Divulgando livro que trata a questão dos agrotóxicos de forma integrada

soja agrotóxicos

A questão dos agrotóxicos é certamente um dos pontos de maior interesse deste blogueiro, pois considero que o Brasil é hoje o lócus de um experimento avançado das corporações químicas globais que fizeram do nosso país um ponto estratégico para a geração de lucros estratosféricos às custas da saúde dos brasileiros.

Em função disso é com satisfação que estou disponibilizando hoje a obra “Desastres sócio-sanitário-ambientais do agronegócio e resistências agroecológicas no Brasil” que tem o professor Wanderlei Antonio Pignati da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), um dos maiores conhecedores dos impactos terríveis que o uso amplo, geral e irrestrito de agrotóxicos está causando na saúde humana no Brasil.

livro pignati

A partir de um enfoque multidisciplinar, este livro permite aos seus leitores entender não apenas as consequências devastadoras dos agrotóxicos sobre os brasileiros, mas também oferece alicerces teóricos e metodológicos para que novos estudos sejam realizados, de forma a ampliar o conhecimento existente sobre a guerra química que está em curso no Brasil neste momento.

Os interessados em baixar o arquivo contendo a íntegra desta importante obra, basta clicar [Aqui!].

Filme inédito explora ligação controversa entre Europa e Brasil na fabricação e uso de agrotóxicos

comida agrotóxicos

O documentário inédito Pesticidas: O Pesadelo Brasileiro”, a ser exibido no Curta!, revela a perigosa ligação entre a Europa e o Brasil na fabricação e no consumo de agrotóxicos O filme, realizado por Stenka Quillet e escrito por Anne-Vigna com Nicolas Glimois, foca em dois grandes eixos: os grandes fabricantes europeus que faturam bilhões com a exportação de agrotóxicos proibidos na Europa e o uso indiscriminado desses mesmos produtos pelos gigantes do agronegócio brasileiro. Há ainda uma consequência inesperada para os próprios europeus: como num círculo vicioso, eles importam o que é produzido nas plantações brasileiras e, consequentemente, acabam consumindo agrotóxicos proibidos em seus países.

“Pesticidas: O Pesadelo Brasileiro” mostra que, a cada ano, cerca de 80 mil toneladas dessas substâncias são vendidas ao país por empresas como a suíça Syngenta e as alemãs Basf e Bayer. Em paralelo, aqui há uma legislação permissiva ao uso de químicos já banidos em solo europeu há décadas, além de práticas também proibidas como a disseminação através de aviões de pequeno porte. 

Enquanto tais corporações lucram, cidades inteiras — sobretudo os trabalhadores rurais — sofrem com as consequências da contaminação dos alimentos, do solo e da água. Além das gigantescas áreas ocupadas pelas monoculturas de soja, milho e algodão — que tomam o lugar de matas nativas do Cerrado brasileiro —, o agronegócio brasileiro cria “zonas de sacrifício”, onde a população está mais vulnerável aos impactos dos agrotóxicos. Como num círculo vicioso, os europeus importam o que é produzido nas plantações brasileiras e, consequentemente, acabam consumindo agrotóxicos proibidos em seus próprios países.

O documentário baseia-se na pesquisa da professora da USP e geógrafa Larissa Bombardi, que revela como a indústria química europeia depende da expansão das áreas agrícolas no Brasil. Ao ser convidada a Bruxelas por eurodeputados, a professora pediu à União Europeia que revisse seus padrões de comércio e impedisse suas transnacionais de venderem ao Brasil os defensivos agrícolas proibidos pelo bloco. 

“É desumano vender substâncias que são proibidas no próprio território. A população no Brasil vale menos? Cerca de 20% da população intoxicada no Brasil é composta por crianças e jovens de 0 a 19 anos. Então, estamos diante de uma forma de infanticídio. Eu fico tranquila para usar essa palavra porque os dados mostram isso. O que são 500 bebês intoxicados com agrotóxicos? Como isso é possível?”, disse Bombardi em depoimento para o documentário. Os dados alarmantes apresentados por ela indicam que o total de bebês intoxicados pode chegar a 25 mil. 

No Brasil, o tema dos agrotóxicos parece ser um tabu devido ao grande poder político-econômico do agronegócio. No entanto, jornalistas, pesquisadores, cientistas e demais ativistas ambientais se esforçam para informar a população e pressionar os parlamentares. O documentário destaca que, a cada ano, cinquenta deles são assassinados no Brasil. A própria produção do filme foi marcada por incidentes, incluindo ameaças a membros da equipe e a necessidade de apagar partes da gravação devido a pressões locais.

O documentário traz um pouco do contexto político dos últimos anos. Após a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, os grandes donos do agronegócio — apelidados de “ruralistas” — ganharam carta branca para garantir seus interesses. Por fim, o longa deixa em aberto o que acontecerá com a política ambiental do Brasil a partir de 2023, com o início de um novo governo. O noticiário recente, porém, revela que nada mudou. No primeiro semestre deste ano, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento aprovou o registro de 231 pesticidas, mantendo um ritmo semelhante ao do primeiro ano de mandato de Jair Bolsonaro.

“Pesticidas – O Pesadelo Brasileiro” pode ser assistido também no Curta!On – Clube de Documentários, disponível na Claro TV+ e em CurtaOn.com.br. Novos assinantes inscritos pelo site têm sete dias de degustação gratuita de todo o conteúdo. O documentário tem produção da ARTE France. A estreia é na Sexta da Sociedade, 8 de setembro, às 23h.

Agrotóxicos: governo Lula libera mais 63 venenos agrícolas e segue firme na trilha deixada por Bolsonaro

agrotóxicos chuva

O Diário Oficial da União traz hoje mais um ato (o 37 de 22 de agosto) do Ministério da Agricultura que libera para uso no Brasil um total de 63 agrotóxicos, o que eleva o total do governo Lula para parrudos 324 venenos agrícolas liberados nos oito primeiros meses de 2023.

Esse é um desenvolvimento particularmente infeliz do governo do presidente Lula, na medida em que não só durante a sua campanha, mas também no discurso da vitória, o compromisso claro era de que haveria um giro no sentido de um modelo mais sustentável de agricultura, visto que a atual dependência em relação a venenos com grandes repercussões ambientais e sobre a saúde humana é literalmente desastroso.

Como foi feito ao longo do governo Bolsonaro, ao longo da próxima semana será feita pelo Observatório dos Agrotóxicos, a divulgação da base de dados com todos os produtos liberados pelo Ato No. 37 e também a base que contém todos os produtos liberados pelo governo Lula.

Em uma primeira análise da lista de agrotóxicos liberados, há a persistência de produtos já presentes no mercado nacional, mas também vários produtos que combinam diferentes princípios ativos, o que tem sido uma tendência nos últimos anos, provavelmente para combater o aumento da resistência dos alvos a principios ativos aplicados de forma individual. Isto demonstra que apesar de toda a guerra química realizada com produtos altamente perigosos, o modelo agrícola dependente de venenos caminha para sua própria inviabilização.

Mas é de se lamentar que continuemos na trilha iniciada por Jair Bolsonaro e Tereza Cristina. Caberá aos movimentos sociais e à população resistir e demandar mudanças práticas. É que do mato do governo Lula, além de não sair coelho, está saindo muito agrotóxico.

Estudo confirma que exposição ao glifosato está associada à depressão grave e ao declínio cognitivo em adultos americanos

Depression-710x401

Por Sustainable Pulse

Um novo estudo revisado por pares e divulgado por um grupo de cientistas em Taiwan revelou uma ligação surpreendentemente forte entre depressão grave, declínio cognitivo e exposição ao herbicida mais usado no mundo, o glifosato.

O estudo foi publicado na íntegra na terça-feira passada no altamente respeitado Elsevier Journal, Environmental Research , e foi recebido com silêncio pelos fabricantes de herbicidas à base de glifosato, como a Bayer/Monsanto, que produz o infame herbicida Roundup.

Os autores do estudo declararam que: “realizaram análises sobre os dados existentes coletados de 1.532 adultos da Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição dos EUA (NHANES) de 2013–2014 para explorar a possível relação entre a exposição ao glifosato e a função cognitiva, sintomas depressivos, incapacidade e condições médicas neurológicas.”

“Nosso estudo utilizou uma coorte representativa da população adulta em geral dos EUA e encontrou uma correlação negativa significativa entre os níveis de glifosato urinário e os resultados dos testes de função cognitiva. Além disso, as nossas descobertas sugerem que as probabilidades de ter sintomas depressivos graves foram significativamente maiores do que não ter sintomas em indivíduos com níveis mais elevados de glifosato, conforme medido pelo PHQ-9”, continuaram os cientistas.

O NHANES é um inquérito nacional bienal que recruta uma amostra representativa da população. A população estudada apresentou média de idade (DP) de 48,15 (18,32) anos e média de IMC (DP) de 29,15 (7,25) kg/m 2 . A maioria dos participantes eram mulheres (51,5%), enquanto a etnia mais comum era a branca não hispânica (47,1%). Em relação ao nível socioeconómico, 53,7% dos participantes relataram um rendimento familiar ≥ 4.500 dólares por ano. Além disso, 37,2% dos participantes apresentavam índice de massa corporal ≥30 kg/m 2 . A proporção de indivíduos com níveis detectáveis ​​de glifosato foi de 80,4%.

“Como muitos dos principais questionários do sistema neurológico usados ​​para avaliar a função neurológica no NHANES estão disponíveis apenas para adultos, restringimos a nossa população de estudo aos maiores de 18 anos de idade”, acrescentaram os cientistas.

“Concluindo, nosso estudo fornece evidências importantes de uma associação entre os níveis urinários de glifosato e resultados neurológicos adversos em uma coorte representativa da população adulta dos EUA. Especificamente, observamos pontuações mais baixas de função cognitiva, maiores chances de sintomas depressivos graves e aumento do risco de dificuldades auditivas graves em indivíduos com maior exposição ao glifosato”, concluíram os cientistas.

A indústria não realizou quaisquer estudos de neurotoxicidade a longo prazo sobre o Roundup, a substância a que as pessoas e os animais estão realmente expostos. No entanto, alguns outros estudos independentes recentes sugerem que tanto o glifosato isolado como os herbicidas à base de glifosato, como o Roundup, são neurotoxinas.

Um estudo toxicológico em ratos descobriu que o glifosato esgotava os neurotransmissores serotonina e dopamina. Neurotransmissores são substâncias químicas em nosso corpo que transmitem sinais de uma célula cerebral para outra.

Um estudo epidemiológico realizado em Minnesota, EUA, constatou que os filhos de aplicadores de agrotóxicos expostos aos herbicidas glifosato apresentavam maior incidência de distúrbios neurocomportamentais, incluindo TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade). A descoberta sugeriu que o herbicida glifosato impacta o desenvolvimento neurológico.

Em um estudo realizado por pesquisadores argentinos, descobriu-se que o glifosato danifica o cérebro e as células do fígado de ratos. O glifosato foi mais tóxico em combinação com o fungicida zineb e o inseticida sistêmico dimetoato do que sozinho. Esses três produtos químicos são frequentemente usados ​​em combinação na Argentina. Os pesquisadores comentaram que seus resultados eram consistentes com a possibilidade de que esses produtos químicos desempenhassem um papel no desenvolvimento do distúrbio neurológico, a doença de Parkinson.


color compass

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “Sustainable Pulse” [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos divulga lista completa de liberações feitas no governo Lula

Como feito ao longo dos quatro anos do governo Bolsonaro, o “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski divulga nesta 6a. feira a lista completa dos 261 agrotóxicos iberados pelo governo Lula a partir de janeiro de 2023. Além de divulgar a base completa, divulgo ainda os 29 agrotóxicos  do tipo produto técnico que foram liberados pelo Ato No. 34 de 01 de agosto de 2023.

No caso específico dos 29 agrotóxicos liberados pelo Ato No 34, repete-se  a hegemonia de fabricantes chineses, fato que ocorreu de forma semelhante durante o governo Bolsonaro. Com isso, fica mantida a dependência brasileira dos produtos-base para a produção de agrotóxicos formulados que são aqueles que serão efetivamente utilizados pelos produtores rurais.

Além disso, ao contrário do que foi declarado ainda no governo Bolsonaro, a maioria dos agrotóxicos liberados em 2023 já estão sendo comercializados no Brasil, fazendo com que essa nova onda de liberações seja uma espécie de grande museu de velhas novidades. Este aspecto é reforçado pelo fato de que boa parte desses produtos é do tipo “pós-patente”, o que faz com que parte deles já tenha sido banida em países com legislação mais restritiva para agrotóxicos cujos impactos negativos sobre a saúde e o meio ambiente já estão fartamente documentados cientificamente.

O governo Lula segue a senda do envenenamento

Um aspecto que chama a atenção não é exatamente a quantidade de agrotóxicos que foram liberados nos oito primeiros meses de governo que seguem em um ritmo próximo ao que ocorreu durante o governo Bolsonaro. 

O que chama a atenção é que não apenas o processo de liberação adotado pelo governo Bolsonaro está mantido, mas também insiste em adotar uma forma errada de classificação de risco sobre a saúde humana e o ambiente. Ao manter os padrões adotados sob Jair Bolsonaro, Lula incorre em um descumprimento de suas promessas eleitorais que envolveram não apenas a diminuição da dependência em relação aos agrotóxicos, mas principalmente a atuação para a adoção de uma novo padrão de produção mais orientado pelos princípios da agroecologia.

Até aqui o que temos é a manutenção do padrão de agricultura viciada em agrotóxicos que vem contribuindo para a contaminação ambiental e o adoecimento dos brasileiros.

E lembremos que atualmente o Senado Federal tenta aprovar o famigerado “Pacote do Veneno” que deverá enfraquecer ainda mais a legislação que regula a liberação e venda de agrotóxicos no Brasil. Desde já, indico que se o Pacote do Veneno for aprovado pelo Congresso Nacional, não vislumbro nenhuma possibilidade do mesmo ser vetado pelo presidente Lula.

Ameaça contra a vida: Senado pretende votar Pacote do Veneno

agrotoxicomata

Por Roberta Quintino l Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

O Senado Federal está prestes a tomar uma decisão crucial que afeta profundamente a saúde pública, o meio ambiente e a busca por um futuro mais sustentável. O Pacote do Veneno, cuja votação pode acontecer a qualquer momento, traz um conjunto de medidas que impõe retrocessos e danos irreparáveis à biodiversidade, à saúde humana e ao desenvolvimento econômico e social do Brasil.

Em maio, atendendo mobilização popular, materializada no requerimento nº 152/2023, de autoria da senadora Eliziane Gama (PSD-MA), o Projeto de Lei nº 1.459 de 2022 – Pacote do Veneno – foi enviado para a Comissão de Meio Ambiente (CMA) na perspectiva do aprofundamento do debate em torno da proposta, o que até o momento não aconteceu. Porém, há rumores de que o relatório está sendo finalizado e em breve deve ser apreciado pela CMA. E o mínimo que se espera é que um ciclo de audiências ocorra para o devido debate da matéria e do parecer do relator, Fabiano Contarato.

Embora a posição da Campanha, baseada nas entidades que a compõem, seja de que o PL não tem conserto, é fundamental que, além da CMA, o debate sobre a proposição ocorra em outras comissões antes de ser pautado em plenário. Para a Campanha, a votação precipitada do Pacote do Veneno significaria a continuidade de uma política de destruição e morte como a do governo anterior. 

Não podemos ignorar ainda o fato de que diversos agrotóxicos proibidos em outros países são usados livremente no Brasil. A aprovação do Pacote do Veneno não apenas ignora essa realidade, mas também sinaliza um desrespeito às normas internacionais de segurança alimentar e saúde ambiental. O que deveria estar em discussão no momento, é o banimento efetivo desses agrotóxicos e não a liberação de mais veneno nos corpos e na mesa da população.

Além disso, os agrotóxicos, que têm sido reconhecidos como altamente prejudiciais ao meio ambiente e à saúde humana, recebem benefícios fiscais bilionários, uma contradição gritante, pois está na contramão da busca por uma agricultura mais saudável e sustentável.

Cabe destacar que o uso de agrotóxicos gera despesas orçamentárias para a seguridade social, impactando o Sistema Único de Saúde – SUS, por meio de casos de intoxicação, tratamentos de cânceres e problemas de saúde crônicos. Nesse sentido, o governo não deveria desonerar o setor do agronegócio responsável por sobrecarregar o sistema de saúde. Pelo contrário, estes produtos devem ser tributados considerando sua periculosidade e seus consequentes impactos econômicos e sociais.

O Pacote do Veneno apresenta-se como uma ameaça direta aos esforços de proteção do meio ambiente, promoção da saúde e combate à crise climática. Desta forma, é  urgente rejeitar o Projeto de Lei nº 1.459 de 2022 e direcionar o Brasil para um caminho de sustentabilidade, saúde e progresso através de políticas de redução dos agrotóxicos e de promoção da agroecologia.


compass black

Este texto foi publicado pela “Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida” [Aqui!].

Seguindo a trilha venenosa de Bolsonaro, governo Lula autoriza mais 29 agrotóxicos e chega a 261 liberações em 2023

agrotoxicos 2

O Observatório dos Agrotóxicos do Blog do Pedlowski detectou hoje a publicação pelo Diário Oficial da União do Ato Nº 34,  de 01 de agosto de 2023, por meio do qual, o Ministério da Agricultura comandado pelo ruralista Carlos Fávaro liberou mais 29 agrotóxicos do tipo “produto técnico”, o que elevou o total de produtos liberados desde 01 de janeiro a 261.

Com isso, o governo Lula confirma que está seguindo a mesma trilha venenosa adotada pela dupla Tereza Cristina e Jair Bolsonaro, o que significa um claro abandono com as promessas eleitorais de buscar um modelo agroecológico para a agricultura brasileira.

Afora os impactos que mais agrotóxicos sendo liberados para um mercado que já se encontra fartamente abastecido de substâncias altamente perigosas, o que a continuição destas liberações representa é o aumento dos riscos ambientais e para a saúde humana que as grandes monoculturas causam para a maioria dos brasileiros.  Essa continuidade de liberações de agrotóxicos representa um desserviço à população brasileira, apenas para continuar mantendo de pé um modelo de agricultura que não sobreviveria sem os pesados subsídios governamentais que lhe são dados.

O Observatório dos Agrotóxicos irá liberar as planilhas com os produtos liberados no Ato Nº 34 e a que traz todos os agrotóxicos já liberados desde o início do terceiro mandato do presidente Lula.

Agrotóxicos são detectados em cera e mel de abelha em estudo da Unicamp

Mortandade de inseto despertou interesse de pesquisadora pelo tema 

abelha florAs abelhas são responsáveis pela polinização de 70% de todas as plantas do planeta

Por Liana Coll,  Fotos: Felipe Bezerra, Edição de imagem: Paulo Cavalheri | Alex Calixto

Desde o início dos anos 2000, mais de 1 bilhão de abelhas morreram no Brasil. As causas estão relacionadas à expansão das monoculturas, que utilizam massivamente os agrotóxicos. Os impactos da mortandade são preocupantes, pois esses insetos polinizam cerca de 70% de todas as plantas do planeta e, também, facilitam a produção agrícola, sendo até mesmo indispensáveis para alguns cultivos, como o de mamão. Tendo em vista a importância das abelhas para o equilíbrio do ecossistema, a química e pesquisadora Ana Paula de Souza, do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Unicamp, analisou a presença dos agrotóxicos no mel e na cera, em sua tese de doutorado, defendida na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA).

Os produtos apícolas, segundo a pesquisadora, são bioindicadores da contaminação. Analisar diretamente as abelhas é difícil devido ao seu pequeno tamanho — elas pesam cerca de um décimo de grama.

Das 40 amostras de mel analisadas, seis apresentaram resíduos do herbicida glifosato acima do limite legal permitido. Nas ceras, foram detectados um ou mais agrotóxicos em 90% das amostras. O pior resultado nas ceras, diz Souza, está associado à reutilização deste produto. “As abelhas produzem a cera, que é, posteriormente, reciclada. De tempos em tempos, o apicultor a tira, monta o pente [parte da base da colmeia] e o coloca em novas colmeias. Se essa cera está contaminada, a contaminação vai progredindo ao longo dos anos e expondo as abelhas”, explica.

A pesquisa foi realizada com o mel e a cera das abelhas Apis mellifera L., conhecidas como abelhas africanizadas ou abelhas comuns. O orientador foi o professor da FEA Felix Reyes, com coorientação da coordenadora da Divisão de Química Analítica do CPQBA, Nadia Rodrigues.

A coordenadora da Divisão de Química Analítica do CPQBA e coorientadora da pesquisa, Nadia Rodrigues: falta de legislação específica apontando os limites toleráveis para os níveis de defensivos agrícolas nos alimentos infantis é preocupante

A coordenadora da Divisão de Química Analítica do CPQBA e coorientadora da pesquisa, Nadia Rodrigues: falta de legislação específica apontando os limites toleráveis para os níveis de defensivos agrícolas nos alimentos infantis é preocupante

O interesse pelo tema surgiu frente à preocupação com a morte massiva das abelhas no Brasil, fenômeno que também ocorre na Europa e nos Estados Unidos, bem como pela relevância desses insetos na polinização de plantações. “Tem havido a mortandade de abelhas, e elas têm um papel muito importante para a produção agrícola. Precisamos entender o que está acontecendo, porque normalmente é em decorrência dos casos de contaminação por agrotóxicos”, afirma Rodrigues.

A pesquisadora destaca também que o mel é um alimento saudável, bastante utilizado na alimentação de crianças e na composição de xaropes. Diante disso, determinar se há contaminação torna-se, ainda, mais importante. O fato de não haver uma legislação específica apontando os limites toleráveis para os níveis de defensivos agrícolas nos alimentos infantis, segundo Rodrigues, é preocupante. “Todo mundo acha [o mel] um alimento super saudável, natural. Então, surgiu daí a intenção de realmente saber se há ou não contaminação.”

Já no caso das ceras, as pesquisadoras destacam que elas são muito utilizadas na indústria de cosméticos, como em batons e cremes faciais.

Análise buscou 160 agrotóxicos

Para detectar os herbicidas e inseticidas, foram utilizadas duas técnicas analíticas, a cromatografia líquida e a cromatografia gasosa, que são métodos de separação de substâncias, associadas à espectrometria de massa, que detecta as moléculas a partir do peso da sua massa e por fluorescência. As análises ocorreram no CPQBA, no Laboratório de Toxicologia de Alimentos da FEA e no Laboratório Europeu de Referência em Frutas e Hortaliças, da Universidade de Almería, Espanha, onde Souza realizou um estágio doutoral, sob a supervisão do professor Amadeo Fernández-Alba.

O estudo buscou 160 agrotóxicos, entre os quais o glifosato, nas ceras e no mel. “O glifosato é o herbicida mais utilizado, e doses pequenas têm efeitos nos neurônios e no comportamento das abelhas, conforme já apontam alguns artigos. O produto, que foi encontrado no mel acima de limites aceitáveis para a comercialização, pode afetar a memória associativa, fazendo com que os insetos saiam da colmeia e não consigam voltar, o que acarreta sua morte”, observa.

##

A autora da tese, Ana Paula de Souza: contaminação pode ocorrer por diversas vias

A contaminação, sugere Souza, pode ocorrer por diversas vias.“As abelhas provavelmente estão em campo e vão trazendo os agrotóxicos no corpo, nos pelinhos, que, dessa forma, vão sendo depositados nas colmeias. Também pode ocorrer a contaminação pelas correntes de vento ou pela água.” Esse processo tem como consequência a mortandade dos insetos e desequilíbrios no ecossistema, algo que tem sido documentado. Os prejuízos podem se estender também à produção de alimentos, dado o papel fundamental das abelhas na polinização.

Para evitar que os agrotóxicos permaneçam afetando a população de abelhas e a biodiversidade, a pesquisadora recomenda que as práticas agrícolas sejam submetidas a um controle mais adequado quanto ao uso desses produtos. Ela também se preocupa com a liberação, no mercado, de outros defensivos agrícolas, resultantes de novas combinações de substâncias. “Nos últimos anos, aumentaram muito as combinações e formulações novas, e não sabemos ainda bem quais serão as consequências.”

 


Este texto foi originalmente publicado pelo “Jornal da Unicamp” [Aqui!].

A ligação entre agrotóxicos e alterações climáticas é parte de um ciclo vicioso, revela relatório da PAN/UK

Agrotóxicos derivados de combustíveis fósseis são uma fonte significativa, mas negligenciada, de gases de efeito estufa, alertam os ativistas. O uso de agrotóxicos, que inclui inseticidas, herbicidas e fungicidas, aumentou 16,7% em todo o mundo entre 2005 e 2020, de acordo com a Pesticide Action Network UK (PAN UK).climate-change-710x401

Por Danny Halpin, pa.media

O grupo publicou um relatório no qual aponta para um “círculo vicioso” entre o uso de agrotóxicos e as mudanças climáticas, cada um causando mais do outro. Cerca de 99% de todos os produtos químicos sintéticos, incluindo agrotóxicos, são derivados de combustíveis fósseis, com várias empresas petrolíferas como Exxon, Shell e Chevron envolvidas em sua produção, apontou.

Degradação

Fabricação, embalagem, transporte e aplicação de produtos químicos produzem emissões de gases de efeito estufa e agravam as mudanças climáticas, assim como a degradação ambiental que causam, disse a PAN UK.

Ao mesmo tempo, temperaturas mais altas incentivam o uso de mais agrotóxicos, permitindo a disseminação de insetos e doenças de plantas, criando um “ciclo vicioso”, afirma o relatório.

A PAN UK disse que o maior uso de agrotóxicos afetará desproporcionalmente as populações de animais selvagens já sob estresse devido aos efeitos climáticos, como temperaturas mais altas no verão e invernos mais amenos e úmidos. Assim estes organismos se tornarão mais resistentes aos produtos químicos, aumentando ainda mais as aplicações de agrotóxicos.

Os ativistas querem que o governo incorpore a redução de agrotóxicos nos planos climáticos, introduza metas de redução ambiciosas, apoie os agricultores no uso de métodos alternativos para proteger as plantações e proíba o uso deste tipo de substância em áreas urbanas.

Redução 

Josie Cohen, chefe de políticas e campanhas da PAN UK, disse: “O governo precisa urgentemente adotar uma abordagem conjunta para enfrentar a crise climática e da natureza, pois elas andam de mãos dadas. As soluções para essas emergências não devem prejudicar umas às outras.

“A meta de zero líquido do Reino Unido não pode ser alcançada sem transformar a agricultura, incluindo uma grande redução no uso de agrotóxicos, o que também trará enormes benefícios para a natureza e a biodiversidade”, disse ela.

A União Nacional dos Agricultores (NFU) disse que os agricultores só usam agrotóxicos quando precisam, e que sem eles os rendimentos cairiam, os preços para os consumidores aumentariam e que seria necessário usar o dobro da terra para cultivar o mesmo quantidade de comida.

Mas a PAN UK argumentou que a ideia de usar agrotóxicos para garantir a segurança alimentar era um “mito”, tendo em conta que contribuem para as alterações climáticas, que fragilizam a segurança alimentar.

Glifosato

Ele citou o herbicida glifosato – que esteve envolvido em vários casos legais nos EUA por causa de seu suposto impacto na saúde humana – como tendo uma pegada de carbono de 31,29 kg de CO2e para cada quilo fabricado.

Globalmente, a quantidade de glifosato usada em 2014 foi igual a abastecer 6,25 milhões de carros por um ano, afirmou o grupo.

No Reino Unido, o uso de glifosato aumentou 16% nos quatro anos até 2020, segundo  dados do governo . Isso gerou 81.410 toneladas de CO2 e – equivalente a mais de 75.000 voos de Londres a Sydney, disse a PAN UK.

Outros agrotóxicos são gases de efeito estufa, como o fluoreto de enxofre, que é quase 5.000 vezes mais potente que o dióxido de carbono, disse o grupo.

Doug Parr, cientista-chefe e diretor de políticas do Greenpeace do Reino Unido, disse: “A compreensão pública do papel que as empresas de combustíveis fósseis têm desempenhado na condução da emergência climática aumentou enormemente nos últimos anos e agora sabemos que precisamos adicionar a indústria de pesticidas à lista de poluidores climáticos.

“Reduzir o uso de agrotóxicos seria uma vitória dupla na abordagem do declínio da natureza e da crise climática”, acrescentou.


compass black

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela “Sustainable Pulse” [Aqui!].

Primeira análise global mostra como os agrotóxicos se infiltram no meio ambiente

agrotoxicos_2

Por Sustainable Pulse

Um estudo global publicado narevista Nature  que  analisou a distribuição geográfica de 92 dos agrotóxicos mais usados, descobriu que aproximadamente 70.000 toneladas de produtos químicos potencialmente nocivos vazam para os aquíferos a cada ano, impactando os ecossistemas e os recursos de água doce.

O professor associado Federico Maggi , principal autor do estudo da  Escola de Engenharia Civil da Universidade de Sydney , disse: “Nosso estudo revelou que os agrotóxicos se afastam de sua fonte original. Em muitos casos, esses produtos químicos acabam em um longo caminho a jusante e, muitas vezes, embora em quantidades muito menores, até o oceano”.

O estudo mostrou que cerca de 80% dos agrotóxicos aplicados se degradam em moléculas filhas – ou subprodutos – no solo ao redor das plantações.

“Essa degradação dos agrotóxicos geralmente ocorre como uma ‘cascata’ de moléculas no ambiente circundante, que pode persistir no ambiente por muito tempo e pode ser tão prejudicial quanto a molécula original ou o agrotóxico aplicado. Um desses exemplos é o glifosato. Embora seja altamente degradável, ele se decompõe em uma molécula conhecida como AMPA, altamente persistente e tóxica”, disse o professor associado Maggi.

Embora o estudo tenha descoberto que apenas uma fração dos agrotóxicos entra nos sistemas fluviais após a aplicação no campo, uma vez na água, a maioria dos ingredientes ativos acaba no oceano, com potenciais impactos negativos na vida selvagem marinha e nos recifes de corais. Isso põe em risco a própria base das cadeias alimentares marinhas e de água doce.

“No papel, 0,1 por cento de lixiviação em cursos de água doce pode não parecer muito”, disse o professor associado Maggi. “Mas é preciso apenas uma pequena quantidade de agrotóxicos para ter um impacto negativo no meio ambiente.”

O estudo mostrou que 730 toneladas de agrotóxicos entram nos rios a cada ano, com cerca de 13.000 quilômetros de rios atingindo concentrações químicas acima dos limites de segurança para várias plantas aquáticas e invertebrados, com consequências pouco conhecidas nos ecossistemas dos rios.

pesticides discharge

Fiona Tang, professora de engenharia hídrica na Monash University e coautora do artigo, disse: “Só porque não vemos resíduos de agrotóxicos no solo e na água não significa que eles não estejam lá, impactando sistemas críticos em terra, rios e oceanos.”

O co-autor do artigo, Dr. Francesco Tubiello, Estatístico Ambiental Sênior da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, disse: “Devemos adotar urgentemente estratégias de manejo sustentável para promover reduções nas aplicações de campo de agrotóxicos nocivos e estabelecer sistemas para monitorar efetivamente seu uso sob a Agenda de Desenvolvimento Sustentável 2030”.

A equipe de pesquisa usou uma grande coleção de dados geoespaciais publicamente acessíveis para conduzir o estudo.

No entanto, os autores dizem que o artigo é uma estimativa conservadora porque nem todos os agrotóxicos foram incluídos na análise. Eles não analisaram agrotóxicos herdados e usados ​​na aquicultura, residências particulares e espaços públicos, o que significa que o risco de exposição dos ecossistemas e das pessoas a esses produtos químicos pode ser maior.

Na semana passada, o professor associado Maggi foi co-autor de um artigo separado na  Nature Ecology and Evolution  que delineou recomendações para reduzir o uso de agrotóxicos, inclusive pedindo um conjunto confiável de indicadores e monitoramento aprimorado.

Ele e os co-autores do artigo argumentam que as metas para reduzir a poluição por agrotóxicos devem ser focadas na diminuição do risco, incluindo a redução de quantidades e toxicidade, porque alguns organismos correm alto risco de agrotóxicos muito tóxicos, mesmo quando usados ​​em pequenas quantidades.

“É importante que as autoridades nacionais divulguem estatísticas sobre o uso de insumos agrícolas, sejam eles fertilizantes ou agrotóxicos, dado o efeito que têm no meio ambiente e no serviço ecossistêmico”, afirmou.

O professor associado Maggi disse que uma redução global no uso de agrotóxicos, mantendo a segurança alimentar, é possível desde que tais iniciativas sejam concebidas e implementadas em consulta com os produtores de alimentos.

“Globalmente, há muito espaço para aumentar a eficiência e o rendimento, ao mesmo tempo em que se mantém um suprimento abundante de alimentos por meio de novas tecnologias e práticas modernas de gerenciamento de culturas”, disse ele.


compass black

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela “Sustainable Pulse” [   ].