Estudo traça perfil dos poluentes encontrados em uma das principais bacias hidrográficas de São Paulo

50062O rio Camanducaia é um dos que formam a bacia PCJ (foto: Cassiana Carolina Montagner/Unicamp)

Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP

 A bacia hidrográfica dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí – também chamada de “bacia PCJ” – estende-se por 76 municípios do Estado de São Paulo e atende a mais de 5,8 milhões de pessoas. Com uma área de drenagem superior a 14 mil quilômetros quadrados, suas águas são muito demandadas pela agricultura, pela indústria e pelo consumo da população. Em função disso, e no contexto da crise climática global, a bacia sofre atualmente com escassez hídrica. Mas esse não é o único nem o maior dos problemas: o grande conjunto de rios, riachos e córregos que compõem a bacia encontra-se também fortemente contaminado por efluentes agrícolas, industriais e domésticos.

As expressões visíveis dessa poluição já foram objeto de várias reportagens da mídia. Mas faltava um estudo em profundidade que identificasse as principais áreas contaminadas e a natureza dos contaminantes individuais e das misturas de contaminantes; que calculasse sua concentração, frequência e toxicidade; e que apontasse seus potenciais riscos para humanos e organismos aquáticos. Esse estudo foi feito agora por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e parceiros de outras instituições do país e do exterior.

O trabalho foi apoiado pela FAPESP por meio de três projetos (14/50951-421/12484-9 e 20/14988-1). Artigo relatando os resultados foi publicado no periódico Chemosphere.

“Além de contaminantes tradicionais, já bastante conhecidos e sujeitos à legislação, encontramos também contaminantes emergentes, ainda não legislados, que apresentam toxicidade em condições de exposição crônica. Nossa pesquisa forneceu o primeiro retrato da ocorrência de compostos do grupo dos PFAS em rios do Estado de São Paulo”, diz Cassiana Carolina Montagner, professora do Instituto de Química da Unicamp e coordenadora do estudo.

Os PFAS são um grupo com milhares de compostos químicos sintéticos, perfluoroalquilados, utilizados pela indústria em uma grande variedade de produtos com o objetivo de torná-los antiaderentes, impermeáveis e resistentes a manchas. A utilização mais conhecida ocorre nos utensílios antiaderentes recobertos por teflon.

Informe da United States Environmental Protection Agency (Usepa, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) lista vários problemas de saúde humana comprovadamente associados à exposição a PFAS. Entre eles, o aumento do risco de alguns tipos de câncer, incluindo de rim, próstata e testículo. “A ocorrência de sete PFAS em diferentes rios do Estado de São Paulo foi relatada pela primeira vez em nosso estudo”, afirma Montagner.

Mas isso não é tudo. “Detectamos também muitos outros contaminantes, compondo um total de 45. Os agrotóxicos atrazina, carbendazim, tebutiurom e 2,4-D foram os que apresentaram a maior frequência de detecção, tendo sido encontrados em 100% das amostras coletadas. A mesma frequência, de 100%, foi detectada também para a cafeína e o bisfenol A [BPA], levados aos rios pelos esgotos domésticos”, acrescenta a pesquisadora.

Aqui é importante dizer que, embora bem tolerada pelos humanos, a cafeína pode ser bastante prejudicial para a biota aquática, como ressalta Montagner. Já o bisfenol A é uma substância química orgânica, o 2,2-bis(4-hidroxifenil) propano, utilizada na fabricação de polímeros e revestimentos de alto desempenho. Plásticos empregados em eletrodomésticos, computadores, brinquedos, talheres descartáveis, mamadeiras, revestimentos de latas de comida e bebida e resinas epóxi contêm BPA. Ele aparece também como componente do PVC maleável em papéis térmicos, como os extratos bancários e os comprovantes de pagamento liberados por caixas eletrônicos e máquinas para leitura de cartões.

Para avaliar a dimensão dos impactos causados por todos esses contaminantes, é preciso considerar que a região servida pela bacia PCJ é um importante polo agrícola e industrial e também a sede de cidades de grande porte. A área responde por 5,3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Destaques são a produção de cana-de-açúcar no município de Piracicaba, a indústria têxtil no município de Americana e a grande concentração populacional no município de Campinas.

“Além de ser a principal fonte de água potável de toda a área, a bacia do PCJ fornece água para irrigação, que não recebe nenhum tratamento antes de ser utilizada nos campos agrícolas. Ao mesmo tempo, a região abriga muitas cidades pequenas que lançam esgoto quase in natura nos rios”, informa Montagner.

A pesquisadora enfatiza que contaminantes emergentes, como pesticidas, hormônios, produtos farmacêuticos, produtos químicos industriais e PFAS, estão sendo liberados na bacia do PCJ, sem que a atual legislação brasileira exija o seu monitoramento.

“Em nosso estudo, coletamos amostras em 15 pontos diferentes da bacia. E avaliamos os contaminantes presentes considerando três fatores: concentração, frequência e toxicidade. Além das altas frequências já mencionadas, obtivemos elevados quocientes de risco para os herbicidas diuron e atrazina, além do inseticida imidacloprido”, conta.

E conclui: “Além de velhos problemas de poluição não resolvidos, como a contaminação por coliformes fecais, por exemplo, há novos problemas agora causados pela presença dos contaminantes emergentes, que são produzidos para garantir a qualidade de vida moderna, mas chegam ao ambiente devido à má gestão dos resíduos sólidos e saneamento ineficiente. Nosso estudo sugere que é necessário estabelecer um programa de monitoramento abrangente para garantir a proteção da vida aquática e da saúde humana”.

Monitoramento

Procurada pela reportagem, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) informou em nota que, atualmente, são feitas medições trimestrais em 519 pontos de amostragem, dos quais 91 estão distribuídos na bacia PCJ. Além de parâmetros tradicionais, como matéria orgânica, nutrientes, coliformes e metais, a Cetesb faz medições de agrotóxicos e de alguns compostos emergentes, quantificados indiretamente por meio de dois ensaios: um que mede atividade estrogênica, para a detecção de compostos do tipo interferentes endócrinos (que mimetizam os hormônios femininos, como o BPA); e outro que mensura a atividade de glicorticoides, para a detecção de medicamentos da classe dos anti-inflamatórios.

O texto afirma ainda que os agrotóxicos (42 diferentes ativos) são medidos pela Cetesb desde 2017, em trechos de rios localizados em bacias com uso do solo predominantemente agrícola.

“Na bacia hidrográfica do PCJ, os agrotóxicos são monitorados desde 2018 no trecho de cabeceira do rio Corumbataí […], município de Analândia, com cerca de 65% da área da bacia destinada ao uso agrícola. Os agrotóxicos mais frequentemente detectados nesse trecho do rio Corumbataí no período de 2018 a 2022 foram o inseticida imidacloprida [bastante frequente também nas amostras analisadas na Unicamp] e o herbicida tebutiurom [este encontrado em 100% das amostras do estudo]. As concentrações de imidacloprida estiveram frequentemente acima do limite de ecotoxicidade crônico para invertebrados aquáticos da Usepa [Office of Pesticides Program, OPP], que é de 10 ng/L [nanograma por litro]. Nesse mesmo período, não foram detectados nesse trecho os agrotóxicos 2,4 D e atrazina [ambos detectados em 100% das amostras analisadas na Unicamp], que são contemplados com padrões de qualidade para a proteção da vida aquática pela Resolução Federal [Resolução Conama n.o357/2005].”

Por último, a Cetesb informa que não há valores legislados para a atividade estrogênica e os glicocorticoides. “Os resultados desses dois ensaios, obtidos ao longo dos últimos cinco anos na bacia hidrográfica do PCJ, indicaram valores, em ambos os ensaios, considerados baixos ou de baixa relevância, com base nos estudos já realizados e na experiência internacional.”

O artigo Uncovering the impact of agricultural activities and urbanization on rivers from the Piracicaba, Capivari, and Jundiaí basin in São Paulo, Brazil: A survey of pesticides, hormones, pharmaceuticals, industrial chemicals, and PFAS pode ser acessado em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0045653523022233?via%3Dihub.


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Este estudo foi originalmente publicado pela Agência Fapesp [Aqui!].

Água contaminada: testes detectam agrotóxicos acima do limite em (pelo menos) 28 cidades

Agrotóxicos foram encontrados acima do limite seguro, de acordo com o sistema de vigilância do Ministério da Saúde (Sisagua)

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Por Hélen Freitas | Análise de dados: Marina Gama Cubas para a Repórter Brasil

O alerta máximo para contaminação da água acendeu em 28 municípios brasileiros em 2022. Em cidades de Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso e Tocantins, testes de qualidade encontraram agrotóxicos na rede de abastecimento em níveis acima do limite considerado seguro pelo Ministério da Saúde.

Essa situação representa um risco à saúde, de acordo com especialistas, principalmente se a água contaminada for consumida de forma contínua.

As informações são resultado de um cruzamento de dados realizado pela Repórter Brasil a partir de informações publicadas pelo Ministério da Saúde no Sisagua (Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano).

O consumo de água com altas concentrações de agrotóxicos aumenta os riscos para doenças crônicas, como câncer e distúrbios hormonais, e para problemas no sistema nervoso, nos rins e no fígado, explica Fábio Kummrow, professor de toxicologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Ele afirma que o consumo esporádico dessa água configura baixo risco à saúde. Porém, “o consumo frequente por longos períodos representa sérios riscos, em razão dos efeitos tóxicos crônicos pela exposição durante meses ou anos”, acrescenta.

As empresas de abastecimento de água são responsáveis por realizar os testes e publicar os resultados no Sisagua. Cabe aos municípios, estados e ao próprio ministério fiscalizar os casos e cobrar das empresas medidas para impedir que as substâncias ultrapassem os limites fixados.

Baixe aqui a tabela completa com os nomes dos municípios e empresas responsáveis pelo abastecimento.

Agrotóxicos proibidos

De acordo com os dados do Sisagua, no ano passado foram realizados 306.521 testes consistentes em 2.445 cidades para identificar agrotóxicos na água. O número poderia ser maior, já que a maior parte dos testes realizados no país para essas substâncias apresentavam erros e foram classificados como inconsistentes pelo Ministério da Saúde.

Segundo o painel, 55 testes em 28 municípios apontaram agrotóxicos acima dos valores máximos permitidos, o que representa 0,02% de todos os exames válidos realizados. Os dados foram extraídos pela reportagem em 8 de agosto deste ano (os resultados podem ser atualizados diariamente por estados e municípios).

O agrotóxico com mais testes acima do limite foi o endrin, com dez registros em municípios de Goiás, Minas Gerais, Tocantins e São Paulo. A substância, cujo uso é proibido no Brasil, pode afetar o sistema nervoso, causando tremores e convulsões, segundo estudos realizados em animais.

Na sequência aparece o aldrin, também proibido no país. Esse agrotóxico é considerado um Poluente Orgânico Persistente, pois não se degrada facilmente e se acumula em tecidos dos organismos vivos.

Com relação à saúde, o aldrin é classificado como “provavelmente cancerígeno” pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, órgão da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Como seu uso é vetado no Brasil há mais de duas décadas, sua presença na água pode ser justificada por dois fatores: a entrada ilegal no país, por contrabando, ou pela presença persistente no meio ambiente. A pesquisadora Cassiana Montagner, do Instituto de Química da Unicamp, aposta na primeira explicação.

“Não dá mais para falar que agrotóxicos proibidos há 20 anos ainda estão na água porque são persistentes. A gente sabe que há uma entrada clandestina”, afirma Montagner.

“Esses químicos ainda estão sendo usados nas lavouras brasileiras, mesmo com os riscos comprovados à saúde da população. Ao detectar essas substâncias, o poder público deveria aumentar a fiscalização para mitigar o uso”, diz ela.

Cidade mais afetada

De acordo com os dados publicados no Sisagua, a cidade com mais registros de água contaminada no ano passado foi Aruanã (GO). São 17 testes ao todo, incluindo para endrin e aldrin.

A 314 km de Goiânia e às margens do rio Araguaia, Aruanã fica em uma região destacada pela produção de soja, feijão, milho e arroz – culturas com elevado uso de agrotóxicos, segundo estudo da Universidade Federal de Mato Grosso.

O secretário de saúde de Aruanã, Leonel Cupertino, afirmou que não sabia da presença de agrotóxicos acima do limite na água do município e pediu esclarecimentos à Saneago, empresa de abastecimento da cidade.

Em nota, a companhia confirmou que os agrotóxicos foram identificados nos exames, porém, em concentrações dentro dos limites permitidos por lei e, portanto, sem riscos para a população.

A empresa alega que houve erro de digitação no preenchimento da planilha do Ministério da Saúde e que os dados divulgados na plataforma apresentam “equívocos”, pois estão acima dos resultados encontrados pela empresa. A Saneago informou que há “total garantia da segurança da água tratada distribuída no município”. Confira a nota completa.

Apesar da justificativa, a pesquisadora Cassiana Montagner, da Unicamp, afirma que qualquer nível de agrotóxico encontrado deveria ser motivo de atenção das autoridades, para evitar o consumo contínuo dessa água.

Baixe aqui a tabela completa com os nomes dos agrotóxicos e as doenças relacionadas a eles

Lobby

Outro agrotóxico detectado em concentração acima do que é considerado seguro para a saúde foi a atrazina, encontrada em municípios de Goiás, Mato Grosso e São Paulo.

Esse produto é proibido na União Europeia desde 2004 e está associado à ocorrência de distúrbios endócrinos. Contudo, nos Estados Unidos e no Brasil, a substância segue na lista dos cinco agrotóxicos mais vendidos anualmente

Uma dos municípios onde a atrazina foi encontrada na água da população em níveis perigosos foi Marcelândia (MT), que está em franca expansão agrícola, sobretudo na produção de soja e milho.

O município foi procurado, mas não respondeu até a publicação da reportagem.

Apesar de a Europa reconhecer os riscos da atrazina, a substância tem forte lobby da indústria para não sair dos mercados brasileiro e norte-americano.

Reportagem publicada pela Repórter Brasil e Agência Pública, em 2021, mostra que a fabricante Syngenta passou décadas questionando e perseguindo cientistas para manter a comercialização da atrazina. Procurada pela reportagem na época, a Syngenta Brasil não quis comentar os documentos divulgados.

Apesar de a atrazina aparecer com frequência em análises de água e de haver evidências que a associam ao desenvolvimento de disfunções hormonais, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirma que a substância não está na lista de prioridades para reavaliação sobre o uso no país. Segundo o órgão, o produto foi proibido na Europa por risco ambiental, e não de saúde. A Anvisa ressaltou que análises ambientais não são da competência da agência. Leia o posicionamento completo.

Falta de transparência

Desde 2018, os testes realizados por empresas ou órgãos de abastecimento em amostras de água fornecida para a população são publicados no Sisagua. Isso só aconteceu após a Repórter Brasil revelar que 25% das cidades brasileiras tinham um coquetel com 27 agrotóxicos na rede de água entre 2014 e 2017.

A quantidade de substâncias testadas, frequência e limite máximo são definidos pelo Ministério da Saúde, que leva em consideração o risco que oferecem à saúde e a maior probabilidade de estarem na água.

No ano passado, a Repórter Brasil lançou o Mapa da água, plataforma interativa em que é possível verificar a qualidade da água de cada município entre 2018 e 2020, além de trazer explicações sobre as substâncias encontradas na água.

Após o lançamento, o Ministério publicou sua própria plataforma para trazer os dados sobre a qualidade da água. As informações estão disponíveis em sete painéis informativos do Programa Nacional de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Vigiagua). Neles, é possível encontrar gráficos, mapas e tabelas com informações sobre as substâncias testadas.

Apesar de públicas, informações sobre qualidade da água ainda são técnicas, dificultando o acesso da população (Foto: Pixabay)

Apesar de estarem disponíveis, as informações não são acessíveis ao público não especializado, pois siglas e códigos dificultam o entendimento. “O governo disponibilizou a informação, mas continua difícil de usar. Além disso, há publicidade zero, as pessoas nem sabem que esses painéis existem”, critica Kummrow, da Unifesp.

Embora trabalhe com o tema há anos, ele só tomou conhecimento da plataforma do governo após contato da reportagem.

Mesmo com críticas, Kummrow avalia que a publicação dos painéis pelo Ministério da Saúde representa um avanço. “De alguma forma os dados se tornaram públicos, sofreram uma validação e representam uma realidade”.


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Este texto foi originalmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].

Observatório divulga lista completa dos 410 agrotóxicos liberados pelo governo Lula

Com ritmo de liberações semelhante ao de Jair Bolsonaro, Lula mantém Brasil afundado em uma agricultura baseada na monocultura de exportação e fortemente dependente de agrotóxicos

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Como adiantado em postagem anterior, o “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski divulga hoje (22/10) a base de dados contendo os 410 agrotóxicos liberados pelo governo Lula entre 01 de janeiro e 10 de outubro.  Apesar de ser relativamente trabalhosa, a compilação dos agrotóxicos liberados por diferentes atos publicados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) que hoje é comandado pelo ruralista e defensor do “Pacote do Veneno, o senador Carlos Fávaro (PSD/MT).

Quem inspecionar os dados sobre os 410 agrotóxicos liberados pelo governo Lula poderá observar algumas tendências que já se mostravam evidentes durante o governo de Jair Bolsonaro. Uma delas é a aprovação de agrotóxicos que já estão banidos em outras partes do mundo por terem sido identificadas uma série de consequências ambientais e sobre a saúde humana (com destaque para produtos que já estão associados ao desenvolvimento de câncer, por exemplo).

A segunda tendência é a presença cada vez mais evidente de agrotóxicos ditos “genéricos” que são fabricados principalmente na China, muito em função da expiração das patentes originais nos países de origem. Outro questão é que muitos desses agrotóxicos genéricos são compostos por princípios ativos que já foram retirados do comércio dos países onde foram originalmente desenvolvidos por serem muito tóxicos para o ambiente e para os seres humanos.

O governo Lula descumpre a promessa de trabalhar por uma agricultura de base ecológica

Diogo Schelp: Sem ideias novas, Lula relança antigos programas

Com a manutenção de um ritmo bastante alto de aprovação de agrotóxicos, o governo Lula descumpre uma das promessas da campanha eleitoral de 2022 e do próprio discurso da vitória do presidente Luís Inácio Lula da Silva que é justamente apoiar o fortalecimento da agricultura familiar e da produção orgânica de alimentos

Em seu discurso da vitória, o presidente Lula citou explicitamente o seu compromisso com a modificação das bases da agricultura brasileira para um modelo ecologicamente sustentável. No entanto, a manutenção do ritmo de liberação de agrotóxicos somada à falta de investimentos no desenvolvimento de projetos de base agroecológica demonstra que esse discurso ainda está longe de materializado em políticas públicas.

A raíz desse descumprimento é a contínua aposta na exportação de commodities agrícolas que, além de serem dependentes de agrotóxicos, está associada ao processo de desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Com isso quem acaba ganhando mais é a China que além de comprar soja barata do Brasil mantém uma forte influência no mercado de agrotóxicos.

A base principal e as planilhas com os atos publicados desde agosto

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Como a última vez que publiquei a base geral dos dados agrotóxicos liberados pelo governo Lula, além da base geral agora com 410 agrotóxicos, estou disponibilizando as planilhas relativas aos atos 37, 39, 42 e 45 . Desta forma, os leitores do blog poderão baixar também identificar os agrotóxicos liberados em cada um dos atos assinalados.

O perigo que chega nas torneiras: brasileiros bebem “coquetel de agrotóxicos” enquanto país vive apagão de dados

Dados do Ministério da Saúde revelam que 210 cidades encontraram todos os agrotóxicos testados na rede de abastecimento de água em 2022. Chamado de “efeito coquetel”, a mistura entre substâncias preocupa especialistas

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Por Hélen Freitas | Análise de dados: Marina Gama Cubas | Foto em destaque: Engin Akyurt/Unsplash |

As detecções ocorreram em amostras de água de diferentes redes de abastecimento dentro dos municípios. Por exemplo, na cidade de São Paulo, cinco agrotóxicos foram encontrados na água da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), responsável por prover a maior parte do município.

Já o total de 27 foi verificado em condomínios e empresas da capital paulista com sistemas particulares de tratamento da água. Não houve casos de concentração acima do limite permitido para cada agrotóxico analisado, em São Paulo.

Ministério da Saúde não regula “efeito coquetel”

Enquanto a União Europeia impõe um limite para a presença de diferentes substâncias na água, o risco da mistura é ignorado pela normativa do Ministério da Saúde. A pasta teve a chance de regular essa questão em 2021, quando a nova Portaria de Potabilidade da Água foi aprovada, mas tratou apenas dos limites individuais.

O principal argumento é a dificuldade em calcular os efeitos causados pelas diferentes combinações de substâncias químicas na água.

“O ideal seria não detectar, ou seja, não encontrar nada”, afirma Cassiana Montagner, pesquisadora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). “Mas quando há a detecção, ainda que em concentrações menores que o valor máximo permitido, os governos deveriam tomar ações para evitar que esses agrotóxicos apareçam por longos períodos de tempo”, complementa.

Ela destaca que o risco é maior quando o consumo é contínuo, ou seja, quando a presença das substâncias na água persiste ao longo dos meses e anos. Nesses casos, 15 dos pesticidas encontrados estão associados ao desenvolvimento de doenças crônicas como câncer, disfunções hormonais e reprodutivas.

Segundo a pesquisadora, as estações de tratamento não conseguem retirar os agrotóxicos da água na concentração encontrada no Brasil. Assim, a melhor solução é evitar a contaminação.

A origem do problema é o uso excessivo e indevido dessas substâncias, que ocorre em maiores quantidades em regiões rurais, mas também no paisagismo nas cidades.

“Tudo aquilo que vem sendo colocado no ecossistema, solos e plantações, permanece nos recursos naturais e continua presente em diferentes lugares”, alerta Rafael Rioja, coordenador de consumo sustentável do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), que faz alertas constantes sobre a presença de agrotóxicos nos alimentos.

Esta não é a primeira vez que dados públicos levantam alerta sobre a presença de diversos agrotóxicos na água. Em 2019, especial feito pela Repórter Brasil, Public Eye e Agência Pública revelou que 1 em cada 4 cidades brasileiras tinham detectado todos os agrotóxicos na rede de abastecimento – a quantidade de municípios era substancialmente maior porque o levantamento analisou dados de 4 anos, 2014 a 2017.

Fonte: Dados de 2022 do painel Vigiagua do Ministério da Saúde

Baixe aqui a tabela completa com os nomes dos municípios que detectaram os 27 agrotóxicos na água em 2022.

O que dizem o poder público e as empresas

Questionado pela Repórter Brasil, o Ministério da Saúde reconheceu que analisar os agrotóxicos na água de forma individualizada é insuficiente para determinar os riscos à saúde da população. Ressaltou, porém, que há poucos estudos que analisam os efeitos da mistura, justificando assim a ausência de valor máximo para o coquetel de substâncias na Portaria atual.

“A temática relativa à mistura de substâncias químicas integra a agenda de trabalho do Ministério da Saúde, inclusive no que se refere à definição do padrão de potabilidade”, afirmou em nota (leia a íntegra).

O órgão também garantiu que orienta as equipes de vigilância em saúde a adotarem ações preventivas mesmo nos casos em que os testes apontaram a presença de agrotóxicos dentro do limite individual para cada substância. Essa orientação, porém, não parece resultar em medidas objetivas adotadas pelos municípios ouvidos pela reportagem.

As secretarias de saúde de Campinas, São Paulo e Fortaleza, cidades onde os 27 agrotóxicos foram encontrados na água, afirmaram que apenas seguem os parâmetros fixados individualmente para cada substância, de acordo com a norma do Ministério.

A coordenadora da Vigilância em Saúde de Campinas, Cristiane Sartori, afirma que a secretaria só consegue realizar ações quando os testes apontam que o agrotóxico está acima do limite individual para aquela substância específica.

Os agrotóxicos detectados em Campinas apareceram em diferentes redes de distribuição da cidade, como condomínios, shopping e empresas. Na Sanasa, companhia que realiza a maior parte do abastecimento da cidade, não houve detecção. Já no campus da Unicamp, testes encontraram as 27 substâncias na água. Em 2022, cerca de 60 mil pessoas frequentaram o local.

A Unicamp afirmou que a mistura de substâncias é uma preocupação para a Universidade, mas também se amparou na regulamentação do Ministério da Saúde para justificar a tolerância aos 27 agrotóxicos na água. “É importante salientar que não há ações de controle previstas na legislação quando os valores dos resultados se encontram dentro dos padrões permitidos”. Veja a resposta.

Água com 27 agrotóxicos é encontrada em redes de abastecimento estaduais, além de em água de empresas, condomínios e universidade (Foto: Pixabay)

A secretaria de saúde do município de São Paulo afirmou em nota que monitora a água fornecida à população e que “não foram detectados parâmetros acima do permitido pela legislação vigente”.

Sobre as detecções de cinco agrotóxicos na rede da Sabesp em 2022, a empresa se limitou a afirmar que “todos os ensaios realizados para agrotóxicos estão dentro do padrão estabelecido na Portaria de Potabilidade para água distribuída”. A Sabesp não respondeu às perguntas sobre a mistura de substâncias.

Em Fortaleza, todos os 27 agrotóxicos foram encontrados na rede de abastecimento da Cagece (Companhia de Água e Esgoto do Estado do Ceará), responsável pelo abastecimento de água de 152 municípios do Ceará. Em nota, a Cagece informou que os seus equipamentos de análise possuem alta capacidade de detecção, mas que a concentração de agrotóxicos na água é bem menor do que os limites previstos na legislação, o que faz com que considerem que não há risco à população. Leia na íntegra.

A secretaria de saúde de Fortaleza, responsável pelo monitoramento, não respondeu aos questionamentos enviados pela  Repórter Brasil.

Apagão de dados

Os dados do Ministério da Saúde também mostram que 1.609 municípios brasileiros — 6 em cada 10 que fizeram testes (confira a tabela completa de cidades) — encontraram ao menos um agrotóxico em sua água. O número pode ser ainda maior, já que mais da metade (56%) dos municípios não enviaram dados ou publicaram informações consideradas inconsistentes pelo Ministério da Saúde.

Amapá, Amazonas, Paraíba, Rio Grande do Norte, Rondônia e Roraima estão em um apagão completo de informações, ou seja, não enviaram dados considerados válidos pelo Ministério da Saúde.

“A quantidade agrotóxicos que está sendo jogada no nosso ambiente é muito maior do que a nossa capacidade de absorção e da natureza de transformar essas moléculas, e isso está na água que a gente consome, na água da chuva, dos rios”, afirma Marcia Montanari, pesquisadora do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Confira quantos agrotóxicos foram detectados nas redes de abastecimento em cada município em 2022.

Entre os estados que forneceram pouca ou nenhuma informação, o, Mato Grosso se destaca. Ano após ano, ele se estabelece como o maior comprador de agrotóxicos do País. Em 2021, mais de 150 mil toneladas de pesticidas foram vendidas no estado, uma uma diferença de mais de 60 mil toneladas para o segundo colocado, São Paulo.

Contudo, a liderança não se mantém quando o assunto é testes de agrotóxicos na água. Dos 141 municípios do estado, 73% não entregaram dados ao Sisagua. O apagão preocupa: a exposição ao veneno no Mato Grosso é quase dez vezes maior do que a média nacional, de 7,3 litros por pessoa.

Lucas do Rio Verde é uma das cidades que não enviou dados consistentes. Com 83 mil habitantes, é uma das maiores produtoras de grãos do país, tendo sua economia baseada na agropecuária.

O uso de pesticidas é intenso na região, tanto que a cidade foi parar nas manchetes de todo o Brasil, em 2011, após uma pesquisa da Universidade Federal do Mato Grosso detectar agrotóxicos no leite de mulheres que amamentam. Mesmo com esse histórico, a cidade não enviou dados consistentes ao Ministério da Saúde sobre a presença de agrotóxicos em sua água.

Marcos Woicichoski, assessor jurídico do SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto) de Lucas de Rio Verde afirmou que a vigilância municipal de saúde ainda está realizando o lançamento dos dados de 2022 no Sisagua, contudo é possível consultar os resultados por meio do site do serviço. Os dados disponibilizados, no entanto, não permitem que a população saiba de forma simples se a água que chega em sua torneira tem substâncias perigosas.

“O SAAE informa que os níveis de agrotóxicos na água fornecida para a população sempre se mostraram abaixo do limite de segurança definido pela norma ministerial”. Já a Secretaria de Saúde de Lucas de Rio Verde não respondeu às questões enviadas.

Para a pesquisadora da UFMT, há uma pressão para que esses dados não sejam publicados. “Muitos desses municípios têm uma interveniência política do agronegócio muito forte, eles não fazem questão que essas informações apareçam”.

O responsável direto por esse monitoramento é a Secretaria Estadual de Saúde do Mato Grosso. Questionados pela reportagem, o órgão afirmou que cobrou o envio das informações. “A pasta realiza de forma ininterrupta o monitoramento junto aos prestadores de serviços de abastecimento de água. Entretanto, essa pergunta deve ser feita não apenas ao setor da Saúde, mas às várias áreas, visto que o agrotóxico é um tema de competência nacional, que envolve o Meio Ambiente, a Agricultura e os Recursos Hídricos”. Confira as respostas na íntegra.

“Enquanto não existir uma uma cobrança efetiva para que se cumpra a resolução, a frequência de análise e para que se olhe para esses dados, os responsáveis pelo abastecimento não vão se mexer”, avalia Fábio Kummrow, professor de toxicologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Está confortável pra eles assim”.


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Este texto foi originalmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].

Uso de agrotóxicos cresce 30% no mundo e 78% no Brasil, afirma pesquisadora ao lançar livro

Segundo procuradora, prosperidade não pode ser obtida à custa da saúde dos trabalhadores

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Por Rede Brasil Atual

São Paulo – Durante lançamento de livro sobre o uso crescente de agrotóxicos, na semana que passou, especialistas chamaram a atenção para a contaminação dos trabalhadores que atuam na produção de alimentos e também da água. “Temos vastos recursos naturais e uma agricultura pujante, que desempenha um papel vital na nossa economia. No entanto, essa prosperidade não deve e não pode ser obtida às custas da saúde de nossos trabalhadores e trabalhadoras rurais, que são a força vital para esses resultados abundantes”, afirmou a vice-procuradora-geral do Trabalho, Maria Aparecida Gurgel. O Ministério Público do Trabalho (MPT) promoveu debate com a presença da professora Larissa Mies Bombardi, autora de Agrotóxicos e Colonialismo Químico.

A professora e pesquisadora lembrou que a União Europeia já baniu 269 agrotóxicos, enquanto o mundo não chegou a banir 100. No Brasil, a situação é pior, acrescentou Larissa.

Dados alarmantes

“Os dados do Brasil são mais alarmantes porque, enquanto o mundo registrou um crescimento de 30% na venda de agrotóxicos nos últimos 10 anos, no Brasil a expansão foi de 78% no mesmo período”, afirmou a professora, autoexilada na Bélgica desde 2021, devido a ameaças que passou a receber. Segundo ela, “a agricultura não é mais sinônimo de produção de alimentos”.

Já o subprocurador-geral do Trabalho Pedro Luiz Serafim da Silva, coordenador do Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos, observou que o trabalhador participa de todos os processos envolvidos na cadeia produtiva. Isso inclui fabricação, transporte, aplicação e consumo. “É uma questão muito séria e que está provocando uma enorme contaminação, inclusive da água. E todos nós bebemos água, água contaminada com agrotóxico.”

Por sua vez, a procuradora do Trabalho Cirlene Zimmermann, à frente da Coordenadoria de Defesa do Meio Ambiente do Trabalho e da Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (Codemat) do MPT, lembrou que o tema está ligado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que integram a Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU). Ela citou os ODSs 3, sobre “Saúde e bem-estar”, e 8, “Trabalho Decente e Crescimento Econômico”.

Com informações do MPT


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Este texto foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui! ].

Observatório dos Agrotóxicos: Lula libera mais 45 agrotóxicos, chega a 410 liberações em 10 meses, e ameaça quebrar recorde venenoso de Bolsonaro

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Seguindo a trilha venenosa de Bolsonaro, Lula promove onda de liberações de agrotóxicos, muitos deles banidos na União Europeia por sua periculosidade ambiental e contra a saúde humana

Com a publicação do Ato No. 45 de Outubro de 2023, o governo Lula liberou mais 45 agrotóxicos e chegou a incríveis 410 agrotóxicos liberados em menos de 10 meses de governo, e ameaça quebrar os recordes estabelecidos pela dupla formada por Jair Bolsonaro e Tereza Cristina. 

A partir de uma análise inicial pude verificar novas liberações de agrotóxicos proibidos na União Europeia como o fungicida Clorotalonil e do inseticida Imidacloprido, mas também dos herbicidas Glifosato e Dicamba. Com isso, não apenas se continua acrescentando produtos conhecidos por sua periculosidade ambiental e para a saúde humana, mas também se envia a mensagem de que, ao contrário do que foi prometido na campanha eleitoral, o presidente Lula continua a apostar suas fichas em um modelo de agricultura que é altamente dependente (e mesmo viciado) do uso de produtos altamente perigosos que são rejeitados nos países que os fabricam.

A contar pelo volume de aprovações que está em ritmo acelerado, os problemas de natureza ambiental e de saúde que são causados por um modelo agrícola que depende de venenos para se manter só aumentarão.  A questão é que os custos destes problemas não são internalizados pelo chamado “ogronegócio”, mas são despejados sobre a população brasileira, especialmente os segmentos mais pobres.

O fato é que há uma documentação feita a partir de pesquisas científicas que o Brasil hoje vive uma crise sanitária causada pelos agrotóxicos, e que é convenientemente escondida pela mídia corporativa que serve aos interesses do grande latifúndio e das corporações fabricantes de venenos agrícolas (ver vídeo abaixo).

Lamentavelmente o presidente Lula e seu ministro da Agricultura parecem desprezar todos os riscos e consequências desse modelo agrícola dependente de agrotóxicos. Por isso, que ninguém se espante se o Pacote do Veneno for rapidamente sancionado pelo presidente Lula após sua tramitação ser concluída no Congresso Nacional.

Nos próximos dias estarei compilando e publicando a lista completa dos agrotóxicos que foram liberados desde 31 de agosto de 2023.

Como enfrentar a poderosa indústria e banir os agrotóxicos proibidos em outros países?

O rastro de contaminação, doenças graves e mortes deixado pelos agrotóxicos tende a piorar no Brasil. O governo Lula mantém o ritmo acelerado de liberações de mais produtos inaugurado por Jair Bolsonaro (PL), sendo pelo menos metade deles proibidos na União Europeia

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Pulverização aérea de agrotóxicos: produtos contaminam o meio ambiente e causam doenças

Por Cida de Oliveira para a Rede Brasil Atual

São Paulo – A farra da indústria dos agrotóxicos, que já deixa um rastro de contaminação, doenças e de mortes por todos os cantos do Brasil, tende ao descontrole generalizado, com consequências devastadoras, se nada for feito para reverter esse processo. Nessa empreitada, a ciência, o direito e principalmente a participação popular têm um grande papel. Afinal, é preciso pressionar governos, mudar as leis e fazer com que sejam cumpridas e, sobretudo, enfrentar a poderosa indústria do setor.

Para se ter uma ideia da gravidade da situação, o país líder no consumo desses produtos na América Latina continua a liberar novos rótulos em ritmo acelerado, a exemplo do que foi nos quatro anos do governo de Jair Bolsonaro (PL). Ou até pior. Entre 2019 e 2022, foram liberados no total 2.170 “novos” produtos – as aspas significam que ao contrário do que dizem os defensores, essas moléculas não têm nada de novo. Mas de janeiro para cá, pelo menos 354. Chama atenção também o número de 47 ingredientes ativos químicos banidos ou sem registro na União Europeia liberados nesses primeiros meses do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mais que a metade dos 88 nos quatro anos do governo bolsonarista.

Os dados alarmantes foram apresentados pela professora de Química aposentada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sonia Hess em seminário promovido na noite desta segunda-feira (25) pelo Coletivo de Entidades Ambientalistas do Estado de São Paulo, com apoio do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam). Na pauta, as medidas necessárias para o Brasil banir produtos que já são banidos em outros países. Ou que sequer chegaram a ser liberados devido à sua toxicidade à saúde e ao meio ambiente.

Banidos ou nunca liberados na União Europeia

Além dos números, ela mostrou também informações atualizadas sobre as substâncias mais presentes nesses compostos. E os males que causam à saúde. Trata-se de moléculas que mesmo isoladas, sem mistura com outras, foram banidas há décadas. E conforme estudos estão associadas ao surgimento de diversos tipos de câncer. Sem contar outros problemas graves, como malformações congênitas e alterações em diversos sistemas do organismo humano.

“Mais da metade dos produtos autorizados no Brasil não foram registrados na União Europeia (UE). E o atual governo está repetindo o erro do anterior ao aprovar essas moléculas banidas”, disse a especialista, que defende medidas urgentes para o banimento aqui no país dos agrotóxicos banidos no exterior. E também legislações semelhantes às da UE, a proibição da pulverização aérea em todos os estados – a exemplo do Ceará -, a cobrança de impostos sobre esses produtos e o incentivo à produção orgânica.

Liberações com Bolsonaro e no governo Lula

FONTE: Professora Sonia Hess (UFSC)

O procurador da República Marco Antonio Delfino, com atuação em questões ambientais e indígenas, considera que o desequilíbrio na correlação de forças, principalmente no Congresso Nacional, impõe a necessidade de “um passo de cada vez”. “Temos de fazer por etapas, infelizmente. Temos que produzir mais pesquisas, incentivar projetos que tragam mais dados, mais amplos e completos”, defendeu, referindo-se a águas contaminadas com até mais de 40 agrotóxicos distintos. “Um custo elevado em se tratando de saúde”.

Apesar das dificuldades, Delfino enxerga caminhos para combater mais essa face do chamado racismo ambiental. Na prática, comunidades e países pobres vistos como latas de lixo pelos países ricos. No caso dos agrotóxicos, são produzidos por empresas sediadas em países onde são proibidos e acabam tendo novos mercados, estimulados em países onde são permitidos. E mais: as leis são mais permissivas, como no Brasil, que inclusive os isenta de impostos.

Nessa linha de reflexão sobre o chamado racismo ambiental, o procurador questionou: “Se proibimos a entrada de pneus usados, porque continuamos recebendo agrotóxicos? O princípio é o mesmo: A gente está usando lixo europeu ou dos países desenvolvidos”.

Importação de pneus usados já foi proibida no Brasil

Nessa “lata de lixo” dos países ricos que se tornou o Brasil, houve a exportação de pneus usados para cá. Somente em 2005 foram importados cerca de 12 milhões, com base em decisões da Justiça Federal em vários estados. Mas a Advocacia Geral da União (AGU) ingressou com ação no Supremo Tribunal Federal (STF) contra as importações. Alegou que o país gerava, naquela época, um passivo de aproximadamente 40 milhões de unidade de pneus usados primeiramente na Europa. E precisava dar a destinação correta a eles, a fim de prevenir danos ambientais maiores.

A importação foi proibida em 2009 pelo plenário do Supremo Tribunal Federal (STF). Na época, segundo o STF, 34 empresas importadoras haviam conseguido autorização judicial para trazer pneus usados da Comunidade Europeia para o Brasil. E alegavam incoerência da legislação brasileira, que permitia a compra de membros do Mercosul para insumo e uso em recapeamento, mas proibia a importação de outros países. “Foi considerado pelo STF o argumento de que o Brasil não poderia se tonar um depósito de lixo”, disse Delfino.

Estudioso da questão das contaminações por agrotóxicos e da lógica econômica envolvendo esses produtos e sua cadeia, o defensor público de São Paulo, Marcelo Novaes, defendeu a busca de “saídas factíveis”. Entre elas, encontrar maneiras para condenar essas empresas a colocarem as mãos no bolsos. Ou melhor, nos cofres, para indenizações justas, proporcionais aos grandes danos que causam. E destacou também também processos cujas condenações sejam a produção de provas contra elas próprias, que podem causam grandes estragos na reputação das marcas e da cadeia como um todo.

Laura Arias/Pexels
Trabalhador diretamente exposto à inalação de venenos perigosos: Foto: Laura Arias/Pexel

Outras saídas factíveis

“Nada impede que organizações como a Proam, possa notificar essas empresas responsáveis pela contaminação de águas, por exemplo. E na sequência, ajuizar ação de reparação no valor de 50 milhões de euros pelos prejuízos ambientais causados no Brasil”, disse Novaes, se dirigindo ao ambientalista Carlos Bocuhy, presidente da Proam, que mediou o debate.

Conforme prosseguiu, condenação desse tipo pode ser obtida graças à chamada lei da devida diligência, contra crimes ambientais praticados pelas subsidiárias de empresas com sede na França e na Alemanha. A lei já foi aprovada nesses dois países e está em vias de aprovação na Holanda. “Mas é preciso que haja comprovação de que algum componente químico produzido por empresa do país onde esteja em vigor essa lei da devida diligência”, ressaltou.

Novaes lembrou que há também instâncias que podem ser acionadas no âmbito da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). São comitês que monitoram a conduta empresarial responsável em diversos setores. E também acionar a Bolsa de Valores onde são negociados títulos de companhias do agronegócio que está intimamente ligadas aos agroquímicos.

Penalização de empresas e marcas associadas a crimes ambientais

“90% dos agrotóxicos consumidos pelos grandes produtores de exportação são financiadas por empresas mediante contratos de escambo. ‘Eu te dou glifosato e você me dá sacas de soja quando colher em sete meses’. Essas empresas são corresponsáveis. Corresponsabilidade é responsabilidade objetiva. O Ministério Público usou a tese da integração e cumplicidade silenciosa no caso das empresas têxteis aqui em São Paulo, no caso lá do frigorífico de Roraima. São casos paradigmáticos que podem ser vistos para responsabilização da cadeia não só na Europa, na OCDE como também em Nova York”, explicou.

E foi além: “Inclusive a grande rede varejista hoje, a grande indústria alimentícia, se beneficiam desses crimes ambientais, essa que é a verdade. E eles também podem vir a ser responsabilizados. A partir de quando a Ambev compra açúcar associado a queimadas no Nordeste, ela pode ser responsabilizada. Ou com pulverização aérea de agrotóxicos sem licenciamento ambiental. Nós temos de abrir o leque para tentar buscar saídas. É como um jogo de futebol americano, em que a gente vai avançando polegada por polegada”, disse.

Novaes ainda defendeu a participação popular nesse combate difícil. “Temos de avançar em uma igreja, em uma faculdade. A gente tem de tentar outras maneiras para tratar o assunto. Essa ação para banir os banidos já foi feita individualmente por procuradores da República. Estão lá nos escaninhos de algum tribunal regional. Muitas vezes uma ação individual, sem diálogo com a sociedade civil, é um tiro no pé”.


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Este texto foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Centenas de organizações da sociedade civil global pedem a eliminação progressiva dos agrotóxicos altamente perigosos

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Por Sustainable Pulse

A sociedade civil e as organizações dos Povos Indígenas, num total de 373, de 74 países, instaram os líderes numa conferência global histórica a agir com urgência para eliminar gradualmente os Agrotóxicos Altamente Perigosos (HHPs), um grupo específico de agrotóxicos que causam os danos mais graves à saúde humana e ao ambiente e são considerados muito perigosos para uso.

 carta-petição  aos governos e outras partes interessadas da Abordagem Estratégica sobre Gestão Internacional de Produtos Químicos (SAICM) foi apresentada na abertura da Quinta Conferência Internacional sobre Gestão de Produtos Químicos (ICCM5), com a exigência de incluir no novo quadro SAICM Beyond 2020 uma meta ambiciosa. O objetivo é eliminar gradualmente os HHP na agricultura até 2030. O ICCM5 espera ratificar o Quadro SAICM Beyond 2020, um instrumento político que define a direção da política global de produtos químicos nas próximas décadas.

“Outros fóruns e quadros políticos internacionais, incluindo acordos multilaterais sobre alterações climáticas e perda de biodiversidade, assumiram compromissos políticos direcionados significativos sobre grandes crises que representam ameaças existenciais à humanidade e ao planeta. No entanto, os HHPs permaneceram em grande parte sem solução”, dizia a carta.

Todos os anos, quase 400 milhões de agricultores e trabalhadores agrícolas são envenenados por pesticidas, resultando em cerca de 11.000 mortes – a maioria das quais ocorre no Sul Global. Por serem altamente tóxicos, os HHPs são responsáveis ​​por um grande número desses incidentes de intoxicação aguda.

“Com todas as provas científicas e documentação disponível sobre casos de envenenamento, poluição do solo e da água devido a agrotóxicos altamente perigosos, é urgente tomar decisões ambiciosas para a eliminação progressiva dos PAP até 2030. A PAN International e os seus parceiros denunciam o domínio do agroquímico indústrias em acordos internacionais e apelam ao estabelecimento de uma Aliança Global para a eliminação progressiva dos PAN e a sua substituição por práticas agroecológicas saudáveis ​​e sustentáveis”, afirmou Maimouna Diene, Presidente da PAN International.

Os grupos – representando agricultores, trabalhadores rurais, PIs e outros povos rurais; sindicatos; profissionais ambientais e de saúde; cientistas e academia; vítimas de envenenamento por pesticidas; e defensores dos consumidores e dos direitos em todo o mundo – também apelaram ao ICCM5 para:

  • Incluir uma meta para todos os países proibirem a exportação de substâncias que tenham proibido a nível nacional, muitas das quais serão PAP (ou seja, é preciso acabar com os “padrões duplos” no comércio de agrotóxicos);
  • Incluir uma meta para que todos os países implementem políticas e programas para apoiar alternativas não químicas mais seguras e sustentáveis ​​aos PAP, especialmente a agroecologia; e
  • Apoiar a proposta de 54 governos africanos para estabelecer uma Aliança Global sobre Agrotóxicos Altamente Perigosos, trabalhando para eliminar progressivamente os PAP.

“Para que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável sejam alcançados, o colapso ecológico deve ser evitado e os direitos humanos devem ser respeitados – incluindo o direito à alimentação e o direito das gerações futuras a um ambiente limpo e saudável – todos devem trabalhar juntos para eliminar os agrotóxicos mais perigosos do mundo e a introdução e ampliação de alternativas agroecológicas mais seguras”, afirmava a carta.

Os grupos abordaram os receios de que a eliminação progressiva dos PAP seja prejudicial para a segurança alimentar, afirmando que, pelo contrário, os impactos tóxicos dos PAP nos ecossistemas afectam negativamente a produtividade.

“Os HHP foram gradualmente eliminados na agricultura em vários países sem afetar a produtividade agrícola. Isto foi reconhecido pela Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Já existem alternativas mais seguras aos HHPs. As abordagens agroecológicas, em particular, provaram ser alternativas eficazes e sustentáveis.”

“Os agricultores são levados a acreditar que os agrotóxicos são as escolhas fáceis para os problemas que enfrentam na produção agrícola. Os PAP estão a ser promovidos como respostas técnicas para problemas sociais, e os agricultores são muitas vezes levados a sentir que não há outra maneira. No entanto, os agricultores que foram prejudicados pelos HHPs e perderam membros da família devido ao envenenamento estão ativamente à procura de alternativas mais seguras – os governos devem liderar o caminho para apoiá-los na transição dos HHPs”, Dr. Narasimha Reddy Donthi, Conselheiro da Associação Maharashtra de Pessoas Envenenados por Agrotóxicos, concluiu.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Sustainable Pulse [Aqui!].

Sementes geneticamente modificadas ainda não dominaram as vastas plantações da Índia

sojaSementes de soja – um item popular na agricultura OGM. O mais alto tribunal da Índia bloqueou a plantação de culturas geneticamente modificadas.

A engenharia genética de culturas – onde são inseridos genes do mesmo ou de outro organismo – pode aumentar a resistência de uma planta às pragas, ajudá-la a crescer em condições difíceis, como a seca, e aumentar os seus níveis de nutrientes.

Então, como é que as empresas multinacionais não conseguiram prejudicar nenhum dos principais produtores e consumidores de alimentos agrícolas na Índia?

A multinacional norte-americana Monsanto, através de uma subsidiária indiana, a Mahyco, conseguiu promover o algodão Bt, um produto não alimentar. Geneticamente modificado para produzir proteínas emprestadas da bactéria do solo Bacillus thuringiensis, tem como objetivo matar a praga mortal da lagarta rosa.

Mas isso foi há 20 anos e nenhuma outra cultura geneticamente modificada, alimentar ou não alimentar, conseguiu desde então entrar nas explorações agrícolas indianas.

As culturas alimentares estão a revelar-se particularmente difíceis de quebrar para as empresas geneticamente modificadas. Para começar, a grande população de vegetarianos da Índia, estimada em 40 por cento dos seus 1,4 mil milhões de habitantes, não aceita bem a ideia de haver alimentos modificados sob qualquer forma na mesa.

Em segundo lugar, embora as culturas geneticamente modificadas sejam promovidas como forma de poupar pesticidas tóxicos, a maioria exige a utilização de herbicidas com glifosato e glufosinato, que não são menos tóxicos.

Em 2015, a Organização Mundial da Saúde identificou o glifosato como um provável carcinógeno humano, acrescentando combustível ao debate sobre a segurança das culturas geneticamente modificadas.

Além disso, genes adicionais de espécies estranhas são colocados em camadas para proteger as plantas de herbicidas, o que torna sua produção mais cara.

A forma como o algodão Bt surgiu na Índia, apanhando os reguladores do país desprevenidos e forçando-os a aprovar um facto consumado, também não inspirou confiança pública.

O algodão Bt domina agora os 12.000 hectares que a Índia possui sob explorações de algodão. No entanto, a praga da lagarta rosada está a começar a mostrar sinais de resistência às proteínas Bt, levando alguns agricultores a regressar aos pesticidas.

A entrada furtiva do algodão Bt na Índia galvanizou ambientalistas e activistas a recorrerem ao Supremo Tribunal em 2004 para garantir uma regulamentação mais rigorosa de todas as culturas geneticamente modificadas.

Até agora, o tribunal, que criou o seu próprio comité de peritos, não tem sido favorável aos apelos do conselho governamental de que as culturas alimentares geneticamente modificadas são essenciais para alimentar a grande população da Índia.

Na última audiência, a 29 de Agosto, o Supremo Tribunal indicou que não se apressaria a permitir a plantação de mostarda geneticamente modificada na época de sementeira de Setembro.

“Um ano aqui ou ali não importa”, disse o juiz BV Nagarathna, membro da bancada.

“Esta é apenas uma temporada. No próximo ano haverá outra temporada. No entanto, os danos ambientais não podem ser revertidos.”

O tribunal estava ouvindo depoimentos apresentados por litigantes contra a aprovação do governo, em fevereiro, da “liberação ambiental” da mostarda geneticamente modificada. A liberação ambiental está a um passo do cultivo comercial completo.

O governo, no entanto, alertou que o assunto estava sob julgamento no Supremo Tribunal.

Inversão de marcha no GM

A mostarda geneticamente modificada não foi a primeira cultura alimentar geneticamente modificada desenvolvida na Índia e depois proibida.

Mahyco usou genes do mesmo B.thuringiensis para produzir berinjela Bt (também conhecida como berinjela ou berinjela) apenas para ver o governo ordenar uma moratória na semeadura, com base no feedback das consultas com as partes interessadas.

Mahyco, embora frustrado com a moratória, negociou com sucesso com o vizinho Bangladesh a aceitação da berinjela Bt. Em 2018, o conglomerado alemão Bayer comprou a Monsanto, ganhando o controlo da Mahyco e em 2022 os novos proprietários tinham assegurado um acordo semelhante com as Filipinas.

A FAO reconhece as preocupações sobre os riscos potenciais das culturas geneticamente modificadas levantadas pelos cientistas, pelo público e pelos reguladores, incluindo as pragas que se tornam resistentes aos pesticidas e aos alimentos geneticamente modificados que colocam problemas de segurança para os seres humanos e os animais. No entanto, insiste que os benefícios superam esses riscos.

A FAO afirma que mais de 17 milhões de agricultores estão plantando culturas geneticamente modificadas em 29 países e a “colher rendimentos mais elevados com uma utilização reduzida de pesticidas e uma melhor gestão de ervas daninhas, entre outros benefícios”. Mas isso não parece convincente na Índia, que sozinha tem 120 milhões de agricultores.

Os sentimentos pró-vegetarianos, os receios dos agricultores de que os herbicidas que os acompanham pudessem destruir outras culturas plantadas numa base rotativa, e as exigências de uma regulamentação mais rigorosa e transparente por parte dos litigantes detiveram a mão do governo.

Os litigantes citam o caso da variedade de algodão Bt tolerante a herbicidas (HT), ou algodão HTBt, obrigando os produtores de algodão indianos a adicionar herbicidas à sua lista crescente de insumos agrícolas dispendiosos.

Esperava-se que a Índia, um grande importador de óleo comestível, comprasse até 14 milhões de toneladas de óleo comestível durante a temporada de setembro de 2022 a outubro de 2023. Paradoxalmente, a Índia é também o principal exportador mundial de óleos comestíveis – especialmente óleo de mostarda.

Preocupações com o glifosato

Mas um exame mais atento mostra que o óleo de mostarda “branca” que os comerciantes indianos importam é na verdade canola, extraída da colza, uma variedade de mostarda geneticamente modificada para ser tolerante a herbicidas.

No Canadá, onde a canola é uma das principais culturas do país, os herbicidas, especialmente o glifosato, poupam aos produtores o custo de arrancar ervas daninhas. Citando a aparente negligência relativamente à utilização do glifosato, um estudo publicado em Janeiro acusa os reguladores do Canadá de “abraçarem as narrativas da indústria” e de recorrerem a “tomadas de decisões opacas e falta de transparência” para promover interesses comerciais em detrimento dos imperativos da saúde pública e da protecção ambiental.

Estas são também as acusações que os litigantes estão a levantar contra os reguladores da Índia – concedendo autorizações para a mostarda geneticamente modificada e o herbicida glufosinato que a acompanha. Banido na UE desde 2020, o glufosinato apresenta perigos adicionais para os indianos que utilizam não só o óleo, mas também as sementes e folhas na cozinha tradicional.

A mudança para culturas geneticamente modificadas para poupar em pesticidas fez com que os produtores tivessem de usar herbicidas – de modo que existe uma confusão entre um tipo de agroquímico tóxico e outro. Os OGM também normalmente abordam apenas uma única praga quando há várias que exigem o uso de pesticidas.

Com a lagarta rosada a tornar-se resistente às proteínas Bt, a realidade é que os agricultores estão longe de estarem livres de pesticidas – um insumo agrícola já dispendioso, ao qual será necessário adicionar herbicidas.

Por enquanto, o principal obstáculo para os proponentes das culturas alimentares geneticamente modificadas é o facto de o próprio comité técnico de peritos do Supremo Tribunal ter recomendado fortemente a proibição total das culturas tolerantes a herbicidas no país.

Dado que o governo preferiu deixar a questão para o tribunal, é seguro dizer que poderá levar anos até que as culturas alimentares geneticamente modificadas cheguem aos portões das explorações agrícolas da Índia.


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Este artigo foi escrito originalmente em inglês pela área Ásia e Pacífico do SciDev.Net e publicada [Aqui!].

Pesquisadores da USP criam sensor de papel que detecta forma de caseira contaminantes na água, incluindo agrotóxicos

sensores-papel-996x567Usar os copos de água como vertedouros de todo tipo de lixo afeta a qualidade da água usada nas residências. Crédito da imagem: Alexander Schimmeck/Unsplash . Foto no domínio público

Projetado por pesquisadores brasileiros, o dispositivo consiste em um pedaço de caixa, sobre qualquer um que dispare um raio de laser. Este processo converte a celulose em carbono, um material com propriedades elétricas. A seguir, é adicionada uma solução com nanopartículas de ouro, que gera a reação eletroquímica que identifica as substâncias na água.

Ao receber o raio de laser, o cartão converte a celulose em carbono. Adicionar uma solução com nanopartículas de ouro gera a reação eletroquímica que identifica as substâncias na água. Crédito da imagem: Cortesia de Thiago Paixão para SciDev.Net

“Quanto maior for a corrente elétrica, maior a presença do composto químico ou dos contaminantes que você deseja identificar”, assinalou ao SciDev.Net o químico Thiago Paixão, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), um dos os autores do artigo publicado na revista Sensors & Diagnostics fornecendo a contagem dos resultados.

No laboratório, o sensor obtuvo desempenhos equivalentes aos dispositivos mais caros usados ​​para detectar rastros de hipoclorito de sódio, matéria prima para a produção de lejía. Esta substância é comumente usada para regular a qualidade da água da casa e das piscinas, mas em quantidades elevadas pode prejudicar a saúde humana.

“Estamos falando de um dispositivo descartável de uso seguro, que poderia ser distribuído à população para monitorar a qualidade da água em sua própria casa”, acrescenta Paixão.

Se estima-se que até 5.500 milhões de pessoas, especialmente nos países em desenvolvimento, tenderão a ter contato regular com água contaminada em 2100, o que provavelmente terá efeitos na saúde pública, segundo um estudo na revista Nature Water .

O sensor pode ser facilmente adaptado ao monitoramento de outros compostos químicos de interesse para a saúde . “Um exemplo de uso seria a medição dos níveis de mercúrio na água dos rios consumidos por comunidades indígenas e ribeirinhas que habitam em áreas próximas às centrais hidrelétricas da Amazônia”, acrescenta o químico.

O sensor mede apenas 3 centímetros e seu custo de fabricação é de R$ 0,50 (alrededor de US$ 0,10). Mas seu valor final arrecadou R$ 10 (aproximadamente US$ 2), considerando os outros componentes do dispositivo, como a caixa que o enjoa e a tela que mostra o resultado da meditação.

“Estamos falando de um dispositivo descartável de uso seguro, que poderia ser distribuído à população para monitorar a qualidade da água em sua própria casa”.

Thiago Paixão, Instituto de Química da Universidade de São Paulo, Brasil

Se uma empresa fosse fabricada em grande escala, o dispositivo seria convertido em um aparelho portátil e barato e poderia ser produzido em qualquer parte do mundo depois de Paixão.

Um dos principais desafios de garrafa enfrentados por pesquisadores é que muitas empresas não têm interesse em produzir novas tecnologias para considerar incipientes. “Seria necessário realizar inversões para promover a transferência de tecnologia para a indústria, através de acordos de licença e desenvolvimento de colaborações, o que nem sempre é fácil ou rápido”, disse o químico José Luiz Bott Neto, do Instituto de Física de São Paulo. Carlos (IFSC) da USP, que não participou do estudo em Sensors & Diagnostics .

No entanto, além do uso de nanopartículas de ouro ser prometido, isso aumenta a condutividade do papel e intensifica a sensibilidade do sensor. “O dispositivo também é sustentável, já que é fabricado com material biodegradável, para reduzir o impacto ambiental de sua eliminação”, comentou.

O pesquisador está em contato com algumas empresas interessadas, como a Empresa de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, uma das maiores do mundo em termos de ingressos e população atendida pelos serviços prestados (28,4 milhões de pessoas).

A equipe espera patentear a tecnologia no escritório brasileiro de patentes antes do final do ano.

Sensores de papel, usos múltiplos

O potencial dos sensores de papel para diversas aplicações é enorme, especialmente em ambientes com recursos limitados. São simples de fabricar, econômicos, fáceis de operar, portáteis e desmontáveis, e atraem cada vez mais a atenção de vários grupos de investigação no Brasil.

Científicos do Instituto de Química da Universidade Federal de Goiás, por exemplo, criaram um sensor de papel capaz de medir os níveis de glicose na lágrima de indivíduos com diabetes

O dispositivo funciona como sensores de embarque portáteis, podendo dar uma resposta positiva ou negativa, mas também quantitativa. É composto por papel de filtro impregnado com reativos químicos que mudam de cor ao entrar em contato com a glicose na lágrima. Quanto mais azul se volta o papel, mais alterado é o nível de açúcar em sangue.

Assim, o paciente só precisa tirar um olhar para obter o resultado em minutos, sem ter que apertar o dedo. “Cada sensor cuesta alrededor de R$ 0,10 (aproximadamente US$ 0,02), por lo que cremos que resultaria em um horror para o sistema público de saúde, responsável por comprar e distribuir o aparelho para medir a glicose, as tiras reativas e lancetas”, assinalou a química Ellen Flávia Moreira Gabriel, uma das inventoras do dispositivo.

No IFSC-USP, um pesquisador desenvolveu um sensor eletroquímico de papel kraft capaz de detectar a presença de pesticidas em frutas e verduras em tempo real.

Ao entrar em contato com maçãs ou repolhos, por exemplo, o sensor, conectado a um dispositivo eletrônico, identifica a presença e mede a quantidade do fungicida carbendazim , amplamente utilizado no Brasil, apesar de ser proibido.

“É muito mais fácil e barato, além de muito mais confiável para que supermercados, restaurantes ou importadores realizem a verificação”, disse o físico Osvaldo Novais de Oliveira Junior, professor do IFSC-USP, um dos autores do dispositivo.

Acesse o artigo completo sobre Sensor e Diagnóstico


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Este artigo foi produzido pela edição da América Latina e Caribe do  SciDev.Net e publicado aqui [Aqui!]