Agrotóxico amplia vendas em até 2.672,8% e escancara farsa dos transgênicos no Brasil

Pulverização de agrotóxicos em lavoura em Mato Grosso: dos produtos mais vendidos no Brasil, metade foi banida na EU devido à alta toxicidade.  Foto extraída de Juruena – Rastros de Veneno

Por Cida de Oliveira*

Não é a toa que o Brasil caminha para consolidar sua posição de maior lixeira química do mundo. O modelo agrícola hegemônico, baseado no monocultivo em grandes extensões de terra banhadas em agrotóxicos, o levou para a liderança mundial do consumo desses produtos. Dianteira essa que pode ser traduzida também pela explosão nas vendas de toneladas e toneladas de herbicidas no período de 2010 a 2020. Nesses onze anos saltaram de 157.512 para 329.697. Em números absolutos, um aumento de 128% na comercialização, conforme levantamento da Embrapa Meio  Ambiente em conjunto com a Universidade de Rio Verde a partir de dados disponibilizados pelo Ibama.

Publicado na revista científica Agriculture, o estudo mostra números astronômicos que compõem o aumento do mercado dos herbicidas, categoria que responde por mais de 60% de todos os agroquímicos. O destaque ficou com o cletodim, que aumentou suas vendas em 2.672,8%. O produto usado na soja e algodão, entre outras culturas, passou de 244,5 toneladas vendidas em 2010 para 6.779,6 em 2020.

Princípio ativo de 46 produtos registrados no país para combater as chamadas plantas invasoras segundo o banco de dados Agrofit, o cletodim enfrenta barreiras na União Europeia (EU). Detém o registro de um único produto, com validade limitada a 15 dos 27 países-membros.

Outro que alavancou seu mercado no Brasil foi o haloxifope-metil, com aumento de 896,9%. Princípio ativo de 27 produtos registrados para soja, cana, citros e algodão, partiu de 111,3 toneladas para 1.109,8 ao longo dos 11 anos. Na EU, porém, enfrenta processo de restrições. Foi banido da canola, com efeitos sobre a produção australiana, grande fornecedor que está tendo de se adequar. Seu uso em cenouras, leguminosas, pastagens, soja e beterraba soja e beterraba poderá ser afetado. A Agência Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) estabeleceu agenda para reduzir os limites máximos de resíduos ao mínimo.

 Preocupação com segurança

Outro princípio ativo que cujos fabricantes faturaram mais é o triclopir. Saltou de 228 toneladas em 2010 para 2.405 toneladas em 2020, aumento de 953,5%. A molécula presente em 40 produtos aprovados no Brasil para soja e outras culturas passou por avaliação recente pela autoridade europeia do setor na Polônia. Os testes fazem parte do processo de renovação do registro pedido pela Corteva. A empresa formada com a fusão da DuPont com a Dow Chemical procura ganhar tempo em uma UE cada vez mais exigente quanto aos agrotóxicos. A revisão se concentrou no uso do herbicida em pastagens e analisou seus limites máximos de resíduos em arroz. Apesar dos parâmetros considerados confiáveis para avaliação de risco para fins de regulação, a falta de informações mais apuradas levantou preocupações sobre sua segurança e eficácia.

Sucesso no Brasil, barrado na União Europeia

O diclosulam é outra molécula que aumentou bem seu mercado. Presente em seis produtos aprovados no Brasil para uso na soja, viu sua comercialização ampliada em 561,3% em onze anos. Sucesso no Brasil, o agente ativo sequer chegou a ser registrado na UE, segundo levantamento dos professores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Sônia Hess e Rubens Nodari publicado na revista Ambientes em Movimento e na mais recente edição do Dossiê Abrasco.

A flumioxazina, substância ativa de 48 produtos aprovados no Brasil para soja, cana e eucalipto, entre outros, teve aumento de 531,6% na comercialização. Na avaliação dos autores do estudo na Embrapa e Universidade de Rio Verde, o incremento nas vendas se deu com a ampliação dos produtos, o que permitiu menores preços em comparação a outros herbicidas.

Banido da Europa em 2009, o glufosinato de amônio também foi bem, aumentando as vendas em 290%. Princípio ativo de 65 formulações registradas no Brasil, passou a ganhar espaço a partir de 2017, com a aprovação de mais produtos formulados à base da molécula. E deverá ganhar mais espaço caso vinguem novos transgênicos aprovados, resistentes à substância. É o caso o trigo e uma nova soja.

Glifosato ainda na dianteira

Essa explosão nas vendas desses produtos, no entanto, não os coloca no ranking dos mais vendidos no Brasil. Presente em 31 formulações, o glifosato teve aumento de 106,5% de 2010 a 2020, segundo levantamento da Embrapa. Mesmo assim, vendeu 246.017 toneladas em 2020, mantendo-se na já antiga liderança das vendas no país, como também mostra levantamento dos professores da UFSC.

Do mesmo modo, o 2,4-D mantém a vice liderança. Princípio ativo de 52 produtos com registro no Brasil, viu suas vendas aumentar em 233,8% entre 2010 e 2020, passando de 15.323 toneladas em 2010 para 51.149 toneladas em 2020, segundo a Embrapa. Uma pequena diferença quanto ao apurado pela USFC, que aponta 57.597,6 toneladas. Mesmo assim, segue na vice-liderança, para indignação de setores da sociedade civil e científica que lutam pelo seu banimento no país. Em julho de 2022 a Anvisa desprezou manifestações e decidiu manter o produto no mercado.

Pacote do Veneno

Integrante da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) pela terceira vez, representando agora o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o geneticista e professor da UFSC, Rubens Nodari, não poupa críticas ao modelo agrícola hegemônico no país. E principalmente às políticas em diversos governos que alimentam, sustentam e pioram a situação. É o caso da aprovação do chamado Pacote do Veneno, em janeiro de 2023, que limitou o papel da Anvisa e do Ibama de questões relativas a agrotóxicos e transgênicos. E da liberdade conferida a essas indústrias poderosas por meio da permissividade da Lei de Biossegurança.

Voto vencido nas decisões da CTNBio, que aprova sem muito questionamentos os pedidos para liberação de novos organismos geneticamente modificados, Nodari avalia que a comissão deixa de cumprir seu papel ao ignorar que “evidência de ausência é diferente de ausência de evidência”. “Quando aprovaram lá o primeiro transgênico, alegaram que havia ausência de evidências. Ora, porque não investigaram para achar; quem procura, acha”, disse, ressaltando que não é contrário a novas tecnologias. “Mas quero que tudo seja analisado com rigor”.

Promessa descumprida

“O aumento de vendas desses produtos todos, que choca e muito, tem tudo a ver com o aumento das plantações transgênicas no Brasil. Primeiro vieram com pretexto de resistir a herbicidas e produzir mais. Mas não foi o que aconteceu”, critica. Todo esse crescimento nas vendas de agrotóxicos, aliás, não foi acompanhado pelo aumento na área plantada, conforme mostra o levantamento da Embrapa.

Em entrevista ao Blog, Nodari disse que o modelo de produção transgênica, com monocultura em grandes extensões de terra e uso de venenos não tem mesmo como dar certo. Isso porque o sucesso da produção agrícola depende da diversidade. “Quando a genética é uniforme em grandes áreas, com plantas iguais, a resistência é menor. Já a diversidade de plantas proporciona variedade genética. E cada planta diferente torna-se um obstáculo para inoculação e disseminação de fungos, por exemplo. É assim nos sistemas agroflorestais, que otimizam o uso da terra combinado com produção agrícola e animal”, comparou.

Segundo ele, a agroecologia é uma tecnologia capaz de aumentar a produção de alimentos sem venenos e enfrentar a crise ambiental. “Mas não é a saída escolhida no país. Prova disso é todos os governos colocaram somente gente do agronegócio para comandar seus ministérios da Agricultura”, disse, lembrando que propostas no sentido contrário ao setor de agrotóxicos praticamente são esquecidas.

Oceano de produtos perigosos

Falar sobre aumento nas vendas de agrotóxicos, que faz a alegria apenas dos fabricantes e daqueles que se beneficiam, é também uma oportunidade de reforçar o alerta sobre o oceano de agrotóxicos perigosos no qual o Brasil está mergulhado. Ou seja, se nada for feito para reverter, em questão de tempo os negócios hoje lucrativos passarão a perder mercado externo.

Dos 14 herbicidas que venderam, sozinhos, mais de 3.000 toneladas no Brasil em 2020, a metade (7) já foi banida na União Europeia. Trata-se de atrazina, acefato, dicloreto de paraquate, diurom, dibrometo de diquate, tebutiurom e ametrina. Ou seja, a proibição ocorre devido aos efeitos nocivos aos humanos e ao meio ambiente devido à exposição a componentes químicos que comprovadamente têm efeitos tóxicos.

No Brasil, ao contrário, há concessão de autorizações para novos produtos por prazo indefinido, com base em processos de avaliação questionados pela boa ciência. Seja pelo baixo rigor científico e aprovação de estudos com falhas metodológicas, apresentados somente pela parte interessada na aprovação. E também pela ausência de participação pública na tomada de decisão.

Exemplo é o rebaixamento da classificação toxicológica de 1924 agrotóxicos no início de agosto de 2019. Com a mudança, o glifosato, por exemplo, recebeu a faixa 4, “produto pouco tóxico”. Na prática, deixou de ser reconhecido como produto capaz de causar câncer em humanos, conforme classificação da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC). Nesse “passe de mágica”, produtos com explosão nas vendas de 2010 a 2020, como o cletodim, triclopir, 2,4-D, atrazina e ametrina, entre outros, foram transformados em substâncias pouco tóxicas. Suas bulas, porém, mantêm o termo muito perigosos ao meio ambiente.

Essa seletividade do perigo de acordo com a conveniência é um escândalo, segundo avaliação do engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo. “Venenos destinados a matar plantas continuam afetando redes ecossistêmicas, mesmo não matando os ratos de teste. E os inseticidas que afetam o sistema nervoso e reprodutivo de insetos afetam insetos não alvo de maneira bem clara, coisa que nos animais é mais difícil de perceber”, ponderou ao Blog.

Melgarejo, que integra o Movimento da Ciência Cidadã, chamou atenção também para o que chama de obsessão pelas análises de risco envolvendo um novo produto e um alvo no laboratório. E a compara com a complexidade da vida real. “Lembra do Einstein dizendo que se os polinizadores acabarem a humanidade regredirá à idade da luta por comida? Pois então… como um veneno pode ser mortal para polinizadores e inócuo para humanos?”, questiona. “As relações, as conexões, as redes, ficam de fora nestas análises de risco que isolam um agente e um alvo. Estes estudos, que simulam uma condição irreal, são reducionistas demais, de um cientificismo pobre, que ocultam danos reais. Não dão conta da complexidade”.


*Cida de Oliveira é jornalista

 

Decisão da EPA de dar sinal verde ao controverso herbicida dicamba gera indignação

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Por Carey Gillam para o “The New Lede” 

Na mais recente reversão das proteções ambientais dos EUA, os reguladores disseram esta semana que planejam aprovar um trio de novos produtos herbicidas feitos com dicamba, um produto químico controverso que causou estragos em áreas rurais, desencadeou anos de litígios e duas vezes proibições judiciais.

A Agência de Proteção Ambiental (EPA) divulgou uma proposta de decisão datada de 22 de julho afirmando que vê mais benefícios do que riscos em permitir que três produtos de dicamba feitos pelas gigantes da indústria agroquímica Bayer, Syngenta e BASF sejam usados por agricultores que cultivam algodão e soja geneticamente modificados para tolerar o dicamba.

Grupos de defesa da saúde pública e ambiental atacaram a decisão, dizendo que ela ignora evidências estabelecidas de que o dicamba tem tendência a se afastar do local onde é pulverizado, principalmente em temperaturas quentes, e que o potente herbicida danificou milhões de acres de plantações, pomares e paisagens onde nunca foi planejado que fosse aplicado.

Eles também dizem que a decisão cheira a favoritismo político, ocorrendo logo após um ex-lobista da indústria da soja ter sido nomeado administrador assistente adjunto para pesticidas no Escritório de Segurança Química e Prevenção da Poluição da EPA.

Mas a EPA afirmou que os produtores de algodão e soja estão tendo dificuldades para eliminar ervas daninhas que ameaçam a saúde de suas plantações, pois elas se tornaram resistentes a outros tipos de herbicidas. Os produtos Dicamba são necessários para proteger essas importantes indústrias, afirmou a EPA.

Em sua avaliação, a EPA observa que a indústria de algodão dos EUA “é responsável por mais de US$ 21 bilhões em produtos e serviços anualmente” e diz que a colheita anual de soja é avaliada em aproximadamente US$ 57,6 bilhões.

A EPA disse que estava trabalhando com a BASF, Syngenta e Bayer para incluir diversas restrições nos rótulos dos produtos visando reduzir os riscos, tanto para pessoas que pulverizam os produtos químicos e certas espécies ameaçadas e em perigo de extinção, quanto para “cultivos sensíveis e certas plantas a favor do vento”.

Ainda assim, os críticos protestaram contra a decisão.

“A EPA de Trump está atingindo novos patamares de absurdo ao planejar dar sinal verde para um agrotóxico que causou os maiores danos por deriva na história agrícola dos EUA e foi rejeitado duas vezes por tribunais federais”, disse Nathan Donley, diretor de ciências da saúde ambiental do Centro para a Diversidade Biológica, em um comunicado. “Isso é o que acontece quando a supervisão de pesticidas é controlada por lobistas da indústria. Os ricos corporativos recebem seu pagamento e todos os outros sofrem as consequências.”

Bill Freese, diretor científico do Centro de Segurança Alimentar, pediu aos funcionários da EPA que retirassem o plano.

“Se permitirmos que essas decisões propostas sejam aprovadas, fazendeiros e moradores de toda a área rural dos Estados Unidos verão novamente suas plantações, árvores e hortas dizimadas pela deriva do dicamba, e áreas naturais como refúgios de vida selvagem também sofrerão”, disse Freese em um comunicado.

O dicamba foi introduzido na agricultura americana em 1967, mas não era amplamente utilizado durante os meses quentes, pois se sabia que o produto químico podia se volatilizar e se mover por longas distâncias com o aumento das temperaturas. Isso mudou quando a Monsanto e a BASF desenvolveram culturas transgênicas tolerantes ao dicamba para uso com novos herbicidas de dicamba, após o uso generalizado do herbicida glifosato da Monsanto em culturas geneticamente modificadas tolerantes ao glifosato ter causado o desenvolvimento de resistência ao glifosato em milhões de acres de plantas daninhas.

No ano passado, um tribunal federal concluiu que a EPA violou a lei ao aprovar os três novos herbicidas de dicamba. Em 2020, um tribunal federal independente concluiu que a EPA havia apresentado análises falhas e “subestimado substancialmente” os riscos associados aos herbicidas de dicamba.

Documentos corporativos internos mostram que a Monsanto, comprada pela Bayer em 2018, e a BASF estavam cientes de que a combinação de suas culturas geneticamente modificadas tolerantes ao dicamba e herbicidas de dicamba provavelmente causaria danos a muitas fazendas dos EUA que não comprassem as culturas e produtos químicos especiais.

Os documentos também descrevem como a Monsanto se opôs aos testes de produtos de terceiros como forma de limitar dados que poderiam preocupar os reguladores.

A decisão sobre o dicamba é uma das muitas medidas tomadas desde que o presidente Donald Trump assumiu o cargo para anular ou desfazer dezenas de restrições ambientais. Até o momento, o governo Trump realizou mais de 140 ações para reverter as regras de proteção ambiental, de acordo com uma análise do The Guardian .

(Imagem em destaque de Karl Wiggers  no  Unsplash.)


Fonte: The New Lede

Exposição à misturas de agrotóxicos aumenta risco de complicações na gravidez, sugere estudo

Um inspetor de controle de mosquitos pulveriza pesticida

Um inspetor de controle de mosquitos pulveriza agrotóxico em Miami Beach, Flórida, em 2016. Fotografia: Joe Raedle/Getty Images 

Por Tom Perkins para o “The Guardian”

A exposição a múltiplos agrotóxicos aumenta as chances de complicações na gravidez em comparação com a exposição a apenas um zgrotóxico sugere uma nova pesquisa revisada por pares . As descobertas levantam novas questões sobre a segurança da exposição a pesticidas e herbicidas amplamente utilizados em comunidades agrícolas e alimentares.

O estudo, que biomonitorou mulheres grávidas em um estado fortemente agrícola na Argentina, soma-se às evidências recentes, porém limitadas, que apontam para perigos maiores em misturas de pesticidas.

Os autores dizem que a pesquisa sobre como as misturas de agrotóxicos afetam a saúde humana é importante porque a grande maioria dos estudos analisa a exposição a um único agrotóxico, e as regulamentações sobre o uso das substâncias são desenvolvidas com base na toxicidade de apenas um.

No entanto, as pessoas são frequentemente expostas a múltiplos agrotóxicos em refeições não orgânicas ou quando vivem em regiões agrícolas ao redor do mundo. Estudar a exposição a essas misturas e outros fatores ambientais é “essencial” para proteger a saúde das pessoas, disseram os autores, da Universidade Nacional do Litoral, na Argentina.

“O conceito de exposoma, que abrange todas as exposições ambientais ao longo da vida, ressalta a importância de estudar pesticidas como misturas e não isoladamente”, escreveram os autores.

O estudo surge na esteira de uma pesquisa da Universidade de Nebraska que descobriu que registros estaduais de câncer e dados de biomonitoramento mostraram que a exposição a vários agrotóxicos  pode aumentar as chances de crianças desenvolverem câncer no cérebro em cerca de 36%.

O novo estudo verificou a presença de agrotóxicos na urina de quase 90 gestantes em Santa Fé, Argentina, uma região fortemente agrícola, e monitorou o desenvolvimento da gravidez. Cerca de 40 agrotóxicos diferentes foram detectados.

Pelo menos um agrotóxico foi encontrado na urina de 81% das mulheres, e 64% apresentaram múltiplos agrotóxicos. Dessas, 34% apresentaram complicações na gravidez.

O número de mulheres que vivem em áreas urbanas com pelo menos um agrotóxico no corpo foi apenas ligeiramente menor do que o das mulheres em distritos rurais, sugerindo que a alimentação também é uma via de exposição significativa. No entanto, cerca de 70% das mulheres em áreas rurais apresentaram múltiplos agrotóxicos, em comparação com 55% das mulheres em áreas urbanas, evidenciando um risco maior entre as primeiras.

Os participantes rurais tinham duas vezes mais probabilidade de ter complicações relacionadas à gravidez em comparação aos participantes urbanos, em parte porque eram expostos com mais frequência a misturas.

A região de Santa Fé cultiva dezenas de culturas, incluindo alface, repolho, chicória, tomate, salsa, espinafre, cenoura, pimentão, batata e morango, e a grande variedade de culturas leva ao uso de mais agrotóxicos, escreveram os autores.

“O aumento da prevalência de complicações relacionadas à gravidez entre participantes rurais destaca a necessidade de uma revisão abrangente dos protocolos de uso de agrotóxicos, limites de exposição e avaliações de risco à saúde em programas de agricultura e horticultura”, disseram os autores.

A hipertensão gestacional estava entre as complicações mais comuns relacionadas à gravidez, e o resultado mais comum foi a restrição de crescimento intrauterino, uma condição na qual o feto não atinge o peso normal durante a gravidez.

Os resultados também podem apontar para perigos no tipo de pesticida ao qual as mulheres são expostas, escreveram os autores. Aquelas que apresentaram complicações apresentaram níveis mais elevados de fungicidas triazólicos, uma classe de agrotóxicos amplamente utilizada em culturas como milho, soja e trigo. Algumas evidências anteriores sugerem que se trata de um tóxico reprodutivo, e os autores afirmam que suas descobertas demonstram a necessidade de mais pesquisas sobre os potenciais efeitos dessa classe.

Embora nem todos os pesticidas sejam usados nos EUA ou em outros países como na Argentina, o uso de fungicidas triazólicos quadruplicou nos EUA entre 2006 e 2016, especialmente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Ainda assim, o uso tem sido pouco investigado por órgãos reguladores.

A exposição a misturas de pesticidas em geral “é a regra, não a exceção”, disse Nathan Donley, pesquisador de agrotóxicos do Centro de Diversidade Biológica, que não esteve envolvido no estudo.

“Na maioria dos casos, não temos a mínima ideia de como as diferentes misturas interagem no útero, em uma criança ou em um adulto”, disse Donley. “Algumas misturas provavelmente não estão fazendo muita coisa, outras provavelmente estão causando danos significativos que ainda não identificamos.”

Há pouca supervisão regulatória de misturas de agrotóxicos nos EUA, em parte porque determinar os impactos das misturas na saúde é complicado, acrescentou Donley.

“Os EUA tendem a simplesmente presumir que tudo é seguro até que se prove o contrário e, como há muito pouca pesquisa sobre misturas de agrotóxicos, raramente se prova o contrário”, disse Donley, acrescentando que os riscos desconhecidos exigem maior precaução.

Os autores observam que o tamanho da amostra do artigo é pequeno, e as descobertas apontam para a necessidade de um estudo maior de biomonitoramento.

“São necessários maiores esforços para aprofundar e expandir a avaliação da exposição humana a agrotóxicos em populações vulneráveis”, escreveram os autores.


Fonte: The Guardian

Perigosas, infrações relacionadas a agrotóxicos aumentam em MS

Embalagens vazias de agrotóxico e técnico em central de processamento na Capital (Foto: Osmar Veiga)

Por Cássia Modena para o “Campo Grande News” 

Eles são perigosos, mas altamente demandados na produção agrícola em larga escala. Leis e fiscalização tentam traçar a linha do meio no uso seguro de agrotóxicos, enquanto as infrações aumentam no Estado.

A Iagro (Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal) e a PMA (Polícia Militar Ambiental) flagraram, juntas, 1.208 irregularidades em propriedades rurais de Mato Grosso do Sul entre 2023 e 2025.

A quantidade é maior que essa, já que a PMA não apresentou dados de 2023.

O crescimento foi de 10% na comparação entre autos de infração lançados apenas pela Iagro em 2023 e 2024. A maioria é sobre descarte e armazenamento errados, que oferecem risco de intoxicação e contaminação não só entre pessoas, mas também a animais, rios e lençol freático.

Arte: Thainara Fontoura

A Iagro e à PMA cabe cuidar o que tem a ver com a defesa da saúde humana e dos recursos naturais. Já a fiscalização da importação e uso de pesticidas proibidos no Brasil, é de responsabilidade de órgãos como PF (Polícia Federal), PRF (Polícia Rodoviária Federal), DOF (Departamento de Operações e Fronteira), Ministério da Agricultura e Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis).

Duas apreensões feitas pelo DOF em janeiro deste ano, por exemplo, desviaram cargas com veneno agrícola ilegal avaliadas em mais de R$ 9 milhões.

Falha na fiscalização

No mês passado, fiscais do Ibama foram até uma fazenda de Sidrolândia, após receberem denúncia de queima de embalagem e uso de agrotóxicos falsificados.

O que mais impressionou foi o descaso com os galões usados em área plantada tão grande, por arrendatário que fazia cultivo há anos no mesmo local, disse a superintendente do órgão em Mato Grosso do Sul, Joanice Lube.

Os fiscais federais não confirmaram a denúncia sobre agrotóxicos que vêm de fora. Foram encontradas somente embalagens de produtos nacionais, inclusive, com conteúdo vencido há mais de um ano. As irregularidades geraram multa de R$ 324 mil ao arrendatário.

Embalagens de agrotóxicos descartadas à céu aberto ou enterradas em fazenda de Sidrolândia (Foto: Divulgação/Ibama)

Joanice admite que a fiscalização do uso de agrotóxicos importados ilegalmente precisa melhorar. É o que o MPF (Ministério Público Federal) já pede ao Ibama em Mato Grosso do Sul.

Para ter certeza que não se depararam com embalagens mascaradas com rótulos falsos, o Ibama no Estado teria que ter um aparelho chamado espectrômetro para analisar o conteúdo líquido. O órgão federal comprou três, mas nenhum chegou aqui.

“O correto seria fazer amostra e usar o aparelho para fazer teste e ter o fazer resultado na hora. Como tem denúncias de uso de agrotóxico ilegal, temos que aprimorar a fiscalização”, falou a superintendente.

Terras indígenas

Enquanto algumas comunidades indígenas se organizam e cultivam suas lavouras, outras são vítimas de pulverizações aéreas de veneno com alto risco de intoxicar pessoas e comprometer a água consumida nas aldeias.

“Isso tem tem sido um grande problema no sul de Mato Grosso do Sul, onde a gente tem comunidades indígenas cercadas por plantações. Os aviões agrícolas passam por cima delas. Sem falar que os produtos ficam à deriva dependendo das condições atmosféricas, e podem ‘andar’ até mais que 500 metros”, descreve Joanice.

Perigosas, infrações relacionadas a agrotóxicos aumentam em MS

Aeronave faz pulverização de agrotóxico em fazenda (Foto: Perícia do MPT/MS)

Nos casos em que os próprios povos originários usam nas plantações, eles também podem ser vítimas. “Isso tem impactado diretamente a saúde deles”, conclui a superintendente.

Logística reserva

Editada em dezembro de 2023, a lei federal nº 14.785 deixou mais rígido o controle de agrotóxicos no Brasil e definiu as responsabilidades quanto à destinação correta das embalagens de agrotóxicos.

Mas ainda é comum fiscais encontrarem as vazias servindo até de garrafa para beber água no campo, o que não é recomendado, pois qualquer pequeno resíduo pode ser tóxico e levar à morte.

Os fabricantes nacionais montaram o InpEV (Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias) para dar conta da logística reversa das embalagens, de forma que elas sejam incineradas, se o resíduo não for lavável, ou reaproveitadas.

Perigosas, infrações relacionadas a agrotóxicos aumentam em MS

Arte: Thainara Fontoura

Cerca de 90% das embalagens usadas em propriedades rurais nos estados voltam para os galpões de processamento do instituto e ganham novas funções, segundo o engenheiro agrônomo que coordena as operações em Mato Grosso do Sul, Hamilton Flandoli.

O Estado é o 7º na lista de maiores devolvedores. Ele contribuiu com 7% do total de 4.894 mil toneladas de embalagens processadas em 2024, de acordo com o InpEV.

Hamilton explica que a conta não fecha porque o que é comprado, nem sempre é devolvido. “Não vai dar 100%, já que não necessariamente o produtor vai usar o produto naquele ano. E depende do produto. Pode não dar as pragas que ele achou que ia ter. Então, acaba ficando guardado”, diz. Outro caso, é a demora no recolhimento de embalagens que ficam em cooperativas.

O produtor rural precisa ter receita emitida por técnico para comprar um agrotóxico. Pela lei, ele deve devolver a embalagem em até um ano após a aquisição.

O coordenador do InpEV frisa que os fabricantes organizam caminhões de recolhimento apenas para atender pequenos produtores. Os grandes, precisam providenciar a destinação correta por si.


Fonte:  Campo Grande News

Pesquisadores identificam culpado pela maior mortandade de abelhas na história dos EUA: ácaros resistentes a agrotóxicos

Pesquisa do USDA aponta para vírus disseminados por ácaros resistentes a agrotóxicos, indicando uma tendência preocupante

As colônias comerciais de abelhas desempenham um papel importante na polinização de muitas plantações nos EUA, mas são ameaçadas pelos ácaros varroa, que espalham vírus letais. Joe Raedle/Getty Images

Por Joanna Thompson para a Science 

Os apicultores dos EUA tiveram um inverno desastroso. Entre junho de 2024 e janeiro de 2025, 62% das colônias comerciais de abelhas melíferas nos Estados Unidos morreram , de acordo com uma extensa pesquisa. Foi a maior mortandade já registrada, logo após uma mortandade de 55% no inverno anterior.

Assim que cientistas do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) tomaram conhecimento das mortes recordes, eles entraram em ação — mas seus esforços foram retardados por uma série de cortes de verbas federais e demissões pelo governo do presidente Donald Trump . Agora, 6 meses depois, cientistas do USDA finalmente identificaram um culpado.

De acordo com uma pré-impressão publicada no servidor bioRxiv este mês, quase todas as colônias mortas testaram positivo para vírus de abelha disseminados por ácaros parasitas. De forma alarmante, todos os ácaros examinados pelos pesquisadores eram resistentes ao amitraz , o único agrotóxico — ou acaricida — específico para ácaros viável desse tipo que resta no arsenal humano.

Acompanhar o aumento da resistência aos acaricidas é fundamental, afirmam especialistas. As abelhas polinizam mais de 90 culturas comerciais nos Estados Unidos, geram entre US$ 20 bilhões e US$ 30 bilhões em receita agrícola e desempenham um papel fundamental na manutenção da estabilidade do suprimento de alimentos nos EUA.

“Há muita coisa em jogo”, afirma Danielle Downey, diretora executiva do Projeto Apis m. , a organização sem fins lucrativos que conduziu a pesquisa sobre a mortandade de abelhas. O USDA não comentou sua pesquisa à Science após várias consultas que duraram quase três semanas, com um porta-voz citando a necessidade de “adiar [a solicitação] para aprovação da agência”.

Os ácaros Varroa resistentes a acaricidas têm sido um problema crescente para os apicultores há anos, tanto que os criadores têm buscado desenvolver variedades de abelhas resistentes a ácaros . Desde a década de 1980, os parasitas desenvolveram resistência global a pelo menos quatro classes principais de acaricidas. Infelizmente, novos compostos eficazes são notoriamente difíceis de desenvolver, e o amitraz representava um dos melhores tratamentos restantes. Mas a pré-impressão sugere que o amitraz pode em breve cair em desuso.

As descobertas do estudo são “preocupantes”, afirma Aaron Gross, toxicologista do Instituto Politécnico e da Universidade Estadual da Virgínia. Mesmo um acaricida como o amitraz, amplamente considerado uma das opções menos tóxicas para humanos e abelhas, pode enfraquecer as colônias quando aplicado em altas doses, afirma Gross, especialista em resistência a pesticidas para artrópodes que não participou do novo trabalho. Perder o amitraz pode ser um grande golpe para os apicultores, afirma ele, já que muitos outros acaricidas são mais agressivos ou menos eficazes. “Você não precisa se preocupar apenas em matar o ácaro em si; você [também] não quer prejudicar a abelha.”

Pesquisadores do USDA identificaram os ácaros e sua resistência ao amitraz examinando detalhadamente colônias de abelhas mortas. Uma equipe liderada por Jay Evans e Zachary Lamas, ambos pesquisadores de abelhas do Laboratório de Abelhas do USDA em Beltsville, Maryland, coletou abelhas mortas de 113 colônias afetadas em todos os EUA, bem como amostras de cera, pólen, mel e — quando possível — quaisquer parasitas. As amostras foram levadas para laboratórios nacionais de abelhas em Beltsville e Baton Rouge, Louisiana, onde os pesquisadores extraíram DNA e RNA e os analisaram em busca de fragmentos de material genético viral ou bacteriano. Eles também sequenciaram o DNA dos ácaros varroa recuperados e procuraram genes relacionados à resistência a acaricidas.

Matthew Mulica, do Keystone Policy Center, que lidera uma coalizão focada na saúde das abelhas , ressalta que, embora os vírus transmitidos por ácaros provavelmente tenham causado um golpe fatal em muitas colônias, outros fatores, como exposição a pesticidas ou nutrição inadequada, podem ter tornado as abelhas mais suscetíveis a doenças. Nas próximas semanas, o USDA deve publicar uma análise dos resíduos de agrotóxicos encontrados nas colônias mortas. Mas, de acordo com Mulica, este relatório inicial ainda serve como um diagnóstico inicial forte. “É bom que este estudo tenha sido publicado e encontrado algo que possamos apontar.”

À medida que os acaricidas perdem sua eficácia, os pesquisadores buscam desenvolver maneiras de atacar os vírus das abelhas diretamente, em vez de se concentrarem no controle dos ácaros Varroa. A principal ameaça dos ácaros às abelhas é a disseminação de vírus de RNA de fita simples. Em princípio, uma técnica chamada interferência de RNA poderia gerar tratamentos que desencadeiem respostas imunológicas nas abelhas e as protejam contra os vírus. Mas esses tratamentos ainda estão a anos de distância de serem implementados fora do laboratório, e Mulica acrescenta que não há antivirais existentes que atuem contra esses vírus.

Por enquanto, organizações como o Projeto Apis m . estão aconselhando os apicultores a adotarem uma abordagem abrangente para controlar os ácaros Varroa. Essas medidas incluem a rotação de acaricidas sem amitraze, a esterilização de equipamentos com álcool ou fogo e o isolamento de colônias doentes para evitar a disseminação dos ácaros.

Para alguns apicultores, no entanto, a notícia sobre os ácaros e sua resistência ao amitraz pode ter chegado tarde demais. A pré-impressão foi divulgada perto do fim da janela anual de reconstrução dos apicultores dos EUA. Após o início do verão, fica mais difícil para eles repovoarem completamente suas colônias, especialmente se não tiverem tratado suas colmeias para os problemas certos. Embora os apicultores tenham se esforçado para se preparar para o próximo ano, Downey diz que muitos terão que seguir em frente com menos colônias do que estão acostumados.

As colônias de abelhas podem se recuperar de um ou dois anos difíceis, mas muitas quedas populacionais consecutivas podem significar um desastre — o que significa que os apicultores precisarão de organizações como o USDA totalmente financiadas e a todo vapor, acrescenta Downey. “Com a vontade e os recursos certos, existem esforços tangíveis que podem evitar que isso aconteça novamente”, diz ela. “O USDA e os laboratórios universitários são componentes essenciais.”


Fonte: Science

Acendendo velas para o santo sob o olhar do diabo: governo Lula cria PRONARA, enquanto continua liberação recorde de agrotóxicos

No dia de ontem, o presidente Lula finalmente assinou o decreto que cria o chamado “Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos” (PRONARA). A ideia do programa seria favorecer o desenvolvimento de sistemas agrícolas menos dependentes de venenos agrícolas e estabelecer pontes para o desenvolvimento de uma agricultura de base ecológica.

Quem vê o anúncio do PRONARA pode pensar que estamos diante de um momento daqueles que se chama de “paradigmático”, pois o Brasil é hoje o maior mercado mundial de agrotóxicos, tendo aumentado o consumo de venenos agrícolas (muitos deles banidos nos países que os fabricam) em torno de 1.300% entre 1990 e 2021, segundo dados da FAO.

Vivemos hoje uma epidemia de múltiplas doenças causadas pela exposição aguda e crônica a venenos extremamente potentes que contaminam águas, solos e atmosfera, e entram em nossas casas via a água de torneira e os alimentos que consumimos diariamente, estejam eles na forma natural ou processada. A verdade é que os agrotóxicos usados para alavancar a produção industrial de commodities agrícolas, principalmente a soja, estão por toda parte e afetando a todos.

Então por que não celebrar efusivamente a tardia chegada do PRONARA? É porque no mesmo dia em que o programa foi lançado, o governo Lula liberou mais 115 agrotóxicos, muitos deles dentro das categoria “altamente tóxico” e “banido”.  Em outras palavras, enquanto acende uma vela para o santo, o governo Lula acendeu várias outras para o diabo. E tendo uma figura como Carlos Fávaro como ministro da Agricultura, o que se garante é que o número de velas para o diabo será sempre maior do que aquelas cesas para o santo.

Um dos riscos que estão associados a qualquer decreto é a sua regulamentação. No caso do PRONARA, essa regulamentação ficará por conta dos ministérios do Meio Ambiente e Mudança do Clima,  Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar,  da Agricultura e Pecuária e da Saúde. Em outras palavras, essa regulamentação ficará essencialmente, até por força do que está determinado pelo chamado Pacote do Veneno, basicamente nas mãos de quem não quer reduzir o uso de agrotóxicos, qual seja, o ministro Carlos Fávaro.

Para não correr o risco de se jogar a criança com a água suja do banho, há que se dizer que como qualquer coisa neste momento, a questão da redução dos agrotóxicos passa por uma disputa política que não pode e nem deve ficar nas mãos do presidente Lula e seus ministros.  A luta pela mudança para um modelo agroecológico de produção de alimentos é parte de um confronto muito mais amplo que ocorre dentro da sociedade brasileira. Nesse confronto se contrapõe os interesses do latifúndio agro-exportador e das multinacionais que controlam a produção de insumos aos da maioria da população.

Observatório dos Agrotóxicos: governo Lula mantém inalterada a marcha do veneno e libera mais 115 agrotóxicos

Mostrando um compromisso inalterado com o modelo agrícola agro-exportador, fortemente dependente de venenos agrícolas para produzir, o governo Lula autorizou hoje, via dois, o Ato No. 26 de 24 de junho de 2025 e o Ato No. 28 de 27 de junho de 2025, a comercialização de mais 56 agrotóxicos em território brasileiro. 

Em mais esse ato contra a saúde ambiental e dos brasileiros em geral foram liberados velhos conhecidos, incluindo os herbicidas Dicamba, Glifosato e Glufosinato que são todas substâncias que são reconhecidamente tóxicas para o meio ambiente e a saúde humana.

Outras característica persistente que está presente em mais esse “ato” é a forte predominãncia de empresas chinesas como as principais fornecedoras desses venenos agrícolas, mostrando um processo de trocas altamente desiguais, seja econômica como ambientalmente.

O fato inescapável é que o governo Lula está mantendo inalterada a marcha do veneno estabelecida pelo governo de Jair Bolsonaro, o que não chega a ser uma surpresa visto que há no atual governo a mesma espécie de compromisso com a pauta agro-exportadora que está na base desse enxurrada de agrotóxicos.

Coformulantes: a caixa preta da toxicidade dos agrotóxicos

Por PAN Europe

No dia 11 de junho, participamos de uma audiência no Tribunal Geral da UE, em Luxemburgo, questionando a falta de testes de coformulantes em produtos pesticidas. Iniciamos este processo judicial em 2023. Os coformulantes representam a maioria dos ingredientes de agrotóxicos comerciais, enquanto geralmente apenas um ingrediente ativo é avaliado quanto à sua toxicidade para humanos, incluindo sua carcinogenicidade ou propriedades de desregulação endócrina. Os coformulantes são atualmente muito mal monitorados e regulamentados. 

De acordo com o regulamento da UE sobre agrotóxicos (reg. 1107/2009/CE), coformulantes são substâncias que não são ingredientes ativos e que se destinam a aumentar a “eficácia” dos agrotóxicos. Na realidade, a maioria dos coformulantes são detergentes potentes (chamados surfactantes/agentes umectantes/agentes antiespumantes, etc.) que aumentam a toxicidade do ingrediente ativo para a praga alvo, mas também, naturalmente, para humanos e outros organismos. O regulamento sobre agrotóxicos esclarece que o nível de proteção da saúde humana e do meio ambiente contra coformulantes deve ser o mesmo que para os ingredientes ativos dos pesticidas. No entanto, este não é o caso.

Evidências científicas mostram que os coformulantes podem aumentar em milhares de vezes a toxicidade do ingrediente ativo para as células humanas. De fato, os surfactantes ajudam as substâncias agrotóxicos a penetrar no coração das nossas células e danificá-las. Inúmeros coformulantes também são prejudiciais por si só: alguns são derivados de petróleo com propriedades desreguladoras endócrinas, mutagênicas ou cancerígenas, outros matam abelhas e outros insetos, peixes, salamandras e sapos.

Nova regulamentação sem força

Em 2023, a Comissão Europeia publicou um novo regulamento sobre as regras detalhadas para identificar coformulantes inaceitáveis ​​(reg. 2023/574/CE). A proposta da Comissão não melhorou verdadeiramente a situação, uma vez que não foram solicitados à indústria dados de toxicidade obrigatórios para avaliar adequadamente estas substâncias. No âmbito da consulta pública, a PAN Europe partilhou o seu documento de posição (1) e criticou este regulamento vazio. A PAN Europe considerou que as regras propostas não estavam em conformidade com o elevado nível de proteção previsto no regulamento relativo aos agrotóxicos . Por outro lado, a CropLifeEU, a organização que representa a indústria dos pesticidas, aplaudiu este regulamento. (2)

Martin Dermine, diretor executivo da PAN Europe, afirmou: ” Alguns coformulantes são substâncias altamente tóxicas, como carcinógenos ou desreguladores endócrinos. Outros comprovadamente dizimam abelhas. A Comissão solicita aos Estados-Membros que avaliem sua toxicidade sem receber quaisquer dados de toxicidade. Isso não faz sentido: é como pedir a alguém para fazer um bolo sem fornecer os ingredientes necessários. “

Após a publicação do “regulamento dos coformulantes”, a PAN Europe decidiu recorrer ao Tribunal da UE para contestar esta legislação ineficaz. A PAN Europe contesta três questões neste regulamento. Em primeiro lugar, o facto de não ser exigida qualquer exigência de dados à indústria de agrotóxicos para que os Estados-Membros possam realizar o seu trabalho e avaliar a toxicidade dos coformulantes para a saúde e o ambiente. 

Em segundo lugar, a PAN Europe contesta o fato de que, com este regulamento, a Comissão Europeia coloca o ônus da avaliação dos coformulantes sobre os Estados-Membros. O regulamento prevê que os 27 Estados-Membros sejam obrigados a realizar uma avaliação de risco dos milhares de coformulantes no mercado. Realizar o mesmo trabalho 27 vezes levará a diferentes interpretações e conclusões e paralisará a tomada de decisões. A PAN Europe solicita que a avaliação seja realizada em nível da UE pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), que possui mais experiência e meios para realizar o trabalho. A PAN Europe também solicita que o regulamento dos coformulantes contenha a obrigação de os Estados-Membros tomarem uma decisão formal na avaliação de risco: com o regulamento atual, eles são obrigados a realizar uma avaliação de risco dos coformulantes, sem dados, como mencionado anteriormente, e sem a obrigação de concluir positiva ou negativamente. Este ponto é importante para aumentar a responsabilização das autoridades reguladoras. 

Em terceiro lugar, a PAN Europe contesta o fato de que, ao colocar o ônus sobre os ombros dos Estados-Membros, a Comissão se abstrai da sua obrigação legal de regulamentar os coformulantes, como previsto no regulamento dos pesticidas, e transfere esta prerrogativa apenas para os Estados-Membros.

O caso opõe a PAN Europe à Comissão Europeia, com a intervenção da CropLifeEU em apoio à Comissão e sua regulamentação de coformulantes pró-indústria.

Questões críticas para o PAN Europa em audiência judicial

Na audiência perante o Tribunal Geral, os três juízes fizeram perguntas às partes envolvidas. Muitas perguntas foram dirigidas ao nosso advogado, Professor Antoine Bailleux, que ilustrou as consequências para a saúde e o meio ambiente da não regulamentação dessas substâncias tóxicas que se espalham sem controle em nossos alimentos e no meio ambiente. A falta de regulamentação pode ser juridicamente mais complicada para os juízes do que a aplicação incorreta da regulamentação. Veremos em alguns meses como as perguntas se traduzirão em uma sentença neste caso.

Notas: 

(1)  Comentários de: Pesticide Action Network Europe – 18 de novembro de 2022

(2)  Feedback de: CropLife Europe – 14 de novembro de 2022


Fonte: Pan Europe

Pesquisa da UFPB aponta alterações genéticas em agricultores paraibanos expostos a 2,4-D e glifosato

Pesquisadores analisaram 2.100 células da mucosa bucal de cada participante. Na foto a professora Laís Campos Teixeira de Carvalho Gonçalves, coordenadora do estudo. Divulgação: UFPB.

Por Rodrigo Chagas para o “Brasil de Fato”

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) identificou que trabalhadores rurais expostos a agrotóxicos no estado apresentaram quase três vezes mais danos ao DNA em comparação com pessoas que não lidam com essas substâncias. A pesquisa, realizada entre 2022 e 2023, analisou agricultores de oito municípios paraibanos e identificou alterações celulares significativas. Entre os pesticidas mais utilizados pelos agricultores do estudo destacam-se o 2,4-D e o glifosato, os dois mais utilizados no Brasil.

O 2,4 D foi reavaliado em 2022 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), responsável pela regulação da comercialização de agrotóxicos no Brasil, e classificado como “extremamente tóxico”. Já o glifosato, o mais vendido do mundo, foi reavaliado em 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), e passou de “extremamente tóxico” para “pouco tóxico”.

De acordo com a coordenadora do estudo, professora Laís Gonçalves, do Centro de Tecnologia e Desenvolvimento Regional (CTDR), os efeitos genotóxicos (que podem causar danos ao material genético) observados nas células dos agricultores indicam riscos graves à saúde. “As alterações indicam danos genéticos ou celulares graves e podem estar associadas a risco aumentado de doenças, especialmente câncer, envelhecimento precoce e doenças degenerativas”, alerta.

Os danos identificados ocorreram em células somáticas (ou seja, células que não incluem espermatozóides e óvulos) e, portanto, não devem resultar em alterações hereditárias. Para identificar esses danos, os pesquisadores analisaram 2.100 células da mucosa bucal de cada participante, aplicando técnicas como o teste de micronúcleo e o ensaio cometa. Neste último, as células são observadas ao microscópio após eletroforese: quando o DNA está fragmentado, ele migra e forma uma “cauda” semelhante à de um cometa. Quanto maior e mais intensa essa cauda, maior o nível de dano genético presente na célula.

“Encontramos [nos agricultores] dois núcleos dentro da mesma célula, núcleos com um broto – foi o que mais encontramos – ou aquele núcleo que já sofreu tanto desgaste que começa a desaparecer”, explica Gonçalves.

A gravidade dos resultados e o contato direto com a realidade vivida pelos agricultores motivaram a criação do projeto Cultivo Limpo, iniciativa em parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), voltada à formação e orientação de trabalhadores rurais sobre os impactos dos pesticidas. “Nosso grupo percebeu que era urgente levar essas informações para a comunidade. Muitos agricultores desconheciam os riscos à própria saúde e ao meio ambiente. Criamos o projeto Cultivo Limpo como forma de orientar e oferecer alternativas mais seguras”, afirma a professora.

Confira a entrevista com a professora Laís Gonçalves na íntegra.

Brasil de Fato: O que motivou vocês a fazerem esse tipo de estudo, sobre a influência dos agrotóxicos em eventuais danos no DNA humano?

Laís Campos Teixeira de Carvalho Gonçalves: Eu sou professora de um curso que é voltado muito para essa área de cana-de-açúcar, de tecnologia em produção sucroalcooleira. Comecei a perceber relações entre contaminações por agrotóxicos e ausência de equipamentos de proteção individual, os EPIs, por parte dos agricultores que aplicavam.

Quando eu trouxe isso para a Paraíba, eu fui buscar na literatura e vi que não tinha nenhum estudo que fizesse essa correlação. Conversei com outros colegas e submetemos um projeto nessa área para tentar investigar como estava a situação do agricultor paraibano: se ele vinha utilizando agrotóxicos, que agrotóxicos utilizava, quanto tempo usava e se se protegia ou não.

Além da parte de entrevista, pensamos num método mais fácil de coletar amostras biológicas – que não fosse muito invasivo, mas que tivesse um bom respaldo científico – e escolhemos o biomonitoramento de células da mucosa bucal. Foi a partir daí que começamos a entrar mesmo nesse mundo.

Vimos coisas que nos chamaram muita atenção: agricultor que pega uma embalagem de agrotóxico extremamente tóxico e guarda como reservatório de água em tempos de seca. Essas embalagens ficam expostas, próximas a crianças que brincam. A gente viu como esse pessoal precisa de formação, de uma educação ambiental.

Muitos agricultores não sabiam nem dizer o nome do produto. O nível de escolaridade era muito baixo, muitas vezes nem tinham o ensino fundamental completo. Encontramos também pessoas analfabetas. Então, quando diziam o nome, muitas vezes a gente não encontrava aquele nome na literatura. Mas alguns conseguimos identificar e incluímos no estudo. O principal foi o 2,4-D. Foi unânime. O glifosato também foi muito citado, mas o 2,4-D foi unânime. E ele é classificado como altamente tóxico pela Anvisa.

Quais foram os principais resultados obtidos?

Nós coletamos células da mucosa dos agricultores e analisamos a qualidade dessas células. O que encontramos? Que os agricultores, principalmente os mais velhos e os que usam pesticidas há mais de 10 anos, apresentaram um maior número de alterações nucleares. Nossa célula deve ter um núcleo bem delimitado e definido. Encontramos [nos agricultores] dois núcleos dentro da mesma célula, núcleos com um broto – foi o que mais encontramos – ou aquele núcleo que já sofreu tanto desgaste que começa a desaparecer.

Comparado ao grupo controle – pessoas que nunca trabalharam diretamente com agrotóxicos –, os agricultores apresentaram alterações importantes. E eles basicamente não usavam nenhum EPI.

Todos os agricultores estudados apresentaram algum tipo de dano? E os do grupo controle?

Dos 33 agricultores, cerca de 50% apresentaram danos acima do considerado normal. No grupo controle, as 29 pessoas, praticamente nenhuma apresentou dano.

Vocês têm alguma hipótese de por que isso acontece?

A gente sabe que alguns agrotóxicos têm efeitos mutagênicos. Não é um tema fácil de abordar, porque as empresas dizem que ainda são necessários mais estudos. Mas muitos estudos científicos já correlacionam esses produtos a efeitos mutagênicos – como o glifosato e o 2,4-D. Então há indícios de que essas substâncias estejam relacionadas aos danos que observamos.

A maioria dos agricultores não usa luvas, e quase nenhum usa máscara. Inalam o produto. O momento de preparar a calda é o mais crítico, porque o produto está concentrado. Às vezes, pegam com a própria mão. Então, sim, há fortes indícios de que sejam essas substâncias as responsáveis.

O 2,4-D e o glifosato são muito utilizados nesse grupo?

Sim. Foram os mais citados. O 2,4-D, inclusive, foi unânime.

Qual deveria ser a responsabilidade das empresas que produzem esses produtos?

É preciso haver treinamento para os agricultores que vão trabalhar com esses produtos. A maioria tem baixo nível educacional, o rótulo é pequeno, com letras pequenas, e eles não entendem. Muitos não seguem a recomendação: se dizem para diluir 100 ml em 1 litro, eles não acreditam que só isso funciona. Colocam cinco vezes mais.

Falta educação, falta treinamento. Os agricultores precisam entender o que significam as cores dos rótulos. Muitos não sabem. Quando perguntamos a cor, dizem branco, que é da embalagem, não do rótulo. É preciso mais formação.

Estudante da UFPB realiza coleta de amostras biológicas de agricultor (Foto: Divulgação/UFPB)

Eles consideram o uso de agrotóxicos imprescindível?

Alguns sim. Mas muitos têm medo de falar que usam. Outros dizem que não sabem o que fazer se a praga aparecer. Dizem: “A gente só tem isso”. Quando apresentamos o controle biológico, eles escutam. Não noto resistência. O medo é perder dinheiro.

Qual o objetivo da equipe agora?
Submetemos um novo projeto. Queremos ampliar o estudo para biomarcadores no sangue, outras alterações fisiológicas e investigar a presença de agrotóxicos nos principais reservatórios de água do estado. Agricultores relatam mortandade de peixes em regiões com muito plantio. Queremos investigar também essa relação ambiental.

A gente também quer ampliar o espectro dos nossos estudos, aumentar o número de biomarcadores analisados. Até agora, avaliamos apenas o núcleo, o DNA, mas queremos começar a investigar também biomarcadores tumorais, inclusive no sangue, para reunir todos os dados e consolidar melhor a nossa hipótese.

Quais doenças podem estar associadas aos danos no DNA?

Principalmente câncer, mas também doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer. Nas capacitações, orientamos grávidas a evitarem o contato com pesticidas, porque há correlação com más-formações genéticas.

Esse estudo está inserido em um trabalho mais amplo de educação?

Sim. Quando vimos os resultados em laboratório, entendemos que era preciso levar isso para os agricultores. Não os dados individuais, mas os dados do grupo. Em parceria com o Ministério Público, o Ibama, a Arpan [Associação dos Revendedores de Produtos Agropecuários do Nordeste] Arpan, organizamos encontros com os agricultores. O Ibama fala sobre o impacto ambiental, o desaparecimento das abelhas, e a UFPB mostra os impactos para a saúde.

Explicamos os riscos, mostramos gráficos, levamos embalagens de agrotóxicos para mostrar as cores dos rótulos. Muitos não sabiam o que significavam. Também falamos sobre compra segura, porque há muita venda clandestina. A Arpan recolhe as embalagens, para evitar descarte incorreto.

A gente roda o estado: litoral, brejo, sertão. Às vezes não conseguimos reunir muitos agricultores porque o patrão não libera. Mas os que participam trazem relatos muito importantes. Muitos dizem que o patrão não fornece EPIs. Também há muita subnotificação de intoxicação. Aplicam o veneno, sentem tontura, dor de cabeça, acham que é virose, mas é intoxicação aguda.

Queremos que a Secretaria de Saúde pergunte se aplicaram veneno quando a pessoa chega com esses sintomas. Eles não sabem o que é “pesticida” ou “agrotóxico”, mas dizem que usaram “veneno”. O linguajar precisa ser o deles.

Quer acrescentar algo?

Sim. O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo. Nossa agricultura serve de exemplo para outros países. Temos colegas que vão dar cursos no Marrocos, na Ásia, sobre controle biológico na cana-de-açúcar, no arroz. Precisamos investir nisso, em mais estudos e alternativas, deixar mais próximo do agricultor familiar. E trabalhar em conjunto com eles para que cuidem da própria saúde. Precisamos educar também as novas gerações, nas escolas, para que levem essas informações para casa.

Milho ancestral versus agronegócio: por que os “guardiões das sementes” da Colômbia estão lutando contra o uso de culturas geneticamente modificadas

As empresas de biotecnologia afirmam que as plantas geneticamente modificadas proporcionam maior produtividade e reduzem o uso de agrotóxicos. Mas, nas comunidades rurais, crescem as dúvidas sobre quem realmente se beneficia – e a ameaça às variedades nativas 

José Castillo, membro de um grupo de guardiões de sementes, exibe uma variedade de sementes nativas que eles preservaram. Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian

Por Gabriela Barzallo,  em San Lorenzo, Colômbia, para o “The Guardian”

Em uma fazenda na encosta de San Lorenzo , nas montanhas do departamento de Nariño, no sul da Colômbia , Aura Alina Domínguez pressiona sementes de milho no solo úmido. Ao seu redor, os agricultores Alberto Gómez, José Castillo e Javier Castillo chegam com suas sementes selecionadas, armazenadas em shigras – bolsas de ombro tecidas à mão – como vem sendo feito há gerações.

Em San Lorenzo, eles se autodenominam “guardiões das sementes” por seu papel na proteção desse patrimônio vivo e na transmissão de suas gerações. “Cada semente carrega a história dos nossos avós”, diz Domínguez, enquanto arruma as espigas secas penduradas em suas vigas.

Domínguez, Gómez e os Castillos estão entre os agricultores que apoiam o projeto de lei , em análise pela câmara baixa do parlamento colombiano, que proibiria sementes geneticamente modificadas (GM) , que eles alegam ameaçar suas tradições, meios de subsistência e soberania alimentar.

A iniciativa conta com o apoio de organizações indígenas, camponesas e ambientalistas, mas enfrenta oposição do agronegócio e de setores que apoiam os transgênicos como estratégia de desenvolvimento econômico.

Um grupo de pessoas segurando espigas de milho caminha por um campo com montanhas ao longe.

Os guardiões das sementes protegem variedades de sementes tradicionais transmitidas de geração em geração entre agricultores em San Lorenzo, Nariño, Colômbia. Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian

A introdução de culturas transgênicas na Colômbia tem causado debates acalorados desde a adoção do algodão transgênico em 2002 e do milho transgênico em 2007, quando a política nacional se alinhou às tendências globais da biotecnologia. De acordo com estatísticas do Instituto Colombiano de Agricultura (ICA) , entre 2003 e 2020, 1,07 milhão de hectares foram plantados com algodão e milho transgênicos, resultando em US$ 301,7 milhões em renda adicional devido ao aumento da produtividade e à redução do uso de agrotóxicos.

No entanto, as comunidades rurais têm questionado cada vez mais se essas políticas refletem verdadeiramente seus interesses ou se beneficiam principalmente os grandes produtores. Organizações de base criticam a ACI por priorizar a agricultura comercial em detrimento da soberania local sobre as sementes e por não consultar as comunidades indígenas e camponesas sobre decisões cruciais.

Por mais de uma década, comunidades camponesas fizeram da proteção de sementes uma causa comum na Colômbia . Em San Lorenzo, a rejeição às sementes transgênicas evoluiu para uma oposição política organizada depois que a população detectou o uso dessas sementes em plantações próximas em 2012. A população temeu que as sementes transgênicas pudessem ser polinizadas por cruzamento com suas variedades nativas, alterando suas características e ameaçando sua capacidade de preservá-las.

Três homens e uma mulher sorriem segurando espigas de milho em frente a plantas de milho

Da esquerda para a direita: Alberto Gómez, José Castillo, Aura Alina Domínguez e Javier Castillo segurando milho cultivado a partir de sementes tradicionais. Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian

O alerta os levou a agir. Eles viajaram de aldeia em aldeia, realizaram workshops, coletaram 1.300 assinaturas e elaboraram uma proposta liderada pelos cidadãos. A iniciativa foi apoiada pela Rede de Guardiões das Sementes da Vida , uma plataforma nacional composta por grupos agrícolas e ambientais, além de coletivos locais e o governo municipal.

Foi formalmente submetido à Câmara Municipal, de acordo com a lei colombiana sobre democracia participativa. Em 2018, San Lorenzo declarou-se um território livre de transgênicos .

Em 2021, um grupo de organizações indígenas entrou com uma ação judicial exigindo que o governo colombiano protegesse as sementes tradicionais da contaminação genética. Dois anos depois, o tribunal constitucional decidiu a favor delas e ordenou salvaguardas legais e técnicas.

Ainda assim, as propostas apresentadas pelo ICA foram consideradas inadequadas pelos líderes comunitários. Em 2024, uma coalizão de organizações rurais, indígenas e ambientais liderada pelo Grupo Semillas , uma organização sem fins lucrativos colombiana que promove a agricultura sustentável, apresentou uma legislação que visa alterar o artigo 81 da Constituição colombiana para proibir o uso, a importação e a venda de sementes transgênicas em todo o país.

A iniciativa obteve apoio do presidente Gustavo Petro e de seu governo, que a enquadraram como parte de uma agenda mais ampla pela soberania alimentar. A senadora Catalina Pérez a chamou de “uma oportunidade para restaurar a autonomia dos produtores”.

Uma variedade de espigas de milho em um carrinho de mão de aço

Os defensores das sementes nativas orgânicas afirmam que elas devem ser reconhecidas como parte de um patrimônio coletivo. Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian

O Grupo Semillas e a Rede Guardiões das Sementes da Vida também a promoveram. Segundo Germán Vélez, diretor do Grupo Semillas, a reforma visa “reconhecer as sementes nativas como patrimônio coletivo e frear a erosão genética que ameaça a soberania alimentar do país”.

Mas nem todos concordam. Desde a primeira vitória de San Lorenzo contra os transgênicos, o setor agropecuário tem visto a reação às sementes geneticamente modificadas como uma ameaça à regulamentação nacional.

A Associação Colombiana de Sementes e Biotecnologia (Acosemillas) , que representa produtores e empresas de sementes, entrou com uma ação judicial contra o município, alegando que este havia excedido sua autoridade legal. Da perspectiva dos produtores, permitir que os municípios regulem os cultivos transgênicos de forma independente poderia abrir um precedente.

Uma mulher transforma massa de milho em formas planas e redondas dispostas sobre grandes folhas verdes em uma bancada de trabalho

Aura Alina Domínguez modela massa de broa de milho sobre uma esteira de folhas. Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian

“Como um município pode rejeitar uma tecnologia aprovada pelas autoridades sanitárias do país?”, questiona Leonardo Ariza, gerente geral da Acosemillas.

Ariza diz que as culturas geneticamente modificadas podem “coexistir com variedades tradicionais” e alega que as regulamentações colombianas incluem “protocolos de biossegurança que exigem isolamento do milho nativo e o uso de refúgios” para evitar contaminação.

Ariza não apresentou evidências para sustentar suas alegações. Uma pesquisa da Universidade dos Andes descobriu que o pólen do milho transgênico pode viajar até 700 metros – mais que o dobro da barreira de 300 metros exigida pela ICA.

Em abril , a legislação que proíbe os transgênicos foi debatida em uma audiência pública na Câmara dos Deputados da Colômbia, onde agricultores, cientistas e legisladores apresentaram seus argumentos. O projeto ainda precisa passar por oito debates legislativos antes de se tornar lei .

Em uma declaração recente, Acosemillas pediu que o projeto de lei fosse retirado, argumentando que ele “vai contra os princípios de um estado democrático ao tentar limitar o direito dos agricultores de escolher quais sementes plantar, com base na crença equivocada de que isso ameaça a vida selvagem ou outros sistemas de produção”.

A iniciativa de Acosemillas encontrou apoio entre alguns especialistas. Segundo Moisés Wasserman, bioquímico e professor da Universidade Nacional da Colômbia, a proibição restringiria políticas voltadas à mitigação da crise climática e ao enfrentamento da insegurança alimentar.

 

Quatro mãos se estendem para colher frutas de uma árvore

Colheita de frutas orgânicas. O conhecimento das plantas nativas e das tradições culinárias é mantido vivo pelas comunidades de San Lorenzo. Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian

“Este é um movimento estranho que luta contra as soluções em vez dos problemas”, diz Wasserman, acrescentando que tais restrições também podem dificultar o desenvolvimento de biotecnologias nas áreas da saúde e do meio ambiente.

Enquanto isso, a agroindústria continua a se expandir. Em 2023, a Colômbia registrou um recorde de 154.677 hectares de culturas transgênicas. O milho geneticamente modificado representou mais de 36% da área plantada do país, um aumento de 20% em relação ao ano anterior.

A Monsanto desenvolveu muitas das sementes transgênicas usadas na Colômbia para resistir ao glifosato, um herbicida classificado pela Organização Mundial da Saúde como “provavelmente cancerígeno” para humanos. Desde que a Bayer adquiriu a Monsanto em 2018 , a empresa enfrentou mais de 150.000 processos judiciais nos EUA relacionados aos efeitos colaterais do produto químico, com indenizações superiores a US$ 11 bilhões.

Um estudo recente, que analisou décadas de dados sobre culturas transgênicas, concluiu que essas sementes geralmente aumentam a produtividade e têm efeitos mistos sobre o uso de agrotóxicos, a vida selvagem e o desmatamento. Outros estudos levantaram preocupações sobre os riscos à saúde associados à exposição prolongada ao glifosato, particularmente entre trabalhadores agrícolas.

Uma mão segurando sementes ao lado de uma bolsa de tecido usada no corpo

Os agricultores carregam sementes em shigras tradicionais – bolsas de ombro tecidas à mão – como fazem há gerações. Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian

O debate ocorre em meio à crescente concentração de mercado. Segundo ONGs ambientais, a Bayer e a Corteva controlam quase 40% do mercado global de sementes . Para as redes de pequenos produtores, isso levanta alarmes sobre a erosão da autonomia alimentar e a crescente dependência de sementes e insumos controlados por um punhado de empresas.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) , aproximadamente 75% da diversidade genética das culturas foi perdida globalmente no último século – uma tendência que também afetou a América Latina, lar de uma das mais ricas biodiversidades agrícolas do planeta.

Relatórios da FAO mostram que componentes essenciais da biodiversidade para alimentação e agricultura continuam a diminuir na região, inclusive nos níveis genético, de espécies e de ecossistema.

Duas figuras em uma encosta ondulada, com árvores e um céu azul nublado

Domínguez e José Castillo caminham pela paisagem andina ao redor de San Lorenzo. Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian

Embora mais da metade das culturas transgênicas sejam plantadas por pequenos agricultores na Colômbia, sua expansão coincidiu com um declínio acentuado no milho nativo. A Colômbia abriga pelo menos 23 variedades nativas de milho, conforme identificadas em estudos agrícolas iniciais, e centenas de variedades locais adaptadas a diferentes regiões e culturas em todo o país.

Para comunidades como San Lorenzo, a perda dessa diversidade não é apenas uma preocupação biológica, mas cultural, ligada ao conhecimento ancestral e aos modos de vida.

Inspirados por San Lorenzo, municípios por toda a Colômbia, bem como territórios indígenas como La Unión, Riosucio e o povo Zenú , aprovaram resoluções locais semelhantes proibindo sementes geneticamente modificadas, com muitos expressando preocupação com a falta de políticas nacionais relevantes.

O antropólogo colombiano Hernán Barón Camacho diz que a defesa das sementes é “uma forma de resistência não violenta, uma reocupação do território baseada no cuidado, na diversidade e na autonomia”.

De acordo com a Rede de Guardiões das Sementes da Vida , a perda de diversidade não é apenas ecológica, mas também política. À medida que as variedades nativas desaparecem, as comunidades rurais perdem a capacidade de decidir o que cultivar e como cultivar.

Mãos seguram sementes sobre um tapete com uma faixa dizendo Red de Guardianes de Semillas de Vida (Rede de Guardiões de Sementes da Vida).

José Castillo arruma cuidadosamente uma mandala colorida feita de sementes. San Lorenzo, Nariño, Colômbia – 18 de abril de 2025 Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian

Em San Lorenzo, a troca comunitária de sementes continua. Famílias e vizinhos compartilham pratos de sementes feitos com ingredientes cultivados em suas terras. Por meio de um sistema tradicional de empréstimo, eles reproduzem variedades nativas, como o milho morocho .

“Viver em paz é saber que nossas sementes são livres”, diz Alberto Gómez.

Domínguez diz que a luta deles ecoa uma questão global: quem decide o que plantamos e como nos alimentamos? “Não somos contra a tecnologia”, diz ela. “Só estamos pedindo para sermos nós que decidimos o que pertence aos nossos campos e o que não.”


Fonte: The Guardian