Depois de decisão do STF, mais dez estados podem proibir pulverização de agrotóxicos por aviões

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Fonte: Pixabay

Após o Supremo Tribunal Federal (STF) reconhecer a constitucionalidade da Lei do Ceará que proíbe o uso de aviões para pulverizar agrotóxicos, outros dez estados poderão aprovar legislações similares. Os projetos de lei tramitam nas assembleias legislativas de unidades da federação que respondem por grande parte da produção agropecuária e por um elevado consumo de pesticidas, como Pará, Mato Grosso e São Paulo.

A Lei “Zé Maria do Tomé”, batizada em homenagem a um ativista ambiental assassinado em 2010 no interior do Ceará, vinha sendo questionada há quatro anos por uma ação da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A entidade alegava que o estado não poderia proibir uma atividade regulamentada pela União e argumentava que a lei violava a livre iniciativa, explica o Repórter Brasil. No entanto, no final de maio, o STF decidiu por unanimidade pela constitucionalidade da legislação.

A chancela da Corte deu fôlego a parlamentares de todo país que tentam proibir a aplicação de agrotóxicos por aeronaves em seus estados, reforça a Agência Pública. “A decisão do Supremo é importante porque assegura a competência que os estados têm para legislar sobre essa pauta”, disse Lúdio Cabral (PT), deputado estadual do Mato Grosso. Neste ano, ele já apresentou seis PLs que restringem o uso de agrotóxicos – e um deles proíbe a pulverização aérea.

Mato Grosso é o principal consumidor de agrotóxicos do país. Em 2021, cerca de 150 mil toneladas de pesticidas foram vendidas no estado, aumento de 13% em relação ao ano anterior. Para ganhar mais visibilidade, Cabral planeja converter a proposta em um PL de iniciativa popular, com coleta de assinaturas da população.

A pulverização aérea de pesticidas pode estar por trás da intoxicação de indígenas no Mato Grosso do Sul. O deputado estadual Zeca do PT pediu ao Ministério Público Federal (MPF) investigação “com urgência” de casos próximos da propriedade rural Caiuaná, da Missão Evangélica Caiuá. Ela está localizada nos arredores das aldeias Jaguapiru e Bororo, onde vivem cerca de 13 mil Guarani-Kaiowá. Há relatos de animais mortos, e uma indígena ficou cega supostamente por causa do veneno, relata o Correio do Estado.Não bastasse o Brasil ser o campeão mundial no uso de agrotóxicos e o principal destino de pesticidas barrados no exterior, como lembra a cardiologista Ludhmila Hajjar, em artigo nO Globo, o país ainda convive com a falsificação e o comércio irregular de defensivos. A Polícia Civil de Goiás apreendeu um avião particular avaliado em R$ 10 milhões durante uma operação de combate a esses crimes no estado. Sete pessoas foram presas, de acordo com g1Metrópoles e CBN.

ClimaInfo, 20 de junho de 2023.


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Este texto foi originalmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Por que agrotóxicos não pagam imposto?

Decisão sobre isenção e redução fiscal de venenos é novamente adiada no Supremo Tribunal Federal – benefício ao mercado de agrotóxicos já dura 25 anos

agro greenProjeção em Brasília em contra os benefícios fiscais para agrotóxicos – junho de 2023. Foto: Greenpeace Brasil

Por Andressa Santa Cruz para o Greenpeace Brasil

Mais uma vez, a decisão sobre os benefícios tributários concedidos aos agrotóxicos foi adiada. Depois de dois anos, o Supremo Tribunal Federal (STF) retomou, em 9 de junho, a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5553 que discute isenção e redução fiscal para agrotóxicos. Mas o julgamento foi suspenso novamente no dia 14, após pedido de vista do ministro André Mendonça. Agora, o processo tem até três meses para voltar à pauta. 

Neste momento, o placar está empatado em 1 a 1: o ministro relator, Edson Fachin, votou contra os subsídios para venenos e Gilmar Mendes abriu divergência votando a favor. Apesar dos prejuízos ao meio ambiente, à saúde pública e à economia, agrotóxicos possuem isenção de impostos há mais de 25 anos. Para reverter essa realidade, a ação foi protocolada no STF em 2016. 

“Acabar com esse tipo de benefício aos agrotóxicos seria um avanço gigantesco rumo a melhores políticas públicas”, explica Marina Lacorte, porta-voz de Agricultura do Greenpeace Brasil. “É assim que construímos uma agricultura realmente mais moderna: mudando velhas regras que não fazem sentido para o bem comum, e abrindo espaço para a criação de medidas mais justas”.

Lucro de poucos X bem-estar de todos

O que está em jogo no STF é a decisão sobre a constitucionalidade da redução de 60% do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços) e isenção total do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) de determinados tipos de agrotóxicos, asegurados pelas cláusulas 1ª e 3ª do Convênio nº 100/97 do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) e o Decreto 7.660/2011.  

Quanto mais o STF demora para julgar a isenção tributária para agrotóxicos, maior é o impacto socioambiental e aos cofres públicos. Cerca de R$10 bilhões deixaram de ser arrecadados só no ano de 2017 devido às vantagens fiscais concedidas à comercialização de venenos, segundo levantamento da Abrasco (Associação Brasileira de Estudos em Saúde Coletiva). 

Reprodução Greenpeace

Essencial pra quem?

O agronegócio se vale da máxima de que os venenos são cruciais para o desenvolvimento do país e, por isso, devem ter seu comércio facilitado. No entanto, os subsídios, isenções e reduções tributárias às substâncias tóxicas estimulam um uso intensivo que viola os direitos fundamentais à saúde e ao ambiente equilibrado – garantidos na Constituição brasileira –, além de onerar os cofres públicos. 

Um dos principais argumentos dos ruralistas é que, sem a isenção fiscal para agrotóxicos, o preço dos alimentos e custo aos pequenos e médios agricultores iria aumentar. Mas isso é mentira! Primeiro, porque a maior parte dos venenos são usados para as commodities – produtos que são majoritariamente exportados pelo agronegócio, como soja, milho e cana. E, na verdade, quem mais coloca comida no prato da população brasileira é a agricultura familiar. 

Em segundo lugar, precisamos corrigir uma lógica equivocada. Esses benefícios fiscais só existem porque, atualmente, os agrotóxicos são considerados produtos essenciais à população, mesmo não sendo. O correto seria o governo conceder mais subsídios para garantir comida saudável na mesa de TODAS as famílias do país. Para isso, é urgente e necessário criar políticas de incentivo e transferir benefícios fiscais para a agricultura familiar e agroecológica. 

Ou seja, mexer com o imposto dos agrotóxicos é mexer com o bolso de quem comercializa esses venenos, não de quem compra o alimento de cada dia, como o arroz e o feijão. 

Reprodução Greenpeace.

Entenda o caso no STF

Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5553 virou uma arena de disputa entre setores ruralistas e a sociedade civil e científica. O caso foi protocolado pelo PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) em 2016, mas o julgamento só teve início em 2020 com voto do ministro-relator, Edson Fachin, que se posicionou contra a isenção e redução tributária a agrotóxicos. Em novembro do mesmo ano, o caso foi suspenso após pedido de vista do ministro Gilmar Mendes. 

Em 9 de junho de 2023, o julgamento foi retomado e Mendes votou a favor dos benefícios ao mercado de agrotóxicos, empatando o placar de votos em 1 a 1. Como o ministro André Mendonça pediu vista no último dia 14, o julgamento foi novamente suspenso e tem até três meses para voltar à pauta do STF. 


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Este texto foi originalmente publicado pelo Greenpeace Brasil [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: com mais 53 liberações, governo Lula alcança 179 agrotóxicos em menos de 6 meses

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Como já observei aqui, no seu discurso da vitória, o presidente Lula se comprometeu a trabalhar para a adoção de um novo modelo agrícola que tivesse mais compromissos com a segurança alimentar e com a proteção no meio ambiente. Passados quase 6 meses de governo, o fato é que a promessa de uma agricultura de bases ecológicas está firmemente abandonada em alguma gaveta do ministério da Agricultura comandada pelo ruralista e apoiador do “Pacote do Veneno”, Carlos Fávaro.

Uma prova disso foi a publicação no Diário Oficial da União desta segunda-feira (19/6) do Ato Nº 26 de 15 de junho de 2023 que traz a liberação de mais 53 agrotóxicos, o que totaliza um total de 179 agrotóxicos liberados desde o início do terceiro mandato do presidente Lula. 

Ao examinar a lista destes 53 agrotóxicos, encontrei as mesmas tendências mostradas nas muitas liberações feitas pelo governo de Jair Bolsonaro, a começar pela hegemonia de empresas chinesas e europeias no oferecimento de venenos agrícolas, muitos deles banidos na União Europeia.

Uma outra tendência que se mantém é que a maioria dos agrotóxicos liberados está destinada às monoculturas de exportação, especialmente a soja e o milho. Há que se lembrar que as monoculturas de exportação como soja, milho e cana de açúcar concentram algo em torno de 70% do consumo total de agrotóxicos no Brasil.

Os custos econômicos e sociais do uso intensivo de agrotóxicos são astrônomicos, na medida em que os fabricantes de venenos agrícolas possuem grandes benefícios fiscais e tributários, com o ônus associados à contaminação generalizada da água, solos e alimentos recaindo diretamente sobre a população brasileira, como já tem sido demonstrado por inúmeros estudos científicos.

Como em outras áreas em que as promessas eleitorais foram esquecidas (a questão do cancelamento do Novo Ensino Médio, por exemplo), não haverá mudança no rumo da marcha do veneno sem cobrança direta ao presidente Lula pelo descumprimento do que foi alardeado por ele para convencer milhões de brasileiros a elegê-lo mais uma vez como presidente da república. 

A questão dos agrotóxicos é grave demais para ser deixada de lado, pois a cada novo produto aprovado aumentam-se os riscos de contaminação e adoecimento dos brasileiros.

Acre supera estados brasileiros no índice de intoxicação por agrotóxicos

Com o aumento do agronegócio em algumas regiões do país, o Ministério da Saúde, através de um Boletim Epidemiológico, revelou que o Acre supera 6 estados no coeficiente de incidência por 1000 mil habitantes de intoxicação exógena por agrotóxico, um conjunto de efeitos nocivos ao organismo.

O Acre tem um coeficiente de 45,6 e supera estados como Amazonas, com 17,4; Amapá, com 10,1; Maranhão, com 18; Pará, com 26,1; Rio de Janeiro, com 30,7 e Rio Grande do Norte, com 31,7. Os dados são da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, do Ministério da Saúde.

Foto: Reprodução/Ministério da Saúde

A exposição humana ao agrotóxico constitui um problema de saúde pública, sobre qual o setor Saúde tem ampliado constantemente sua atuação. Segundo a Lei nº 7.802, de 11 de julho de 1989, os agrotóxicos são produtos e agentes de processos físicos, químicos ou biológicos destinados à alteração de composição da flora ou da fauna.

“Os agrotóxicos impactam na saúde humana devido à sua toxidade, produzindo efeitos variados conforme o princípio ativo, a dose absorvida e a forma de exposição. As consequências da exposição aos agrotóxicos resultam em diferentes efeitos na saúde, como alergias a distúrbios gastrointestinais, endócrinos e neurológicos, neoplasias ou mesmo óbito. Os grupos mais vulneráveis a esses efeitos são os trabalhadores que tem contato direto ou indireto com esses produtos, bem como crianças,
grávidas, recém-nascidos, idosos e aqueles com a saúde debilitada (BRASIL, 2017)”, diz um trecho do Boletim.

Foto: Reprodução/Ministério da Saúde

Uma das estratégias para promover a qualidade de vida e reduzir, controlar ou eliminar os riscos à saúde de populações expostas ou potencialmente expostas a agrotóxicos é o desenvolvimento de medidas preventivas, protetivas e de promoção à saúde, preconizadas pela Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos (VSPEA).

Com os estudos para implantação da VSPEA foi divulgado que há 11 notificações de intoxicação exógena por agrotóxicos a partir de 2021 no Acre, nos municípios selecionados pelo Plano Nacional de Saúde (PNS) e pelas Secretarias Estaduais de Saúde (SES).

Foto: Reprodução/Ministério da Saúde

Intoxicação exógena

Segundo o Sanarmed, a intoxicação exógena pode ser definida como um conjunto de efeitos nocivos ao organismo produzidos pela interação de um ou mais agentes tóxicos com o sistema biológico, representados por manifestações clínicas ou laboratoriais que revelam desequilíbrio orgânico.

A gravidade das intoxicações é determinada por diversos fatores, dentre eles, o grau de toxicidade do agente, a quantidade de substância a que o paciente foi exposto, o tempo decorrido entre o acidente e a intervenção médica, além de fatores do próprio indivíduo, como idade e competência imunológica.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo ContilNet [Aqui!].

Cerrado pede socorro. Fontes que servem comunidades têm resíduos de até nove agrotóxicos

Dado é de uma pesquisa envolvendo a Fiocruz, Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, entre outras entidades, em localidades no Tocantins, Goiás, Maranhão, Piauí, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Bahia

nascente-contaminadaCada vez mais espremido pelo agronegócio, o Cerrado tem nascentes e cursos d’água totalmente contaminados

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – Considerado o berço das águas no Brasil, o Cerrado está contaminado pelos agrotóxicos presentes em nascentes, rios, lagoas, açudes, represas, cacimbas e até em poços residenciais. Na região onde nascem os rios importantes como o Paraguai, Paraná, São Francisco, Parnaíba,Tocantins, Araguaia, Tapajós e Xingu, entre outros, as comunidades estão bebendo águas poluídas por diversos ingredientes ativos altamente tóxicos despejados sobre os latifúndios de commodities.

A gravidade da situação é tamanha que, dependendo da localidade, é possível encontrar na água de abatecimento um mix de até nove ingredientes ativos. Não bastasse a variedade, amostras demonstram também que se tratam de substâncias altamente tóxicas, em altíssimas concentrações.

Estas são algumas das conclusões de uma série de testes de qualidade da água coletada em sete diferentes regiões do bioma Cerrado. Ou seja, em localidades nos estados do Tocantins, Goiás, Maranhão, Piauí, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Bahia, em zonas de transição ecológica com a Amazônia e o Pantanal. O trabalho conjunto envolvendo a Fiocruz, Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, entre outras entidades, culminou com o relatório Vivendo em territórios contaminados: Um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado, lançado esta semana.

Fruto de uma “pesquisa-ação” implementada entre 2021 e 2022, análises toxicológicas e ambientais, o relatório mostra dados no mínimo preocupantes. Na comunidade quilombola Cocalinho, em Parnarama, Maranhão, uma única amostra continha resíduos de Atrazina, Ciproconazol, Difenoconazol, Epoxiconazol, Glifosato, Metolacloro, Picoxistrobina, Piraclostrobina e Trifloxistrobina. Ou seja, nove dos 13 ingredientes ativos encontrados no conjunto das amostras. Entre eles, a Atrazina, Ciproconazol, Epoxiconazol e o Picoxistrobina estão banidos na União Europeia por desencadearem diversos tipos de câncer, malformações fetais e diversas alterações no organismo.

A gente precisa do Cerrado vivo, diz vítima dos agrotóxicos

Na comunidade vivem 170 famílias, cujos antepassados chegaram à região entre o final do século 18 e começo do século 19. Antes de se fixarem ali, percorreram diversos pontos em busca de cursos d’água que ainda estivessem fora dos domínios dos coroneis da época. A cultura praticada ali em pequenas roças é variada: milho, arroz, mandioca, cana-de-açúcar, feijão, maxixe, quiabo, abóbora, melancia, melão, fava, chuchu, pimenta-malagueta, cebolinha, coentro, alface, couve, inhame e batata doce.

Entre elas está a da agricultora Raimunda Nepomuceno. Nesta quinta-feira (1º), em debate na Câmara, ela relatou a grave situação de quem convive com a pulverização de venenos. “Quando falamos dos venenos, falamos de algo muito perigoso que está destruindo as nossas vidas, a natureza. As pessoas sofrem muito, com câncer, doenças de pele. Tomar água com agrotóxicos todo dia, se alimentar de alimento contaminado. É muito difícil pra nossa gente. A gente precisa de ajuda para sobreviver. Com agrotóxicos não temos território, não temos água. A gente precisa do nosso Cerrado vivo. E para isso precisamos proteger”, disse Raimunda, em um apelo.

Um dos cursos de água poluída por agrotóxicos que servem a comunidade Cocalinho. Foto: CPT

O racismo ambiental a que estão as comunidades de Cocalinho e outras inseridas na pesquisa foi alvo de da petição da Campanha Nacional do Cerrado ao Tribunal Permanente dos Povos, em novembro de 2019. No ano passado, o Estado brasileiro foi condenado pelo ecocídio do Cerrado e o genocídio de 15 povos tradicionais e originários do bioma. Foram condenados também governos estaduais, organizações multilaterais e governos internacionais, empresas brasileiras e multinacionais. Inclusive fundos de investimento envolvidos na destruição ambiental e das condições de vida das comudades.

Outros agrotóxicos encontrados nas amostras de água

  • Glifosato– detectado em todos as amostras. A substância foi proibida pela Autoridade Europeia para Segurança dos Alimentos (EFSA) devido à ausência de evidências suficientes para estabelecer limites de segurança para exposição crônica, mas segue autorizada no Brasil.
  • Metolacloro– além de ser proibido na União Europeia, é suspeito de ser desregulador endócrino e sua exposição está associada ao aumento da incidência de tumores, em particular hepáticos. Além disso é considerado perigoso para o meio ambiente.
  • Fipronil – tem como alvos primários o sistema nervoso, a tireoide e o fígado. Foi classificado pela USEPA como um possível carcinógeno humano, devido à ocorrência de tumores na tireoide. Esse ingrediente ativo também está associado a milhares de casos de intoxicação, inclusive graves.
  • Atrazina– o terceiro agrotóxico mais detectado nas análises, presente em todos os estados em ao menos um ciclo de coleta de amostras, exceto no Mato Grosso. No Maranhão, os níveis de atrazina detectados na comunidade de Cocalinho foram mais de 2 vezes superiores ao valor máximo permitido segundo as normativas brasileiras. Dos oito agrotóxicos identificados e quantificados, quatro estão entre os 10 mais comercializados no Brasil em 2021. O glifosato está na primeira posição. O segundo é o 2,4-D, seguido pela atrazina e o metolacloro, na décima posição.

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Este texto foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Dossiê aponta presença de agrotóxicos na água de sete comunidades tradicionais do Cerrado

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Por Campanha do Cerrado 

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado lançou hoje, 30/05, a publicação “Vivendo em territórios contaminados: Um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado”. O material apresenta os resultados da “pesquisa-ação” implementada, entre 2021 e 2022, em sete territórios do Cerrado e que realizou análises toxicológicas e ambientais sobre a qualidade das águas em comunidades dessas localidades. Na maioria dos casos, as amostras de águas coletadas e analisadas pela pesquisa são oriundas de nascentes, córregos e rios que abastecem as comunidades, sendo utilizadas para a irrigação de plantações, consumo animal e, em algumas situações, também para o consumo humano. As comunidades que fizeram parte da pesquisa situam-se nos estados do Tocantins, Goiás, Maranhão, Piauí, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Bahia, em regiões do Cerrado e de zonas de transição com a Amazônia e o Pantanal.

A publicação é uma iniciativa da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz  (Fiocruz). A pesquisa em campo contou com o apoio de agentes da CPT de Tocantins, Goiás, Maranhão, Piauí e Mato Grosso do Sul, da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) no Mato Grosso e da Agência 10envolvimento, na Bahia.

BAIXE AQUI O DOSSIÊ

Destaques

Os resultados da investigação foram apresentados na manhã de hoje durante evento presencial em Brasília. Participaram da atividade membros das comunidades que participaram da pesquisa, reprepresentantes da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, da CPT, da Fiocruz, além de representantes do sistema de Justiça, como o defensor público estadual Pedro Alexandre Gonçalves, do Tocantins, o promotor do Ministério Público Estadual (MPE) no Mato Grosso do Sul Marco Antonio Delfino, a promotora do MPE na Bahia Luciana Khoury, Marina Mignot Rocha, do GT de Garantia à Segurança Alimentar e Nutricional da DPU (Defensoria Pública da União), e Sandra Maria da Silva Andrade, representando a CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos) e CNDH (Conselho Nacional dos Direitos Humanos).

 Durante a exposição dos resultados, alguns dados mereceram destaque:

  • O glifosato foi detectado em todos os estados no qual a pesquisa-ação foi realizada. Essa substância foi proibida pela Autoridade Europeia para Segurança dos Alimentos (EFSA) devido à ausência de evidências suficientes para estabelecer limites de segurança para exposição crônica, mas segue autorizada no Brasil;
  • O metolacloro, um dos agrotóxicos encontrados na pesquisa, além de ser proibido na União Europeia, é suspeito de ser desregulador endócrino e sua exposição está associada ao aumento da incidência de tumores, em particular hepáticos, aqueles associados ao fígado, além de ser considerado perigoso para o meio ambiente;
  • O fipronil, também encontrado nas pesquisas, tem como alvos primários o sistema nervoso, a tireoide e o fígado, e foi classificado pela USEPA como um possível carcinógeno humano devido à ocorrência de tumores na tireoide. Esse Ingrediente Ativo também está associado a milhares de casos de intoxicação em humanos, incluindo graves, que evoluíram para óbito;
  • O terceiro agrotóxico mais detectado nas análises foi a atrazina, presente em todos os estados em ao menos um ciclo, à exceção do Mato Grosso. No Maranhão, os níveis de atrazina detectados na comunidade de Cocalinho foram mais de 2 vezes superiores ao valor máximo permitido segundo as normativas brasileiras.
  • Dos oito agrotóxicos identificados e quantificados durante a pesquisa-ação, quatro estão entre os 10 mais comercializados no Brasil em 2021. O glifosato ocupa a primeira posição, sendo seguido do 2,4-D (2a posição), da atrazina (5a posição) e do metolacloro (10a posição).

Mariana Pontes, assessora da Campanha e uma das organizadoras da publicação, explica que o dossiê combina diferentes movimentos metodológicos. “Foram realizadas a revisão de literatura especializada sobre agrotóxicos e as análises laboratoriais, além da contribuição dos conhecimentos tradicionais das comunidades que estão, cotidianamente, enfrentando os impactos dos agrotóxicos que poluem às suas águas e envenenam os seus roçados”, explica.

Os resultados apresentados no dossiê são alarmantes, aponta Mariana. “Mais de 10 tipos de agrotóxicos foram identificados nas análises de coleta de água, um dado que não nos surpreende, mas preocupa muito, uma vez que milhares de pessoas, das sete comunidades que participaram da construção da pesquisa, possuem suas vidas diretamente impactadas por estes produtos que são extremamente tóxicos para a saúde humana”, destaca a assessora.

Para Aline do Monte Gurgel, da Fiocruz, uma das autoras da pesquisa, é preciso desnaturalizar a ideia de que existe um nível tolerável de agrotóxicos que podemos consumir nas águas e nos alimentos. “Se eu colocar uma gota de veneno em um copo d’água, quem vai querer beber essa água? A gente precisa partir do pressuposto de que o nível aceitável de agrotóxico nas águas é zero, então qualquer número maior que zero já indica contaminação. Na Europa, há agrotóxicos cujo limite máximo permitido nas águas é 30 vezes menor do que o limite máximo permitido no Brasil. Isso significa que nosso corpo é mais forte que o do europeu? Não. Significa que nossa legislação é menos protetiva”, alertou a pesquisadora.

Comunidades

As comunidades participantes da pesquisa foram definidas a partir de diálogos coletivos envolvendo as organizações participantes da Campanha Cerrado e que atuam com o tema dos agrotóxicos. Fizeram parte do estudo o Território Tradicional da Serra do Centro, em Campos Lindos, no Tocantins; Comunidades Tradicionais Geraizeiras de Formosa do Rio Preto, na Bahia; a Comunidade Barra da Lagoa, em Santa Filomena, no Piauí; o Acampamento Leonir Orback, em Santa Helena, Goiás; o Território Quilombola Cocalinho, em Parnarama, no Maranhão; o Assentamento El Dourado II, em Sidrolândia, Mato Grosso do Sul; e a Comunidade de Cumbaru, Nossa Senhora do Livramento, no Mato Grosso.

Os pontos de coleta foram definidos de acordo com sua importância para as comunidades, sendo em águas utilizadas para irrigação de roças e quintais, na pesca, na dessedentação animal, nas brincadeiras e recreação das comunidades, no uso doméstico, como a lavagem de roupas e louças, e na alimentação, seja para beber ou cozinhar. Foram coletadas amostras nos seguintes tipos de fonte: rio/riacho/córrego, nascente, lagoa, brejo, açude/represa, cacimba/poço e águas das residências das comunidades

Durante o lançamento, representantes das comunidades do Maranhão, Mato Grosso do Sul, Piauí e Bahia revelaram as violências sofridas diariamente pelas mãos de empresários do agronegócio que despejam agrotóxico sobre seus corpos e territórios diariamente. Foram relatos de graves alergias na pele, perda de produção da agricultura familiar, doências respiratórias crônicas, contaminação de rios e poços de água e ocorrência cada vez maior de casos de câncer – e mortes por câncer – nas comunidades. “Tive uma alergia muito forte, com bolhas na pele. Quando fui ao médico pedir pra fazer exame e ver se era por conta do agrotóxico, o médico logo disse que não era, disse que aquilo era escabiose (sarna)”, relatou uma liderança quilombola do Maranhão. O remédio receitado pelo médico não funcionu. No depoimento de outro representante de comunidades, o relato sobre o aparecimento de bolhas se repetiu, assim como o “diagnóstico” de escabiose por médico do hospital público local. “É claro que os médicos não vão falar que tem a ver com o veneno, porque eles também têm negócios no agro da nossa cidade, eles são do agronegócio também”, revelou agricultor.

Vivendo em territórios contaminados

Mais de 1.800 agrotóxicos foram liberados para uso nos últimos quatro anos (entre 2019 e 2022) no Brasil. Cerca de metade destes agroquímicos não são permitidos na Europa por oferecerem riscos à saúde humana e ao meio ambiente. Hoje esses produtos, comumente combinados com a utilização de sementes transgênicas, são utilizados ostensivamente nas lavouras do país, via pulverização terrestre e aérea, impactando não somente o ar, as plantações, as águas, a terra e a biodiversidade, mas povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. 

Todos esses povos – que resistem em seus territórios há séculos – lutam para sobreviver em uma verdadeira guerra química promovida pelo agronegócio e pelos grandes latifúndios de monoculturas de produção de commodities para exportação. No Cerrado, este cenário é ainda mais violento: mais de 70% dos agrotóxicos utilizados no país são consumidos na região, de acordo com o estudo Ecocídio nos Cerrados: agronegócio, espoliação das águas e contaminação por agrotóxicos”, publicado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).


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Este texto foi inicialmente publicado pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida! [Aqui!].

10 X 0: STF determina que é constitucional lei que proíbe pulverização de agrotóxicos no Ceará

Tribunal formou maioria de votos em defesa da lei estadual que proíbe a pulverização de agrotóxicos. Estado foi o primeiro – e único – a proibir o despejo desses produtos causadores de doenças e contaminação

avião-despejando-agrotóxicosMaioria dos ministros entende que é dever dos estados zelar pela saúde e meio ambiente em risco com os agrotóxicos

Por Redação RBA

São Paulo – Por unanimidade – 10 X 0 – o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que constitucional a lei estadual “José Maria do Tomé” (Lei 16.820/19), que proíbe a pulverização de agrotóxicos no Ceará. Todos os ministros – Edson Fachin, Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Luís Roberto Barroso, André Mendonça, Luiz, Rosa Weber, Nunes Marques e Luiz Fux seguiram o voto da relatora, Carmem Lúcia. O julgamento histórico foi encerrado nesta sexta-feira (26).

Todos eles entenderam que a lei é constitucional. E votaram pela improcedência da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 6.137/2019, movida pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Os ruralistas questionaram a lei estadual cearense logo após ser sancionada pelo então governador Camilo Santana (PT).

Os ruralistas alegaram na ação que a lei é inconstitucional porque violaria a livre iniciativa e os objetivos da política agrícola. E questionam também a autonomia do estado para legislar sobre o tema. Em seu voto, porém, a relatora destacou que “não há óbice (impedimento) constitucional a que os Estados editem normas mais protetivas à saúde e ao meio ambiente quanto à utilização de agrotóxicos”. E que “a regulação nacional limita-se a traçar os parâmetros gerais quanto a matéria, estabelecendo atividades de coordenação e ações integradas”.

Primeiro estado a proibir pulverizações de agrotóxicos

Ainda segundo a magistrada, “as manifestações técnicas juntadas aos autos apontam os perigos graves, específicos e cientificamente comprovados de contaminação do ecossistema e de intoxicação de pessoas pela pulverização aérea de agrotóxicos”. O voto foi seguido também pelos ministros Edson Fachin e Gilmar Mendes.

O Ceará é o primeiro estado do país a adotar essa legislação em favor da saúde pública e da proteção ambiental, proibindo a pulverização aérea de agrotóxicos. De autoria do deputado estadual Renato Roseno (Psol), o projeto também teve a coautoria do ex-deputado e atual governador, Elmano Freitas, e do ex-deputado Joaquim Noronha. “Foram quatro anos de muito debate e nos baseamos em muita pesquisa para provar que a pulverização estava contaminando a água, a terra e as pessoas, aumentando os casos de câncer”, lembrou Roseno.

Quem foi José Maria do Tomé?

Zé Maria foi militante na luta contra a pulverização aérea de agrotóxicos na Chapada do Apodi, no Ceará. Enfrentou as grandes empresas do agronegócio e defendeu a saúde das comunidades e da população na chapada. Por causa do seu engajamento, foi assassinado com cerca de 25 tiros, em 21 de abril de 2010. Mais uma vítima da violência no campo.

Suas denúncias se baseavam em pesquisas acadêmicas, em especial da Universidade Federal do Ceará. E também de recomendações do Ministério Público.


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Este texto foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Medida que muda a forma de como os EUA rastreiam o uso de agrotóxicos provoca protestos

Cientistas se opõem ao plano do Serviço Geológico dos EUA de reduzir o escopo e a frequência do banco de dados de produtos químicos

A Look at Life above Iowa.

Os pesquisadores usaram dados que rastreiam o uso de agrotóxicos e de outros produtos químicos agrícolas no nível do condado em uma ampla gama de estudos ambientais e de saúde. CHARLES OMMANNEY/THE WASHINGTON POST VIA GETTY IMAGES

Por Virginia Gewin para a Science

No ano passado, Alan Kolok, ecotoxicologista da Universidade de Idaho, publicou um estudo que descobriu que a incidência de câncer em condados de 11 estados do oeste dos EUA estava correlacionada com o uso de produtos químicos agrícolas chamados fumigantes, que matam pragas do solo. A análise refinada era viável, diz ele, porque um banco de dados do governo dos EUA disponibilizou ao público estatísticas oportunas em nível de condado sobre o uso de agrotóxicos.

Agora, Kolok é um dos muitos cientistas preocupados com o fato de que as mudanças no banco de dados dos Mapas Nacionais de Uso de Agrotóxicos o tornarão muito menos útil para os cientistas. No mês passado, ele se juntou a mais de 250 pesquisadores e dezenas de grupos ambientais e de saúde pública para pedir ao Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), que supervisiona o banco de dados, que reconsidere as medidas para reduzir o número de produtos químicos que rastreia e libera atualizações com menos frequência.

A agência diz que as mudanças estão sendo impulsionadas, em parte, por restrições orçamentárias e um desejo de alinhar a pesquisa de agrotóxicos com seus outros programas de pesquisa. Mas em uma carta aberta ao USGS, os críticos dizem que as mudanças colocam em risco um banco de dados que fornece “informações vitais e rastreia tendências que não estão disponíveis em nenhum outro lugar”.

Os dados do USGS desempenharam um papel em mais de 500 estudos revisados por pares, observa a carta, incluindo trabalhos altamente citados sobre o impacto de agrotóxicos na saúde pública, qualidade da água e ecossistemas. Em vez de reduzir o escopo e a frequência do banco de dados, os críticos dizem que o USGS deveria expandi-lo para rastrear melhor os estimados 540 milhões de quilos de agrotóxicos usados anualmente nos Estados Unidos. “Precisamos de fontes confiáveis de dados para poder estudar e entender o que esse uso generalizado de agrotóxicos significa para a saúde das pessoas e do meio ambiente”, afirma a carta.

No seu auge, o banco de dados do USGS, que data de 1992, rastreou o uso variável de mais de 400 produtos químicos para controlar insetos, fungos, ervas daninhas e outras pragas. A cada ano, a agência geralmente divulgava mapas preliminares documentando o uso de agrotóxicos 2 anos antes. Para fazer os mapas, a equipe da agência combinou dados agrícolas sobre o uso de pesticidas em culturas específicas – adquiridos da Kynetec, uma empresa com sede no Reino Unido – com dados de área cultivada do Departamento de Agricultura dos EUA.

Nos últimos anos, no entanto, o USGS estreitou sua abordagem. O lançamento de dados mais recente, que cobriu 2018 e 2019, incluiu apenas 72 compostos que o USGS considerou especialmente importantes devido ao seu uso generalizado e toxicidade. Em um comunicado, a agência disse que a lista mais curta alinha a pesquisa com “a lista de agrotóxicos que o USGS rotineiramente coleta dados para fins de qualidade da água”.

Em 25 de maio, a agência disse que não há planos imediatos para expandir a lista. Disse também que, a partir de agora, não divulgará os dados preliminares todos os anos. Em vez disso, o USGS espera divulgar seu próximo relatório completo, abrangendo 2018 a 2022, no final de 2024; os relatórios serão publicados a cada 5 anos a partir de 2029. A mudança de cronograma pode economizar para a agência cerca de US$ 100.000 por ano.

Muitos cientistas não estão satisfeitos com essas decisões. “Esse plano de apenas manter o programa funcionando com suporte de vida não reflete o quão importante é”, diz Nathan Donley, cientista sênior do Center for Biological Diversity, sem fins lucrativos. Ter que esperar 5 anos pelos dados, ele argumenta, tornará impossível para os pesquisadores detectar tendências e problemas potenciais com antecedência e resolvê-los rapidamente. Os dados são “basicamente apenas uma lição de história nesse ponto”, diz ele. “Qual é o objetivo dessas medidas, se você vai tornar mais difícil para o público usar os dados de maneira significativa?”

Outros dizem que a agência deveria rastrear mais agrotóxicos, não menos. “Existem literalmente centenas de ingredientes ativos e milhares de produtos que são aplicados em lavouras”, observa Christy Morrissey, ecotoxicologista da Universidade de Saskatchewan que estuda o impacto de agrotóxicos em pássaros e insetos. Os pesquisadores dizem que o USGS não deve apenas restaurar sua lista de rastreamento original – que inclui antibióticos como oxitetraciclina e estreptomicina – mas também adicionar quaisquer novos produtos químicos agrícolas aprovados pela Agência de Proteção Ambiental (EPA). “Os poluentes mais difundidos hoje não serão necessariamente os mais difundidos em 5 ou 10 anos”, diz Donley, que observa que a EPA aprova cerca de cinco novos produtos a cada ano.

Alguns cientistas também querem que o USGS reinicie os esforços para rastrear um dos usos de agrotóxicos que mais cresce: revestimentos de sementes que protegem contra, por exemplo, doenças de plantas ou nematóides. A Kynetec parou de rastrear os produtos químicos usados para revestir sementes em 2014 porque as pesquisas foram consideradas muito complicadas para serem conduzidas com precisão. Um resultado é que os pesquisadores agora não conseguem rastrear a extensão total dos neonicotinoides, produtos químicos controversos que foram associados à diminuição das populações de abelhas. (Em janeiro, os pesquisadores publicaram um artigo no Proceedings of the National Academy of Sciences que se baseava em dados do USGS de 2008 a 2014, quando ainda incluía sementes revestidas. O estudo concluiu que os neonicotinóides prejudicaram as populações do abelhão ocidental.)

Quando este artigo foi publicado, nem o USGS nem sua agência-mãe, o Departamento do Interior, haviam respondido formalmente aos apelos dos cientistas.

doi: 10.1126/science.adi9893


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Science [Aqui!].

Ogronegócio: Marina Silva usa audiência para tirar a máscara de modernidade do latifúndio agro-exportador

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A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, prestou um grande serviço para o Brasil ao usar ao utilizar a expressão “ogronegócio” para explicar as recentes decisões anti-ambientais tomadas pelo congresso nacional sob impulso da chamada bancada ruralista, também conhecida como Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).  Ainda que não tenha não tenha cunhado o termo, ela nos brindou com o uso dessa definição perfeita do latifúndio agro-exportador em uma audiência pública da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados no último dia 24/5.

Ainda que Marina Silva tenha tentado contemporarizar ao afirmar que só uma parte do latifúndio agro-exportador age como “ogronegócio”, a verdade é que raros são raros os exemplos de grandes produtores rurais que adotam práticas sustentáveis. A imensa maioria gosta mesmo é desmatamento e agrotóxicos em suas propriedades, onde frequentemente ainda se encontra a prática hedionda do trabalho escravo. Por isso, não há nada disso de “agro”, pois o negócio desse pessoal é mesmo o “ogronegócio”.

E ainda há que se enfatizar que o “ogronegócio”  não sobreviveria sem os polpudos subsídios governamentais que chegam todos os anos para alimentar uma pauta de exportação que acaba servindo como ração animal em outras partes do mundo. Produzir alimentos mesmo é com a agricultura familiar que nem uso os mesmos métdos, nem, tampouco, recebe os bilhões de reais em subsídios que são dados anualmente para o “ogronegócio” continuar sua forma desastrosa de agricultura.

UE envia grandes quantidades de agrotóxicos proibidos por matar abelhas para países mais pobres, revelam documentos

Uma nova investigação mostra pela primeira vez a escala total do comércio de produtos químicos neonicotinóides da UE, rotulada como uma ameaça global à biodiversidade e à segurança alimentar

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Por Crispin Dowler (Unearthed) / Laurent Gaberell (Public Eye)

A União Européia (UE) está exportando mais de 10.000 toneladas de agrotóxicos neonicotinóides “matadores de abelhas” por ano para os países mais pobres, apesar de ter proibido o uso desses produtos químicos em seus próprios campos para proteger os polinizadores.

Essa é a principal descoberta de uma nova investigação da Unearthed and Public Eye, que revela pela primeira vez a escala total do comércio contínuo da Europa de agrotóxicos ‘neônicos’ proibidos.

Documentos obtidos sob as leis de liberdade de informação mostram que em 2021 as empresas da UE emitiram planos para exportar mais de 13.200 toneladas de inseticidas proibidos contendo cerca de 2.930 toneladas dos ingredientes ativos neonicotinóides thiamethoxam, imidacloprid ou clotianidina.

Esta é a primeira vez que foi possível rastrear um ano inteiro dessas exportações desde que a UE proibiu todo o uso externo desses produtos químicos em suas próprias fazendas em 2018.

Cientistas e ativistas descreveram a escala do comércio como “espantosa” e pediram o fim imediato das exportações “inaceitáveis ​​e imorais” da UE de pesticidas proibidos para uso na UE.

A Unearthed e a Public Eye identificaram 17 empresas envolvidas na exportação de neônicos proibidos da UE, sendo de longe o maior exportador a Syngenta, gigante chinesa de agrotóxicos com sede na Suíça. As exportações planejadas pelas subsidiárias da Syngenta representaram mais de três quartos do total da UE e incluíram uma exportação para o Brasil de inseticida suficiente para pulverizar toda a superfície da Nova Zelândia. 

A maior parte das exportações de neônicos proibidos da UE – 86% em peso – foi destinada a países de baixa ou média renda (LMICs), onde as agências da ONU dizem que o uso perigoso de agrotóxicos tende a representar os maiores riscos.

De longe, o maior desses importadores foi o Brasil, um país que abriga até 20% da biodiversidade restante do mundo . Mas as empresas também emitiram planos para exportar para dezenas de outros países de baixa e média renda, incluindo Ucrânia, Indonésia, África do Sul e Argentina.

“A humanidade depende do equilíbrio ecológico, da manutenção da biodiversidade e da saúde das pessoas em todos os países”, disse Karen Friedrich, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), instituto de pesquisa em ciência, tecnologia e saúde do Brasil. “Portanto, além de injusta, a exportação de agrotóxicos proibidos em seu território é imprudente, porque o prejuízo também será sentido na União Europeia.”

Na Argentina, um dos cinco principais destinos das exportações neônicas proibidas da UE, os apicultores estimam que perderam 30% de suas colméias na última década. A Sociedade Argentina de Apicultores (SADA, de suas iniciais em espanhol) pediu à UE que “interrompa imediatamente a produção desses produtos químicos altamente perigosos”.

“Consideramos um ato de agressão, de ecocídio e uma violação dos direitos humanos vender substâncias tóxicas e altamente perigosas para a saúde humana e insetos polinizadores”, afirmou.

O secretário da SADA, Pedro Kaufmann, disse ao Unearthed e ao Public Eye. Os neonicotinoides, acrescentou, são uma “séria ameaça à nossa segurança alimentar” que estão “devastando a população mundial de polinizadores” e causando danos ambientais “de uma magnitude ainda difícil de compreender”.

©hpgruesen / Pixabay

Declínio mundial

Mais de três quartos dos principais tipos de culturas alimentares do mundo dependem de polinizadores, principalmente insetos. Este ano, os cientistas publicaram um estudo estimando que a perda global de populações de polinizadores já está causando cerca de meio milhão de mortes prematuras anualmente, reduzindo o fornecimento de alimentos saudáveis.

A própria UE considera que os neônicos representam uma ameaça tão grave à biodiversidade e à segurança alimentar que acaba de aprovar uma lei que proibirá a importação de alimentos que contenham apenas os menores vestígios detectáveis ​​de tiametoxam ou clotianidina. Essa lei, aprovada em fevereiro, diz que há “um corpo substancial de evidências mostrando que substâncias ativas que são neonicotinóides, como clotianidina e tiametoxam, desempenham um papel importante no declínio de abelhas e outros polinizadores em todo o mundo”.

Por se tratar de uma “preocupação internacional”, continua, a UE precisa tomar medidas para proteger os polinizadores em todo o mundo dos riscos desses produtos químicos: “Preservar a população de polinizadores apenas dentro da [UE] seria insuficiente para reverter o declínio mundial de polinizadores populações e seus efeitos sobre a biodiversidade, produção agrícola e segurança alimentar”.

Apesar de sua posição, a UE continua a enviar milhares de toneladas desses mesmos neônicos proibidos para o exterior a cada ano.

De acordo com a legislação atual da UE, quando o uso de um produto químico é proibido devido ao risco que representa para a saúde ou o meio ambiente, as empresas permanecem livres para fabricá-lo e enviá-lo para países com regulamentações mais permissivas.

A Comissão Europeia lançou este mês uma consulta sobre possíveis medidas para garantir que “produtos químicos perigosos proibidos na União Europeia” não sejam mais “produzidos para exportação”.

Ao lançar a consulta , o comissário de meio ambiente Virginijus Sinkevičius disse que a UE “não seria consistente em sua ambição de um ambiente livre de tóxicos se produtos químicos perigosos que não são permitidos para uso na UE ainda pudessem ser produzidos aqui e depois exportados”. Esses produtos químicos, acrescentou, “podem causar os mesmos danos à saúde e ao meio ambiente, independentemente de onde sejam usados”.

A Comissão se comprometeu em 2020 a apresentar propostas concretas para acabar com essa prática, logo após a publicação de uma investigação anterior da Unearthed e da Public Eye sobre as exportações proibidas de pesticidas.

No entanto, a estratégia enfrenta forte oposição do lobby químico , e os ativistas temem que as propostas cheguem tarde demais para serem transformadas em lei antes das próximas eleições europeias em 2024. Também não está claro qual será o escopo das propostas da Comissão.

©Flickr, Verdes EFA
Eurodeputados verdes em um die-in de abelhas e apicultores em frente ao Parlamento Europeu em Bruxelas (2014).

A investigação da Unearthed and Public Eye identificou mais de uma dúzia de empresas diferentes que exportam neônicos proibidos da UE, incluindo as gigantes multinacionais de pesticidas Syngenta, Bayer e BASF. Aqueles que comentaram esta história disseram acreditar que seus produtos eram seguros para as abelhas quando usados ​​como pretendido, que os pesticidas eram vitais para proteger o rendimento das colheitas e que, embora esses neônicos tenham sido proibidos na UE, eles permaneceram licenciados em muitos países ao redor do mundo.

Alguns também disseram que a proibição da exportação de pesticidas proibidos seria “contraproducente” ou argumentaram que os países deveriam ser livres para tomar suas próprias decisões sobre quais produtos químicos são adequados para seus próprios agricultores.

“Em nossa opinião, os países devem decidir por si mesmos e soberanamente quais produtos de proteção de cultivos são necessários para sua agricultura local, em vez de impor uma proibição unilateral do comércio”, disse um porta-voz da gigante agroquímica alemã BASF. “Acreditamos que uma proibição de exportação não ajuda aqueles que se destina a proteger.”

Ele argumentou que a falta de pesticidas “cuidadosamente testados” nos países importadores poderia levar a “colheitas inseguras” para os agricultores. Por outro lado, ele acrescentou que se a Europa proibisse essas exportações, os agricultores dos países importadores poderiam simplesmente substituí-los por “produtos iguais ou similares” produzidos em outros lugares com “padrões de segurança mais baixos”.

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Ativistas em países importadores responderam que uma proibição de exportação europeia enviaria um “sinal muito importante”, criando pressão para que outras nações exportadoras seguissem o exemplo. Eles também argumentaram que os países importadores do Sul Global geralmente não estavam em uma posição forte para avaliar e gerenciar os perigos de pesticidas perigosos.

“Infelizmente, os LMICs muitas vezes carecem de recursos para avaliar e promulgar regulamentos para proibir esses pesticidas”, disse Sarojeni Regnam, diretor executivo do grupo de campanha Pesticide Action Network Asia Pacific. “Ou mesmo que sejam banidos, eles não têm a capacidade de monitorar e aplicar essas proibições. Esses pesticidas perigosos são usados ​​principalmente por agricultores e trabalhadores agrícolas em condições de pobreza e [que têm] falta de consciência de seus perigos”.

‘Colonialismo químico’

A Unearthed and Public Eye descobriu que a Syngenta notificou exportações de mais de 10.400 toneladas de inseticidas à base de tiametoxam da UE em 2021, para 61 países diferentes.

No entanto, mais da metade desse peso veio de uma única exportação planejada para o Brasil de 5,9 milhões de litros do agrotóxico de grande sucesso da empresa Engeo Pleno S  o suficiente para pulverizar toda a superfície da Nova Zelândia. Uma investigação anterior da Unearthed e da Public Eye descobriu que os inseticidas à base de tiametoxam eram de longe os mais vendidos da Syngenta no Brasil, com vendas superiores a US$ 200 milhões em 2018.

O Brasil abriga algumas das áreas de maior biodiversidade do mundo, mas enormes plantações de soja, milho e cana-de-açúcar voltadas para a exportação o transformaram no maior mercado mundial de pesticidas altamente perigosos.

“Enquanto o colonialismo clássico foi conduzido por meio da violência física, como desmatamento, expulsão de povos indígenas e assim por diante, agora estamos diante de uma forma mais cruel e perversa de colonialismo”, disse Larissa Bombardi, professora de geografia da Universidade de São Paulo. e especialista no uso de agrotóxicos no Brasil. “Porque esse colonialismo químico é invisível, silencioso e se espalhou em nossos solos, em nossos corpos, em nossas águas.”

Ela acrescentou que as abelhas estão morrendo no Brasil, e isso indica que “outros polinizadores também estão morrendo”: “Essa é uma das principais ameaças à nossa biodiversidade”.

Durante um período de cinco anos até o final de 2017, os apicultores que responderam a uma pesquisa online relataram a perda de 19.296 colônias e ninhos em todo o Brasil, representando a morte de mais de um bilhão de abelhas. Em 2019, a BBC relatou a morte de mais de 500 milhões de abelhas no Brasil em apenas três meses, com pesquisadores culpando a exposição a neonicotinoides e ao inseticida fipronil. 

Um estudo científico publicado no início deste ano descobriu que as espécies nativas de abelhas sem ferrão do Brasil podem ser ainda mais sensíveis ao tiametoxam do que as abelhas produtoras de mel.

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Um silo de soja em Tibagi, Paraná (Brasil). O Brasil foi o principal destino das exportações da UE de neonicotinoides proibidos em 2021

Um porta-voz da Syngenta disse: “Nossos produtos são seguros e eficazes quando usados ​​conforme pretendido. Onde quer que operemos, fazemos isso em total conformidade com as leis e regulamentos locais.”

Ele acrescentou: “Embora alguns de nossos produtos possam não estar registrados para uso na UE, eles são avaliados quanto à segurança, registrados e permitidos nos países onde foram aprovados para importação, refletindo as diferentes condições climáticas, pressão de pragas e doenças e agricultores ‘ precisar.”

Sexta extinção em massa

Muitas das empresas que exportam produtos neônicos proibidos da UE disseram à Unearthed and Public Eye que acreditavam que seus produtos poderiam ser usados ​​sem riscos inaceitáveis ​​para as abelhas, e que diferentes países tinham diferentes climas e pragas, exigindo diferentes pesticidas.

Entre eles estava o gigante agroquímico alemão Bayer, o principal exportador da UE dos neonicotinóides clotianidina e imidaclopride. A Bayer notificou as exportações de produtos proibidos contendo esses produtos químicos para 51 países diferentes em 2021, incluindo Ucrânia, Indonésia, Guatemala, Togo e Quênia.

“A Bayer está comprometida com o uso seguro e sustentável de seus produtos e os neonicotinóides têm uma longa história de uso seguro se usados ​​de acordo com as instruções do rótulo”, disse um porta-voz da Bayer. “Eles estão entre as substâncias mais intensamente pesquisadas no mundo.”

Ele sugeriu que as diferentes “classificações de segurança” atribuídas a inseticidas em diferentes partes do mundo refletem “as necessidades locais dos agricultores” e acrescentou que a Bayer apóia “processos de aprovação que seguem altos padrões científicos”.

Mas especialistas científicos sobre o impacto dos pesticidas na biodiversidade rejeitaram a sugestão de que esses neônicos poderiam ser usados ​​com segurança. 

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A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação alertou que o declínio nas populações de abelhas e polinizadores ligados ao uso de pesticidas representa uma ameaça à segurança alimentar global.

Jean-Marc Bonmatin, especialista em exposição a pesticidas no Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica e vice-presidente da Força-Tarefa de Pesticidas Sistêmicos, disse que a ameaça representada pelos neonicotinóides aos polinizadores é “enorme”.

“É semelhante em intensidade à mudança climática, em termos de seus impactos, e está progredindo ainda mais rapidamente”, disse ele à Unearthed e ao Public Eye. O declínio dos polinizadores precisava ser abordado em “escala global”, sem esquecer que muitas vezes são “os países mais pobres os reservatórios mais ricos de biodiversidade”. “Embora existam muitas causas para o colapso dos polinizadores, os pesticidas têm uma grande parcela de responsabilidade – os neonicotinóides em particular. A questão não é mais listar todas as causas do declínio, mas agir com rapidez e força para limitar sua extensão”.

O professor de biologia da Universidade de Sussex, Dave Goulson, especialista em ecologia de insetos, disse que o mundo “já estava no sexto evento de extinção em massa, com espécies extintas em mais de 1.000 vezes a taxa natural”.

A menos que levemos esta crise a sério, acrescentou, “enfrentamos um colapso dos ecossistemas globais”.

Ele disse ao Unearthed and Public Eye que havia “muitas centenas de estudos científicos mostrando que os neonicotinóides ameaçam polinizadores e ecossistemas inteiros” e que era “absolutamente inaceitável e imoral” que a UE continuasse exportando neônicos proibidos para países mais pobres.

“Se os neonicotinóides são muito perigosos para usar na Europa, eles são muito perigosos para usar em qualquer lugar. Muitos desses países têm uma biodiversidade muito maior do que a Europa”.

Ele acrescentou que as quantidades de neônicos proibidos sendo exportados da UE eram “surpreendentes”. A Unearthed and Public Eye descobriu que os inseticidas agrícolas notificados para exportação da UE em 2021 continham cerca de 2.930 toneladas dos ingredientes ativos neônicos proibidos thiamethoxam, imidacloprid ou clotianidina. “O pico de uso de neonicotinoides no Reino Unido antes da proibição era de 110 toneladas por ano, o que foi suficiente para impactar borboletas e abelhas selvagens”, disse Goulson.

Planos para proibições

Atualmente, a principal lei da UE que regula a exportação de produtos químicos proibidos é o regulamento de “consentimento prévio informado”. De acordo com essa lei, as empresas da UE precisam emitir uma “notificação de exportação” para o país importador sempre que pretenderem exportar um produto que contenha pesticidas proibidos.

Esses documentos detalham a quantia que a empresa pretende enviar, os motivos pelos quais o produto é proibido na UE e seu uso pretendido no país de destino. 

O objetivo é permitir que as autoridades dos países importadores tomem uma decisão “informada” sobre se desejam aceitar a exportação.

As notificações de exportação não são um registro perfeito: se uma exportação for aprovada, a empresa fica livre para embarcar mais ou menos do que o declarado na notificação e, às vezes, a exportação não ocorre. Mas eles são a trilha de papel mais precisa que existe para o comércio da UE de pesticidas proibidos.

Os neônicos proibidos ficaram sujeitos às regras do PIC no final de 2020. Durante sete meses no ano passado, usando solicitações de liberdade de informação, Unearthed e Public Eye conseguiram obter todas as notificações emitidas na UE para exportações neônicas proibidas em 2021.

Este é o primeiro ano completo para o qual esses dados estão disponíveis.

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A investigação identificou 13 países diferentes em toda a UE que emitiram notificações de exportação para produtos neônicos proibidos em 2021, mas de longe os maiores exportadores por peso planejado foram Bélgica, França, Espanha e Alemanha. Outros países que desempenharam um papel significativo no comércio naquele ano foram Holanda, Áustria, Hungria, Grécia e Dinamarca.

Porta-vozes dos governos dos países exportadores, incluindo Bélgica, França, Alemanha, Holanda e Dinamarca, disseram à Unearthed que apoiavam a proibição da UE da produção de pesticidas proibidos para exportação.

“A aplicação europeia da proibição de clotianidina, imidacloprida e tiametoxam foi um passo importante para a proteção dos polinizadores”, disse um porta-voz do ministério federal alemão de alimentação e agricultura. “No entanto, mais esforços serão necessários para cultivar de maneira mais conservadora no futuro.”

Alguns desses países já começaram a tomar medidas para reprimir essas exportações em nível nacional. Em 2022, a França se tornou o primeiro país da UE a impor uma proibição nacional à exportação de pesticidas proibidos. Uma investigação anterior da Unearthed and Public Eye descobriu que as exportações francesas de neonicotinóides caíram drasticamente em resposta, mas não foram totalmente interrompidas. A Bélgica e a Alemanha também estão no processo de instituir proibições de exportação para certos pesticidas proibidos, embora a proibição alemã se concentre naqueles pesticidas prejudiciais à saúde humana.

No entanto, outros países disseram ao Unearthed e ao Public Eye que o problema precisava ser resolvido em nível da UE, ou as empresas simplesmente seriam capazes de mudar suas exportações para outros estados membros em resposta às proibições nacionais. “Uma proibição nacional teria apenas um efeito limitado”, disse um porta-voz do ministério holandês de infraestrutura e gerenciamento de água. “Correria o risco de apenas mudar o porto de partida, em vez de encerrar a exportação como tal. “Portanto, a Holanda apoia fortemente medidas em toda a UE, pois tais medidas seriam muito mais eficazes.”

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No total, 17 empresas diferentes emitiram notificações de exportação de neônicos proibidos naquele ano, com o peso planejado totalizando 13.274 toneladas. O peso estimado dos princípios ativos neonicotinoides nessas exportações foi de 2.930 toneladas.

Cruzamos esses números com dados de exportação de resumo público, sempre que possível, para confirmar que eles se correlacionam em escala geral. A quantidade total de neônicos exportados da UE em 2021 foi maior do que a quantidade identificada em nossa investigação, principalmente porque nossa investigação se concentrou apenas em produtos exportados para fins agrícolas proibidos. Outros produtos neônicos são exportados para fins que ainda são legais na UE, como coleiras antipulgas imidacloprida. Excluímos essas notificações de exportação de nossos cálculos e nos concentramos apenas nas exportações de produtos proibidos de uso na UE.

As cinco principais empresas exportadoras foram responsáveis ​​por 95% das exportações de neônicos agrícolas em peso. De longe, a maior delas foi a Syngenta, que sozinha respondeu por 79%.

Outras empresas entre as cinco primeiras incluem as multinacionais alemãs Bayer e BASF, a empresa norte-americana de pesticidas Gowan e uma empresa holandesa chamada Broekman Logistics, que administra um depósito de produtos perigosos no porto de Roterdã.

Todas as exportações organizadas por Broekman, que não respondeu aos pedidos de comentários, eram produtos da Syngenta ou remessas de tiametoxam puro, o ingrediente ativo dos neônicos proibidos da Syngenta.

Um porta-voz de Gowan disse que não exportou nenhum neônico proibido da UE sob as licenças identificadas pela investigação da Unearthed e da Public Eye. Ele acrescentou: “Não acreditamos que a ciência ou os dados disponíveis apoiem a conclusão de que o imidaclopride ou outros neonicotinoides devam ser banidos”.

Unearthed e Public Eye ofereceram a empresas e países a oportunidade de fornecer dados precisos sobre a quantidade de neônicos proibidos que eles exportaram em 2021. A maioria se recusou a fazê-lo.

A Holanda confirmou que naquele ano enviou exportações agrícolas contendo um total de 1.695 toneladas do tiametoxam neônico proibido para países como Cuba, Zâmbia e Suíça. Isso foi mais que o dobro das exportações planejadas do país para aquele ano, de 644 toneladas. No entanto, uma exportação planejada para o Uzbequistão não ocorreu.

A Dinamarca notificou as exportações proibidas de inseticidas em 2021 contendo cerca de seis toneladas de imidaclopride. Um porta-voz do ministério do meio ambiente dinamarquês disse à Unearthed que o país embarcou mais do que o dobro dessa quantidade – 13,3 toneladas – para a Colômbia e Israel. No entanto, as exportações planejadas para o Equador e a Palestina não foram embarcadas.


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Este escrito originalmente em inglês foi publicado pelo ONG Public Eye [Aqui!].