santarém-Curuá-Una, em Santarém (PA). O casal convive há mais de 20 anos com os agrotóxicos da soja, um problema que continua a se expandir no Planalto Santareno. Dos anos 2000 a 2021, houve uma perda de aproximadamente 25 mil hectares de floresta para o plantio da monocultura, de acordo com dados solicitados pela Agência Pública ao MapBiomas, instituição que mapeia anualmente a cobertura e uso da terra do Brasil e monitora as mudanças do território.

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Agricultores vivem rodeados pela soja

Francisco e Márcia resistem em sua casa apesar do veneno que invade o terreno, contamina a água e prejudica suas plantações. Muitos agricultores perderam suas terras para os sojicultores que compraram e arrendaram as pequenas propriedades. Os que ficaram sofrem com os efeitos dos agrotóxicos na saúde e a violência dos conflitos fundiários, como constatou a Pública, quando visitou, em abril deste ano, as comunidades impactadas pela soja em Santarém, com base nos dados do Mapa dos Conflitos, baseado nos dados anuais da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

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Veneno usado em plantações de soja invade o terreno da família e contamina água

“Teve um dia que estavam borrifando [veneno] na soja. Eu tava na roça, trabalhando. E comecei a passar mal. Os olhos coçavam, via tudo meio embaçado. Meus lábios racharam. A garganta parecia que tava fechando. Faltava ar. Foi como se a respiração travasse”, conta Francisco. “Eu cheguei a reclamar. ‘Isso tá muito forte’, disse. Aí o homem me respondeu: ‘É pra matar besouro. Retruquei: ‘Você vai matar os besouros e vai me matar também’”, relembra Márcia. “A água que eu tomava parecia que tinha andiroba, de tão amarga”, completa. 

Além disso, Francisco relata que os igarapés da região estariam contaminados pelos agrotóxicos. “A água vem do meio da plantação de soja. E o veneno vem junto. Eu peguei uma coceira depois de ter entrado no Igarapé. Coça, arde e queima. Quando ela ataca, com força, se eu coçar, vai saindo os pedaços, vai arrancando o couro”, se queixa o agricultor. 

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Francisco mostra as marcas em sua pele após entrar nos igarapés contaminados da região

Os sintomas apontados por Francisco coincidem com os sintomas provocados por intoxicações agudas por agrotóxicos, como descreve a bióloga Annelyse Rosenthal Figueiredo, doutora em saúde pública pela Fiocruz e professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Oeste do Pará, em Santarém. “Existem impactos diretos que são as intoxicações agudas, que são aquelas que as pessoas têm quando entram em contato imediato com os produtos tóxicos.

Os sintomas mais conhecidos são: dor de cabeça, náuseas, coceiras, alergias e alergias respiratórias. Estes são os sintomas clássicos quando tem pulverização. Mas também há os casos subagudos e crônicos, que são aqueles de exposição a agrotóxicos em pequenas doses a médio e longo prazo”, explica Annelyse, que em sua tese de doutorado buscou entender os impactos do agrotóxico na população do Planalto Santareno, que é constituído por áreas dos municípios de Santarém, Mojuí dos Campos e da região que foi o recorte de sua pesquisa, Belterra. 

A cientista analisou dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, em dois recortes temporais, de 2004 a 2014 e de 2014 a 2022. Primeiro descobriu-se que nem sequer há registros completos de possíveis casos de intoxicação e de doenças derivadas de agrotóxicos, sobretudo, do glifosato, comumente usado nas plantações de soja. “Durante os últimos 20 anos, desde que a soja chegou em Belterra, eu encontrei um número muito baixo de registros de intoxicação aguda. Tem a notificação de sete casos ao longo destes anos. E isso me deixou na dúvida se o uso de agrotóxico na região é tão bem-feito ou os dados não aparecem por algum motivo”, explica.

Annelyse relata que se deparou com casos em que o paciente chegou ao posto de saúde com todos os sintomas e afirmações que condizem com uma possível intoxicação, contudo a informação não foi lançada no sistema. “O sistema de notificação precisa ser melhorado. Os profissionais precisam ser capacitados para registrar da melhor forma o que está acontecendo. O Estado precisa agir na proteção das pessoas”, diz. 

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Francisco mostra remédio e pomadas que utiliza para tratar os efeitos do contato com agrotóxicos

Impactos à saúde

O mais alarmante, porém, foram os dados que a pesquisadora encontrou ao se debruçar sobre os casos de intoxicação subaguda e crônica, quando levantou, no DataSUS, os dados de doenças neurológicas, má-formação fetal e câncer. 

Os casos de doenças neurológicas cresceram mais de 600% em uma década. “Analisei o número de casos dessas doenças nos primeiros dez anos e depois no outro período, o que constatei foi um aumento muito grande entre os dois períodos. Foi muito intrigante encontrar dados de homens com 35 anos com Alzheimer em Belterra. E dentro desses dois grupos de anos houve um aumento de 667% nos casos de doenças neurológicas”, explica. 

A pesquisadora esclarece que existem estudos que correlacionam intoxicações por agrotóxicos com aumento no números de casos de Alzheimer, má-formação congênita e leucemias em crianças. “O elevado número de agravos que estão relacionados às intoxicações subagudas e crônicas por agrotóxicos em Belterra nos indica que os casos de intoxicação aguda muito provavelmente estão subnotificados no sistema. E isso revela uma fragilidade institucional que precisa ser observada também por outros municípios que vivem a mesma realidade de expansão do monocultivo de grãos.” 

A Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa) informou que desde 2014 executa o programa de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos (VSPEA). O programa realiza a capacitação de médicos, técnicos em enfermagem, enfermeiros, agentes comunitários de saúde (ACS) e agentes de combate a endemias (ACE) e demais profissionais de saúde, para estarem preparados para a identificação de áreas de risco de intoxicação, população exposta a agrotóxicos, sintomas característicos de intoxicação exógena por agrotóxicos e o preenchimento correto da ficha de notificação de intoxicação exógena do Sinan.

Segundo o órgão, nesse período foi feita a capacitação nos 144 municípios, para mais de 6 mil profissionais de saúde. A Sespa ainda informou que vem realizando constantemente capacitações, orientações e alertas que chamam atenção do profissional de saúde para a ocorrência de possíveis casos agudos e crônicos de intoxicação.

A Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará), que é responsável pela fiscalização de venda e uso de agrotóxicos no estado, não respondeu às perguntas da Pública sobre como tem se dado o processo fiscalizatório na região, diante dos possíveis casos de intoxicação apontados pela pesquisadora e denunciados pelo agricultores da região do Planalto Santareno.

Veneno no fluxo da águaO igarapé em que Francisco Rodrigues se banhou – o que ele afirma ter sido a causa de seus problemas na pele – fica na comunidade Guaraná, também à beira da Santarém-Curuá-Una, que é um local vizinho da Fé em Deus, onde ele vive. O curso d’água fica entre uma plantação de soja e a rodovia. A água gelada garante ao povo o frescor diante do calor amazônico. De criança a idosos, o que não falta é gente nadando durante todo o dia. Mas, assim como ele disse, bastam uns minutos dentro da água para o corpo começar a coçar.

O relato dele é confirmado por Maria Luzenira Mesquita da Silva, 67 anos, presidente da Associação de Moradores da Comunidade do Guaraná (Amocomg). “Esse pessoal que trabalha com soja desmata e envenena as terras, a água está contaminada. Quem vem tomar banho fica com a pele irritada, com coceira. Antes não tinha isso, a água era muito limpa. Você via até o fundo [do igarapé], e agora você não vê mais”, afirma Maria Luzenira. 

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Igarapé com água contaminada

O igarapé segue o seu fluxo até o rio Curuá-Una – e, com ele, o veneno. E esse é o lamento de Raimundo Furtado Batista, de 60 anos. Ele é dono de um balneário na comunidade de Santa Maria, onde passa o mesmo igarapé que corta a Guaraná. Já faz quase dois anos que os clientes são proibidos de nadar no local. Situação que impactou diretamente o seu negócio. “Eu fiquei no prejuízo. Fechei meu balneário para banho, porque a pessoa pode adquirir uma doença e me processar”, afirma Batista. “Para os sojeiros, o que importa é o cultivo. Se está matando ou prejudicando os menores [população local], eles dizem que não têm nada a ver com isso”, reclama.

“Esse pessoal sempre fala que não precisa de água. Que água eles têm quando quiser. Que é só mandar cavar um poço. Eles dizem que só precisam de terra para trabalhar. Acredito que daqui a dez anos não teremos mais o igarapé por causa do assoreamento, devido ao desmatamento nas margens dele”, calcula Batista.

Segundo ele, o Instituto Evandro Chagas, órgão vinculado à Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA), do Ministério da Saúde (MS), esteve na região coletando água para análise, mas a comunidade não teve nenhum retorno. Questionado pela Pública sobre a pesquisa e resultados, o órgão não respondeu até a publicação da reportagem.

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“Para os sojeiros, o que importa é o cultivo. Se está matando ou prejudicando os menores [população local], eles dizem que não têm nada a ver com isso”, reclama morador

Conflitos fundiários

Além de sofrerem os efeitos dos agrotóxicos, os agricultores do Planalto Santareno lutam por áreas de plantio. Lideranças sociais na região, Francisco Rodrigues e Márcia Guerreiro estão à frente da Associação dos Moradores da Comunidade Jatobá da Volta Grande. A associação representa a comunidade Jatobá, área com um pouco mais de 700 hectares ocupada por camponeses em 2014, sob a alegação de que a expansão do monocultivo na área do Planalto tem conduzido à retirada das suas condições de trabalho. Atualmente, 60 famílias, que vivem desde a década de 1970 no Planalto Santareno, utilizam o espaço para a produção agrofamiliar. 

A área ocupada pelos agricultores faz parte da fazenda Canaã, que pertence a Alvadi Christofolli, que se dedica ao plantio de grãos, como soja e milho. No final de 2021, foi ajuizada uma ação de reintegração de posse contra as famílias do Jatobá, que, agora, correm o risco de perder as terras em processo judicial. “Nós temos muitas plantações ali. Pimenta-do-reino, macaxeira, abacate, pupunha, cana-de-açúcar. Ali a gente produz de tudo! Se a gente perder a Jatobá, nós não temos para onde ir. É o agronegócio querendo nos atropelar de qualquer forma e tirar as famílias da comunidade Jatobá”, lamenta Francisco. 

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Alimentos da produção agrofamiliar local

No último ano, os camponeses da Jatobá produziram mais de 40 toneladas de farinha de mandioca. A informação consta no inventário da associação e no laudo pericial anexado ao processo, ao qual a Pública teve acesso. De acordo com o documento, outras cadeias produtivas são complementares à venda de farinha: pimenta-do-reino, cumau, cacau, cupuaçu, citros, mamão, abacaxi, graviola, cana-de-açúcar, milho e arroz. Todo esse alimento abastece a cidade de Santarém e regiões vizinhas, além dos próprios camponeses. O documento afirma ainda que o impacto social, caso os agricultores sejam obrigados a sair das terras, seria brutal, resultando em processos de êxodo rural e geração de pobreza. Estima-se que o impacto econômico disso seria de quase meio milhão de reais por ano, caso eles fiquem sem terra para plantar. 

“Para Santarém, a gente encaminha a farinha, pimenta-do-reino e a pupunha. Vendemos por meio de um atravessador, infelizmente. Nós, da Jatobá, não temos banca na feira popular. Não conseguimos ainda. Até tem uma cooperativa próxima da gente, mas, como não estamos seguros na terra [devido à instabilidade jurídica], não é possível se associar. Só será possível se vencermos essa luta na Justiça”, explica Francisco.

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Alimentos produzidos pelos camponeses abastecem a cidade de Santarém e regiões vizinhas

O advogado popular Lincon Aguiar, do coletivo Maparajuba Direitos Humanos na Amazônia, que atua em defesa da comunidade, explica que boa parte da farinha produzida em Santarém é oriunda da Jatobá. Segundo ele, a expectativa é que em 2023 sejam produzidas cerca de 100 toneladas do alimento. Contudo, na localização do plantio se encontra o conflito. “O Planalto Santareno está sendo tomado pelo monocultivo da soja. Acredito que este seja o primeiro caso que se registra em Santarém de agricultores familiares sem terra. Os produtores de soja vão comprando todas as grandes porções de terra na região do Planalto e vão pressionando os agricultores a irem cada vez mais longe até que fiquem sem terra. É o caso destas famílias que ocuparam este lote. E agora disputam espaço com a soja, para produzir no Planalto”, diz Aguiar. 

Diante da iminência de ficar sem terra para plantar, Márcia alivia sua tensão e ansiedade em palavras. Dos muitos poemas que escreve, um ela gostaria de ler ao juiz da causa, disse ela à Pública. Um trecho diz: “Olhe em volta e veja minhas pequenas plantações. Se tirar de mim o pouco que tenho, como vou sustentar meus filhos que ainda são crianças? Veja senhor, tô com sede, mas da água não posso beber. Deve estar se perguntando porquê, simplesmente está poluída por causa do veneno. Sofre nós. E sofre a natureza também”. No Planalto Santareno, Jatobá significa esperança, diz Márcia, “é lá que a natureza compensa. Que ainda é possível acordar com a orquestra dos pássaros. E respirar sentindo o cheiro da mata”, reflete a agricultora. “Eu gostaria de perguntar: é justo perder tudo isso, seu juiz?”

Procuramos Dilermando Bentes, que atua na defesa de Christofolli, mas não houve retorno. O Tribunal de Justiça do Pará (TJPA) também não respondeu sobre as atualizações do processo e os questionamentos enviados pela reportagem.

Edição: Thiago Domenici


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Pública [Aqui! ].

EPA se recusa a avaliar ingredientes “inertes” que potencializam toxicidade dos agrotóxicos

A EPA afirma que existem muitas fórmulas de agrotóxicos para verificar a segurança de ingredientes que podem prejudicar humanos, plantas e vida selvagem

Um agricultor espalha pesticida num campo em Centreville, Maryland, em 25 de abril de 2022.

“A ideia de que não estamos avaliando os produtos químicos reais que os agricultores pulverizam é ​​meio ridícula”, disse Bill Freese, diretor do Centro de Segurança Alimentar. Fotografia: Jim Watson/AFP/Getty Images

Por Tom Perkins para o “The Guardian”

Os ingredientes rotulados como “inativos” nas fórmulas de agrotóxicos estão potencialmente envenenando o ambiente, as culturas e os animais, mas a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) rejeitou os apelos para examinar a sua toxicidade e riscos.

As regras da EPA não exigem que a avaliação dos agrotóxicos tenha em conta os ingredientes inativos quando avalia a segurança das fórmulas liberadas para o mercado estadunidense, apesar do fato da indústria rotular substâncias perigosas como substâncias per e polifluoroalquil (PFAS) como inertes.

Uma petição legal do Centro de Segurança Alimentar (CFS) de 2017 pediu à EPA que fechasse essa brecha, mas a agência negou o pedido esta semana. Muitos dos 18 mil agrotóxicos liberados para uso pela EPA provavelmente são mais tóxicos do que se imagina, disse Bill Freese, diretor científico do CFS.

“A ideia de que não estamos avaliando os produtos químicos reais que os agricultores pulverizam é ​​meio ridícula”, disse Freese.

O CFS, juntamente com várias outras organizações, apresentou a petição quando a agência estava sob a direção de Scott Pruitt, nomeado por Donald Trump. A EPA ignorou efetivamente a petição, disse o CFS, até que os grupos processaram a agência para forçá-la a responder.

Os grupos argumentaram que ingredientes inativos são adicionados aos agrotóxicos para melhorar o seu desempenho, tornando-os mais tóxicos para os organismos alvo da aplicação. Mas isso também pode tornar uma fórmula do agrotóxico mais tóxica para a vida selvagem, os seres humanos e as plantas que não são as visadas.

“As pessoas às vezes não passam de ‘mais eficaz em matar a praga’, o que parece ser uma coisa boa, para ‘mais tóxico para todos os outros’, que é o que ‘mais eficaz’ significa”, disse Freese. “E as pessoas, borboletas ou qualquer coisa que não seja [pragas como] lagarta da raiz do milho?”

Na sua resposta, a EPA alegou que existem demasiadas fórmulas de agrotóxicos para que a agência pudesse verificar a segurança de todas elas. A EPA firmou também que a fórmula muda quando um agrotóxico é pulverizado e disperso, pelo que uma avaliação de todo o produto na sua embalagem seria enganosa.

Os ingredientes inativos são geralmente adicionados como surfactantes ou agentes penetrantes que ajudam a dispersar os ingredientes ativos ou a torná-los mais absorvíveis. Cerca de 4.000 ingredientes inertes são aprovados para utilização pela EPA, juntamente com 1.000 ingredientes ativos, e a indústria não é obrigada a divulgar publicamente as suas fórmulas porque são consideradas segredos comerciais.

Entre os ingredientes “inertes” perigosos que os defensores da saúde pública sabem que são adicionados às fórmulas de pesticidas estão os PFAS, uma classe química da qual muitos são extremamente tóxicos em doses baixas. Outra, a amina de sebo polietoxilada (POEA), pode prejudicar ou matar anfíbios em níveis de exposição muito baixos.

Embora seja perigoso por si só, o POEA também é adicionado ao Roundup, um agrotóxico amplamente utilizado e controverso. O ingrediente ativo do Roundup é o glifosato, considerado um provável cancerígeno, e o POEA ajuda as plantas a absorver o glifosato. Mas Freese observou que o glifosato não é tão cancerígeno sem a adição de POEA, e alguns pesquisadores suspeitam que os ingredientes se sinergizam para tornar o produto mais tóxico.

A pesquisa também mostra que o POEA ajuda a pele humana a absorver o produto químico, mas o produto químico não é considerado quando a EPA avalia a toxicidade do Roundup, disse Freese.

Um efeito sinérgico semelhante é observado em uma classe de produtos químicos surfactantes chamados organossiliconos, que são adicionados aos pesticidas neonicotinóides, que se acredita estarem matando as abelhas. A pesquisa mostra que os organossiliconos são tóxicos para as abelhas isoladamente e prejudicam sua capacidade de aprendizagem, mas podem ser mortais quando combinados com neonicotinóides.

O CFS observou pesquisas mais amplas que compararam a toxicidade dos ingredientes ativos com formulações inteiras e descobriram que quase todas eram pelo menos “várias centenas de vezes mais tóxicas do que o seu princípio ativo”.

A lei é clara sobre a questão e a EPA deve considerar toda a fórmula, dizem os defensores da saúde pública. A petição aponta para a linguagem “inequívoca” do Congresso nas leis que regem o uso de pesticidas, afirmando que o produto “desempenhará a função pretendida sem efeitos adversos injustificados no ambiente”.

“A linguagem não diz nada sobre ingredientes ativos”, afirma a petição do CFS.

Enquanto isso, a definição de “agrotóxico” do governo federal dos EUA é “qualquer substância ou mistura de substâncias destinadas a prevenir, destruir, repelir ou mitigar qualquer praga”.

“A definição está aí”, disse Sylvia Wu, advogada sênior do CFS, ao Guardian, destacando a palavra “mistura”. Os grupos de saúde pública estão “analisando as suas opções legais” e podem tentar uma ação judicial, acrescentou.

A EPA reconheceu nas últimas décadas que os produtos químicos inativos podem ser prejudiciais ao meio ambiente e à saúde humana.

“A segurança da formulação, incluindo todos os seus ingredientes, é um fator crítico para saber se o agrotóxico irá desempenhar a sua função pretendida sem efeitos adversos excessivos no ambiente”, escreveu a EPA num documento de regulamentação de 2009 . Naquela altura, a EPA propôs exigir que as empresas colocassem ingredientes inertes nos rótulos dos agrotóxico, mas isso nunca aconteceu e a regra foi revogada em 2014.

A resposta da EPA afirmou que não era necessário testar a fórmula inteira porque, uma vez pulverizados, os seres humanos e outros organismos “normalmente não são expostos à formulação intacta numa exposição repetida e de longo prazo”.

Freese reconheceu o contraponto, mas acrescentou que a resposta ainda está errada: “Há um pouco de verdade nisso, mas a solução deles parece ser ignorar todos os ingredientes inertes”.

A EPA tem muitos dados que mostram que muitos ingredientes inativos são prejudiciais, acrescentou Wu, e a agência pareceu reconhecer na sua resposta que tem autoridade para exigir mais informações, mas optou por não o fazer. A decisão é “decepcionante, mas não surpreendente”, disse ela.

“É uma pena que eles queiram viver nesta brecha”, acrescentou Wu.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal  “The Guardian” [Aqui!].

Testes de fast food ingerido nos EUA revelam presença de agrotóxicos e outros produtos químicos em todas as amostras

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Por Sustainable Pulse

A Moms Across America (MAA),  que é uma organização sem fins lucrativos dos EUA, iniciou um extenso programa de testes nas vinte principais marcas de fast food da América, além de um restaurante, o In-N-Out Burger da Califórnia. Quarenta e duas amostras de 21 marcas foram testadas para o herbicida mais utilizado no mundo, glifosato, 236 agroquímicos, 4 metais pesados, PFAS, ftalatos e conteúdo mineral. As dez principais marcas foram testadas adicionalmente para 104 medicamentos e hormônios veterinários comumente usados, vitaminas B e calorias.

O fast food é consumido por  oitenta e cinco milhões de americanos  todos os dias, e muitas redes costumam ser fornecedoras de merenda escolar. Trinta milhões de refeições escolares são servidas diariamente às crianças nos EUA e, para milhões de crianças desfavorecidas, estas refeições tóxicas são o seu único acesso à nutrição. Testes anteriores da MAA  mostraram que a merenda escolar da América é realmente tóxica.

Para investigar mais a fundo a situação de uma importante fonte de alimentação e nutrição na América, os  apoiadores do Moms Across America, incluindo a Children’s Health Defense, a Centner Academy e muitos apoiadores individuais, iniciaram recentemente testes extensivos focados especificamente nas cadeias de fast food mais populares da América para explorar. a potencial contaminação do nosso abastecimento alimentar, o que provavelmente está a afectar a nossa saúde física e mental.

O programa Fast Food Testing consistiu em testar 42 amostras de fast food de 21 restaurantes, os vinte melhores restaurantes listados por setor *QSR 50 (maiores vendas). A N-Out, na verdade a 33ª em vendas na lista da rede de fast food, também foi incluída devido às frequentes alegações de que a rede é uma versão “mais saudável” do fast food.

Dois tipos de amostras, três a quatro refeições de cada tipo, foram enviadas pela FedEx de 21 localidades nos Estados Unidos em suas embalagens originais, intactas e congeladas, ao laboratório para teste. O laboratório principal, Health Research Institute, coordenou os testes, que foram conduzidos utilizando espectroscopia de massa triplo-quadrupolo (glifosato, pesticidas, medicamentos veterinários, PFAS, ftalatos) e vários outros métodos.

Resultados do glifosato

  • 100% das vinte principais marcas de fast food continham resíduos alarmantes de glifosato.
  • Os níveis mais elevados detectados, 213,58 ppb e 225,53 ppb, totalizando 439,11 em duas amostras, ocorreram na Panera Bread, autoproclamada proprietária de “boa comida” e “alimentos limpos e saudáveis”.
  • Os segundos maiores teores de glifosato foram encontrados nos sanduíches Arby’s, 124,2 e 99 ppb, totalizando 223,33 ppb de glifosato. Dairy Queen e Little Caesar’s ficaram quase empatados em terceiro lugar, com 126 ppb e 128 ppb de glifosato total detectado, respectivamente.
  • Os níveis mais baixos foram encontrados nas refeições Chipotle, totalizando 4,65 ppb para ambas as amostras, 94,4 vezes menor que o nível mais alto, 439,11 ppb detectado no Pão Panera.

“Infelizmente, as notícias não são boas e as quantidades de glifosato/AMPA nos fast food mais comuns são chocantes. Esta é uma catástrofe nacional de saúde, com o glifosato liderando a acusação de envenenamento diário de cidadãos americanos”, afirmou a Dra. Michelle Perro, uma importante pediatra da Califórnia.

As informações completas sobre testes para todos os produtos químicos testados podem ser encontradas no site da MAA aqui .


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Sustainable Pulse [Aqui!] .

Observatório dos Agrotóxicos: governo Lula mantém ritmo “bolsonaro”, autoriza mais 21 agrotóxicos e chega a 431 liberações em 2023

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Coerente com que tem feito desde que tomou posse, o governo do presidente Lula liberou fez publicar no Diário Oficial da União de hoje (01/11), o Ato  Nº 48, de 27 de outubro de 2023. Com isso, o “grande total” do governo Lula em 2023 já chegou a 431, valor que deverá ser ainda acrescido com a publiações de novos atos até 31 de dezembro.

Os 21 agrotóxicos liberados pelo Ato  Nº 48 são do tipo produto técnico, o que significa que se trata de produtos concentrados que deverão ser manipulados para poderem ser vendidos comercialmente. 

Uma primeira análise mostra que 17 dos produtos liberados são produzidos por empresas chinesas e os outros 4 por empresas sediadas na Índia. Esse perfil reforça a tendência de que China e Índia sejam os principais fornecedores de produtos técnicos, o que é explicado pelo fato desses agrotóxicos serem do tipo “genérico” ou “pós-patente”.  Em muitos casos, tais produtos já foram ou estão em vias de serem banidos nos países que geraram as patentes, principalmente por serem altamente perigosos para o ambiente e saúde humana.

Lamentavelmente o governo Lula continua mantendo o mesmo perfil do governo Bolsonaro na questão das liberações de venenos agrícolas, o que deverá agravar ainda mais os casos de contaminação que já são altos no Brasil.

Nos próximos dias irei liberar a planilha contendo os 21 agrotóxicos liberados pelo Ato  Nº 48, bem como a planilha com o novo “grande total” do governo Lula.

Aumento de morte de crianças por leucemia é associada à expansão da soja no Brasil

Agrotóxicos: uso na soja aumentou morte de crianças por leucemia

Aplicação de agrotóxicos levou à morte adicional de 123 crianças em 11 anos na Amazônia e no Cerrado, revela pesquisa

Por Giovana Girardi para a Agência Pública

Em meio à discussão no Congresso de um projeto de lei para flexibilizar o acesso aos agrotóxicos no país, amplamente defendido pela bancada ruralista, um estudo divulgado nesta segunda-feira (30) associa o aumento de casos de leucemia infantil no Brasil à expansão do cultivo da soja e ao grande uso de pesticidas nas plantações do grão.

Eles encontraram pelo menos 123 mortes adicionais de crianças com menos de 10 anos entre 2008 e 2019 relacionadas indiretamente ao uso de  agrotóxicos no cultivo de soja no Cerrado e na Amazônia.

O trabalho fez uma análise populacional, considerando 15 anos de dados de saúde, cruzando informações de câncer infantil com o avanço da soja pelos dois biomas. 

O grupo de pesquisadores norte-americanos, liderados por Marin Skidmore, da Universidade de Illinois, aponta no artigo que a área de soja no Cerrado triplicou de 5 milhões de hectares para 15 milhões de hectares entre 2000 e 2019. Na Amazônia, cresceu 20 vezes: de 0,25 milhão para 5 milhões de hectares. Já o uso de agrotóxicos nessas duas regiões – que foram as analisadas no trabalho – cresceu entre 3 e 10 vezes no mesmo período.

Este aumento, revelam, se refletiu nos casos da doença. De acordo com os cálculos dos cientistas, a cada 10 pontos percentuais de aumento na produção de soja, houve 4 mortes adicionais de crianças de menos de 5 anos e de 2,1 abaixo de 10 anos por 100 mil habitantes.

“Os resultados sugerem que cerca de metade das mortes pediátricas por leucemia no período podem ser ligadas à intensificação agrícola da soja e à exposição aos agrotóxicos”, afirmou Skidmore em comunicado à imprensa. O trabalho foi publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS)

soja cerrado

Aplicação de agrotóxicos levou à morte adicional de 123 crianças em 11 anos na Amazônia e no Cerrado

Os cientistas indicaram também que o contato com os produtos químicos deve ter se dado via fornecimento de água, em geral em localidades onde a produção de soja fica à montante na bacia hidrográfica. Eles chegaram a essa conclusão ao procurar evidências de aplicação de pesticidas rio acima. Os casos de leucemia estavam à jusante da mesma bacia. “Isso indica que o escoamento de agrotóxicos para as águas superficiais é um método provável de exposição”, explicou Skidmore.

Ou seja, as crianças que desenvolveram leucemia não moravam necessariamente nas áreas onde se dá a produção da soja – o que revela o amplo alcance dos agrotóxicos. Skidmore aponta que a área rural da região avaliada no trabalho tinha, de acordo com dados de 2006, cerca de 50% das casas com poços ou cisternas, mas a outra metade dependia do escoamento na superfície como fonte de água. “Se a água na superfície está acostumada, os pesticidas usados rio acima podem alcançar as crianças rio abaixo”, disse.

O artigo retrata o Brasil como o país que se tornou, nos últimos anos, tanto o líder mundial na produção de soja quanto de consumo de agrotóxicos perigosos. Segundo a análise, aplicamos, por hectare, 2,3 vezes mais agrotóxicos que os Estados Unidos e 3 vezes mais que a China, que são o primeiro e o terceiro colocado em volume total de agrotóxicos. O estudo relata ainda que o uso no cultivo de soja cresceu após a aprovação, em 2004, de variantes transgênicas do grão.

Um fator capaz de amenizar a mortalidade foi a presença de hospitais próximos às áreas de contaminação. De acordo com a pesquisa, as mortes de crianças por leucemia relacionadas com a expansão da soja se deram em regiões que ficavam a mais de 100 quilômetros de um centro de tratamento. A doença é tratável, mas depende de um atendimento oncológico especializado, o que não é amplamente oferecido no interior do Brasil, em especial na Amazônia, por exemplo.

“Nós certamente não estamos advogando por uma interrupção total do uso dos agrotóxicos”, diz a pesquisadora, reconhecendo que tiveram uma importância para a expansão da produção de soja. “São tecnologias importantes e válidas, mas precisam ser adotadas com segurança. [Os resultados] são um forte aviso de que o uso seguro de agrotóxicos é o melhor tanto para a produtividade agrícola quanto para as comunidades”, afirma. 

O recado final do artigo é mais duro: “Este trabalho sublinha a importância de considerar as implicações à saúde humana da intensificação da agricultura”.

Durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), mais de 14 mil pessoas foram intoxicadas por agrotóxicos no Brasil, segundo levantamento inédito feito pela Agência Pública e Repórter Brasil, com dados de 2019 a março de 2022.

Nos últimos anos, vários estudos vêm revelando a relação entre o uso intenso de agrotóxicos com diversos problemas de saúde e ao ambiente. A presença de substâncias cancerígenas nos agrotóxicos é bem conhecida, mas a relação direta de causa e efeito com o câncer é mais difícil de estabelecer.  

Levantamento recente feito pelo InfoAmazonia com a Fiocruz observou que mulheres, crianças e adolescentes de municípios do Mato Grosso que têm pelo menos 5% da área ocupada por soja têm risco entre 26% e 33% mais chances de desenvolver e morrer por leucemia e linfoma.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Pública [Aqui!].

Qualidade do ar no Cerrado está comprometida pelo excesso de agrotóxico

Estudo identificou a morte de líquens pela exposição ao glifosato em uma Área de Preservação Permanente em Caiapônia, Goiás

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Por Adriana Amâncio para a Mongbay

Respirar ar puro no Cerrado tem sido cada vez mais difícil. É o que indica um estudo recente, elaborado pelo Instituto Federal Goiano. A pesquisa constatou uma relação entre a morte de líquens e a exposição ao glifosato, um tipo de herbicida usado para impedir o crescimento de plantas espontâneas.

Os líquens são organismos formados por fungos e algas que se relacionam entre si. “Na prática, isso indica a má qualidade do ar. Em florestas tropicais, como é o nosso caso, a presença dos líquens indica boas condições atmosféricas. Por outro lado, a sua ausência indica que as condições do ar não estão adequadas”, resume Luciana Vitorino, doutora em Microbiologia, pesquisadora do Instituto Federal Goiano e uma das autoras do estudo.

As amostras analisadas foram recolhidas de uma Área de Preservação Permanente (APA) localizada no município de Caiapônia, distante 335 km de Goiânia, capital de Goiás. A APA está localizada dentro de uma propriedade privada de monocultivo de cana-de-açúcar em larga escala.

Foram recolhidos dos troncos das árvores líquens das espécies Parmotrema tinctorum e Usnea barbata (conhecida como  barba-de-velho). Essas amostras estavam no centro da APA, portanto, em tese, não haviam sofrido exposição direta  ao glifosato. Nas análises, porém, foi constatado que houve redução de células vivas e aumento de células mortas nos líquens barba-de-velho – ambos os resultados proporcionais ao tempo de exposição e à concentração do herbicida.

Segundo Luciana Vitorino, o interesse em realizar esse estudo mais aprofundado surgiu após ser encontrado cádmio, um dos metais pesados presentes no glifosato, em líquens localizados nas bordas de quatro Áreas de Preservação Permanente do município de Rio Verde, em Goiás. O levantamento feito em 2017 envolveu áreas de conservação localizadas em propriedades privadas de cultivo de commodities.

Em 2018, a preocupação dos pesquisadores aumentou. Foram encontrados líquens com metais pesados provenientes do glifosato também no Parque Nacional das Emas. Levando-se em conta que esse parque é uma Unidade de Conservação de Proteção Integral, ou seja, com restrição de atividade econômica, deveria ser improvável encontrar resíduos de glifosato nestes organismos vivos.

Foi então que os pesquisadores suspeitaram de contaminação por efeito de deriva. Esse é o nome dado ao efeito que leva os agrotóxicos, por meio das águas subterrâneas e de correntes de ar, para outras áreas além do alvo da pulverização. A pulverização via aérea, a mais comum adotada em Goiás, favorece a dispersão desse agrotóxico.

“Esses estudos anteriores serviram para comprovar que havia contaminação de líquens em áreas de conservação. Já o estudo atual mostrou, de forma mais efetiva, como os líquens eram afetados”, explica Vitorino.

O município de Caiapônia foi escolhido por ser tratar de uma área bastante preservada. O ideal, detalha Luciana, era obter líquens que nunca haviam tido contato com o glifosato para observar bem a sua reação aos estímulos realizados nas análises in vitro. 

Biomarcadores de poluição por glifosato em amostras de líquens. Imagem: reprodução

A pesquisa também identificou que o glifosato compromete o processo de fotossíntese dos líquens. A fotossíntese é um processo essencial para a sobrevivência. É por meio dele que a luz solar é convertida em energia química, fornecendo alimento e oxigênio ao organismo. A figura acima mostra o resultado do teste de fluorescência.

Neste caso, a exposição dos líquens a uma luz específica mostra como está a saúde das algas que compõem os organismos, parte responsável pela fotossíntese. Observe que, na última fileira, as algas praticamente desaparecem. “Isso mostra que o glifosato compromete a capacidade de fotossíntese dos líquens”, esmiúça Luciana.

De acordo com Luciana Vitorino, a diferença entre os líquens e os outros bioindicadores está na sensibilidade e na resposta imediata. “Com esse estudo, não queremos dizer que outras espécies não estejam sendo atingidas [pelo glifosato], mas os líquens têm uma resposta mais rápida, algo que pode demorar a aparecer em outras espécies”, pondera. Ela observa que o estudo confirma a dispersão do produto para áreas de conservação e que a pulverização aérea tem um papel contundente nesse caso.

Dados do Ibama apontam que o glifosato é o agrotóxico mais vendido no Brasil, com quase 220 toneladas por ano. Apenas no estado de Goiás, onde está localizado o município de Caiapônia, local de onde as amostras foram extraídas, são comercializadas quase 20 toneladas anuais do produto, ainda segundo o Ibama. O glifosato é também o pesticida mais consumido no globo terrestre. 

Seriema (Cariama cristata) no Parque Nacional das Emas, sudoeste de Goiás. Foto: Fernando Nanzer, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Cerrado: 70% do consumo de agrotóxicos no Brasil

Na avaliação do médico e doutor em Saúde Pública, Wanderlei Pignati, a chegada dos transgênicos foi determinante para que a quantidade de glifosato, assim como de outros agrotóxicos usados no Cerrado aumentasse de maneira exponencial. “Foi criado um tipo de soja resistente ao glifosato, a soja Roundup Ready, ou seja, o glifosato pode ser aplicado direto na soja. Ele mata as ervas espontâneas, mas não mata a soja”, explica. Além dela, outras espécies foram modificadas geneticamente para se tornarem resistentes a diversos outros tipos de agrotóxicos.

O Cerrado é responsável por 73,5% de todo o volume de agrotóxicos comercializados em todo Brasil. Esse alto volume de consumo deve-se ao fato de o bioma abrigar milhares de hectares de monocultivo de commodities, sendo, portanto, a maior fronteira agrícola do agronegócio brasileiro. Esse dado é revelado em um artigo publicado na revista “Desenvolvimento e Meio Ambiente”, da Universidade Federal Rural do Paraná (UFPR). 

Líquen do gênero Parmotrema no Parque Estadual Matas do Segredo, Mato Grosso do Sul. Esses organismos são formados por fungos e algas, que interagem entre si, e apresentam resposta rápida sobre a má qualidade do ar. Foto: Fábio Júnio Santos Fonseca, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

A má qualidade do ar não é a única consequência do excesso de uso de agrotóxicos que deve preocupar. Pesquisas apontam que tanto o glifosato quanto outras substâncias que vão na composição dos herbicidas são provavelmente cancerígenas.

Um exemplo é o produto Mata Mato, um herbicida que leva na sua composição, além do glifosato, polioxietileno amina (poea), nitroglifosato e formaldeído. “Enquanto o glifosato é provavelmente cancerígeno, as outras substâncias são comprovadamente cancerígenas”, explica Pignati.

Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), órgão ligado à Organização Mundial de Saúde (OMS) classificou o glifosato como “provavelmente cancerígeno”. Um parecer técnico da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), lançado em 2019, cobra a proibição do registro de produtos à base de glifosato com base no provável potencial cancerígeno do produto.

O parecer defende que seja adotado o princípio da precaução, “critério basilar nos processos de avaliação de nocividades para a saúde humana e para o ambiente, indicando ser mister evitar a exposição diante de limitações e ou incertezas quanto aos perigos relacionados à exposição a determinados agentes”, diz um trecho da nota.

Pignati explica que a Resolução número 441 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determina as quantidades nas quais essas substâncias podem ser administradas. O polioxietileno amina não pode exceder 20% da quantidade de produtos à base de glifosato; o nitrogenifosato, 0,001 grama por quilo de glifosato; e o formaldeído, 1 grama por quilo de glifosato. “Será que essas quantidades estão sendo respeitadas na produção do produto? É importante sabermos”, questiona Pignati.

O glifosato está com os dias contados?

Em dezembro deste ano, termina a licença para o uso do glifosato na produção de herbicidas na União Europeia. No último dia 13 de outubro, a Comissão Europeia decidiu prorrogar a licença do produto até 2033, porém, essa aprovação não alcançou o quórum de no mínimo 15 países, o que representa 66% dos membros suficientes para  validar a decisão. Com isso, a proposta será encaminhada ao Comitê de Apelação, que deve realizar a votação final na primeira quinzena de novembro.

Dentre os países integrantes, a Alemanha, local de origem do produto, já se posicionou contrária à renovação da licença. Áustria e Luxemburgo devem acompanhar o voto da Alemanha, porém, Itália, Suécia e Portugal são favoráveis a extensão. Já Bélgica e Holanda anunciaram que devem se abster.

Na queda de braço, de um lado estão as empresas que temem pela perda dos lucros que somam cifras imensuráveis, que contam com países como o Brasil, um dos maiores consumidores do glifosato do mundo. Do outro, órgãos de pesquisa, médicos e ambientalistas que consideram as evidências sobre o potencial cancerígeno do produto mais do que suficiente para proibir seu uso. Havendo a proibição do glifosato, produtores brasileiros, caso queiram ter os seus produtos aceitos na União Europeia, teriam que encontrar uma solução ambientalmente sustentável para cultivá-los.

Imagem do banner: pulverização aérea no município de Santo Inácio, Paraná. Foto:  Edmarjr, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons


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Este texto foi originalmente publicado pela Mongbay Notícias Ambientais [Aqui!].

Falhas na política de regulação de agrotóxicos na África constituem um risco para a saúde humana

É necessária uma legislação mais forte para conter o influxo de produtos pesticidas ilegais em África, afirma o especialista em riscos químicos Fredrick Otieno

Fumigation1Um  agricultor pulverizando agrotóxicos em suas plantações. A África está utilizando mais agrotóxicos, mas não existem leis, regras e políticas suficientes para proteger os agricultores dos efeitos nocivos, afirma o especialista químico. Direitos autorais: Chris Quintana/IRRI Photo , CC BY-NC-SA 2.0 DEED) .

Por Stephanie Achieng’ para a SciDev

[NAIROBI] África está utilizando mais agrotóxicos, mas não existem leis, regras e políticas suficientes para proteger os agricultores dos efeitos nocivos, diz Fredrick Otieno, gestor de riscos químicos e planejador ambiental do Centro para Justiça e Desenvolvimento Ambiental em Nairobi.  

“Embora muitos países tenham melhorado os seus quadros regulamentares sobre agrotóxicos no passado recente, em linha com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Código de Conduta da Organização Mundial de Saúde sobre a Gestão de Pesticidas, a sua legislação não aborda adequadamente os riscos colocados. , especialmente para Pesticidas Altamente Perigosos (PAPs)”, diz Otieno.

Os PAPs são agrotóxicos que causam danos graves e por vezes irreversíveis ao ambiente e à saúde humana . Resultam em milhões de casos de envenenamento não intencional todos os anos, muitas vezes em países de rendimentos mais baixos, segundo a FAO, sendo as mulheres e as crianças que trabalham em ambientes agrícolas as mais afetadas.

“É necessário reforçar os esforços de fiscalização do mercado para garantir que os pesticidas ilegais (não registados e contrafeitos) sejam identificados e que as pessoas que os vendem sejam processadas.”

Frederick Otieno, Centro para o Desenvolvimento Ambiental e da Justiça, Quênia

O registo de produtos agrícolas de controlo de pragas deveria ser exigido por lei e os agricultores deveriam poder obter licenças para trazer pesticidas registados para um país, diz Otieno, acrescentando que qualquer pessoa que desrespeite as regras deve ser penalizada.

Mas nem sempre é esse o caso.

A fiscalização do mercado para reduzir as importações e a utilização ilegais em África é muitas vezes inexistente devido aos recursos limitados e as vendas e utilização ilegais de produtos químicos são comuns.

Para enfrentar este desafio,  as agências governamentais devem trabalhar em conjunto nos postos de fronteira e dentro dos países para garantir que os registos de pesticidas permanecem válidos, diz Otieno.

“Os agrotóxicos não devem manter seu registro indefinidamente”, explica Otieno.

“A lei deveria prever revisões periódicas dos produtos registrados para controle de pragas. Isto garante que os agrotóxicos que são problemáticos nas condições locais de utilização possam ser identificados e cancelados ou a sua utilização restringida.”

Uma revisão regular dos produtos químicos ainda é um desafio em África. O Código Internacional de Conduta sobre Gestão de Agrotóxicos recomenda que as leis sobre pesticidas permitam a revisão dos produtos aprovados para controlo de pragas. Se surgirem novas informações sobre como estes produtos afectam a saúde das pessoas e o ambiente, a lei deverá permitir o cancelamento do seu registo.

Informando os agricultores

Muitos agricultores da África Subsariana obtêm agrotóxicos através de programas e subsídios governamentais, mas nem todos têm ao seu alcance informações para avaliar quais os produtos químicos que são seguros.

“Para ajudar os agricultores a saber quais agrotóxicos estão registrados, é fundamental que uma lista atualizada destes produtos esteja disponível publicamente e acessível gratuitamente aos agricultores”, diz Otieno.

Ele acrescenta que os agricultores e outros utilizadores de agrotóxicos precisam de saber como verificar se um determinado produto está listado. Alguns países utilizam códigos para verificação de produtos.

“Todos os vendedores de agrotóxicos devem ser licenciados e um programa de fiscalização deve ser desenvolvido e implementado”, acrescenta Otieno.

“É necessário reforçar os esforços de fiscalização do mercado para garantir que os agrotóxicos ilegais – não registrados e contrafeitos – sejam identificados e as pessoas que os vendem sejam processadas.”

O governo deveria trabalhar para se livrar gradualmente dos agrotóxicos altamente perigosos porque os agricultores, especialmente os pequenos agricultores, não conseguem proteger-se dos riscos que eles trazem.

Otieno aconselha que os programas de serviços de pulverização devem ser financiados pelos governos para garantir que apenas trabalhadores qualificados comprem e utilizem agrotóxicos. “Isso reduzirá o uso e a venda ilegais de agrotóxicos”, diz ele.

Rotulagem de agrotóxicos

O Sistema Globalmente Harmonizado de classificação e rotulagem de produtos químicos estabelece padrões sobre como os agrotóxicos devem ser rotulados, para garantir que sejam utilizados corretamente.

“A maioria dos rótulos contém informações sobre como usá-los e o que fazer se você se machucar com eles”, diz Otieno.

No entanto, na maioria das vezes os rótulos não fornecem informações sobre os riscos e efeitos potencialmente nocivos dos produtos – conhecimento que é crucial para os agricultores que compram e utilizam agrotóxicos.

Otieno diz que as advertências na maioria dos rótulos dos agrotóxicos não são suficientes para manter as pessoas protegidas dos danos que causam. Ele deseja que todos os produtos cumpram as diretrizes globais de rotulagem.

Reavaliação do produto

O Código de Conduta sobre Gestão de Agrotóxicos afirma que reavaliar os produtos é uma boa forma de reduzir os danos que eles podem causar quando são utilizados.

“Quando são identificados riscos para a saúde ou para o ambiente de um agrotóxico que já está registrado,  eles devem ser colocados sob revisão sempre que a lei assim o preveja, ou a autoridade responsável pelo seu registro pode ser solicitada a reavaliar esses produtos por qualquer pessoa ou organização, ”, afirma o código.

Em alguns países africanos, a lei já estabelece que os agrotóxicos registrados podem ser revistos se surgirem novas informações que eram desconhecidas no momento do registo.

No entanto, estes países raramente têm orçamento para reavaliar os produtos de controlo de pragas registrados quando surgem novas informações sobre riscos para a saúde e ambientais.

“Sou da opinião que a informação deve ser comunicada à autoridade responsável pelo registo e gestão de agrotóxicos ou qualquer outro organismo que possa ser determinado através da utilização das informações de contacto constantes do rótulo do produto pesticida num país”, diz Otieno.

“Se a informação for comunicada apenas ao fabricante, por vezes pode ser ocultada e não divulgada ao público ou à autoridade competente.”

Regulamentação mais forte

Para fortalecer os quadros regulamentares, as leis, regras e outras leis relacionadas com agrotóxicos devem estar alinhadas com o Código Internacional de Conduta sobre Gestão de Agrotóxicos, e estas leis devem ser revistas regularmente, acredita Otieno.

Ele quer que todos os governos proíbam a importação, distribuição, venda e compra de agrotóxicos altamente perigosos e revisem regularmente os produtos registrados para evitar danos às pessoas, aos animais e ao ambiente.”  

Este artigo é apoiado pelo  PlantwisePlus , um  programa global liderado pelo CABI para ajudar os países a prever, prevenir e preparar-se para ameaças à saúde das plantas – garantindo assim que os agricultores reduzam as perdas nas colheitas e produzam a quantidade de alimentos necessária e também melhorem a qualidade dos alimentos cultivados. , face a um clima em mudança. 

Esta peça foi produzida pelo departamento de inglês da África Subsaariana do SciDev.Net.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela SciDev [Aqui!].

Estudo traça perfil dos poluentes encontrados em uma das principais bacias hidrográficas de São Paulo

50062O rio Camanducaia é um dos que formam a bacia PCJ (foto: Cassiana Carolina Montagner/Unicamp)

Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP

 A bacia hidrográfica dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí – também chamada de “bacia PCJ” – estende-se por 76 municípios do Estado de São Paulo e atende a mais de 5,8 milhões de pessoas. Com uma área de drenagem superior a 14 mil quilômetros quadrados, suas águas são muito demandadas pela agricultura, pela indústria e pelo consumo da população. Em função disso, e no contexto da crise climática global, a bacia sofre atualmente com escassez hídrica. Mas esse não é o único nem o maior dos problemas: o grande conjunto de rios, riachos e córregos que compõem a bacia encontra-se também fortemente contaminado por efluentes agrícolas, industriais e domésticos.

As expressões visíveis dessa poluição já foram objeto de várias reportagens da mídia. Mas faltava um estudo em profundidade que identificasse as principais áreas contaminadas e a natureza dos contaminantes individuais e das misturas de contaminantes; que calculasse sua concentração, frequência e toxicidade; e que apontasse seus potenciais riscos para humanos e organismos aquáticos. Esse estudo foi feito agora por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e parceiros de outras instituições do país e do exterior.

O trabalho foi apoiado pela FAPESP por meio de três projetos (14/50951-421/12484-9 e 20/14988-1). Artigo relatando os resultados foi publicado no periódico Chemosphere.

“Além de contaminantes tradicionais, já bastante conhecidos e sujeitos à legislação, encontramos também contaminantes emergentes, ainda não legislados, que apresentam toxicidade em condições de exposição crônica. Nossa pesquisa forneceu o primeiro retrato da ocorrência de compostos do grupo dos PFAS em rios do Estado de São Paulo”, diz Cassiana Carolina Montagner, professora do Instituto de Química da Unicamp e coordenadora do estudo.

Os PFAS são um grupo com milhares de compostos químicos sintéticos, perfluoroalquilados, utilizados pela indústria em uma grande variedade de produtos com o objetivo de torná-los antiaderentes, impermeáveis e resistentes a manchas. A utilização mais conhecida ocorre nos utensílios antiaderentes recobertos por teflon.

Informe da United States Environmental Protection Agency (Usepa, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) lista vários problemas de saúde humana comprovadamente associados à exposição a PFAS. Entre eles, o aumento do risco de alguns tipos de câncer, incluindo de rim, próstata e testículo. “A ocorrência de sete PFAS em diferentes rios do Estado de São Paulo foi relatada pela primeira vez em nosso estudo”, afirma Montagner.

Mas isso não é tudo. “Detectamos também muitos outros contaminantes, compondo um total de 45. Os agrotóxicos atrazina, carbendazim, tebutiurom e 2,4-D foram os que apresentaram a maior frequência de detecção, tendo sido encontrados em 100% das amostras coletadas. A mesma frequência, de 100%, foi detectada também para a cafeína e o bisfenol A [BPA], levados aos rios pelos esgotos domésticos”, acrescenta a pesquisadora.

Aqui é importante dizer que, embora bem tolerada pelos humanos, a cafeína pode ser bastante prejudicial para a biota aquática, como ressalta Montagner. Já o bisfenol A é uma substância química orgânica, o 2,2-bis(4-hidroxifenil) propano, utilizada na fabricação de polímeros e revestimentos de alto desempenho. Plásticos empregados em eletrodomésticos, computadores, brinquedos, talheres descartáveis, mamadeiras, revestimentos de latas de comida e bebida e resinas epóxi contêm BPA. Ele aparece também como componente do PVC maleável em papéis térmicos, como os extratos bancários e os comprovantes de pagamento liberados por caixas eletrônicos e máquinas para leitura de cartões.

Para avaliar a dimensão dos impactos causados por todos esses contaminantes, é preciso considerar que a região servida pela bacia PCJ é um importante polo agrícola e industrial e também a sede de cidades de grande porte. A área responde por 5,3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Destaques são a produção de cana-de-açúcar no município de Piracicaba, a indústria têxtil no município de Americana e a grande concentração populacional no município de Campinas.

“Além de ser a principal fonte de água potável de toda a área, a bacia do PCJ fornece água para irrigação, que não recebe nenhum tratamento antes de ser utilizada nos campos agrícolas. Ao mesmo tempo, a região abriga muitas cidades pequenas que lançam esgoto quase in natura nos rios”, informa Montagner.

A pesquisadora enfatiza que contaminantes emergentes, como pesticidas, hormônios, produtos farmacêuticos, produtos químicos industriais e PFAS, estão sendo liberados na bacia do PCJ, sem que a atual legislação brasileira exija o seu monitoramento.

“Em nosso estudo, coletamos amostras em 15 pontos diferentes da bacia. E avaliamos os contaminantes presentes considerando três fatores: concentração, frequência e toxicidade. Além das altas frequências já mencionadas, obtivemos elevados quocientes de risco para os herbicidas diuron e atrazina, além do inseticida imidacloprido”, conta.

E conclui: “Além de velhos problemas de poluição não resolvidos, como a contaminação por coliformes fecais, por exemplo, há novos problemas agora causados pela presença dos contaminantes emergentes, que são produzidos para garantir a qualidade de vida moderna, mas chegam ao ambiente devido à má gestão dos resíduos sólidos e saneamento ineficiente. Nosso estudo sugere que é necessário estabelecer um programa de monitoramento abrangente para garantir a proteção da vida aquática e da saúde humana”.

Monitoramento

Procurada pela reportagem, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) informou em nota que, atualmente, são feitas medições trimestrais em 519 pontos de amostragem, dos quais 91 estão distribuídos na bacia PCJ. Além de parâmetros tradicionais, como matéria orgânica, nutrientes, coliformes e metais, a Cetesb faz medições de agrotóxicos e de alguns compostos emergentes, quantificados indiretamente por meio de dois ensaios: um que mede atividade estrogênica, para a detecção de compostos do tipo interferentes endócrinos (que mimetizam os hormônios femininos, como o BPA); e outro que mensura a atividade de glicorticoides, para a detecção de medicamentos da classe dos anti-inflamatórios.

O texto afirma ainda que os agrotóxicos (42 diferentes ativos) são medidos pela Cetesb desde 2017, em trechos de rios localizados em bacias com uso do solo predominantemente agrícola.

“Na bacia hidrográfica do PCJ, os agrotóxicos são monitorados desde 2018 no trecho de cabeceira do rio Corumbataí […], município de Analândia, com cerca de 65% da área da bacia destinada ao uso agrícola. Os agrotóxicos mais frequentemente detectados nesse trecho do rio Corumbataí no período de 2018 a 2022 foram o inseticida imidacloprida [bastante frequente também nas amostras analisadas na Unicamp] e o herbicida tebutiurom [este encontrado em 100% das amostras do estudo]. As concentrações de imidacloprida estiveram frequentemente acima do limite de ecotoxicidade crônico para invertebrados aquáticos da Usepa [Office of Pesticides Program, OPP], que é de 10 ng/L [nanograma por litro]. Nesse mesmo período, não foram detectados nesse trecho os agrotóxicos 2,4 D e atrazina [ambos detectados em 100% das amostras analisadas na Unicamp], que são contemplados com padrões de qualidade para a proteção da vida aquática pela Resolução Federal [Resolução Conama n.o357/2005].”

Por último, a Cetesb informa que não há valores legislados para a atividade estrogênica e os glicocorticoides. “Os resultados desses dois ensaios, obtidos ao longo dos últimos cinco anos na bacia hidrográfica do PCJ, indicaram valores, em ambos os ensaios, considerados baixos ou de baixa relevância, com base nos estudos já realizados e na experiência internacional.”

O artigo Uncovering the impact of agricultural activities and urbanization on rivers from the Piracicaba, Capivari, and Jundiaí basin in São Paulo, Brazil: A survey of pesticides, hormones, pharmaceuticals, industrial chemicals, and PFAS pode ser acessado em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0045653523022233?via%3Dihub.


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Este estudo foi originalmente publicado pela Agência Fapesp [Aqui!].

Água contaminada: testes detectam agrotóxicos acima do limite em (pelo menos) 28 cidades

Agrotóxicos foram encontrados acima do limite seguro, de acordo com o sistema de vigilância do Ministério da Saúde (Sisagua)

mjnFoto em destaque: mrjn Photography/ Unsplash)

Por Hélen Freitas | Análise de dados: Marina Gama Cubas para a Repórter Brasil

O alerta máximo para contaminação da água acendeu em 28 municípios brasileiros em 2022. Em cidades de Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso e Tocantins, testes de qualidade encontraram agrotóxicos na rede de abastecimento em níveis acima do limite considerado seguro pelo Ministério da Saúde.

Essa situação representa um risco à saúde, de acordo com especialistas, principalmente se a água contaminada for consumida de forma contínua.

As informações são resultado de um cruzamento de dados realizado pela Repórter Brasil a partir de informações publicadas pelo Ministério da Saúde no Sisagua (Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano).

O consumo de água com altas concentrações de agrotóxicos aumenta os riscos para doenças crônicas, como câncer e distúrbios hormonais, e para problemas no sistema nervoso, nos rins e no fígado, explica Fábio Kummrow, professor de toxicologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Ele afirma que o consumo esporádico dessa água configura baixo risco à saúde. Porém, “o consumo frequente por longos períodos representa sérios riscos, em razão dos efeitos tóxicos crônicos pela exposição durante meses ou anos”, acrescenta.

As empresas de abastecimento de água são responsáveis por realizar os testes e publicar os resultados no Sisagua. Cabe aos municípios, estados e ao próprio ministério fiscalizar os casos e cobrar das empresas medidas para impedir que as substâncias ultrapassem os limites fixados.

Baixe aqui a tabela completa com os nomes dos municípios e empresas responsáveis pelo abastecimento.

Agrotóxicos proibidos

De acordo com os dados do Sisagua, no ano passado foram realizados 306.521 testes consistentes em 2.445 cidades para identificar agrotóxicos na água. O número poderia ser maior, já que a maior parte dos testes realizados no país para essas substâncias apresentavam erros e foram classificados como inconsistentes pelo Ministério da Saúde.

Segundo o painel, 55 testes em 28 municípios apontaram agrotóxicos acima dos valores máximos permitidos, o que representa 0,02% de todos os exames válidos realizados. Os dados foram extraídos pela reportagem em 8 de agosto deste ano (os resultados podem ser atualizados diariamente por estados e municípios).

O agrotóxico com mais testes acima do limite foi o endrin, com dez registros em municípios de Goiás, Minas Gerais, Tocantins e São Paulo. A substância, cujo uso é proibido no Brasil, pode afetar o sistema nervoso, causando tremores e convulsões, segundo estudos realizados em animais.

Na sequência aparece o aldrin, também proibido no país. Esse agrotóxico é considerado um Poluente Orgânico Persistente, pois não se degrada facilmente e se acumula em tecidos dos organismos vivos.

Com relação à saúde, o aldrin é classificado como “provavelmente cancerígeno” pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, órgão da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Como seu uso é vetado no Brasil há mais de duas décadas, sua presença na água pode ser justificada por dois fatores: a entrada ilegal no país, por contrabando, ou pela presença persistente no meio ambiente. A pesquisadora Cassiana Montagner, do Instituto de Química da Unicamp, aposta na primeira explicação.

“Não dá mais para falar que agrotóxicos proibidos há 20 anos ainda estão na água porque são persistentes. A gente sabe que há uma entrada clandestina”, afirma Montagner.

“Esses químicos ainda estão sendo usados nas lavouras brasileiras, mesmo com os riscos comprovados à saúde da população. Ao detectar essas substâncias, o poder público deveria aumentar a fiscalização para mitigar o uso”, diz ela.

Cidade mais afetada

De acordo com os dados publicados no Sisagua, a cidade com mais registros de água contaminada no ano passado foi Aruanã (GO). São 17 testes ao todo, incluindo para endrin e aldrin.

A 314 km de Goiânia e às margens do rio Araguaia, Aruanã fica em uma região destacada pela produção de soja, feijão, milho e arroz – culturas com elevado uso de agrotóxicos, segundo estudo da Universidade Federal de Mato Grosso.

O secretário de saúde de Aruanã, Leonel Cupertino, afirmou que não sabia da presença de agrotóxicos acima do limite na água do município e pediu esclarecimentos à Saneago, empresa de abastecimento da cidade.

Em nota, a companhia confirmou que os agrotóxicos foram identificados nos exames, porém, em concentrações dentro dos limites permitidos por lei e, portanto, sem riscos para a população.

A empresa alega que houve erro de digitação no preenchimento da planilha do Ministério da Saúde e que os dados divulgados na plataforma apresentam “equívocos”, pois estão acima dos resultados encontrados pela empresa. A Saneago informou que há “total garantia da segurança da água tratada distribuída no município”. Confira a nota completa.

Apesar da justificativa, a pesquisadora Cassiana Montagner, da Unicamp, afirma que qualquer nível de agrotóxico encontrado deveria ser motivo de atenção das autoridades, para evitar o consumo contínuo dessa água.

Baixe aqui a tabela completa com os nomes dos agrotóxicos e as doenças relacionadas a eles

Lobby

Outro agrotóxico detectado em concentração acima do que é considerado seguro para a saúde foi a atrazina, encontrada em municípios de Goiás, Mato Grosso e São Paulo.

Esse produto é proibido na União Europeia desde 2004 e está associado à ocorrência de distúrbios endócrinos. Contudo, nos Estados Unidos e no Brasil, a substância segue na lista dos cinco agrotóxicos mais vendidos anualmente

Uma dos municípios onde a atrazina foi encontrada na água da população em níveis perigosos foi Marcelândia (MT), que está em franca expansão agrícola, sobretudo na produção de soja e milho.

O município foi procurado, mas não respondeu até a publicação da reportagem.

Apesar de a Europa reconhecer os riscos da atrazina, a substância tem forte lobby da indústria para não sair dos mercados brasileiro e norte-americano.

Reportagem publicada pela Repórter Brasil e Agência Pública, em 2021, mostra que a fabricante Syngenta passou décadas questionando e perseguindo cientistas para manter a comercialização da atrazina. Procurada pela reportagem na época, a Syngenta Brasil não quis comentar os documentos divulgados.

Apesar de a atrazina aparecer com frequência em análises de água e de haver evidências que a associam ao desenvolvimento de disfunções hormonais, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirma que a substância não está na lista de prioridades para reavaliação sobre o uso no país. Segundo o órgão, o produto foi proibido na Europa por risco ambiental, e não de saúde. A Anvisa ressaltou que análises ambientais não são da competência da agência. Leia o posicionamento completo.

Falta de transparência

Desde 2018, os testes realizados por empresas ou órgãos de abastecimento em amostras de água fornecida para a população são publicados no Sisagua. Isso só aconteceu após a Repórter Brasil revelar que 25% das cidades brasileiras tinham um coquetel com 27 agrotóxicos na rede de água entre 2014 e 2017.

A quantidade de substâncias testadas, frequência e limite máximo são definidos pelo Ministério da Saúde, que leva em consideração o risco que oferecem à saúde e a maior probabilidade de estarem na água.

No ano passado, a Repórter Brasil lançou o Mapa da água, plataforma interativa em que é possível verificar a qualidade da água de cada município entre 2018 e 2020, além de trazer explicações sobre as substâncias encontradas na água.

Após o lançamento, o Ministério publicou sua própria plataforma para trazer os dados sobre a qualidade da água. As informações estão disponíveis em sete painéis informativos do Programa Nacional de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Vigiagua). Neles, é possível encontrar gráficos, mapas e tabelas com informações sobre as substâncias testadas.

Apesar de públicas, informações sobre qualidade da água ainda são técnicas, dificultando o acesso da população (Foto: Pixabay)

Apesar de estarem disponíveis, as informações não são acessíveis ao público não especializado, pois siglas e códigos dificultam o entendimento. “O governo disponibilizou a informação, mas continua difícil de usar. Além disso, há publicidade zero, as pessoas nem sabem que esses painéis existem”, critica Kummrow, da Unifesp.

Embora trabalhe com o tema há anos, ele só tomou conhecimento da plataforma do governo após contato da reportagem.

Mesmo com críticas, Kummrow avalia que a publicação dos painéis pelo Ministério da Saúde representa um avanço. “De alguma forma os dados se tornaram públicos, sofreram uma validação e representam uma realidade”.


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Este texto foi originalmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].